quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Slayers — Volume 14 — Capítulo 62

Capítulo 62: A escuridão no coração humano

“Então... Ele está vindo?” sussurrou o Sacerdote Ceres, melancolicamente, após ouvir minha história.

Estávamos em seus aposentos no templo de Aqualord. O tumulto no pátio ainda estava em curso quando Luke fugiu do templo sul, mas Gourry e eu decidimos deixar aquilo para os guardas enquanto o perseguíamos... Ou tentávamos. Alçamos voo com um feitiço de voo amplificado, porém não encontramos nenhum sinal seu nos arredores. Será que havia se escondido em algum lugar? Sem muitas outras opções as quais recorrer, nós dois fomos direto para Ceres e contamos tudo a ele... Inclusive que sua vida estava em perigo.

“Ele está... Fora de controle. E, ao mesmo tempo, quer ser detido. O fato de ter saído antes de nós e ainda não ter chegado é a prova disso. De alguma forma... Nós o deteremos.”


“Muito bem!” disse Ceres com um aceno firme de cabeça. “Ajudarei no que for preciso.”

“Obrigada.” respondi com um aceno de cabeça em resposta. “Agora, quanto aonde te abrigar...”

“Tenho um pedido a esse respeito.” disse Ceres, interrompendo-me. “Poderíamos nos refugiar na catedral?”

“A... Catedral?” franzi a testa diante da sugestão.

O melhor lugar para proteger alguém era um local onde fosse difícil armar uma emboscada e fácil de escapar... E com bastante espaço para lutar, se necessário. A catedral sem dúvida tinha espaço de sobra e era bastante defensável em alguns aspectos. Só que também estava repleta de pilares, bancos, altares e outros tipos de obstáculos, tornando-se o ambiente perfeito para surpreender alguém ou realizar um ataque invadindo o teto de vitrais. Em outras palavras, estava longe de ser um abrigo ideal.

“Hum...” fiz uma careta.

Contudo Ceres olhou para mim com seriedade.

“Por favor. Sinto que é lá que eu deveria estar... Não importa o que aconteça.”

Ele parecia um homem preparado para morrer... Não me deu forças para discutir quando colocou dessa forma.

“Certo!” concordei. “Nesse caso vamos chamar todos os seus guardas...”

“Tenho um pedido a respeito disso também.” Ceres me interrompeu de novo.

O que sugeriu desta vez era de fato insano.

———

O vasto salão era iluminado por luzes mágicas em apliques em forma de jovens mulheres nas colunas e paredes. Um tapete azul com um padrão verde-esmeralda se estendia entre as fileiras de bancos. E no final do amplo corredor, erguia-se o altar de Aqualord.

O Sacerdote Ceres estava lá. Gourry estava à sua direita e eu à sua esquerda, como se o apoiássemos. Éramos os únicos na catedral. Os outros mercenários e soldados permaneceram no interior do templo.

Que nós dois fôssemos seus únicos guardas... Essa era a sugestão imprudente que o Sacerdote Ceres havia proposto. É claro, eu me opus. Isto o deixaria muito exposto. Mas aí ele disse: “Isso é algo que precisamos resolver entre nós. Não quero envolver os mercenários nesse conflito.”

Entendi a sua lógica. Detestava admitir, entretanto não era como se ter um grupo de soldados e mercenários por perto fosse nos ajudar a deter Luke. Na verdade, estar cercado por pessoas que não sabiam de toda a situação poderia nos privar da oportunidade de conversar. Então talvez fosse o melhor, afinal.

No fim, Gourry e eu concordamos com o plano. Todavia, naturalmente, enquanto os mercenários contratados faziam tudo o que lhes era ordenado, os soldados e sacerdotes da cidade não se convenciam tão fácil. Tivemos que mentir e dizer que o Sacerdote Ceres queria uma conferência com eles em uma sala reservada do templo. Então, quando todos se reuniram, eu os nocauteei com um feitiço do Sono. Essa gracinha os manteria fora da briga se as coisas ficassem feias.

“Você sabe o que temos que fazer, não é, Gourry?” perguntei ao grandalhão.

“Sim. Se Luke não recuar... Teremos que ir sério!” sua resposta veio acompanhada de um olhar determinado.

Com os Sacerdotes Francis e Ryan, tínhamos sido mais compreensivos com Luke do que com sua presa. Porém não era o caso aqui. Tínhamos que pará-lo agora... Mesmo que significasse machucá-lo. Pensando em nossa escaramuça no templo do sul, havíamos presumido conscientemente que não haveria derramamento de sangue significativo. E o resultado dessa ideia pré assumida? O Sacerdote Ryan foi morto. Contudo desta vez...

“Vou impedi-lo. Com certeza!” sussurrei.

Então, como se esperasse por esse sinal... Ouvi passos. Estavam distantes, aproximando-se aos poucos. Com um som pesado, a porta da catedral se abriu lentamente. Creeeeak...

“Ei... Desculpe a demora!” disse ele, entrando na iluminação mágica da sala. Ainda tinha a mesma expressão despretensiosa.

Luke...

“Tive que voltar no caminho para pegar minha espada no sul... No entanto esta é uma recepção bastante atenciosa.” continuou falando.

“Decidimos que seria melhor se não houvesse ninguém para nos atrapalhar.” respondi.

“É... Boa ideia.”

“Você não vai parar, vai?”

“Pretendo parar. Depois disso.”

“Luke...” falei com um suspiro. “O que a Mileena te disse?”

Seu olhar desviou de repente, com os lábios franzidos.

“Ela nos pediu para dar um momento a sós para vocês dois... O que disse então? Pediu que a vingasse? Pediu que matasse todos os sacerdotes? Ou...”

“Não importa o que a Mileena disse!” Luke rosnou, me interrompendo. Sua voz era quase um grito. “Isso é... Isso é sobre como eu me sinto! Sobre o que posso aceitar e o que não posso! É isto que importa!” com essa deixa, ele soltou um suspiro profundo. “Estou vendo que conversar não vai nos levar a lugar nenhum... Vamos simplificar. Tudo aqui se trata se vocês podem ou não me impedir.”

