Capítulo 74: A caminho da fronteira, as visões que nos aguardam...
Bem, há algum tempo, lutei contra um mazoku de alta patente chamado Mestre do Inferno Fibrizo. Durante a luta, perdi o controle de uma magia, o que resultou em uma fusão temporária com o próprio caos. E por ‘próprio caos’, quero dizer, é claro, a fonte de toda a existência, o dourado Senhor dos Pesadelos. No fim, ele retornou de onde veio e recuperei meus sentidos, mas...
É, a profecia da qual Galdorba falou? Basicamente, se encaixava como uma luva em mim. A própria frase parecia sujeita a interpretação, porém não podia argumentar que não se aplicava a mim. Teria sido fácil fingir ignorância e dizer ‘não sei do que está falando’, contudo duvidava que esses caras de túnica caíssem nessa.
Já tinha percebido que Galdorba e seus amigos eram uma facção totalmente diferente dos nossos perseguidores Luzilte. Apesar que seguia sem saber para quem eles trabalhavam. No entanto sabia que haviam levado tal profecia como verdade absoluta, e agora queriam me matar em nome da paz, da justiça e tudo mais.
Eles nos atacaram naquela cidade durante a noite, todavia nos subestimaram e sobrevivemos para contar a história. Depois, ao descobrirem que o Reino de Luzilte também estava atrás de nós, parece que tiveram a ideia de usar isso contra nós. Acho que pensaram que tudo ficaria bem se os cavaleiros acabassem nos eliminando. Entretanto, depois de nos seguirem por um tempo, viram seu Plano A ir por água abaixo graças a um único golem dançante. Devem ter perdido a paciência e entrado na briga.
Embora mesmo com tudo isso em mente, estavam sendo muito imprudentes!
“Toquei num ponto sensível, não é?” disse Galdorba após um breve silêncio. Parecia estar avaliando minha reação.
“Nissy Lina? Causar estragos?” Ran perguntou, com os olhos fixos em nosso oponente.
Gostaria de negar essa parte, mas...
“Considerando que tenho tanto os cavaleiros de Luzilte quanto esses misteriosos homens de manto atrás de mim... Diria que já passei por isso, não é?”
De certo ponto de vista, já havia cumprido a profecia.
“Embora, para ser justa, diria que vocês começaram tudo, e estou apenas revidando. Se me deixassem em paz... Ou até mesmo me ajudassem a voltar para casa... Poderíamos resolver tudo sem nenhum conflito.”
“Ridículo!” zombou Galdorba em resposta à minha proposta. “Uma profecia não pode ser negada. Suponho que, dada a destruição que já causou, a profecia tecnicamente se concretizou, porém podemos ter certeza de que este é o fim? Pode garantir que não causará mais estragos? Não. Se a deixarmos ir agora e o caos se espalhar, será tarde demais. Por precaução, o mais lógico é eliminá-la aqui e agora.”
“Pessoalmente, acho que fazer tempestade em copo d’água com profecias insignificantes é a verdadeira fonte de caos aqui.”
“De um jeito ou de outro, a destruição cessará quando você morrer.”
“Chega, Galdorba!” disse Regenell, parecendo ter perdido a paciência. Uma pena. Realmente esperava prolongar as coisas um pouco mais. “Nenhuma conversa mudará o que temos que fazer aqui.”
“Tem razão!” concordou a companheira deles. Ela caminhou até Galdorba e removeu seu manto e máscara, revelando ser uma mulher de vinte e poucos anos com longos cabelos negros e traços simétricos... Simétricos demais... Que a faziam parecer mais uma boneca viva do que um ser humano. “Essa bobagem pode esperar até que cumpramos nosso propósito.”
“Você ousa chamar a profecia de bobagem? Que arrogância, Nelfic!” exclamou Galdorba.
“Não estou chamando a profecia de bobagem.” disse a mulher, Nelfic, enquanto se virava para mim. “O que é um absurdo é conversar com a pessoa que viemos matar!”
Então, com um uivo, começou a avançar em minha direção!
“Certo!” Regenell também começou a avançar.
Gourry e Ran se colocaram na minha frente, e preparei um encantamento num instante. Apontei o dedo para o céu e sussurrei as palavras de poder. Uma esfera de luz apareceu na ponta do meu dedo... E então explodiu!
O que eu havia conjurado era um feitiço de Iluminação, projetado para iluminar a escuridão, mas com algumas alterações rápidas... Ou seja, zerando sua duração em troca de brilho máximo... Você tinha em mãos um feitiço de cegueira bem prático! Gourry e Ran estavam de costas para mim, porém nossos oponentes que se aproximavam estavam olhando direto para ele quando foi lançado.
“Geh!”
“Ack!”
Na hora certa, Nelfic e Regenell recuaram!
Esse truque funcionava melhor à noite. Podia cegar alguém cujos olhos já estivessem adaptados à escuridão, contudo contra o sol do meio-dia, era mais um ofuscamento momentâneo. Ainda bem que era tudo o que precisávamos! No instante em que nossos oponentes se encolheram, Gourry foi atrás de Regenell e Ran atrás de Nelfic!
O clarão paralisou Nelfic por um instante, permitindo que Ran corresse até ela e lançasse seu cajado. Womp! O golpe acertou Nelfic bem no centro do peito!
“Guh!” Nelfic, que nem sequer gritou quando Gourry a atingiu no mesmo lugar com o cabo de sua espada, agora soltou um grito e cambaleou alguns passos para trás. Talvez o golpe de Ran não fosse um golpe comum. Poderia ter usado sua magia de vento para adicionar um pouco mais de força ao impacto.
“Sua... O que é esse cajado?” gritou a mulher. A julgar pelo quão abalada parecia, aquele golpe devia ter doído muito.
“Nyeeheehee!” Ran sorriu com a pergunta e girou seu cajado enquanto respondia. “Ele veio do coração de uma árvore que se alimentou de magia por mil e quinhentos anos, e vive como parte dessa árvore! É conhecido como...”
Hmm, isso me lembrou de algo. Nosso próprio mundo já abrigou uma grande árvore que cresceu se alimentando de miasma e que produziu uma espada de seu coração. Espadas e cajados eram diferentes, é óbvio, no entanto a arma de Ran era algo funcionalmente semelhante?
Erguendo seu cajado na mão direita bem acima da cabeça, proclamou para todos ouvirem.
“O Bastão Legal!”
“Que nome horrível!” a reação instintiva de Nelfic estava surpreendentemente em sintonia com a minha.
Pelo menos de um nome incrível ou algo assim!
“Não zombe do Bastão Legal!” Ran uivou enquanto avançava.
“Não estou zombando da sua arma! É o seu gosto que me incomoda!” Nelfic gritou... E devo dizer que concordei com ela nesse ponto.
