Capítulo 04: Amor não correspondido é algo que pode até causar dor física
Chastille e os outros Cavaleiros Angelicais haviam recuado.
Os três que estavam com ela foram nocauteados, então Zagan consertou sua barreira e os expulsou sozinho. Ele imaginou que Chastille provavelmente daria um jeito nos outros sozinha.
— Envolvi alguém que não tem nada a ver com isso. Desculpe.
Até o fim, a garota continuou repetindo frases como essa.
Depois de retornar ao castelo, Nephy começou a tratar o ferimento de Zagan. Parecia acostumada com isso, o que o surpreendeu. Depois de um tempo, ele começou a questionar a garota que estava cuidando habilmente de seus ferimentos.
— Nephy, pensei que você não pudesse usar magia?
Com um espasmo, o corpo de Nephy estremeceu.
— Aquilo não foi... Magia.
— Então o que foi?
— Bem... — a expressão de Nephy se fechou. Sua expressão em si não mudou muito, porém a ponta de suas orelhas pontudas pendeu pra baixo.
Ao perceber, Zagan deu de ombros.
— Bem, tanto faz. O tipo de poder que você possui não me interessa.
Claro, não sabia se era feitiçaria ou qualquer outra coisa, contudo se ela possuía algum tipo de poder, por que não resistiu quando foi capturada? Por que não quebrou a coleira? Por que não pensou em fugir de Zagan? Havia uma montanha de perguntas que o incomodavam.
No entanto, nada do que havia acontecido mudou sua opinião a seu respeito... Era o que queria transmitir, mas...
Droga! Quando coloco dessa forma, não parece que não dou a mínima para ela?
Ficou claro que a maneira como expressou seus pensamentos havia causado um mal-entendido. Vendo Nephy abaixar os ombros de forma mais perceptível, Zagan se corrigiu.
— Você é a Nephy, e nada pode mudar esse fato. Não importa o poder que possua, continuará sendo você mesma.
Eu disse direito! Zagan sentiu que ainda era um pouco difícil de entender, todavia, mesmo assim, Nephy o encarou com admiração e surpresa.
— Muito obrigada.
Suas orelhas caídas tremeram de leve.
Por algum motivo, seu semblante parecia um pouco mais tranquilo... Embora fosse questionável se as intenções de Zagan haviam ficado claras ou não.
Enquanto conversavam sobre essas coisas, Nephy terminou de enrolar as bandagens. Zagan ainda sentia dor, mas pelo menos conseguia mover as mãos. Graças a isso, sabia que provavelmente não teria problemas para seguir sua rotina diária. Até certo ponto, poderia até suportar o combate.
Se não fosse pelo poder da Espada Sagrada, teria curado aquele ferimento leve em instantes, porém o tratamento de primeiros socorros de Nephy foi perfeito.
— Hmm... Nada mal. Muito bem.
— Não, foi... Minha culpa... Afinal.
Desta vez, pensou que ela o agradeceria obedientemente, contudo Nephy baixou a cabeça, envergonhada.
Zagan realmente desejava que alguém lhe tivesse ensinado palavras de conforto que pudesse usar em tal situação. Estava até considerando arrancar a língua de Barbatos e transplantá-la para si mesmo.
Depois de se preocupar a ponto de sentir que seu cérebro ia ferver, Zagan por fim conseguiu articular algumas palavras.
— Aah... Você estava... Com medo?
— Está... Me perguntando?
E, contrariando as expectativas, ela fez uma expressão que demonstrava sua clara surpresa.
Aquela expressão o fez sentir que havia tocado em um ponto sensível. Depois de gemer, Nephy abriu a boca para falar.
— Mestre, você não acha... Que eu sou... Assustadora?
— Por quê?
Nephy lhe parecia ainda mais encantadora nesses últimos momentos, com pequenos indícios de seus sentimentos transparecendo em seu rosto. O que havia de estranho nisso?
Quando Zagan inclinou a cabeça, Nephy hesitou e alternou entre olhar o rosto dele e olhar para baixo.
E então, murmurou, reunindo toda a sua coragem para fazê-lo.
— Por quê...? Por causa... Do poder... De antes...
— Ah, sim. Foi algo que nunca vi antes. Na verdade, estou bastante interessado.
De fato, achava que o Arquidemônio Marchosias a havia comprado por causa desse poder.
Ao ouvir sua resposta, Nephy falou em um tom curioso.
— É... Só isso?
— Hm? Acho que disse que não pretendia usá-la como cobaia.
— Eu... Entendo, contudo não foi o que quis dizer...
Parecia que enfim acreditava em sua boa vontade. Ele ficou sinceramente feliz com isso, no entanto a perplexidade de Nephy só aumentou.
Em pouco tempo, talvez resignada ao fato de que não estavam progredindo, Nephy penteou seus cabelos brancos como a neve para cima e começou a falar.
— Esse poder... Não é feitiçaria... Se chama “misticismo”.
— Misticismo... Hein?
Zagan já tinha ouvido o termo antes.
Não era uma técnica desenvolvida pela acumulação de teorias e definições de feitiçaria. Não, com o misticismo, bastava desejar algo que interferisse nas leis da natureza e, dependendo da situação, dizia-se que podia até ressuscitar os mortos.
Era de fato um milagre que ultrapassava o intelecto humano.
Nunca pensei que testemunharia tal poder em ação com meus próprios olhos, então Zagan olhou para Nephy maravilhado.
— Então é real... Todos os elfos podem usar esse poder?
Nephy balançou a cabeça em desaprovação.
— Não. É porque... Eu sou uma criança amaldiçoada. — Nephy repetiu as palavras que hesitou em dizer quando se conheceram. E Zagan a encarou, esperando que dissesse o que vinha a seguir.
— Tenho... Este estranho poder. Sim, é... Um poder que não deveria existir. Crianças de cabelos brancos que possuem este poder... Nunca deveriam ter nascido... É por essa razão...
Seus olhos azuis não refletiam nenhuma emoção enquanto explicava. Nenhuma lágrima escorreu por suas bochechas.
Você não é uma pessoa. Não tem permissão para ter uma opinião. Nem mesmo tem permissão para ter vontade própria. Eram os olhos de alguém a quem disseram tais coisas.
Ela passou por muita coisa, hein...?
Mais uma vez, Zagan não sabia o que dizer para confortá-la. E Nephy, inexpressiva como uma boneca, continuou falando.
— Na nossa vila, quando os humanos atacaram, me pediram para usar meu poder, mas...
Ao ouvir Zagan engolir em seco, Nephy empalideceu e confessou seu pecado.
— Pagar a dívida de ter permissão para viver... Quando os ouvi dizer aquilo, senti algo estalar dentro da minha cabeça. — com a voz trêmula, ela continuou falando. — Eu não... Resisti em nada... E fui capturada pelos humanos. Essa foi... Minha vingança... Contra todos na vila.
Zagan achou que suas ações faziam todo o sentido. Na verdade, aos seus olhos, qualquer um disposto a proteger aqueles que os perseguiam tinha alguns parafusos soltos. Honestamente, por que aquelas pessoas sequer acreditaram que ela correria em sua defesa? Pelo visto eram bastante arrogantes.
— Todos... Fugiram, parecendo desesperados. Apenas alguns foram capturados, e todos os outros foram mortos por espadas ou queimados por feitiçaria. Suponho que ninguém conseguiu escapar. Afinal, até os cadáveres dos elfos são úteis.
Os lábios de Nephy se curvaram em um sorriso.
