Primeira Temporada — Capítulo 19: Confissão
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Dezenove: Confissão
JONATHAN SIMS
Depoimento do Padre Edwin Burroughs, referente à sua alegada possessão demoníaca. Depoimento original prestado em 30 de maio de 2011. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.
Início do depoimento.
JONATHAN SIMS (Depoimento)
Obrigado por vir. Sei que não deve ter sido fácil organizar isso e agradeço a oportunidade de prestar meu depoimento. O Sistema Prisional não deve ter facilitado as coisas para vocês. É compreensível que hesitem em dar a alguém acesso prolongado a mim, caso eu me torne violento, mas fico muito feliz que tenham aberto uma exceção para você. Pelo menos, supondo que você seja real. Espero que seja real, porém talvez seja essa esperança que esteja sendo usada contra mim em uma piada cruel. Ou talvez a piada seja que eu deixaria essa dúvida me custar minha única chance de contar minha história. De qualquer forma, escolho prestar meu depoimento e, se você não for real, ao menos nenhum mal terá sido causado.
Chegaremos ao canibalismo, é claro, contudo primeiro quero fornecer algum contexto. Não sei o quanto trabalha com a Igreja em seu Instituto. Pode se surpreender que um homem da igreja como eu, por mais longe da graça que possa ter caído, busque a ajuda de uma organização dedicada ao estudo do paranormal. Bem, para ser honesto, geralmente isso é mantido em segredo, no entanto a Igreja Católica não é contra a crença no sobrenatural fora da doutrina oficial. Demônios, fantasmas, magia negra... No geral, cabe ao indivíduo decidir o quanto acredita nessas coisas, e acredito que muito do que você pesquisa é real. Perigoso, mas real. Sempre vi a obra do Diabo como algo muito tangível, e aqueles padres que falam a seu respeito como metáfora ou símbolo, temo, muitas vezes colocam a si mesmos e seus paroquianos em perigo. Desculpe, isso está se tornando uma homilia. Faz algum tempo que não tenho a oportunidade de me expressar assim; quase não me importo se for sobre um dos fantasmas dEle.
Então, suponho que foi natural que, relativamente cedo em minha vocação como padre, eu me formasse como exorcista. Na verdade, não é nada de muito especial. Toda diocese deveria ter um exorcista treinado disponível, ou, na falta desse, um bispo para poder assumir essa função. Entretanto, na maioria das vezes, as atribuições de um exorcista se resumem a recomendar um bom psiquiatra, médico ou programa de tratamento para dependência química, e os bispos costumam não ter tempo para o fazer. Fui exorcista da Diocese de Oxford quando tudo aconteceu. Como fui formado como jesuíta, estava acostumado a me mudar bastante, todavia estive em Oxford de 2005 até minha prisão em 2009. Havia dois exorcistas na diocese, eu e um antigo agostiniano chamado Padre Harrogate. Peço-lhe, por gentileza, que não entre em contato com ele; não tem nenhuma participação no que me aconteceu e, acredito, ficaria perturbado com qualquer lembrança das minhas ações.
Durante meu tempo, realizei pouco mais de cem exorcismos, com graus variados de sucesso. Era bastante raro que ocorresse algo mais do que uma bênção ou uma oração. Ainda assim, ajudava na maioria dos casos, embora como um dos tipos mais comuns de possessão não é ao estilo do Exorcista, de falar em línguas demoníacas e flutuar para fora da cama, e sim o de uma depressão anormal, muitas vezes era difícil ter certeza. É difícil dizer quantos eram crentes devotos que vieram até nós com uma depressão muito natural e apenas preferiram recorrer à Igreja em vez de aconselhamento ou medicamentos. Mesmo esses foram ajudados até certo ponto, acredito, ainda que apenas como um placebo. Contudo em algumas ocasiões encontrei coisas que serviram para fortalecer minha crença no Diabo e minha fé em meu Se... Meu Sen... Desculpe, Ele não me deixa dizer as palavras. Também não me deixa orar, no entanto espero não ser julgado com muita severidade por isso no dia do Juízo Final.
Como estava dizendo, houve momentos em que senti coisas resistindo. Certa vez, fui amaldiçoado em sumério por um jovem analfabeto e ouvi os nomes dos meus animais de estimação da infância sendo jogados em minha cara por um velho jamaicano. Admito que houve momentos em que tive muito medo daquilo que estava tentando remover, entretanto sempre tive fé em Je... Sempre tive fé. Só que nada disso me preparou para o que aconteceu na Bullingdon Road. Aquilo foi algo completamente diferente.
