Capítulo 24: Os Cães de Caça de Erkynlandia
Simon sonhou que caminhava no Jardim de Pinheiros de Hayholt, do lado de fora do Refeitório. Acima das árvores que balançavam suavemente, pendia a ponte de pedra que ligava o salão à capela. Embora não sentisse frio... Na verdade, não tinha consciência de seu corpo, exceto como algo que o movia de um lugar para outro, suaves flocos de neve caíam ao seu redor. As bordas finas e pontiagudas das árvores começavam a se confundir sob mantos brancos e tudo estava quieto: o vento, a neve, o próprio Simon, todos se moviam em um aparente mundo sem som ou movimento rápido.
O vento imperceptível soprava com mais força agora, e as árvores do jardim abrigado começaram a se curvar diante da passagem de Simon, abrindo-se como ondas do mar em torno de uma pedra submersa. A neve se agitava, e avançou pela abertura, em um corredor arborizado de um branco rodopiante. Prosseguiu, as árvores inclinando-se diante dele como soldados respeitosos.
O jardim nunca foi tão longo, não é?
De repente, Simon sentiu seus olhos serem atraídos para cima. No final do caminho nevado erguia-se um grande pilar branco, pairando sobre sua cabeça em direção ao céu escuro.
“Claro...” pensou consigo mesmo, em meio à lógica sonhadora. “É a Torre do Anjo Verde.”
Nunca conseguira andar diretamente do jardim até a base da torre antes, porém as coisas haviam mudado desde que se fora... As coisas haviam mudado.
“Contudo se é a torre...” pensou, olhando para cima, para a forma imensa. “Por que ela tem galhos? Não é a torre... Ou pelo menos não é mais... É uma árvore, uma grande árvore branca...”
Simon sentou-se ereto, com os olhos escancarados.
— O que é uma árvore? — perguntou Binabik, que estava sentado perto, costurando a camisa de Simon com uma agulha de osso de pássaro. Ao terminar, um momento depois, devolveu-a ao jovem, que estendeu um braço sardento por baixo da capa protetora para pegá-la. — O que é uma árvore? E você dormiu bem?
— Um sonho, é só isso. — respondeu Simon, com a voz abafada por um instante enquanto puxava a camisa pela cabeça. — Sonhei que a Torre do Anjo Verde se transformava em uma árvore. — seu olhar se voltou para Binabik com curiosidade, no entanto o gnomo apenas deu de ombros.
— Um sonho. — concordou Binabik.
O garoto bocejou e se espreguiçou. Não tinha sido nada confortável dormir em uma fenda protegida na encosta de uma colina, todavia era eminentemente preferível a passar uma noite desprotegido na planície. Pôde entender tal lógica, assim que começaram a se mover.
O nascer do sol havia chegado enquanto ele dormia, discreto por trás do manto de nuvens, apenas uma mancha de luz cinza-rosada no céu. Olhando para trás, do alto da encosta, era difícil dizer onde o céu terminava e as planícies enevoadas começavam. O mundo parecia um lugar escuro e informe naquela manhã.
— Eu vi fogueiras à noite enquanto você dormia. — disse o gnomo, despertando Simon de seu devaneio.
— Fogueiras? Onde?
Binabik apontou com a mão esquerda para o sul, ao longo da planície.
— Lá atrás. Não se preocupe, acho que estão bem longe. É bem possível que não tenham nada a ver conosco.
— Suponho que sim. — Simon semicerrou os olhos para a distância cinzenta. — Acha que podem ser Isgrimnur e seus homens?
— Duvido que sejam.
Simon se virou para olhar o homenzinho.
— Mas você disse que eles escapariam! Que sobreviveriam...
O gnomo lançou lhe um olhar exasperado.
— Se esperasse, ouviria. Tenho certeza de que sobreviveram, porém estavam viajando para o norte, e duvido que recuassem. Aquela fogueira estava mais ao sul, como se...
— Como se estivessem vindo de Erkynlandia. — concluiu Simon.
— Sim! — disse Binabik, um pouco irritado. — Contudo podem ser comerciantes ou peregrinos... — ele olhou ao redor. — Para onde Qantaqa foi agora?
Simon fez uma careta. Sabia reconhecer uma manobra de evasão quando a via.
— Muito bem. Pode ser qualquer coisa... No entanto você foi quem aconselhou acelerarmos o passo ontem. Devemos esperar para ver em primeira mão se são comerciantes ou... Ou escavadores? — a piada soou mais do que um pouco amarga. A última palavra não lhe soou bem.
— Não ser estúpido é importante. — resmungou Binabik, desgostoso. — Boghanik, os bukken, não acendam fogueiras. Eles odeiam coisas brilhantes. E não, não vamos ficar esperando que esses acendedores de fogueiras nos alcancem. Estamos voltando para a floresta, como lhe contei. — sua mão gesticulou por cima da cabeça. — Do outro lado da colina, estaremos à vista.