Depois dessa troca, Nelfic também começou a correr. Ran atacou outra vez com seu cajado, todavia Nelfic desviou dessa vez. Pelo menos a princípio. Ran canalizou seu ataque estendido em um golpe de varredura subsequente. E em vez de Nelfic desviar, um conjunto de garras negras apareceu sob seu manto vermelho para repelir o cajado! Seria uma espécie de manopla com garras? Deve ter sido isso que repeliu Gourry mais cedo.
Antes que pudesse se enroscar nas garras, Ran retirou o cajado (eu realmente não gostaria de chamá-lo de bastão; era um cajado de verdade, embora grosseiramente talhado), e então golpeou, cortou e estocou em rápida sucessão. Ela devia estar usando o vento que a envolvia para aumentar sua velocidade e poder, mas era impressionante vê-la se mover daquela forma enquanto usava um feitiço capaz de destruir alguém com um movimento errado. Nelfic conseguiu evitar os ataques de alguma forma, embora foi sendo empurrada para trás até que...
“Graaah!” Nelfic uivou, e ao seu chamado, uma esfera de luz apareceu atrás de Ran!
Atacando pelo seu ponto cego? Ou será que está me ignorando agora?
Antes que eu pudesse discernir a resposta... Crash! Quase como se pudesse ver atrás dela, Ran desferiu um golpe sem cerimônia com seu cajado e atravessou a esfera de luz!
Nelfic ignorou isso e deu um passo à frente. Suas garras encontraram o cajado de Ran com um clangor... E então seus longos cabelos negros endureceram, transformando-se em garras gigantes que atacaram Ran de ambos os lados!
Não há como ela desviar disso! Ou pelo menos foi o que pareceu por um segundo. Porém...
Whump! Ran nem se deu ao trabalho de tentar. Apenas avançou em direção a Nelfic com um golpe na cabeça, forçando-a a se curvar para trás.
———
“Desvie, Regenell!” gritou Galdorba.
Regenell pareceu perceber a urgência no tom de Galdorba, porque...
“O quê?” gritou, e então saltou para cima com uma força inimaginável para um ciclope. No ápice do salto, se transformou em um grande pássaro de quatro asas, transformando o salto em voo! Nunca tinha visto uma criatura como aquela. Talvez fosse algo nativo das terras distantes. Suas quatro asas eram brandidas em uma formação impressionante para permanecer pairando no ar.
“O-O que foi aquilo?” perguntou Regenell. Sua reação fez com que obedecesse ao que lhe foi dito sem hesitar, no entanto não parecia entender o motivo do aviso.
Tinha quase certeza que sim... Subestimar Gourry e atacar sem pensar era uma ótima maneira de ser cortado ao meio. Galdorba só havia tido um breve confronto com Gourry antes, todavia pelo visto foi o suficiente para ensiná-lo que o grandalhão não devia ser subestimado.
Tch! Estraga-prazeres!
Mesmo assim, entoei e lancei meu próximo feitiço!
“Bola de Fogo!”
A esfera de luz que conjurei foi direto para Regenell, que estava no ar. Ela explodiria em chamas ao contato, entretanto...
“Você nunca vai me acertar!” Regenell, agora recuperado da cegueira que eu havia infligido, bufou e desviou da Bola de Fogo com facilidade.
Que pena amigo, já esperava por isso. Veja bem, imaginei que poderia se transformar e recuar enquanto estivesse no ar, então me certifiquei de que esta não fosse uma Bola de Fogo comum. Havia preparado uma das minhas variações características. No instante em que o feixe de luz saiu do campo de visão de Regenell, fiz o feitiço mudar de direção.
“Atrás de você!” Galdorba gritou em aviso. Azar o seu que também já havia previsto isso.
“Romper!” estalei os dedos.
Cra-bwoosh! A luz explodiu perto de Regenell enquanto se movia para se esquivar, espalhando fogo ao seu redor. Viu? Meu trabalho com o feitiço não apenas me permitia controlar seu movimento; como também podia ativá-lo sob comando!
“Agh!” Regenell gritou, não em um cântico, mas de dor. Transformar-se em um pássaro não tinha sido a escolha mais sábia. Conforme as chamas se espalhavam por suas penas altamente inflamáveis, ele despencou em direção à terra. “Graaah!” Pouco antes do impacto, assumiu a forma de uma aranha gigante, o que por pouco lhe permitiu recuperar o equilíbrio e pousar de forma mais suave.
Gourry não lhe daria uma chance de se recuperar. Porém antes que o grandalhão pudesse atacar... Inúmeras lanças flamejantes apareceram no céu!
O quê... Como surgiram tantas?
“Flama Celestial...” a voz de Galdorba ecoou pelo campo de batalha. “Desça.”
Obedecendo ao seu chamado, pilares de fogo começaram a cair como chuva. Será que o feitiço atingiu todos, menos ele? Será que ele ia eliminar seus aliados junto conosco?
Ao comando de Galdorba... Cracracrash! As chamas desceram. O calor preencheu o ar ao redor enquanto folhas, galhos, grama e terra queimavam. Gourry abortou seu ataque para se concentrar em esquivar. Ran e Nelfic continuaram lutando, embora felizmente nenhuma das duas foi atingido.
Quanto a Regenell...
“Graaah!”
Com um grito, ele se transformou em um besouro gigante! As chamas atingiram suas costas, contudo não causaram muito dano à sua carapaça enorme. As rajadas individuais de fogo não eram muito quentes, embora a chuva de chamas queimasse o ar, chamuscando nossa pele e dificultando a respiração.
Com Regenell literalmente sob fogo, seria esta a minha chance? Continuei esquivando, suportando a dor nos meus pulmões enquanto começava a entoar o feitiço!
Tu que és mais sombrio que o crepúsculo...
Tu que és mais vermelho que o sangue...
“O feitiço do Lorde das Trevas?” Galdorba exclamou, surpreso.
Eu não tinha ideia de como tinha me ouvido daquela distância... Todavia, sim! Estava invocando o poder do Lorde das Trevas Olhos de Rubi Shabranigdu, capaz de destruir até mesmo um dragão! O feitiço atingiu tudo dentro de um certo alcance indiscriminadamente, mas contanto que eu o usasse da maneira correta, ficaria tudo bem. Meu alvo no momento era a forma de besouro de Regenell!
Enfrentarão a destruição sem restrições
Conceda-me poder e liberte o seu!
Bati palmas e, captando meu sinal, Gourry saltou para trás, saindo da luta.
“Dragon Slave!”
Em resposta às minhas palavras de poder, uma luz vermelha se concentrou ao redor de Regenell... Então, um círculo de luz branca apareceu sobre seu corpo! A luz vermelha era o meu feitiço, porém o que diabos era aquele círculo branco?
Cra-boooosh! A explosão resultante sacudiu o ar e todas as árvores ao redor. Essa belezinha podia destruir um pequeno castelo. Mesmo nas terras interiores, um reino com um único feiticeiro que soubesse como conjurá-lo não era para ser subestimado.
