Primeira Temporada — Capítulo 18: O Homem do Andar de Cima
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Dezoito O Homem do Andar de Cima
JONATHAN SIMS
Depoimento de Christof Rudenko, referente às suas interações com um morador do primeiro andar da Casa Welbeck, Wandsworth. Depoimento original prestado em 12 de dezembro de 2008. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.
Início do depoimento.
JONATHAN SIMS (Depoimento)
Nunca compre um apartamento no térreo. Pode parecer uma boa ideia, ainda mais se, como eu, você passou uma década carregando compras por três lances de escada toda semana, mas é mais barulhento, sempre tem uma vista pior e é muito mais propenso a arrombamentos e outros... Problemas. E tem a questão dos vizinhos de cima. Sei que os andares mais altos, na maioria das vezes, também têm pessoas morando em cima, e mudar de um apartamento no último andar para o térreo, como fiz, não é algo comum, porém ainda é verdade. Nunca tive nenhuma preocupação real com isso até me mudar para o térreo da Casa Welbeck. Hoje em dia, fico muito mais de olho nas pessoas que moram perto de mim.
A Casa Welbeck é um prédio de cinco andares no centro de Wandsworth, uma ótima área para se viver, aliás. É perto o suficiente de Londres para que possa se deslocar com facilidade, e tem comodidades suficientes para que não precise delas com frequência, especialmente se, como eu, você for autônomo. Não foi barato, contudo sempre fui bom com dinheiro, então, quando decidi tentar comprar um imóvel aos 34 anos, consegui pagar um bom apartamento. Depois de quase um ano de busca, me estabeleci no térreo do Welbeck. Na época, não tinha pensado muito nos meus vizinhos, aqueles que encontrei durante a compra do imóvel pareceram bastante simpáticos, e os antigos proprietários do meu apartamento não mencionaram nada.
No dia em que me mudei, isso deve ter sido no final de 2002, vi um homem fumando, debruçado na janela logo acima da minha. Era um dia cinzento e nublado, e a previsão era de chuva mais tarde, então estava ansioso para levar o resto das minhas caixas para dentro e começar a desempacotar, e não dei muita atenção a ele. Lembro-me de que usava uma jaqueta com capuz, bem fechada, que escondia a maior parte do rosto. Nossos olhares se cruzaram por um instante... Ou pelo menos acho que sim, não consegui ver seus olhos, no entanto senti que estava me olhando... E juro que senti um cheiro muito estranho. É difícil descrever, algo entre o cheiro de calçada molhada num dia quente e frango começando a estragar. Era desagradável, para dizer o mínimo, entretanto o vento mudou e o cheiro sumiu tão rápido quanto apareceu. O homem na janela do andar de cima continuou me observando enquanto levava minhas caixas para dentro, fumando em silêncio, até que, em certo momento, saí para pegar as últimas coisas e percebi que ele tinha ido embora.
Fiquei um pouco assustado com o encontro. É difícil dizer bem o porquê, já que, além do cheiro, que poderia ter vindo de qualquer lugar, não havia nada externamente perturbador, todavia um certo jeito na maneira do homem me abalou. Nem sabia na hora se era um homem, foi apenas uma suposição minha, mas certamente não tinha planos de verificar. Sou uma pessoa bastante reservada, então a ideia de ir até a casa dos meus vizinhos e tentar conhecê-los não era algo que considerasse muito, muito menos este, que passou quase meia hora me encarando. Decidi ignorar tudo e continuar com o processo de mudança.
Fui muito bem-sucedido em ignorar o homem do andar de cima, pelo menos a princípio. Não foi difícil, já que costumava ser quieto e saía raras vezes do apartamento, pelo que pude perceber. Na verdade, conforme o tempo passava na minha nova casa, comecei a reconhecer os outros moradores da Casa Welbeck: a família branca que morava do outro lado do corredor, com a filhinha, às vezes eu a ouvia à noite, protestando em voz alta contra a hora de dormir; a solteirona da casa ao lado, Dianne, acho que era esse o seu nome, ou Diana; o rapaz asiático do primeiro andar que trabalhava à noite e batia as portas com muita frequência. Duvido que tenha trocado mais do que uma dúzia de palavras com algum deles, porém comecei a reconhecer seus sons e seus hábitos. Embora durante todo esse tempo não tenho certeza se cheguei a ver o homem que morava no andar de cima. Nem no corredor, nem pela janela, era como se não existisse, o que para mim estava ótimo, exceto pelo fato de que, as vezes, ainda sentia aquele cheiro. Podre e terroso, me pegava de surpresa e as vezes passava um minuto tentando rastreá-lo antes que desaparecesse. Uma vez, juro que, enquanto parava para olhar ao redor, ouvi a porta do andar de cima fechar silenciosamente.
