segunda-feira, 4 de maio de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 17

Primeira Temporada  Capítulo 17: O Conto do Vira-Ossos

Rusty Quill Apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Dezessete: O Conto do Vira-Ossos



JONATHAN SIMS

Depoimento de Sebastian Adekoya referente a uma nova aquisição na Biblioteca de Chiswick. Depoimento original prestado em 10 de junho de 1999. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Livros são incríveis, não são? Quer dizer, quando pensa no que eles de fato são. Sinto que as pessoas não dão à realidade da linguagem o peso que esta merece. As palavras são uma forma de pegar seus pensamentos, a própria essência de você, e entregá-los a outra pessoa. Colocar seus pensamentos na mente de outra pessoa. Não são um método perfeito, é claro, pois há muito espaço para mutação e corrupção entre a sua mente e a do ouvinte, mas isso não muda a essência do que é a linguagem. Falado em voz alta, porém, o pensamento morre rapidamente se não for captado. Vibrações simples que desaparecem quase assim que são criadas, embora, se encontrarem um hospedeiro, podem se alojar ali, proliferar e talvez se espalhar ainda mais. Mesmo assim, não é um método confiável em termos de duração de um pensamento, já que os humanos são criaturas frágeis e quase nunca vivem um século.

Contudo um livro é outra história. Existem textos escritos que sobreviveram às civilizações que os criaram. Imagine, pensamentos com centenas, milhares de anos, preservados e prontos para serem retomados. Corrompidas, ou traduzidas, talvez, por uma cultura que não as compreende, e ainda assim, ideias que sobreviveram por várias vidas à mente que as concebeu pela primeira vez. Será que os pensamentos que primeiro passaram pela cabeça de Shakespeare algum dia deixarão de ser pensados ​​por alguém, em algum lugar? E um livro, tão denso com as criações fossilizadas de uma mente, é de admirar que lhe tenha sido atribuído tanto poder ao longo dos tempos? Ou que uma biblioteca antiga, com pesados ​​tomos cobrindo todas as paredes, pareça ter um peso tão grande, para além da presença física dos textos que contém?

Eu costumava trabalhar na Biblioteca de Chiswick. Naquela época não tinha essas ideias. Apenas sabia que amava livros, sempre amei, e por isso, quando surgiu a oportunidade de trabalhar na biblioteca local, agarrei a chance. Sempre fui um leitor voraz desde que era pequeno o suficiente para segurar um livro sozinho, e até antes disso, minha mãe me disse que a importunava constantemente para que lesse para mim. Suponho que se possa dizer que minha mente sempre foi receptiva aos pensamentos que se escondem em uma página escrita. Apesar disso, a Biblioteca de Chiswick está muito longe das bibliotecas apertadas e austeras que você provavelmente imagina. É um espaço amplo e arejado, com estantes e carpetes que remetem mais a conselhos municipais com poucos recursos do que à rica majestade do conhecimento. Possui uma extensa seção infantil e a grande maioria de seu acervo consiste em livros de bolso surrados de crimes reais, ficção literária e obras de referência. Tem uma modesta coleção de audiolivros e a atmosfera, embora tranquila, está longe de ser opressiva. Em uma palavra, resumiria o lugar como “acolhedor”.

Aconteceu há três anos. Já trabalhava lá há cerca de um ano quando o livro apareceu pela primeira vez. Bem, costumávamos comprar todos os nossos livros novos, e nunca fiz nenhuma das aquisições para a biblioteca, então não saberia dizer quando ou onde poderia ter sido comprado, no entanto parecia velho e bastante surrado quando o vi pela primeira vez. Foi devolvido junto com outros quatro livros no balcão de atendimento, e enquanto os escaneava, notei que um dos códigos de barras parecia não corresponder. O código de barras e o ISBN indicavam ser de Trainspotting, de Irvine Welsh, todavia o livro em si era um livro de bolso preto quase sem detalhes, com um título na capa em uma fonte serifada branca desbotada: O Conto do Vira-Ossos.