Até então, havia hesitado em usá-lo nas terras exteriores, contudo a situação havia se tornado tão séria que eu não podia me dar ao luxo de ser moderada. Meu pensamento era que a explosão centrada em Regenell também atingiria Galdorba, que estava atrás, contudo...
“Grr... Rrrr...”
Misturado com as reverberações após a explosão, ouviu-se um rosnado baixo... Muito baixo.
“Graaah!”
Finalmente, emergindo da fumaça fina, estava Regenell, contorcendo-se e uivando.
Ele suportou? Ou... Bloqueou?
“Regenell? Galdorba?” Nelfic gritou depois de se distanciar um pouco de Ran.
“Suponho que seja natural... Que eu não consiga bloquear completamente o feitiço do Lorde das Trevas...” Galdorba gemeu. Era óbvio que estava com dor, mas ainda não conseguia vê-lo através da fumaça. “Teremos que... Recuar por enquanto...”
“É, não há muita escolha...” Regenell respondeu.
“Entendido!” Nelfic fez o mesmo, desaparecendo na nuvem rodopiante.
Não queria deixá-los escapar! Estava prestes a conjurar outro feitiço, porém... De repente, a forma sombria de Regenell, antes visível na fumaça, desapareceu. Então... Whoosh! Levantando um vento poderoso e cortando a nuvem, surgiu um par de asas gigantes que se abriram!
Espere, aquilo é...
A cada batida de asa, levantando mais vento, a grande criatura alçou voo!
“Um dragão?” exclamou o comandante cavaleiro, chocado.
E tinha razão... Era um dragão negro! Já tinha visto muitos dragões, e este era sem dúvida um dos maiores. Duas das figuras de vestes vermelhas agarraram suas pernas, e antes que eu pudesse conjurar um feitiço...
“Graaaaaaah!” ele soltou um uivo e decolou, voando em direção ao horizonte com uma velocidade inimaginável. Aquele rugido deve ter sido um feitiço, usando magia para aumentar sua velocidade.
Ah, eles escaparam afinal... Nossa batalha com as figuras de mantos havia terminado... Por ora.
Voltei-me para o comandante dos cavaleiros e disse.
“Já que estamos aqui, pergunta... Tem alguma ideia do que aqueles caras de mantos possam ser?”
Ele ficou em silêncio em resposta. Será que de fato não sabia? Ou só não queria nos contar?
“Entendido. Então vamos indo!” continuei, virando-me para sair enquanto os cavaleiros atrás de nós apenas observavam.
———
Isso provavelmente é óbvio, contudo o mundo é um lugar enorme. Você pode não ter a chance de apreciar a imensidão de algo se criar raízes em um só lugar, no entanto se viajar, terá uma noção real do todo.
Às vezes caminhando, às vezes de carroça, nós três continuamos seguindo para o norte.
Quando chegamos à cidade de Toltas, já haviam se passado cerca de dez dias desde nossa luta com os cavaleiros e os homens de túnica na vila de Renihorn. Não tínhamos visto nenhum sinal de emboscada por parte das figuras de manto, nem sinais de perseguição por parte dos cavaleiros desde então. Comecei a me sentir bastante otimista em dizer que tínhamos abalado os cavaleiros, entretanto era demais para se esperar dos homens de manto.
Enquanto caminhávamos por uma das estradas de Toltas, olhei para o céu azul, perdida em pensamentos.
“Lina?” chamou Gourry, que estava à minha direita.
“Hmm?”
“No que você está pensando?”
Acho que o cara desvendou o que estou pensando.
“Diga, Gourry.” dei a ele um pequeno sorriso. “Se... Se algum dia voltarmos para casa em segurança...”
“Sim?”
“Eu estava pensando em como poderíamos dar o troco no Norst da melhor maneira possível.”
“Era isso que estava pensando enquanto olhava para o horizonte?”
Dããã, óbvio! Não tinha ideia de até que ponto Norst tinha planejado tudo, mas realmente nos fez passar por maus bocados... Minha raiva não seria saciada até que lhe desse o que merecia!
“Adoraria dizer ‘acabar com a sua raça’, porém, sabe... Ele não disse que ia deixar a humanidade em paz por um tempo, contanto que a gente fingisse que não via nada quando nos encontrássemos de novo? Estou preocupada que, se eu aparecer por lá, ele diga: ‘Lina Inverse quebrou nosso acordo, então agora acho que posso fazer o que quiser com os humanos.’ Nesse caso, acho melhor cumprirmos nossa parte do acordo. Que tal, se por acaso nos cruzarmos na estrada, vou sussurrar no ouvido dele: ‘Eu não esqueci’.”
“Assustador!” respondeu Gourry.
Assenti pensativamente.
“Então você acha que resolve o problema?”
“Norst?” perguntou Ran à minha esquerda.
“Ah, o cara que nos trouxe aqui, a mim e ao Gourry.”
“E vocês querem vingança?”
“Hmm... Menos vingança e mais uma ameaça brincalhona.” respondi, coçando a cabeça. Nesse instante...
De repente, ouvimos um murmúrio nervoso atrás de nós. Todos paramos e nos viramos. A multidão se dividia em duas, como se estivesse evitando algo.
No centro da comoção estava um homem de cabelos prateados. Seu olhar era astuto. Suas roupas eram folgadas. Também usava um cachecol sobre o nariz e as orelhas, embora não estivesse tão frio assim naquele dia. Ao erguer a mão direita sem cerimônia, em seguida, puxou o cachecol para baixo...
Pude ouvir gritos dos transeuntes ao nosso redor, pois onde deveria estar a boca do homem havia uma enorme mandíbula retorcida.
“Nunca fui bom em imitar humanos.” sibilou o ser.
Aquela voz... O homem de cabelos prateados inspirou profundamente. Maldição!
“Corram!” gritei e corri para uma rua lateral. Gourry e Ran estavam logo atrás de mim. Todos os outros na rua também começaram a fugir, percebendo o que estava prestes a acontecer.
Crackapoppoppop! O hálito de trovão que saiu de sua boca percorreu a rua da cidade. Vários transeuntes, atingidos pelo raio, que desabaram, impotentes. Lajes de pedra faiscaram, bancas de frutas explodiram e paredes de madeira queimaram. Foi pura sorte que nós três conseguimos evitar um impacto direto, pulando para trás de um prédio com uma porta de ferro. Se não tivesse absorvido o raio, é provável que tivesse nos atingido em cheio.
Contudo não ficamos por perto depois disso. Continuamos correndo.
“Ele acabou de cuspir alguma coisa?” gritou Gourry.
“Oh, só bafo de dragão!” gritei de volta. Já tinha um pressentimento, e aquele último movimento só o comprovou. As pessoas de mantos vermelhos não eram humanas... Eram dragões.