Me parecia bastante óbvio que era ele. Não era o ideal, contudo o seu problema de higiene não era da conta de ninguém além de si mesmo, e depois de descobrir a origem do cheiro, parou de me incomodar tanto naqueles raros momentos em que o sentia nas correntes de ar do nosso prédio. Não entrava na minha casa, embora tenha começado a acender velas perfumadas por precaução... Um hábito que mantenho até hoje. Decidi que tudo o que importava para mim era que fizesse silêncio, o que ele fez. Pelo menos, durante os primeiros dois anos.
As batidas começaram em 5 de julho de 2004. Sei porque era a véspera do meu aniversário de trinta e sete anos, e estava desempacotando um engradado de cerveja para os amigos que havia convidado. A princípio, presumi que o homem do andar de cima estivesse apenas pregando alguma coisa na parede, no entanto depois de dez minutos ainda não tinha parado. Em vez disso, parecia que se movia. A princípio me pareceu estar pregando na parede, as batidas começaram a se mover para baixo, até que parecia que estava derrubando coisas no chão. Em um dado momento, ficou martelando sobre a lâmpada, fazendo-a balançar a cada golpe. Aquilo continuou por quase uma hora, e tudo o que pude fazer foi tentar ignorar, pois não havia nada que quisesse menos do que subir aquelas escadas e bater na porta da sua casa. Mesmo assim, quando enfim terminou, estava prestes a fazer exatamente isso. Entretanto parou, e depois que ficou claro que não voltaria tão cedo, tentei esquecer e voltar aos meus preparativos.
Por sorte, não houve perturbação vinda do andar de cima durante minha pequena festa na noite seguinte, apenas a família do outro lado do corredor pedindo, em certo momento, que a música fosse abaixada. Na verdade, não ouvi nada seu por mais duas semanas, quando as batidas recomeçaram. De novo, foi quase uma hora de marteladas, primeiro nas paredes, depois no chão, antes de parar de vez. Não fiquei feliz com aquilo, como você pode imaginar, todavia seguia relutante em confrontar essa pessoa sem nome que morava em cima de mim, então deixei para lá. A partir desse momento, a cada duas semanas, o barulho das marteladas durava cerca de uma hora. Tentei encontrar alguém para reclamar, mas parecia que quem morava lá era o único dono do apartamento, então não havia proprietário ou associação de habitação a quem eu pudesse denunciá-lo.
A gota d’água aconteceu cerca de seis meses depois; na verdade, foi algo muito simples. Recebi um pacote entregue no endereço errado. Estava endereçado ao Sr. Toby Carlisle, e o número do apartamento não era o meu, e sim o do meu vizinho de cima. O envelope era grosso e macio, devia estar cheio principalmente de plástico bolha ou outro material de embalagem. Não era grande coisa, no entanto me deu mais um motivo para subir e, enquanto entregava o pacote, podia pedir educadamente que parasse com a martelada quinzenal.
Subir aquelas escadas foi mais difícil do que imaginava e fiquei surpreso ao perceber que minhas pernas estavam tremendo um pouco quando cheguei ao topo. Senti de novo aquele cheiro úmido e podre ao me aproximar. O carpete bem em frente à porta estava um pouco manchado, com uma cor mais escura do que deveria, como se algo tivesse vazado por baixo. A madeira era velha e desgastada em comparação com as outras do prédio, que pareciam ter sido trocadas há não muito tempo. Não havia número na porta, nem qualquer indicação de que fosse, de fato, Toby Carlisle quem morava ali. Bati, tentando dar à ação uma confiança que, sendo franco, eu não sentia.
Não houve resposta, então tornei a bater, mais alto desta vez, e ouvi algum movimento vindo de dentro, aos poucos se aproximando da porta. Os passos eram abafados, como se estivesse andando sobre um tapete grosso, até que pararam do outro lado. Não havia som algum.
Esperei um minuto e estava prestes a bater de novo quando a porta se abriu, apenas uma frestinha. Não parecia haver nenhuma luz acesa lá dentro; não estava aberta o suficiente para que pudesse ver bem ou mesmo o próprio homem, todavia foi o suficiente para que ouvisse uma voz rouca e áspera falar. Ela disse.
— O que você quer?