Os arbustos estalaram atrás deles, e o gnomo e garoto pularam de surpresa. Era apenas a loba, descendo a encosta de forma irregular, com o focinho colado ao chão. Quando chegou ao acampamento, deu uma cutucada no braço de Binabik até que este coçou sua cabeça.
— Qantaqa está de bom humor, hmmm? — o gnomo sorriu, mostrando os dentes amarelos. — Já que temos a vantagem de um dia com nuvens pesadas, que cobrirão a fumaça de uma fogueira, acho que podemos pelo menos fazer uma refeição decente antes de nos levantarmos novamente. O que acha?
Simon tentou manter uma expressão séria.
— Eu... Suponho que posso comer alguma coisa... Se for preciso. — falou. — Se você realmente acha que é importante...
Binabik o encarou, tentando decidir se Simon desaprovava o café da manhã, e o garoto sentiu o riso tentando escapar.
“Por que estou agindo como um cabeça-oca?” ele se perguntou. “Estamos em terrível perigo, e isso não vai melhorar tão cedo.”
O olhar perplexo de Binabik por fim foi demais, e a risada explodiu.
“Bem...” respondeu a si mesmo. “Uma pessoa não pode se preocupar o tempo todo.”
***
Simon suspirou, satisfeito, e permitiu que Qantaqa pegasse os poucos pedaços restantes de carne de esquilo de seus dedos. Ficou maravilhado com a delicadeza que a loba podia exibir com aquelas grandes mandíbulas e dentes brilhantes.
A fogueira era pequena, já que seu companheiro não queria correr riscos desnecessários. Uma fina coluna de fumaça serpenteava sinuosamente ao vento que deslizava pela encosta.
Binabik estava lendo o manuscrito de Morgenes, que havia desembrulhado com a permissão de Simon.
— Espero que você entenda. — disse o gnomo sem olhar para cima. — Que não deve tentar o mesmo com nenhum outro lobo além da minha amiga Qantaqa.
— Claro que não. É incrível como ela é mansa.
— Não mansa. — Binabik foi enfático. — Ela tem um vínculo de honra comigo, e isso inclui aqueles que são meus amigos.
— Honra? — Simon perguntou preguiçosamente.
— Tenho certeza de que você conhece esse termo, tanto quanto é usado em terras do sul. Honra. Acha que tal coisa não pode existir entre gnomos e animais? — Binabik olhou para o amigo e voltou a folhear o manuscrito.
— Ah, é que não venho pensando muito em nada ultimamente. — disse Simon, despreocupado, inclinando-se para frente para coçar o queixo peludo de Qantaqa. — Só estou tentando manter a cabeça baixa e alcançar Naglimund.
— Isso é só uma evasiva. — murmurou Binabik, porém não insistiu no assunto. Por um tempo, não se ouviu nenhum som na encosta, exceto o farfalhar de pergaminhos. O sol da manhã subia pelo céu.
— Aqui! — disse Binabik por fim. — Escute agora. Ah, Filha das Montanhas, estou sentindo mais falta de Morgenes só de ler suas palavras. Você conhece Nearulagh, Simon?
— Sim. Foi onde o Rei John derrotou os nabbanos. Há um portão no castelo todo coberto com entalhes dele.
— Está correto. Então, aqui Morgenes está escrevendo sobre a Batalha de Nearulagh, onde John encontrou o famoso Sir Camaris pela primeira vez. Posso ler para você?
Simon reprimiu uma pontada de ciúme. O doutor não pretendia que seu manuscrito fosse para Simon e mais ninguém, lembrou a si mesmo.
“Então, após a decisão de Ardrivis... Corajosa, segundo alguns, arrogante, segundo outros... De enfrentar esse rei nortenho arrogante na planície do Prado Thrithing, diante do Lago Myrme, provou ser um desastre. Ardrivis retirou o grosso de suas tropas para a Passagem Onestrine, um caminho estreito entre os lagos montanhosos Eadne e Clodu...”
— O que Morgenes fala... — explicou Binabik. — É que Ardrivis, o Imperador de Nabban, não acreditava que o Preste John pudesse atacá-lo com grande força, tão longe de Erkynlandia. Contudo os ilhéus perdruinos, que sempre estiveram na sombra dos nabbanos, fizeram um tratado secreto com John e ajudaram a suprir suas forças. O Rei John cortou as legiões de Ardrivis em tiras perto do Prado Thrithing, algo que os orgulhosos nabbanos jamais suspeitaram. Está entendendo?
— Acho que sim. — Simon não tinha certeza, no entanto já ouvira baladas suficientes sobre Nearulagh para reconhecer a maioria dos nomes. — Leia mais.
— Vou ler. Deixe-me encontrar apenas a parte que eu queria ler para você... — ele examinou a página. — Ah!
