Capítulo 03: É aterrorizante quando uma criança normalmente quieta fica irritada
Aconteceu uma semana atrás... Na manhã do dia em que Zagan e Nephy se conheceram.
Ultimamente, vinham ocorrendo sequestros em série de jovens mulheres na cidade comercial de Kianoides. Os criminosos eram um pequeno grupo de feiticeiros, e parecia que as garotas estavam sendo usadas como sacrifícios para alguma feitiçaria repugnante.
O grupo de Chastille era o esquadrão de subjugação desses criminosos. Depois de derrotar os feiticeiros proeminentes envolvidos no escândalo, eles resgataram as garotas capturadas. Foi sem dúvida o retorno triunfante dos heróis... E algo estranho aconteceu logo depois disso.
As garotas resgatadas foram deixadas aos cuidados de reforços da igreja, e no início da manhã, enquanto o esquadrão de subjugação retornava a Kianoides à frente deles, Chastille não estava usando seu equipamento, pois havia acabado de tomar banho.
E naquele momento, o homem que a protegia de repente sacou sua espada e atacou seus aliados. Graças à ajuda de seus outros camaradas, ela conseguiu escapar daquele lugar, mas não possuía armas decentes e foi encurralada em pouco tempo.
Porém, aquele homem era alguém diferente, um feiticeiro que havia arrancado a própria pele. Mais tarde, seu corpo seria encontrado na margem do rio.
Chastille estava prestes a experimentar a mesma dor... Não, sabia que teria um destino pior, contudo naquele momento, “alguém” acabou salvando-a.
Não podia ser... Devia ser um sonho.
Era um homem com olhos muito mais cruéis do que os daquele que a atacou. Na verdade, ele matou um oponente que implorava por sua vida sem qualquer hesitação, mesmo sendo um verme.
Mas ainda assim, pensou em algo estranho. De alguma forma, ele também parecia solitário.
Após uma breve investigação, descobriu que se tratava de um feiticeiro chamado Zagan. E, desde então, por algum motivo, Chastille não conseguia pensar em outra coisa senão nesse feiticeiro.
Sim, naquela manhã, quando foi atacada na Floresta dos Perdidos, Zagan salvou Chastille.
Jogando os cabelos ruivos para trás, ela se jogou sobre a mesa de trabalho.
— Haaa... — e então, soltou um suspiro profundo.
— Preocupada com alguma coisa, Arcanja Chastille?
Ouvir uma voz chamando-a por trás fez Chastille pular.
— M-Minhas desculpas, Vossa Eminência Clavwell!
Um velho vestindo as vestes cerimoniais de um sacerdote da mais alta posição estava à sua frente agora. Um Cardeal... Na verdade, um dos mais altos escalões da igreja, e superior direto de Chastille.
O velho então esboçou um leve sorriso e balançou a cabeça.
— Por favor, não seja tão formal. Se a heroína que subjugou os criminosos por trás dos sequestros em série se humilhasse dessa forma, eu atrairia a hostilidade da população. Sem mencionar que você também é a Donzela da Espada Sagrada, certo?
Donzela da Espada Sagrada, esse era o título concedido a Chastille.
Capaz de atravessar os círculos mágicos dos feiticeiros, anulando os efeitos da feitiçaria, e se todos os doze estivessem reunidos, dizia-se que até mesmo um Arquidemônio poderia ser derrotado por eles. As Espadas Sagradas eram as armas supremas da igreja.
Ao contrário de quando foi salva por Zagan, Chastille estava usando sua Armadura Ungida, e ao seu lado estava uma espada longa cujo comprimento quase alcançava sua altura. Ambas eram armas anti-feiticeiros e também serviam como traje formal para tais ocasiões de etiqueta.
Chastille então balançou a cabeça, negando.
— Eu até perdi quatro dos Cavaleiros Angelicais que me foram confiados por Vossa Eminência. Este é um fracasso causado pela minha inexperiência. Por que deveria ser recompensada por isso?
Meyers, Emilio, Jamil e Doran eram todos Cavaleiros Angelicais orgulhosos e galantes.
Naquela manhã, se não fosse pelo ataque surpresa, era provável que teriam alcançado a vitória facilmente, mesmo contra aquele feiticeiro.
Suas mortes foram um evento trágico causado pela negligência de Chastille.
O velho Cardeal então balançou a cabeça em um gesto afetuoso.
— Não é culpa sua. Os que deveriam ser abominados são aqueles feiticeiros malditos que manipulam tamanha feitiçaria repulsiva. Você vingou de forma esplêndida seus camaradas caídos e retornou para nós. É justo que se orgulhe de seu feito.
— Entendido.
Com uma expressão complexa no rosto, Chastille assentiu com a cabeça.
Não foi ela quem vingou seus camaradas caídos. Foi um feiticeiro que passava por ali. Se não fosse por sua intervenção, nem mesmo Chastille estaria presente.
E, no entanto, quem estava sendo altamente reconhecida ali era Chastille.
Chastille era uma crente devota na igreja, contudo também entendia que a igreja não era uma existência tão pura e sagrada quanto afirmavam. Ela tinha responsabilidades como Arcanjo, um título que conquistou devido à sua aptidão com uma Espada Sagrada, entretanto não tinha intenção de abandonar sua própria vontade.
Ao menos sabia diferenciar entre as palavras que devia e as que não devia dizer.
O Cardeal então encarou Chastille.
— Chastille, parece que você tem investigado o feiticeiro Zagan, correto?
— Tenho. — respondeu Chastille, com um aceno de cabeça.
— O feiticeiro que nos atacou se apresentou como Zagan.
Esse era, de fato, o nome que o agressor usou. Todavia Zagan é, na verdade, o nome do feiticeiro que me salvou.
Em outras palavras, estava assumindo esse nome e cometendo crimes.
Um dos motivos pelos quais Chastille estava investigando Zagan era porque queria provar sua inocência. E, encarando o Cardeal, abriu os documentos que vinha investigando.
Embora, pelo que apurei, o feiticeiro conhecido como Zagan parece ser uma pessoa diferente.
O Cardeal então assentiu como se já soubesse disso.
— É provável que fosse o feiticeiro conhecido como “O Descascador de Rostos”. Como o próprio nome indica, ele descasca a pele fresca das pessoas e a usa para alimentar uma feitiçaria repulsiva. Havia uma ordem para subjugá-lo. Parece que também estava envolvido nos sequestros em série.
Com essas palavras, Chastille entendeu que o Cardeal também estava investigando o assunto.
— Ouça-me, Chastille. Este caso... Não foi encerrado. Parece que, além dos feiticeiros que revelamos, ainda há um verdadeiro culpado por trás de tudo.
— Tch, apareceram mais vítimas?
O Cardeal balançou a cabeça como se a estivesse confortando.
— Não seja precipitada, Chastille. Graças aos esforços do seu esquadrão, o plano daqueles malditos feiticeiros certamente foi frustrado... Contudo, após nossa investigação do esconderijo deles, chegamos à conclusão de que deve haver um verdadeiro culpado que passou despercebido.
Havia sobreviventes além do “Descascador de Rostos” que atacou Chastille.
Eu... Tenho a chance de vingar meus camaradas? Depois de engolir em seco, tomada pela tensão, o Cardeal pronunciou seu nome em voz solene.
— O feiticeiro Zagan... Um feiticeiro que vem acumulando poder a uma velocidade assustadora nos últimos anos.
— O quê... — sem querer, Chastille elevou a voz. — Esse homem não deve ter nenhuma relação com o culpado.
— O nome de um feiticeiro sem nenhuma relação com o culpado surgiu duas vezes durante os mesmos incidentes. Não pode ser mera coincidência. — e com essa declaração, o Cardeal proferiu o seguinte em tom grave. — Feiticeiros são maus. Devem ser destruídos. Mesmo que ele não tenha nenhuma relação com o incidente, não há como mudar o fato de que é um homem mau que deve ser levado à justiça. Portanto, nosso ramo em Kianoides executará a subjugação do feiticeiro Zagan.
— Tch...
Este era um preceito de obediência absoluta propagado pela igreja.
Poderia até ser apropriado chamá-lo de maldição, na verdade.
Até que os feiticeiros sejam aniquilados, a igreja continuará a caçá-los.
Ainda que Zagan tenha sido falsamente acusado de um crime, uma vez que a igreja decidiu caçá-lo, não havia como revogar a decisão. Mesmo que um portador de uma Espada Sagrada como Chastille fosse derrotada, mesmo que milhares e dezenas de milhares de cadáveres fossem empilhados, a igreja não pararia até que o feiticeiro fosse morto.
Considerando esse fato, não fazia sentido algum para Chastille alegar sua inocência.
Pelo contrário, era até possível que fosse considerada uma traidora e julgada como herege.
Não tenho nenhuma intenção de valorizar minha própria vida, mas nada mudará se eu agir sem cautela.
Se quisesse retribuir o favor àquele que salvou sua vida, não poderia só delirar ou espernear aqui e ser pega.
Teria de tomar medidas para protegê-lo e permitir que escapasse.
Depois de fechar os olhos por um breve período, Chastille abriu a boca.
— Então, Vossa Eminência, por favor, conceda a Arcanja Chastille a tarefa de subjugar este Zagan. Por favor, conceda-me a oportunidade de apagar a desgraça do meu fracasso anterior.
Em resposta a essas palavras, o Cardeal soltou um — Oooh... — de admiração.
— Muito bem dito. Como se espera da nossa Arcanja, a Donzela da Espada Sagrada.