Por aquela fresta, fui atingido por uma onda repentina daquele ar rançoso e cambaleei para trás, lutando contra a vontade de vomitar. Por entre as frestas, mal consegui gaguejar a pergunta sobre se ele era Toby Carlisle, que eu tinha uma entrega para ele. Houve um silêncio por um segundo, então uma mão surgiu e agarrou o pacote que estava segurando, arrancando-o das minhas mãos antes que tivesse a chance de entender o que estava acontecendo. A mão era fina e pálida, com unhas longas, amarelas e sujas. No dorso, vi uma única marca vermelha escura, que poderia ser um corte ou uma lesão, mas sumiu antes que pudesse vê-la com mais detalhes. A porta bateu na minha cara e fiquei parado no corredor, enjoado e confuso. Quando me virei para ir embora, notei uma mancha de líquido viscoso na manga da minha jaqueta, onde a mão tinha me tocado, espessa e esbranquiçada. No fim, tive que jogar a jaqueta fora. Não consegui me livrar do cheiro.
E foi assim por um bom tempo. O homem do andar de cima chamava-se Toby e era um recluso repugnante que cheirava mal e, de tempos em tempos, fazia barulhos de marteladas. Estava longe do ideal, mas era algo que conseguia entender e com o qual conseguia conviver. Dois anos se passaram assim e, para ser honesto, quase me esqueci. Ele havia se tornado apenas mais uma parte da minha vida e conseguia viver sem notá-lo. Foi só no final de 2007 que tive motivos para realmente voltar a tê-lo em consideração. A saúde da minha mãe havia piorado nos últimos meses e havia decidido voltar para Sheffield para ficar mais perto dela. Como mencionei antes, sou autônomo, então a mudança não foi tão difícil quanto poderia ter sido, porém me obrigou a vender meu apartamento. Não quero me alongar nos detalhes dos problemas de saúde da minha mãe; no fim, ela acabou falecendo alguns meses depois devido a complicações após uma cirurgia. Ainda assim, acabei me mudando, embora por um motivo bem diferente.
Foi difícil vender o imóvel. Todas as visitas terminavam da mesma forma, e comecei a temer a inevitável pergunta: que cheiro é esse? Foi a terceira vez que os potenciais compradores, um casal simpático de profissionais que trabalhavam na cidade, apontaram a mancha no teto da sala de estar. Era sutil no início, uma leve descoloração que eu havia conseguido ignorar. Eles presumiram que fosse um vazamento, e eu também, prometi chamar um encanador para verificar, apesar de não ter recebido retorno deles.
Chamei um encanador, contudo por algum motivo me disseram que só poderiam me atender na semana seguinte. Tentei agendar mais algumas visitas nesse período, no entanto a mancha no teto estava ficando mais evidente, e o cheiro começou a impregnar todo o meu apartamento, a ponto de pensar em me hospedar em um hotel até a chegada do encanador. Comecei a duvidar que fosse um vazamento de cano de água. Conforme a mancha aumentava, começou a ficar amarela escura e brilhava levemente quando a luz a atingia. Sabia que tinha algo a ver com o apartamento de cima, entretanto quando subi para perguntar desta vez, minhas batidas na porta não foram atendidas.
Por fim, o encanador chegou. Ele fez uma careta ao entrar, apesar de que não comentou nada a respeito. Presumo que cheiros desagradáveis fizessem parte do seu trabalho. Apontei para a mancha no teto e ele pareceu confuso por um momento, antes de me dizer o que já imaginava... Que não parecia ser um problema com os canos. Ainda assim, disse que precisaria quebrar o teto para dar uma olhada, e que eu precisaria de um empreiteiro para refazer aquela parte do teto de qualquer maneira. Recuei quando o vi pegar a escada e subir para dar uma olhada. O encanador colocou um par de luvas de borracha e tocou com cuidado o local, testando com os dedos. O teto cedeu quase imediatamente, dobrando e rasgando como papelão molhado, e o líquido que escorreu era de um amarelo doentio, com grumos brancos viscosos brilhando no meio. O encanador parecia que ia vomitar. Eu vomitei. Ele se desculpou e disse que precisaria ligar para alguém. Não tentei impedi-lo de sair.
Fiquei furioso, e a raiva que me invadiu superou qualquer receio que pudesse ter sentido ao me aproximar do apartamento no andar de cima. Subi correndo e comecei a bater na porta, gritando e ameaçando chamar a polícia se não a atendesse. Na minha terceira batida, a porta se abriu um pouco para dentro, e percebi que não estava trancada. Há... Poucas coisas na minha vida das quais me arrependo tanto quanto de ter entrado lá.
Empurrei a porta o máximo que pude, todavia ela não abriu muito, pois parecia haver algum objeto atrás que a impedia de ir além. O cheiro teria sido insuportável, mas a essa altura já estava quase acostumado e lutei contra a náusea. Não havia luz vinda de dentro, e tateei a parede procurando um interruptor. Logo o encontrei e, no instante antes de acendê-lo, percebi que sentia algo macio e úmido na parede ao lado. Para meu azar, antes que tivesse a chance de compreender o que estava sentindo, acendi a luz e vi o apartamento de Toby Carlisle por inteiro.
