domingo, 10 de maio de 2026

The Decagon House Murders — Capítulo 12

Capítulo 12: O Oitavo Dia


Parte 1


O extenso campus da Universidade K corta a encosta de uma montanha e se espalha amplamente em um formato peculiar. Em um canto do campus fica a caixa
¹, um prédio de concreto armado de dois andares que abriga os círculos e clubes oficialmente reconhecidos pela universidade. Era o segundo dia após a descoberta dos seis corpos em Tsunojima. Na tarde de quarta-feira, 2 de abril, cerca de dez membros se reuniram na sala do Clube de Mistério, no primeiro andar.

Duas mesas de conferência estavam amontoadas na sala desordenada. Os alunos sentaram-se ao redor delas, bem próximos uns dos outros. Entre eles estava também o ex-membro Kawaminami. Shimada Kiyoshi, o irmão mais novo do inspetor encarregado da investigação, não estava presente.

— Talvez esteja tentando ser atencioso. Ou talvez tenha algo mais para tratar?

Morisu Kyoichi sentiu-se um pouco ansioso, mas logo se acalmou.

— Não importa, ele não sabe de nada. Não percebeu nada e não vai perceber.

O inspetor Shimada chegou com dois policiais, um pouco atrasado.

Sua testa franziu ao sentir o cheiro de cigarro que pairava no ar, reconheceu Morisu e Kawaminami e os cumprimentou. Em seguida, voltou-se para o grupo todo.

— Agradeço a presença de todos hoje. Meu nome é Shimada.

Após uma apresentação formal, sentou-se no lugar reservado para ele.

Depois que todos os membros do clube se apresentaram, o inspetor explicou o resumo do incidente. Em seguida, passou aos poucos ao ponto principal, erguendo por várias vezes o olhar do caderno em suas mãos para os rostos dos alunos.

— Vou repetir os nomes dos seis que morreram em Tsunojima mais uma vez. Yamasaki Yoshifumi, Suzuki Tetsuro, Matsu’ura Junya, Iwasaki Yoko, Ono Yumi e Higashi Hajime. Tenho certeza de que todos vocês os conheciam bem.

Os rostos dos seis surgiram em ordem na mente de Morisu enquanto ouvia o inspetor.

Poe, Carr, Ellery, Agatha, Orczy e Leroux.

— Desses seis, acredita-se que cinco já estivessem mortos quando o incêndio começou. Ono e Higashi foram estrangulados e espancados até a morte, respectivamente. Yamasaki, Suzuki e Iwasaki provavelmente foram envenenados. A última pessoa, Matsu’ura, ainda estava viva quando o incêndio começou. Parece que ele encharcou o quarto e a si mesmo com querosene e cometeu suicídio.

— Então Matsu’ura assassinou os outros cinco e depois cometeu suicídio? — perguntou um dos membros.

— É o que parece ter acontecido. Quanto à como teria obtido o veneno que se acredita ter sido usado nas três vítimas: os parentes de Matsu’ura possuem uma grande farmácia na Cidade O e este os visitava com frequência. Isso explicaria tudo. Estamos trabalhando com essa hipótese por enquanto.

— Porém não conseguimos encontrar um motivo. É por esse motivo que pedi que vocês viessem aqui hoje. Espero que possam me ajudar.

— Poderia ter sido outra pessoa?

— Muito improvável.

Morisu quase suspirou de alívio ao ouvir a resposta do inspetor.

— Em primeiro lugar, tudo indica que Matsu’ura Junya cometeu suicídio. Além do mais, os outros cinco foram assassinados de maneiras diferentes e em momentos diferentes. Um deles morreu há mais de três dias e cada um morreu em circunstâncias diferentes. Dizem que até mesmo barcos de pesca raramente vão para o mar ao redor de Tsunojima, e acho muito improvável que alguém tenha ido de barco até a ilha para cometer um massacre que durou vários dias.

— Contudo, inspetor... — interrompeu Kawaminami. — Acredita-se que Nakamura Seiji tenha sido assassinado e queimado vivo em circunstâncias semelhantes às do incidente na Mansão Azul no ano passado.

— Bem, há todo tipo de circunstâncias estranhas ligadas a esse caso. — o inspetor o lançou um olhar penetrante. — Na época, o desaparecimento do jardineiro nos levou a suspeitar que Nakamura Seiji havia sido assassinado. Uma pessoa que deveria estar na ilha não estava lá, então, como esperado, a suspeita recaiu sobre essa pessoa. Presumimos que fosse o assassino.

— No entanto agora encontramos uma sala subterrânea secreta sob a Casa Decagonal, que foi incendiada, com o corpo de um homem assassinado dentro. Acho que saiu no jornal de ontem. Com base na hora da morte, idade e físico, suspeitamos que seja o corpo do jardineiro.

— Aham, entendo.

— Então fomos forçados a mudar nossas suposições sobre o incidente de Tsunojima. Agora suspeitamos que a morte de Nakamura Seiji foi um suicídio por queimadura e que toda a tragédia foi um homicídio seguido de suicídio cometido por ele.

O inspetor lançou um olhar significativo para Morisu e Kawaminami.

— Obtivemos alguns novos fatos que corroboram essa teoria de uma certa fonte.

Shimada Kiyoshi deve ter falado, pensou Morisu.

Todavia havia declarado de forma firme que não tinha intenção de repassar nenhum dos fatos que conhecia, ou as suspeitas que tinha, à polícia. Morisu acreditou nele quando disse isso. Mesmo que o próprio irmão de Shimada fosse policial. Isso significaria que...

Será que foi Nakamura Kojiro quem falou?

— Enfim... — o inspetor Shimada olhou para todos na sala. — Quantos de vocês sabiam que aqueles seis iriam para a ilha?

Morisu e Kawaminami levantaram as mãos.

— Hmm, só vocês dois.

— Por acaso sabem quem teve a ideia de ir para a ilha?

— Eles já vinham conversando sobre a ideia há algum tempo. — respondeu Morisu. — E então, graças a alguns contatos, conseguiram fazer os preparativos necessários.

— Contatos?