Chastille sabia que sua decisão poderia levá-la à ruína. Apesar disso, tinha suas próprias convicções.
Embora pudesse estar indo contra a Igreja, havia coisas pelas quais não abriria mão.
Ainda que ninguém a agradecesse, mesmo que as pessoas do mundo a desprezassem, se tivesse que jogar fora suas convicções apenas para proteger sua vida, preferiria a morte.
Justamente por ser esse tipo de mulher, ela recebeu uma Espada Sagrada aos dezessete anos. E além disso...
Aquele homem... Tinha olhos muito solitários.
Era como se, embora no fundo do coração buscasse calor, não conseguisse aceitá-lo e afastasse tudo. Eram os olhos de um cão vadio.
Naquele momento, quem de fato precisava ser salvo não era Chastille, e sim aquele homem. Ela chegou ao ponto de pensar essas coisas...
Foi por essa razão que Chastille assumiu essa missão.
***
— O senhor está acordado, Mestre?
Zagan era alguém que, fundamentalmente, dormia sentado.
O trono do castelo ficava no centro da barreira, sendo também o ponto onde toda a sua funcionalidade estava concentrada. Se ele se sentasse ali, não importava o ataque que recebesse, não perderia a vida com um único golpe. E, acima de tudo, se uma presença suspeita se aproximasse, seria capaz de senti-la na hora que adentrasse a barreira.
Em outras palavras, dentro da firme proteção de seu castelo, este era o espaço mais perfeitamente protegido.
Em vez de dormir atravessado sobre, poderia reagir melhor se estivesse sentado. Foi por esse motivo que, sem nem perceber, dormir ali se tornou um hábito.
E agora era manhã.
— Bom dia, Mestre. — Nephy, vestida com roupas de criada, o cumprimentou.
Não foi como se o tivesse acordado.
— S-Sim. — enquanto Zagan respondia, Nephy assentiu com a cabeça e curvou-se.
— Os preparativos para o café da manhã estão completos. Você vai comer?
— Eh, café da manhã? Você que preparou, Nephy?
— Sim.
De fato, na manhã anterior, ela havia dito que prepararia uma refeição, todavia pensar que estaria preparada para fazê-lo no dia seguinte...
E, nesse momento, uma pergunta repentina lhe veio à mente.
— Será que você estava esperando eu acordar esse tempo todo?
— Sim.
— Pode só me acordar em momentos como este.
— Porém você parecia estar dormindo um sono profundo...
Ao ouvir isso, Zagan achou algo estranho.
Agora que penso, ter alguém bem na minha frente e não acordar... É bastante estranho, não é?
Zagan sabia que pular uma simples noite de sono não era suficiente para fazê-lo cair em um sono tão profundo.
Enquanto inclinava a cabeça, confuso, lembrou-se de que Nephy estivera parada, imóvel, o tempo todo.
— Se ficou parada aí esse tempo todo, não está cansada?
— Estou bem. Acredito que seja graças à mana nas minhas botas.
Agora que se lembrava, a vendedora da loja de roupas dissera que elas tinham o poder de aliviar a fadiga. É certo que parecia ter esse efeito.
— Enquanto esperava, ficou parada aí o tempo todo?
— Não, fiquei olhando para o seu rosto, Mestre.
— E-Entendo...
Ao ouvir aquilo bem na sua frente, Zagan cobriu o rosto.
Porém, já que ela se dera ao trabalho de preparar uma refeição, não podia fazê-la esperar para sempre.
— Café da manhã, certo?
— Sim.
Enquanto Zagan se levantava, Nephy deu um passo para o lado e fez uma reverência.
Ela já tinha os modos de uma criada profissional. Enquanto se dirigia para a sala de jantar do castelo, Zagan soltou um leve — Ah!
— Hã...? Aconteceu alguma coisa?
— Ah, hmm, Nephy.
— Sim.
Em resposta à garota que inclinava a cabeça para o lado enquanto o encarava sem expressão, Zagan coçou a nuca e a chamou com a voz trêmula.
— Bom dia, Nephy.
Essas eram as palavras que não conseguira dizer no dia anterior.
Nephy piscou duas vezes, como se estivesse surpresa, e então falou com uma voz de alguma forma encantada.
— Sim. Bom dia, Mestre.
De alguma forma, o interior do peito de Zagan se sentia aquecido e a sensação era estranhamente boa.
***
A porta à direita do salão de entrada dava para uma sala de jantar.
A sala espaçosa do outro lado tinha uma única mesa comprida que podia acomodar cerca de vinte pessoas, e um lustre extravagante pendia sobre ela.
Este lugar também deveria ser como um cemitério cheio de esqueletos e teias de aranha, contudo agora estava incrivelmente arrumado. Até a toalha de mesa não tinha um único vinco, como se fosse nova.
Parecia que Nephy era o tipo de garota que, quando recebia uma tarefa, se prontificava e a executava da forma mais meticulosa possível.
Na mesa agora imaculada, havia uma salada regada com azeite e pão de aparência macia. Justo quando Zagan pensou que uma das tigelas estava vazia, Nephy despejou um pouco de sopa aquecida nela. Parecia que havia levado em consideração o fato de Zagan poder não acordar na hora.
Era uma quantidade moderada de comida, no entanto até Zagan entendeu que era um cardápio com um bom equilíbrio nutricional.
Então, inclinou a cabeça para o lado.
— Hm? Compramos pão ontem?
— Não. Eu assei agora mesmo.
— Você sabe fazer pão? Sozinha? — Zagan fez uma careta de incredulidade, e Nephy inclinou a cabeça para o lado como um passarinho.
— É estranho?
— Não sei. É a primeira vez que conheço alguém que cozinha tão bem. Pelo menos, nunca houve ninguém ao meu redor que conseguisse preparar uma refeição tão apetitosa.
— É mesmo? — embora tenha murmurado essas palavras em tom monótono, Zagan não deixou de notar que suas longas orelhas estavam tremendo.
Será que é um sinal... De que está encantada? Era certo que, quando Nephy ficava envergonhada, as pontas de suas orelhas ficavam vermelhas.
Diziam que os olhos revelavam muito mais sobre uma pessoa do que a boca, todavia, no caso de Nephy, talvez fosse mais fácil observar suas orelhas.
Apesar de achar essa descoberta agradável, Zagan percebeu que Nephy seguia estando de pé.
Sobre a mesa, apenas a porção de comida de Zagan havia sido preparada.
— Nephy, você já comeu?
— Não.
— Então coma comigo aqui.
Na verdade, a ideia de comer sozinho deixava Zagan desconfortável.
Nephy então se mexeu um pouco sem jeito, como se estivesse preocupada.
— O que foi?
— É que... Só preparei o suficiente... Para a porção do Mestre.
— Você não pretendia comer?
— Não, só me esqueci de fazer a minha própria porção.
Realmente parecia algo que essa garota faria.
E deixar uma garota tão admirável sozinha e comer sozinho não era algo que Zagan pudesse tolerar.
— Então, tudo bem dividir ao meio, certo? — Zagan partiu o pão em dois.
O pão recém-assado ainda estava um pouco quente e se abriu facilmente para os lados, como se estivesse se esticando. Quando o aroma perfumado roçou o nariz de Zagan, ele soltou um suspiro reflexivo com um — Hooo.
Entretanto, Nephy ainda não se sentou.
— Que tal se sentar?
— Hmm, a única cadeira que consegui preparar... É a que você está usando, Mestre.
Para começar, este cômodo estava tão sujo que não podia ser considerado um ambiente adequado para uma refeição. Se Nephy tivesse limpado além de preparar a comida, então não havia como ter preparado todas as cadeiras.
Zagan teria se sentado em outro lugar sem se preocupar em se sujar, mas todas as outras cadeiras já haviam sido guardadas.
Se eu ceder a cadeira da mesa para ela... Não, Nephy nunca se sentaria na mesa que preparou só para mim, né?
Porém, não conseguiu encontrar nada que se parecesse com uma cadeira por perto. Então, por enquanto, achou que não havia problema em compartilhar a cadeira. Contudo, a cadeira não parecia ser muito resistente. Se os dois se sentassem, era óbvio que tombaria.
Não, deve ser possível mantê-la firme, certo?
Ainda que fosse inútil tentar sentar cada um em metade da cadeira, talvez funcionasse se ela se sentasse no seu colo. Considerando o peso de Nephy, não o incomodaria nem um pouco se se sentasse ali enquanto comiam, e como ambos estariam de frente para a comida, era uma ótima ideia. Pensando bem, Zagan tinha acabado de acordar e talvez estivesse meio dormindo.
Por isso, não duvidou nem por um segundo que essa era a melhor solução.
Depois de se certificar disso, Zagan assentiu com a cabeça.
— Então pode sentar aqui.
— Aqui, você quer dizer...? — Nephy fez uma careta.
Ao ouvir a voz perplexa de Nephy escapar, Zagan apontou impiedosamente para o próprio colo.
Era evidente que os olhos azuis de Nephy tremeram de desconforto ao ser instruída a sentar em seu colo. Parecia até que as pontas de seu cabelo branco como a neve estavam se arrepiando.
Pela reação da garota, Zagan enfim se deu conta de que estava dizendo algo estranho.
Hm? Não, espera, sentar no meu colo... Não é quase a mesma coisa que se abraçar? Voltando a si, até ele percebeu que era uma péssima ideia, o que o fez querer se encolher em posição fetal e morrer.
No entanto, Nephy então abriu a boca resolutamente para falar.
— Não posso cometer um ato tão grosseiro.