“Tudo bem...” concordei, sem ter muita escolha.

Luke sabia muito bem que o que estava fazendo era errado. Todavia não conseguia conter o ódio que crescia em seu coração, o que deixou Gourry e eu com apenas uma opção: impedi-lo.

“Vou te impedir. Acho que... Não consigo me conter desta vez!” falei com um sorriso sombrio.

“Entendo. Também não sei se vou conseguir me conter e acabar arrancando um ou dois dos seus braços.” Luke retribuiu meu sorriso enquanto desembainhava a espada.

Então, sob a luz mágica e com os santos dos vitrais nos observando, nos encaramos.

Luke partiu primeiro, atravessando os bancos em linha reta na nossa direção. Gourry, com espada em punho, também se lançou na frente do altar para se colocar entre Ceres e seu atacante. Por outro lado, comecei a entoar um feitiço.

Luke se aproximou e...

“Chama do Abismo!”

Ele lançou um feitiço que eu nunca tinha ouvido falar! No instante em que o fez... Vwooosh! O tapete à sua frente pegou fogo. As chamas ocultaram a forma de Luke enquanto se espalhavam, varrendo o tapete. Elas estavam indo direto para Gourry!

Que pena que eu havia previsto que Luke usaria um feitiço para conter o grandalhão.

“Vento de Diem!” lancei uma rajada contra as chamas que se aproximavam... Mas elas não foram afetadas!

Fogo mágico? Luke deve ter previsto que eu usaria um feitiço de vento para neutralizar o seu. Porém, nesse caso...

“Gourry! Corte!”

“Certo!”

Sem questionar o que soava como um pedido absurdo, Gourry brandiu sua espada através das ondas de chamas que se aproximavam, as quais se separaram e se dispersaram em seu rastro.

Veja bem, a Espada Explosiva de Gourry era eficaz contra seres mágicos, então deveria ser eficaz contra fogo mágico também. Foi o que supus.

Contudo das profundezas das chamas que se apagavam... Luke saltou subitamente para a frente, brandindo a espada que tinha na mão direita contra Gourry! O grandalhão torceu a própria lâmina para bloquear o golpe, entretanto, nesse instante, a ponta da sua espada vacilou. Luke havia envolvido a lâmina com outro feitiço de vento!

“Hyaaah!”

Clinnng!

No entanto quando Gourry rugiu, metade da espada de Luke voou pelos ares! Meu camarada havia previsto as correntes do vento invisível de Luke e mantido a lâmina alinhada com elas, na trajetória exata para cortar a espada de Luke ao meio!

Conseguimos! Ou pelo menos foi o que pensei, todavia no instante seguinte... A mão esquerda de Luke se moveu. Ele tinha uma segunda espada!

“Explosão!” ao grito de Luke, o vento que envolvia aquela espada explodiu... Whoosh! E levou Gourry embora!

Luke o ignorou, jogou a espada que tinha na mão direita para o lado e continuou seu caminho em direção ao altar e ao Sacerdote Ceres. Pena que se esqueceu de mim! Corri até o sacerdote principal, agarrei sua mão e o puxei para perto de mim, entoando cânticos o tempo todo.

Wham! Luke se impulsionou do altar e voou pelo ar em nossa direção. Nesse instante, Gourry recuperou o equilíbrio e tentou interceptá-lo, mas...

“Vento de Diem!” Luke lançou seu feitiço de vento para baixo!

Whoosh! A rajada fez Gourry tropeçar e mudou a trajetória de Luke. Ao aterrissar, Luke usou a mão direita para sacar uma adaga negra de trás das costas.

Ele a apontou para Gourry e...

“Ataque-o, escuridão!”

Whoosh! Uma nuvem negra apareceu sobre o grandalhão!

Um feitiço Nevoeiro Negro?

Sua segunda espada, e agora essa adaga... Será que Luke sabia como imbuir seu equipamento com feitiços? Isso era possível? Ele havia mencionado sua profissão anterior para nós antes... Seria uma técnica que aprendeu como assassino?

Gourry instintivamente saltou para trás para ganhar espaço. Quando o fez, Luke voltou sua atenção para Ceres.

“Lei Asa!” lancei meu feitiço, envolvendo a mim e ao sacerdote em uma barreira de vento que nos levou pelos ares!

Eu havia usado meus talismãs para amplificar essa belezinha, tornando-a quase impossível de romper. Lei Asa era um feitiço difícil de controlar, porém em uma catedral tão grande, tínhamos espaço suficiente para manobrar. Voei com a gente para o fundo da sala e fiz uma curva em U. De lá, mergulhei direto em Luke. Não havia como ele se esquivar... Então Luke embainhou sua espada de volta e apontou sua mão esquerda aberta para mim?

Sério? Vai tentar romper minha barreira de vento? Ou é só um blefe?

Apostei no ‘blefe’ e fiquei de olho. No segundo em que colidimos, vi sua boca se mexer... E o vento se distorceu ao meu redor!

Ei! Minha barreira de vento oscilou, se desestabilizou e então se rompeu.

Krababababash! O sacerdote e eu caímos no chão e rolamos sem parar. Por sorte, Luke foi arremessado para trás com o impacto.

Claro! Percebi o que tinha acabado de fazer. No momento em que sua mão esquerda fez contato com minha barreira de vento, Luke lançou alguma magia de vento própria, criando interferência entre as duas. Meu Lei Asa amplificado era, sem dúvida, o feitiço mais poderoso, contudo era instável e difícil de controlar, sendo assim, qualquer tipo de interferência desequilibrava a barreira e a destruía.