Estava trabalhando na capelania católica em St. Aldate, tentando ajudar no bem-estar espiritual dos alunos que nos procuravam, quando o Padre Singh, um dos outros padres que trabalhavam lá, veio até mim. Ele disse que tinha uma aluna de St. Hughes pedindo um exorcismo e queria encaminhá-la para mim. Disse “É claro”, e um encontro entre nós foi marcado. O nome da aluna era Bethany O’Connor, e muito do que me contou está sob sigilo, uma garantia que não vou quebrar nem agora, então me limitarei a dizer que Bethany acreditava que não tinha mais controle sobre a própria mente.
Ainda enquanto conversávamos, ela passava boa parte do tempo olhando ao redor ou me encarando com o que só posso descrever como uma suspeita aguda. Bethany me disse que sua vontade ainda era dela, todavia que não conseguia mais confiar em seus sentidos e que se pegava fazendo muitas coisas que não entendia.
Eu me lembro muito bem de um momento, acredito que em nosso segundo encontro. Estávamos caminhando pelo jardim botânico, pois, segundo a própria, isso a acalmava quando falava sobre seu problema. Colocando a mão em sua bolsa, tirou o que parecia ser uma pequena laje de pedra, ardósia, acredito, e começou a levá-la à boca como se fosse comê-la. Perguntei o que estava fazendo, e ela parou, olhou para a pedra que segurava na mão e a jogou fora antes de cair em prantos. Em seguida, me disse que sentia como se algo estivesse em sua cabeça, mudando o que via, sentia e pensava. Perguntei quando aquilo havia começado, e me disse que foi depois que se mudou do alojamento estudantil para uma casa na Bullingdon Road com suas amigas. Sugeri a possibilidade de talvez ter alguma relação com o estresse de entrar no segundo ano, mas seguiu insistindo que era alguma coisa relacionado à casa. Por fim, após várias discussões, concordei em dar uma olhada na casa e realizar uma pequena bênção, caso houvesse algo errado com o lugar, espiritualmente falando.
Era uma manhã fria de dezembro, perto do final da Quaresma de São Miguel, quando visitei o número 89 da Bullingdon Road. Era uma casa antiga, embora não tão antiga a ponto de ser incomum naquela parte de Oxford, e claramente já havia sido uma pequena casa de família, agora dividida pela imobiliária para abrigar o máximo de estudantes possível. Bethany me disse que seis delas moravam lá na época. Dei uma volta pela casa, procurando sinais de algo errado, porém não encontrei nada que parecesse fora do comum. Bethany ficava me perguntando se “sentia alguma energia negativa” na casa, e tentei explicar que, infelizmente, os padres não têm o poder de só sentir a presença do mal. Não tinha me dado conta de quão lamentável isso era, pelo menos não até chegarmos ao seu quarto. Ficava no primeiro andar, nos fundos da casa, e era um quarto comprido e estreito, de longe o maior. Estava decorado no típico estilo estudantil, com pôsteres de filmes e estantes desmontáveis, contudo minha atenção foi atraída por um grande pedaço de parede onde o papel de parede havia sido arrancado de maneira grosseira, revelando os tijolos aparentes por baixo. Escrita ali, em tinta azul desbotada, estava uma única palavra: Mentis.
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| Arte por kazoosnow. |
Eu já havia saído do seminário há alguns anos e nunca fui muito fã da Missa em latim, no entanto conhecia a palavra para “mente”. Minha primeira suposição foi que Bethany a havia pintado em algum tipo de surto, entretanto olhando mais de perto, vi que a pintura era muito antiga para ter sido feita desde que se mudou. Parecia mais que tinha sido pintada na parede e depois coberta com camadas de papel de parede ao longo dos anos, até enfim ser descoberta ao removê-lo. O que era um pouco mais preocupante era que, observando Bethany andar de um lado para o outro no quarto, seguindo meu olhar com certa confusão, ela parecia não conseguir enxergar a pintura. Quando perguntei o que a palavra na parede significava para Bethany, o olhar que me dirigiu foi como se estivesse perguntando de que bobagens estava falando.
Não me pareceu que houvesse muito mais a ganhar ali naquele momento, então fiz uma breve bênção sobre o local, tirei algumas fotos e lhe disse que teria que voltar mais tarde depois de investigar algumas coisas. Sua reação me pareceu desapontada por não estar fazendo nada mais imediato, todavia não tentou argumentar. E assim, saí daquela que seria minha primeira visita à casa na Bullingdon Road, ligando para o Padre Singh para marcar uma reunião no dia seguinte, onde poderíamos discutir se deveríamos tentar um exorcismo completo.