Sua velocidade de conjuração era inimaginável. Sua capacidade de misturar voo e outros feitiços. Só isso já provava que não eram humanos. E da última vez, quando recuaram... Regenell não havia assumido a forma de um dragão; havia retornado à sua verdadeira forma. Seus poderes de voar e usar ataques de bafo também eram habilidades naturais inatas, e não feitiços. Eles também estavam desconfiados do meu Dragon Slave, o que devia explicar por que apareceram na cidade, onde não posso usá-lo. Além do mais, provaram que não se importavam muito em ferir civis.
Havia pânico na avenida principal, e pude ouvir os gritos e berros de pessoas correndo de um lado para o outro ao nosso redor. Presumi que nosso atacante atual fosse Galdorba, baseado em sua voz. No entanto também presumi que seus amigos estivessem por perto.
“Hmm, hmm... Você está dizendo que aquilo era um dragão, e não uma pessoa?” perguntou Ran.
“Acho que sim! Precisamos tirá-los da cidade!”
Em uma área densamente povoada, eu não podia usar nenhum feitiço muito chamativo, muito menos um Dragon Slave. Claro, não tinha certeza se nossos amigos de manto nos permitiriam mudar de local.
Atravessei um beco e entrei numa rua secundária. O pânico na avenida principal já havia chegado até ali, e havia pessoas correndo por todos os lados, em confusão. Em meio ao caos, podia sentir alguém me observando. Me virei e vi uma mulher de cabelos negros vestindo roupas largas.
Nelfic?
No instante em que nossos olhares se cruzaram, ela avançou sobre mim! Suas mãos brancas incharam e escureceram, transformando-se em garras aterrorizantes. A cada movimento das mãos no ar, ela cuspia múltiplos projéteis negros que voavam direto para nós. Gourry desembainhou sua espada rapidamente e Ran brandiu seu cajado para dispersá-los. Enquanto isso, os projéteis que atingiam os moradores da cidade traziam ainda mais gritos e terror às ruas.
Avistei alguns projéteis ao atingirem o chão. Eram pequenos, negros e metálicos. Escamas?
Comecei a entoar um feitiço para repelir o ataque de Nelfic. Ran e Gourry também se prepararam, e nesse instante, uma sombra surgiu do ombro esquerdo de Nelfic. Não, não era uma sombra! Era uma asa negra gigante! Quando a asa tocou uma casa próxima, atravessou a parede sem esforço e derrubou o telhado, espalhando entulho para todos os lados. Naturalmente, inclusive na nossa direção.
Ugh! Que método de ataque irritante!
“Atravessem!” Ran gritou com uma voz estranha, correndo para frente em vez de desviar dos destroços.
Certo! Entendi! Seguindo seu plano, também comecei a avançar.
Gourry fez o mesmo. Ran brandiu seu cajado para afastar os escombros que caíam, embora como esperado não estava fazendo todo o trabalho. Tudo o que ela não conseguia rebater era desviado pelo vento que a envolvia.
Parecia que Nelfic não esperava que fôssemos em sua direção, porque seu rosto falso mostrou o primeiro sinal de verdadeiro choque até agora.
Então lancei o feitiço que havia conjurado!
“Uivo Congelante!”
Essa belezinha desencadeou uma poderosa nevasca, e ventos gelados não eram exatamente fáceis de desviar. Não foi fatal de forma alguma, contudo um frio assim com certeza a deixaria lenta.
“Gweh!” Nelfic uivou ao receber o golpe. Se estivesse em forma de dragão, teria sentido apenas uma brisa fresca. No entanto foi bem eficaz contra ela em tamanho humano!
Enquanto recuava, Gourry avançou e...
“Tch!” Nelfic saltou para fora do alcance da espada com a ajuda da grande asa que havia brotado para derrubar o prédio mais cedo.
Droga! Ela já tinha feito a mesma coisa antes. Estava realmente em guarda contra Gourry. Assim que estava no ar, Nelfic abriu uma segunda asa. A primeira encolheu para igualar seu tamanho, e ambas começaram a bater para mantê-la no ar. Então inspirou...
Sopro de dragão vindo de cima? Nada bom!
Nesse instante...
“Por aqui!” alguém chamou.
Olhei na direção da voz e vi um rosto espiando pela porta de um prédio próximo. Capitão Morgan de Palbathos? O que estava fazendo ali? Não, não tinha tempo para pensar nisso! Nós três pulamos para dentro em seguida, a porta se fechou atrás de nós, e...
Roarrrr! Então veio o uivo de um tornado.
Corremos pela casa... Ou melhor, pelo que parecia ser um restaurante. O fogo nos perseguiu, queimando a fenda na parede aberta pela asa de Nelfic e pelas janelas. Nós quatro, incluindo o Capitão Morgan, fugimos pela porta oposta para a avenida principal. E então a chama...
Roarrrr! O raio irrompeu pela porta, pelas janelas e pelos becos! Foi por pouco, mas todos conseguimos escapar ilesos.
Exceto que Galdorba está lá fora na avenida principal, não é? Olhei rapidamente ao redor e, em meio ao pânico na rua, vi uma criança chorando. Talvez por causa do raio que caiu antes, havia destruição e fumaça subindo por toda parte. As pessoas choravam, gritavam, lamentavam...
Porém não havia sinal de Galdorba agora. Deve ter ido atrás de nós.
A multidão ainda corria em meio ao caos confuso. Idosos estavam agachados na beira da estrada. Uma menina de uns sete ou oito anos, chorando do outro lado da rua, me encarou.
“Me ajuda, moça!” implorou ela, olhando para mim com os braços abertos. E eu...
“Me dá um descanso!” Wham! Me virei rápido e desferi um chute no rosto dela com toda a força que consegui reunir.
“Gbweh!” a garota soltou um grito estranho ao se chocar contra uma parede próxima!
“O quê?” Morgan gritou, horrorizado, contudo não tirei os olhos da garota.
A garota logo se sentou e uivou.
“Você! O que acha que está fazendo?”
Eu a encarei friamente em resposta.
“Você é um péssimo ator, Regenell!”
Sim, esse era o objetivo. A garota à minha frente não era uma vítima inocente em meio a toda aquela confusão. Era Regenell, que havia assumido a forma de uma criança humana na esperança de me enganar. Se fosse um ator melhor, talvez tivesse conseguido.
No entanto, apesar do disfarce, ignorou os adultos mais próximos para correr direto para mim... Sem mencionar que estava transbordando hostilidade. Já havia sido enganada por um mazoku de alta patente em forma infantil antes, então teria que se esforçar muito mais para me enganar.
“Maldita seja!” Regenell uivou enquanto se transformava em um dragão verde do tamanho de um cavalo. E então... “Hã?”
“Regenell...” falei, o encarando. “Realmente deveria ter escutado seus amigos, cara. Pena que agora é tarde demais.”
Com um tilintar, Gourry... Que estava bem ao lado de Regenell... Embainhou sua espada.
Ao perceber o que havia acontecido e tentar se debater, tarde demais, o corpo de Regenell inclinou-se para o lado e desabou no chão.
