Capítulo 05: Espera-se que as ações de um Arquidemônio sejam audaciosas
Antes que percebesse, Nephy estava em um canto da cidade, agachada em frente a uma casa deserta.
Por que... Estou em um lugar como este...? Era como se uma névoa tivesse se encoberto em sua mente, impedindo-a de pensar direito.
A paisagem lhe era familiar. Era Kianoides, a primeira cidade que visitara com Zagan, e também um lugar que visitava de vez em quando para comprar ingredientes e outras coisas.
Não tinha absolutamente nenhuma lembrança de como havia chegado ali.
Em primeiro lugar, qual era o motivo de ter viajado tão longe? Podia se lembrar até o momento de preparar o jantar, mas Zagan o comeu? Era a primeira refeição que Nephy havia feito, o ensopado que seu mestre antissocial contemplava com admiração e deleite.
Queria ver aquela expressão de alegria em seu rosto mais uma vez. E assim, tinha que retornar o quanto antes ao seu serviço.
Contudo, ao pensar nisso, percebeu o que estava segurando. Um fragmento de uma coleira que se desfez em pedaços. E, para sua surpresa, não havia mais coleira em seu pescoço.
Ah, é verdade. Eu fui...
— Descartada... Pelo Mestre. — ao tentar expressar seus pensamentos em palavras, sua mente se despedaçou e se tornou uma confusão.
Ela sentiu seu coração parar. E se não tivesse parado, talvez Nephy apenas tivesse perdido a cabeça.
Mesmo que ele tenha dito... Que me permitiria ficar ao seu lado...
Foi a primeira vez para ela.
A primeira vez que fora tratada como uma pessoa. Ele até a preparou um quarto e roupas, lhe deu um motivo para viver.
O único que lhe disse que era necessária... Foi Zagan. Disse que não havia problema em Nephy estar ali, então pensou que havia encontrado um lugar ao qual pertencia.
E mesmo assim...
Nephy enterrou o rosto nos joelhos e se encolheu em posição fetal.
— As lágrimas... Não correm em momentos como este...?
Toda a situação parecia irreal para si. E talvez devido a isto não estivesse se afogando em tristeza.
Pensou que se apenas fechasse os olhos e adormecesse, quando acordasse, já estaria de volta ao castelo.
E ainda assim, em um canto de sua mente, entendia que jamais aconteceria, que aquela era a realidade, e que precisava encará-la de frente.
Apesar disso, todas as suas emoções fervilhavam em um turbilhão em seu peito. E naquele exato momento...
— Você é... Aquela de antes...? Serva do Feiticeiro Zagan, não é?
Era uma voz que não se lembrava de ter ouvido antes.
Ao olhar para cima, uma garota vestindo a Armadura Ungida de um Cavaleiro Angelical estava parada à sua frente. E carregava uma espada longa nas costas.
Embora Nephy não reconhecesse sua voz, sentiu que reconhecia sua aparência, então a observou por mais um tempo. Logo, lembrou-se de onde a tinha visto antes.
— Aquela que lutou contra o Mestre...?
Era um dos Cavaleiros Angelicais da luta na floresta.
E agora que lembrava, essa garota foi a única que recuou sem ferimentos graves.
— Está me ouvindo, Nephy? Fique longe daqueles malditos Cavaleiros Angelicais. — Zagan a havia avisado em algum momento.
Ele a havia contado como eles eram os inimigos naturais dos feiticeiros e como eram assassinos profissionais que executavam até mesmo todos os relacionados a feiticeiros, condenando-os como pecadores. E também sobre o perigo de que mirassem em Nephy, então deveria ter cuidado com eles.
Infelizmente, Zagan, que lhe contara tudo isto, não estava mais ao seu lado. Por que as coisas terminaram assim? Ela não tinha a menor ideia.
— Você... Vai me matar, não é? — Nephy murmurou como se tivesse desistido de tudo.
Era provável que essa garota também tivesse testemunhado seu misticismo. Não achava que aqueles que arbitrariamente decidiram que até mesmo um feiticeiro com um coração bondoso como o de Zagan era mau deixariam Nephy viver.
Além do mais, também não tinha mais sua coleira. Com a feitiçaria que Zagan lhe ensinara e seu misticismo, talvez pudesse lutar contra a garota à sua frente, no entanto não conseguia encontrar um motivo para fazê-lo.
Se o Mestre não está aqui, então não há sentido em viver. Ela pensou que seria melhor só morrer ali.
Para sua surpresa, a garota à sua frente balançou a cabeça com um olhar de pânico.
— E-Espere! Não me entenda mal. Não pretendo te fazer mal.
— Hm...? Cavaleiros Angelicais são pessoas que matam feiticeiros, certo? Sou... Serva do Mestre e discípula do Mestre. Por favor, me decapite.
— P-Pare de falar de mim como se eu fosse algum tipo de assassina!
— Estou enganada?
— Muito!
Por algum motivo, foi a Cavaleira Angelical que estava prestes a chorar.
E talvez por causa de tal discussão, antes que percebessem, uma multidão se reuniu ao redor das duas.
(Ei, o que está acontecendo aqui? Aquela ali não é a Nephy?)
(É uma Cavaleira Angelical... Será que estão de olho na Nephy porque é serva daquele feiticeiro?)
(Então, alguém deveria salvá-la? Mesmo nos melhores momentos, a Nephy parece ter um temperamento frágil.)
Os espectadores comentavam sobre o que pensavam estar vendo, entretanto, por algum motivo, todas as críticas se concentravam na Cavaleira Angelical.
— E-Estou dizendo que não é verdade, ok? — e ela se encolheu como se estivesse assustada com as palavras daqueles em volta.
E então, como se não aguentasse mais assistir, uma pessoa saltou da multidão.
— Ei! Nephy, você está bem?
Quem saltou como se fosse proteger Nephy era uma jovem garota-pássaro que Nephy se lembrava.
— Manuela...
Era a vendedora que escolheu as roupas para Nephy na loja.
Mesmo depois daquilo, as duas seguiam se encontrando na cidade às vezes, e Manuela recomendava roupas novas para Nephy. O camisolão de dormir que usava no castelo também foi escolhido a dedo por Manuela.
Olhando para o rosto de Nephy, Manuela ficou sem palavras.
— O-O que foi? O que ela fez com você? Está machucada? Onde está o seu mestre?
De alguma forma, Nephy parecia estar com uma expressão bastante triste. Manuela entrou em pânico como se tivesse acabado de encontrar uma pessoa ferida e coberta de sangue.
— Não é... Nada. Não estou... Machucada.
— Não é possível que não seja nada, né? — com a voz ficando áspera, a aviana lançou um olhar furioso para a Cavaleira Angelical.
— Ei! Não se sente envergonhada por fazer esse tipo de coisa só porque é da igreja? Maltratar uma garota tão frágil e bondosa é repugnante!
— É verdade! Bem dito!
— Vá embora, Cavaleira Angelical!
— E façam suas doações mais baratas também!
Uma tempestade de críticas irrompeu da multidão.
— V-Vocês estão enganados...
— O que há de errado, diga?
— Você fez Nephy ficar com uma cara tão triste, como ousa mentir assim?
— Isso é desumano!
Os rugidos de raiva atingiram um clímax febril, e a Cavaleira Angelical empalideceu e caiu no chão.
O alvoroço aumentava cada vez mais por conta própria, entretanto não era como se a Cavaleira Angelical tivesse feito algum mal a Nephy. Dessa forma, tentou elevar sua voz para mediar.
— Hmm, por favor, esperem... Pessoal.
— Está tudo bem, Nephy. Nós vamos te proteger! — enquanto Manuela se virava para ela com um sorriso determinado no rosto, Nephy respondeu mantendo seu olhar cadavérico.
— Não, aquela pessoa... Não fez nada comigo.
De repente, a multidão ficou em silêncio.
— Eh, mas...
— Mesmo eu tendo dito que vocês estavam enganados... — a jovem Cavaleira Angelical já havia começado a chorar. Era uma visão lamentável vê-la coberta de lágrimas e muco.