— Vendo tudo aquilo, o único pensamento que me veio à mente foi “bem feito para vocês”. — sua voz estava trêmula.
— Que cruel da minha parte, não é? Eu... Vi todos morrerem enquanto me amaldiçoavam, e ria do fundo do meu coração. “Desta vez... É a vez de vocês sofrerem”, eu disse.
Depois de terminar sua história, o rosto de Nephy voltou à sua expressão neutra.
— Depois de tudo o que aconteceu, percebi o quão desprezível sou. Entendi que sou uma pessoa capaz de rir enquanto assistia outros morrerem.
Ao ouvir aquelas palavras, um suspiro escapou dos lábios de Zagan.
Entendo. Então é essa a razão pela qual a Nephy perdeu a capacidade de expressar emoções...
Porque se odeia, acabou negando suas próprias emoções.
Entretanto, Zagan acreditava que suas ações apenas serviam para provar quanta virtude essa garota possuía.
Sem se conter, Nephy caiu no chão, desolada.
— Me desculpe. Sou alguém... Repugnante, não sou...?
— Por quê? — enquanto Zagan se inclinava, como se achasse a pergunta estranha, Nephy piscou como se duvidasse do que ouvia.
— U-Uh, o quê? Não, quer dizer...
— Isto não é... Normal? Se fosse eu, teria massacrado o povo da vila. Sim, teria me aliado aos humanos invasores. Já que você não fez isso, acho que é alguém bastante gentil, Nephy.
Essa não era uma tentativa de confortá-la, nem nada parecido, e sim seus verdadeiros pensamentos.
De fato faria o que disse. Mataria até uma garota jovem e bonita como Chastille, se fosse preciso. Para não falar daqueles que lhe causaram mal. Era difícil encontrar um motivo para deixar essas pessoas viverem. Portanto as teria massacrado com prazer.
E se fossem da vila que atormentava Nephy, ainda as torturaria como bônus.
Nephy ficou mais confusa com sua reação.
— É... Assim mesmo?
— É. Antes, quando estava falando com aqueles malditos Cavaleiros Angelicais mais cedo, você estava assustadora, sabia? Se fosse sua intenção de fazê-lo, teria conseguido derrotar todos aqueles elfos sem problemas. — dizendo isso, Zagan apontou o dedo para Nephy. — Além do mais, Nephy, acredito que está equivocada em um ponto.
— E-Estou?
— Sim. Está pensando em “misticismo” como algo maligno, mas não existe bem ou mal quando se trata de poder. Existe algum idiota por aí que pensa que uma lâmina conhece o bem ou o mal? Eu diria que os únicos que pensam assim são aqueles que não a empunham.
Talvez sobrecarregada pelo vigor de Zagan, Nephy assentiu rápida e repetidamente. Ainda assim, suas orelhas seguiam caídas.
— Porém acho... Que o que fiz... Não pode ser perdoado.
— Quem não te perdoa?
— S-Seriam... Todos... Na... Vila.
— Eles não estão mortos? Esqueça-os. Não há como continuarem reclamando agora.
Com um estalo, a boca de Nephy se abriu.
— Preste atenção, Nephy? As pessoas não podem sobreviver apenas com bons pensamentos. Se tem poder, use-o e viva. Se não, estará apenas desrespeitando as massas impotentes que já morreram.
Como se estivesse absorvendo o significado por trás daquelas palavras, Nephy deu um tapinha no peito.
— É realmente certo... Eu ter... Poder?
— Então deixe-me perguntar, é ruim ter poder? É mal desejar ter força?
— Isto é... — Nephy não conseguiu responder, então Zagan gentilmente interveio como um pai carinhoso.
— Aliás, a maioria das pessoas me considera mau.
Ao ouvir essas palavras, Nephy se enrijeceu.
— Hã?
Em resposta àquela garota chocada, Zagan falou como se estivesse relembrando memórias nostálgicas.
— Não me lembro quem foi, contudo me disseram que eu, que podia fazer qualquer coisa sozinho, jamais conseguiria entender os sentimentos deles. Que os fortes não conseguiam entender os sentimentos dos fracos.
Se bem se lembrava, era uma garota lamentável, embora adorável, que estava fugindo de um ataque de bandidos, se perdeu no domínio de Zagan e acionou uma armadilha.
Ocorreu por volta da época em que Zagan começara a adquirir poder como feiticeiro. Ele se sentia sozinho, então também tinha o motivo oculto de talvez se dar bem com os outros se a salvasse. Ainda assim, acreditava que estava de verdade fazendo o seu melhor para salvar alguém necessitado.
Zagan espantou os bandidos e a salvou da armadilha, no entanto a única coisa que a garota disse em troca foi...
— É errado os fracos viverem? Você se sente bem exibindo seu poder?
Ele se arrependeu de tê-la salvado. E, naquele momento, sentiu vontade de vomitar enquanto a garota fugia.
Ao refletir sobre o ocorrido, compreendeu que a garota estava apenas frustrada e queria extravasar sua raiva. Mesmo assim, aquele incidente só aumentou sua desconfiança em relação a estranhos.
Piedade e bondade não passavam de veneno que corrompia as pessoas. E, por esse motivo, aquela garota odiava estar imersa em um sentimento tão morno.
Salvar pessoas não tinha nenhum significado além da satisfação pessoal.
Esmagar os fracos era algo natural. Afinal, eles não valiam nada.
Não há como... Eu entender os sentimentos dos fracos.
Como se estivesse cuspindo memórias amargas, Zagan falou.
— É óbvio. Me tornei forte porque não queria ser como aquelas pessoas.
Os fracos arrastavam os outros consigo.
A ideia de um estranho salvá-lo em um momento de necessidade era patética.
Confiar em alguém, quando até mesmo um pai abandonaria seu filho, era o mesmo que convidá-lo a se aproveitar de você. Foi por essa razão que Zagan buscou poder desesperadamente e se tornou mais forte.
Bem, não havia nada no fim daquela estrada.
Depois de buscar por força durante tanto tempo, percebeu que as pessoas não mereciam sua confiança.
Ser chamado de superior soava e era agradável, todavia também era inútil. Ainda assim, podia acreditar em si próprio.
Se o ajudasse a sobreviver, aceitaria de bom grado.
Zagan riu de si mesmo.
Digo isso, mas perdi a cabeça só porque Nephy está um pouco para baixo...
Até ele achou engraçado. Tendo evitado as pessoas por tanto tempo, não pôde deixar de achar a garota à sua frente encantadora.
Enquanto afirmava que o amor era uma mera invenção, amava outra pessoa do fundo do coração.
Essa foi sua primeira experiência romântica.
Sabia que a contradição poderia levá-lo à ruína um dia, entretanto queria aceitar esses sentimentos de alguma forma.
Foi desse jeito que Zagan, desesperadamente, juntou algumas palavras desajeitadas.
— É por isso, Nephy, não se preocupe com os outros.
Tocando a bochecha branca de Nephy com a mão, sem nem saber o que dizer, se esforçou ao máximo para expressar seus sentimentos.
— Então... Não faça essa cara. Eu já te disse... Que preciso de você, não é?
Seus olhos azuis oscilaram ao ouvir suas palavras. E então, seus dedos finos apertaram a mão de Zagan.
— Tudo bem... Eu... Ficar aqui?
— Claro que está. Você me alimentou com comidas tão deliciosas. Não consigo nem imaginar viver sem tê-la aqui agora.