— Sim. Meu tio, seu nome é Tatsumi, é corretor de imóveis e trabalha com uma grande variedade de propriedades. Ele comprou a Casa Decagonal do antigo dono. Então eu disse a eles que poderia perguntar ao meu tio.

— Oh. Tatsumi Masa’aki, hein? Então você é o sobrinho de quem ele estava falando. Assim que você não quis ir para a ilha?

— Não. Não me sentia à vontade para ir a um lugar onde uma tragédia tão horrível havia ocorrido apenas seis meses antes. Todos pareciam felizes com a viagem, contudo achei de mau gosto. E tinha a questão do número de quartos também.

— Número de quartos? Não havia sete quartos de hóspedes?

— Na prática, havia apenas seis quartos. Pode confirmar com o meu tio, um dos quartos estava inabitável. A água da chuva o havia arruinado.

Não havia nada naquele quarto, exceto algumas prateleiras embutidas e alguns móveis antigos precisando de conserto. O quarto estava coberto de manchas e o teto parecia que ia desabar a qualquer momento. E uma parte do piso havia apodrecido, deixando um buraco.

— Entendo. E quem desses seis era o... Como se diz... Organizador da viagem?

— Contei a Leroux sobre a casa... Quero dizer, Higashi. Porque estava escalado para se tornar o novo editor-chefe... Basicamente o líder do clube. No entanto ele também pediu conselhos a Matsu’ura.

— Então, Higashi e Matsu’ura.

— Sim, isso mesmo.

— Além de suas próprias bagagens, vi que tinham comida, cobertores e outras coisas. Como organizaram tudo?

— Ajudei a transportar os suprimentos que meu tio havia preparado para eles. Um barco de pescador me ajudou a levar as coisas para a ilha um dia antes da chegada de todos.

— Hnm, preciso verificar essa informação, como procedimento padrão, é claro.

Esfregando a bochecha flácida, o inspetor voltou seu olhar para todo o grupo mais uma vez.

— Alguém aqui tem alguma ideia do que poderia ter motivado Matsu’ura a cometer esses assassinatos?

Vozes começaram a murmurar. Morisu também se juntou à discussão, embora estivesse pensando em outra coisa.



Um rosto delicado.

Um corpo frágil que se quebraria se fosse abraçado com muita força.

Longos cabelos negros deslizando pelo pescoço.

Sobrancelhas finas, sempre com uma expressão de constrangimento. Olhos amendoados, desviados em tristeza.

Uma boca pequena com um leve sorriso. Uma voz frágil como a de um gatinho.

Chiori.

Evitando com timidez o olhar das outras pessoas, os dois se amavam. Silenciosamente, mas profundamente.

Oh, Chiori, Chiori, Chiori...

Ele não havia contado a ninguém sobre, nem a nenhum membro do clube, nem aos seus amigos, e nem ela. Não era porque estivessem escondendo algo, nem porque tivessem vergonha. Era apenas porque ambos estavam com medo. Medo de que o pequeno universo que compartilhavam se despedaçasse se alguém soubesse.

Todavia tudo foi destruído de repente naquele dia fatídico. Naquela noite de janeiro do ano passado. Era evidente que aqueles seis haviam roubado a sua vida.

Se ao menos eu tivesse estado ao lado de Chiori até o fim...

Quantas vezes se culpou, quantas vezes se repreendeu. E quão profundo era o ódio dirigido àqueles seis que estiveram lá.

Ele havia perdido o pai, a mãe e a irmãzinha no passado da mesma maneira. Sem qualquer aviso, as mãos egoístas e cruéis de desconhecidos levaram o calor da sua família para um lugar que jamais alcançaria. E justo quando enfim encontrara alguém para amar em Chiori, aquela noite chegou.

Não foi um acidente.

Ela não era uma garota de beber irresponsavelmente. Sabia que seu coração era frágil.

Embriagada e indefesa, foi forçada a continuar bebendo.

Ela foi morta por eles.

Foi assassinada.



— Morisu. — chamou Kawaminami do assento ao lado.

— Ah, sim?

— E as cartas?

— Hmm? O que é isso? — perguntou o inspetor Shimada ao ouvir a conversa dos dois.

— Na verdade, há algo que esquecemos de lhe dizer da última vez. — respondeu Kawaminami, tirando o envelope com a carta do bolso. — Esta foi entregue no dia em que o grupo foi para a ilha. Morisu e eu recebemos uma cada um.

— Uma carta de Nakamura Seiji?

— S-Sim.

— Os dois receberam uma?

O inspetor pegou o envelope de Kawaminami e verificou o conteúdo.

— A mesma carta foi entregue nas casas de todas as vítimas, incluindo Matsu’ura. — disse ele.

— Poderia estar relacionada ao que aconteceu na ilha? — perguntou Kawaminami.

— Não sei dizer ao certo. — respondeu o inspetor. — Embora pode muito bem ter sido apenas uma brincadeira sem relação com o ocorrido. Afinal, foi assinada por um homem morto.

O inspetor Shimada deu um sorriso irônico, mostrando seus dentes amarelados.

Morisu soltou uma risadinha, porém em silêncio, estava mergulhado em suas memórias.



Parte 2

Sabia que Nakamura Seiji era o pai de Chiori mesmo antes dela lhe contar. Também tinha ouvido dizer que Seiji levava uma vida um tanto peculiar em uma pequena ilha chamada Tsunojima, perto da costa da Cidade S. Mais de seis meses haviam se passado desde a perda de Chiori, nos quais passou seus dias como um meio inválido, tomado por uma tristeza e raiva implacáveis. Ficou chocado quando, em um dia de outono, soube como os pais de Chiori, que viviam em Tsunojima, haviam encontrado uma morte trágica. Não poderia ter imaginado, na época, que esse caso o ajudaria a liberar sua própria raiva reprimida no futuro.

Confrontar os seis homens e mulheres que levaram Chiori à morte era uma constante em sua mente. Contudo não se contentaria apenas em acusá-los, gritando em seus rostos que haviam matado Chiori. Havia sido roubado de alguém insubstituível, alguém de quem precisava para viver. Eles a haviam roubado dele.

A única coisa que queria era vingança. No entanto só conseguiu canalizar seu sentimento em um plano concreto... Para assassinato, quando soube que seu tio, Tatsumi Masa’aki, havia comprado a ilha de Tsunojima.