Era o mínimo que se podia esperar. Também era a melhor resposta possível para tal situação. Se Zagan apenas tivesse concordado com a cabeça, tudo teria se resolvido ali.
Entretanto, ouvir a resposta diplomática e eficaz de Nephy deixou Zagan perturbado, então acabou sendo obstinado.
— Não se preocupe. Estou dizendo que está tudo bem.
O que diabos eu estou dizendo? Talvez apenas não quisesse admitir o próprio erro. Honestamente, se fosse algo que pudesse arrancar, com certeza teria arrancado a própria boca depois de dizer aquilo.
— M-Mas...
As pontas das orelhas de Nephy estavam tingidas de vermelho. E enquanto observava o seu rosto, que parecia estar se enchendo de lágrimas...
O que é isso? Sinto que vou encurralá-la com mais um empurrão.
Mesmo sabendo que era rude da sua parte, depois de vê-la tão abalada, sentiu vontade de ver mais.
Limpando a garganta com uma tosse, Zagan bateu mais uma vez na parte superior das pernas.
— Vamos, rápido. A comida vai esfriar.
— Ugh... — junto com um suspiro delicado e longo, as orelhas pontudas de Nephy caíram.
Parecia que havia desistido.
— Mestre, tudo será... Como o senhor quiser... — Nephy sentou-se timidamente no colo de Zagan.
Ela realmente sentou! A sensação macia de suas nádegas era transmitida através da saia. Ele queria abraçá-la por trás e acariciá-la.
Sem sequer se dar conta, o som de Zagan engolindo saliva ecoou.
Porém ainda assim, como era uma ordem sua, Zagan fingiu estar calmo e partiu um pedaço de pão.
— Aqui, pode comer.
— Mestre, isto é... Bastante embaraçoso.
As orelhas de Nephy estavam vermelhas até a raiz.
— De fato. Dá para perceber só de olhar.
— Mestre, isso é maldade. — soltando um gemido abafado, Nephy aproximou o rosto da palma da mão de Zagan. E então, pegou o pedaço de pão com seus lábios rosados e o comeu.
—Hmm, eu posso comer o resto sozinha, então...
— C-Certo.
Ele queria observar Nephy tímida por mais um tempo, contudo já estava no seu limite, o coração de Zagan estava transbordando de culpa e vergonha.
E então, notou que as orelhas pontudas de Nephy estavam balançando inquietas.
De fato, era embaraçoso, no entanto parecia que ela não odiava tanto assim.
De alguma forma, sentindo-se aliviado, Zagan então falou.
— Da próxima vez, certifique-se de preparar sua própria porção de comida também.
— Sim.
— Bem, não me importo de fazer isso de novo da próxima vez.
— Eu farei os preparativos.
Foi uma resposta resoluta.
Zagan então estendeu a mão para pegar um pouco de sopa antes que esfriasse, mas Nephy pegou a colher antes que ele pudesse.
— Nephy? — enquanto Zagan franzia a testa, a garota vestida de empregada pegou um pouco de sopa com a colher.
Depois de soprar suavemente para esfriar a sopa, a ofereceu a Zagan.
— Por favor, aproveite, Mestre.
Sua expressão era tão artificial como sempre, mas de alguma forma parecia que estava com raiva.
Então é uma vingança por agora pouco?
Seja como for, a pessoa que fazia isso também estava envergonhada. As pontas de suas orelhas estavam vermelhas como se estivessem queimando, e sua mão, que segurava a colher, tremia um pouco. Pensar em como soprou carinhosamente na sopa para esfriá-la... Em vez de uma vingança, parecia mais uma recompensa.
Sinto vontade de que o faça sempre.
Foi por esse motivo que Zagan abriu a boca e a deixou fazer o que quisesse.
Com movimentos desajeitados, Nephy levou a colher aos lábios dele.
Parecia ser uma mistura de carne de cordeiro e legumes cozidos em leite, porém depois de engolir, Zagan sentiu uma sensação quente se espalhando de seu estômago.
— Está quente, né?
— Sim?
— Ah, não, a sopa, quero dizer...
Claro, também havia o calor de Nephy sentada em seu colo, contudo Zagan negou, se atrapalhando com suas palavras.
Nephy o encarava sem expressão, e logo fez um pequeno aceno de concordância.
— Sim. Está... Bem quentinha.
Como se estivesse mordendo algo, Nephy respondeu em voz alta.
Seria bom... Se esse tipo de coisa pudesse continuar para sempre.
E em seu coração, ela pensou isso consigo mesma.
***
Naquele dia, o quarto de Nephy enfim ficou impecável.
A garota insistiu em fazer a limpeza sozinha, no entanto era difícil para ela carregar objetos pesados como os móveis com seus braços finos. Foi por essa razão que Zagan carregou coisas como a cama e as cômodas.
Dito isso, mesmo agora, as únicas roupas que Nephy possuía eram o vestido que usava antes, as roupas de empregada e algumas peças íntimas. Zagan queria lhe proporcionar um pouco mais de variedade.
Acho que preciso pensar bem em como ganhar dinheiro.
Vender seu conhecimento de feitiçaria era o método mais lucrativo, entretanto tinha a desvantagem de ser fácil rastreá-lo. Embora pudesse ter sido possível quando estava sozinho, se a igreja interviesse agora e algo acontecesse com Nephy, não haveria como reverter, mesmo que massacrasse seus inimigos.
Nesse caso, assim como o guarda-costas dos bandidos do outro dia, seria rápido e fácil ser contratado por alguém, todavia também significaria longas horas de trabalho, e haveria dias seguidos em que não poderia voltar para o castelo.
As pessoas sempre diziam que havia coisas que não podiam ser compradas com ouro, mas a realidade é que não ter dinheiro deixava a pessoa vivendo na miséria.
Ainda tinha algum dinheiro da recompensa que recebeu por salvar a carruagem, então não ficaria sem comida de repente, apesar de que precisava pensar em uma solução imediata.
E então, enquanto continuava a limpar o castelo com Nephy, alguns dias se passaram.
Enquanto Zagan estava nos arquivos do castelo, debruçado sobre textos sobre feitiçaria que estavam espalhados à sua frente, Nephy lhe fez uma pergunta.
— Mestre, o que você tem pesquisado todo esse tempo?
Apesar de estar absorto em sua vida feliz com Nephy, Zagan não se esqueceu de se dedicar ao estudo da feitiçaria.
Nephy lidava com coisas como cozinhar e limpar impecavelmente, então, mesmo que a ajudasse um pouco, era a ponto de conseguir progredir mais em sua pesquisa.
Em resposta, Zagan inclinou a cabeça para o lado.
— Mesmo se perguntar o quê, parece algo além de feitiçaria?
— Eu... Acredito que seja o caso, porém não vejo o sentido em desenhar esses círculos...
Ao ouvir sua opinião, Zagan ficou olhando, maravilhado.
— A feitiçaria élfica é diferente?
Nephy balançou a cabeça, e seus cabelos brancos como a neve ondularam no ar.
— É porque... Não consigo usar feitiçaria.
Essa foi uma resposta inesperada.
Mesmo que ela supostamente possua mana de qualidade muito superior à da maioria...
Zagan achou que era um desperdício. Contudo, sendo esse o caso, apontou para o círculo mágico que estava desenhando.
— Isto se chama círculo mágico. É o “projeto” usado pelos feiticeiros para realizar os fenômenos que desejam.
— Projeto...?
Parecia que esse era um vocabulário que ela nunca tinha ouvido antes. E então, Zagan começou a explicar desde o início.
— Vejamos, por exemplo, existem dispositivos na cidade como rodas d’água e carruagens, certo? Essas coisas são diferentes de ferramentas de corte simples e martelos, pois são compostas de muitos componentes. Se esses componentes não forem montados da forma correta, o dispositivo não funcionará. O desenho que anota todas as medidas e detalhes para consolidar esses componentes é chamado de projeto.
Uma carruagem tinha o tamanho das rodas, a porta, o assento feito de muitas peças de madeira unidas com pregos e acessórios de metal. Uma roda d’água era ainda mais complexa, e o tamanho e o número de engrenagens tinham que ser organizados da forma mais correta possível. Não era algo que pudesse ser feito apenas com prática. Não, era necessário ter um projeto que qualquer pessoa pudesse entender à primeira vista.
Nephy então assentiu, compreendendo.
— A feitiçaria não é tão diferente. Tudo começa desenhando o projeto... Um círculo mágico, no nosso caso. — enquanto falava, Zagan desenhou um brasão no chão empoeirado. — Existe a noção de que esses brasões possuem poder. O brasão da cruz, tão alardeado pela igreja, é muito semelhante. Diz-se que são cartas deixadas pelos deuses, ou prova de um pacto com o diabo, mas nem eu sei o que realmente são.
Ou talvez, a mera crença de que ali havia poder ou divindade tenha dado origem ao próprio poder.
Depois de abordar a feitiçaria, as leis do mundo se tornaram ambíguas e ficou claro que sua estrutura era descuidada.
Em seguida, Zagan cercou o brasão que desenhou com um círculo.
— Este... É o círculo mágico de forma mais simples. Este produz um relâmpago e, ao receber mana, acontece isto.
— Uh, o quê... — ela provavelmente não imaginava que ele o ativaria naquele lugar, então uma voz de pânico escapou de Nephy.
Mesmo assim, quando Zagan tocou o círculo mágico, uma pequena faísca crepitante se espalhou.
Em estado de alerta, Nephy piscou como se fosse anticlimático.
— Isto é... Um relâmpago?