Zagan se perguntou se falar de comida era apropriado, porém assim que pronunciou essas palavras, percebeu que nada mais importava.
Lágrimas escorreram pelas bochechas de Nephy.
— N-Nephy?
— Uwah... Hic...
Enquanto Zagan emitia uma voz confusa, Nephy se agarrou ao seu peito e começou a soluçar.
— Uwaaaaaaaaaaaaaaaaah.
E então sua voz se elevou e gritou.
Zagan não disse nada, preferindo acariciar sua cabeça até que suas lágrimas secassem.
Depois de se acalmar e se recompor, Nephy abaixou a cabeça e amassou o avental nas mãos.
— Hmm, eu te mostrei... Algo constrangedor.
— Não me importo. É a primeira vez que te vejo falar tanto, Nephy. — enquanto dizia essas palavras para provocá-la, as pontas das orelhas de Nephy ficaram vermelhas.
— Mestre, isso é maldade.
Depois de responder, Nephy baixou o olhar para a mão de Zagan. Era a mão que estava acariciando a cabeça de Nephy até momentos atrás.
— Mestre, sua mão... Não dói?
— Hm? Agora que mencionou...
Antes que percebesse, havia parado de sentir a dor. Não era como se tivesse perdido os sentidos, então por quê? Enquanto inclinava a cabeça para o lado, Nephy pegou sua mão na sua.
— Mestre, com licença. — fazendo esse pedido, ela começou a desfazer as bandagens que havia colocado em volta da mão.
E enquanto o fazia, o que encontrou? O ferimento, que ainda tinha vestígios de sangue minutos antes, havia desaparecido sem deixar rastro.
Ao ver aquilo, até Zagan arregalou os olhos, surpreso.
— Nephy, você fez isso?
— Eu não sei... No entanto... Acho que sim.
Ela provavelmente não sabia porque tinha acontecido inconscientemente.
Como sempre foi intimidada pelos outros aldeões, a ideia de curar os ferimentos dos outros nunca havia lhe ocorrido.
— Que surpresa.
Parecia que o misticismo superava até mesmo o poder de uma Espada Sagrada.
— Wow, isso é incrível.
— É... Mesmo...?
— Sim. Obrigado, Nephy.
Os olhos de Nephy se arregalaram enquanto Zagan expressava sua sincera gratidão.
— O que foi?
— Mestre, esta é a primeira vez... Que o senhor me agradece.
Até mesmo Zagan ficou perplexo com aquela frase.
Quer dizer que até agora nunca disse “obrigado”, nem uma vez, não é?
Embora Nephy estivesse fazendo tudo o que podia para preparar suas refeições e cuidar de seu castelo...
— Oh, sobre isso... Desculpe. — enquanto Zagan pedia desculpas, as pontas das orelhas de Nephy tremeram, mostrando sua alegria.
— Afinal, eu pertenço ao senhor, Mestre.
Muito provavelmente não era imaginação dele que a voz dela soasse feliz.
Aquele sentimento de solidão, que antes o consumia, havia desaparecido.
***
Meia-noite. Pelo que se lembrava, era a hora em que Zagan se dedicava à pesquisa, todavia nos últimos dias havia se tornado a hora de dormir. Como Nephy seguia uma rotina bastante normal, Zagan acabou se acostumando também.
Com o cotovelo apoiado no trono, se entregou ao sono. Entretanto, uma batida na porta do salão soou.
— Nephy? O que houve a essa hora?
Em seu dia a dia, Nephy já estaria dormindo a essa hora. Poderia estar apenas com sede, mas era a primeira vez que descia da torre e vinha até a sala do trono tão tarde da noite.
Ao entrar, Zagan notou seu camisolão branco, o que deixou claro que ela já havia ido para a cama. O jeito como carregava um travesseiro fofo nos braços era tão adorável que Zagan sentiu que ia perder a cabeça.
Ainda abraçada ao travesseiro, Nephy timidamente abriu a boca para falar.
— Hum, Mestre...
— Hm?
Vendo-a fazendo cerimônia para lhe dizer algo, Zagan se endireitou.
E logo, Nephy se decidiu e falou.
— Seria... Bom... Dormirmos juntos?
Não apenas suas orelhas, como até mesmo seu rosto corou ao dizer essas palavras.
E o rosto de Zagan se enrijeceu.
Eu sou um homem, e Nephy é uma mulher, então quando diz dormir juntos, quer dizer...
Zagan engoliu em seco.
Até ele era um homem. O pensamento de querer tocar a pele macia e delicada de uma garota tão adorável já havia passado por sua mente inúmeras vezes.
Porém, se viesse a se entregar à luxúria uma única vez e magoasse Nephy, Zagan nunca se recuperaria. Era por essa razão que havia se contido até então.
E agora Nephy veio se entregar a mim? Considerando a possibilidade de ter ouvido errado ou de ter sido um mero lapso de língua, Zagan se acalmou e pediu que repetisse.
— Nephy, você entendeu o que acabou de dizer?
— Sim. — ela provavelmente também estava bastante nervosa. E então, com lágrimas se formando em seus olhos, disse o que pensava em uma voz miúda. — Só tem uma cama... Neste castelo, afinal.
E quando estava prestes a gritar de alegria, Zagan inclinou a cabeça para o lado.
Hmm? Espere aí, essa é uma maneira estranha de se colocar... Era óbvio que se alguém pensasse em algum tipo de cama decente neste castelo, a única que viria à mente seria a de Nephy. Qualquer outra estava quebrada ou muito suja, e Nephy se esforçava ao máximo para guardá-las.
Claro, não se opunha à ideia de eles ficarem juntos no quarto de Nephy, no entanto sentia que não era essa a ideia que a garota estava tentando dizer.
Após refletir por alguns segundos pensando, percebeu que não conseguiria chegar ao cerne do problema sozinho, então a incentivou a dar mais detalhes.
— Q-Quer dizer...?
Nephy também pareceu perceber que sua explicação era insuficiente e, depois de morder o lábio com timidez, começou a explicar desde o início.
— Mestre, o senhor sempre dorme neste trono.
— Pois é.
— Acho que deitar enquanto descansa... Talvez o faça se sentir... Mais à vontade.
Contudo, mesmo que quisesse deitar, a única cama disponível era a de Nephy.
Em outras palavras... Hmm? Então não se trata de abrir mão do corpo dela ou algo desse tipo? Enquanto Zagan fazia uma cara de total confusão, Nephy terminou o que estava dizendo.
— Sendo assim... Que tal... Dormirmos... Juntos...
Seu rosto já estava tão corado que parecia que ia pegar fogo.
Zagan pensou que talvez estivesse fazendo exatamente a mesma cara naquele momento.
Você é pura demais, droga... Em outras palavras, parecia que não queria dizer que desejava que os dois tivessem um relacionamento físico. Não, apenas desejava compartilhar a cama. Ainda assim, parecia bastante inadequado, considerando suas expectativas anteriores...
A sensação de desejo por ter sua esperança tão elevada e a vontade de aceitar Nephy puramente travavam uma batalha. E no final desse conflito, Zagan chegou a uma resposta bastante estranha.
— Escute, Nephy. Agradeço a consideração, só que este cômodo é a pedra angular da minha barreira. É o local mais conveniente para implantar contramedidas em caso de intrusos.
Zagan sentiu como se lágrimas de sangue fossem jorrar de seus olhos. Todavia, essa também era a verdade.