A Mansão Azul em Tsunojima, onde Chiori havia nascido. A tragédia com seus pais. Seis pecadores que iriam à ilha apenas para satisfazer sua própria curiosidade. Essa imagem mental alimentou seu desejo de expurgá-los, de pintar um quadro novo sem a existência daqueles seis.

Primeiro pensou em matar todos os seis em Tsunojima e morrer lá também. Só que isso significaria se enterrar entre aqueles pecadores, como se fosse um deles.

Precisava julgá-los. Vingança em nome do julgamento.

Após longa reflexão, elaborou um plano.

Um plano para matar todos os seis na ilha, além de ser um plano onde permaneceria seguro e vivo.

Disparou o primeiro tiro no início de março, certo de que sua presa cairia em sua armadilha.

— Meu tio acabou de comprar Tsunojima. Se quiserem visitar e se hospedar na Casa Decagonal, posso tentar perguntar. Que tal?

E, como esperado, morderam a isca.

Depois que tudo foi acertado, assumiu a responsabilidade pelos preparativos. Selecionou os dias da estadia com base na agenda deles e na previsão do tempo a longo prazo.

Para que seus planos dessem certo, precisava absolutamente de dias com tempo bom e mar calmo. Por sorte, a previsão para o final de março não indicava mau tempo. Era arriscado apostar em previsões, mas sempre poderia cancelar a viagem no próprio dia se as condições não fossem favoráveis.

E assim, uma viagem de uma semana foi acertada, começando em 26 de março.

Preparou roupas de cama, comida e outros suprimentos necessários. Alugou camas para seis pessoas. Teve muito cuidado para fazer os seis pensarem que iria para a ilha junto, enquanto deixava a impressão para todos os outros de que apenas seis pessoas iriam e que não seria uma delas.

Escreveu nove cartas sob o nome de Nakamura Seiji. As cartas tinham dois propósitos.

O primeiro era, claro, a “acusação”. Queria que alguém, qualquer pessoa, soubesse que aquelas pessoas haviam assassinado uma garota chamada Nakamura Chiori. Quanto ao segundo propósito, as “cartas dos mortos” eram a isca perfeita para fazer Kawaminami Taka’aki agir.

Enviar uma dessas cartas com o nome de Nakamura Seiji para Nakamura Kojiro foi uma jogada estratégica de sua parte, prevendo que Kawaminami em algum ponto o visitaria. Conhecia Kawaminami muito bem. Ao receber a carta, este começaria a investigar e por fim se voltaria para ele, Morisu, em busca de conselhos. Morisu o estava esperando. Mesmo que tivesse que contatar Kawaminami pessoalmente, as estranhas cartas circulando seriam a desculpa perfeita.

Ele usou um processador de texto, disponível para uso dos alunos em um laboratório da universidade, para digitar as cartas. Também fez dois conjuntos de placas de anúncio de assassinato com materiais que comprou em um supermercado.

Na terça-feira, 25 de março, um dia antes da partida, postou as nove cartas na Cidade O, foi até a Cidade S e levou os suprimentos para a ilha em um barco de pescador que havia reservado com antecedência. Depois, voltou para a Cidade S, mentiu para o tio dizendo que iria para Kunisaki e pegou seu carro emprestado. No porta-malas, havia preparado um bote inflável com motor de popa, um cilindro de ar comprimido, galões de gasolina e outros itens.

O tio usava o bote para pescar. Ele o havia retirado secretamente do depósito nos fundos da garagem, porém como seu tio só o usava na temporada, entre o verão e o outono, não havia risco de ser descoberto.

Poucas pessoas se aventuram pelo outro lado do Cabo J, mesmo durante o dia. Depois de esconder o bote e o cilindro em alguns arbustos perto da costa, devolveu o carro após algum tempo. Mentiu mais uma vez para o tio sobre seus planos, dizendo que voltaria para a Cidade O naquela noite e que iria para Kunisaki de novo no dia seguinte. Na verdade, só foi à Cidade O para pegar sua moto e voltar ao Cabo J no meio da noite.

Leva cerca de noventa minutos para um carro viajar da Cidade O ao Cabo J à tarde. Contudo pode-se fazer isso em menos de uma hora se for rápido em uma moto de 250cc à noite. E com uma moto off-road, também pode cortar caminho pelos campos vazios e matagais ao lado das estradas. Ele escondeu a moto em um bosque perto da costa, cobrindo-a com um lençol marrom, para que não houvesse motivo para temer que alguém a encontrasse.

Em seguida, preparou o bote que havia escondido e vestiu uma roupa de mergulho. E assim, à luz da lua e do farol desabitado do Cabo J, uma figura solitária seguiu pelo mar em direção a Tsunojima.

O vento não estava forte, embora fizesse um frio terrível. A visibilidade também era ruim à noite. Já havia pegado o bote emprestado várias vezes no passado e estava acostumado a manobrá-lo, contudo devido ao seu mau estado de saúde, a viagem provou ser muito mais difícil do que esperava.

Quanto ao motivo de seu mau estado de saúde, não havia bebido água desde o dia anterior. Seu plano exigia que se abstivesse de consumir água.

A viagem do Cabo J até Tsunojima levou cerca de trinta minutos.

Desembarcou na área rochosa. Precisava esconder o bote ali. Dobrou-o e usou uma corda para amarrá-lo em um pacote, junto com o cilindro de ar e o motor de popa, que havia primeiro embrulhado em um pano impermeável e depois selado dentro de um saco plástico. Em seguida, colocou o pacote debaixo d’água entre as rochas, onde não ficaria diretamente exposto às ondas, e o pesou com uma pedra grande. Também amarrou o pacote a uma rocha para evitar que flutuasse. Por fim, escondeu alguns galões de gasolina reserva entre as rochas, tal qual fizera do outro lado, nos matagais do Cabo J.

Com uma grande lanterna pendurada no ombro, caminhou sob a luz do luar até a Casa Decagonal. Tomou para si o quarto à esquerda da entrada... O quarto com danos causados ​​pela água e sem mobília. Dormiu num saco de dormir que havia trazido para lá à tarde.

E assim a armadilha para pegar os pecadores estava armada.