Foi nessa reunião que recebi a ligação do hospital. Bethany havia sido internada com lacerações faciais graves e pediu para me ver o quanto antes. Fui para o John Radcliffe assim que pude e fiquei surpreso ao ver dois policiais perto de sua cama. Fui recebido por Anne Willett, a enfermeira que Bethany havia pedido para me ligar. Já conhecia um pouco a Annie, pois ela frequentava a igreja onde eu trabalhava e a reconheci da congregação. Annie me explicou que Bethany parecia ter tentado atacar uma de suas colegas de casa com uma faca de cozinha e, na luta que se seguiu, acabou caindo de cabeça em um espelho de corpo inteiro, levando a cortes muito profundos.
Fiquei, para dizer o mínimo, um tanto surpreso. A situação piorou muito em relação ao que Bethany havia descrito antes, e comecei a temer que, se não fizesse nada, a pobre garota talvez acabasse trancada em algum lugar. Annie estava convencida de que um exorcismo era a única solução, então no fim concordei em fazê-lo. Já tinha a permissão do Bispo, embora tenha sido antes da hospitalização de Bethany, e teria preferido conversar com ele outra vez. Ainda assim, era evidente que o seu estado estava piorando, e decidi arriscar e tentar de qualquer maneira. Foi um risco estúpido. Fui arrogante e complacente, cheio de orgulho espiritual e ansioso para testar minha fé contra o que quer que estivesse na alma de Bethany, sem nem considerar que poderia estar colocando-a em risco. Mesmo assim, paguei caro pela minha arrogância.
Esperamos até que a polícia colhesse seus depoimentos e fosse embora, e então preparei tudo e comecei o exorcismo. Foi... Incomum. Não houve resistência da parte de Bethany, quase nenhuma reação, e em muitas partes da cerimônia onde, na minha experiência, era comum que houvesse uma resposta do demônio, ou pelo menos da vítima, havia apenas... Silêncio, enquanto me encarava com um olhar que parecia quase de pena. Annie ficou parada no canto, observando e ansiosa para ajudar, apesar do medo que podia ver em seus olhos. Ao fim, Bethany me olhou nos olhos e balançou a cabeça lentamente.
— Sinto muito! — disse ela. — Ele quer a sua fé.
Sem nenhum aviso, seu corpo começou a convulsionar. Se debatendo com dor evidente. Tentei continuar o ritual, mas os médicos me empurraram, tentando desesperadamente ajudar Bethany enquanto o sangue começava a jorrar de sua boca, onde havia mordido a própria língua. No fim, eles não conseguiram salvá-la. Hemorragia cerebral, foi o que disseram, talvez devido à pancada na cabeça quando bateu no espelho e os médicos apenas não perceberam. Fui convidado a me retirar sem rodeios, e os médicos deixaram bem claro que, apesar de não ter sido eu quem a atingiu na cabeça, me responsabilizavam fortemente por sua morte. Também recebi uma bronca severa do meu bispo, que me disse para me afastar e deixar os exorcismos para o Padre Harrogate por algum tempo. Annie quase foi suspensa pelo ocorrido, porém no fim foi poupada de maiores sanções disciplinares, já que estava apenas transmitindo os desejos da paciente.
E por alguns anos foi isso. Senti muita culpa pelo meu envolvimento na morte de Bethany e comecei a beber mais do que antes. Acho que nunca corri o risco de me tornar alcoólatra, pois a maioria dos padres com quem trabalhei já havia lidado com dependentes químicos... Sem mencionar o fato de que padres sem dúvidas não são imunes ao alcoolismo, e teriam percebido os sinais de alerta. Contudo eles expressaram preocupação com o desaparecimento ocasional de garrafas de vinho sacramental. Na época, tinha certeza de que não era culpa minha. Preferia uísque escocês e o vinho moscatel que compravam nunca me agradou muito, no entanto olhando para trás, não consigo ter certeza do que estava bebendo. Sei que é um salto e tanto entre roubar vinho sagrado sem querer e meus crimes posteriores, entretanto estou tentando ao máximo encaixar isso em uma narrativa coerente.
Além do mais, os anos se passaram sem incidentes e estava começando a sentir que tinha deixado todo o assunto para trás. Até que recebi um telefonema de Annie. Ela disse que um senhor havia sido internado no John Radcliffe depois de levar um susto em uma casa na Hill Top Road. Expliquei que não estava realizando exorcismos no momento e disse que deveria falar com o Padre Harrogate. Annie me garantiu que não seria necessário um exorcismo completo e que, se fosse, poderíamos trazê-lo para cá, todavia não conhecia nem confiava no Padre Harrogate, apenas queria minha opinião. Finalmente, depois de muita insistência, concordei em fazer uma visita à casa.