No momento em que percebeu que um inimigo estava sobre nós, Gourry moveu-se habilmente para cortar o dragão em plena transformação. Talvez se, em vez de praguejar, Regenell tivesse recuado direto para o céu como quando se transformou de ciclope em pássaro gigante seguindo o conselho de Galdorba, talvez pudesse ter desviado, mas...
Não havia mais luz nos olhos do dragão caído.
———
Apenas Nelfic e Galdorba permaneceram. Dito isso, não podíamos nos dar ao luxo de ficar por ali o dia todo. Comecei a caminhar na direção oposta àquela de onde havíamos deixado Nelfic mais cedo. Meus companheiros me seguiram. Gourry, Ran e o Capitão Morgan...
“Espere, Capitão Morgan, o que está fazendo aqui?”
“O que acha?” ele respondeu. “Recebi ordens do meu reino para encontrá-la, Senhora Lina.”
Aha... Pensando bem, fazia sentido. Afinal, o Capitão Morgan nos encontrou pessoalmente.
Ignorando o fato de eu ter parado de repente, ele disse.
“E quando enfim te alcancei... Esta era a situação. Não me pareceu apropriado prendê-la. Recebi relatos dos danos que eles causaram aos Cavaleiros da Lança Prateada, porém pensar que este é o Neosfeed em carne e osso...”
Retomei meu passo rapidamente.
“Neosfeed?”
“Um grupo que venera o Dragão Chamejante Ceifeed. Só ouvimos falar a seu respeito por meio de rumores. São diferentes da igreja de Ceifeed que se encontra em algumas cidades. Não há problema em venerar Ceifeed e defender a derrota de mazokus, contudo...”
Viramos para uma rua lateral. As coisas estavam bem caóticas ali também, no entanto não havia danos visíveis na área.
“O grupo deles é composto apenas por espécies não humanas, como dragões e elfos.”
“Dragões e elfos?” me peguei gritando. Fiquei surpresa, entretanto, falando de uma perspectiva racional, fazia todo o sentido que elfos e dragões adorassem o mesmo deus que nós.
O Capitão Morgan assentiu.
“Eles se autodenominam ‘Neosfeed’, a religião do verdadeiro Dragão Chamejante Ceifeed. Como nós, humanos, não somos fortes o suficiente para enfrentar mazokus, e produzimos grandes quantidades de emoções negativas, eles nos desprezam como mera bucha de canhão. Então, se recusam a nos aceitar como membros e nos consideram descartáveis na busca de seus objetivos, ou pelo menos é o que ouvi dizer.”
“Hã?”
“Dizem que, há muito tempo, quando um grande mazoku apareceu em Maricida, eles vieram para matá-lo, todavia acabaram queimando a cidade e seu exército no processo.”
“O quê?”
Isso explicava por que Regenell parecia ter tanto prazer em atacar os cavaleiros durante nossa luta perto da Vila Renihorn. E estavam preocupados com uma profecia de que eu era perigosa? Na verdade, era... Muito perturbador, para ser sincera.
Mas se o Capitão Morgan estava ciente desses caras da Neosfeed, com certeza o comandante dos cavaleiros também estava. Ainda que é verdade que não tinha obrigação de compartilhar informações com fugitivos procurados...
“Então, quantos existem no total?” perguntei.
“Não sei. Como eu disse, só ouvimos rumores.”
“E esses caras têm carta branca por aqui?”
“Não é como se estivessem tentando ativamente matar humanos. Apenas não se importam com danos colaterais. E não sabemos onde fica a sua base, quantos são, ou...”
“Raaaaaaaagh!”
Um uivo vindo da avenida principal interrompeu o capitão. Algo estava acontecendo lá?
“O que foi agora?” ele perguntou.
“Teremos que lidar com isso!” respondi em seguida.
———
Naturalmente, Toltas tinha sua própria guarnição ou algo parecido. Quando retornamos à avenida principal, a guarda da cidade estava em confronto com Galdorba e Nelfic.
Dito isso, não foi bem uma batalha... A guarnição disparou saraivadas de flechas à distância, e Nelfic as incinerou com seu hálito de fogo, deixando apenas gravetos carbonizados no chão. Abrindo suas asas negras, esmagou casas, e quando os destroços voadores fizeram os guardas recuarem, se aproximou com suas garras ou com seus cabelos transformados em lâminas. Alguns homens conseguiram bloquear esses ataques com suas armaduras e revidar com suas espadas, porém nenhum golpe conseguia penetrar seu torso antes que retaliasse com suas garras e cabelos.
Embora parecesse humana naquele momento, ela era um dragão. Até mesmo sua pele nua devia ser tão resistente quanto couro escamoso. Perfurá-la com qualquer habilidade ou arma comum seria quase impossível. As garras negras, os cabelos negros que se moviam livremente e as asas de dragão dobradas em suas costas faziam Nelfic parecer algum tipo de demônio.
Enquanto isso, Galdorba lançava feitiços aqui e ali para dizimar a guarnição ao redor. Quando removeu o capuz e a máscara pela primeira vez, ele tinha a aparência de um homem de cabelos prateados com a boca rasgada, porém parecia que não se sentia mais compelido a manter a farsa. Ele havia assumido uma espécie de forma de lobisomem-dragão, com um rosto bestial coberto de escamas prateadas e dois chifres projetando-se para trás.
Eu suspeitava que a razão pela qual eles não estavam retornando às suas formas de dragão completas era porque estavam receosos com meu Dragon Slave. Claro, não ia usar esse feitiço no meio da cidade, contudo se pudesse fazer acima da cidade... Por exemplo, se um inimigo enorme alçasse voo, consideraria uma opção viável. E eles estavam claramente determinados a me negar essa oportunidade.
Mesmo que a guarnição não conseguisse derrotar Nelfic ou Galdorba, contanto que conseguissem atrair um dos dois para longe, facilitaria as coisas para nós. Infelizmente, pelo que pude ver, a maioria dos guardas já estava morta ou escondida. Ninguém estava revidando... Então corri com um encantamento nos lábios! Estava mirando no dragão mais próximo, Nelfic!
“Ela está aqui!” ela gritou quando me viu, sua voz repleta de ódio.
Ouvindo seu aviso, Galdorba olhou para mim.
Gourry, Ran e eu corremos pelas lajes em ruínas em direção a Nelfic, fazendo-a hesitar por um momento, antes de começar a entoar algo. Ignorando-a, terminei meu feitiço!
“Sopro de Dinasta!”
Quase ao mesmo tempo...
“Graaaah!” Nelfic e Galdorba uivaram!
Eu havia usado um feitiço que envolvia um alvo em gelo mágico e depois o estilhaçava. Tinha poder suficiente para derrotar um oponente do nível de um demônio de bronze com facilidade. Claro, a última vez que o usei foi para lidar com um peixe estranho!
Krik! O corpo de Nelfic congelou audivelmente. Quando aconteceu... Duas camadas de círculos brancos a envolveram!
Aquela luz de novo!
