domingo, 25 de janeiro de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 10

Primeira Temporada  Capítulo 10: Matador de Vampiros

Rusty Quill Apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio dez: Matador de Vampiros



JONATHAN SIMS

Depoimento de Trevor Herbert sobre sua vida como um autoproclamado caçador de vampiros. Depoimento original prestada em 10 de julho de 2010. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Ok. Faz quase 50 anos que venho querendo visitar vocês e colocar isso no papel, mas enfim consegui. Bom, por onde começar? Meu nome é Trevor Herbert, como coloquei no topo do formulário, e sou um sem-teto há quase toda a minha vida. Aliás, se morasse em Manchester, é provável que já tivesse ouvido falar de mim. Me chamam de “Trevor, o Vagabundo”. Quer dizer, não sou fácil de passar despercebido, né? E como vivo em público há tanto tempo, acho que me tornei uma espécie de instituição. Ajuda o fato de eu sempre ter tido uma espécie de talento inexplicável para adivinhar a idade das pessoas. As pessoas vêm até mim na rua e pedem para que adivinhe suas idades, e digo a idade e na maioria das vezes elas ficam chocadas quando acerto. É divertido. Então, todo mundo em Manchester conhece o Trevor, o Vagabundo, claro. Ouvi dizer que alguém até criou uma página minha na internet e que recebeu alguns milhares de curtidas. Não sei ao certo o que isso significa, porém parece legal. Claro, não é por esse motivo que estou aqui, né? Não, estou aqui porque também dediquei minha vida a encontrar e matar vampiros.

Matei cinco pessoas que sei com certeza serem vampiros, e há mais duas que podem ou não ter sido. Há um homem que matei, infelizmente, que agora tenho certeza que era humano, contudo também sei que era um criminoso violento, então tento não me sentir muito mal a respeito. Tenho certeza de que é difícil de aceitar para qualquer pessoa, até mesmo para uma organização como a de vocês, no entanto não tenho provas para apresentar, exceto pelos dentes de vampiros que deixarei com este depoimento. Não se sintam mal em me denunciar à polícia pelos assassinatos, como tenho certeza de que farão, visto que recebi há pouco tempo um diagnóstico de câncer de pulmão em estágio avançado e é duvidoso que eu viva por muito mais tempo. Essa é a principal razão para enfim colocar no papel os detalhes da missão que venho realizando secretamente nos últimos cinquenta anos.

Matei meu primeiro vampiro em 1959. Naquela época, ainda levava uma vida quase normal, exceto talvez pelos abusos que minha família sofria nas mãos do meu pai. Ele era um homem vil que acabou matando minha mãe em 1956. Foi um caso claro de assassinato por embriaguez, embora os tribunais consideraram um acidente e meu pai não foi preso. Por sorte, meu irmão e eu só tivemos que suportar quatro meses de maus tratos da sua parte antes que se matasse de beber. Tinha treze anos quando meu pai morreu e meu irmão, quinze. Após sua morte, houve várias tentativas de nos realocar como órfãos, no entanto sempre nos separavam, e não aguentávamos isso, então fugíamos. Depois de um tempo, percebemos que erámos mais feliz nos virando nas ruas do que na casa de um estranho.

Foi no outono de 1959 que fomos acolhidos por Sylvia McDonald. Não se tratava de nenhum acordo oficial de adoção, todavia estava ficando bastante frio no final de outubro e nos vimos tremendo em uma ruela ao lado do Hotel Kings Arms, como era chamado na época, na rua Tipping, antes da construção do anel rodoviário. Relembrando o passado, acredito que a criatura visitava o bar com o propósito de encontrar moradores de rua para usar como vítimas e, devo dizer, encontrou alguns em mim e no meu irmão. Parecia uma mulher mais velha, uma viúva, presumi, pela forma como se vestia de preto e tinha um jeito estranho, que agora sei ser a marca dos vampiros, entretanto na época não dei atenção. Muitas das pessoas mais velhas tinham vivido as duas guerras e não era incomum que fossem um tanto estranhas. Achei que esse fosse o caso de Sylvia McDonald e, depois de uma breve conversa, meu irmão e eu concordamos com a oferta de comida e abrigo.