Parte 3

No dia seguinte, 26 de março, os seis chegaram.

Eles não suspeitaram de nada. Sabiam que não haveria como contatar o continente, não importava o que acontecesse na ilha durante a semana. Mesmo assim, não demonstraram sinais de ansiedade e todos estavam aproveitando a aventura.

Naquela noite, se recolheu cedo para o quarto, dizendo que não estava se sentindo bem por causa de um resfriado. Essa era a razão pela qual não havia bebido água.

Sabia que os sintomas de uma leve desidratação se assemelhavam aos de um resfriado. Não poderia apenas fingir uma doença. Isso não enganaria Poe, que estava estudando para ser médico. Por outro lado, qualquer suspeita sobre ele desapareceria se Poe o examinasse e o declarasse doente.

Deixando para trás a alegre conversa, vestiu seu traje de mergulho, colocou tudo o que precisava em uma mochila e saiu sorrateiramente pela janela. Desceu até a área rochosa, preparou seu barco e voltou para o Cabo J à noite. Depois, correu de moto de volta para a Cidade O, retornando ao seu quarto por volta das onze horas.

Estava exausto, é claro, no entanto a parte crucial do plano estava apenas começando.

Telefonou para Kawaminami. Precisava dele como testemunha de que estava na Cidade O.

Não houve resposta, todavia se Kawaminami estivesse investigando como planejado, sem dúvida acabaria chamando Morisu. Talvez até já o tivesse chamado várias vezes. Nesse caso, Kawaminami provavelmente perguntaria onde Morisu estivera, entretanto já havia preparado uma desculpa para tal eventualidade. A pintura.

Ele a preparara para provar o que estava fazendo no continente, enquanto os seis estavam na ilha. A pintura dos Budas de pedra. Ou, para ser preciso, pinturas, no plural. Fizera três pinturas.

Uma era um esboço a carvão que mal começara a colorir. Em outra, aplicara cor em toda a pintura com uma espátula. E a terceira era uma obra finalizada. As três pinturas retratavam a mesma cena, é claro.

Era uma cena que encontrara no outono passado, quando vagava com o coração partido e por acaso chegou às montanhas da Península de Kunisaki.

De memória, preparou três pinturas em diferentes estágios, alterando as cores da luz e da vegetação para as do início da primavera.

Colocou o esboço inicial da pintura no cavalete enquanto lia a carta que havia enviado a si mesmo, aguardando a ligação de Kawaminami. Se não conseguisse contatá-lo, precisaria encontrar outra “testemunha”. Tentou conter a ansiedade inquieta que rondava sua mente febril.

Por volta da meia-noite, o telefone enfim tocou.

Kawaminami havia mordido a isca, como planejado. Disse que fora à casa de Nakamura Kojiro em Kannawa naquele dia. Morisu, porém, sentiu-se um pouco desconfortável com a presença de Shimada Kiyoshi, o homem que Kawaminami conhecera em Kannawa.

Decidiu que seria melhor ter mais testemunhas. Mas não podia deixar ninguém se intrometer demais. Quando lhe pediram para participar do joguinho de detetive, era justo o que esperava.

Para sua sorte, os dois estavam focados no passado em vez do presente, então pelo menos não precisava se preocupar com eles seguindo os seis até a ilha. Para sugerir da forma mais clara possível à dupla que fazia parte da investigação, usou a expressão “detetive de poltrona”, dizendo que desempenharia esse papel no grupo deles. Depois de dizer que iria para Kunisaki no dia seguinte, pediu que ligassem de novo naquela noite. Sua sugestão de que visitassem Yoshikawa Masako em Ajimu tinha o objetivo de distraí-los dos eventos atuais em Tsunojima.

Depois que os dois saíram, dormiu um pouco. Antes do amanhecer, voltou de moto para o Cabo J e correu para Tsunojima no bote que havia deixado atracado na costa.

Ao retornar à Casa Decagonal, certificou-se de que não havia ninguém no salão principal e arrumou as placas sobre a mesa.

Para que serviam aquelas placas?

Queria que eles refletissem sobre o que significava se tornar uma “vítima”? Será que estava preso a algum tipo de estranho senso de dever, achando que seria injusto não anunciar as “punições” com antecedência? Ou talvez apenas apreciasse a ironia de ver esses detetives de mentira se tornando vítimas de verdade. A resposta que sua mente distorcida encontrou foi uma combinação desses três motivos.



Na segunda noite, conseguiu se recolher ao quarto ainda mais cedo do que na noite anterior. Houve um momento delicado quando Carr o acusou de estar atrás das placas, justo quando saía do corredor, contudo conseguiu se safar.

Estava sofrendo muito com a desidratação. Antes de vestir o traje de mergulho, bebeu toda a água da jarra que Agatha lhe dera para tomar com o remédio, não deixando uma única gota. Não planejava fazer nenhuma viagem ao continente depois do terceiro dia, então não precisaria de mais desculpas para ir dormir cedo. Precisava se reidratar e recuperar a saúde o mais rápido possível.

A viagem de Tsunojima para a Cidade O foi ainda mais difícil do que na noite anterior. Em muitos momentos, pensou em desistir do plano no meio do caminho. Olhando para trás, era um mistério como toda aquela energia pôde ser armazenada dentro daquele corpo desidratado.

Após retornar ao seu quarto no continente, seu primeiro pensamento foi se reidratar mais. Mesmo depois que Kawaminami e Shimada chegaram e começaram a discutir o caso, ele continuou bebendo várias xícaras de chá.

Não tinha intenção de retornar à Cidade O no dia seguinte, então, depois de desempenhar seu papel de detetive de poltrona, agiu com desdém em relação aos planos dos dois. Declarou que estava se retirando da investigação, garantindo assim que não tentariam contatá-lo de novo.

As palavras duras que proferiu contra Shimada, no entanto, refletiam seus verdadeiros sentimentos. De fato ficou furioso quando descobriu que estavam investigando as circunstâncias do nascimento de Chiori.

Assim como no dia anterior, retornou à ilha antes do amanhecer. Voltou para seu quarto na Casa Decagonal, onde acalmou sua raiva na escuridão.