Impressionante... Quebrar um feitiço com base no conhecimento de suas características! Consegui me levantar, ajudando o Sacerdote Ceres a se levantar também. O impacto da aterrissagem... Ou melhor, da queda, nos deixou ambos doloridos, no entanto não tínhamos tempo para ficar parados cuidando dos nossos ferimentos. Luke também tinha sido arremessado para trás, no entanto já estava se levantando.

Gourry veio correndo por trás.

“Sem ressentimentos, ok?” gritou, brandindo sua espada.

“Claro que não!” gritou Luke, desembainhando outra adaga e liberando o vento armazenado em sua lâmina. Será que estava tentando empurrar Gourry para trás de novo?

No meio de sua investida em alta velocidade, Gourry de repente saltou para o lado para se esquivar da rajada de vento, e Luke arremessou sua adaga bem onde o grandalhão ia cair! Não havia como se esquivar! Sem outra escolha, Gourry usou sua própria lâmina para desviar a adaga. Quando o fez, Luke se desvencilhou de suas mãos e saltou... Em cima de Gourry!

“O quê?” Gourry congelou por uma fração de segundo. Em uma luta contra alguém que precisávamos matar, não teria hesitado em cortar o inimigo no ar. Entretanto Luke era apenas alguém que precisávamos deter. Aquilo causou um breve atraso na sua reação.

Wham! O pé de Luke encontrou o estômago de Gourry!

“Guh!”

O grandalhão cambaleou. Luke caiu. Então, disparou em minha direção, sem olhar para trás para Gourry!

Não tive tempo para conjurar outro feitiço! Será que eu conseguiria pará-lo apenas com a minha espada? A resposta era um sonoro não! O que me deixou com apenas uma opção!

“Por aqui!” peguei Ceres pela mão e corri, conjurando um feitiço enquanto fugíamos.

Estávamos em um canto da catedral, o que significava que a única saída para escapar de Luke era pelos corredores. Fiz isso sem hesitar. Precisava ganhar tempo suficiente para terminar meu feitiço ou para Gourry alcançá-lo!

Claro, Luke me perseguiu. A distância entre nós diminuiu aos poucos. Ele conjurou algum tipo de feitiço... Entretanto terminei o meu primeiro! Coloquei uma mão na parede ao meu lado e soltei.

“Van Layl!”

Tentáculos de gelo começaram a rastejar para fora do ponto onde minha mão encontrou a parede. Eles congelavam tudo o que tocavam... Potencialmente deixando o alvo com um caso grave de queimadura de frio.

A hera gelada se aproximou das pernas de Luke, mas... Whoosh! Este saltou e, assim que estava no ar... “Lei Asa!” ativou um feitiço de voo em alta velocidade!

Perdendo Luke de vista, os tentáculos gélidos mudaram de direção em direção a Gourry, que estava atrás o perseguindo! Claro, Gourry também não ia ficar parado e aceitar isso.

“Hahh!” com um golpe da Espada Explosiva, dispersou as vinhas que se aproximavam.

Por sua vez, Luke continuava a se aproximar de mim e de Ceres por trás.

Você acha que pode nos pegar tão fácil assim? Eu me joguei no chão e puxei Ceres comigo! Luke então passou por cima de nossas cabeças e avançou pelo corredor, passando por nós...

Pelo menos, era o que deveria ter acontecido. Puxei Ceres um pouco devagar demais. Suas vestes cerimoniais ficaram presas na barreira de vento de Luke, o que nos levou para um passeio improvisado.

“Waaah!”

A barreira nos arrastou, a mim e a Ceres, até a entrada do corredor, o que foi tão ruim para Luke quanto para nós. Ter que carregar dois passageiros inesperados com um feitiço já instável fez com que perdesse o controle e caísse assim que chegamos ao corredor.

Enquanto Luke se recuperava, agarrei a mão de Ceres de volta e corri para um corredor adjacente. Podia sentir Luke nos seguindo. Enquanto conjurava um feitiço, encontrei um corredor estreito que se ramificava e virei a esquina para dentro.

Se pode evitar Van Layl, que tal isso?

“Congele Bullid!”

Zinnng! O feitiço gélido que lancei atrás de nós atingiu a parede, congelou-a e envolveu metade do corredor em gelo!


Isso deve mantê-lo no lugar! Se Gourry conseguir nos alcançar a tempo...

Olhei por cima do ombro e... Ziiing! Bem nesse instante, ouvi o gelo que eu havia conjurado se estilhaçando no chão.

Não acredito! Também consegue cortar gelo?

Cortar um bloco de gelo em um corredor tão estreito que mal se consegue brandir uma espada de tamanho normal... Luke deve ter preparado sua lâmina com um feitiço de fogo!

Porém, no tempo que levou para abrir caminho através do meu gelo, Gourry já havia começado a alcançá-lo.

“Luuuuuke!”

Luke se virou e começou a chutar pedaços de gelo no espadachim loiro que se aproximava. Mesmo que Gourry os cortasse, alguns ainda seriam do tamanho de punhos, e não havia como sair ileso. Era impossível desviar naquele corredor estreito também, então apenas moveu sua espada um pouco para desviar o maior pedaço de gelo que vinha em sua direção. Enquanto fazia isso... Zing! A lâmina da Espada Explosiva começou a congelar!

Atônito, Gourry largou sua arma. O gelo cresceu da lâmina até o cabo e, logo depois, cobriu a espada por completo. Se Gourry a tivesse soltado um instante depois, talvez o gelo tivesse envolvido sua mão também.

Tive que admitir que não conseguia entender exatamente o que Luke tinha acabado de fazer.

Talvez tivesse infundido o pedaço de gelo que chutara com um feitiço de Congelamento? De qualquer forma, Gourry estava desarmado e Luke não ia esperar a espada do oponente descongelar.