Permitam-me falar um pouco sobre o comportamento dos vampiros, pois, depois que aprendi a ler, pesquisei o máximo possível sobre o assunto, e este não é abordado com frequência ou clareza nos livros que encontrei. Vejam bem, pelas minhas próprias observações, acredito que um vampiro se assemelhe mais a um animal do que a um homem. Isso não deve ser interpretado como uma mera figura de linguagem, mas sim como uma referência ao seu modo de agir. Não acredito que os vampiros sejam humanos em nada além da aparência, e nunca vi evidências de que criem outros de sua espécie ao se alimentarem. Um ponto importante a ser observado é que eles não falam. Na verdade, em minha experiência, são totalmente silenciosos, pois não precisam de ar e não têm espaço na garganta para uma traqueia. Porém conseguem se fazer entender, com absoluta clareza, apesar de a maneira como o fazem nunca me ter sido clara. Quando Sylvia McDonald nos procurou no beco naquele dia, entendemos que esse era o nome que havia escolhido e que nos estava oferecendo uma refeição e um leito, mesmo sem que proferisse um único som. Mais do que isso, não me lembro de que tenha dito uma palavra sequer que nos parecesse estranha. Nunca entendi completamente como conseguem fazê-lo, e duvido que algum dia entenderei, contudo só posso presumir que seja alguma forma instintiva de hipnose ou controle mental.

Outro equívoco que sempre encontrei ao tentar falar sobre vampiros é que as pessoas pensam que estes não podem sair durante o dia. Eles podem. Embora os tenha visto evitar a luz solar direta, se possível, e usar roupas que os cubram mais quando se movimentam durante o dia, parecem não ter problemas significativos para o fazer. Diria que são mais fracos durante o dia, no entanto se isto se deve cientificamente à luz solar ou apenas porque o mal tem menos poder durante o dia, não está claro para mim. Sylvia McDonald veio até nós em uma tarde nublada e uma parte suficiente de sua pele pálida estava descoberta, de modo que, se a luz solar de fato prejudicasse um vampiro, teria acabado destruída.

Naquela tarde, meu irmão Nigel e eu concordamos em voltar à casa de Sylvia McDonald na esperança de ter um teto sobre nossas cabeças por um tempo. Ela morava na rua Loom, que ainda existe, entretanto a casa em si já foi demolida há muito tempo e agora há apenas um pouco de mato onde costumava ficar. Às vezes vou lá para prestar minhas homenagens, já que meu irmão não tem um túmulo ou sepultura que posso visitar. A casa era antiga, mesmo quando a visitei em 1959, e ao entrar fui atingido por um cheiro rançoso e metálico que não reconheci como sendo de sangue velho na época, já que tinha apenas 16 anos e não possuía a experiência que tenho agora. Era evidente que os móveis e o papel de parede não haviam sido trocados em muitas décadas e uma espessa camada de poeira cobria tudo. Até o chão estava pálido de poeira, exceto por uma linha nítida por onde Sylvia McDonald caminhava, com a cauda de seu vestido arrastando atrás. Lembro de me perguntar se Sylvia McDonald sempre percorria aquele exato caminho pela casa, pois via outras linhas de passagem claras nos cômodos pelos quais passávamos. Nenhum dos móveis parecia usado e, quando peguei um livro de uma das prateleiras, as páginas estavam sólidas, úmidas e mofadas. Comecei a me sentir muito desconfortável nesse momento, todavia quaisquer que fossem os poderes de persuasão da vampira, me acalmaram o suficiente para que continuasse a segui-la com meu irmão.

Subimos as escadas e fui conduzido a um pequeno quarto com uma cama. Entendi que aquele seria meu quarto e fui deixado lá enquanto Sylvia McDonald levava meu irmão para o quarto ao lado. Quando voltou, trouxe uma tigela de frutas e me ofereceu. As frutas claramente tinham algumas semanas e estavam em vários estágios de podridão, mas, apenas para apaziguar a criatura, encontrei uma maçã e algumas uvas que pareciam comestíveis e as comi. Ela me observou em silêncio o tempo todo e então se virou e saiu em direção ao quarto de Nigel. A essa altura, o que quer que a criatura tivesse feito para me tornar submisso parecia estar começando a perder o efeito, e comecei a notar o quão errado tudo aquilo era. Também estava percebendo que não parecia haver uma saída fácil da casa. Todas as janelas que vi estavam gradeadas, e me lembrei de que Sylvia McDonald havia trancado a porta da frente, que parecia robusta, depois que todos nós entramos. Então, em vez disso, apenas me deitei na cama velha e mofada e esperei.