“E assim, enquanto o sol se punha atrás do Monte Onestris, o último sol para oito mil homens mortos e moribundos, o jovem Camaris, cujo pai Benidrivis-sá Vinitta havia tomado o Cajado do Imperador de seu irmão moribundo Ardrivis apenas uma hora antes, liderou um ataque de quinhentos cavaleiros, o restante da Guarda Imperial, em busca de vingança...”
— Binabik? — Simon interrompeu.
— Sim?
— Quem tomou o quê de quem?
Binabik riu.
— Perdoe-me. É uma rede cheia de nomes para capturar de uma só vez, não é? Ardrivis foi o último Imperador de Nabban, embora seu império não fosse maior do que o que é o Ducado de Nabban hoje. Ardrivis se desentendeu com o Preste John, talvez porque soubesse que John tinha planos para uma Osten Ard unida e que, eventualmente, haveria conflito. De qualquer forma, não vou entediá-lo com toda a luta, todavia esta foi a última batalha deles, como sabe. Ardrivis, o Imperador, foi morto por uma flecha, e seu irmão Benidrivis tornou-se o novo Imperador... Apenas pelo resto daquele dia, terminando com a rendição de Nabban. Camaris era filho de Benidrivis... E sendo jovem também, talvez com quinze anos... E, portanto, naquela tarde, foi o último príncipe de Nabban, como as canções às vezes o chamam... Entendeu, agora?
— Um pouco melhor. É que foram tantos nomes que acabei me perdendo por um momento.
Binabik pegou o pergaminho e continuou lendo.
“Agora, com a chegada de Camaris ao campo de batalha, os exércitos cansados de Erkynlandia se mostraram muito perturbados. As tropas do jovem príncipe não estavam descansadas, mas o próprio Camaris era um turbilhão, uma tempestade de morte, e a espada Espinho, que seu tio moribundo lhe dera, era como um relâmpago negro. Mesmo naquele momento final, dizem os registros, as forças de Erkynlandia poderiam ter sido derrotadas, porém o Preste John entrou no campo de batalha, com Cravo Brilhante em punho enluvado, e abriu caminho através da Guarda Imperial nabbana até ficar cara a cara com o galante Camaris.”
— Esta é a parte que eu queria que você ouvisse. — disse Binabik enquanto folheava a página seguinte.
— Isso é muito bom. — disse Simon. — Será que o Preste John o partirá ao meio?
— Ridículo! — bufou o gnomo. — Como, então, eles se tornariam os amigos mais rápidos e famosos? — ‘Partindo-o ao meio!’ — ele prosseguiu.
“As baladas dizem que os dois lutaram o dia todo e noite adentro, contudo duvido muito que tenha sido assim. É certo que lutaram por um longo tempo, porém sem dúvida o crepúsculo e a escuridão já estavam quase chegando, e apenas alguns dos observadores cansados tiveram a impressão de que esses dois grandes homens haviam lutado o dia inteiro...”
— Que grande pensamento do seu Morgenes! — Binabik gargalhou.
“Seja qual for a verdade, trocaram golpe após golpe, golpeando e martelando as armaduras um do outro enquanto o sol se punha e os corvos se alimentavam. Nenhum dos dois conseguia levar vantagem, mesmo que a guarda de Camaris já tivesse sido derrotada há muito tempo pela tropa de John. Ainda assim, nenhum dos erkynos ousou interferir.”
“Por acaso, finalmente, o cavalo de Camaris pisou em um buraco, quebrando a pata, e caiu com um grande relincho, prendendo o Príncipe embaixo dele. John poderia ter terminado a luta ali, e poucos o teriam culpado, no entanto em vez disso... Observadores juram unanimemente... Ele ajudou o cavaleiro caído de Nabban a sair debaixo de seu corcel, devolveu-lhe a espada e, quando Camaris se mostrou ileso, continuou a luta.”
— Aedon! — exclamou Simon, impressionado. Já ouvira a história, é claro, entretanto era completamente diferente ouvi-la confirmada nas palavras irônicas e confiantes do doutor.
“Então eles lutaram sem parar até que o Preste John... Que, afinal, era mais de vinte anos mais velho que Camaris, se cansou e tropeçou, caindo ao chão aos pés do Príncipe de Nabban.”
“Camaris, comovido pelo poder e pela honra de seu oponente, desistiu de matá-lo e, em vez disso, segurou Espinho na garganta de John e pediu-lhe que prometesse deixar Nabban em paz. John, que não esperava que sua misericórdia fosse retribuída, olhou ao redor para o campo de Nearulagh, vazio, exceto por suas próprias tropas, pensou por um momento e então chutou Camaris-sá-Vinitta entre as pernas.”
— Não! — disse Simon, surpreso; Qantaqa ergueu uma cabeça sonolenta com a exclamação. Binabik apenas sorriu e continuou a ler os escritos de Morgenes.