Luke avançou contra Gourry. Seu objetivo era imobilizar o grandalhão. Jogou sua adaga de lado e partiu para a briga. Alternou entre um avanço rápido e uma finta com a mão esquerda, depois se abaixou e tentou um golpe no plexo solar com a direita. Gourry se esquivou do gancho de esquerda, desviou o soco de direita com outro e abaixou os quadris para contra-atacar com o cotovelo direito. Luke se virou enquanto usava a mão direita para segurar o pulso de Gourry, e então usou a perna direita para derrubá-lo. Ele tentou ficar por cima de Gourry enquanto caíam no chão, contudo Gourry o atingiu nas costas com o punho esquerdo!

“Guh!”

Foi um golpe de uma posição instável, então não devia ter o ferido muito, embora foi o suficiente para desestabilizá-lo. Assim que Gourry se desvencilhou da imobilização, desferiu um chute. Wham! Luke levou em seu flanco.

Aposto que doeu! Todavia, naquele instante, Luke agarrou a perna de Gourry com a mão esquerda!

“Hyagh!” Luke empurrou Gourry contra a parede, tentando forçar sua perna para fora de novo, então... “Ra Congele!” usou um feitiço de gelo para congelar a perna de Gourry contra a parede!

“Guh!” Gourry soltou um gemido de dor.

A mão de Luke, ainda na perna de Gourry, estava igualmente presa no gelo. Mas... “Raaaaaaaagh!” com um rugido, ele a puxou! Ouvi o som de carne sendo rasgada enquanto o sangue espirrava ao seu redor. Uma marca de mão vermelha permaneceu no gelo. Luke se libertou ao custo de arrancar a própria carne.

“Como pode ser tão...” o Sacerdote Ceres sussurrou ao meu lado.

Está tão obcecado em matar Ceres? Será que o ódio o arrastou até esse ponto? Uma sensação de inquietação me invadiu.

Com Gourry agora imobilizado, Luke voltou sua atenção para nós. Ele puxou outra adaga de trás das costas.

Certo, nesse caso...

“Flecha Flamejante!” lancei meu feitiço, mas...

“Não vai funcionar!” Luke uivou com um golpe de sua adaga!

Vrsh! A rajada que produziu dispersou meu fogo, transformando-o em um vento quente que passou por nós.

Maldição! Quantas armas imbuídas de magia esse cara trouxe? Era hora de voltar a correr para mim e Ceres! Poderíamos dar a volta, contornar Gourry, libertar sua perna do gelo e retomar nossa luta em equipe de sempre. Agarrei a mão do Sacerdote Ceres outra vez... Porém Ceres não se moveu.

Hã? Virei-me e o vi de pé, imponente, encarando Luke. Hmm...

Luke, também surpreso com a situação, interrompeu sua aproximação. E então... O Sacerdote Ceres começou a caminhar em sua direção.

Por instinto, Luke preparou a adaga em sua mão direita. Ceres agarrou seu pulso e pressionou a ponta da lâmina contra seu peito!

Enquanto todos nós ficávamos ali, atônitos, o Sacerdote Ceres disse calmamente...

“Me mate.”

O quê?

“Você quer me matar, não é?” Ceres continuou.

A confusão se manifestou no rosto de Luke.

“Vo... Você... Acho que não tem muita consideração por mim, né? Acha que isso é o suficiente para me deter?”

“Não!” respondeu Ceres. “Se está disposto a lutar contra seus antigos camaradas a tal ponto... A feri-los assim... Sei que sua intenção de me matar é real.”

“É... Pode apostar que sim...” Luke gemeu, com uma expressão de dor.

“Então vá em frente...” disse Ceres em voz baixa. “Não posso negar a responsabilidade que tenho pela morte da pessoa que você amava. Então... Pode me matar se isto fizer o ódio sair do seu coração. Mate-me se realmente acredita que será o fim de todo esse conflito.”

A incerteza cruzou a expressão de Luke.

“Espere aí. Está dizendo... Que está tudo bem com isso?”

“Claro que não. Quero viver tanto quanto qualquer outro. É só que... Mesmo que eu escape agora, enquanto o seu ódio ainda arder, sei que continuará vindo atrás de mim de novo. E enquanto vocês três continuarem a lutar entre si, outros continuarão sendo arrastados para o conflito. Já vi o suficiente para uma vida inteira. É só isso.”

Nesse momento, Luke ficou em silêncio. E embora eu estivesse bem ali, não podia fazer nada. Luke estava se questionando naquele instante. Qualquer interferência minha poderia inflamar seu ódio de novo, e então Ceres seria sem dúvida morto.

Houve um momento de impasse. E então... Percebi algo.

“Este lugar! Se lembra dele?” exclamei.

Luke pensou por um momento e então percebeu com um suspiro. De fato, estávamos ali... Bem em frente à sala onde Mileena havia dado seu último suspiro.

O tempo parou. Ninguém se mexeu. Nem eu. Nem Luke. Nem Ceres.

Quando o silêncio... Se foi longo ou curto, não saberia dizer... Finalmente se quebrou...

“Ngh!” Luke fez uma careta e recolheu sua adaga.

“Whew...”

Não sei qual de nós soltou aquele suspiro profundo.

Olhei para Luke, entretanto quando estava prestes a chamá-lo pelo nome... Whoosh! Este passou correndo silenciosamente por Ceres e desceu o corredor.

“Luke!” gritei atrás dele.

“Não!” disse o Sacerdote Ceres, me segurando. “Deixe-o... Deixe-o ir.”

Fiquei parada observando Luke saltar pela janela do corredor para a noite. Havia sumido.

“Ele me atacou... Contudo você o atingiu com um feitiço que o aniquilou sem deixar vestígios.” disse o Sacerdote Ceres. “É o que diremos que aconteceu.”

Seus olhos estavam fixos na escuridão para a qual Luke havia desaparecido.



E assim, até onde a cidade sabia, todo o problema havia sido resolvido.