Não sei dizer com certeza o que estava esperando, porém logo escureceu e presumi que Sylvia McDonald tivesse ido dormir, sem ainda perceber com que tipo de ser estava lidando. Queria alguma luz para me confortar, contudo a casa velha parecia não ter eletricidade, então usei meu isqueiro em uma vela que encontrei ao lado da cama e me aproximei sorrateiramente da porta. Pra minha sorte, ela não estava trancada, e saí do quarto que me fora designado e fui até onde eu acreditava que meu irmão estivesse. Entrei e o encontrei deitado em sua própria cama, fingindo dormir. Depois de um pouco de conversa, ficou claro que Nigel não estava mais feliz com nossa situação do que eu, e ambos decidimos que outra noite nas ruas frias era melhor do que ficar com aquela mulher estranha. Enquanto discutíamos possíveis maneiras de escapar, ouvimos um farfalhar do lado de fora da porta e a maçaneta começou a girar. Sem querer irritar nossa estranha anfitriã, rastejei para debaixo da cama para me esconder, enquanto Nigel voltou a fingir que estava dormindo.

Do meu ponto de vista debaixo da cama, pude ver a porta se abrir e a saia de Sylvia McDonald entrar e se mover em direção à cama. Só fiquei deitado ali e tentei não fazer barulho. Não me orgulho disso e às vezes tenho certeza de que minha inação foi responsável pela morte do meu irmão, embora na maioria das vezes aceito que, se tivesse alertado a vampira sobre a minha presença, também teria sido morto. De qualquer forma, o fato é que não fiz nada enquanto ouvia os sons de uma luta acima de mim e o grito estrangulado de Nigel. A criatura se virou rapidamente e o jogou no chão; algo caiu no chão à minha frente, no entanto não olhei para aquilo; meus olhos estavam fixos em Sylvia McDonald enquanto ela atacava meu irmão. Sua boca abriu, pela primeira vez desde que a conhecemos, e não vi nada lá dentro, exceto uma dúzia de dentes longos, grossos e pontiagudos como os de um tubarão. Num movimento fluido, cravou esses dentes no pescoço do meu irmão e arrancou um grande pedaço de carne. O sangue começou a jorrar do corpo espasmódico de Nigel, enquanto a garganta de Sylvia McDonald se contraía. Sua mandíbula se desprendeu e uma longa língua tubular, com a espessura do meu antebraço, saiu de sua garganta e se prendeu à ferida sangrenta. Ouvi um som horrível de sucção, o primeiro ruído que realmente ouvi a criatura fazer, enquanto a língua sugava o sangue da garganta do meu irmão. Fiquei ali deitado, observando seu estômago começar a distender e inchar, a barriga agora bulbosa pressionando o vestido preto que usava. Após os dez minutos mais longos da minha vida, a vampira terminou. Sua língua retraiu-se para dentro da garganta, ainda pingando sangue sobre o cadáver agora pálido do meu irmão, e se deitou no chão, em aparente satisfação.