Fiquei um pouco confuso e chamei a bibliotecária, Ruth Weaver, para perguntar a respeito. Ela não se lembrava de tê-lo visto antes, entretanto na capa estava colado o ex-libris
¹ da Biblioteca de Chiswick, além de uma etiqueta de empréstimo com vários carimbos de alguns anos atrás. Ruth deu de ombros e disse para não me preocupar muito com aquilo, nós registraríamos e colocaríamos tudo no sistema corretamente, mas algo naquela situação me incomodava, então decidi verificar o registro do homem que o havia devolvido. Seu nome, pelo menos de acordo com seu cartão da biblioteca, era Michael Crew, e, de fato, três semanas antes havia pegado quatro livros emprestados. Sendo mais específico, os outros quatro que havia devolvido. Sugeri a Ruth que talvez ele fosse um autor independente tentando dar um jeito de ter seu livro em nossas prateleiras, e ela riu, dizendo que poderia ser o caso, embora não entendesse por que alguém se daria ao trabalho de fingir só para ter um livro na Biblioteca de Chiswick. O livro até parecia gasto, como se tivesse sido lido por décadas, com uma linha marcada na lombada e metade da capa desbotada pelo sol. Nem, pelo que pude ver, listava nenhum autor.

Foi nesse momento que Jared Hopworth entrou, e tive que colocar o livro de lado. Jared e eu já fomos grandes amigos; crescemos na mesma rua, frequentamos as mesmas escolas, passamos grande parte da nossa infância inseparáveis. Porém ele sempre foi, bem, para não usar de muita sutileza, um grande tapado, e quando fui para a universidade, Jared ficou para trás. Acho que viu isso como uma espécie de traição, e quando voltei, soube imediatamente que algo havia mudado entre nós. Ele passou o tempo em que estive fora se tornando um bandidinho, e quando voltei, começou o que aos poucos se tornaria uma campanha de terror mesquinho. Sempre tomou muito cuidado para parar antes de fazer qualquer coisa que pudesse envolver a polícia, e acho que ainda havia afeto suficiente da infância que passamos juntos para que eu nunca considerasse a sério denunciá-lo. Foi...



Jonathan Sims: Ah, hmm, olá Elias.

Elias: Você tem um minuto?

Jonathan Sims: Na verdade não, estou meio que no meio de algo.

Elias: Entendo, é que a Srta. Herne apresentou uma queixa.

Jonathan Sims: Uma queixa? Eu poderia muito bem reclamar que ela está me fazendo perder tempo.

Elias: Não é assim que funciona, Jonathan.

Jonathan Sims: Eu nem precisaria ter feito a gravação se a Rosie tivesse mantido o equipamento dela em melhores condições.

Elias: De qualquer forma, eu preferiria que você não antagonizasse ninguém ligado à família Lukas. Afinal, eles são patrocinadores do Instituto.

Jonathan Sims: Tá, tá, serei mais gentil. Agora, posso voltar ao trabalho?

Elias: Muito bem. A propósito, você viu o Martin?

Jonathan Sims: Ah, ele está de atestado médico esta semana. Problemas de estômago, acredito.

[Som de Elias saindo]

Jonathan Sims: Um alívio, se quer saber.

Arte por Albrii.

JONATHAN SIMS (Depoimento)

Foi pior quando Jared visitava a biblioteca, porque isso inevitavelmente significava que estava entediado o suficiente para me procurar e me importunar. E, como esperado, começou a conversar comigo, com piadas sem sentido que serviam para ganhar tempo até que Ruth, que não sabia dos problemas de Jared comigo, voltasse para seu escritório e fechasse a porta. Assim que ela o fazia, ele se virou e, num único movimento, derrubou o carrinho de metal de devoluções, espalhando os livros recém-chegados por todo o chão. Sorrindo para mim, pediu desculpas. Fiz o possível para não demonstrar irritação, ou qualquer reação, enquanto caminhava devagar e me abaixava para começar a recolhê-los. Ao me levantar, senti um impacto na nuca e cambaleei. Atrás de mim, Jared estava segurando o livro que havia deixado de lado, O Conto do Vira-Ossos, e pelo visto o havia pegado para me bater. Entretanto, em vez de me oferecer um pedido de desculpas falso ou mais violência, seus olhos estavam fixos no livro. Ficamos ali em silêncio por alguns segundos até que ele disse alguma coisa sobre precisar de algo novo para ler, se virou e saiu.