Ninguém questionou o relatório do Sacerdote Ceres de que havíamos dado um fim ao assassino de Francis e Ryan. As circunstâncias da morte do Sumo Sacerdote Joshua seguiam sendo um mistério, no entanto como quase todos os envolvidos estavam mortos, o entendimento tácito era de que o caso permaneceria sem solução para sempre. Francis e Ryan haviam declarado inocência, mas podíamos acreditar neles? Bran, o primeiro a ser morto depois de Joshua, também poderia ter sido o responsável e simplesmente nunca saberíamos. Alguns até suspeitavam de Ceres como o único sobrevivente do massacre, porém aqueles de nós que sabiam dos fatos estavam cientes de que foi pura sorte.

É claro que os cidadãos em pouco tempo deixaram o escândalo para trás e a cidade logo estaria repleta de turistas outra vez. Eu já havia resolvido a questão do meu pagamento também... Ou seja, o recusei. No fim das contas, não tinha feito absolutamente nada para ajudar ninguém.

A reunião para escolher o próximo sumo sacerdote aconteceu mais cedo do que o esperado, apenas dois dias após o incidente. Ceres era o único candidato sobrevivente, então talvez concluíram que não haveria muita discussão sobre o assunto. O chefe do conselho de feiticeiros, cerca de dez figurões locais e o Sacerdote Ceres se reuniram para a reunião. Gourry e eu, tendo testemunhado o ocorrido, também estávamos presentes como observadores.

“Bem... Deixaremos a questão da reconstrução do templo incendiado para depois. Primeiro, precisamos escolher o próximo sumo sacerdote.” após as apresentações, o presidente do conselho, que atuava como moderador, foi direto ao ponto. “Uma série de tragédias deixou apenas um dos quatro sacerdotes chefes vivo para suceder a Joshua. Isto nos deixa com apenas um candidato. Portanto, proponho a nomeação do Sacerdote Ceres como o próximo sumo sacerdote. Bem... Alguém se opõe?” perguntou ele à sala.

Ninguém deveria se opor, e ainda assim...

“Eu me oponho.”

Todos os presentes, atônitos, se voltaram para olhar para o único que se opunha. Era ninguém menos que o próprio Ceres.

“S-Sacerdote Ceres! O que é isso...?”

“Eu... Sou pateticamente impotente e tolo. Este incidente deixou esse fato dolorosamente claro para mim.” seu tom era calmo, mas havia um estranho sentimento triste, em forte contraste com o pânico do presidente do conselho. “Quando o Sumo Sacerdote Joshua faleceu... Quando soube da notícia, fui à minha catedral para rezar. Foi então que ouvi uma voz. A voz me disse que o Sumo Sacerdote Joshua havia sido morto, que os ímpios semeariam o caos na cidade... Que eu precisava reunir poder se quisesse me proteger. Acreditei que essa era a instrução de Deus.”

Era uma história familiar.

“Então, quando o Sacerdote Francis começou a contratar guarda-costas, pensei que talvez fosse daquilo que a voz estava falando! Assim, contratei meus próprios guarda-costas. Porém... No fim, apenas piorou a situação. Foi até um dos meus próprios contratados que acabou matando dois sacerdotes. Não posso alegar inocência nesse assunto.”

“Contudo voc...”

“Além do mais...” continuou, interrompendo o presidente do conselho. “Falhei em salvar uma garota envenenada que veio até mim em busca de ajuda. Essa falha levou o homem que contratei a matar os sacerdotes Francis e Ryan. Minha própria incompetência contribuiu de forma indiscutível para tudo o que aconteceu. Agora acredito que a voz que ouvi naquela noite não era a voz de Deus, e sim da minha própria suspeita e dúvida. Comportei-me como sacerdote até aquele dia, entretanto mesmo essa modesta competência foi alcançada apenas graças à ajuda e ao conselho do Sumo Sacerdote Joshua. Este incidente me colocou frente a frente com a minha própria impotência. Agora sei que jamais poderei ocupar o seu lugar. E portanto... Por meio deste, desisto da candidatura ao cargo de sumo sacerdote.”

Um clamor ecoou na câmara do conselho com o anúncio do Sacerdote Ceres.

———

O sol estava baixo no céu. Não demoraria muito para que a cidade fosse envolta em crepúsculo.

A cúpula terminou com a decisão de que a discussão sobre o próximo sumo sacerdote seria melhor deixada para outro dia. O que fazia sentido. O presidente do conselho e os figurões planejavam nomear Ceres e passar para outros assuntos, e tropeçar nesse primeiro passo complicou o resto das discussões.

Todavia, bem, a questão do próximo sumo sacerdote e da futura política do templo era problema de Selentia. Toda a confusão estava fora de nossas mãos desse ponto em diante, exceto por uma ponta solta. Havia algo que eu precisava esclarecer antes de deixarmos a cidade. Foi por essa razão que vim até aqui com Gourry, na catedral do templo central incendiado.

Era um vasto espaço vazio, composto apenas por pilares manchados de fuligem sustentando um teto alto. Os bancos haviam desaparecido. Quase todos os vitrais haviam derretido e caído devido ao calor; era impossível dizer o que eles representavam. Onde o altar ficava, não havia nada além de um amontoado de carvão.

“Você não acha estranho, Gourry?” minhas palavras ecoaram pela catedral deserta.

“O quê?”

“Na verdade, não resolvemos o mistério. Não todo. Quem matou o sumo sacerdote aqui no templo central, onde tudo começou?”

“Hã? Como vou saber?” perguntou Gourry, coçando a cabeça.

Claro, minha pergunta tinha sido retórica. Continuei mesmo assim.

“Francis do Oeste afirmou ter ouvido a voz de Deus, mas achei que estava falando bobagens. E quando Ryan do Sul disse que foi escolhido por Deus ou algo assim, achei que estivesse apenas sendo arrogante. Descartei os dois. Porém hoje, Ceres também disse que ouviu uma voz... Não te parece estranho?”

“Bom... Com certeza há algo peculiar em um grupo de caras dizendo que todos ouviram Deus falar com eles.”