“Então, John se colocou diante do gravemente ferido Camaris e lhe disse: ‘Você tem muitas lições a aprender, mas é um homem corajoso e nobre. Tratarei seu pai e sua família com todas as gentilezas e cuidarei bem do seu povo. Espero, por sua vez, que aprenda a primeira lição, aquela que lhe dei hoje, e é esta: A honra é algo maravilhoso, porém é um meio, não um fim. Um homem que morre de fome com honra não ajuda sua família, um Rei que se atira sobre a própria espada com honra não salva seu reino.’”
“Quando Camaris se recuperou, ficou tão impressionado com seu novo Rei que se tornou o seguidor mais fiel de John daquele dia em diante...”
— Por que você leu isso para mim? — perguntou Simon.
Estava se sentindo mais do que um pouco insultado pela alegria que Binabik demonstrara ao ler sobre as práticas vis do maior herói do país de Simon... Ainda que, eram as palavras de Morgenes, e quando pensava nelas, faziam o velho Rei John parecer mais uma pessoa real e menos uma estátua de mármore de São Sutrino acumulando poeira na fachada da catedral.
— Me pareceu interessante. — Binabik sorriu com ar travesso. — Não, não era esse o motivo... — explicou rapidamente enquanto Simon franzia a testa. — Na verdade, queria que você assumisse um ponto, e pensei que Morgenes poderia fazer isso com mais facilidade do que eu. Você não queria deixar os rimmerios, e eu entendo seu sentimento... Talvez não tenha sido a maneira mais honrosa de se comportar. Contudo, também não foi honroso da minha parte deixar meus deveres incompletos em Yiqanuc, no entanto às vezes precisamos ir contra a honra... Ou melhor, contra o que é obviamente honroso... Está me entendendo?
— Não de tudo. — a carranca de Simon se transformou em um sorriso zombeteiro e afetuoso.
— Ah. — Binabik deu de ombros, com um ar filosófico. — Ko muhuhok na mik aqa nop, dizemos em Yiqanuc: ‘Quando cai na sua cabeça, então você sabe que é uma rocha’.”
Simon ponderou sobre enquanto Binabik guardava seus utensílios de cozinha na bolsa.
***
Binabik tinha razão quanto há uma coisa. Ao chegarem ao topo da colina, não conseguiam ver quase nada além da grande e escura extensão de Aldheorte, que se estendia sem limites à sua frente... Um oceano verde e negro congelado um instante antes de suas ondas quebrarem aos pés das colinas. Todavia, a Velha Floresta parecia um mar contra o qual a própria terra poderia se chocar e sucumbir.
Simon não pôde deixar de se maravilhar e inspirar fundo. As árvores se estendiam na distância até que a névoa as engolia, como se a floresta pudesse, de alguma forma, ir além dos próprios limites da terra.
Binabik, vendo-o encarando, disse.
— De todos os momentos em que é importante me ouvir, este será o momento. Se nos perdermos lá dentro, talvez não nos encontremos mais.
— Eu já estive na floresta antes, Binabik.
— Apenas nas margens, amigo Simon. Agora estamos nos embrenhando.
— Atravessando tudo?
— Ha! Não, isso levaria meses... Um ano, quem sabe? Mas estamos indo muito além de suas fronteiras, então precisamos torcer para que sejamos hóspedes bem acolhidos.
Enquanto olhava para baixo, o garoto sentiu um arrepio na pele. As árvores escuras e silenciosas, os caminhos sombrios que nunca ouviram o som de um passo... Todas as histórias de uma cidade e de um povo que habitava um castelo estavam à beira de sua imaginação, e eram fáceis demais de evocar.
“Porém eu preciso ir.” disse a si mesmo. “E de qualquer forma, não acho que a floresta seja má. É apenas antiga... Muito antiga. E desconfiada de estranhos, ou pelo menos é assim que me sinto. Contudo não má.”
— Vamos! — chamou com sua voz mais clara e forte, embora quando Binabik começou a descer a colina à sua frente, Simon fez o sinal da Árvore em seu peito, apenas por precaução.
***
Eles haviam descido o monte e chegado à fileira de colinas gramadas que se estendiam até a borda de Aldheorte quando Qantaqa parou de repente, com a cabeça hirsuta inclinada para um lado. O sol já estava alto no céu, depois do meio-dia, e grande parte da névoa rasteira havia se dissipado. Enquanto Simon e o gnomo caminhavam em direção a loba, que permanecia agachada, imóvel como uma estátua cinzenta, olharam ao redor. Nenhum movimento quebrava a ondulação estática da terra em ambos os lados.
Qantaqa gemeu quando a dupla se aproximou e inclinou a cabeça para o outro lado, escutando. Binabik colocou delicadamente sua bolsa no chão, silenciando o tilintar suave dos ossos e pedras dentro dela, e então aguçou os ouvidos.
O homenzinho abriu a boca para dizer algo, com os cabelos caindo sobre os olhos, entretanto antes que falasse, Simon também ouviu: um ruído fino e fraco, subindo e descendo como se um bando de gansos grasnando estivesse passando a léguas acima, muito acima das nuvens. No entanto não parecia vir do céu, em vez disso, soava como se percorresse o longo corredor entre a floresta e as colinas, se do norte ou do sul, Simon não saberia dizer.