— Sim. Dito isso, ele se dispersa no ar imediatamente, então não parece grande coisa em termos de relâmpago.
— Haaa...
Vendo a resposta insatisfeita de Nephy, um sorriso pareceu surgir no rosto de Zagan.
— Só com esse tanto, não é tão diferente de folhas flutuando na superfície da água. Não pode fazer fogo apenas esfregando duas pedras, certo? É por essa razão que adicionamos brasões para amplificar o efeito. Brasões para dar direção ao poder, brasões para definir o alcance e brasões que definem o momento da ativação.
Assim como quando desenhou o brasão para o raio, Zagan continuou a desenhar vários brasões alinhados, depois desenhou um círculo ao redor de todos.
— Agora, com tudo feito, enfim podemos criar um fenômeno adequado.
Enquanto ele despejava mana, raios caíram do teto.
— Hyaaa.
Ao ouvir Nephy soltar um pequeno grito, Zagan deixou uma pequena risada escapar.
— Desculpe, desculpe. No entanto, graças a este círculo, qualquer um pode usar feitiçaria despejando a quantidade correta de mana. É por esse motivo que, ainda que desenhe um círculo mágico, não adianta nada se seu inimigo o roubar antes que possa usá-lo. É também por isso que o próximo passo é adicionar restrições para que somente você possa usá-lo.
De certa forma, era feitiçaria para proteger feitiçaria.
No outro dia, quando Barbatos invadiu a barreira e Zagan anulou o efeito da feitiçaria de seu inimigo, aquilo foi feito sobrescrevendo esta parte do círculo mágico e roubando-a.
— Esta parte precisa ser complicada, ou será capturada por outro feiticeiro em poucos instantes. A partir daqui, tudo depende da habilidade do indivíduo. Então, um círculo mágico com esse tipo de composição é chamado de “circuito”, entendeu?
A verdadeira força de um feiticeiro se baseava na eficiência de circuitos de alto nível, bem como na capacidade de proteger os brasões em seu núcleo. Também se poderia dizer que substituir um círculo mágico por um feitiço era outra demonstração de força.
Depois de ouvir tudo, Nephy pareceu encarar o círculo mágico com profundo interesse.
— Há algo errado?
— Não, Mestre, você adicionou o “circuito” no exterior. É possível adicioná-lo ao interior?
Com um — Hooo — Zagan soltou um suspiro de admiração.
— Esse é um bom ponto para se concentrar. A resposta é que é impossível, mas também possível.
— O quê? — Nephy inclinou a cabeça para o lado como se o que ouviu fosse um completo absurdo.
Porém Zagan continuou em um tom um tanto estranho.
— Por enquanto, seria como pegar um círculo mágico completo e criar outro círculo mágico dentro dele. Ao fazê-lo, o fluxo de mana se tornará caótico e nenhum dos dois se ativará, ou se descarregará espontaneamente. Contudo, como a própria feitiçaria se baseia no fluxo do poder da mana, em teoria deveria ser possível.
Nephy refletiu um pouco sobre. Depois, abriu a boca como se não estivesse totalmente convencida.
— Isto ajuda a controlar ainda mais a feitiçaria ativada?
Desta vez foi Zagan quem arregalou os olhos.
— Correto. E se pudesse ser feito, significaria que nenhuma feitiçaria jamais poderia ser roubada.
Todos os ataques originados de feitiçaria seriam mera munição para quem estivesse sob ataque. Era algo muito diferente de sequestrar um círculo mágico. Era como poder jogar pedra-papel-tesoura depois do seu oponente.
E não seria tudo, a feitiçaria poderia ser ativada sem problemas e não haveria como impedi-la.
— Em outras palavras, em teoria, seria a forma suprema de feitiçaria.
Após sua explicação, Zagan deu de ombros.
— É só uma teoria, no entanto. Se fosse tão fácil de colocar em prática, ninguém passaria por dificuldades.
— Oh...? Dizem que os feiticeiros vivem vidas longas e dedicam tudo à pesquisa da feitiçaria. Ainda assim, não é possível?
— Hmm, bom, eu diria que é mais porque ninguém está pesquisando essa teoria a fundo.
Nephy inclinou a cabeça para o lado como se o que ele dissesse fizesse menos sentido do que suas afirmações anteriores.
— Escute, os feiticeiros não são cães de guerra como soldados ou os Cavaleiros Angelicais. Eles realizam experimentos por um desejo por coisas como imortalidade, ou para saber quão poderoso pode ser um milagre que podem criar com feitiçaria, ou para descobrir se é possível ressuscitar os mortos.
Em outras palavras, os feiticeiros só pensavam em si mesmos. Eram uma espécie egoísta.
Pessoas que não reconheciam nada fora do seu próprio mundo, que nem sequer percebiam a importância de competir com os outros.
— Naturalmente, existem aqueles como o feiticeiro de ontem, que são contratados por outros ou cooperam em guerras. Entretanto esse é apenas um meio, não o fim. Só recorrem a essas opções porque a pesquisa adequada custa dinheiro. O único objetivo em suas mentes é como ganhar mais para financiar suas pesquisas.
Nephy abriu a boca como se estivesse com dificuldade para expressar seus pensamentos em palavras.
— Já ouvi dizer... Que os feiticeiros torturam pessoas.
— Sim. Sem dúvida existem idiotas por aí que o fazem como uma distração ou para matar o tempo. Todavia, não há ninguém que estude feitiçaria apenas para isso. Afinal, existe uma infinidade de ferramentas mais eficientes quando se trata de tortura.
A história dos instrumentos de tortura era longa. Obter segredos abrindo a boca dos outros era uma tradição antiga.
Eles tinham sido em grande parte limpos, mas mesmo este castelo estava repleto de uma montanha de instrumentos de tortura.
Existia feitiçaria que usava a angústia e o ódio das pessoas como catalisador, então fazia todo o sentido.
— Voltando ao tópico original, a feitiçaria suprema que mencionei agora há pouco é algo que ajudaria você a lutar contra outros feiticeiros. Pode ser útil para roubar as pesquisas de outros feiticeiros, embora não tem nenhuma outra utilidade além. É por esse motivo que ninguém se dá ao trabalho de pesquisá-la.
Bem, apesar do que falei, não é como se não houvesse idiotas por aí que a estejam pesquisando seriamente...
Zagan decidiu que não havia sentido em falar sobre isso e deixou o assunto de lado.
Depois de tudo explicado, Nephy assentiu com convicção.
Contudo, seguia murmurou algo, como se não estivesse totalmente satisfeita.
— Eu sinto que entendo a teoria por trás da feitiçaria, no entanto...
— O quê? Pode me falar.
Em um tom um tanto curioso, Nephy disse o seguinte.
— Contanto que se conheça a estrutura, qualquer um não consegue usá-la?
Nephy parece ter um talento nato para feitiçaria, hein?
Certamente, se não fosse por aquela coleira, era bastante provável que teria potencial para ser uma feiticeira excepcional. Talvez até melhor que Zagan.
Tendo isso sido apontado com perspicácia, Zagan assentiu como se estivesse elogiando uma aluna que se saiu bem.
— Sim, muito bem. Quando nós, feiticeiros, adquirimos conhecimento, há uma conexão direta com o poder que também adquirimos. A eficiência e a eficácia com que esse poder pode ser usado dependem da habilidade individual.
Não era como se Zagan fosse um feiticeiro desde o nascimento.
O motivo de ter se tornado um feiticeiro renomado aos dezoito anos foi porque roubou o conhecimento de “um certo feiticeiro”.
Já se passaram... Dez anos desde então, né...?
Aconteceu quando Zagan tinha oito anos.
Mesmo assim, não tinha nada a ver com o assunto em questão. E depois de balançar a cabeça, continuou falando.
— É por isso que criamos uma montanha de armadilhas e truques para que não possa ser roubado... Nephy, tenha cuidado ao tocar em qualquer coisa nesta sala, está bem?
— Eek. — Nephy se assustou ao ouvir o aviso.
— Estou brincando. Está tudo configurado para que as armadilhas não sejam ativadas ainda se você as tocar.
— Mestre. Isso é maldade. — era um tom delicado, de alguma forma reprovador e aliviado ao mesmo tempo.
Em seguida, as pontas das orelhas pontudas de Nephy se contraíram e vibraram como se estivesse feliz.
— Oh...? Você parece feliz. Aconteceu alguma coisa boa?
— Hyuuu?
Enquanto Zagan inclinava a cabeça para o lado, Nephy deu um pulo e perdeu a compostura. Ela então tocou o próprio rosto como se o achasse estranho.
— Como... Sabe?
— Quer dizer, eu sei só de olhar.
Desta vez, as pontas das orelhas pontudas de Nephy caíram desanimadamente, e logo se contraíram e voltaram a subir em um ciclo. Parecia estar oscilando entre ficar abalada e feliz.
Enquanto cobria o rosto, Nephy olhou timidamente para Zagan através do espaço entre os dedos.
Zagan admirava o fato de sua expressão básica não ter mudado em nada durante todo esse processo.
Após uma breve pausa, Nephy falou o seguinte, em um tom tímido.
— Mestre, é porque esta é a primeira vez... Que o senhor fala tanto comigo...
Zagan percebeu que seu próprio rosto havia ficado vermelho. E, junto a essa percepção, foi atormentado por um forte sentimento de arrependimento.
Sério? Eu sempre falo desse jeito indireto, não é? Assim como Zagan estava preocupado por não conseguir ler a expressão de Nephy, ela também devia estar preocupada por nunca conseguir entender o que ele estava tentando dizer.