— Hic... Eu só... Hic, fiquei preocupada quando, ack... Vi que ela parecia machucada...
Parecia que de fato só chamou Nephy porque a viu com um semblante miserável.
Pensando que estava encurralada pelos cidadãos por sua causa, Nephy de alguma forma se sentiu culpada.
— Uh... — Manuela fez uma expressão de preocupação.
— Se é o caso, por que a Nephy está com essa cara triste? Não parece ser algo trivial...
— É que...
— Waaaaaah! — sem saber como responder, a Cavaleira Angelical caiu em prantos, sem se importar com seu comportamento vergonhoso.
Nephy então se levantou e abaixou a cabeça.
— Peço desculpas... Por causar confusão... E à Cavaleira Angelical também, peço desculpas. Bem, agora vou indo. — e quando tentou sair, Manuela a deteve em pânico.
— E-Espere... Espere um segundo. Não tem como eu só te deixar sozinha depois de te ver desse jeito, né?
— Hã? — enquanto murmurava essa palavra, Nephy olhava para a Cavaleira Angelical, que continuava a chorar sem parar à sua frente. Falando em pessoas que não podiam ser deixadas sozinhas, Nephy acreditava que também se aplicava àquela garota.
Manuela também ficou sem palavras e acabou soltando um... — Aaah, puxa! — e puxou o cabelo ruivo da garota.
— Vocês duas, venham comigo!
Assim, a estranha combinação da discípula de um feiticeiro, uma Cavaleira Angelical e uma balconista de uma loja de roupas, saiu apressada.
***
— Desculpe por ter me comportado de forma tão desagradável. — a Cavaleira Angelical, que finalmente havia parado de chorar, falou enquanto seu nariz seguia um pouco vermelho. Observando-a mais uma vez, a jovem parecia ter a mesma idade de Nephy.
As três entraram juntas em um bar, contudo infelizmente o clima ao redor das três era bastante constrangedor. Mesmo não sendo um bar muito espaçoso, os clientes ao redor se acomodaram em mesas mais próximas das paredes.
Se pudesse, Nephy também teria preferido se juntar a eles e se tornar um enfeite na parede, no entanto era uma das razões pelas quais o ar estava pesado.
Deixando de lado a Cavaleira Angelical que feriu Zagan, Manuela se envolveu na situação ao acobertar Nephy. Nephy não havia perdido a sensibilidade a ponto de só sair e abandoná-la.
Embora não tivesse ideia de como reagir, dada a situação.
Por isso, a única coisa que podia fazer era permanecer inexpressiva e em silêncio.
Manuela então se esforçou ao máximo para falar com uma voz alegre.
— Há muitas pessoas amigáveis aqui, então poderemos relaxar. O segundo andar também é uma pousada, então...
A julgar pelo estado em que Nephy se encontrava e pelo fato de Zagan não estar em lugar nenhum, concluiu que Nephy não voltaria para casa.
Depois de ser levada até o bar como uma cliente pagante, Nephy balançou a cabeça.
— Eu não tenho... Dinheiro nenhum agora.
De fato parecia que tinha saído com pouco mais do que a roupa do corpo. Tudo o que havia em seu bolso era um bilhete com a receita do jantar, nada mais, nada menos.
Olhando para aquele pedaço de papel, a expressão de Manuela se fechou.
— Ah, caramba, hoje eu pago, então sente-se! Você ainda não jantou, né?
Nephy não tinha intenção de responder, mas a Cavaleira Angelical ao seu lado teve seu estômago roncando, o que fez Manuela virar-se com um olhar glacial.
— ...
— B-Bem, desculpe por isso!
Como discípula de um feiticeiro, Nephy e essa garota eram inimigas juradas... Ou, pelo menos, deveriam ser. Porém, por algum motivo, Nephy não conseguia sentir nenhum tipo de inimizade vinda da garota imprevisível.
Depois que Manuela sentou Nephy, começou a pedir uma coisa atrás da outra... A maioria parecia ser bebida alcoólica.
Enquanto esperavam a comida, a Cavaleira Angelical abriu a boca para falar.
— Pensando bem, ainda não me apresentei, não é? Meu nome é Chastille. Tenho certeza de que já deve ter percebido, contudo sirvo como uma Cavaleira Angelical.
— Manuela. Você paga a sua parte, entendeu?
— Por que diabos está sendo tão fria comigo?
— Porque ainda não sei se você realmente estava intimidando a Nephy ou não?
Chastille se enrijeceu com um espasmo, talvez porque, de fato, tivesse atacado a casa de Nephy.
— Er... Isso é...
— Viu? Como suspeitei, então fez mesmo alguma coisa.
— N-No entanto foi por causa da minha missão, ent...
— O quê? Está dizendo que tudo bem machucá-la se for a sua missão?
Parecia que os Cavaleiros Angelicais não tinham uma boa reputação entre os moradores da cidade. O que fazia sentido, já que Kianoides era considerado o domínio de um feiticeiro, o que talvez influenciasse a opinião dos residentes.
E em resposta a Chastille, que parecia prestes a chorar de novo, Nephy se pronunciou.
— Não, está tudo bem. Até naquela vez, você não me machucou de forma alguma.
— Sério?
— Outra pessoa feriu o Mestre, e essa pessoa já nos compensou devidamente por suas ações.
Talvez por ter se lembrado do misticismo de Nephy, o corpo de Chastille estremeceu de repente.
— Se é o caso, o que essa fez?
— Não sei bem. Entretanto ela ajudou a tornar nosso pedido de retirada uma realidade.
— Ah, então tipo, carregou a bagagem?
— Sim.
— Não é assim! — Chastille gritou enquanto batia as mãos na mesa com força. — Sou a Donzela da Espada Sagrada, sabia? Em outras palavras, estou entre os doze Arcanjos! E ainda assim, o que é esse jeito de me retratar?
— Bem, tem algo de errado na forma como eu descrevi?
— Isto é... Err... — Chastille murmurou como se tentasse refutar.
Será que só é tímida...?
E no meio tempo em que elas conversavam sobre essas coisas, uma grande quantidade de sopa foi colocada na frente de Nephy.
— Hmm, não posso aceitar.
— O quê, pretende ficar aí sentada sem comer nada? Se fizer isso, não vou conseguir ficar bêbada. Você vai acabar com o meu momento de prazer!
— Haaa... — era uma razão um tanto ininteligível, todavia, dominada pelo vigor de Manuela, Nephy apenas acenou com a cabeça.
Por que... Essa pessoa está sendo tão gentil comigo...? Enquanto pegava uma colher, colocou sobre a mesa o fragmento de sua coleira que carregava com cuidado o tempo todo.
— Sua coleira quebrou?
— Não, o Mestre... A removeu.
Chastille então encarou Nephy fixamente.
— Apesar disso, você não parece muito feliz... Ow.
— Ei, preste atenção no clima.
Parecia que Manuela havia chutado a perna de Chastille por baixo da mesa. Sua perna deveria estar protegida pela Armadura Ungida, mas o ataque passou pelas brechas da armadura. O golpe fez lágrimas se formarem nos olhos de Chastille.
Sem saber como responder, Nephy apertou a colher com mais força.
— Obrigada pela refeição.
— Hmm. — depois de levar a sopa aos lábios, um gosto nostálgico a invadiu.
Não, não era nostalgia nem nada do tipo. Tinha o mesmo gosto da sopa que fizera naquela mesma noite.
Era ensopado de cordeiro.
Com uma gota, uma sensação quente escorreu por sua bochecha.
— Hã...?
Lágrimas correram por suas bochechas. Mesmo que não devesse sentir tristeza, assim que provou a sopa quente, as lágrimas começaram a transbordar sem parar.
Chastille então elevou a voz, completamente perturbada.
— Tudo bem? Eu... Disse algo ruim de novo?
— Waaah! Waaaaaaaaah!
Incapaz de suportar, Nephy caiu em prantos.
Por que, por que, Mestre...