Afinal, aqueles malditos Cavaleiros Angelicais invadiram aqui à tarde. Em qualquer outro dia, não se preocuparia tanto, mas sentia que não podia se dar ao luxo de ser negligente.
Era fácil se sentir relaxado logo após repelir intrusos, então a probabilidade de uma segunda onda invadir e atacar era alta.
Era por isso que Zagan precisava estar posicionado no cômodo para responder a qualquer investida o quanto antes.
Porém, Nephy assentiu como se já tivesse previsto sua resposta.
— Pensei... Que poderia ser esse o caso, então... — Nephy sentou-se no tapete e abriu os braços. — Por favor, fique à vontade... E use meu colo.
Um travesseiro... De colo? Ele não esperava por essa reviravolta. Além do mais, vendo que até trouxera seu travesseiro, ela parecia determinada a ficar a noite toda. Zagan estava em dúvida se não acabaria morrendo de felicidade.
Como não conseguia tomar uma decisão rápida, Nephy começou a acenar com os braços abertos, chamando-o para perto. Parecia que era constrangedor demais repetir, então tentava gesticular para que se aproximasse logo.
Não há como recusar um convite desses...! Sentiu vontade de olhar para Nephy por mais um tempo, contudo Zagan se levantou em seguida do trono, perdendo a paciência.
— E-Entendi. Então, vou deixar em suas mãos!
Hesitando enquanto se esparramava no chão, apoiou a cabeça no colo de Nephy.
Era um tapete que se pisava com sapatos, no entanto como Nephy o lavara e esfregara, estava mais macio do que qualquer cobertor comum. E por causa do calor do corpo dela, emanando de suas coxas macias, uma estranha sensação de tranquilidade dominou sua luxúria.
Nephy o encarou enquanto sua cabeça se abaixava em seu colo.
— Como... Está?
— N-Não... Está ruim.
O rosto de Nephy estava coberto por seus seios enormes enquanto Zagan a olhava de baixo. Ainda conseguia distinguir metade do rosto, entretanto honestamente não sabia para onde olhar.
Por fim, Nephy começou a acariciar a cabeça de Zagan de forma desajeitada.
O olhar de Zagan começou a perambular por causa da sensação de cócegas e, de certa forma, reconfortante. E, como se recuperasse a compostura, pigarreou.
— P-Por que isso de repente?
Nephy desviou o olhar, como se estivesse confusa, e então falou em um sussurro.
— Mestre, mesmo quando... O senhor descobriu meu misticismo, disse que eu podia ficar aqui. É por isso que... Quero demonstrar minha gratidão... De alguma forma...
Expressar tais pensamentos e sentimentos era algo inédito para ela. E entender o quanto estava feliz também deixou Zagan contente.
Ainda estirado no chão, Zagan estendeu a mão até o rosto de Nephy.
— Você sempre me ajuda de tantas maneiras... Sério, não precisamos expressar nossa gratidão de forma tão formal.
— Entendi. — Nephy assentiu, tímida.
Zagan então se lembrou de algo que não havia mencionado antes. Como os Cavaleiros Angelicais apareceram, não teve a chance de dizer.
— Ei, Nephy.
— Sim.
Zagan falou o que pensava enquanto ela assentia com a cabeça, com uma expressão vazia no rosto.
— Você quer tentar... Aprender feitiçaria?
Nephy piscou duas vezes e então seus olhos se arregalaram em surpresa.
— Eu... Aprender feitiçaria?
— Sim. Acredito que tenha talento para a feitiçaria. Além do mais, não consegue controlar esse “misticismo” ou seja lá o que for que fez esta tarde, certo?
No momento, ela não conseguia usar feitiçaria com a coleira selando sua mana. Todavia era capaz de manifestar misticismo mesmo com a coleira.
Se a tivesse deixado sozinha naquela época, os Cavaleiros Angelicais que Nephy atacou acabariam tendo sido despedaçados. Além disso, também havia curado o ferimento de Zagan. Se pudesse controlá-lo de forma consciente, então havia uma boa chance de que em algum ponto se tornasse forte o suficiente para ferir até mesmo Zagan.
— É um poder com uma estrutura diferente, então só estudar feitiçaria não necessariamente ajudará a controlar o misticismo. Entretanto, deve ser capaz de se defender com ele por enquanto.
Zagan havia enfrentado alguns contratempos, mas não havia desistido de remover a coleira em seu pescoço. Foi por esse motivo que queria prepará-la para o dia em que fosse libertada.
E, como se não conseguisse esconder sua perplexidade, os olhos de Nephy tremeram.
— E-Eu... Realmente conseguiria...?
— Claro que consegue. Tenho certeza de que se tornará uma feiticeira muito mais forte do que eu.
Originalmente, os elfos eram uma raça que armazenava mana poderosa dentro de si. Com esse fato, além dos sentidos de Nephy, até mesmo o trono de Arquidemônio estava à vista.
Nephy então apertou o peito com força.
— Serei... Capaz de chegar a um ponto em que eu lhe seja útil, Mestre?
— Já é... Mais do que útil para mim.
Não se tratava apenas de administrar seus assuntos diários. Aos poucos, ele havia sido capaz de demonstrar mais emoções, e todos os dias eles se encontravam frente a frente e conversavam. Realmente sentia que havia conquistado algo insubstituível graças a tudo isso.
— Também... Me tornarei como você, Mestre?
— Uh... Em termos de poder, certo? Se possível, gostaria que todo o resto permanecesse como está.
Claro, desejava ensiná-la feitiçaria, porém era um pouco problemático para ela admirar um vilão como Zagan. Queria ver muito mais de suas expressões, e também sentia que queria que Nephy permanecesse a mesma.
— Serei... Capaz de ajudá-lo, Mestre?
— Você me protegeu daqueles malditos Cavaleiros Angelicais, não é verdade?
Ele se sentia um tanto patético por ser protegido por uma garota, contudo, honestamente, estava feliz com o ocorrido.
Enquanto pensava, as orelhas de Nephy se mexeram e vibraram.
— Farei isso. Mestre, por sua causa, aprenderei feitiçaria.
Preferiria que dissesse que é por sua própria causa... Mesmo assim, ter chegado ao ponto de nutrir algum tipo de ambição já é um passo à frente. Foi por esse motivo que Zagan respondeu em um tom alegre.
— Então, Nephy, agora será minha discípula a partir deste momento.
— Sim!
Sua expressão já parecia mais feliz.
Uma discípula, hein...? Até dizer em voz alta, nunca havia considerado a possibilidade. A ideia de passar seu conhecimento e poder para outra pessoa.
Mesmo assim, queria transmitir todo esse conhecimento a Nephy incondicionalmente.
Os dois permaneceram assim por um tempo, desfrutando do silêncio. Após um longo período de tempo, Nephy falou em um tom reconfortante.
— Hmm, Mestre.
— O que foi?
— Sobre esta noite...
Por “noite”, ela provavelmente se referia ao período após terem repelido os Cavaleiros Angelicais, quando Nephy estava cuidando do ferimento de Zagan.
— Mestre, já lhe disseram... Você, que pode fazer tudo sozinho, não consegue entender os sentimentos dos fracos.
— É, eu disse algo parecido, não disse?
Essa foi uma das coisas que contou a Nephy depois de desabafar sobre seu segredo.
Era uma história tediosa do passado, contudo queria que Nephy soubesse que não precisava se preocupar com os olhares e as palavras dos outros.
E, em resposta, Nephy acariciou suavemente a cabeça de Zagan com carinho.