Depois de limpar a garganta com uma tosse, Zagan recuperou a compostura.
— Bem, afinal, só sei sobre magia. Já que é a minha área de especialização, acabo me soltando um pouco.
— Sim.
Ele não sabia ao certo do que ela estava convencida, mas Nephy assentiu e pôde sentir, de alguma forma, que ela estava feliz, mesmo sem olhar para as suas orelhas.
Depois dessa troca, embora demonstrando um leve sinal de hesitação, Nephy abriu a boca para falar.
— Mestre, o senhor me permitiria fazer uma pergunta?
Quando Nephy se posicionava dessa forma, significava que havia decidido perguntar algo à sua maneira.
E então, Zagan corrigiu a postura enquanto assentia.
— O que é? Vamos ouvir o que você tem a dizer.
— Mestre, me parece que o senhor já possui grande poder. E, contudo, neste momento, está realizando pesquisas para se tornar ainda mais forte. — fazendo uma breve pausa, após engolir em seco, a garota prosseguiu. — Mestre, o que o senhor deseja? O que espera ganhar ficando mais forte?
Zagan não conseguiu responder de imediato à pergunta.
O que eu desejo...? Para que usaria esse poder?
A expressão de Nephy nublou enquanto esperava por sua resposta.
— Peço desculpas. Não deveria ter perguntado.
— Não, tudo bem, de verdade. — coçando a nuca, Zagan abriu a boca como se estivesse com dificuldade para expressar seus pensamentos em palavras. — Pra ser honesto, nunca pensei a respeito.
— Nunca... Pensou? — quando devolveu a perguntar, realmente soou bastante tolo.
Enquanto seu olhar vagava pelo ar, Zagan assentiu.
— Se tivesse que escolher, então viver... Talvez?
Nephy engoliu em seco ao ouvir sua resposta.
— Para... Viver...?
— Sim. Quando eu era pirralho, não tinha dinheiro nem lugar para morar, então sobrevivi roubando coisas. Na época, bem, não podia desafiar adultos ou pessoas com poder de verdade, entretanto ainda me sentia muito sortudo. Quer dizer, pelo menos estava vivo.
Agora que penso, acho que todos eles eram boas pessoas.
Houve momentos em que foi preso, porém mesmo nessas circunstâncias pelo menos lhe davam comida e nunca o ameaçaram de morte.
— E então, um dia, fui capturado por um feiticeiro. Apesar de não ser um elfo como você, crianças seguem sendo sacrifícios razoavelmente bons.
— Ah!
Depois de falar, refletiu sobre como suas palavras tinham sido impensadas. Nephy havia sido capturada assim, sem mais nem menos, há pouco tempo.
Seja como for, seria estranho apenas parar de falar aqui. E, portanto, Zagan continuou falando em um ritmo um pouco mais acelerado.
— Bem, bem na iminência de ser morto, de alguma forma encontrei uma brecha e virei o jogo contra o feiticeiro que me sequestrou. E então percebi que, para sobreviver, a única escolha diante de mim era obter poder. É por essa razão que queria me tornar forte. Se estamos falando de desejos, então seria esse. Pode parecer clichê, contudo é aquela coisinha chamada imortalidade.
Ela estava decepcionada? Nephy apertou o peito e baixou a cabeça.
— Eu... Não... Consegui... Me tornar... Forte.
Certamente, as circunstâncias de Zagan e Nephy podem ter sido bastante semelhantes.
E como ela nunca conseguiu obter poder por conta própria, ainda agora Nephy se menosprezava.
Zagan então tentou quebrar o gelo com ousadia.
— Ei, Nephy.
— Sim, Mestre.
— Se estiver interessada em feitiçaria, então... Hm? — enquanto começava a falar, a expressão de Zagan tornou-se sombria.
— Aconteceu alguma coisa?
— Parece que temos visitas indesejadas. Vou recebê-las, então deixo o jantar com você, Nephy.
— Como quiser. Quantas porções devo preparar?
— O suficiente para nós dois está ótimo. De qualquer forma, eles devem ir embora em breve.
Afastando Nephy enquanto sua cabeça inclinava para o lado, Zagan deixou os arquivos para trás.
Sem poder, não posso sobreviver.
Ele cerrou os dentes como se odiasse esse fato ao pensar nisso.
***
— Há uma morada de feiticeiro em um lugar como este...
Um homem elevou a voz, perplexo.
Havia quatro pessoas invadindo a floresta que se estendia ao redor do castelo de Zagan. Três homens e uma mulher. Os homens tinham entre vinte e trinta anos, e Zagan percebeu que cada um era um Cavaleiro Angelical habilidoso. Era provável que os três estivessem escoltando a mulher.
No entanto, quem pressentia que seria problemática era a mulher que os outros protegiam.
Embora parecesse bastante jovem, levava uma espada longa nas costas. Era evidente que seus braços esguios não tinham a força necessária para brandi-la, todavia a garota usava um equipamento da igreja chamado “Armadura Ungida”. Qualquer um que vestisse tal armadura ganharia habilidades físicas que rivalizavam com as de um feiticeiro.
A Armadura Ungida certamente era problemática, entretanto o maior problema era aquela espada longa em suas costas.
Os Cavaleiros Angelicais da igreja usavam espadas com alta resistência à feitiçaria, e até mesmo capazes de romper as defesas de um feiticeiro. Mas, o que a mulher carregava emanava uma aura de poder que estava em um nível completamente diferente.
Uma daquelas Espadas Sagradas que tanto falam...?
Tinha a sensação de já ter visto o rosto da garota antes, porém com a atenção voltada para a Espada Sagrada, não conseguiu se lembrar de quem era.
Um dos cavaleiros resmungou.
— O verdadeiro culpado pelos sequestros em série, hein? Pensar que estava rondando um lugar como este.
— Isso ainda não foi esclarecido. Viemos aqui para descobrir se é verdade.
Ao ouvir a conversa dos Cavaleiros Angelicais, Zagan compreendeu.
Agora que me lembro, Barbatos falou que eu era um dos suspeitos, não disse? E parece que eles viajaram até o seu domínio para alcançar a glória de subjugar o culpado.
Tudo bem que estivessem enganados, contudo a igreja não era de recuar.
Eles declararam a própria existência de feiticeiros maligna. Ainda que provasse sua inocência, o resultado não mudaria. Zagan era um feiticeiro. Por isso era um inimigo que precisavam derrotar.
Em resposta à garota, que elevou a voz para repreendê-los, outro dos Cavaleiros Angelicais soltou uma risada.
— Como se espera de nossa Donzela da Espada Sagrada, Senhorita Chastille. Você demonstra uma compaixão tão profunda, mesmo para um feiticeiro.
— Temos orgulho de termos recebido a honra de lutar ao seu lado, senhorita Chastille.
Enquanto os cavaleiros a elogiavam de maneira extravagante, a garota fez uma expressão complexa. E, por fim, pararam de andar e congelaram.
— É esse matagal de novo. Não podemos prosseguir por aqui.
Parecia que estavam tendo dificuldades com uma das barreiras erguidas para impedir intrusos. Perdendo o senso de direção, os quatro giravam em círculos.
Zagan observava a cena de dentro da floresta, muito entretido.
O caminho que levava ao castelo se estendia diante de Zagan. No outro dia, havia salvado uma garota que estava sendo atacada por um feiticeiro na mesma área. E os cavaleiros se moviam confusos no caminho que se bifurcava naquele local.
Enquanto observava aqueles cavaleiros, uma dúvida repentina lhe ocorreu.
Como o feiticeiro daquele dia... Rompeu minha barreira? Era uma barreira capaz até mesmo de deter Cavaleiros Angelicais. Era impossível chegar tão fundo por pura sorte ou acaso.
Além do mais, não parecia ser um feiticeiro com poder suficiente para romper a barreira de Zagan. Afinal, era o tipo de homem que começou a implorar por sua vida só por ser confrontado por Zagan.
Bem, de qualquer forma, o verdadeiro problema de Zagan eram os Cavaleiros Angelicais.
Seria bom se apenas desistissem e fossem embora... Contudo, embora fosse óbvio, não eram oponentes tão volúveis.
— Por favor, afaste-se. O mais provável é que seja uma barreira feita por feitiçaria. Eu irei... — a garota deu um passo à frente, desembainhando a espada longa que carregava nas costas.
Havia um brasão esculpido na superfície da espada. Era bem diferente dos usados em feitiçaria, todavia a teoria provavelmente era a mesma. Se os brasões da feitiçaria fossem semelhantes a letras, então o da sua espada pertencia a um alfabeto diferente. E esses brasões emitiam um brilho pálido.
— Lá vou eu!
A espada da garota cortou o ar.
Logo após o ataque, Zagan percebeu que a barreira que protegia o castelo havia desmoronado.
Metade dela... Foi destruída, hein?
Várias das peças que fortificavam sua força ainda permaneciam, entretanto todas as que deveriam repelir intrusos haviam sido destruídas com aquele único golpe.
Como a barreira que enganava os olhos dos cavaleiros havia sido destruída, Zagan não teve escolha a não ser enfrentá-los.
— Meu Deus. Será que o pessoal da igreja não conhece boas maneiras? Vocês vêm visitar minha casa e é isso que escolhem fazer? — parecia que aquela frase enfim os alertara para a presença de Zagan, então os cavaleiros elevaram suas vozes em um tom de confusão.
Os homens se colocaram em seu caminho, tentando proteger a garota, mas ela apenas os conteve com a mão.