Em resposta ao desabamento de Nephy em lágrimas, Manuela abriu suas grandes asas e a abraçou como se quisesse compartilhar sua dor.
— Nossa... Vocês duas podem chorar o quanto quiserem e se agarrar à sua irmã mais velha aqui.
— N-Não estou chorando.
O mundo talvez fosse muito mais gentil do que Nephy imaginava.
Depois de chorar por um tempo, Nephy começou a contar, aos poucos, o que havia acontecido no castelo. Manuela a ouvia em silêncio, segurando uma caneca de cerveja em uma das mãos. Quando terminou de ouvir, já havia cinco canecas vazias enfileiradas sobre a mesa.
Chastille também a ouvia com a respiração suspensa. Mesmo sendo uma Cavaleira Angelical, talvez não fosse uma má pessoa.
Assim que Nephy terminou, Manuela bateu com força a caneca que segurava contra a mesa, seu rosto estava corado.
— Então, você foi expulsa sem motivo?
Nephy fez um leve aceno em resposta.
— Eu... Cometi algum erro?
Tudo aconteceu muito de repente, e não conseguia entender o que estava acontecendo.
Chastille, por sua vez, assentiu indignada.
— E eu que pensava que ele era um homem promissor... Como pôde fazer algo tão cruel? Parece que estava apenas te usando!
— O Mestre não é assim! — respondeu Nephy sem hesitar.
Isso fez Chastille hesitar.
— Eu... Pelo menos sei isso, entretanto é também por essa razão que não entendo por que te expulsou...
— O que você sabe sobre ele?
— Eek, não precisa ficar tão brava...
— Não estou brava.
Depois de chorar até secar as lágrimas, Nephy parecia mais inexpressiva do que o normal, o que deixou Chastille muito confusa.
Manuela então se intrometeu e acalmou os ânimos.
— Ora, ora, é claro que vai ficar brava se difamar o seu querido mestre desse jeito.
— Não é como se estivesse o difamando!
Manuela olhou para Nephy, que observava a discussão.
— Sendo assim, o que pretende fazer daqui para frente, Nephy?
— O que... Pretendo fazer...?
Como não havia nada que pudesse fazer, estava sem ideias.
Chastille então pigarreou com uma tosse.
— Que tal entrar na proteção dos Cavaleiros Angelicais? Proteger cidadãos que foram prejudicados por feiticeiros é um de nossos deveres.
— O quê? Ah, qual é. Se ela for com vocês, será julgada pela fé! Como suspeitei, vocês estão apenas intimidando a Nephy!
— Não estamos! Quer dizer, ela é apenas uma serva, então se a tratarmos como vítima, até a igreja deveria ser obrigada a protegê-la...
— Se houver um julgamento, vão descobrir que não é verdade. Não podemos entregar a Nephy a um lugar onde estará em perigo.
— Tá, e o que devemos fazer...?
Nephy balançou a cabeça em resposta a Chastille, que tinha uma expressão carrancuda.
— Agradeço sua consideração, mas isto faria do Mestre um vilão. Não posso... Aceitar.
Os ombros de Chastille caíram ao ouvir isso. Depois, ao abrir a boca como se fosse difícil para falar, perguntou.
— Há algo que eu gostaria de lhe perguntar. Acha que Zagan comanda vários feiticeiros? É o tipo de homem que sequestraria inocentes para alimentar rituais de sacrifício?
— Não acho que seja.
Provavelmente era algum tipo de preconceito contra feiticeiros, porém Nephy conseguiu responder de imediato.
Ainda que tal pessoa demonstrasse favoritismo por Nephy e repetisse as mesmas ações, ela não acreditava que essa pessoa desejaria a individualidade da própria Nephy.
— O Mestre é... Alguém que não se importa com os fracos. Mesmo quando salvou uma carruagem que estava sendo atacada por bandidos, o Mestre disse que só o fez porque não estava satisfeito com os bandidos.
Também pensou que, talvez, fosse para mostrar a Nephy que deveria se sentir à vontade.
Aquela cena a fez lembrar de quando sua aldeia foi atacada... Embora sentisse medo em vez de culpa. E quando se lembrou, Nephy empalideceu, o que coincidiu com o ataque de Zagan aos bandidos.
“Aquelas coisas são um lixo”. Foi tudo o que disse. Sem buscar compensação de ninguém e sem esperar nenhum tipo de elogio de Nephy.
Na verdade, a pessoa em questão queria exibir suas qualidades para Nephy, contudo a garota não conseguiu perceber.
Chastille então assentiu e soltou um gemido.
— Como imaginei, hein...
— E daí?
— Não, provavelmente é como você diz. Na verdade, quando cruzamos espadas, aquele homem se conteve porque sou mulher. Foi humilhante, no entanto, hmm, como posso dizer... — enquanto Chastille começava a murmurar e hesitava em continuar, Manuela esvaziou outra caneca e abriu um largo sorriso.
— Oh, meu Deus? O que é isso, Senhorita Cavaleira Angelical? Que cara é essa? É uma donzela apaixonada, talvez?
— Q-Quê, não fale com tanta insolência! — depois de gritar, os ombros de Chastille caíram. E então, continuou falando. — Quando o conheci, aquele homem... Parecia precisar ser salvo.
E com essa única frase, o coração de Nephy estremeceu profundamente.
De tempos em tempos, o Mestre parecia extremamente solitário. Em especial quando falava do passado, costumava fazer uma expressão triste. Ela não sabia quando nem onde Zagan e Chastille tinham se conhecido, todavia saber que alguém além dela conhecia aquele rosto sem máscara que Zagan possuía a fazia sentir um pouco de ciúme e também um pouco de felicidade ao mesmo tempo.
O Mestre que conheço... Sem dúvida não é uma mentira. Na noite em que se conheceram, ela pôde contemplar mais uma vez a lua que jamais pensara ver de novo, e estendeu as mãos sem hesitar. E bem ao seu lado, Zagan também olhava para a lua.
Não consigo segurar nada, não é? Era como se estivesse perturbado, foi o que pensou. Não havia como aquilo ser mentira. Ou pelo menos era o que Nephy acreditava.
O Mestre... Não precisa ser salvo agora mesmo...? A expressão que fez ao mandar Nephy sair era muito mais dolorosa do que a que a própria Nephy fazia.
Nephy levou a mão ao peito.
Graças a Manuela e Chastille, que a ouviram, ela conseguiu recuperar a compostura a ponto de se lembrar claramente de Zagan.
O Mestre que conhecia era alguém que a descartaria por um capricho ou porque sua utilidade havia chegado ao fim? Ele não faria isso... De jeito nenhum. Não havia dúvidas de que tinha seus motivos.
Pensando nisso, se lembrou da palavra que lhe chamou a atenção ao se despedir de Zagan.
— Hmm, o que é... Um Arquidemônio? Vocês sabem o que é?
Ainda quando contou os detalhes para elas, acabou se esquecendo de mencionar esse nome.
Manuela e Chastille trocaram olhares.
— Não é o ápice entre os feiticeiros? Até esta cidade era controlada por um Arquidemônio chamado Marchosias, porém como a ordem pública era boa, não dava a impressão de ser particularmente assustador, eu acho? — Manuela então acrescentou algo. — É que esse Arquidemônio parece ter falecido há pouco tempo, e desde então tem havido aquele incidente desagradável acontecendo.
— O sequestro em série de mulheres?
— Sim, esse. Por enquanto, o culpado foi subjugado pela igreja.
Manuela assentiu, respondendo à pergunta de Chastille. Nephy não sabia os detalhes, contudo pelo menos ouvira os rumores.
Ao ouvir que o incidente fora resolvido pela igreja e pelos Cavaleiros Angelicais, Nephy inclinou a cabeça para o lado.
— Considerando tudo, parece que eles não são muito queridos pelos moradores da cidade...
— Urgh, bem...
— É porque, uma vez feito o trabalho, cobram doações absurdamente altas como taxa de resgate. Assim, ninguém os agradeceria de verdade, né?
— Apesar de ser uma doação, vocês cobram?