— Mestre, você me contou aquilo como se não fosse nada, no entanto na verdade foi doloroso, não é?
Zagan arregalou os olhos ao assimilar aquelas palavras.
— Por que... Pensa que foi?
Os cabelos brancos como a neve de Nephy balançaram enquanto negava com a cabeça.
— Não sei, entretanto... — como se fosse sua própria dor, sua mão se cerrou sobre o peito.
— Naquele momento, você parecia muito triste.
Nephy então se enrolou no corpo de Zagan como se o estivesse abraçando. As curvas suaves se inclinaram sobre o rosto dele, o que fez com que Zagan corasse.
— E-Ei...
Sem se preocupar com a inquietação de Zagan, Nephy continuou falando.
— O Mestre não é mau. Mesmo que as palavras que diga sejam poucas, nunca me esquecerei... De que foi gentil comigo.
Ainda que fosse patético, Zagan sentiu vontade de chorar ao ouvir aquelas palavras. Sua voz tremeu e apenas conseguiu dar uma resposta curta e simples.
— Entendo.
Todavia, apesar disso, as orelhas de Nephy se moveram, alegres, enquanto assentia.
— Fico feliz.
O batimento cardíaco de Nephy era transmitido a ele através do peito dela, que o pressionava. Seja por nervosismo, timidez ou talvez outra emoção, foi um som muito rápido.
Era a sensação de suas emoções congeladas derretendo suavemente, o que fez Zagan perder toda a força nos ombros.
— Nephy.
— Sim.
Ele só queria chamá-la, mesmo sem ter nada a dizer. Só... Queria tentar dizer o seu nome.
— Esse tipo de coisa... Não é ruim... É?
— Não é. — Nephy assentiu, como sempre fazia.
Certamente, ainda que desejasse seu corpo, ela não recusaria. Porém, estar em seu colo era confortável demais para permitir tais pensamentos.
Zagan adormeceu sem perceber. Fazia muito tempo que não se sentia tão à vontade.
***
— Que diabos, cara! Vim aqui depois de ouvir que você foi atacado por Cavaleiros Angelicais, mas não tem nem sequer um arranhão?
No dia seguinte, na sala do trono.
Quem disse isso depois de romper a barreira e invadir o território alheio foi Barbatos.
Já fazia cerca de uma semana desde o último encontro pessoal, contudo seu comportamento não havia mudado.
Zagan acenou com a mão como se achasse aquilo irritante. Sendo franco, nunca aparecia quando de fato era necessário, e só atrapalhava chegando tão tarde, então estava bastante irritado.
— Como se me importasse. A culpa é deles por serem fracos, não é?
— Fracos? Ah, qual é, ouvi dizer que alguém com uma Espada Sagrada foi enviado!
— Espada Sagrada? Oh, agora que mencionou, havia uma.
Barbatos se referia a Chastille. Sendo honesto, a memória da cavaleira havia se apagado de sua mente devido ao uso de misticismo por Nephy. Além do mais, embora fosse uma Cavaleira Angelical, não demonstrava hostilidade contra Zagan. Se ela tivesse lutado sério, talvez tivesse sido capaz de enfrentar Zagan em seu nível. Foi por esse motivo que não a considerava uma inimiga.
— Wow, nem mesmo a Donzela da Espada Sagrada foi uma oponente à altura?
— Não, na verdade era bem forte. Afinal, ela quebrou algumas das barreiras do castelo.
E, como ele ainda não tinha terminado de consertar as tais barreiras, achou melhor terminar o trabalho do que continuar a conversa.
No entanto, enquanto pensava nisso, Nephy se aproximou com chá e doces assados em uma bandeja.
Depois de colocar a bandeja em cima de uma pequena mesa que havia preparado com antecedência, sem o conhecimento de Zagan, ela fez uma reverência graciosa.
— Por favor, fique à vontade. Use o leite e o açúcar a gosto no chá.
Barbatos ficou boquiaberto ao observar tudo aquilo.
— Ei, essa é... A elfa de antes, certo? Estou enganado?
— Não, não há como confundir, é a garota do leilão.
— Você ainda não a usou como sacrifício? Ou o quê, em troca de prolongar a sua vida, está fazendo-a servi-lo ou algo assim? Que gentil. Vejo que tem bom gosto.
Nephy agarrou-se ao manto de Zagan como se estivesse assustada com os pensamentos de Barbatos.
— Não me coloque no mesmo saco que você. Nephy é, bem... Hmm, minha discípula.
O rosto de Barbatos se contorceu, e então gritou, incapaz de acreditar nas palavras de Zagan.
— Que diabos? Uma discípula? Acabou de dizer discípula, né? Discípula, certo? Aquela coisa de ensinar sua feitiçaria para outra pessoa, certo? Logo você?
— Não posso? — Zagan empurrou seu amigo indesejado para trás como se o achasse detestável.
Entretanto, era difícil dizer que a comprou porque se apaixonou à primeira vista. Depois de se preocupar um pouco considerando a ideia, encontrou uma boa desculpa que parecia se encaixar.
— Há feitiçaria que não consigo usar sozinho. Nephy com certeza será útil.
Ele estava falando de Nephy como se fosse uma ferramenta outra vez, todavia estava se esforçando ao máximo para elogiá-la.
Mesmo com feitiçaria, não consigo obter tudo sozinho. Depois de tudo, a simples felicidade que havia conquistado por estar com Nephy era uma dessas coisas.
Parecia que Nephy também havia se acostumado com o jeito indireto de Zagan falar. E então, graciosamente puxou a barra da saia enquanto inclinava a cabeça.
— Estou honrada.
E, como se estivesse surpreso, Barbatos bateu na própria testa.
— Droga, entendi... Nada está fora de alcance se tiver uma elfa ao seu lado... Droga, nunca pensei em usar uma assim...
Zagan percebeu que seu rosto se fechou ao ouvir Barbatos falar de Nephy como uma ferramenta. Claro, havia dito algo semelhante agora pouco, embora não significava que qualquer outra pessoa pudesse.
Depois de pensar um pouco, Barbatos exibiu uma expressão de surpresa, como se tivesse tido um pensamento curioso.
— Não pode ser... Não me diga que esmagou aqueles malditos Cavaleiros Angelicais graças a esse poder?
— Bem, Nephy sem dúvida teve sua parcela de responsabilidade.
Um dos Cavaleiros Angelicais foi derrotado por Nephy, então não era errado dizer que havia tomado emprestado o seu poder. Então, com uma expressão humilde no rosto, Barbatos murmurou.
— Quer dizer que aquela destruição na entrada também é por causa desse poder?
Refletindo sobre o ocorrido, Zagan percebeu que nunca havia limpado as consequências da manipulação da floresta por Nephy. Pelo visto, Barbatos já devia ter visto os vestígios. E a visão indicava que algum poder além de feitiçaria estava em jogo.
Considerando a expressão de Zagan como confirmação, Barbatos soltou um gemido.
— Você... Está mesmo de olho no título de Arquidemônio, hein?
Ao ouvir esse nome, Zagan por fim se lembrou de que ele e Barbatos eram candidatos a suceder o Arquidemônio Marchosias. Na verdade, sua cabeça estava cheia por causa de Nephy, então não havia pensado na ideia nos últimos dias.
O motivo era que Zagan enfim tinha algo que desejava muito mais do que status.
Não me importo de não ser coroado Arquidemônio, contanto que eu possa manter o que realmente quero...