— O quê... — começou a perguntar.
Qantaqa voltou a emitir um som e balançou a cabeça, como se não gostasse do som em seus ouvidos. O gnomo ergueu sua pequena mão marrom e escutou por mais um momento, depois colocou a bolsa de volta no ombro, fazendo um gesto para que Simon o seguisse em direção à clareira escura da floresta.
— Acho que são cães. — falou. A loba trotava ao redor deles em círculos irregulares, aproximando-se e depois se afastando. — Acredito que ainda estejam longe, ao sul das colinas... Na Marca Gelada. Quanto mais cedo entrarmos na floresta, melhor...
— Talvez... — disse Simon, acelerando o passo enquanto caminhava ao lado do homenzinho, que andava quase a trote. — No entanto eles não soaram como nenhum cão que já ouvi antes...
— Isso... — resmungou Binabik. — É o que eu também penso... E é mais uma razão para estarmos indo o mais rápido possível.
Enquanto pensava no que Binabik havia dito, Simon sentiu uma mão fria agarrar suas entranhas.
— Pare! — disse ele, e parou.
— O que está fazendo? — sibilou o homenzinho. — Ainda estão muito atrás, mas...
— Chame Qantaqa. — Simon esperou pacientemente. Binabik o encarou por um momento, depois assobiou para a loba, que já estava trotando de volta.
— Espero que explique logo... — começou o gnomo, todavia Simon apontou para Qantaqa.
— Monte nela. Vamos, levante-se. Se precisarmos nos apressar, eu posso correr, porém suas pernas são muito curtas.
— Simon... — disse Binabik, com os olhos franzidos de raiva. — Eu corria pelas cristas estreitas de Mintahoq quando ainda era um bebê...
— Contudo este é um terreno plano e em declive. Por favor, Binabik, você disse que precisávamos ir rápido!
O homenzinho o encarou por um momento, depois se virou e disse algo para Qantaqa, que afundou de barriga na grama rala. Binabik passou uma perna por cima de suas largas costas e se ajeitou usando a grossa pelagem de seus pescoços como apoio. Tornou a dizer algo e a loba se levantou, primeiro com as patas dianteiras e depois com as traseiras, com Binabik balançando em suas costas.
— Ummu, Qantaqa. — rosnou; ela começou a andar para frente.
Simon acelerou o passo e começou a trotar ao lado dos dois. Eles não conseguiam ouvir nenhum som além do ruído de sua própria passagem, embora a lembrança do uivo distante fez a nuca de Simon se arrepiar, e o rosto escuro de Aldheorte se assemelhava cada vez mais ao sorriso acolhedor de um amigo.
Binabik se inclinou sobre o pescoço de Qantaqa e, por um longo tempo, evitou olhar nos olhos de Simon.
Lado a lado, correram pela longa encosta. Por fim, quando o sol cinzento e plano se punha em direção às colinas atrás, alcançaram a primeira fileira de árvores, um grupo de bétulas esguias... Servas pálidas conduzindo os visitantes à casa de seu velho e moreno senhor.
***
Embora as colinas lá fora estivessem iluminadas pela luz oblíqua do sol, os companheiros se viram mergulhando rapidamente na penumbra crepuscular à medida que adentravam na floresta. O chão macio amortecia seus passos, e corriam silenciosamente como fantasmas pela mata rala. Colunas de luz penetravam entre os galhos, e a poeira de sua passagem subia atrás delas, brilhando entre as sombras.
Simon estava se cansando, o suor escorrendo por seu rosto e pescoço em filetes sujos.
— Precisamos ir mais longe! — gritou Binabik para ele desde o alto de sua montura. — Logo o caminho ficará muito tortuoso para correr, e a luz muito fraca. Então descansaremos.
Simon não disse nada, apenas corria, com a respiração ardendo nos pulmões.
Quando o garoto enfim diminuiu o passo para um trote instável, Binabik deslizou das costas da loba e correu ao seu lado. O sol, em ângulo, subia pelos troncos das árvores ao redor deles, o chão da floresta escurecendo enquanto os galhos mais altos adquiriam halos brilhantes, como os vitrais coloridos da capela de Hayholt. Por fim, quando o chão à sua frente desapareceu na escuridão, Simon tropeçou em uma pedra semienterrada; Binabik o segurou pelo cotovelo e ele se agarrou.
— Agora sente-se. — disse o gnomo.
Simon deslizou para o chão sem dizer uma palavra, sentindo o solo solto ceder um pouco sob seu corpo. Um instante depois, Qantaqa voltou. Depois de cheirar a área ao redor, sentou-se e começou a lamber o suor da nuca de Simon; fazia cócegas, mas estava exausto demais para fazer qualquer coisa a respeito.
Binabik agachou-se, examinando o local onde parariam. Estavam a meio caminho de uma pequena encosta, no fundo da qual serpenteava um leito de riacho lamacento com um fio de água escura no centro.