— É, não faz sentido nenhum, né? — enquanto Manuela lançava um olhar fulminante para o lado, Chastille estava lá, com os ombros caídos, em um semblante triste.
— Hmm, não é como se ela tivesse sido a responsável direta pelas doações, certo? Então, acho que não faz sentido culpá-la.
Ao ouvir aquilo, Chastille caiu em lágrimas mais uma vez enquanto olhava para Nephy.
— Você é tão gentil. Eu entendo por que aquele homem te deixou ficar do seu lado.
— É... Mesmo...?
Aquela foi a primeira vez que alguém lhe disse isso, então Nephy a encarou sem expressão.
E então, Chastille inclinou a cabeça para o lado.
— Nos desviamos do assunto. Sobre o Arquidemônio, dizem que é um símbolo do mal que deve ser derrotado, ainda que a igreja tenha que apostar a vida de todos os Cavaleiros Angelicais para alcançar esse resultado. No entanto, ao contrário das doze Espadas Sagradas, existem treze Arquidemônios. E, portanto, mesmo que cada portador de uma Espada Sagrada pudesse derrotar um Arquidemônio ao preço de sua própria vida, seguiria sendo insuficiente.
O maior inimigo da igreja... Parecia que Zagan havia se tornado exatamente isso.
— Se alguém se torna um Arquidemônio, precisa lutar contra a igreja?
— É como costuma acontecer. Atualmente, um dos Arquidemônios faleceu, então até a igreja está pensando em usar todas as suas forças contra os feiticeiros... Quer dizer, não é como se eu pessoalmente pensasse desse jeito, ok? Enfim, a igreja está cheia de energia, ansiosa para derrotar os feiticeiros.
Como Manuela começou a encará-la, Chastille se corrigiu em pânico.
— Se um novo Arquidemônio surgisse, é provável que a igreja considerasse uma boa oportunidade para derrubá-lo. Afinal, é difícil imaginar o quão poderoso poderia se tornar se não fosse eliminado logo depois de sua ascensão. Ou talvez outros almejassem o cargo.
E Zagan havia lhe dito para se afastar de um Arquidemônio assim.
Será que isto se tornará um conflito enorme? Não foi por essa razão que tentou manter Nephy longe dali?
Nephy encarou a palma de sua mão. Ao longo da última semana, Zagan havia lhe ensinado o básico de feitiçaria simples. Dessa forma, teria um meio de se defender e, um dia, também a ajudaria a controlar seu misticismo. Todavia não foi por esse motivo que aprendeu.
Eu queria... Ser útil ao Mestre, então aprendi feitiçaria.
Mesmo que voltasse, havia uma chance de que ela só o sobrecarregasse. Mesmo assim, Nephy se levantou.
— Eu... Vou voltar para o lado do Mestre.
— I-Isso é mesmo uma boa ideia? Você não foi expulsa?
Enquanto Manuela e Chastille a olhavam surpresas, Nephy balançou a cabeça, negando.
— O Mestre é forte. É certo que já tem força suficiente para não perder para ninguém. Mas... Não significa que não possa ser ferido.
“Os fortes não conseguem entender os sentimentos dos fracos.” Foi algo que Zagan disse quando se abriu com ela. Nunca disse que essas palavras o magoaram, porém parecia muito triste ao pronunciá-las.
Provavelmente não havia como ele ter passado a odiar as pessoas apenas por causa disso. Ainda assim, ela acreditava que era que o fazia desistir de interagir com os outros. Ao pensar dessa forma, Nephy sentiu um desejo repentino de abraçá-lo com força.
— Posso não... Ser de muita utilidade para o Mestre. Contudo não acho que sairá ileso daqui para frente.
Com um “É por isso”, Nephy continuou.
— Eu quero... Me tornar o pilar da força do Mestre.
Talvez fosse presunçoso da sua parte desejar por tal coisa. E era possível que a expulsasse outra vez se voltasse. No entanto, naquele momento, quando Nephy abraçou Zagan, pensou que ele enfim a havia aceitado. É por isso que... Quero estar ao seu lado.
Eles só tinham passado meio mês juntos, apesar do curto tempo, queria acreditar nas memórias que compartilharam.
Não existia alguém que se sentisse bem sozinho. Afinal, até Nephy odiava a ideia.
Por fim, Chastille sorriu.
— Entendo. Nesse caso, devo fazer o que puder também?
— Hã...? Você está planejando... Desafiar o Mestre de novo?
— Não, você está enganada! — gritou Chastille com o rosto vermelho como um tomate. — Não é o que estou querendo dizer, entende... Não posso... Acobertá-lo, entretanto acho que posso dissipar o estigma em torno dele.
— Estigma...? — enquanto Nephy inclinava a cabeça para o lado, Chastille assentiu.
— Parece que há um feiticeiro cometendo crimes enquanto assume o nome de Zagan.
Nephy não sabia que ela estava se referindo ao culpado pelos sequestros em série. E Chastille continuou falando, como se quisesse manter esse fato em segredo.
— Eles estão tentando incriminá-lo, então vou virar o jogo!
— Os Cavaleiros Angelicais e os feiticeiros não são hostis uns aos outros?
— Isto é... Verdade, mas... — como se estivesse um pouco desconfortável, Chastille começou a murmurar. — Não é frustrante ser salva duas vezes e não fazer nada em troca?
À sua maneira, já havia pensado sobre essas questões por um bom tempo.
Manuela então olhou para as duas com um largo sorriso no rosto.
— Bem, já que vocês duas estão de pé novamente, está na hora de encerrarmos por hoje, não é? Ah, minha pequena cavaleira, deixo a conta com você, está bem?
— O quê? Eu nem pedi nada!
Ver Chastille sendo provocada deixou Nephy mais tranquila, por algum motivo. Como... Será que se chama esse sentimento?
E enquanto Nephy estava perplexa, Manuela a abraçou.
— Bem, se alguma coisa te incomodar de novo, pode ir lá em casa a qualquer hora. Pelo menos vou ouvir suas reclamações. Em troca, vou te deixar experimentar algumas das roupas da loja, hahaha.
Olhando para ela sem expressão, Nephy inclinou a cabeça para o lado.
— Manuela, por que está sendo tão gentil comigo?
Era uma sensação diferente de quando Zagan a tratava com gentileza.
E Manuela a encarou de volta, como se estivesse chocada que Nephy nem sequer soubesse o motivo.
— Não é óbvio porque somos amigas?
Ao ouvir aquela palavra com a qual não estava acostumada, Nephy engoliu em seco involuntariamente.
— Amigas...
— Hã, não somos?
— Não sei. Até agora, nunca houve... Ninguém que dissesse ser minha amiga.
A palavra “amigo” a fez pensar na relação entre Zagan e Barbatos. Zagan o xingava, contudo havia uma estranha descontração entre eles, e, sendo honesta, Nephy sentia um pouco de inveja. Certamente, esse tipo de relação se chamava amizade.
Manuela fez uma careta de surpresa por um instante, e logo começou a rir.
— Então, significa que sou sua primeira amiga, certo? Bom saber!
— H-Hm... Sim.
— Wow, suas orelhas estão bem vermelhas, sabia? Você está bem?
E então, Chastille levantou a mão um pouco sem jeito.
— Hmm, tudo bem... Se eu também pensar o mesmo?
— Sobre o quê?
— Hmm, também... Gostaria de te considerar uma amiga!
— Eeeh? Você não é uma Cavaleira Angelical? Não tem problema ser amiga de uma feiticeira?
— Ah, qual é!
Vendo Chastille se emocionar de novo, Manuela a cobriu com suas asas orgulhosas. E então, penteou os cabelos ruivos da Cavaleira Angelical como se não houvesse outra escolha.
— Se não fosse nossa amiga, não poderíamos te provocar assim, né?
— Provocar... É uma parte essencial da amizade?
Apesar de fazer uma cara de profunda insatisfação, Chastille ainda parecia aliviada.
E então, depois de saírem da loja, quando estavam prestes a se separar...