Confesso que fiquei um pouco perturbado. Pelo que me lembro, nunca tinha visto Jared ler... Bem, nada, na verdade. E o olhar em seus olhos quando saiu tinha algo de medo. Ainda assim, foi um alívio vê-lo ir embora, e logo arrumei o resto dos livros antes que Ruth percebesse alguma coisa fora do comum.

Não me lembro de mais nada que tenha acontecido naquele dia na biblioteca, porém no caminho para casa depois, passei pela casa de Jared. Tinha voltado a morar com meus pais enquanto resolvia tudo depois da universidade, e ele nunca tinha saído da casa de sua infância, então ainda morávamos na mesma rua. Era final de setembro, então quando voltei da biblioteca já estava escuro, e notei uma pequena forma se movendo na poça de luz laranja abaixo do poste de luz.

À medida que me aproximava, percebi, com um ligeiro sobressalto, que era um rato, e não um rato selvagem e sujo, e sim um rato grande e branco, bastante bem cuidado e claramente um antigo animal de estimação. Contudo havia algo muito errado com este. Estava se arrastando devagar, puxando com as patas dianteiras, e vi que a metade traseira estava achatada, como se estivesse murcha. Pensei que devia ter sido atropelado, no entanto não havia sangue nem sinal de esmagamento, e também não parecia estar sentindo dor. Apenas tinha a metade traseira que se debatia e se contorcia obscenamente enquanto seguia seu caminho gradual pela calçada iluminada em direção à escuridão. Fiquei ali parado, observando, hipnotizado, até que desapareceu de vista. Pensando nisso agora, lembro que sua cabeça estava virada em um ângulo estranho, muito mais para trás do que deveria, embora possa estar me confundindo. Muitas dessas experiências se misturam quando tento me lembrar. Não havia luz acesa na casa de Jared, então corri para casa logo em seguida.

Não voltei a ver Jared por um tempo. No início, fiquei feliz com o espaço, todavia conforme os dias se transformaram em semanas, comecei a sentir algo que não esperava: preocupação. Se não fosse pela forma como tinha ido embora da última vez, talvez nem tivesse me incomodado, entretanto me parecera tão estranho, e ainda sem suas visitas a biblioteca, era raro passar uma semana sem vê-lo. Já fazia quase um mês. Mesmo assim, resisti à vontade de ir até a sua casa para ver como estava. Se estivesse bem, estaria me metendo em uma grande confusão, e além do mais, me lembrava, não era mais um problema meu.

Era final de outubro quando a mãe de Jared entrou. Estava quase no fim do dia e lá fora já estava escuro. Estava montando uma exposição sobre boas leituras de Halloween antes de ir para casa, quando ouvi a porta abrir. Me virei e lá estava. Para ser sincero, levei alguns segundos para reconhecê-la. Não a via muito nos anos desde que Jared e eu éramos próximos, e ela havia envelhecido visivelmente. A Sra. Hopworth usava um sobretudo volumoso, embora ainda não estivesse tão frio, e seu braço pendia em uma tipoia. Algo sobre o ângulo do braço e como pendia ali parecia um pouco anormal, e me perguntei se o havia quebrado.

Quando perguntei à Sra. Hopworth se estava bem, ela apenas me encarou, seus olhos ardendo de ódio. Com o braço bom, enfiou a mão no casaco e tirou um pequeno livro de bolso preto. Depois o jogou no chão sem dizer uma palavra e se virou para sair. Não consegui me conter, perguntei se Jared estava bem. Ela se virou bruscamente e começou a me xingar com veemência, disse que eu não tinha nada a ver com o seu filho e que eu, e meus livros, deveríamos ficar longe dele. Enquanto falava, não conseguia desviar o olhar do seu braço e dos movimentos estranhos que este fazia enquanto gesticulava. Como seus dedos pareciam se dobrar para o lado errado. Fiquei feliz que Ruth tivesse ido para casa mais cedo, pois não queria que testemunhasse o confronto perturbador que aparentemente causei.