“Se fosse apenas um ou dois, poderíamos presumir que estavam alucinando em choque com a morte do sumo sacerdote... No entanto para o Sacerdote Ceres, que nem sequer queria assumir o lugar dele? Simplesmente não faz sentido. Também é possível que o Sacerdote Bran do Oeste tenha ouvido uma voz também, e apenas foi morto antes que pudesse nos contar.” falei enquanto olhava para o céu a oeste através do vitral queimado. O anoitecer se aproximava. “Então, tendo tudo em consideração... A explicação mais racional é que eles realmente ouviram uma voz. Certo?”

“É, acho que sim.”

“Agora, Gourry... Se você ouvisse uma voz desconhecida do nada, acha que saberia quem era?”

“De jeito nenhum. Como poderia?”

“Exato.”

“O que está insinuando aqui, Lina?”

“Estou dizendo...” comecei, levantando o dedo indicador. “Que os sacerdotes chefes nunca tinham ouvido a voz de Deus antes. Entretanto sua fé ainda é real. Quando perderam o sumo sacerdote, uma grande força orientadora em suas vidas, eles oraram por direção... E o que receberam foi alguém compartilhando o que parecia ser um conselho. Dessa forma, se convenceram de que devia ser a voz de Deus. Todavia ela nunca se identificou de fato, entende? Tudo o que disse foi ‘o sumo sacerdote foi morto’ e ‘o culpado está tentando semear o caos na cidade’.”

Isso me soou muito parecido com um tipo diferente de sacerdote que eu conhecia. Nunca mentindo tecnicamente... Apenas formulando as coisas de maneira enganosa e usando palavras cuidadosas para levar todos a tirar conclusões erradas. Você sabe o tipo. Se essa ‘voz de Deus’ tivesse vindo de alguém semelhante...

“Os humanos não são capazes de discernir a voz de Deus pelo ouvido. Só podem fazer inferências com base nas circunstâncias e em suas próprias crenças pessoais. Então, a quem pertencia aquela voz? Bem, ela sabia que o sumo sacerdote havia sido assassinado, embora, na época, a investigação meia-boca da cidade não tivesse chegado a essa conclusão. Os únicos que saberiam que não foi um acidente são um Deus onisciente e onipotente e...”

“Entendi.” Gourry enfim captou minha lógica. “O assassino, certo?”

“Sim.” assenti e olhei para o teto. “Você está ouvindo, não está? Apareça logo!” minha voz reverberou pela catedral. “Ou está admitindo que é fraco demais para encarar dois humanos de frente? Que só serve para assassinar homens indefesos enquanto dormem e para falar bobagens e enganar pessoas confusas?”

As palavras ecoaram e depois se dissiparam.

“He... Hehehehe... Hehehe...”

Uma risada furtiva começou a ecoar no lugar.

Então está aqui... Quando Gourry e eu chegamos juntos ao templo principal pela primeira vez, ele detectou uma presença que desapareceu pouco depois quando a perseguiu. Se não fosse apenas a mente de Gourry lhe pregando peças, estávamos lidando com...

“Instintos muito bons. É verdade que fui eu quem fritou o velho aqui e dei algumas dicas aos seus camaradas restantes...” a voz parecia ecoar de todos os lugares e de lugar nenhum.

Comecei a entoar um feitiço baixinho enquanto olhava ao redor da catedral. Janelas vazias. Fileiras de pilares. Uma moldura carbonizada de vitral. Um lustre torrado. O monte negro de altar...

“Mas foi tudo que fiz. O resto foi obra dos humanos... Reunindo pessoas aqui, odiando-se, matando-se. Só tive que sentar aqui e observar. Que divertido. Aquelas pessoas agem com tanta piedade e se autodenominam homens santos, porém são completamente alheias ao ódio e à aversão que carregam dentro de si. Alimentei esses sentimentos e observei o medo crescer por toda a cidade. Dia após dia, o ódio, a inimizade, cresciam, cresciam, cresciam...”

Oh, cale a boca!

“Lança Elemekia!” lancei o feitiço que estava preparando. Meu alvo? O único vitral restante!

Contudo, pouco antes de atingir... Gloop! O vitral... Ou melhor, a criatura disfarçada de vitral, escorreu, desviou do meu feitiço e se reformou no chão.

“Ohhh, impressionante. Você descobriu onde eu estava.”

Claro que descobri. As molduras dos vitrais eram feitas de chumbo, que tinha um ponto de fusão relativamente baixo. Era bastante estranho ver apenas uma ainda intacta depois que todas as outras haviam sido destruídas.

Não que eu quisesse explicar para essa coisa...

A tal ‘coisa’ se contorceu até ganhar forma sólida. Era uma mistura de muitos tons, todas as cores do vitral. Era cerca de duas cabeças mais alto que Gourry e tinha uma forma mais ou menos humanoide, embora sem olhos, nariz, boca ou orelhas no rosto. Em vez disso, tinha olhos e bocas escancarados por todo o corpo.

É, sabia que era um mazoku...

“Você tem razão!” falei. “Tudo foi obra dos humanos depois que você atiçou a escuridão em seus corações. Acho que um mazoku de baixa patente não é capaz de mais do que truques baratos e incêndios criminosos insignificantes...”

“Como ousa! Eu, o grande Tzenui, não serei zombado por uma humana!” a voz do mazoku se encheu de raiva.

Ignorei o gesto e estendi minha mão direita para Gourry.

“Me empreste sua espada por um minuto. Acho que consigo dar conta desse idiota.”

“Mantenha-se atenta.” disse Gourry, desembainhando a espada e me entregando-a.

“Vou ficar.” assegurei-lhe e a peguei.

“Vou fazê-la pagar por esse insulto!” Tzenui uivou e avançou em minha direção.

Segurei a espada e comecei a entoar um feitiço.

“Hgah!” Tzenui cuspiu fogo pela boca do lado direito do peito.

Entretanto saltei para o lado e desviei. Fwoom! Vi chamas explodirem atrás de mim em minha visão periférica.

Tzenui se virou para mim e, pouco antes de entrar no alcance da espada, sua cabeça se estendeu direto para baixo, na minha direção!