Parte 4

Havia vários motivos para escolher Orczy como sua primeira vítima.

Em primeiro lugar, foi algo como um ato de misericórdia. Se viesse a morrer cedo, seria poupada do medo e do pânico subsequentes que afetariam os outros cinco.

Orczy era uma boa amiga de Chiori. Havia algo naquela garota, sempre desviando o olhar, que lembrava o amor dele. Era provável que Orczy também não houvesse contribuído de forma ativa para o assassinato de Chiori. Ela fora uma mera espectadora. Entretanto, ainda assim, isso não significava que a excluiria de sua vingança.

Outro motivo importante era o anel de ouro que vira no dedo médio da mão esquerda de Orczy.

Nunca tinha visto Orczy usar um anel. Foi por essa razão que o notara. Era o anel que dera a Chiori em seu aniversário.

Ele se lembrava dos olhos marejados de Orczy no funeral de Chiori. Era bastante provável que tivesse recebido o anel como lembrança.

Se era tão amiga de Chiori, talvez também soubesse que Tsunojima era a cidade natal de Chiori. Poderia até saber do relacionamento entre os dois.

As iniciais do seu nome e de Chiori estavam gravadas na parte interna do anel. “MK & NC”. Mesmo que Chiori não tivesse contado a Orczy a respeito, poderia ter notado a gravação no anel após a morte de Chiori. Assim que os assassinatos na ilha começassem de fato, havia uma boa chance de descobrir o motivo e a identidade do assassino.

Foi por essa razão que matou Orczy primeiro. Não tinha outra escolha.

Saindo sorrateiramente para o corredor, foi direto para o quarto de Orczy. Havia mantido isso em segredo dos outros, mas seu tio lhe dera a chave mestra de todas as portas da Casa Decagonal. Usou-a para entrar no quarto de Orczy. Com cuidado para não a acordar, rapidamente enrolou o cordão em volta do pescoço dela e puxou com toda a sua força.

Os olhos de Orczy se arregalaram e pareciam prestes a saltar das órbitas. Sua boca se contorceu. Seu rosto perdeu a cor diante de seus olhos, sua força para lutar se esvaiu. E, por fim, deu seu último suspiro. Ele arrumou o seu corpo com cuidado apenas porque sentiu pena.

Tentou remover o anel do dedo dela. Queria guardá-lo como lembrança de Chiori, é claro, porém também temia que alguém notasse as iniciais no anel. Contudo os dedos de Orczy estavam inchados, talvez por causa do novo ambiente da ilha ao qual não estava acostumada, e não conseguiu tirar o anel.

Enquanto o anel permanecesse no dedo de Orczy, as iniciais não ficariam visíveis. No entanto não podia só deixar para trás essa preciosa lembrança que compartilhava com Chiori.

Decidiu usar a força bruta e arrancar a mão inteira.

Se cortasse apenas o dedo médio, chamaria a atenção para o anel que ali estava. Além do mais, o ato de cortar a mão esquerda serviria como uma alusão ao que aconteceu na Mansão Azul no ano anterior. Pensou que essa conexão poderia levar a reações interessantes. Nas palavras de Shimada Kiyoshi, sugeriria a ideia de Nakamura Seiji para o grupo na ilha. Usando a faca que havia preparado como uma de suas armas do crime, conseguiu, após muito esforço, cortar a mão do corpo. Enterrou-a atrás do prédio por enquanto. Ele a desenterraria e tiraria o anel depois que tudo terminasse.

Para sugerir a possibilidade de um estranho ter feito isso, destrancou a janela e a porta de Orczy. E então, o toque final. Tirou a placa com a inscrição a “Primeira Vítima” da gaveta do armário da cozinha e o colou na porta.



Ele havia espalhado ácido prússico no batom de Agatha no dia anterior, na tarde do segundo dia, o dia 27. As placas já haviam aparecido no palco, contudo ninguém estava agindo com muita cautela ainda, e encontrou uma oportunidade para entrar sorrateiramente no seu quarto.

Imaginava que sua armadilha daria resultado por volta da mesma hora em que o corpo de Orczy fosse descoberto. No entanto estava com pressa e só conseguiu espalhar o veneno no único batom que encontrou. Sua “bomba-relógio” demorou muito mais para explodir do que esperava.

A taça de onze lados era a próxima da lista.

Descobriu a existência da estranha taça na noite em que todos chegaram à ilha. Ela lhe foi entregue por acaso, e percebeu que poderia usá-la.

Na manhã do segundo dia, depois de arrumar as placas de plástico, levou a xícara para o quarto. Havia xícaras extras no armário, então ele pegou uma para substituir a de onze lados.

O veneno que havia trazido consigo fora roubado de um laboratório da faculdade de ciências. Ácido prússico, cianeto de potássio e ácido arsenioso. O veneno que espalhou na xícara era o ácido arsenioso, que é inodoro. Em algum momento antes do jantar do terceiro dia, conseguiu trocar a xícara envenenada por uma das seis xícaras que estavam sobre a bancada da cozinha, sem que os outros, ainda em estado de choque, percebessem.

Havia uma probabilidade de uma em seis de que ficasse com a xícara de onze lados, entretanto apenas não beberia se viesse a ocorrer. Acontece que não houve necessidade disso e Carr se tornou a “Segunda Vítima”.

Carr morreu envenenado diante de seus próprios olhos. Aquilo foi mais visceral, mais horrível do que a morte de Orczy. Estava cometendo um crime terrível. Essa constatação fez seu coração doer. Todavia não havia mais volta. Precisaria se dedicar de corpo e alma e, com sangue frio e ousadamente, completar sua vingança.

O grupo enfim se separou antes do amanhecer. Esperou até que todos adormecessem para entrar escondido no quarto de Carr, cortar a mão esquerda do cadáver e jogá-la na banheira. Isso era para manter a coerência com sua “alusão” e camuflar o verdadeiro motivo de ter cortado a mão de Orczy. Em seguida, pegou a placa de plástico com a “Segunda Vítima” de seu próprio conjunto de placas reserva e o colou na porta.

Depois, foi até as ruínas da Mansão Azul.

Ainda conseguia ouvir as palavras que Ellery havia dito pouco antes de Carr desmaiar: Pode haver uma sala subterrânea lá.