Quando terminou, a Sra. Hopworth cuspiu em minha direção, embora eu tenha notado que teve o cuidado de não cuspir no livro que agora estava no chão entre nós, e saiu. Larguei o exemplar de Louca Obsessão, do Stephen King, que agora percebi que estava segurando com força, e me aproximei do volume descartado que estava no tapete. A capa preta surrada parecia a mesma de quando a vi pela primeira vez semanas atrás, com aquele título branco desbotado na frente: O Conto do Vira-Ossos. Estendi a mão para pegá-lo, mas antes que o fizesse, um pensamento me passou pela cabeça, uma lembrança da última vez que vi Jared, e peguei alguns lenços de papel da escrivaninha antes de usá-los para pegar o livro. Mesmo assim, senti um arrepio na espinha ao segurá-lo.

Decidi não lidar com aquilo naquela noite. Não tinha certeza se lê-lo durante o dia seria muito melhor, porém as sombras projetadas de fora pareciam ter ficado muito mais nítidas desde que o livro havia sido trazido de volta para a minha biblioteca, e aquilo me assustou. Coloquei-o no carrinho de devolução de livros e saí, verificando duas vezes se havia trancado bem a porta atrás de mim.

Choveu muito naquela noite. Meu quarto fica em um sótão adaptado e, quando o tempo está ruim, é como se pudesse ouvir cada gota de chuva batendo na janela que fica logo acima da minha cama. Não era uma tempestade, não havia vento para ser uma, era apenas aquela chuva forte e incessante que tamborilava e batia no vidro acima de mim. Não conseguia dormir. Havia uma apreensão persistente em minha mente, algo que, depois de três horas deitado na cama, se transformou em quase pânico. Como pude só deixar o livro lá? Havia algo de errado com ele, era óbvio. E se Ruth chegasse mais cedo amanhã e o levasse? O que aconteceria com ela? Eu deveria tê-lo destruído?

Esse último pensamento foi afastado. Não tinha certeza se seria capaz de destruir um livro, mesmo um com uma estranheza tão peculiar. Surpreendeu-me a facilidade com que aceitei que O Conto do Vira-Ossos possuía poderes sombrios, contudo suponho que sempre senti que os livros têm uma espécie de magia, então foi apenas uma confirmação do que suspeitava, lá no fundo, há muito tempo.

Eram duas da manhã quando decidi que não podia apenas deixá-lo lá durante a noite. Levantei-me, vesti-me e, sem fazer nenhum barulho, saí na chuva em direção à biblioteca, certificando-me de levar minhas luvas. Meu casaco deveria ser resistente à água, no entanto ainda assim ficou encharcado nos vinte minutos que levei para chegar lá. Tinha a chave, pois havia trancado a biblioteca naquela noite, e desativei o alarme ao entrar.

Estava escuro como breu lá dentro, e parte de mim queria que continuasse assim, todavia acendi o máximo de luzes que pude sem que fosse imediatamente óbvio do lado de fora do prédio. Não eram muitas, e tive que tatear o caminho pelo saguão até chegar à biblioteca propriamente dita. Ao me aproximar do balcão e do carrinho de devolução de livros onde eu havia deixado “O Conto do Vira-Ossos”, comecei a andar com menos cautela. Estava mais escuro naquele canto da biblioteca e estendi a mão para me apoiar na alça do pequeno carrinho de metal. Havia tirado as luvas naquele momento e minha mão ficou molhada. Procurei com pressa a lanterna que havia pegado antes de sair e a liguei. Um líquido vermelho pingava e pulsava do carrinho, encharcando as páginas e formando uma pequena poça ao redor. Os livros estavam sangrando.

Eu ri disso. Parecia tão apropriado de alguma forma, tão absolutamente correto que aqueles livros vizinhos sofressem, fossem contaminados por aquilo. Assim como me pareceu certo e apropriado que, quando minha lanterna encontrou “O Conto do Vira-Ossos”, este estivesse seco, sem marcas da cena sangrenta ao redor.

Arte por kazoosnow.

Coloquei minhas luvas de volta e com cuidado retirei aquele volume sinistro, colocando-o sobre a mesa. Talvez devesse ter lutado mais contra a tentação de olhar dentro, entretanto minha curiosidade era forte demais. As luvas grossas tornavam quase impossível virar as páginas individuais, e seguia tendo bom senso suficiente para mantê-las nas mãos, então apenas abri em algumas páginas aleatórias e comecei a ler. Talvez estivesse sendo paranoico. Afinal, toquei o livro com as mãos nuas quando ele foi doado à biblioteca pela primeira vez e não tive problemas, mas a imagem da mãe de Jared não saía da minha cabeça. Como seu braço se contorceu ao se mover. Decidi manter as luvas.