Enquanto tudo acontecia, toda a minha energia se concentrava em não gritar nem revelar minha presença. Entretanto, enquanto a vampira jazia saciada no chão, voltei minha atenção para o que havia caído da mão de Nigel quando fora arrastado da cama. Era seu canivete. Não fazia ideia do que uma pequena faca como aquela poderia fazer contra uma criatura que parecia muito mais forte e rápida do que eu, todavia não vi outra opção a não ser tentar. Devagar, fui me movendo tão lento até estar ao alcance da faca que, às vezes, parecia que não estava me movendo. Temia que a criatura me visse e atacasse como fizera com Nigel, apesar de que agora sei que o olfato é, na verdade, o principal sentido de um vampiro e, com todo o sangue ao redor, havia pouca chance de detectar meu cheiro. Segurando a faca nas mãos, rastejei em direção à criatura enquanto ela digeria placidamente a vida do meu irmão, até que fiquei na sua frente. Senti uma onda repentina de raiva e adrenalina me invadir e, com uma velocidade e força que desconhecia, cravei a faca no estômago inchado de sangue de Sylvia McDonald. Ele estourou como um balão nojento e o sangue começou a jorrar. Os olhos da criatura se abriram de repente e agarrou o ferimento em desespero. Sua garganta não era capaz de emitir um grito, todavia seu rosto exibia uma dor silenciosa e uma raiva enquanto se debatia no chão. Cambaleando para trás, tentando limpar o sangue dos meus olhos, senti uma queimação inesperada na mão. Percebi que havia tocado na vela ainda acesa na mesa de cabeceira. Não sei o que esperava que acontecesse quando peguei a vela e a pressionei contra a parte seca do vestido de Sylvia McDonald. Só estava tentando encontrar qualquer outra coisa que pudesse fazer para feri-la antes que se recuperasse do ferimento na barriga, entretanto certamente não esperava que pegasse fogo como palha seca. O fogo se espalhou muito rápido sobre sua forma repulsiva, embora tenha diminuído um pouco onde a roupa ou a carne estavam úmidas de sangue. Me ocorreu que o vampiro devia ser uma criatura muito seca quando não estava recém-alimentada e com o estômago cheio. Talvez eu tivesse atacado antes que o líquido pudesse circular por todo o seu corpo.

Seja qual for o motivo, Sylvia McDonald estava em chamas, e a tal ponto que o resto do cômodo também começou a pegar fogo. Fiquei desesperado com a ideia de sair da casa sem meu irmão, mas ele estava morto e eu precisava escapar. Lembrei de que a vampira carregava uma bolsa quando a encontramos pela primeira vez e que havia usado uma chave para trancar a porta da frente. Como não estava mais com a bolsa, comecei a procurar desesperadamente pelos outros cômodos da casa, tentando encontrá-la. Acabei encontrando-a no que presumo ser o seu quarto. Não vou descrevê-lo em detalhes, exceto para dizer que parece ser onde a criatura fazia a maior parte de suas refeições. Espero que isto deixe a situação clara o suficiente para você. Encontrei a chave e escapei daquela casa antes que o fogo me causasse alguma ferida grave. Estava apavorado com a possibilidade de a polícia chegar e pensar que eu era um assassino, então não fiquei por perto. Apenas fugi para a noite adentro.

Quase uma década se passou antes de encontrar outro vampiro. Tinha vivido nas ruas durante todo esse tempo, entrando e saindo de várias instituições, e quase consegui me convencer de que Sylvia McDonald tinha sido apenas uma reação exagerada ao estresse de ter presenciado o assassinato do meu irmão. Foi no final dos anos 60 que entendi que não era o caso. Era 1968, me lembro porque foi o ano em que o United ganhou a Taça dos Campeões da Europa, e me dei muito bem com isso... As pessoas ficam generosas ao se pedir esmolas quando estão felizes com uma vitória esportiva. Nas noites de sexta-feira, costumava passar meu tempo perto do Clube Oasis na rua Lloyd e pedia trocados a qualquer um que estivesse um pouco embriagado. Bem, naquela noite em particular estava me saindo muito bem, pois era uma noite quente de junho, não muito tempo depois da final da Copa, e todos estavam de bom humor.

Por volta das onze e meia daquela noite, avistei um estranho todo arrumado para dançar, saindo do clube com uma amiga. Achei que poderiam ser bons para um jogar uma conversinha, então me aproximei. Contei o discurso e esperei. O homem olhou para mim e entendi que não me daria dinheiro nenhum, então me afastei. Foi quando se virou para ir embora que percebi que não tinha aberto a boca, e as lembranças de Sylvia McDonald me invadiram num instante. Não sabia o que fazer, então os segui à distância. Não tentei me esconder ou me disfarçar, pois já havia aprendido há muito tempo, e é verdade agora como era naquela época, que ninguém presta muita atenção a um mendigo. Enquanto observava, vi a mulher claramente bêbada fazendo perguntas a esse estranho, e a cada vez o homem apenas olhava para ela e ela sorria como se ele tivesse dado alguma resposta tranquilizadora, e cambaleava acompanhando-o. Durante todo o tempo, ele não abriu a boca nenhuma vez.