Seu tio o havia contado sobre a sala subterrânea. Os tanques de plástico cheios de querosene que havia transportado para a ilha junto com os outros suprimentos no barco do pescador estavam escondidos lá, em meio ao lixo.

Ellery parecia suspeitar que alguém estivesse escondido lá embaixo. Era óbvio que iria dar uma olhada.

Morisu limpou o chão com agulhas de pinheiro e deixou rastros que sugeriam que alguém havia morado ali. Em seguida, pegou um pedaço de linha do equipamento de pesca de Poe e a estendeu pela escada. Como esperava, Ellery caiu na armadilha no dia seguinte.

Oh, tolo Ellery.

Ellery de fato tinha uma mente bastante afiada. Mas também era incrivelmente descuidado e estúpido. Ninguém que se aventurasse alegremente em um cômodo subterrâneo suspeito sem tomar precauções merecia o glorioso título de “detetive”. Ellery escapou sem nenhum ferimento grave, apenas uma torção no tornozelo. Porém mesmo que Morisu tivesse esperado um desfecho mais mortal, não esperava de verdade que aumentar a contagem de corpos fosse tão fácil.

Uma coisa que não havia previsto era a situação com o batom de Agatha. Observando-a, percebeu que o batom que ela usava era de uma cor diferente daquele em que havia espalhado veneno. Se ainda estivesse ilesa no dia seguinte, precisaria pensar em tomar outras medidas.

Ele ficou um pouco ansioso quando Poe sugeriu que revistassem todos os quartos.

É claro que já havia previsto essa possibilidade. As placas, a cola e a faca estavam escondidos entre as árvores do lado de fora, e havia enterrado as roupas que ficaram ensanguentadas quando cortou as mãos. Os tanques de querosene estavam no cômodo subterrâneo, e carregava o veneno consigo. Era improvável que fizessem uma revista pessoal. A única coisa que restava em seu quarto era sua roupa de mergulho, todavia mesmo que a vissem, poderia inventar uma desculpa.

Entretanto, não queria que os outros soubessem do estado de seu quarto. Poderia justificar que ficou com o pior quarto porque era sua responsabilidade, já que havia organizado tudo, mas seria melhor se eles não descobrissem. Foi por essa razão que se opôs à sugestão de Poe na época.

E naquela noite, devido à histeria de Agatha, todos voltaram para seus quartos inesperadamente cedo. Não planejava deixar a ilha naquela noite, porém não havia motivo para passar uma noite inteira sem fazer nada. Se conseguisse voltar para a Cidade O e encontrar Kawaminami, poderia garantir que seu álibi fosse perfeito.

Estava se sentindo muito mal. O céu nublado o preocupava, contudo a previsão do tempo no rádio dizia que havia pouca chance de chuva e que as ondas estavam calmas. Decidiu ir para a Cidade O, como fizera nas duas noites anteriores. Primeiro, voltou para o seu quarto. Depois, colocou o suporte da lona em sua motocicleta para dar a impressão de que estava voltando de Kunisaki e só então seguiu para a casa de Kawaminami.



Parte 5

Uma chuva leve caiu durante a noite, no entanto não interferiu em seus planos e, na manhã do quinto dia, 30 de março, conseguiu retornar à ilha em segurança por volta da hora em que o céu começou a clarear.

Desligou o motor ao se aproximar da área rochosa e remou até a costa. Havia acabado de amarrar o bote a uma rocha e estava puxando-o para a margem quando aconteceu. Um incidente imprevisto.

Ouviu um grito curto e sentiu o olhar de alguém em suas costas. Olhou para cima. Parado no meio da escadaria, olhando para ele com uma expressão alarmada, estava Leroux.

Fui visto! Preciso matá-lo, pensou Morisu instantaneamente.

Não havia tempo para pensar com calma sobre o que o tímido Leroux estava fazendo ali sozinho àquela hora do dia. Talvez tivesse visto a corda amarrada à rocha em algum momento e agora, achando suspeito, voltou para investigar. De qualquer forma, Leroux o tinha visto. Ainda não devia ter deduzido tudo, no entanto agora sabia o suficiente para chegar à conclusão óbvia do que estava acontecendo.

Morisu pegou uma pedra do chão e correu atrás de Leroux o mais rápido que pôde.

Ele estava em pânico, entretanto Leroux estava ainda mais em pânico. Ele tropeçou nos próprios pés enquanto tentava fugir e a distância entre os dois diminuiu em instantes. Leroux gritou alto pedindo ajuda da Casa Decagonal. Morisu quase o alcançou e atirou a pedra na nuca de Leroux. Ela atingiu o alvo com um som abafado e Leroux caiu para a frente. Morisu pegou a pedra mais uma vez e mirou na rachadura na cabeça de Leroux repetidas vezes...

Depois de se certificar de que Leroux estava morto, correu de volta para a área rochosa. Havia notado as pegadas, todavia estava em pânico demais para lidar com o problema com calma. Temia que alguém pudesse ter ouvido os gritos de Leroux e já estar a caminho.

Fez uma rápida verificação para ver se as pegadas tinham alguma característica distintiva. Não viu nada que pudesse conectar as pegadas a qualquer indivíduo em particular. Elas seriam inspecionadas apenas por amadores, não pela polícia, então deixar pegadas como aquelas não deveria ser um problema. Com essa conclusão, se esqueceu do problema das pegadas.

O que mais temia era que alguém descesse correndo da casa. Se seu bote fosse visto, tudo estaria perdido.

Primeiro, afastou o bote da área rochosa em direção à enseada. Havia bastante espaço sob o cais e a superfície da água, então manobrou o bote para lá por um momento e depois esperou fora da vista, escutando. Ninguém estava acordado. Tinha tido sorte.

Subiu no cais, dobrou o bote e o escondeu na casa de barcos perto do cais. Era arriscado, mas seria mais arriscado voltar para a área rochosa.

Entrou sorrateiramente na Casa Decagonal e colou a placa com a “Terceira Vítima” na porta do quarto de Leroux. Depois, enfim conseguiu entrar em seu saco de dormir.