Era escrito em prosa e de fato parecia ser algum tipo de história. A parte que li tratava de um homem sem nome, em vários momentos referido como o Vira-Ossos, o Ferreiro de Ossos ou só o Virador, observando um grupo de pessoas reunidas enquanto caminhavam em direção a uma pequena vila. Não ficou claro pelo que li se estava viajando junto ou só os seguindo, embora lembro de ter ficado incomodado com os detalhes que observou neles: a maneira como o pároco levava a mão à boca sempre que olhava por muito tempo para as freiras ou como o cozinheiro olhava para a carne que preparava com os mesmos olhos que olhava para o vendedor de indulgências. Foi somente nesse ponto que percebi que o livro estava descrevendo os peregrinos de Os Contos da Cantuária
².

Ora, certamente não se tratava de uma seção perdida de um clássico de Chaucer. Foi escrito em inglês moderno, sem nenhuma das grafias ou pronúncias arcaicas do original, e além do mais, a própria escrita era de qualidade questionável. Contudo, havia algo de fascinante nisso. O debate sobre o quão finalizados Os Contos da Cantuária estavam... Bom, é um debate muito real. No prólogo, são prometidas mais de cem histórias, no entanto a versão mais completa que sobreviveu não chega nem a duas dúzias. O livro só termina, com Chaucer acrescentando um breve epílogo implorando perdão a Deus. Um apelo que geralmente é lido como sarcástico ou retórico.

Folheei algumas páginas adiante e descobri que o Ferreiro de Ossos parecia ter se aproximado sorrateiramente do Moleiro enquanto este dormia. Descrevia-o em silêncio enfiando a mão dentro dele, e... Está um pouco vago. Tudo o que me lembro claramente é a frase “e de sua costela saiu uma flauta para tocar aquela alegre melodia de tutano”. E quanto ao resto, não me lembro em detalhes, entretanto sei que quase vomitei e que o Moleiro não sobreviveu. Isso foi na página dezesseis, e era um livro grosso.

Virei para a página de rosto, em uma curiosidade desesperada para saber como aquele livro tinha ido parar na nossa biblioteca. Na luz forte da lanterna, pude ver as dobras e as bordas descascadas da etiqueta da Biblioteca de Chiswick, o que significava que tinha sido removida e colada de volta, ou retirada de outro livro. Consegui até ver as bordas de outra etiqueta por baixo. Usando uma tesoura, retirei a de cima, todavia fiquei desapontado. Era a etiqueta de outra biblioteca, talvez o último lugar onde tinha sido deixado, embora acredito que devia ter sido na Escandinávia, porque era algo como a biblioteca de Jergensburg ou Jurgenleit ou Jurgerlicht ou algo parecido. Não me ajudou em nada.

Estava pronto para voltar a ler o livro, quando ouvi o som de vidro quebrando atrás de mim. Virei e vi Jared Hopworth parado em frente à janela estilhaçada. Ou pelo menos, suponho que era Jared, já que exigiu o livro de mim com a voz de Jared, mas usava calças largas e um casaco grosso com capuz que quase cobria todo o seu rosto. Ou o rosto da coisa.

Era mais alto do que Jared costumava ser e estava em um ângulo estranho, como se suas pernas estivessem rígidas demais para usá-las. Quando gesticulou pedindo o livro, vi que seus dedos pareciam... Afiados, como se a pele nas pontas estivesse sendo pressionada em uma ponta fina por algo dentro. Eu disse que a biblioteca estava fechada, porque naquele momento não conseguia pensar em mais nada para dizer. Ele me ignorou e exigiu outra vez que lhe desse o livro. Foi então que agi um pouco impulsivo, ou seja, dei um soco nele.