Depois de encarar Zagan por um instante, a jovem murmurou com uma voz um tanto amarga.
— Como supus... É você.
— Desculpe, já nos conhecemos? — ele certamente sentia que já a tinha visto antes, mas...
Depois de observá-la por mais um tempo, por fim se lembrou.
Entendo... É a garota que quase foi morta outro dia, não é?
Era de uma beleza considerável, porém naquela época não portava uma Espada Sagrada e com certeza não levava sua Armadura Ungida. Agora, também estava com o cabelo preso, então seu penteado estava bem diferente.
Mesmo assim, se bem se lembrava, ela possuía um pingente com o brasão da igreja.
Se eu soubesse que era uma Cavaleira Angelical, não a teria mandado de volta daquele jeito... Ele percebeu que havia cometido um grave erro. Contudo, seria desagradável ficar remoendo o feito depois de tanto tempo. Então, Zagan decidiu agir como se não a conhecesse.
— Não sei quem você é e nem de onde vem, suma daqui. Estou ocupado no momento. — Zagan ergueu o dedo rapidamente, como se estivesse apenas irritado, e o abaixou sem qualquer aviso.
— O quê?
Logo depois disso, raios caíram sobre o grupo. Era a mesma feitiçaria que reduziu a cinzas o último feiticeiro que enfrentara.
Se estiverem usando Armadura Ungida, é provável que não morrerão.
A armadura que usavam tinha uma capacidade defensiva extremamente alta. Se fosse feitiçaria superficial, seria capaz até de refletir os efeitos. Mesmo parecendo bastante brutal, Zagan estava tentando se conter à sua maneira. No entanto...
— Lançando um ataque surpresa, entendo. Como pensei, todos os feiticeiros são covardes no fundo. — um Cavaleiro Angelical brandindo um grande escudo protegia a garota. A garota que estava protegendo era uma coisa, entretanto quase não havia efeito algum nem mesmo nos outros cavaleiros.
Bem, é óbvio. No fim das contas, ainda eram um grupo que rompeu a barreira de Zagan. Se não fossem capazes de suportar um ataque como aquele, jamais teriam chegado tão fundo em seu domínio.
— Que bando de tolos. Seria ótimo se vocês parassem com esses blefes tediosos e voltassem para casa.
Zagan de repente estreitou os olhos e disse tudo isso de uma maneira tão arrogante que foi praticamente um ataque.
Se não terminarmos logo, não vou conseguir voltar a tempo para o jantar que Nephy está preparando para mim! Se ele não comer enquanto ainda estiver quente, será ruim tanto para Zagan quanto para Nephy.
— Ugh...
Sentindo aquele vigor anormal, a garota deu um passo para trás.
Como se preenchesse aquela abertura, o Cavaleiro Angelical com o grande escudo avançou. Então, mais dois se juntaram ao seu avanço.
— Senhorita Chastille, recue. Nós, Cavaleiros do Céu Azul, somos mais do que suficientes para derrotá-lo. — adotando nomes pomposos, os cavaleiros encararam Zagan.
Agora que mencionaram, Zagan notou que os três usavam armaduras azuis.
O homem que elevou a voz era bastante grande e empunhava um machado na mão direita. Atrás dele, um guerreiro alto e magro carregava uma lança, e mais atrás, alguém com uma espada longa se preparava para o combate.
Pelo visto, a tática dos três era usar o escudo para cansar o oponente, interromper seus movimentos com a lança e, então, usar a espada longa para desferir o golpe final.
Era uma estratégia bastante convencional, considerando tudo, mas era amplamente utilizada devido à sua eficácia comprovada. Poderia até dizer que era a formação perfeita para enfrentar um oponente solitário.
Porém, Zagan coçou a cabeça, como se estivesse cansado daquilo.
— Olha, vocês vão voltar para casa se eu lhes der uma surra?
Ao ouvir esse breve comentário, que poderia ser interpretado como uma provocação, os rostos dos Cavaleiros Angelicais se tingiram de raiva.
— Seu pirralho insolente! — o que portava o grande escudo avançou enquanto dizia isso.
O escudo e a armadura juntos deviam pesar mais de cem quilos, contudo avançou na velocidade de um cavalo veloz.
Aquilo não era de forma alguma possível para um humano comum. Não, o feito só era possível devido ao poder da Armadura Ungida, que todos os Cavaleiros Angelicais usavam.
Tanto a armadura quanto o escudo foram batizados pela igreja e tinham brasões inscritos neles. Feitiçaria de segunda categoria seria incapaz de perfurar suas defesas, e também não era uma situação em que tivesse tempo para invocar algo poderoso.
— Fuhahaaa! Eu vou te esmagar antes que possa usar sua feitiçaria.
O escudo do grandalhão foi erguido enquanto este avançava. Era como enfrentar uma bala de canhão. Mesmo sendo um feiticeiro, Zagan sabia que seria reduzido a carne moída por um golpe direto. Além do mais, mesmo que resistisse ao escudo, a longa lança atrás dele o aguardava. E então, se por algum milagre sobrevivesse ao ataque da lança, a espada longa no final seria inevitável.
A vitória certa estava ao seu alcance devido a esse método, no entanto Zagan não demonstrou nenhum sinal de pânico. Em vez disso, apenas cerrou o punho direito.
Brandido o punho, como se fosse atirar uma pedra, desferiu um golpe em direção ao escudo.
O punho e o grande escudo colidiram.
Com um sorriso vitorioso, o cavaleiro gritou.
— Seu tolo, irá morrer...
Todavia, naquele exato momento, o grande escudo se estilhaçou como vidro.
O punho de Zagan continuou e pulverizou até mesmo a Armadura Ungida enquanto penetrava no estômago do Cavaleiro Angelical.
— O quê...? — com uma expressão de quem não fazia ideia do que tinha acontecido, o Cavaleiro Angelical que carregava o grande escudo foi arremessado para trás a uma velocidade superior à sua investida inicial.
Logo atrás vinha o homem com a lança, que não teve chance de evitar ser atingido pelo corpo do homem vestindo uma armadura de 200 quilos.
— Merda...
Sem sequer conseguir gritar, o segundo cavaleiro também foi achatado.
O terceiro homem, que empunhava uma espada longa, mal conseguiu escapar, entretanto seu rosto se enrijeceu como se não pudesse acreditar.
— R-Ridículo, essa era a formação suprema dos Cavaleiros do Céu Azul...
— Escute, não deveriam ao menos ter investigado a pessoa cujo castelo pretendiam invadir? Se tivessem investigado o tipo de feitiçaria que uso, não teria optado por uma estratégia tão tola.
O punho de Zagan tinha um círculo mágico detalhado ao seu redor. Ele condensou todo o poder do enorme círculo mágico que circundava seu castelo naquele único ponto.
Mana com alta densidade carregava massa. E podia atingir um ponto em que tinha poder suficiente para destruir a Armadura Ungida da igreja.
Além de que, Zagan se destacava em feitiçaria que o ajudava a se defender. Até um ferimento fatal se regeneraria imediatamente, e se não tivesse chance de vitória, poderia fugir a uma velocidade além da compreensão humana. Sua pesquisa havia se concentrado em reforçar suas habilidades físicas. E assim, erguer um escudo, que para ele não passava de uma folha de papel, era o cúmulo da estupidez.
Zagan então acenou com a mão como se estivesse espantando um inseto.
— Viu? Se já entendeu, então suma daqui. Ou o quê, pretende fazer aquela mulher esbelta carregar três pesos mortos por aí?
O rosto do último Cavaleiro Angelical se contorceu de raiva a ponto de parecer que poderia matar apenas com o olhar.
— Ainda não! Enquanto eu estiver de pé, a vitória será nossa!
— Ei, pare! Saia da frente!
— Não vou me esquivar, Senhorita Chastille. UOOOOOOOOOH! — empunhando sua espada longa com ambas as mãos, o cavaleiro avançou de frente com um golpe de cima para baixo.
Zagan o encarou com olhos frios e balançou a mão esquerda em direção à espada.
Sua mão, envolta na luz de um círculo mágico, assumiu uma forma semelhante a uma lâmina a partir de seus dois dedos estendidos.
A espada longa e os dedos de Zagan colidiram. E, com um estrondo agudo, a espada longa se partiu ao meio.
Em seguida, o homem arregalou os olhos a ponto de sentir que iriam saltar das órbitas.
— Impossível... Urk.
E então, Zagan estendeu o braço.
— O-O que está...
Com um estalo, Zagan deu um peteleco na sobrancelha perplexa do Cavaleiro Angelical. Era uma brincadeira que costumava fazer quando criança.
— Ugh!
No entanto, com aquele único golpe, a parte de trás da cabeça do homem bateu com força no chão.
Zagan então pisoteou impiedosamente o nariz do homem que se contorcia no chão.
— Hiigigigigi...
— Entendeu agora? Se aplicar só mais um pouco de pressão, sua cabeça vai ser esmagada como um tomate. O som dos ossos da sua cabeça rangendo... É algo que nunca vai esquecer. Mesmo agora, não consigo dizer que saiu da minha cabeça.
Foi algo que aconteceu quando ele foi capturado por um certo feiticeiro. Assim como alguém que caiu em desespero por ter sido oferecido em sacrifício, Zagan foi torturado.
Foi por essa razão que sabia bem o quanto aquele som era aterrorizante. E enquanto falava, voltou sua atenção para a garota.