— Senhorita Chastille!
As damas ouviram uma voz grave vinda do outro lado da rua. Ao voltarem sua atenção para a origem da voz, viram três homens vestindo Armaduras Ungidas correndo em sua direção. Sentindo que reconhecia aquelas figuras robustas de algum lugar, Nephy cerrou os olhos.
— Erk, v-você é aquela vadia de antes! — talvez pressentindo que estava sendo encarado, um homem magro saltou do grupo.
E então, Nephy se lembrou de quem era.
— A pessoa... Que feriu o Mestre daquela vez...?
— Hã, o quê? Aqueles caras também feriram o mestre da Nephy? É por isso que a igreja é tão...
— Como venho dizendo, por que vocês são tão hostis com a igreja?
Os Cavaleiros Angelicais prepararam suas armas, e Chastille abriu caminho como se fosse mediar a situação. E naquele exato momento...
— Hehehe, criancinhas se dando bem, é lindo, né?
Nephy ouviu aquela voz sinistra bem atrás dela.
E, logo depois, uma escuridão pantanosa se expandiu ao redor de seus pés.
— Hã...
Completamente alheia ao que estava acontecendo, Nephy foi arrastada para a escuridão, que já a havia engolido até a cintura.
— Nephy... Khh? — mesmo enquanto Chastille tentava desembainhar sua Espada Sagrada, foi agarrada pela escuridão semelhante a lama. Com o braço preso, foi arrastada para baixo sem conseguir sequer sacar sua arma.
— Senhorita Chastille!
Os Cavaleiros Angelicais correram em sua direção, entretanto não havia como chegarem a tempo. Ainda assim, Chastille era uma Cavaleira Angelical.
— Corra... Para longe... Manuela. — ela estava sendo engolida inteira, todavia ainda conseguiu empurrar Manuela para longe.
Em seguida, a garota aviana abriu suas asas para escapar para o céu.
Mas um tentáculo negro como breu se lançou em sua direção enquanto subia aos céus em pânico, tentando fugir.
— Ugh, protejam os cidadãos! — e, enfim a alcançando, os Cavaleiros Angelicais abateram o tentáculo com suas espadas.
— Tch, então uma escapou, hein? Bem, tanto faz! Escutem bem, meu nome é Zagan! Se desejam resgatar essas pessoas, venham me enfrentar no meu castelo! — o mestre das trevas disse isso com uma voz que não combinava com Zagan, apesar de soar parecido.
Nephy reconheceu aquela voz.
— Por que... Você está...
E, em meio àquela escuridão, um rosto familiar lhe veio à mente.
***
Algumas horas depois, Zagan olhava para o céu noturno da entrada de seu castelo.
Na noite do dia em que se conheceram, Nephy estendeu as mãos em direção à lua. Que significado tinha aquele gesto? Nunca havia entendido, e agora não tinha como descobrir.
Zagan estendeu as mãos em direção à lua mais uma vez, porém, como esperado, não conseguiu agarrar nada.
Não, naquele momento, talvez eu tenha conseguido.
Porque naquele momento, a primeira garota a roubar seu coração estava ao seu lado.
— Este lugar é muito silencioso quando estou sozinho, né? Acho que sempre foi assim...
Estava silencioso demais, a ponto de seus ouvidos doerem.
Nephy não era uma garota muito falante, contudo o som de sua agitação enquanto limpava ou cozinhava aqui e ali certamente fazia o castelo parecer mais animado.
Naquela floresta desabitada, Zagan permaneceu imóvel, absorto em seus pensamentos. E sob seus pés, um gemido ecoou.
— Guoooh, ridículo... Nós... Cavaleiros do Céu Azul não conseguimos nem arranhar você...
Eram os três idiotas... Não, os Cavaleiros Angelicais, que invadiram o local há algum tempo. Como entraram furiosos, fervendo de raiva, Zagan saiu para enfrentá-los.
Será que já ouviram falar que eu me tornei um Arquidemônio? Ele sentia que era cedo demais para ser o caso, no entanto nada disso importava.
Nephy não estava mais lá. E Zagan não conseguia esquecer sua expressão de dor enquanto a mandava embora.
Eu a machuquei... Hein...
Isso era óbvio. Afinal, era doloroso ficar sozinho, e Nephy entendia essa verdade muito bem.
No entanto, após uma eternidade de solidão, enfim abriu seu coração para ele, escolhendo finalmente demonstrar alguma emoção. Entretanto, depois de aceitá-la dessa forma e fazê-la acreditar nele, Zagan a descartou por conveniência própria. Esse ato foi muito mais cruel do que apenas magoá-la.
Todavia, se for aquele pessoal da cidade, tenho certeza que a tratarão bem.
Zagan sabia que os cidadãos de Kianoides recebiam Nephy de forma favorável quando saía para fazer compras. Sentia que talvez fosse até mesmo capaz de enganar os olhos da igreja.
Em primeiro lugar, Nephy só havia se envolvido com Zagan por meio mês. Assim que o calor restante esfriasse, ainda que buscassem um relacionamento, não encontrariam nada.
Seria capaz de viver em paz sob a luz acolhedora, alheia a coisas como feiticeiros e a igreja. Um destino muito melhor, em sua humilde opinião.
Tudo se resolveria de forma pacífica. Tudo apenas voltaria a ser como era antes de conhecer Nephy.
E então, quando Zagan estava prestes a retornar ao castelo...
— Espere... — um dos Cavaleiros Angelicais que estava caído no chão agarrou o pé de Zagan. Sua Armadura Ungida estava destruída, e até sua preciosa espada longa havia sido quebrada em pedaços.
Zagan soltou um suspiro cansado enquanto se forçava a responder.
— Ouça, estou de mau humor agora. Não pense que serei tão gentil a ponto de pegar leve como fiz da última vez, ok?
A única razão pela qual os três não estavam mortos era porque foram derrotados por uma armadilha antes que Zagan tivesse que lidar com qualquer coisa com suas próprias mãos. Portanto, era uma questão que não tinha nada a ver com se conter.
Agora que penso nisso, essa armadilha foi algo que Nephy fez... Como um experimento para ajudar a controlar seu misticismo, Zagan tentou inserir misticismo que seria liberado sob uma certa condição.
Eles eram Cavaleiros Angelicais que possuíam força suficiente para chegar à frente do castelo de Zagan, então concluiu que o experimento foi um sucesso, já que conseguiu derrotá-los. Embora, naquele momento, não tivesse como comunicar o sucesso a Nephy.
Enquanto Zagan chutava a mão do Cavaleiro Angelical, este implorou com uma voz que parecia estar vomitando sangue.
— Não nos importamos com o que aconteça conosco! No entanto, apenas nossa senhorita... Por favor, poupe a senhorita Chastille.
— Chastille...?
Agora que mencionou, Zagan não conseguia encontrar a garota que empunhava a Espada Sagrada em lugar nenhum. Em um primeiro momento, pensou que os três Cavaleiros Angelicais estavam sendo impertinentes...
— Nossa senhorita... Disse que você não era o maldito culpado pelos sequestros e até confrontou Sua Eminência, o Cardeal, sobre a possibilidade de encontrar o verdadeiro culpado. Se realmente não é o culpado, então não deveria haver problema em pelo menos ignorá-la, certo?
— Não entendo do que estão falando. — Zagan sabia que estava sendo incriminado como o culpado pelos sequestros em série em Kianoides. Todavia não achava que os Cavaleiros Angelicais estivessem falando como se estivessem confusos. — Ela foi sequestrada?
— Não se faça de desentendido! Não foi você quem arrastou a senhorita Chastille para as sombras e nos mandou vir aqui, seu desgraçado?
Nesse momento, Zagan enfim entendeu. Parecia que esses três vieram correndo porque estavam com a impressão de que havia sequestrado Chastille.
Estavam sendo forçados a dançar como marionetes por algum impostor, mas, pela luta de Zagan com Chastille, ele mostrou que podia lutar de igual para igual com ela, mesmo se contendo. Isso devia ter tornado tudo desnecessariamente verossímil.