A luz que acendeu era fraca e tingida de vermelho, porém foi o suficiente para enxergar. Olhei ao redor e vi que todas as superfícies, as paredes, o chão, as mesas, tudo, exceto as janelas com cortinas, estavam cobertas de carne. Bifes, pedaços de frango, até mesmo uma perna inteira do que suponho que um dia fora cordeiro, estavam pregados em todos os lugares. Havia camadas, as adições mais recentes apenas grudadas sobre as antigas, e uma podridão amarelo-esbranquiçada podia ser vista onde os pedaços mais antigos já haviam se transformado em líquido. Moscas zumbiam em grande quantidade no ar e larvas cobriam o lugar. Olhando para cima, vi que a lâmpada também estava manchada de carne, fazendo com que o lugar fosse banhado por aquela luz vermelha opaca.
![]() |
| Arte por ptr-sqloint.tumblr. |
Ali, no centro do corredor, jazia o corpo de Toby Carlisle. Seu capuz estava puxado para trás e vi que seu rosto estava coberto de lesões sépticas e buracos. Não consegui identificar quais deles um dia abrigaram seus olhos.
Fiquei paralisado pelo horror puro do que estava vendo e, quase automaticamente, minha mão encontrou o caminho até meu telefone e disquei para a polícia. Foi só então que meus olhos vagaram atordoados em direção à cozinha. Lá, no centro do chão, havia uma pilha de carne e ossos descartados, empilhada quase tão alta quanto uma pessoa. Parecia menos decomposta do que o resto, embora aquele fluido amarelo fétido escorresse dela e... É por isso que estou falando com o seu instituto, entende? Todo o resto poderia ser atribuído aos problemas de um homem muito, muito doente, nada de sobrenatural, contudo... Quando olhei para aquela pilha de carne, ela se moveu. Não sei como... Não sei bem como explicar, além de dizer que abriu os olhos. Abriu todos os olhos.
A próxima coisa de que me lembro é da chegada da polícia e de muitas perguntas dos policiais tentando esconder o fato de que tinham acabado de vomitar. A pilha de carne tinha sumido, no entanto os pedaços que estavam pregados nas paredes e no chão ainda permaneceram. Contei à polícia tudo o que acabei de contar, embora eles tenham descartado a última parte. Acho que tiveram que chamar uma equipe especializada em materiais perigosos no final.
Não há muito mais a acrescentar, na verdade. O resto da história se resume em uma discussão com as seguradoras e contar quantos banhos foram necessários para eu me sentir limpo novamente. Acabei me mudando e agora moro em uma casa em Clapham com alguns amigos. Pessoas muito limpas e que não se importam com o fato de eu ter me tornado vegetariano recentemente.
JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
Bem, estou feliz por ter almoçado antes de gravar este depoimento. Investigar este caso tem se mostrado um pouco complicado, já que os registros da polícia, do hospital e até mesmo do corpo de bombeiros apresentam relatos conflitantes. Do que podemos ter certeza é que, na noite de 22 de outubro de 2007, houve um incidente em um apartamento no primeiro andar da Casa Welbeck que envolveu material biológico perigoso e levou à recuperação do corpo de Toby Carlisle, o proprietário legal do imóvel. A causa da morte foi listada como gangrena.
Entramos em contato com o Sr. Rudenko, que confirmou que, desde que se mudou, não teve mais experiências que acreditasse estarem ligadas a esses eventos e, após um extenso processo de aconselhamento terapêutico, estava tentando superá-los. Ele corroborou o depoimento existente, dizendo que ainda acreditava ser um relato verdadeiro do que lhe aconteceu. Não tenho certeza se concordo totalmente, embora é óbvio que haja poucas evidências do contrário.
No entanto uma coisa me intriga. Sasha conseguiu ter acesso a alguns dos antigos registros financeiros de Toby Carlisle e não parecia que estivesse recebendo muito dinheiro, e o que tinha era usado principalmente para pagar o imposto municipal sobre a propriedade. Não há registros de transações em supermercados ou empresas de entrega online, e Tim até perguntou em alguns açougues locais, já que Martin ainda está de licença médica. No final das contas, não conseguimos responder a uma pergunta: de onde ele estava tirando a carne? Não sei por quê, mas isso me incomoda.
Fim da gravação.
***
Link para o índice de capítulos: The Magnus Archives
Para aqueles que puderem e quiserem apoiar a tradução do blog, temos agora uma conta do PIX.
Chave PIX: mylittleworldofsecrets@outlook.com


Nenhum comentário:
Postar um comentário