Seus nervos à flor da pele só lhe permitiram um sono leve. Seu corpo inteiro estava dormente e cansado. Sentia náuseas. Acordado pelo alarme de seu relógio de pulso, saiu do quarto para beber água e descobriu o corpo de Agatha. Ela havia trocado a cor do batom naquela manhã.

Ele já estava farto de assassinatos. Já estava farto de ver cadáveres. Gritou em seu coração. Perdeu o controle de si mesmo e não conseguiu suprimir a súbita vontade de vomitar. Sabia que tanto seu corpo quanto sua mente estavam no limite.

Porém não podia só desistir agora. Não podia fugir.

Em sua mente, distorcida pela dor, o rosto de seu amor, que jamais retornaria, passou diante de seus olhos.



Ele estava sentado à mesa decagonal com os dois restantes, Ellery e Poe. Estavam se aproximando do ato final.

Para Poe, a situação parecia ter piorado. Ellery negou ter falado sério depois, contudo Poe esteve perto de ser apontado como o assassino.

Mais cedo, Morisu pensara que seu coração pararia de bater quando Ellery demonstrou tanto interesse pelas pegadas na cena do crime de Leroux. Não entre em pânico. Vai ficar tudo bem. Não entre em pânico, não entre em pânico... Repetia para si mesmo, enquanto lutava contra a vontade de vomitar outra vez. Então Ellery se virou e Morisu suspirou aliviado.

Contudo agora, enquanto estavam sentados à mesa e a chuva começava a cair lá fora, ficou claro que Ellery não havia se esquecido das pegadas.

Morisu começou a se preocupar com a possibilidade de ter cometido um descuido. Talvez um descuido fatal. Correu atrás de Ellery até a Mansão Azul e foi instruído a memorizar as pegadas como estavam. Foi então que percebeu seu erro. Amaldiçoou sua própria estupidez. Estava tudo acabado, pensou.

À medida que o número de vítimas aumentava, Morisu sabia que o número de suspeitos diminuiria e previa que seria mais difícil para ele se movimentar. Tinha algumas coisas preparadas caso a situação exigisse medidas drásticas. No pior cenário, poderia ter que lutar com várias pessoas. Durante esse tempo, carregou uma pequena faca no bolso do casaco, por precaução.

Enquanto Ellery prosseguia com o exame das pegadas, considerou várias vezes atacar Ellery e Poe ali mesmo com a faca. Embora se agisse precipitadamente e fosse derrotado pelos dois, o jogo estaria perdido. Naquele momento, ainda não tinha certeza se seria acusado ou não.

Morisu sentiu a pressão aumentar enquanto ouvia a voz clara de Ellery delineando sua teoria, pensando em como lidar com seus dois oponentes.

Para sua sorte, os pensamentos de Ellery haviam se desviado e chegado a uma conclusão errada. Pensou que o assassino era um forasteiro, não um dos três membros sobreviventes do Clube de Mistério.

Ellery estava pensando em Nakamura Seiji. De fato acreditava que Seiji seguia vivo. Morisu nunca imaginou que sua sugestão sobre Nakamura Seiji voltaria para protegê-lo em um momento tão crucial.

Sua mente clareou.

Ellery ficou sem cigarros e Poe lhe passou a carteira de cigarros. Morisu decidiu que aquela era a oportunidade perfeita.

Rapidamente tirou um certo objeto do bolso do casaco. Era uma caixa pequena e fina. Dentro dela havia um único cigarro Lark que havia impregnado com cianeto de potássio. Carregava essa arma consigo desde o início, planejando usá-la em Poe se a chance surgisse.

Também disse que queria um cigarro e lhe passaram a cigarreira. Ele fez a troca por baixo da mesa. Tirou dois cigarros, colocou um na boca e o outro no bolso. Depois, colocou o cigarro envenenado na cigarreira.

Poe era um fumante inveterado, então era esperado que fumaria outro cigarro assim que recuperasse a carteira. Havia uma chance de ele não fumar e a carteira ser passada de novo para Ellery, contudo não importava, contanto que um deles morresse. Poderia bolar um jeito de lidar com a última pessoa restante.

Foi Poe quem fumou o cigarro envenenado.



Parte 6

E então restaram apenas dois deles no corredor.

Mesmo agora que Poe havia morrido, Ellery seguia convencido de que Seiji era o assassino. Não demonstrou qualquer suspeita em relação a Morisu.

Não parecia que Morisu precisaria terminar o serviço rapidamente. Então decidiu aguardar sua oportunidade com calma. Pois, se possível, queria que a última pessoa cometesse “suicídio” por ele.

Ellery, o tolo...

Ellery o ajudou até o fim.

Ellery se achava o grande detetive, todavia não passava de um palhaço indefeso. Por acaso, Morisu havia previsto esse desfecho. “O Detetive” e “O Assassino” foram os dois últimos sobreviventes.

Entretanto Morisu teve que admitir que ficou impressionado com o raciocínio magistral de Ellery, começando pela xícara de onze lados, que os levou ao décimo primeiro cômodo dentro da Casa Decagonal. Ele próprio havia ficado intrigado com a existência daquela xícara. Jamais imaginaria que fosse a chave para um cômodo secreto, ainda tendo ouvido de Kawaminami, no continente, sobre o gosto de Nakamura Seiji por truques.

Mesmo assim, esse desenvolvimento não colocou a posição de Morisu em risco. A descoberta do cômodo secreto, na verdade, ajudou a solidificar a teoria de Ellery de que Seiji era o assassino.

Os dois entraram no cômodo subterrâneo. Ellery começou a procurar uma saída. Então, descobriram aquele cadáver horripilante.

A ficha caiu no momento em que viu o corpo. Era o corpo do jardineiro desaparecido, Yoshikawa Sei’ichi.

Yoshikawa havia sido assassinado seis meses atrás. Atacado pelo insano Seiji, ele fugiu da Mansão Azul para este lugar, onde morreu. Ou talvez o próprio Seiji tenha arrastado o jardineiro até aqui para matá-lo.

Contou isso a Ellery, que estava parado em silêncio diante do corpo. Ellery assentiu várias vezes, com a mão ainda cobrindo o nariz, dizendo...

— De fato. Então significa que Seiji conseguiu seu sósia em outro lugar, no incidente do ano passado.