Não era como se ter a mente totalmente ocupada por Nephy o fizesse perder todo o interesse no título. Pelo contrário, talvez Zagan fosse quem melhor se encaixava na posição.
Ainda assim, não desejava o título, mas algo que viesse junto com este... Sim...
Será que se eu me tornar um Arquidemônio afastaria outros feiticeiros da Nephy? Nephy havia se tornado discípula de Zagan. Se fosse um Arquidemônio, então seria discípula de um. Além do mais, se tornaria uma existência semelhante a dele.
Não importava o quão confiante um feiticeiro fosse, era improvável que houvesse algum idiota por aí que o desafiaria para uma briga nesse caso. Foi por meio dessa linha de raciocínio que Zagan respondeu com uma risada feroz.
— Há algum motivo para eu não estar?
Sinceramente, no estágio atual, de fato não achava que seria escolhido.
Não era que duvidasse de suas habilidades, porém sabia que seria difícil ultrapassar feiticeiros que viveram por várias centenas de anos quando tinha apenas dezoito anos.
Zagan só começou a trilhar o caminho de um feiticeiro há dez anos, e os outros feiticeiros passaram centenas de anos aprimorando suas habilidades. Não importava o quanto lutasse contra o conhecimento que eles adquiriram ao longo do tempo e sua experiência acumulada, não tinha chance de vencer.
Ainda assim, enquanto seguir respirando, meu objetivo será me tornar o próximo Arquidemônio.
Um novo Arquidemônio não era coroado com muita frequência, contudo imaginou que teria uma chance contanto que vivesse mais cem anos.
Zagan pegou uma xícara de chá. Depois de saborear o aroma refrescante, levou a xícara aos lábios. Não sabia qual era a marca, no entanto tinha um sabor elegante. Combinava perfeitamente com os doces assados.
— Hmm... Tem um gosto bom.
— Isso me traz a maior alegria, Mestre.
Barbatos observou aquela troca de palavras como se fosse inesperada.
— Zagan, me diga que estou errado, amigo. Você não está começando a gostar dessa garota, está?
— É tão estranho gostar de um discípulo? — ao responder dessa forma, Zagan percebeu que a palavra “discípulo” era bastante conveniente. Seu amor à primeira vista, que vinha tentando explicar, foi disfarçado graças a uma única palavra.
Barbatos então elevou a voz com uma risadinha.
— Heh... Entendi. É assim, hein? Até você ainda tem um pouco de humanidade. Que estranho.
— Cala a boca.
Depois de engolir o chá de uma vez só, Barbatos se levantou.
— O quê, já vai embora?
— É. Quer dizer, não vou deixá-lo roubar o título de Arquidemônio de mim. Além do mais, apareceu um prêmio inesperado.
Barbatos se afastou, deixando Zagan para trás, que inclinava a cabeça para o que acabara de ouvir.
— Por que diabos aquele cara veio aqui...? — enquanto Zagan soltava um suspiro de espanto, Nephy falou com uma voz curiosa.
— Não é um amigo?
— Sem chance. Amigos só trazem desvantagens, então tem que escolhê-los bem.
— Mestre, o senhor parecia estar se divertindo.
— Sério?
— De fato.
Zagan não queria admitir, todavia Nephy assentiu com convicção.
Conversar com um cara assim... É divertido? Ele achou a ideia estúpida. Nephy sem dúvida estava se equivocando. Embora, por algum motivo, não conseguia negar com veemência suas palavras. Por algum acaso, talvez Zagan apenas não tivesse percebido que já tinha a sorte de ter um amigo.
Afastando a dificuldade de aceitar esse fato com um gole de chá, Zagan se levantou do trono.
— Bem, está na hora de começar a reparar a barreira que aqueles malditos Cavaleiros Angelicais quebraram. Nephy, você deveria vir me ajudar. Considere uma lição. Vou começar pelos fundamentos do círculo mágico.
— Sim, Mestre! — respondeu a garota.
O tempo que não foi passado sozinho, ao contrário do esperado, tinha um sabor bastante doce.
***
Já haviam se passado quinze dias desde o fatídico dia em que Zagan comprou Nephy.
Durante esse tempo, ela havia estudado diligentemente os fundamentos da feitiçaria. Se não fosse pela coleira, já teria alcançado o ponto em que poderia usá-la razoavelmente bem.
Quanto ao misticismo, bem, controlá-lo ainda parecia difícil. Também parecia que não era um poder onipotente, pois tinha muitas limitações. Zagan ficou com a impressão de que o caminho para aprimorar essa habilidade em particular seria bastante longo.
Mesmo assim, achava que a vida dos dois juntos era gratificante. E durante esse tempo, Zagan recebeu uma convocação dos Arquidemônios.
E agora, o que será que querem?
Quando foi encontrá-los, deparou-se com doze figuras sombrias. Cada uma delas tinha o rosto oculto e estavam posicionadas de forma a permanecerem nas sombras, de modo que Zagan não conseguia distinguir nenhuma de suas feições.
Porém, era pouco provável que houvesse algum propósito para tal ocultação. A mana que sentia emanando de cada um era de uma magnitude muito diferente, o que tornava suas identidades óbvias.
Que diabos...
Suor se formou em sua testa. Sim, ainda que estivessem apenas o observando, emanavam uma aura intimidadora que lhe causava arrepios até a medula dos ossos. Parecia que o próprio ar havia se transformado em lama devido à malícia que o envolvia. Apenas estar ali o fazia sentir náuseas.
Seriam tais criaturas... Mortais, assim como ele? Não era o desconforto que um sapo sentiria ao ser encarado por uma cobra. Era mais como ser um sapo que já estava no estômago de uma cobra.
Os doze Arquidemônios existentes... Haviam se reunido aqui neste lugar.
Eles eram o que aguardava os feiticeiros ao final de sua longa jornada. Ou entrariam para o seu domínio, ou apodreceriam antes de chegar. Esses eram os únicos dois destinos que aguardavam todos os feiticeiros. E, por fim, um deles abriu a boca em tom solene.
— Então este é Zagan.
Em seguida, a voz de uma mulher ressoou.
— Ouvi sussurros de que era jovem, mas é uma criança, na verdade...
E outra voz continuou depois.
— Que engraçado. Isto o tornaria o mais jovem da história, não é?
Os Arquidemônios olharam para Zagan e começaram a rir de uma maneira um tanto estranha.
Zagan não gostava de ser feito de bobo. Claro, todos eram figuras que mereciam seu respeito, contudo não tinha tempo de sobra para entreter um bando de idosos.
Se eu não voltar logo, não chegarei a tempo para o café da manhã de Nephy. Nephy o esperava sozinha, isolada, enquanto permanecia parado com pessoas pelas quais não demonstrava o menor interesse.
Além do mais, embora a barreira do castelo tivesse sido restaurada, não era forte o suficiente para deter um Cavaleiro Angelical com uma Espada Sagrada, ou qualquer feitiçaria do nível de Barbatos. Enquanto o misticismo de Nephy permanecesse instável, precisava manter suas saídas do castelo curtas.
Foi por isso que Zagan se pronunciou com insolência.
— O quê, vocês me convocaram apenas para observar um animal peculiar? Se estão satisfeitos, gostaria de voltar agora. — foi um comentário imprudente que emitiu para pessoas de posição muito superior, então não poderia nem reclamar se fosse morto.
No entanto, os Arquidemônios apenas murmuraram, parecendo satisfeitos com sua atitude.
— Ora, que falta de educação a nossa.