Ou talvez, tudo aquilo tenha sido uma armação para instigar esses caras desde o início? Se tivesse matado Chastille naquele momento, a igreja teria investido todas as suas energias em sua subjugação, já que teria assassinado uma Arcanja. Ainda se a tivesse poupado e a deixado ir, assim como agora, eles conseguiram fazer Zagan parecer o culpado depois de sequestrá-la.
O ataque daquele dia em si pode ter sido algo planejado para esse exato propósito.
— Se for esse o caso, está muito bem preparado, não é?
E então pensou consigo mesmo... Entendo. Então foi sequestrada.
Chastille era uma Cavaleira Angelical que tentou salvar Zagan, então acreditava que não era alguém com quem precisasse se preocupar, e também sentia que não a odiava. Contudo, só a salvou porque a garota estava à beira da morte diante de seus olhos. Naquele momento, não sabia para onde ela havia sido levada e, mais importante, nem sequer sabia se seguia com vida. Portanto, se lhe dissessem para salvá-la, não poderia deixar de se preocupar.
— Devolva a... Senhorita Chastille... Para nós...
Aquilo também o desanimou, pois era alvo de críticas sem motivo aparente. E assim, embora deixá-la morrer lhe causasse um gosto amargo na boca, perdeu a vontade de ajudar. A princípio, Zagan tinha esse tipo de personalidade pouco cooperativa. Podia não ser alguém mau, no entanto tampouco era bom.
E enquanto ponderava sobre uma decisão...
— Senhor Feiticeiro! — das alturas, aquela voz o chamou.
Por causa da intrusão dos Cavaleiros Angelicais, a barreira ao redor de seu castelo havia perdido o sentido.
— O que é desta vez? — ao dizer isso, deu um passo para trás. E logo depois, uma mulher caiu do céu.
— Whoa!
E aquela mesma mulher pousou na cabeça de um dos Cavaleiros Angelicais.
Olhando para o rosto da mulher, Zagan franziu a testa.
— Você é...?
Aquela que desceu dos céus... Era uma aviana de cabelos dourados. Ele se lembrou de tê-la visto antes. Era o balconista da loja onde comprou as roupas de Nephy.
O Cavaleiro Angelical que estava sendo usado como apoio para os pés então elevou a voz com raiva.
— Sua vadia, por que está atrapalhando?
— Como eu venho dizendo, o culpado não é essa pessoa, certo?
— O que diabos está dizendo? Você também não veio correndo para cá?
— Bem, não viemos aqui para pedir ajuda? Por que estão vindo correndo para atacar?
Vendo a garota e os Cavaleiros Angelicais começarem a discutir, Zagan soltou um suspiro.
Irritante... Acho que vou expulsá-los. Enquanto Zagan começava a usar um círculo mágico, a garota se agarrou a ele.
— Sr. Feiticeiro, socorro. Aquelas garotas... Nephy e Chastille foram levadas!
— O que disse? — ele não sabia por que o nome de Nephy surgiu ali, entretanto Zagan soltou um gemido.
Os três Cavaleiros Angelicais no chão também mencionaram sequestro. Os sequestros em série em Kianoides ainda não haviam terminado. Além do mais, agora parecia que até Nephy estava envolvida neles.
Não, não pode estar certo. Se Zagan estivesse certo sobre a identidade do culpado, então certamente era uma tentativa de provocá-lo. Eles a escolheram especificamente porque era tanto serva quanto discípula de Zagan.
É bem longe, mas será que já é tarde demais? E enquanto gemia, Manuela o sacudiu pelos ombros.
— Eu imploro, por favor, ajude. Alguém tão forte quanto você com certeza pode salvá-las, certo?
— P-Porém...
Se Zagan fosse salvá-la abertamente, desta vez saberiam que Nephy era uma associada sua. Seria considerada uma de suas companheiras. Não seria mais capaz de fugir da igreja.
É claro que não tinha intenção de abandoná-la, todavia precisava pensar em uma maneira de manobrar que ocultasse seu envolvimento. Não podia só voar direto para lá.
E vendo Zagan tão dividido, Manuela decidiu repreendê-lo.
— Por que está hesitando? Nephy estava voltando para cá... Ela não se importava com as consequências e só queria ficar ao seu lado! Como pode ignorá-la quando precisa da sua ajuda?
— O que... Você acabou de dizer? — enquanto Zagan arregalava os olhos, Manuela o interpelou em um tom melancólico.
— Eu ouvi como você a afastou. Contudo, apesar do que fez, Nephy disse que queria estar ao seu lado, que queria te apoiar. É por isso que, não importa quantas vezes a afastasse, ela disse que sempre voltaria. — Manuela então agarrou o peito de Zagan.
— Vocês, feiticeiros, realmente não sentem nada quando alguém os abraça com tanto carinho? Se é verdade, então por que foi tão gentil com ela?
Com um baque, Manuela deu um soco no peito de Zagan.
Não era o punho de um Cavaleiro Angelical nem de um feiticeiro, apenas o de uma mulher. E, no entanto, doeu. Doeu muito mais do que qualquer ataque que já tivesse recebido.
Nephy... Estava voltando? Voltando para mim, quem disse algo tão cruel para ela...?
Sequer precisou pensar no porquê.
Zagan vinha observando Nephy de perto durante o tempo que passaram juntos, então o motivo pelo qual faria aquilo era óbvio sem que sequer precisasse ver suas orelhas, que estavam tão cheias de emoção.
Estava pensando nele. No vilão horrível, Zagan. Embora, honestamente, se fosse o fazer, teria sido muito melhor se tivesse pensado em uma pessoa mais nobre.
Zagan logo percebeu que havia passado do ponto sem volta. E então, soltou um suspiro profundo.
— Tem razão. É justo como disse. — em seguida riu e continuou dizendo. — Feiticeiros são lixo, de cabo a rabo. Só pensam em si mesmos, tratam os outros como meras ferramentas e consideram a vida e a morte como coisas com as quais se brinca por capricho.
— O-O que está dizendo...
— E, como um feiticeiro desses, algo devia estar errado comigo.
Ainda que tenha sido uma ilusão momentânea, simpatizar com Nephy foi uma completa tolice.
Isso mesmo. Feiticeiros... Só devem pensar no que lhes beneficia.
Não havia necessidade de passar por sentimentos tão dolorosos. Afinal, teria sido perfeito se apenas seguisse em frente como bem entendesse.
Quando conheceu aquela garota, deveria ter agido sem hesitar. Assim como quando reduziu o instrumento de tortura e os bandidos a cinzas porque ela estava com medo. Da mesma forma como quando a protegeu sem pensar duas vezes quando o Cavaleiro Angelical apontou sua lança para ela.
E em resposta à garota aviana, que empalideceu ao ver sua reação, Zagan disse o seguinte.
— Você tem meus agradecimentos. Graças a sua ajuda, minha mente está clara.
Seu caminho estava claro desde o início. Foi por isso que Zagan avançou.
— Nephy me pertence. Devo afogar o idiota que que ousou tocá-la em uma poça do próprio sangue.
Suas próprias mãos ficariam manchadas, todavia não importava, já que feiticeiros eram criaturas pecadoras.
Ainda que tivesse que sacrificar toda a autoridade e mana que vinham com o título de Arquidemônio, tudo bem se pudesse proteger Nephy de tudo.
E pensar que acabei me amedrontando. Os doze Arquidemônios... Zagan perdeu a coragem ao encontrá-los porque sentiu que estavam em um nível completamente diferente. Foi por esse motivo que teve um ataque de pânico e acabou machucando Nephy.
Será que ainda posso... Tê-la ao meu lado? Ele não sabia.
Mas sabia que só lhe restava uma coisa a fazer. E então, se lembrou dos Cavaleiros Angelicais perplexos.
Já que estou nessa, acho que vou salvar Chastille também. Se ela foi capturada junto com Nephy, é inevitável que eu a encontre.