— Ei, calma aí, não faça nada desnecessário. Antes que possa sacar a sua espada, o cérebro desse cara vai estar espalhado pelo chão. Tenho certeza de que não conseguiria deixar tal coisa acontecer quando tem a chance de salvá-lo, certo?
— M-Mi X-Xaaalve... AAAH!
Enquanto o Cavaleiro Angelical soltava um grito horrível, a garota tirou a mão da espada grande que carregava nas costas.
Que garota sensata.
Na verdade, se a garota o tivesse atacado assim, teria sido problemático para Zagan.
Os três Cavaleiros Angelicais podiam ser oponentes insignificantes, mas uma Espada Sagrada era outra história. O punho de Zagan provavelmente teria sido cortado impiedosamente, junto com toda a mana dentro. Não tinha certeza se conseguiria vencer, mesmo em seu próprio domínio.
Após pensar por um momento, a garota o encarou com raiva.
— Tch... Por que está agindo como se isso fosse algum tipo de jogo? Pretende ridicularizar os derrotados? — os olhos da garota que disse isso, por algum motivo, estavam coloridos com mais decepção do que raiva.
Zagan então fez uma cara de exasperação, como se ela devesse saber a resposta.
— Você sabe como usar o medo da melhor forma?
— O quê...? — o rosto de Chastille tornou-se cada vez mais vigilante.
Zagan tinha necessidade de fazê-los sentir medo. Precisava fazê-los entender que não valia a pena desafiá-lo e que aqueles que não se envolvessem estariam seguros. Precisava incutir esse medo não apenas na cabeça deles, como também em seus superiores.
Foi por essa razão que estava se esforçando para atormentá-los.
Zagan pisoteou impiedosamente o Cavaleiro Angelical e plantou sementes de medo dentro dele.
— As pessoas temem o desconhecido. Porém, o que espalha esse medo é a boca de uma pessoa. Ainda que eu massacre todos vocês aqui, aqueles que os enviaram verão isto apenas como uma questão de números. Para espalhar o medo, é preciso que vocês sobrevivam e transmitam suas experiências aos outros. Experiências como esta.
Ao pressionar o pé com mais força, o Cavaleiro Angelical sob ele soltou um grito.
Era provável que se tratasse de alguém com considerável posição social, contudo com lama, lágrimas, baba e muco encharcando todo o seu rosto, só podia ser descrito com uma única palavra: patético.
No entanto, a garota então disse o seguinte.
— Isto é mentira.
— Hã...? — Zagan arregalou um dos olhos, como se achasse graça no que ouviu.
— É verdade, a autopreservação deve ser um dos motivos pelos quais está fazendo isso. E falando da igreja, é possível que tentariam de novo, com mais gente, se nos matasse. Entretanto esse não é o seu verdadeiro motivo.
O corpo de Zagan enrijeceu.
Se um cadáver aparecesse no terreno, Nephy ficaria assustada... Foi por essa razão que queria afastá-los sem matá-los.
De repente, a garota, que parecia ter desvendado as intenções de Zagan, sorriu.
— Como eu imaginava... — disse ela, levando a mão à espada longa nas costas.
— Espere... Não quero morrer... — o Cavaleiro Angelical aos pés de Zagan implorou por sua vida, mas a garota não tirou a mão da espada.
Maldição. Ela percebeu que não tenho interesse em matá-los.
Um refém só tinha valor se pudesse ser usado como escudo. Se não tivesse interesse em matar o refém, então este era inútil.
Por fim, a garota desembainhou a espada sagrada das costas.
— Chastille Lillqvist. Por ordem do meu Senhor, subjugarei o feiticeiro Zagan!
Zagan sabia que não podia se conter contra um oponente com uma Espada Sagrada. Ainda assim, relutava em matar uma jovem da mesma idade de Nephy. Além disso, sabia que matar alguém que havia salvado uma vez o deixaria com um gosto amargo na boca.
De qualquer forma, apesar de ser uma oponente difícil, a garota... Chastille, não o deixaria fugir.
— Tch! — Zagan chutou o homem a seus pés, que caiu no chão e esbarrou nas outras duas figuras caídas.
Enquanto o fazia, Chastille avançou contra Zagan com sua Espada Sagrada em punho.
— HAAA!
A garota desferiu um golpe direto com a Espada Sagrada contra ele.
Zagan se esquivou batendo o punho contra a lâmina, porém...
— Droga.
Com esse simples toque, uma rachadura se abriu no círculo mágico que protegia o punho de Zagan.
Mesmo tendo evitado o fio da lâmina, o simples contato o reduziu a esse estado. Só de pensar no que aconteceria se fosse cortado pela espada, um arrepio percorreu sua espinha.
Chastille então se agachou e brandiu sua espada para cima. Foram golpes consecutivos como uma correnteza, e tudo o que Zagan pôde fazer foi recuar.
Contudo não parece ter muita força...
A precisão do golpe era considerável, no entanto o impacto em si foi leve. Provavelmente significava que, mesmo que tivesse a proteção divina da Armadura Ungida, havia um limite.
Enquanto brandia sua espada, Chastille gritou.
— Por quê? Por que você não contra-ataca? Está querendo dizer que eu não sou uma oponente à altura?
Zagan, na verdade, estava apenas se esquivando e não havia desferido um único golpe contra ela.
E enquanto se esquivava de um golpe horizontal, deitado de bruços no chão, Zagan respondeu.
— Não seja irracional. Bater em mulheres não é um gosto meu, sabe?
Ou melhor, ele havia desenvolvido aversão a isso.
Bater em uma garota da mesma idade que Nephy é um pouco...
Não era que estivesse preocupado se Nephy acabaria o odiando. Não, sempre que cerrava o punho, o rosto daquela linda garota surgia em sua mente. Não havia como socar calmamente uma garota parecida só porque não era Nephy.
Foi por esse motivo que esteve procurando outro método para se safar sem agredi-la.
Com um rangido, Chastille cerrou os dentes.
— Por que alguém como você mancharia as mãos com feitiçaria?
Em vez de raiva, parecia que estava lamentando o destino dele.
Aquilo fez Zagan inclinar a cabeça para o lado.
— Não sei do que está falando, usar feitiçaria é tão ruim assim?
Sabia que as pessoas o consideravam um vilão, entretanto a ideia de que a feitiçaria fosse a culpada lhe parecia estranha.
Chastille então gritou com toda sua fúria.
— É maligno! Por causa desse poder, as pessoas são oprimidas e sofrem.
— Então, qual é exatamente o poder que está usando? Não é o poder de matar unilateralmente um feiticeiro mais fraco que você?
— Ugh...
Ao ser sinalizada sobre isso, até mesmo o rosto de Chastille mostrou sinais de inquietação, e a Espada Sagrada que brandiu errou o alvo e afundou no chão.
Então, sem hesitar, Zagan pisoteou-a.
Se conseguisse imobilizar a espada, até mesmo alguém com Armadura Ungida teria dificuldades para retirá-la.
— Urgh... — enquanto a garota gemia, Zagan a encarou com indiferença.
— Não tenho intenção de me justificar, mas há uma montanha de pessoas que não estariam vivas se não fosse pela feitiçaria. Qualquer um que pisoteie essas pessoas e as trate como presas... Não está defendendo nenhum tipo de justiça.
— Ah...
Até mesmo essa garota parecia estar se forçando a difamá-lo, então provavelmente ela entendeu suas verdadeiras intenções.
Empalidecendo, a jovem não conseguiu responder.
Ah, qual é. Não reaja desse jeito. Só vai tornar ainda mais difícil te acertar... Droga...
Se ela gritasse de uma maneira desagradável que estava certa, Zagan teria conseguido acertá-la sem se preocupar.
Mesmo assim, Chastille mordeu o lábio e concentrou toda a sua força na mão que segurava a espada.
— Ainda assim... Não, justamente porque é verdade, não posso me dar ao luxo de perder!
— Ugh, calma aí.
A garota sacou a Espada Sagrada usando pura força. E como Zagan estava pisando em cima, perdeu o equilíbrio.
— Pronto!
Chastille desferiu uma estocada com toda a sua força.
Infelizmente, sua técnica é muito grosseira.
Sem se esquivar, Zagan bateu palmas antecipando a trajetória da espada. E, ao fazê-lo, habilmente pegou a ponta da lâmina.
A proteção de seu círculo mágico se quebrou. As palmas de suas mãos estavam quentes, como se estivessem sendo queimadas. Apesar disso, Zagan retribuiu com um sorriso feroz.
— Você é boa em competições de força?
— Aceito seu desafio! — longe de recuar, Chastille colocou todo o seu peso para empurrar a arma para frente.
O brasão gravado na Espada Sagrada brilhava a ponto de cegar, e como se saudada por ele, sua Armadura Ungida também estava envolta em luz.
— O quê?
Era quase inacreditável, contudo a garota ergueu sua Espada Sagrada junto com o corpo de Zagan.
Essa garota... Estava escondendo um trunfo o tempo todo? Enquanto Zagan adotava uma postura de esperar para ver, Chastille parecia estar escondendo sua verdadeira força.
E então, brandiu sua Espada Sagrada para baixo, assim, sem mais nem menos.
— Essa maldit... Argh!
Uma garota tão delicada conseguiu brandir um pedaço de aço com um humano junto. Era difícil de acreditar.
Optando por não suportar o impacto, Zagan soltou a espada. Aquilo o fez se chocar contra uma árvore atrás, onde prendeu a respiração.
Ela está exercendo mais força do que eu... Dentro da minha própria barreira? Era verdade que uma barreira não tinha muita importância contra uma Cavaleira Angelical, no entanto não era como se o próprio Zagan tivesse perdido seu poder reforçado.