Já era tarde quando cheguei e estava começando a ficar muito frio. Toda aquela situação estava me trazendo à tona algumas lembranças nada agradáveis da minha chegada à Bullingdon Road, tantos anos atrás. Também fiquei um pouco irritado com a Annie por não ter mencionado que a casa ainda estava em construção, o que não só tornava improvável que fosse assombrada por demônios ou espíritos, como também significava que o casaco que havia trazido seria um tanto inadequado para me proteger do frio em uma casa sem janelas. Bati na porta e um dos operários abriu. Esqueci o nome dele, acho que era algo polonês, ou talvez tcheco? O homem pareceu confuso a princípio sobre o motivo da minha presença, mas expliquei e descobri que ele era o mesmo que havia sido tratado pela Annie no hospital. Ela não havia mencionado a possível esquizofrenia do operário, porém comecei a temer que aquilo fosse uma perda de tempo. Ainda assim, dei uma olhada ao redor e fiz algumas perguntas ao operário sobre o lugar. Era verdade que tinha uma história interessante, contudo não tinha certeza de quanto acreditava no que me contou.
Por fim, decidi que já tinha visto o suficiente e que não parecia haver nenhuma presença maliciosa ali. O construtor estava me olhando de um jeito que me deixou hesitante em dizer minha sincera opinião, então decidi que pelo menos faria uma rápida oração ou bênção ao lugar. Pedi que esperasse lá fora. Algo no seu jeito era um pouco desagradável e me senti desconfortável ao tê-lo me observando como um falcão, como se fosse desaparecer a qualquer momento.
O operário foi para o jardim dos fundos e fiquei sozinho na casa. Fui para o corredor e comecei a orar, pedindo proteção e aspergindo água benta de um frasco que carrego comigo nessas situações. Enquanto falava, sentia uma sensação... Alarmante. Comecei a ficar com muito calor, como se o cômodo estivesse esquentando muito rápido. Procurei a fonte do calor, contudo os radiadores ainda não tinham sido instalados e não conseguia ver nada mais que pudesse estar aquecendo o cômodo. Continuou, e logo me senti empapado de suor. Comecei a tossir e senti cheiro de fumaça, embora não pudesse ver nenhuma, nem mesmo fogo.
Caí de joelhos e reprimi um grito ao sentir minha pele começar a crepitar e queimar. Comecei a orar de novo por proteção, não pelo lugar desta vez, e sim por mim.
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| Arte por @Georgiacooked. |
Enquanto orava, senti... Algo me responder. E, entretanto, preciso enfatizar: o que respondeu não foi D... Deus. Não foi Ele. Algo mais respondeu ao meu pedido de proteção. Senti meus lábios se moverem. Não emitiram nenhum som que pudesse ouvir, todavia senti cada sílaba se formar.
— Não sou para você. Estou marcado.
O calor diminuiu de intensidade, mas não parou. Minha boca continuou a falar por mim, quando ouvi o som de um motor de carro lá fora e uma grande batida. Instantaneamente a sensação desapareceu, como se nunca tivesse existido, e olhando para fora, vi que o construtor havia conseguido arrancar uma árvore do jardim dos fundos. Fiquei sentado ali por um tempo, recuperando o fôlego, e quando ele voltou para dentro, eu lhe disse que havia terminado as orações e me desculpei com pressa. Foi a primeira vez que experimentei...
JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
Infelizmente, este depoimento está incompleto e termina neste ponto. Não parece ser o final do documento, então tenho esperança de que o restante esteja arquivado em algum outro lugar nos arquivos. Se for esse o caso, registrarei e adicionarei essa parte quando for encontrada, seja por mim mesmo ou, dada a escala da má gestão do Arquivo, pelo meu sucessor quando eu falecer de velhice.
Com isto em mente, todas as investigações, exceto as mais preliminares, sobre este depoimento estão sendo suspensas até que o restante seja encontrado. A maioria dos detalhes parece estar correta e coincide com o depoimento dado pelo Sr. Ivo Lensik em 2007. Encontramos, no entanto, o registro de prisão do Padre Burroughs, e estou muito curioso para ver como os eventos relatados aqui podem ter levado ao incidente de 2009, no qual ele aparentemente assassinou dois estudantes universitários do primeiro ano após a missa de domingo e, em seguida, arrancou e comeu a maior parte da pele deles.
Fim da gravação.
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