Enquanto Zagan batia o calcanhar no chão, um grande círculo mágico se espalhou sob seus pés. Era o círculo mágico de teletransporte que usara algum tempo atrás, quando expulsou Chastille de seu domínio.
Desta vez, estava conectado à base de um certo feiticeiro. Eu sei muito bem... Quem é o culpado.
E então, Zagan voltou sua atenção para a garota aviana.
— Você... Ficou brava por causa da Nephy. Por quê?
— Não é óbvio... Porque somos amigas, ora!
E enquanto Manuela respondia, Zagan estendeu a mão para ela.
— Então, quer ir junto? Para salvar a Nephy, quero dizer.
— Ah, claro, eu vou.
E abaixo deles, os Cavaleiros Angelicais gemeram enquanto elevavam suas vozes.
— E-Esperem... Nós também... Pela senhorita Chastille...
Os três já deveriam estar sem forças para se levantar, porém se agarraram às pernas de Zagan e imploraram para ir junto.
—Sim, entendi, não se preocupe. Vou levá-los comigo, então tirem suas mãos imundas de mim.
E assim, a estranha combinação de um feiticeiro, três Cavaleiros Angelicais e uma balconista de uma loja de roupas desapareceu no círculo mágico.
***
— Nephy, você está... Ferida?
Nephy se viu dentro de uma prisão sombria ao recobrar os sentidos. Provavelmente era um lugar remodelado a partir de uma caverna. O chão e as paredes eram de pedra, e havia várias rochas pontiagudas penduradas no teto. Estalactites. A julgar pela ausência de estalagmites no chão, o solo sob seus pés devia ter sido preparado. Não havia grades, contudo correntes estavam penduradas na parede.
Ao direcionar seu olhar para a fonte de luz, pôde ver uma grande câmara no fundo. Parecia que um círculo mágico irradiava luz, no entanto excepcionalmente grande. De sua posição, Nephy não conseguia ver cada parte do círculo, entretanto pensando em seu tamanho total, poderia ser até maior do que uma parte do salão do castelo de Zagan.
O som de correntes tilintando ecoou. Uma coleira havia sido colocada em volta do pescoço de Nephy mais uma vez. Desta vez, também tinha grilhões nas mãos e nos pés, e percebeu que cada um deles tinha o poder de selar mana.
Ao seu lado, Chastille também estava amarrada, todavia sua Espada Sagrada e Armadura Ungida haviam sido retiradas e estava acorrentada. A jovem, que agora vestia apenas uma camisa e uma saia, não parecia nada mais do que uma garota normal, a ponto de ser difícil acreditar que fosse uma Cavaleira Angelical.
Suas correntes estavam presas à parede de pedra, e não parecia que elas conseguiriam escapar apenas com a força.
Se fosse a Nephy de antes, teria apenas desistido de tudo. Afinal, é provável que estivesse prestes a ser morta. Mas as coisas eram diferentes agora.
Eu decidi... Que voltaria para o Mestre. Sendo assim, só teria que escapar.
Porém, com as algemas e a coleira, não podia usar feitiçaria, e também não havia natureza suficiente ao redor para usar misticismo. Misticismo não era um poder que pudesse ser usado sem limitações, como os feiticeiros pensavam.
Depois de se contorcer por um tempo, Nephy olhou ao redor.
— Onde...?
— Não sei. Acho que é o esconderijo do feiticeiro que nos atacou.
Logo depois, o som passos se aproximou delas.
Chastille se levantou para proteger Nephy, apesar de também estar acorrentada à parede. E assim, tudo o que pôde fazer foi se expor indefesa.
E o que apareceu foi, como esperado, alguém que Nephy conhecia.
— Você não é amigo do Mestre... Barbatos?
O feiticeiro que visitou Zagan como amigo. Nephy não podia dizer com certeza que se davam bem, contudo os dois pareciam ser bastante próximos.
Ao ouvir aquilo, um sorriso surgiu no rosto magro de Barbatos.
— Amigos? Oh, que surpresa. Não imaginava que existissem pessoas que pudessem olhar para um feiticeiro e pensar uma coisa dessas. — enquanto ria, Barbatos agarrou a bochecha de Nephy com uma força semelhante à de garras de águia.
— Entre os feiticeiros que aquele cara matou, havia um homem chamado Ressentimento... Andras. Foi o primeiro feiticeiro que Zagan matou. E veja bem, eu era o seu discípulo...
Os olhos de Nephy se arregalaram em choque ao ouvir aquilo.
— Oops, não me entenda mal, tá bem? Vingar um mestre não é algo que feiticeiros fazem. Se Zagan não o tivesse matado, eu o teria feito em algum momento.
Nephy não percebeu nenhum mentira ou ressentimento em suas palavras. Aquelas palavras não eram um blefe, e sim suas verdadeiras intenções.
— Contudo, aquele castelo onde aquele cara está se espreguiçando, o ouro que usou para te comprar e até mesmo a sabedoria que adquiriu eram coisas que deveriam pertencer a mim. Não me parece certo ficar calado e só entregar tudo, não é?
Em seguida, seu olhar se voltou para Chastille.
— No começo, tentei instigar aquele pessoal da igreja, no entanto nada correu bem. Meus malditos subordinados foram rastreados facilmente, e as pessoas que enviei para enfrentar Zagan tiveram a situação virada contra elas em instantes. Esperava que, se enfrentasse uma Espada Sagrada, pelo menos um de seus braços fosse decepado ou coisa do tipo.
Nephy ficou surpresa. Barbatos havia visitado o castelo logo após o ataque dos Cavaleiros Angelicais e, além disso, estava preocupado com o estado dos ferimentos de Zagan. Entretanto, parecia que era por um propósito nefasto, e não por verdadeira preocupação.
Se não fosse pelo misticismo de Nephy, teria de fato ficado preso lutando com uma mão só.
Chastille encarou Barbatos com raiva.
— Não pode ser... Você é o culpado pelos sequestros?
— O quê? Só percebeu agora?
O mentor por trás dos sequestros... Nephy lembrou que Zagan disse...
— Foi um incidente que parecia estar tentando chamar a atenção da igreja.
Talvez... O Mestre já soubesse quem é o culpado. Não revelou um nome, mas tinha uma expressão bastante amarga no rosto enquanto falava sobre.
Chastille então rugiu com a voz trêmula.
— Você causou um incidente tão repugnante só para incriminar o Zagan, seu desgraçado?
— De jeito nenhum! Hehehe! — Barbatos começou a rir de uma forma sinistra. — Quem sugeriu usar sacrifícios foi aquele cara, o Descascador de Rostos, e só entrei na brincadeira porque precisava de uma maneira de demonstrar meu poder.
— Demonstrar...? Com que propósito?
— Só existe uma resposta para essa pergunta? Os doze Arquidemônios! — Barbatos abriu os braços.
— É para mostrar aos Arquidemônios que sou apto a me juntar às suas fileiras! É também o único método para eliminar todos os outros candidatos. — e então, Barbatos aproximou o rosto de Nephy. — Pra ser sincero, fiquei um pouco perturbado quando meu maldito sacrifício foi roubado, porém você voltou para as minhas mãos. Com a mana de uma elfa de cabelos brancos, poderei abrir a porta...
Nephy encarou Barbatos sem expressão.
— Minhas desculpas, contudo é um esforço em vão.
— Hmm, você sabe falar. Acha que não vou te matar? Ou... Será que... O quê, acha que Zagan vai vir te salvar?
“Zagan vai vir te salvar.”
O peito de Nephy sufocou e começou a doer ao ouvir essas palavras.
Será que o Mestre... Realmente virá? Para começar, sequer sabia que Nephy havia sido capturada. Além do mais, por algum motivo, estava tentando se distanciar dela.
Nephy não achava que ele a tivesse expulsado do seu coração. Alguém que fizesse isso... Não faria uma expressão tão sofrida. No entanto ainda assim, ele poderia ter tido um motivo para não vir salvá-la.
Nephy então balançou a cabeça. Não é isso. Mais uma vez, estava pensando como uma pessoa fraca. Eu decidi ser útil, então por que estou atrapalhando o Mestre?