— Quando você estiver com o fôlego recuperado... — disse. — Acho que podemos nos mover para lá.
Com o dedo, indicou um ponto um pouco acima, onde se erguia um grande carvalho, suas raízes emaranhadas impedindo o avanço de outras árvores, de modo que havia um espaço livre de terra em todos os lados de seu tronco maciço e retorcido. Simon assentiu, ainda ofegante. Depois de um tempo, se arrastou para os pés e caminhou com o homenzinho pela encosta até a árvore.
— Sabe onde estamos? — perguntou enquanto se sentava para encostar as costas em uma das raízes retorcidas e meio enterradas.
— Não. disse Binabik alegremente. — Porém amanhã, quando o sol nascer e tiver tempo para fazer certas coisas... Então saberei. Agora me ajude a encontrar algumas pedras e gravetos e faremos uma pequena fogueira. E mais tarde... — Binabik se levantou e começou a procurar madeira seca na luz do dia que se esvaía rapidamente. — Mais tarde haverá uma agradável surpresa.
***
Binabik havia construído uma espécie de caixa triangular de pedras ao redor da fogueira para proteger sua luz, embora mesmo assim crepitava de uma maneira muito reconfortante. O brilho vermelho projetava sombras estranhas enquanto Binabik vasculhava sua bolsa. Simon observou algumas faíscas solitárias espiralarem para cima.
Eles haviam preparado um jantar modesto de peixe seco, bolos duros e água. O garoto não sentia que havia tratado seu estômago tão bem quanto gostaria, contudo ainda era melhor estar ali deitado, aquecendo suas doloridas pernas, do que correndo. Não se lembrava de ter corrido tanto tempo ou tão longe sem parar.
— Hah! — Binabik gargalhou, erguendo o rosto corado pela luz da fogueira de dentro da bolsa em triunfo. — A surpresa que lhe prometi, e uma surpresa que eu tenho!
— Uma surpresa agradável. Já tive o suficiente do outro tipo para durar a vida toda.
O gnomo sorriu, seu rosto redondo parecendo se estender para trás em direção às orelhas.
— Muito bem, a decisão é sua. Experimente isto.
Ele entregou a Simon um pequeno pote de cerâmica.
— O que é?
Simon o ergueu perto do fogo. Parecia sólido, no entanto o pote não tinha nenhuma inscrição.
— Alguma coisa de gnomos?
— Abra.
O garoto enfiou o dedo na tampa e descobriu que estava selada com algo que parecia cera. Raspou um buraco, levou o dedo ao nariz para tentar identificar o conteúdo. Um instante depois, enfiou o dedo, tirou-o e o colocou na boca.
— Geleia! — exclamou, encantado.
— Feita de uvas, tenho certeza. — disse Binabik, satisfeito com a resposta do companheiro. — Encontrei um pouco na abadia, só que a agitação dos últimos dias me fez esquecer.
Depois de comer um pouco, Simon, a contragosto, passou a geleia para Binabik, que também a achou bastante agradável. Em pouco tempo, eles a devoraram, deixando o pote pegajoso para Qantaqa lamber.
Simon se aconchegou em sua capa ao lado das pedras quentes da fogueira quase apagada.
— Você poderia cantar uma canção, Binabik? — perguntou. — Ou contar uma história?
O gnomo o observou.
— Não estou pensando em uma história, Simon, pois precisamos dormir e acordar cedo. Talvez uma canção curta.
— Seria ótimo.
— Mas, pensando melhor... — disse Binabik, puxando o capuz até as orelhas. — Gostaria de ouvir você cantar uma música. Um canto suave, é claro.
“Eu? Uma canção?” Simon ponderou. Através de uma fresta nas árvores, achou que podia ver o tênue brilho de uma estrela. Uma estrela...
— Bom, nesse caso... — falou. — Já que você cantou sua canção para mim, sobre Sedda e o manto de estrelas... Suponho que posso cantar uma que as camareiras me ensinaram quando era criança. — ele se mexeu um pouco, ajeitando-se. — Espero me lembrar de toda a letra. É uma canção engraçada.
No profundo vale do Velho Coração...
Começou Simon, baixinho...
Jack Mundwode convocou
aos seus homens da floresta, de perto e longe,
ofereceu uma coroa e a fama da floresta
àquele que conseguisse pegar uma estrela.
Beornoth foi o primeiro a se levantar e gritou: ‘Subirei
ao topo da árvore mais alta!
E arrancarei aquela estrela para a bela coroa dourada
que em breve somente a mim pertencerá.’
Então subiu em uma bétula até o ponto mais alto,
depois saltou para um velho e alto teixo.
Mas por mais que pulasse, saltasse e escalasse,
não conseguiu alcançar a estrela.
Em seguida, o alegre Osgal se levantou e prometeu
que lançaria uma flecha para o céu.
‘Derrubarei aquela estrela para que caia aos meus pés
e a coroa será minha em breve...’