E continuou.

— Vamos, Van. Precisamos ver aonde essa passagem leva.

Os dois contornaram o corpo e entraram mais fundo na passagem.

Vou te acompanhar até o fim então, pensou Morisu.

Também começou a se perguntar se Ellery poderia estar desconfiando dele agora.

Era óbvio, por exemplo, pela poeira no chão, que nem Nakamura Seiji nem ninguém entrava naquele lugar há muito tempo. Então talvez Ellery estivesse apenas fingindo não suspeitar de nada e esperando uma chance para derrubá-lo.

Morisu seguiu Ellery para a escuridão, com a faca no bolso da mão direita.

A passagem terminava em uma porta. Eles podiam ouvir o som das ondas por perto.

Ellery abriu a porta. O som das ondas ficou mais alto.

Estavam a meio caminho do penhasco, de frente para a enseada. Do lado de fora da porta havia uma pequena saliência, como um terraço. Abaixo dela, apenas escuridão profunda. Era uma distância considerável até a superfície da água.

Ellery observou atentamente os próprios pés enquanto dava um passo para fora e deixava a luz de sua lanterna iluminar os arredores. Virou-se com uma expressão satisfeita e disse.

— Esta porta está em um ângulo que dificulta a sua visualização, tanto de cima, no penhasco, quanto de baixo, do mar. E com um pouco de esforço, seria possível chegar aos degraus de pedra que acompanham a encosta rochosa. Seiji deve ter usado este caminho para entrar na Casa Decagonal.



— Tenho certeza de que Seiji voltará esta noite. — disse Ellery enquanto retornavam ao salão. — E encontramos a passagem secreta. Seja por essa passagem ou pela porta da frente, não temos nada a temer, pois são dois contra um. Vamos tentar capturá-lo.

Morisu assentiu enquanto preparava café para dois. Ele havia pegado secretamente alguns comprimidos para dormir do frasco no dia em que Poe os distribuiu e colocou vários em uma das xícaras, certificando-se de que Ellery não percebesse.

Com um ar inocente, colocou a xícara na frente de Ellery. Sem levantar suspeitas, Ellery bebeu tudo.

— Estou com um pouco de sono. Sim, com boa parte da tensão já dissipada... Van, você se importaria? Preciso tirar um cochilo. Só me acorde se algo acontecer.

Essa foi a última frase dita pelo grande detetive antes de sair de cena.

Logo, Ellery estava deitado com o rosto sobre a mesa, dormindo inocentemente. Morisu certificou-se de que Ellery estava em um sono profundo, carregou-o para seu quarto e o deitou na cama.

Nesse ponto já havia decidido que Ellery precisaria cometer “suicídio por queimadura”. Os comprimidos para dormir poderiam ser descobertos em uma autópsia do cadáver de Ellery mais tarde, porém Morisu calculava que a polícia descobriria o cadáver de Yoshikawa Sei’ichi, chegaria à conclusão de que a morte de Nakamura Seiji no ano passado foi suicídio e consideraria este um caso de imitação. As circunstâncias daquele caso eram semelhantes a este, então isso sem dúvida também influenciaria a opinião da polícia.

A chuva enfim parou. Não parecia que fosse recomeçar tão cedo.

Ele desceu até a enseada e preparou seu bote, depois voltou às ruínas da Mansão Azul para recuperar o querosene do depósito subterrâneo. Desenterrou a mão esquerda de Orczy, que estava enterrada, removeu o anel e devolveu a mão ao quarto dela.

As placas restantes, as roupas com manchas de sangue, o veneno, a faca: tudo o que precisava destruir, levou para o quarto de Ellery. Abriu a janela e encharcou o quarto com querosene. Depois de derramá-lo também nos outros cômodos, carregou o botijão de gás propano até o corredor e abriu a válvula. Saiu, foi até a janela aberta, encharcou Ellery com o querosene restante e jogou o botijão vazio lá dentro.

Isso pareceu despertar Ellery. Porém, a essa altura, Morisu já havia jogado um isqueiro a querosene na cama encharcada.

Ele deu alguns passos para trás e fechou os olhos.

A imagem residual do fogo na parte de trás de suas pálpebras dançava e girava violentamente.



Na manhã seguinte, após um longo sono, quase eterno, foi despertado por um telefonema de seu tio, contando-lhe sobre o incidente. Ligou para Kawaminami e combinou de encontrá-lo na Cidade S.

Contudo primeiro foi à casa do tio e pegou o carro emprestado, dizendo que iria ao Cabo J para ver o que estava acontecendo na ilha. Apressou-se para lá, como havia dito, e colocou o bote e a cápsula de gás que havia escondido no porta-malas. Naquele momento, todos estavam de olho em Tsunojima, não no Cabo J.

Depois de devolver o carro ao tio, guardou o bote na garagem. Feito tudo, foi ao porto encontrar-se com Kawaminami e Shimada.



Parte 7

Após o término da reunião na sala reservada do Clube de Mistério da Universidade K, Morisu Kyoichi se apressou em voltar para casa sozinho.

Ellery, ou Matsu’ura Junya, havia matado seus cinco amigos e cometido suicídio por ateamento de fogo, por algum motivo desconhecido ou possivelmente por insanidade. Parecia que a polícia havia chegado a essa conclusão. Um motivo definitivo não havia surgido na reunião daquele dia, no entanto vários relatos sugestivos sobre o tipo de pessoa que Ellery era pareciam ter despertado o interesse do Inspetor Shimada.

Tudo tinha corrido ainda melhor do que esperava.

Ele já havia se livrado de duas das pinturas que fizera para comprovar seu álibi no continente. Havia feito tudo o que precisava ser feito. Não tinha mais nada a temer.

Tudo havia acabado agora, pensou Morisu.

Por fim havia terminado. Sua vingança estava completa.



Notas:
1. Em diversas universidades japonesas, a sala de convívio estudantil é chamada de “box” (caixa) em vez do termo japonês mais comum “bushitsu” (sala de convívio). A Universidade K é inspirada na Universidade de Kyoto, que tradicionalmente utiliza o termo inglês “caixa” em vez de “bushitsu”.

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Link para o índice de capítulos: The Decagon House Murders

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