— Até para nós, um feiticeiro como você é uma novidade. Perdoe nossa curiosidade latente.
— Devo dizer que é bastante ousado. Falar conosco de tal maneira neste lugar.
Depois que várias vozes risonhas se manifestaram, uma figura sombria entre elas, que parecia ser o líder, assumiu o comando.
— Irei direto ao ponto. — o tom astuto daquela voz fez o coração de Zagan se sentir como se estivesse preso em um torno.
Suor frio o invadiu, ele encarou a figura sombria à sua frente. E então, ela fez um anúncio chocante.
— Feiticeiro Zagan. Você se tornará nosso décimo terceiro amigo jurado... Nós o julgamos digno de ostentar o título de Arquidemônio.
Em resposta àquele anúncio repentino, Zagan enrijeceu no lugar.
Eu ouvi errado? Eles estão me tornando... Um Arquidemônio? Em vez de alegria, sentimentos de dúvida o invadiram. Antes que Zagan pudesse abrir a boca, um enorme sigilo feito de luz surgiu atrás dos Arquidemônios.
Não, não era luz. Era mana. Era tecido a partir de uma quantidade e densidade de mana sobrenaturais. Só de vê-lo, os joelhos de Zagan fraquejaram. Era uma massa de poder avassalador. E então, sentiu o mesmo poder daquele brasão emanando de todas as doze pessoas presentes.
A figura sombria que liderava o grupo então falou.
— Este é o Sigilo do Arquidemônio que foi confiado a Marchosias. Todo novo Arquidemônio deve herdá-lo para se juntar a nós.
Zagan engoliu em seco. Então Arquidemônio não é apenas um título pomposo, hein? Herdar um sigilo... Se isso significava herdar esse poder, então não havia como um feiticeiro comum rivalizar com um Arquidemônio. Parecia que a razão pela qual todos os feiticeiros não tinham escolha a não ser acatar os decretos de tais seres não era apenas por causa da hierarquia.
Após contemplar tal visão, Zagan percebeu que aquilo não era brincadeira e que de fato estava prestes a se tornar um Arquidemônio.
Antes que pudesse perceber, sentiu a garganta seca. E enquanto sua garganta latejava, pediu esclarecimentos.
— Eu... Me tornarei um Arquidemônio?
— Está descontente?
— Não exatamente, contudo é intrigante. Não é como se não existissem feiticeiros muito mais poderosos do que eu por aí, certo?
Barbatos, por exemplo. Mesmo os feiticeiros que viu no leilão onde comprou Nephy viveram mais tempo do que Zagan, e todos acumularam vasto conhecimento e poder. Em contraste, Zagan nem sequer possuía um segundo nome.
— Uma suspeita natural. Seu poder segue sendo insignificante.
— A ponto de desaparecer se soprarmos.
As figuras sombrias continuaram a falar.
— Ainda assim, não há feiticeiros que possam te matar.
Em seus pensamentos mais profundos, Zagan estalou a língua.
Então eles já viram através do meu trunfo? O poder de Zagan era tal qual o descreveram.
— O primeiro feiticeiro que você assassinou foi Andras, que tinha o nome de “Ressentimento”, não era?
Esse era o nome do feiticeiro que planejava usar Zagan como sacrifício.
— Ele não possuía tanto poder quanto você agora, todavia também não era um feiticeiro fraco.
— Ainda que fosse uma chance em dez mil, não era tão incompetente a ponto de ficar atrás de uma criança de oito anos.
— E, no entanto, você o matou e roubou toda a sua sabedoria.
Um registro de traição. E, apesar disso, os Arquidemônios o exaltaram como se fosse um grande feito.
— Até aquele ponto, você não teve sequer uma única oportunidade de tocar na feitiçaria.
— A única vez que testemunhou feitiçaria... Foi naquela única vez em que Andras a lançou contra ti.
— E nesse estado, conseguiu massacrar um feiticeiro que possuía um segundo nome, correto?
E, como se falasse com amor, uma das figuras sombrias elevou a voz.
—Aprendendo feitiçaria apenas observando-a uma vez.
E outra figura sombria seguiu-os.
— Não, apenas com essa única vez, pôde compreender até mesmo a estrutura da feitiçaria.
— É por isso que, a partir dessa única experiência, uma feitiçaria única foi concebida.
Zagan possuía apenas uma única feitiçaria que lhe pertencia exclusivamente. Não era algo que roubou de Andras, e não era algo que aprendera com a feitiçaria do passado.
Era algo que ninguém mais podia usar, uma feitiçaria que pertencia somente a ele. Essa foi a primeira feitiçaria que aprendeu, e foi o próprio poder que derrotou Andras.
— Feitiçaria para se admirar. E também...
— Um talento abominável.
As doze figuras sombrias sussurraram como se o elogiassem.
— Ou seja, uma vez que decidir roubar, ninguém poderá te impedir.
— Ou seja, uma vez que decidir matar, ninguém poderá sobreviver.
— Se desejar poder, todos os feiticeiros não poderiam deixar de te oferecer tudo o que têm.
— Se uma vez assim ordenasse, todos os feiticeiros não teriam escolha a não ser obedecer à sua vontade incondicionalmente.
— Verdadeiramente digno do título de Arquidemônio... O poder de um tirano, de fato.
Enquanto lhe dirigiam várias palavras de adoração, Zagan podia sentir uma convicção em suas vozes, como se dissessem “embora não seja páreo para nós” a cada frase.
E então, como se lhe impusessem esse fato, continuaram a falar.
— Embora possa ser uma contradição, como se encontra agora, não é mais que um pigmeu.
— Porém, possuis um talento tão poderoso que parece repulsivo.
— Talento é possibilidade.
— Um dia, virá a se tornar o feiticeiro mais poderoso da história.
— É por isso que ousamos transformar este teu ser pigmeu em um Arquidemônio.
— Tudo em nome de alcançar novos patamares de sabedoria.
— Tudo em nome de levar a feitiçaria aos seus extremos.
O coro dos Arquidemônios, que soava como um canto, parou por aí. E Zagan sentiu-se sendo engolido pela atmosfera daquelas figuras sombrias.
Por fim, como se estivesse se livrando de tudo aquilo, Zagan os encarou de volta.
— Se tudo é como vocês dizem, não significa que posso roubar de todos vocês aqui e agora?
Claro, Zagan não era tolo o suficiente para desafiar aquelas pessoas para uma luta. Mas ainda assim, perguntou como se quisesse confirmar se eram de fato tais seres.
E, como se esperassem por essa pergunta, os Arquidemônios riram.
— De fato. Contudo, lembre-se.
— Terá muito mais a perder do que a ganhar roubando-nos, não é?
O estômago de Zagan revirou. Se já sabem tanto sobre mim, então é óbvio que sabem sobre a Nephy, não é?
Roubar de tais seres significaria enfrentar doze seres de poder inimaginável. Mesmo que de alguma forma os superasse, sabia que não terminaria com eles apenas fazendo um refém. E, na verdade, o resultado não teria mudado de forma significativa se não tivesse conhecido Nephy.
Todos que resistissem a eles seriam arruinados. Claro, mesmo um Arquidemônio talvez não fosse capaz de matar Zagan, contudo isso só significava que sobreviveria. Zagan não tinha como derrotar um. Cada vez que conquistasse algo, seria arrancado e destruído.
No fim, tudo o que o aguardava era a ruína. E ali, Zagan percebeu o que tinha feito pela primeira vez. Será que... Envolvi Nephy numa situação absurdamente perigosa?