Realmente não sabia o que fazer a respeito disso. Não tinha nenhuma arma além do velho canivete do meu irmão, que mantinha afiado há anos, e embora tivesse quase certeza do que estava vendo, seguia hesitando em atacar sem provocação e sem um plano. Enquanto caminhávamos, fiquei de olho em qualquer pedaço de madeira descartado e, como esperado, notei um palete de madeira quebrado aparecendo fora de uma lixeira. Peguei um pedaço comprido e usei meu canivete para cortá-lo rapidamente até projetar uma ponta, ignorando as farpas. Embora não tivesse, naquela época, pesquisado muito sobre as criaturas que enfrentava, acreditando que minha experiência na juventude fosse produto de um estado mental perturbado, ainda estava ciente de sua suposta fraqueza a estacas de madeira. Segui o vampiro, que mais tarde descobri se chamar Robert Arden, e sua vítima de volta ao prédio onde aparentava morar. Ele entrou pela porta da frente e a mulher o seguiu. Não fui rápido o suficiente para entrar antes que a porta da frente se fechasse e, é claro, não tinha a chave, então contornei as janelas e, por sorte, parecia que o vampiro morava no térreo.

Observei pela janela enquanto o via conduzir sua vítima para uma sala de estar com poucos móveis. Não consegui ver nenhum sinal óbvio de um massacre anterior, contudo me lembrei de como Sylvia McDonald havia sugado todo o sangue do meu irmão com tamanha facilidade, então isso não me pareceu estranho. Tentei abrir a janela com cuidado e a encontrei trancada, assim procurei no jardim a pedra mais pesada que consegui encontrar e observei o que acontecia lá dentro. Eu precisava ter certeza. Logo, Robert Arden se moveu devagar para trás de sua presa, agora sentada, e finalmente abriu a boca, revelando aquelas fileiras de dentes de tubarão que sabia que estariam lá.

Arte por @saphizzle.

Arremessei a pedra que segurava pela janela, espalhando cacos de vidro pelo cômodo e fazendo a mulher gritar de susto. Robert Arden ergueu a cabeça surpreso e, por um instante, nossos olhares se encontraram e eu soube que havia cometido um erro terrível. A mulher olhou para seu companheiro monstruoso e, ao ver sua boca agora aberta, gritou de terror ainda mais alto. Num único movimento, muito mais rápido do que pude esperar, Robert Arden atravessou o cômodo e caiu sobre mim. Lutei e me debati, no entanto ele era muito mais forte do que eu, e mal consegui impedir que seus dentes afiados encontrassem minha garganta. Foi a primeira e a última vez que toquei a pele de um vampiro com a minha. A carne era fria e esponjosa, como o interior de uma maçã amassada, e senti a bile subir à minha garganta enquanto lutava pela minha vida.

Por fim, seus dentes morderam meu pescoço. Não o suficiente para me matar instantaneamente, mas com força suficiente para fazer o sangue jorrar. Naquele momento, vi uma espécie de frenesi surgir nos olhos de Robert Arden e, com um espasmo, a língua sanguessuga irrompeu de sua garganta e a senti se prender ao meu pescoço. Não sei se você já sentiu seu sangue sendo sugado, porém não recomendo.

Agora, neste ponto, tenho uma confissão a fazer. Nos três anos que antecederam este evento, bem como ao longo dos anos que se seguiram, tive um relacionamento com a heroína. Experimentei pela primeira vez pouco depois da morte de Nigel e, desde então, tenho recaídas periódicas. Sempre tentei manter isso em segredo, pois sei que tenho uma certa reputação a zelar e não gostaria que fosse prejudicada com a revelação do meu vício. Entretanto esse fato é importante para este relato, pois acredito que foi a heroína que restava em meu organismo naquela noite que fez com que o vampiro Robert Arden retirasse a língua do meu pescoço e começasse a tremer, como se estivesse tendo um violento ataque de asfixia.

Fiquei deitado ali, tentando me recompor o suficiente para revidar, quando me dei conta dos gritos. A mulher, que havia sido trazida como vítima, estava de pé sobre Robert Arden, que se debatia, esfaqueando-o várias vezes com uma faca de cozinha. Por mais forte e rápido que fosse, o vampiro parecia não conseguir lidar com o súbito ataque de violência e caiu no chão. Aquilo me deu os preciosos segundos de que precisava para me levantar e localizar minha estaca de madeira improvisada. Mirei e a cravei onde acreditava que deveria estar o coração da criatura.