Meu gelo mágico explodiu em milhares de flocos gelados. O oponente preso se estilhaçou junto... Ou essa era a intenção. No entanto, depois que o gelo se dispersou em pedaços, Nelfic permaneceu de pé, ilesa!
Aha... Os círculos eram um feitiço defensivo que Nelfic e Galdorba lançaram ao mesmo tempo, talvez seja o que usaram para mitigar meu último Dragon Slave. O motivo pelo qual Nelfic hesitou por um instante ao perceber que estava conjurando um feitiço foi provavelmente porque não tinha certeza se deveria prosseguir com o ataque ou parar para se defender.
“Malditos sejam todos vocês!” ela uivou. “Vocês mataram Regenell!”
“Se não estão preparados para as consequências, não arrumem briga!” retruquei.
Nelfic se preparou para enfrentar Gourry e Ran, que vinham em sua direção. E então... Um tremor percorreu seu corpo.
“Nelfic?” Galdorba gritou de perto.
Incapaz de compreender o que acabara de acontecer, Nelfic, presa ao chão, soltou uma tosse pequena e sangrenta.
“Essas acrobacias são melhor deixadas para os jovens, na minha opinião...” disse o Capitão Morgan, retirando a Espada Explosiva que usara para empalar Nelfic.
Tudo era bem simples depois que se aprendia o truque. Usamos o fato de os dragões estarem em guarda para Gourry contra eles. Gourry trocou de espadas com o Capitão Morgan e, enquanto mantínhamos os dragões distraídos, o Capitão Morgan subiu no telhado da casa próxima e saltou para desferir o golpe fatal. A princípio, pensei que ele se negaria, entretanto talvez percebendo que não havia outra escolha dadas as circunstâncias, acabou por concordar com o plano. Espadas e habilidades normais não conseguiam perfurar a pele de Nelfic, todavia a Espada Explosiva, cuja afiação aumentava proporcionalmente à magia ao seu redor, sem dúvida conseguiria!
Hora de manter esse ritmo e acabar com Galdorba!
Comecei meu próximo encantamento! O Capitão Morgan trocou de espadas com Gourry enquanto o inimigo se movia em sua direção.
“Humana tola!” Galdorba respirou fundo e... Crackapoppoppoppop! Liberou seu hálito de relâmpago.
Talvez prevendo seu movimento, o Capitão Morgan jogou sua espada sem cerimônia, atraindo o relâmpago para ela.
Gourry se aproximou pela esquerda, Ran pela direita. Mas Galdorba não recuou. Por quê? Porque eu ataquei pela frente um segundo depois! Era a mim que queria, então se eu atacasse como isca, teria que considerar se queria recuar ou arriscar.
Galdorba rugiu, invocando um tornado.
“Geh!”
O vento poderoso se transformou em uma parede que manteve Gourry à distância.
Ran, porém, prosseguiu com seu ataque! O vento ao seu redor estava anulando o tornado de Galdorba... E ela aproveitou a corrente para diminuir a distância!
Crackle! Uma luz brilhou na boca aberta de Galdorba!
Sopro de relâmpagos? Estava mirando em mim! Talvez não fosse tão poderoso quando o conjurou de forma apressada, contudo ainda era um relâmpago, e continuo sendo de carne e osso.
Aquele momento pareceu uma eternidade. Podia ver a bola de relâmpago na boca de Galdorba crescer e crescer e...
“Hup!” Ran emitiu um som, e de repente, chovendo em minha visão, inúmeras pequenas... Pontas de flecha?
Os projéteis de metal voaram pelo ar, sugados pela eletricidade, direto para Galdorba! Em algum momento, Ran recolheu as pontas de flecha caídas do chão e as jogou.
Se a eletricidade também o estava machucando, ou se estava apenas chocado com o gesto, Galdorba parou no lugar por um momento... E foi aí que mergulhei! Ele me atacou com suas garras para interceptar meu golpe, no entanto eu já havia terminado de conjurar meu feitiço. Pressionei as duas palmas das mãos contra seu peito e, no instante em que suas garras se lançaram contra mim...
“Onda Explosiva!”
Crash! Um golpe capaz de perfurar até mesmo a muralha de um castelo pulverizou o lobisomem-dragão prateado.
“Muito bem, pessoal” disse o Capitão Morgan com a postura de um oficial superior enquanto se aproximava do local.
“Você também não foi nada mal!” respondi. “Quer dizer, não estávamos contando muito com sua ajuda, mas foi um bom trabalho que fez ali. Fiquei preocupada que você ficasse com muito medo de pular quando fosse necessário.”
“Com certeza fiquei com medo. Não pulo de um telhado desde criança.” respondeu o capitão com um sorriso tranquilo.
Me ocorreu, talvez tarde demais para me importar... Será que esse cara era melhor do que eu imaginava? Pensando bem, durante toda a caçada ao “Lorde das Trevas do Norte”, achei estranho o reino ter enviado um cara da guarda local. Mas se fosse um dos lutadores mais habilidosos do país, isso explicaria tudo. Também explicaria por que seu pedido para levar dois andarilhos como nós para a luta tinha sido atendido tão fácil.
Ainda assim, se meu palpite estivesse certo... Deveria tê-lo usado para algo melhor e evitado o arriscado ataque direto ao perigo.
Se ele tinha adivinhado o que estava pensando ou não, o que fez foi me lançar um olhar brincalhão.
“Estou surpreso que tenha confiado tanto em mim. Poderia só ter fugido com aquela sua espada mágica. Ou aproveitado a chance para te atacar de surpresa, cumprindo minhas ordens e ganhando a simpatia do Neosfeed ao mesmo tempo.”
“Você não faria isso!” afirmei, acenando com a mão em sinal de desdém. “Quer dizer, já tinha nos salvado antes, não é?”
Se quisesse nos matar, bastava ter trancado a porta quando Nelfic estava cuspindo fogo em nossa direção.
“Verdade!” respondeu, observando a cidade destruída. “Emocionalmente, não podia só deixar esses vândalos à solta...”
Wpsh! De repente, ouvi o som de asas batendo. Olhamos em volta, confusos, e vimos que Nelfic havia sumido de onde estava deitada. Usando sua magia dracônica para acelerar, ela voou para longe, cambaleando.
“Ela sobreviveu?”
Tive que admitir, a garota tinha bons instintos. Se tivesse tentado nos atacar, eu teria percebido sua intenção hostil e notado que seguia com vida.
“Então, suas áreas vitais são diferentes das de um humano...” Morgan sussurrou, observando o par de asas batendo desaparecer na distância. Dada a velocidade, não havia como alcançá-la.
Então ela escapou... Senti que aquilo poderia nos trazer problemas no futuro.
“Bem, então...” disse o Capitão Morgan, voltando o olhar para o extremo norte. “Sigam nessa direção por mais cinco dias e chegarão à fronteira. Além dali fica o Ducado de Belheid, embora não tenha ouvido falar de um país que faça fronteira com um deserto. Voltarei à capital, direi que fui atacado por um grupo que se acredita ser da Neosfeed em Toltas, e que você e seus companheiros foram mortos no conflito.”