Previsível...

Mantive uma estranha calma e usei a espada para golpear meus pés. O truque de Tzenui de estender a cabeça era apenas uma finta. Ele também havia transformado seus dedos dos pés, enviando inúmeros olhos e bocas em minha direção... Mas a Espada Explosiva cortou todos eles!

“Gwuh!” soltando um grito patético, Tzenui mergulhou para trás. E atrás dele...

“Explosão de Cinzas!”

Meu feitiço invocou a escuridão!

“Gah!” o mazoku, com as costas contra a escuridão, mergulhou rapidamente para longe. Então, saltou de novo, desta vez alto o suficiente para se agarrar ao teto da catedral. “Geh... A-Agora sua espada não pode me alcançar!” declarou, em triunfo.

Ignorei-o e comecei a recitar um novo feitiço.

Tu que és mais sombrio que o crepúsculo...
Tu que és mais vermelho que o sangue...
Juro em teu nome exaltado...
Obscurecido, nas profundezas do fluxo do tempo...


“Morra!” Tzenui cuspiu fogo em minha direção enquanto rastejava pelo teto instável. Porém...

Bwoosh! Um golpe da Espada Explosiva em minhas mãos rasgou a chama que se aproximava, cujos remanescentes não conseguiram penetrar a barreira de conjuração gerada pelo meu encantamento.

“O quê?” Tzenui exclamou em choque. Isso liberou mais chamas, contudo todas encontraram o mesmo destino.

E então...

Faço esta promessa à escuridão aqui...
Então todos aqueles em igual medida...
Tolos que ousam bloquear nosso caminho...
Enfrentarão a destruição sem restrições...
Conceda-me poder e liberte o seu!


Lancei meu feitiço finalizado no teto.

“Dragon Slave!”

Fwoosh! Uma luz vermelha se concentrou ao redor do corpo de Tzenui e...


“Geh!” abafando aquela tentativa de grito... Roooooooooooar! Uma explosão de luz gigantesca atravessou o teto! Atingiu o mazoku em cheio e arrancou o telhado do templo!

Os terrenos do templo ao redor do prédio eram bastante extensos. Pouco risco de danos colaterais. Foi tudo muito fácil... Um fim anticlimático para o mazoku que semeou tanto ódio na cidade. Me repugnava o quão ridículo aquilo era.

Só... Só um inútil e medíocre mazoku fez tudo isso...

Fiquei de costas para Gourry e enxuguei minha bochecha em silêncio.

Olhei para as nuvens que passavam pelo teto agora inexistente do templo. Em algum momento, o céu assumiu uma cor carmesim exuberante.

———

Ao norte de Selentia, quase nos arredores da cidade, estávamos em uma pequena colina com uma vista magnífica. A grama bem cuidada brilhava sob a luz suave do sol. Não havia ninguém por perto, apenas lápides brancas.

Este era o cemitério da Cidade de Selentia.

Em um canto, havia uma pequena lápide de pedra com o nome de uma mulher. Gourry e eu estávamos diante dela com flores nas mãos. Uma variedade de flores, antigas e novas, já havia sido colocada em frente. Não queria pensar em quem as tinha trazido. Onde ele estaria agora? Ninguém sabia dizer. Não o víamos desde o nosso último encontro.

“Acabou!” falei enquanto me agachava para depositar minhas flores. “Acabei com o mazoku que espalhava ódio pela cidade. A maldita coisa era um peixe pequeno...”

O vento soprava sobre a colina verdejante.

“Diga, Lina...” Gourry interrompeu como se tivesse acabado de se lembrar de algo. “Aquele mazoku que você derrotou no templo ontem... Fico feliz que tenha saído em resposta as suas provocações. Mas o que você teria feito se não tivesse saído?”

“Ah, eu não tinha dúvidas de que ele sairia. É verdade que era uma aposta minha que seguisse estando lá dentro...”

Contudo enquanto estivesse lá, sabia que se revelaria. Tinha certeza. Afinal, tudo o que tinha dito era menos uma provocação e mais um ritual de invocação obrigatório.

Um conhecido meu me disse certa vez que os mazokus não usam ataques astrais contra humanos porque se recusam a nos levar a sério. Dar tudo de si em combate contra um ‘humano insignificante’ seria como admitir que não eram fortes o suficiente para nos vencer de outra forma. E para os mazokus, seres de puro espírito, essa mentalidade resultaria em uma enorme perda de poder.

Então me aproveitei da sua condição. Não se revelar seria como dizer que não era bom o suficiente para lutar contra um humano um contra um, certo? Dessa forma, assim que deduzi que estávamos lidando com um mazoku, fiz minha declaração partindo do pressuposto de que estava escondido por perto. Se tivesse me ouvido e ainda se recusasse a sair, seria como admitir que não era forte o suficiente para me derrotar, o que teria minado seu poder... Ou talvez o destruído por completo. Em outras palavras, no momento em que o mazoku me ouviu, não teve escolha a não ser sair.

“É assim que funciona?” perguntou Gourry, com dúvida.

“Sim, é assim que funciona.” respondi, poupando-o da explicação detalhada.

“No entanto quem será o próximo sumo sacerdote aqui? Pessoalmente achei que o Mestre Ceres seria perfeito para o trabalho...”

“Bom, se ele disser que não quer, ninguém pode obrigá-lo. Acho que o mais sensato seria trazer um provável candidato de outra cidade. Embora, de qualquer forma, esse assunto não é mais da nossa conta.”

“É, acho que sim!” murmurou Gourry.

Depois disso, tudo ficou em silêncio, exceto pelo vento que soprava.

“Certo, acho melhor irmos.” eu disse para o túmulo, e então me levantei.

“Para onde?” perguntou Gourry.

“Para onde quisermos. Podemos decidir depois. Depois... Depois que sairmos desta cidade.”

“Verdade...”

E com essa última troca, nós dois nos viramos e começamos a caminhar.