Arte por u/98762cjf.

Foi mais fácil do que imaginei... O peito era macio e flexível e não parecia haver nenhuma caixa torácica para amortecer o golpe. Robert Arden ficou rígido e congelou, aparentemente incapaz de mover o corpo, embora eu tenha visto seus olhos se movendo freneticamente. Foi nesse momento que a mulher, cujo nome nunca descobri, largou a faca e fugiu. Nunca mais a vi, todavia ela já havia salvado minha vida. Peguei meu isqueiro e ateei fogo em Robert Arden. Assim como foi com Sylvia McDonald, o fogo se alastrou em questão de segundos e, quando a polícia chegou, não restava nada além de um pequeno pedaço de asfalto chamuscado. Tive sorte naquela noite, e ninguém viu nada nem chamou a polícia antes que eu terminasse e me afastasse do local, contudo sempre fui mais cauteloso depois disso.

No entanto, após aquela noite, nunca mais me preocupei com a possibilidade de estar errado sobre a existência de vampiros. Sempre fiquei de olho neles, apesar de às vezes ficar ansioso demais, como no caso de Alard Dupont, que matei em 1982 e depois descobri que era humano. Acredito que sejam muito raros e se alimentem apenas de maneira ocasional, pois todas as evidências que vi apontam para que sua alimentação seja fatal. Se houvesse muitos vampiros ou se eles se alimentassem com frequência, o número de desaparecimentos logo se tornaria perceptível para o resto da sociedade. Não sei o que fazem com os corpos de suas vítimas, e isso sempre me intrigou, pois não possuem nenhum mecanismo para ingerir alimentos sólidos e não acredito que existam muitos casos de assassinato em que o corpo seja encontrado tendo todo o sangue drenado. Certamente não creio que se transformem em vampiros, já que a população vampírica parece pequena demais para que seja possível.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

De acordo com Martin, que estava presente quando este depoimento foi prestado, foi neste ponto que o Sr. Herbert anunciou que precisava dormir um pouco antes de continuar. Ele foi levado à sala de descanso, onde adormeceu no sofá. Ele não acordou; infelizmente, sucumbiu ao câncer de pulmão ali mesmo. Martin diz que a equipe estava ciente da gravidade da condição do Sr. Herbert e o aconselhou a procurar ajuda médica antes de prestar seu depoimento, todavia o idoso lhe disse, de forma bastante direta, que não esperaria mais um segundo para expor seu caso. Não consigo decidir se isso confere mais ou menos credibilidade à sua história.

De qualquer forma, há evidências substanciais que corroboram a versão dos fatos contada pelo Sr. Herbert em todos os aspectos, exceto o vampirismo. Há uma reportagem sobre um incêndio de 1959 que consumiu uma casa na rua Loom e aparentemente tirou a vida de um rapaz de 18 anos, embora não haja menção ao proprietário da casa, e um boletim de ocorrência de 1968 confirma o desaparecimento de Robert Arden em Manchester em meio a circunstâncias de violência, incluindo uma janela quebrada e sinais de incêndio, apesar de nenhum resto humano ter sido encontrado. Há também um boletim de ocorrência de assassinato referente a um tal de Alard Dupont, cujo cadáver parcialmente queimado foi encontrado em sua casa em 2 de agosto de 1982. Por infelicidade, o Sr. Herbert nunca pôde fornecer detalhes sobre outros casos, então não podemos corroborar mais informações.

Havia, entretanto, uma pequena sacola deixada em cima deste depoimento, que parecia conter seis dentes de tubarão de tamanhos variados. De acordo com correspondência com o Departamento de Zoologia da Universidade do Rei, eles não correspondiam a nenhuma espécie atualmente conhecida.

De minha parte, não sei o que pensar. É certo que não acredito em histórias mirabolantes de vampirismo, todavia não posso deixar de notar que o depoimento acima parece ser uma fotocópia de uma fotocópia, e não consigo encontrar esses supostos dentes de vampiro em nenhum lugar nos Arquivos ou na Sala de Contenção. Não sei onde estão os originais, porém o número do arquivo consta em várias solicitações de informações dos contratos do Instituto com o governo e as forças policiais. Pode ser que eles levem o depoimento do Sr. Herbert muito mais a sério do que eu.

Fim da gravação.

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