Agradeço a ajuda, é claro, mas...
“Por quê?”
“Ah, só estou com preguiça. Ah, certo... Também lhe devo um favor por sua ajuda em derrotar o Lorde das Trevas do Norte.”
“Entendo. Bem...” quase disse ‘até logo’, porém tive que me conter. Afinal, era improvável que nos encontrássemos outra vez. “Cuide-se.”
E assim, nós três e o Capitão Morgan seguimos caminhos diferentes. É óbvio que o mundo é um lugar grande. É grande... Contudo talvez também seja óbvio que não é infinito.
———
“Hmm...” estávamos na sombra fresca de uma árvore em uma colina alta. Ran se espreguiçou. “O tempo está bom.”
Era uma tarde tranquila. Sentei-me na grama ao lado da garota e respondi em uma voz preguiçosa.
“Com certeza.”
Estávamos olhando para uma cerca ao longo de colinas verdes que quase parecia pertencer a uma fazenda.
“Enfim chegamos!” disse Gourry, sentado ao meu lado, com uma voz significativa, olhando na mesma direção.
“Pois é...” sussurrei também. Essa cerca improvisada era, na verdade, a fronteira entre o Reino de Luzilte e o Ducado de Belheid.
Bom... Apesar da calma com que conversávamos, planejava usar meu feitiço de Levitação para nos levar para o outro lado da fronteira ao anoitecer! Não estávamos naquela colina para um piquenique, e sim para observar a segurança da fronteira. Vimos alguns soldados de ambos os países patrulhando seus respectivos lados da cerca, no entanto eram poucos e distantes entre si. Graças a isso, estávamos bem tranquilos em relação a toda a operação.
Além do mais, era importante reservar um tempo para relaxar assim. Quando parei para pensar, nosso futuro seguia bastante incerto. Só porque cruzamos a fronteira não significava necessariamente que aqueles caras da Neosfeed desistiriam de nós. Duvidava que o territorialismo humano significasse alguma coisa para eles.
Seria uma coisa se a ‘organização’ deles se resumisse a cinco caras... Entretanto não contava com essa possibilidade. E depois que Nelfic contasse ao resto do grupo sobre nossas habilidades e como tínhamos matado dois de seus amigos, é provável que viriam mais bem preparados da próxima vez. Também havia perdido meus talismãs amplificadores de magia antes desta jornada tão distante, então meu repertório de feitiços era menor do que antes.
Agora, se pudesse dominar feitiços que utilizassem o poder dos Lordes Dragões, utilizáveis aqui nas terras exteriores, seria uma história diferente. Todavia não havia como saber se seria tão fácil quanto substituir algumas linhas de um encantamento por outro. Havia muito envolvido no lançamento de feitiços, desde a compreensão do próprio encantamento até o controle do próprio fluxo mágico e afinidades individuais. Ran havia me ensinado as palavras do feitiço de vento que usou, mas eu não consegui ativá-lo nenhuma vez em todas as minhas tentativas até agora. Havia muito mais para estudar e experimentar.
É claro que eu queria aprender, em parte para satisfazer minha curiosidade e em parte para ajudar a combater os caras do Neosfeed... Matando dois coelhos com uma cajadada só.
“Então, Ran, o que vai fazer depois que cruzarmos a fronteira?” perguntei, assim que a pergunta me ocorreu.
“Fazer o quê?”
“Bem, você sabe. Se ficar com a gente, vai continuar se metendo em várias confusões.”
“Verdade...” apenas movendo os olhos, Ran observou uma borboleta voando por perto. “Se eu não gostar, digo adeus. Porém vou ficar com vocês até lá.”
“Tem certeza?”
“Tenho certeza. Contanto que não fique de vela com vocês dois.”
“Hã?”
De onde veio isso? Gourry estava distraído e parecia não ter ouvido, contudo...
“Mudando de assunto, Ran, queria te perguntar uma coisa.” mudei de assunto rapidamente. “Sobre aquele seu cajado...”
“O Bastão Legal?”
“É, esse mesmo. Acha que poderia dar um nome melhor para ele?”
“Hã? Bastão Legal é um ótimo nome. Te faz pensar... ‘Wow, que legal!’ Não é?”
“Claro... Mesmo assim, nada contra o gosto dos seus parentes, no entanto não gostaria de um nome mais digno para ele?”
“Hmm...” ela pensou um pouco mais. “Oh! A árvore de onde ele veio tem um nome ilustre! Poderíamos chamá-lo assim!”
“Um nome ilustre?”
“Sim! Há uma antiga lenda de onde venho sobre os heróis Democain e Lamocael, que viveram por um tempo super longo. A árvore também está viva há eras, então a nomeamos em homenagem a eles, para significar basicamente ‘a árvore muito longeva’!” Ran sorriu.
“Oh? Parece promissor. Então, qual é o nome?”
“A árvore Mocamoca!”
“Por quê?” me peguei gritando.
“Bem, de De-moca-in e La-moca-el...”
“Por que escolheram essas partes?”
Se realmente fosse parente da árvore sagrada Flagoon do reino interior... E seu nome verdadeiro fosse mesmo Árvore Mocamoca... Seria meio decepcionante em muitos sentidos.
“Ok! Vamos usar o nome da árvore e chamá-la de Bastão Mocamoca! O que acha, Nissy Lina?” Ran assentiu com entusiasmo, parecendo muito animada com a ideia.
“Espere, Ran, calma. Poderia pensar um pouco mais a respeito?”
Tentei impedi-la antes que se apegasse demais à ideia, mas...
“Por quê? É o Bastão Mocamoca! De onde venho, todo mundo acharia super legal! Rostir Gou também acha que soa legal, aposto!”
Por que você faria essa pergunta para alguém que nem estava prestando atenção? Pelo menos, achava que não, porém Gourry, que talvez por acaso tivesse sintonizado por um instante, sorriu sem jeito e disse.
“Não é ruim, contudo eu teria chamado de Varinha Anciã ou Cajado Ancestral ou algo assim.”
Wow, esses nomes são muito legais! Ou talvez qualquer coisa soasse melhor do que... Bastão Mocamoca.
Ran estufou o peito e sorriu.
“Viu? Rostir Gou também acha que está tudo bem!”
“Só quero saber por que escolheu essas partes dos nomes!” gritei.
Ainda não tínhamos nenhuma pista de como voltar para casa, e tínhamos uma longa jornada pela frente.
Todavia... Eu tinha a sensação de que a longa jornada seria para que eu e Ran concordássemos sobre o que era legal.
Posfácio:
Cena: O Autor (Hajime Kanzaka) e L
L: Saiu... A terceira parte, que você jurou que nunca aconteceria, saiu.
Au: Não existem absolutos neste mundo, e o espaço está cheio de infinitas possibilidades.
L: Ah, cala a boca! Não se empolgue só porque o último volume vendeu bem!