Um pensamento me ocorreu sobre o homem que havia desaparecido. Será que realmente tínhamos salvado sua alma? Não havia como saber.

...

Balancei a cabeça em silêncio e deixei a colina varrida pelo vento para trás.



Posfácio:

Cena: O Autor e L

Au: Se você odeia alguém, odeia tudo relacionado a essa pessoa! E com isso, vamos à reimpressão de Ódio em Selentia!

L: É sem dúvida um ponto de virada na história, não é? Durante a escrita da parte 2, os fãs ficavam perguntando se Zelgadis e Amelia apareceriam, e esta história é o motivo pelo qual não apareceram, suponho.

Au: É verdade. Pode ser difícil escrever com esses feitiços de cura que são tão comuns em livros, jogos e afins.

L: Com certeza. Às vezes, em Dr*gon Qu*st e coisas do tipo, um vilão mata um personagem durante a história, e acabo pensando: “Não podemos salvá-lo com K*z*ng¹?” Penso muito nessa linha de raciocínio.

Au: Sou igualzinho. Naquela série de fantasia Fulana de Tal, tem um personagem com quem está lutando o tempo todo que morre de repente em um evento da trama. E então penso: “Espere um minuto, sempre consegui te trazer de volta com a L*fe antes!”

L: Também há uma questão de verossimilhança. Uma garota que foi baleada por metralhadoras, explodida por cobras gigantes e jogada pelo pescoço por lobos, mas sempre conseguiu voltar correndo para o grupo, morre com apenas uma pequena facada?

Au: Ah, sim. Lembro-me de chegar ao final e pensar: “Espera, ela realmente morreu disso?” Embora eu goste do jogo, tirando essa parte. Então, em termos de credibilidade e estrutura, talvez houvesse uma maneira de termos feito essa história com a Amelia presente, porém exigiria muitos passos e explicações extras para chegar lá, sem mencionar que prolongaria tudo muito mais do que o necessário.

L: Então só a deixou de fora.

Au: Sim. Contudo olhando para trás agora, enquanto reviso os erros de digitação para a reimpressão, percebo que na verdade me deixei levar pelas emoções enquanto escrevia essa história. Às vezes penso: “Nossa, perdi a cabeça nessa parte.”

L: Talvez devesse ter reescrito, então?

Au: Uma parte de mim gostaria de ter reescrito. Quando decidimos fazer as reimpressões, meu editor me disse que podia verificar os erros de digitação, no entanto não fazer grandes alterações no conteúdo. Quando reli para conferir, entendi por que insistiu que não o fizesse.

L: Como assim?

Au: Havia tantos trechos em que me vi lutando contra a vontade de reescrever. Se tivesse me dado carta branca para revisar, tenho certeza absoluta de que teria mudado a história por completo e arruinado o equilíbrio!

L: Não diga que tem “certeza absoluta” como se fosse algo para se orgulhar! Enfim, por que não mudar o quanto quiser? Deixe-me assumir o protagonismo no volume 8 e me dê carta branca! Vou viajar pelo interior encontrando monstros, e quinze minutos antes do episódio terminar, direi: “Vocês não veem esse caos?” e projetaria meu vazio na tela!

Au: A fórmula Mito Komon²? Mas se fizesse isso não sobraria nenhum mocinho ou vilão.

L: Não sobraria ninguém! Ninguém para causar problemas. Em outras palavras, paz verdadeira!

Au: Não é assim que funciona! Paz não significa nada sem pessoas para desfrutá-la! É só vazio!

L: Oh? Porém não é frustrante quando depõem um magistrado maligno, e alguns anos se passam e outro magistrado maligno é nomeado para fazer as mesmas coisas ruins de novo?

Au: Sim, concordo... Só que não é motivo para destruir todo mundo. Está parecendo o chefe final de um videogame.

L: Bem... Eu meio que sou, cara.³

Au: Hah! Tinha me esquecido, ainda bem que mencionou!

L: Esqueceu? Caramba. Vejo que gosta de brincar com fogo. Talvez eu devesse fazer algo para redefinir suas prioridades... Aliás, isso me lembra.

Au: (encolhendo-se) L-Lembra de quê? Tenho certeza de que ia me atacar ali...

L: Bom, se lembra de como às vezes eu te mato nos posfácios?

Au: Essa é uma pergunta muito desconfortável, contudo... Sim.

L: E aí, no posfácio seguinte, você volta à vida como se nada tivesse acontecido. Parece como o herói de um videogame revive várias vezes.

Au: Ah. Certo, não me lembro de ter levado bronca do rei ou de um padre. E quanto ao por que sempre volto à vida na próxima vez... É assim que o mundo funciona, não é?

L: Não termine com um clichê! No entanto, pensando bem, pode ter razão... Enfim, isso é tudo para o posfácio.

Au: Que coisa mais informal! Hmm... Até a próxima, pessoal!

Posfácio: Fim.



Notas:
1. Kazing é um feitiço de cura recorrente na série Dragon Quest que ressuscita um personagem caído, sendo mais confiável que feitiços como Zing, restaurando HP ao aliado revivido, sendo uma magia de reviver essencial para garantir que os aliados retornem à batalha com vida.
2. Mito Komon é um drama de época de 1969. A fórmula citada é um padrão da série onde o segundo daimyou aposentando se disfarça e viaja, deparando-se com alguma injustiça perpetrada e atuando para resolução do caso. No fim, sua identidade é revela e o protagonista julga os criminosos e esclarece toda a situação.
3. Eu não lembro se isso é deixado claro em algum momento dos posfácios anteriores, mas para nossos leitores de primeira viagem que desconheçam o fato, nossa querida L é ninguém menos que o próprio Senhor dos Pesadelos (Lord of Nightmares), o supremo Lorde das Trevas da série. E agregando também, o Subordinado S que aparece as vezes é ninguém menos que o próprio Olhos de Rubi Shabranigdu.

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Link para o índice de capítulos: Slayers

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