Nunca tinha dado um soco por raiva antes, ou mesmo por desespero, então foi um choque para mim quando consegui acertar um único soco certeiro em seu plexo solar. Mas enquanto o fazia, e essa é a parte que ainda me dá pesadelos, senti sua carne ceder e quase se retrair, me puxando para perto. E então senti suas costelas se moverem, fechando-se firmemente ao redor da minha mão, como se sua caixa torácica estivesse tentando me morder. Elas eram mais afiadas do que jamais imaginaria ser possível, e por fim, foi isso que me fez gritar. Nunca antes ou depois gritei assim, e sigo um pouco surpreso por ser capaz de fazer tal barulho, porém aí está.

Em meu pânico, deixei cair o exemplar de O Conto do Vira-Ossos e, em menos de um segundo, Jared estava em cima dele. Soltou minha mão e o agarrou com um desespero frenético, antes de se virar para correr de volta pelo caminho que entrou. Comecei a persegui-lo, até que notei como estava se movendo. Quantos membros tinha. Ele tinha... Adicionado alguns extras. Foi naquele momento que tudo ficou demais para mim; parei de correr. Não era meu livro, não era minha responsabilidade e não tinha ideia de com o que estava lidando, então não fiz nada. Fiquei ali parado, atordoado, observando o que um dia fora Jared desaparecer na chuva. Nunca mais o vi.

A polícia apareceu logo depois. Pelo jeito, alguém ouviu meus gritos e fez uma denúncia. Inventei uma história sobre ter adormecido na minha mesa e ter sido acordado por uma tentativa de roubo. Deus sabe como expliquei os malditos livros, porque não se tratava de um fantasma que desaparecia. Demorou semanas para eu conseguir me livrar da história. Todos pareceram acreditar em mim, e milagrosamente mantive meu emprego. Não vi Jared nos anos seguintes e não fiz mais nenhuma pesquisa sobre o livro. O melhor cenário que consigo imaginar é que este depoimento seja a última vez que preciso ouvir ou falar sobre Jared Hopworth ou O Conto do Vira-Ossos.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Bem, isso me deixa... Profundamente infeliz. Mal arranhei a superfície dos arquivos e já descobri evidências de dois livros diferentes que sobreviveram da biblioteca de Jurgen Leitner. Até que o mencionasse, estava tentado a descartar grande parte da informação de imediato, contudo agora acredito em cada palavra. Vi o que o trabalho de Leitner pode fazer, e essa notícia, mesmo 17 anos depois, ainda me preocupa muito. Vou conversar com Elias sobre o que podemos fazer para resolver o problema. Sei que vai me dar o velho discurso de “registrar e estudar, não interferir ou conter”, no entanto pelo menos preciso informá-lo a respeito.

Tim e Sasha cruzaram os dados aqui com os relatórios policiais e, com certeza, havia um mandado de prisão expedido contra Jared Hopworth por arrombamento e agressão. Ele nunca foi encontrado, e os crimes não foram graves o suficiente para manter o caso ativo por muito tempo. Tenho feito o máximo de pesquisas possível por conta própria, entretanto o livro parece ter desaparecido junto. Pedi a Martin que tentasse localizar o próprio Sr. Adekoya para uma entrevista de acompanhamento, todavia fui informado de que ele faleceu em 2006, encontrado morto no meio da estrada na noite de 17 de abril. Apesar de não haver marcas de esmagamento ou trauma no corpo, o inquérito concluiu que se tratava de um atropelamento com fuga, devido à posição em que foi encontrado. O funeral foi realizado com caixão fechado.

Fim da gravação.



Notas:
1. Ex-libris significa “dos livros de” e é uma marca de propriedade colocada em livros, geralmente na parte interna da capa ou na folha de rosto, para indicar o proprietário. Essa marca, muitas vezes, assume a forma de uma etiqueta, selo ou ilustração, e pode conter o nome do proprietário, um brasão, um desenho ou até mesmo um lema.
2. Os Contos da Cantuária é uma coleção de histórias (duas delas em prosa, e outras vinte e duas em verso) escritas a partir de 1387 por Geoffrey Chaucer, considerado um dos consolidadores da língua inglesa. Na obra, cada conto é narrado por um peregrino de um grupo que realiza uma viagem desde Southwark (Londres) à Catedral de Cantuária para visitar o túmulo de São Thomas Becket. A estrutura geral é inspirada no Decamerão, de Boccaccio.

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