Vinte flechas lançou. Nenhuma sequer roçou
a estrela que pairava zombeteiramente acima.
Enquanto as flechas caíam, Osgal se escondeu atrás de Jack,
que riu e lhe deu um empurrão.
Agora todos os homens pretenderam, discutiram e brigaram,
sem que nenhum o êxito alcançasse,
até que a bela Hruse se levantou e olhou com desdém
para os homens enquanto o vestido alisava.
‘É uma tarefa pequena que os pede Jack Mundwode’,
disse ela com um brilho nos olhos,
‘Mas se nenhum de vocês aqui possui uma coroa de ouro tão querida,
procurarei o nó de Mundwode para desatar.’
Então tomou uma rede que havia pedido aos homens
e ao lago lançou.
A água se agitou e o reflexo
da estrela brilhante quase desapareceu.
Mas depois de um tempo, ela se virou com um sorriso
e disse a Jack: ‘Você vê o que está acontecendo?
Está ali na minha rede, presa e molhada.
Se você a quiser, é só puxar.’
O velho Jack riu e gritou para todos aqueles que se aglomeravam
‘Eis a mulher que devo tomar como esposa.
Pois ela tomou minha coroa e derrubou minha estrela
então, posso muito bem dar-lhe minha vida.’
Sim, ela tomou a coroa e derrubou a estrela.
Então, Jack Mundwode como esposa a tomou...
Da escuridão, podia ouvir Binabik rir, calmo e alegre.
— Uma canção divertida, Simon. Obrigado.
Logo o chiado das brasas silenciou, e o único som era a suave respiração do vento entre as árvores infinitas.
***
Antes de abrir os olhos, percebeu um zumbido estranho, subindo e descendo perto de onde estava deitado. Levantou a cabeça, sentindo-se pesado de sono, e viu Binabik sentado de pernas cruzadas diante da fogueira. O sol não havia nascido há muito tempo; a floresta ao redor estava envolta em tênues fios de névoa.
Binabik havia cuidadosamente colocado um círculo de penas ao redor da fogueira, penas de muitas aves diferentes, como se as tivesse recolhido da mata ao redor. De olhos fechados, inclinou-se em direção à pequena fogueira e cantou em sua língua nativa, o som que havia despertado Simon.
— Tutusik-Ahyuq-Chuyuq-Qachimak, Tutusik-Ahyuk-ChuyuqQaqimak... — e continuou cantando. A fina faixa de fumaça que subia da fogueira começou a oscilar, como se estivesse em uma brisa forte, porém as minúsculas penas permaneceram planas no chão, imóveis. Com os olhos ainda fechados, o gnomo começou a mover a palma da mão em um círculo plano sobre o fogo; a fita de fumaça curvou-se como se tivesse sido empurrada e começou a fluir constantemente por um canto da fogueira. Binabik abriu os olhos e olhou por um momento para a fumaça, depois parou o movimento circular de sua pequena mão. Um instante depois, a fumaça retomou seu movimento normal.
Simon, que o observava com a respiração contida, liberou o ar e falou.
— Você sabe onde estamos agora? — perguntou.
Binabik se virou e sorriu, satisfeito.
— Bom dia. Sim, acho que sei com precisão. Não devemos ter muita dificuldade, contudo ainda há muita caminhada para chegarmos à casa de Geloë...
— Casa? — perguntou Simon. — Uma casa em Aldheorte? Como é?
— Ah... — Binabik esticou as pernas e esfregou as panturrilhas. — Não é como nenhuma casa que você...
Ele parou e ficou olhando por cima do ombro de Simon, fascinado. O jovem se virou alarmado, no entanto não havia nada para ver.
— O que foi?
— Shhh... — o gnomo continuou olhando para além. — Ali. Está ouvindo?
Depois de um momento, ouviu: o latido distante que haviam percebido em sua jornada pelas colinas até a floresta. Simon sentiu um arrepio na espinha.
— Os cães de novo...! — disse ele. — Mas parece que seguem estando longe.
— Você ainda não entendeu. — Binabik olhou para a fogueira e depois para a luz da manhã que vazava por entre as copas das árvores. — Eles passaram por nós durante a noite. Correram a noite toda! E agora, a menos que meus ouvidos estejam me enganando, voltaram para nós.
— Cães de quem? — Simon sentiu as palmas das mãos suarem e as esfregou na capa. — Eles estão nos seguindo? Não podem nos caçar na floresta, podem?
Binabik espalhou as penas com um chute de sua bota pequena e começou a arrumar sua bolsa.
— Não sei. — respondeu. — Não sei a resposta para nenhuma dessas perguntas. Há um poder na floresta que pode confundir cães de caça... Cães comuns. É duvidoso, no entanto, que algum barão local que saísse para se divertir deixasse seus cães correrem a noite toda, e nunca ouvi falar de cães que pudessem fazer isso.
Binabik chamou Qantaqa. Simon se sentou e calçou as botas às pressas.