Então, a figura sombria principal falou mais uma vez.
— Gostaríamos de ouvir sua resposta.
— Antes disso, há uma coisa que desejo. Depende se eu conseguir obtê-la.
— Haha, vejo que sua avareza é profunda. Tente falar sobre.
Zagan expressou seu desejo em palavras, e as figuras sombrias assentiram como se achassem estranho.
— Muito bem. Pode fazer o que quiser com o legado de Marchosias.
— Você cedeu... Muito rápido.
— Não dissemos antes? Se decidir roubar, ninguém poderia te impedir.
O que ele queria obter havia entrado em suas mãos com tanta facilidade. Foi um tanto anticlimático, no entanto Zagan assentiu em resposta.
— Então aceitarei com gratidão o cargo vago de Arquidemônio.
A figura sombria principal falou assim que terminou.
— Damos as boas-vindas ao nosso novo amigo jurado.
Inesperadamente, o que acolheu Zagan foram aplausos.
Eles não conversavam como humanos em uma assembleia, então essa reação comum era contrária às suas expectativas. E, inversamente, tornava tudo muito mais sinistro. Era como se monstros desumanos estivessem imitando humanos.
Antes que Zagan percebesse, seu punho cerrado estava encharcado de suor. Ainda assim, conforme se sentia um pouco aliviado daquela pressão opressiva, Zagan recuperou a compostura o suficiente para fazer uma pergunta completamente alheia à situação.
— Há uma coisa... Que gostaria de perguntar a todos vocês. Vocês conhecem algum homem que usa feitiçaria arrancando pele fresca?
Uma das figuras sombrias se pronunciou.
— Esse deve ser o “Descascador de Rostos”, sim. Um feiticeiro inútil. Ouvi dizer que você já acabou com a vida desse homem, não é?
Parecia que era esse feiticeiro.
— Ele era um feiticeiro com habilidade suficiente? Suficiente para romper a barreira do domínio de outro feiticeiro, quero dizer.
— Isso deveria ser impossível para alguém do seu nível. Era um excelente espião, todavia quando se tratava de barreiras, era apenas uma mera criança.
Ao ouvir essa resposta, Zagan ficou um tanto sombrio.
Em outras palavras, aquele cara tinha um cúmplice. E o grupo de suspeitos se limitava àqueles capazes de romper a barreira de Zagan. Sendo esse o caso, já sabia a verdadeira identidade do tal cúmplice. Descobrir aquilo o fez perceber mais uma vez que os feiticeiros não tinham esperança de salvação.
A figura sombria à sua frente então inclinou a cabeça para o lado.
— Ele não deveria ser um homem com quem você precise se preocupar tanto...
— Sim, é justo como diz. Perguntei sobre um assunto trivial. Por favor, esqueça.
E depois, outra figura sombria assentiu, compreendendo.
— Tivemos um lapso de memória.
— Sobre o quê?
— Que você não possui um segundo nome. É muito inconveniente.
— Sim. Agora que mencionou, não tenho.
Dar o título de Arquidemônio a um indivíduo assim devia ser ume evento sem precedentes.
— Porém, algo como o seu nome já foi definido, correto?
— Sim. Parece que Marchosias já havia decidido.
Assim, Zagan inesperadamente se tornou um Arquidemônio.
***
— Bem-vindo de volta, Mestre. — Nephy saiu para receber Zagan quando este retornou ao castelo. Como sempre, as mudanças em sua expressão foram mínimas, mas suas orelhas tremiam levemente. Isso fez Zagan pensar que ela estava ansiosamente aguardando seu retorno.
— Os preparativos para o jantar estão concluídos. Fiz ensopado de cordeiro esta noite.
— S-Sim, obrigado...
Um sentimento de culpa começou a crescer dentro de Zagan enquanto Nephy o tratava com tanta gentileza.
Nephy ainda não havia... Sido maculada.
Mesmo no incidente na vila élfica, Nephy não fez nada, não havia matado ninguém. E quando foram atacados pelos Cavaleiros Angelicais, Zagan a impediu antes que fosse tarde demais.
Porém, Zagan era diferente. Na verdade, tornou-se dolorosamente consciente de quão diferente era há poucos instantes.
Os misteriosos Arquidemônios. Todo feiticeiro buscava seu poder e prestígio. Uma posição entre eles era o objetivo final de cada indivíduo que estudava feitiçaria. E Zagan agora estava nesse meio. Já havia se tornado um Arquidemônio.
Ao ficar ao lado de Zagan, Nephy seria atraída para esse mundo. Mergulharia fundo naquela escuridão lamacenta, onde nem mesmo um único ponto de luz brilharia.
Agora, ainda é possível para ela voltar atrás. Já era tarde demais para Zagan, contudo Nephy seguia tendo um futuro na luz.
— Mestre? Aconteceu alguma coisa?
Enquanto Zagan baixava o olhar, Nephy o encarou, com o olhar cheio de preocupação. Suas orelhas, que estavam eretas segundos antes, agora estavam caídas, desanimadas. Era evidente que estava se compadecendo de Zagan.
Seria mesmo certo arrastar uma garota tão pura para a escuridão?
O pescoço de Nephy estava envolto por uma coleira grosseira. Era o símbolo que a marcava como propriedade de Zagan.
Se não fosse por aquilo, Nephy poderia ser livre.
Se aquela coleira não existisse, todos a aceitariam sem preconceito. Na verdade, Kianoides era um bom lugar para ela morar. Afinal, o povo daquela cidade recebeu um feiticeiro como Zagan de braços abertos. E se algo acontecesse, Zagan estava perto o suficiente para protegê-la.
A princípio, Nephy ficaria perplexa, no entanto se fosse recebida com carinho, abriria seu coração aos poucos. A garota havia conseguido relaxar perto de alguém como Zagan, então seria ainda mais rápido com aldeões comuns.
Após refletir sobre seu plano, Zagan tirou uma chave de uma bolsa.
— Nephy, acabei me tornando um Arquidemônio.
— Um Arqui... Demônio?
— Um rei entre os feiticeiros. O ápice do poder, ao qual todos os outros feiticeiros devem obedecer.
Após encarar a notícia repentina com espanto por um instante, Nephy juntou as mãos e assentiu.
— Parabéns, Mestre! — sua expressão era a mesma de sempre, apesar de que podia sentir que ela o parabenizava do fundo do coração.
E, justamente por isso, a dor em seu coração só piorava. Todavia, não havia terminado. Zagan continuou falando, embora o peso de suas palavras parecesse esmagar sua alma.
— Eu herdei o legado do meu antecessor, Marchosias, quando tomei o seu lugar. Nephy, esse é o feiticeiro que a capturou.
E assim, a chave na mão de Zagan também fazia parte do legado de Marchosias. Era o que exigira dos doze Arquidemônios.
— Nephy, não se mexa. — disse Zagan, enquanto inseria a chave em sua coleira. E, com um leve clique, a coleira de ferro se desfez em pedaços.
— Hã? — Nephy encarou os destroços da coleira que caíram no chão, com uma expressão atônita no rosto o tempo todo.
— M-Mestre, isto é...
Enquanto Nephy começava a lacrimejar, Zagan assentiu.
— Sim. Como Arquidemônio, não preciso mais de você, Nephy. Saia.
Zagan declarou friamente, para a garota que considerava mais adorável do que qualquer outra.
E assim, a longa convivência entre dois indivíduos desajeitados terminou.
***
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