Au: Desculpe por me empolgar. Mas enfim, este foi Slayers vol. 17: “A Longa Estrada para Casa”!
L: Bem, tudo o que me importa é que voltei para o posfácio! Mesmo assim... Imaginei que você passaria o resto da vida dando desculpas e vagabundeando.
Au: Quem pensa que sou? Ou pelo menos é o que gostaria de retrucar, porém na verdade também pensei que seria esse o caso.
L: Então por que a mudança de ideia?
Au: Algumas coisas na minha vida se acalmaram e me absorvi em livros, jogos, todo tipo de lançamento novo... E com toda essa energia me recarregando, descobri que tinha vontade de criar algo novo.
L: Tipo Gu*pla?
Au: Em parte, kits de montar como Gu*pla, sim, contudo agora que estou sendo atacado pelo inimigo mortal da humanidade, a vista cansada, tem ficado mais difícil. Digamos que seja o desejo de escrever uma nova história. Esse tipo de coisa. Tinha ideias vagas para uma história que não fosse de Slayers, no entanto enquanto pensava a respeito, senti que era mais uma ideia de outra pessoa e que eu deveria publicar uma história mais interessante, então desisti.
L: Então enfim voltou.
Au: Basicamente. Senti que precisava fazer algo pelos fãs que têm apoiado o universo de Slayers todo esse tempo.
L: Um gesto melhor teria sido escrever algo não tão terrível.
Au: Eck! Não diga isso!
L: Ah. Ele tossiu sangue.
Au: Estou bem! Duzentos mililitros não contam!
L: Na verdade é bastante coisa!
Au: É menos do que em um mangá de batalha! Não que estejamos em um mangá de batalha!
L: Mas existem versões da parte três em outros lugares além dos romances, certo? TRY no anime e Knight of Aqualord no mangá. Onde essa parte três se encaixa? A versão do romance é a versão canônica?
Au: Hmm... Não gosto muito de falar sobre “cânone” ou rejeitar as outras versões. Digamos que seja uma parte três paralela.
L: Bem, se é essa a sensação... Você realmente acha que vai escrever isso até o fim? O conteúdo até agora dá a impressão de que vai continuar por um bom tempo.
Au: Erk! Bem... A duração da história é uma coisa, porém também há problemas com a duração da jornada deles. Slayers não é muito claro sobre suas medidas por um motivo. Eu escrevo, tenho uma ideia e pesquiso, contudo quando se está escrevendo uma história de viagem, considerar as distâncias é um dos maiores obstáculos, na minha opinião.
L: Então de fato pensou nisso, Sr. Autor?
Au: Claro que sim! Pensei em muitas coisas e criei uma lógica e cenários! E depois, cortei tudo para não entediar as pessoas com explicações! É bem típico!
L: Não é!
Au: É sim! Para esta história também, a princípio tive ideias sobre como conseguir passes e como eles são usados, e toda essa explicação sobre como funcionariam... No entanto não tornou a história mais interessante! Não vai haver nenhum momento na história em que Lina esteja usando seu feitiço para voar e diga: “Há um posto de controle, não tenho um passe! O que vou fazer?”
L: Ah... É, justo.
Au: Toda essa coisa de voar é uma grande trapaça.
L: Está reclamando agora? Depois de já ter escrito? É verdade que feitiços de voo parecem capazes de burlar muitos dos dispositivos de segurança da sociedade.
Au: Entretanto, por causa disso tudo, as cenas em que ela de fato usa o passe não teriam impacto, então só as removi.
L: Então não existem passes no mundo?
Au: É mais como se existissem, mas Lina não fala sobre usá-los. Além do mais, quando penso nas distâncias percorridas e tudo mais, é bem desafiador. Estive pesquisando online, e as pessoas do passado percorriam as 53 estações da Tokaido, cerca de 500 quilômetros, em quinze dias ou menos. Então, com base nessas informações, quando penso em quanto tempo levaria para viajar pelo mundo... A conclusão a que chego é que sou muito grato por termos aviões, trens e carros.
L: Essa é a sua conclusão?
Au: Claro que sim! Quinhentos quilômetros em quinze dias dão cerca de 33 quilômetros por dia. Considerando que a velocidade média de caminhada é de 4 quilômetros por hora, significa oito horas de caminhada por dia! Eu nem gosto de caminhar por cinco minutos!
L: Talvez... Você devesse se esforçar mais? Sabe?
Au: Porém, deixando de lado minhas fraquezas pessoais, as pessoas naquela época trabalhavam demais! Elas deveriam parar em um café quando se cansassem, como fazemos hoje em dia na cidade. Não que tivessem muitos cafés, é claro. Quando se está cansado, é bom ter um lugar por perto para descansar, embora nem sempre há um. Isso pode levar ao colapso por exaustão! E ainda assim, as pessoas caminhavam.
L: Bem, alguns podem dizer que elas não tinham escolha. Talvez andar a cavalo? Contudo apenas algumas pessoas tinham acesso a essa opção.
Au: Mais um motivo para apreciarmos nossas vidas modernas! A infraestrutura de transporte é maravilhosa, contudo outras coisas, como ar-condicionado, são verdadeiramente divinas! Aliás, estou escrevendo este posfácio no verão.
L: Bom, é ótimo ser grato pela civilização moderna, só que o que você fará em relação ao número de dias que Lina e companhia levam para viajar?
Au: Decidi não pensar nisso.
L: Você só desistiu?
Au: As estradas nem sempre são retas, e não é como se andassem a pé o tempo todo, e mesmo que planeje tudo com muita precisão, é como falei sobre os passes antes... Não cria muitas oportunidades narrativas, então não faz muito sentido.
L: Deixando de lado as distâncias de viagem, e quanto à sua velocidade de escrita em relação à extensão da história?
Au: Bem, er...
L: Estamos falando de várias ideias que não apareceram neste volume... Quantos volumes seriam necessários se incluísse todas na história? Teria que escrever um volume por mês!
Au: Bem, por essa mesma lógica, se vivesse até os 170 anos, poderia escrever um volume a cada dez anos e ainda terminar!
L: Por acaso virou uma tartaruga dos Galápagos agora? Quanto tempo acha que vai aguentar assim? Pois é. Para te obrigar a trabalhar duro até lançar o próximo volume, você só poderá usar o ar-condicionado no inverno e o aquecedor no verão!
Au: Hng! Na verdade, resmunguei instintivamente, contudo nesses últimos tempos a temperatura tem estado mais alta do que a que se consegue programar o aquecedor no verão. Também está mais frio lá fora no inverno do que a que consegue programar o ar-condicionado.
L: Tem razão! Ah... Então, nada de aquecimento ou resfriamento.
Au: Desculpe. Farei o meu melhor. Por favor, me perdoe.
L: Sim, faça o seu melhor! E agora que eu forcei o autor a se mexer, pessoal, até o próximo volume!
Posfácio: Fim.
***
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