Sentia seu corpo todo dolorido e agora tinha certeza de que voltaria a correr.
— É Elias, não é? — perguntou com um semblante sombrio, fazendo uma careta ao enfiar o pé cheio de bolhas no calcanhar da bota.
— Talvez. — Qantaqa trotava em sua direção, e Binabik passou uma perna por cima do dorso da loba, se erguendo. — Mas por que um ajudante do doutor é tão importante para ele... E onde o Rei está encontrando cães que podem correr vinte léguas entre o pôr do sol e o nascer do sol? — Binabik colocou a bolsa nos ombros de Qantaqa à sua frente e entregou o bastão a Simon. — Não o perca, por favor. Gostaria que tivéssemos encontrado um cavalo para você montar.
A dupla começou a descer a encosta em direção ao barranco e, em seguida, subiu o outro lado.
— Eles estão perto? — perguntou o garoto. — Quão longe fica... Esta casa?
— Nem os cães nem a casa estão por perto. — disse Binabik. — Bem, correrei ao seu lado assim que Qantaqa se cansar. Kikkasut! — praguejou. — Como gostaria de ter um cavalo!
— Eu também! — ofegou Simon.
***
Eles continuaram a caminhada pela manhã, para o leste, adentrando a floresta. Enquanto subiam e desciam os vales rochosos, os uivos vindos de trás diminuíam por longos minutos, para depois retornarem aparentemente mais altos do que nunca. Fiel à sua palavra, Binabik saltou de Qantaqa quando a loba começou a fraquejar e trotava ao seu lado, suas pernas curtas levando dois passos para cada passo de Simon, os dentes à mostra enquanto suas bochechas inflavam e desinflavam.
Eles pararam para beber água e descansar enquanto o sol se aproximava do meio da manhã. Simon rasgou tiras de seus dois pacotes para enfaixar seus calcanhares cheios de bolhas e, em seguida, entregou os pacotes a Binabik para que os colocasse em sua bolsa. Já não aguentava mais senti-los arranhando contra sua coxa enquanto caminhava e corria. Enquanto enxugavam as últimas gotas almiscaradas do odre de água em suas bochechas e tentavam recuperar o fôlego ofegante, os sons da perseguição voltaram a surgir. Desta vez, o clamor inconfundível dos cães estava tão mais perto que não perderam mais tempo e retomaram o movimento.
Em pouco tempo, começaram a subir uma longa colina. O terreno estava se tornando cada vez mais rochoso à medida que subiam, e até mesmo os tipos de árvores pareciam estar mudando. Cambaleando pela encosta íngreme, Simon experimentou um sentimento doentio de derrota que se espalhava por seu corpo como veneno. Binabik havia lhe dito que chegariam a Geloë pelo menos no final da tarde, porém já estavam perdendo a corrida, com o sol ainda não acima do meio-dia, protegido pelas árvores. O barulho dos perseguidores era constante, um uivo excitado tão alto que não pôde deixar de se perguntar, mesmo enquanto subia a encosta íngreme, onde encontravam fôlego para correr e latir ao mesmo tempo. Que tipo de cães eram aqueles? Seu coração batia tão rápido quanto as asas de um pássaro. Ele e o gnomo logo teriam que enfrentar os caçadores.
Só de pensar nisso, sentiu-se enjoado.
Por fim, uma estreita faixa de céu pôde ser vista através dos troncos das árvores no horizonte, o topo da elevação. Avançando, passaram mancando pela última fileira de árvores. Qantaqa, que corria à frente, parou de repente e uivou, um som agudo e estridente vindo do fundo de sua garganta.
— Simon! — Binabik gritou e se jogou no chão, derrubando o garoto, que caiu com um suspiro ofegante. Quando o túnel negro da visão de Simon se alargou um instante depois, ele estava deitado de cotovelos, olhando para baixo, para uma parede rochosa escarpada que dava para um cânion profundo. Um aglomerado de fragmentos se desprendeu da pedra sob sua mão e caíram pela parede íngreme, desaparecendo entre as copas verdes das árvores lá embaixo.
O uivo era como o toque estridente de trombetas de guerra. Simon e o gnomo se afastaram da borda do cânion, alguns metros para trás na encosta, e pararam.
— Olha! — Simon sibilou, sem dar importância a suas mãos e queixo sangrando. — Binabik, veja! — apontou para baixo, para a longa encosta que acabavam de subir, através do denso tapete de árvores.
Passando pelas clareiras, muito, muito a menos de meia légua atrás, havia uma revoada de formas brancas e baixas: os cães. Binabik pegou seu bastão de Simon e o torceu ao meio. Sacudiu os dardos e entregou a ponta da faca para Simon.
— Rápido! — disse. — Corte um galho de árvore, um porrete. Se tivermos que vender nossas vidas, que o preço seja alto.
Os latidos roucos dos cães ecoavam pela encosta, um canto crescente anunciando o ataque e a morte.
***
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