Mesmo que fosse devido ao poder de uma Espada Sagrada e sua Armadura Ungida, a força física pura de Chastille subjugou Zagan.
Zagan checou as mãos que acabavam de tocar a espada enquanto se levantava.
Sua pele estava infeccionada pelas queimaduras. Apesar de ter começado a curá-las com feitiçaria, a regeneração era lenta. Também se devia ao poder de uma Espada Sagrada.
Eu realmente deveria tê-la matado... Naquela hora, hein?
Como era de se esperar, se sentiu constrangido pela ideia de matar uma mulher indefesa, entretanto sabia que deveria ter sido mais cauteloso ao se envolver com alguém da igreja.
Enquanto ele gemia, Chastille entrou correndo mais uma vez. Zagan conseguiu, de alguma forma, imobilizar a espada que vinha de cima, todavia a grande árvore atrás de suas costas se estilhaçou com um estrondo.
Se não fosse Zagan, ou talvez se não estivesse dentro de sua própria barreira, teria sido esmagado como aquela árvore.
Um suspiro escapou de seus lábios. Se havia chegado a esse ponto, não havia outra opção.
Não tenho outra escolha agora... Devo matá-la?
Tinha a opção de fugir. Porém, Nephy estava dentro do castelo. Se Zagan fugisse, Nephy seria atacada. Afinal, a igreja executava todos que se aliavam a feiticeiros.
Parecia que quebrar uma Espada Sagrada era impossível, até com o poder atual de Zagan. Mas, não era como se não houvesse mais nada que pudesse fazer.
E então, no momento em que concentrou poder em ambas as mãos para desencadear a destruição total...
(Fique assim e me escute, seu desgraçado. Poderia fingir que morreu pelas minhas mãos?)
Zagan abriu os olhos em choque ao ouvir aquilo.
Voltando o olhar para trás da garota, Zagan percebeu que os três Cavaleiros Angelicais que havia derrotado começaram a se levantar. Será que ela está tentando garantir que eles não a ouçam?
(O que está planejando?)
(A igreja não vai desistir de te matar. Se eu perder aqui, alguém mais forte será enviado em seguida. Finja que te matei aqui. E então, livre-se dessa maldita feitiçaria e viva como uma pessoa comum.)
Zagan duvidou do que ouvia.
(Não esperava ouvir tais palavras da boca de uma Cavaleira Angelical.)
(Você não matou meus subordinados. E mesmo que diga que está tentando incutir medo neles, seus olhos estão coloridos com algo parecido com afeto.)
As palavras dela foram difíceis para Zagan aceitar.
Pareço assim? Zagan não sabia que seus sentimentos por Nephy transpareciam dessa maneira.
Naturalmente, não estava se referindo aos seus oponentes, contudo Chastille percebeu que havia alguém que Zagan queria proteger.
E então, Chastille disse o seguinte...
(Acima de tudo, eu não esqueci... Que você é meu salvador.)
Ao dizer aquilo, Chastille fez uma expressão de puro arrependimento.
(Desculpe. Isto... É tudo o que posso fazer.)
Parecia que essa garota não havia apenas esquecido o fato de que Zagan a havia salvado.
Essa não era a primeira vez que Zagan enfrentava Cavaleiros Angelicais. Contudo, era a primeira vez que encontrava um que lamentaria a morte de um feiticeiro.
Essa garota... Deve estar sofrendo muito, hein...?
Se um Cavaleiro Angelical protegesse um feiticeiro, não terminaria com uma simples perda de seu status.
Eles seriam declarados traidores, teriam todos os seus direitos humanos cassados e acabariam sendo torturados e executados de uma forma tão indescritível que seria difícil até mesmo tentar descrever. Para uma garota tão bela quanto Chastille, o estupro também era inevitável.
Ela não parecia ser tão tola a ponto de não saber. Portanto, aquelas palavras provavelmente não foram ditas por falta de convicção.
Atacá-la se tornou ainda mais difícil graças a isso.
Mas... Realmente não posso ir em frente, né?
Se Zagan fizesse tal qual Chastille disse, deveria conseguir escapar em segurança. Fazia sentido também, já que não havia mais nenhum recurso valioso no castelo.
No entanto, sabia que seria impossível salvar Nephy se seguisse esse caminho.
Se revistassem o castelo, a encontrariam. E Nephy sem dúvida não fugiria. Afinal, aquela garota não tinha nenhuma vontade real de viver.
Bem na hora em que estava se preocupando com o que fazer...
— Mestre! — Nephy, que deveria ter ficado no castelo, o chamou.
Quando Zagan se virou, uma garota vestida como criada correu em sua direção.
Talvez porque Zagan estivesse atrasado, ou talvez porque ela pressentisse algum problema, Nephy o perseguiu.
— Fique longe, Nephy!
— Hã, uma garota...? — Chastille falou em tom perplexo.
Aquele foi também o momento em que ambos mostraram uma brecha ao mesmo tempo.
— Zombando da gente como se fossemos lixo! — entre os três Cavaleiros Angelicais caídos, o homem com a lança se levantou. Diferente dos outros dois, seus ferimentos haviam sido bem leves.
Depois de olhar ao redor, seus olhos pararam em Nephy, que corria em direção a eles.
— A companheira do feiticeiro, hein?
O que exatamente estava pensando? Ele brandiu sua lança contra Nephy, que vinha correndo.
— Pare, Torres! — Chastille elevou a voz para contê-lo, todavia o Cavaleiro Angelical arremessou sua lança.
— Saia da frente! — Zagan empurrou Chastille para longe e correu para a frente de Nephy.
Entretanto, Zagan sabia que Nephy não escaparia ilesa se a empurrasse com seu poder. Ele tentou envolvê-la com cuidado em seus braços, porém acabou se rendendo à lança.
— Tch... — Zagan estendeu a mão esquerda para usá-la como escudo.
A ponta da lança perfurou sua palma, acompanhada pelo som de carne e osso sendo esmagados.
— Mestre! — Nephy deixou um grito de lamento escapar.
Mesmo assim, Zagan conseguiu parar a lança com a mão.
— Está tudo bem. Algo assim... É só um arranhão. — enquanto Zagan falava, uma fina camada de suor escorria por sua testa.
Ele havia sido ferido na mesma área onde suas habilidades de cura estavam comprometidas, então seu braço esquerdo ficaria inutilizado por um tempo.
Com um gotejar, o sangue caía lentamente no chão.
Já fazia um bom tempo que não via seu próprio sangue.
Não se empolgue... Seu pedaço de merda...
Contudo, Zagan não conseguiu proferir aqueles seus abusos verbais.
De dentro de seus braços, sentiu um frio cortante.
— Você feriu... Meu mestre, certo?
Zagan não percebeu a princípio que era Nephy quem estava falando.
Era uma voz fria que jamais esperaria ouvir da boca daquela garota doce e lânguida.
E logo depois...
— Eek, o que é aquilo?
As pessoas costumavam dizer que uma floresta estava viva. Era uma forma de expressão que acontecia quando todos os seres vivos do local se moviam ao mesmo tempo e as árvores balançavam com um vento forte.
No entanto, não havia animais correndo por aí. E também não havia vento.
Ainda assim, a floresta ainda parecia viva.
Os animais estavam se reunindo no interior da floresta. Havia pequenos esquilos, lobos ferozes e javalis, entre outros. Sem emitir um único grito, todos encaravam fixamente os Cavaleiros Angelicais.
Também não era como se as árvores estivessem balançando. Em vez disso, as próprias folhas e galhos começaram a se estender, e arbustos espinhosos brotavam dos matagais.
A floresta estava viva, agindo como se tivesse vontade própria. E algo, talvez a malícia da floresta, encarava os Cavaleiros Angelicais.
O que exatamente... É isso? Não era feitiçaria. Afinal, Nephy tinha uma coleira que selava a feitiçaria em seu pescoço, então não poderia estar usando nenhuma. Dito isto, era evidente que também não se tratava do poder da igreja.
Se alguém fosse forçado a explicar...
Está... Manipulando a própria floresta? Era completamente diferente em termos de escala e qualidade quando comparado à feitiçaria de Zagan. Uma sensação gélida percorreu sua espinha.
O mesmo ocorria com os Cavaleiros Angelicais.
Diante daquele poder misterioso, aquele que lançou a lança começou a tremer.
— Não... P-Pare, AAAAAAAAAAAAAAAH! — o homem que Chastille chamara de Torres fugiu.
— Não vou deixá-lo escapar. — Nephy estendeu o braço.
Hera rastejou debaixo de seus pés, entrelaçando-os.
— Ugh!
Raízes ásperas rastejaram em direção a Torres enquanto caía. Elas se contorceram como um ser vivo, engoliram seu corpo e começaram a arrastá-lo para o chão.
O poder era aterrorizante e, observando com mais atenção, Zagan notou que rachaduras estavam se formando na Armadura Ungida de Torres.
Zagan enfim recobrou os sentidos ao ouvir o som de ossos quebrando.
— Chega! É o suficiente... Pare com isso, Nephy.
Nephy parou de se mexer quando ele a abraçou. Ela estava claramente surpresa.
Por sorte, Torres parecia seguir respirando, ainda que com dificuldade.
Será que... Esse é o poder da Nephy...? Seria algo característico dos elfos? Ou poderia usá-lo por causa de sua existência única, que era visível através de seus cabelos brancos como a neve?
Seja como for, aquele poder superava até mesmo a feitiçaria, e era algo que Zagan desconhecia.
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