Se não podia fazer nada sobre uma questão tão trivial, então não havia motivo para voltar a servi-lo.
Após chegar a essa conclusão, Nephy encarou Barbatos, mantendo sua expressão impassível.
— Você está enganado. Não pretendo causar nenhum problema para o Mestre por causa de algo assim. Estou tentando lhe dizer outra coisa.
— Ah, o quê?
— O Mestre já herdou o título de Arquidemônio.
Toda a expressão desapareceu do rosto de Barbatos.
— É mentira.
— Eu só digo a verdade. Parece que essa foi a razão pela qual me dispensou.
Cambaleando, Barbatos deu um passo para trás.
— Impossível. Aquele cara é... Um Arquidemônio? — Barbatos começou a coçar a cabeça desesperadamente. — Ele não se contentou em roubar o legado de Andras de mim, então até tomou o trono de Arquidemônio?
Depois disso, virou-se para Nephy com um olhar fulminante.
Ao sentir seu corpo estremecer, ela deu um passo para trás e ele puxou a gola da camisa de Nephy.
— Argh...
Suas mãos e pés estavam amarrados, então Nephy não conseguiu se apoiar ao cair no chão.
— Venha! — Barbatos a arrastou em direção ao grande salão.
— Aquele cara é um Arquidemônio? Ótimo, pode vir. Só tenho de roubar esse título dele à força. Contanto que consiga completar este ritual, não importa se é um Arquidemônio ou qualquer outra coisa.
Um círculo mágico sinistro foi desenhado à frente deles. Parecia até estar conectado às paredes. Era o enorme círculo mágico que Nephy vira antes. Um brasão enorme estava esculpido em seu centro, e ao redor havia dezenas de camadas de brasões detalhados que serviam como o “circuito”. Até Nephy percebeu que todo o círculo mágico havia sido desenhado com sangue. Ela se perguntou quantos sacrifícios seriam necessários para desenhar um círculo mágico tão complexo.
E, naquele momento, soube que seria adicionada como o “toque final”.
Chegando à mesma conclusão, Chastille gritou de raiva.
— P-Pare! Se vai usar um sacrifício, então me escolha. Como uma Cavaleira Angelical, eu pelo menos me conformei com tal destino!
Barbatos olhou para Chastille com desconfiança ao ouvir aquilo.
— Mesmo que não me convença assim, não precisa se preocupar. Vou usá-la para outra coisa. Este ritual requer as melhores ferramentas, entende?
Nephy cerrou os dentes ao ouvir aquelas palavras. Ferramenta, ele disse. É verdade, Nephy havia se acostumado a ser chamada assim ao longo de sua vida.
Mas... O Mestre nunca me chamou de ferramenta. E ela ainda não o havia recompensado por isso. Portanto, não havia como só morrer ali.
Eu quero viver. Essa foi a primeira vez que Nephy desejou algo por conta própria.
— Vou viver... E voltar... Para o lado do Mestre.
Ele poderia rejeitá-la. Poderia repreendê-la. Mas, mesmo assim, queria teimosamente permanecer no castelo.
Quando a manhã chegasse, prepararia o café da manhã, observaria e esperaria até que Zagan limpasse o prato. E se cozinhar três refeições por dia não fosse suficiente, tentaria deixá-lo dormir em seu colo de novo. Estava disposta a fazer qualquer coisa, contanto que fizesse Zagan feliz.
Quando se trata de um teste de resistência, eu não perco nem para o Mestre.
Havia dias em que não fazia nada além de obedecer como um cadáver. Comparado àqueles tempos, em que vivia em um lugar sem um pingo de calor, o lugar de Zagan era um paraíso.
Pode ser que não tivesse uma necessidade particular por Nephy. E sempre havia a possibilidade de que em algum ponto viesse a valorizar alguém muito mais do que ela, porém...
Porém você não pode ficar sozinho, Mestre.
A solidão mata o coração. Faz com que se perca todos os seus sentimentos, e o mundo inteiro perde a cor quando visto através desses olhos.
Algo assim não podia ser considerado viver de verdade. Nephy, que sobrevivera dia após dia sem desejos, queria conceder aquele mundo vívido a ninguém menos que Zagan.
Era por essa razão que queria apoiá-lo mais do que qualquer outra coisa no mundo. Portanto, resistiu a Barbatos.
— Me solta...
— Tch, essa vadia! — Barbatos então puxou a corrente com irritação, fazendo Nephy cair no chão. Arrastada pelo chão, sangue escorreu de seus braços e pernas.
Lágrimas brotaram de sua dor. No entanto, Nephy cerrou os dentes e encarou Barbatos.
Algo assim... Não é nada doloroso. Não era nada comparado à quando Zagan a mandou embora. Nada comparado à quando viu aquela expressão de tristeza em seu rosto.
Tendo fortalecido sua determinação, Nephy bradou uma declaração impressionante.
— Eu pertenço ao Mestre. Não quero ser tocada por alguém como você!
O rosto de Barbatos se contorceu em uma expressão de raiva ao ouvir essas palavras.
— Sua escrava insignificante, não fique se achando!
Barbatos ergueu a mão, fazendo menção de golpeá-la. Se fosse atingida com toda a força de um feiticeiro, o corpo delicado de Nephy cederia com pouca resistência.
E, no entanto, Nephy não desviou o olhar. Enquanto se preparava para o impacto... Um rugido estrondoso sacudiu a caverna quando a parede de pedra desmoronou.
— O-O que está acontecendo?
E, de repente, um homem surgiu da nuvem de poeira formada pela explosão.
Esse mesmo homem começou a falar com Barbatos enquanto soltava um “Ah”.
— Bem dito, Nephy. Não esperaria menos da minha discípula.
Seu mestre, aquele que mais desejava ver no mundo, estava diante dela.
***
— Yoo, Barbatos. Faz mais ou menos uma semana, né? — Zagan o chamou como sempre, como se estivesse conversando casualmente com um amigo próximo.
O rosto de Barbatos ficou rígido ao vê-lo.
Depois que Manuela se aproximou, Zagan correu direto para lá. Ele conhecia todos os esconderijos de Barbatos e, como se tratava de Kianoides, a seleção era bastante limitada.
Havia outros candidatos em potencial, todavia Zagan pretendia analisá-los um por um. O fato de ter encontrado Nephy de primeira foi pura sorte.
— Hmm, sabe, Sr. Feiticeiro. Tudo bem? Ouvi dizer que feiticeiros ficam em uma desvantagem absurda no domínio de outro feiticeiro... — Manuela falava em um tom assustado enquanto seguia Zagan em frente, mas ele apenas deu de ombros.
Aliás, como os três Cavaleiros Angelicais não estavam em condições de lutar, foram colocados em outro lugar.
E talvez tendo recuperado um pouco da compostura depois de ouvir aquilo, Barbatos encarou Zagan.
— Há quanto tempo... Você sabe?
O motivo pelo qual não perguntou por que Zagan tinha vindo até ali... Provavelmente se devia a Barbatos já estar preparado para tal situação.
Zagan então respondeu, coçando a nuca.
— Estava mais ou menos desconfiado desde que aquele feiticeiro, ou seja lá qual for, apareceu por aqui?
Ele estava falando do feiticeiro que atacou Chastille.
Agora que penso nisso, será que ela também está aqui? Ao olhar ao redor, avistou a garota em questão acorrentada a uma parede... Ela era uma Cavaleira Angelical que parecia perder para feiticeiros com bastante frequência, e sentiu um pouco de pena por ela.
Enfim, depois de confirmar sua presença, Zagan voltou sua atenção para Barbatos.
— Quando tentei expulsar aquela mulher, você apareceu como se estivesse checando o resultado. Eu seria louco se não suspeitasse, não é?
Ele tinha certeza do envolvimento de Barbatos depois de ouvir a história dos Arquidemônios, porém manteve receios o tempo todo.
O motivo de nunca ter falado a respeito... Era apenas porque não se importava de qualquer forma. Considerava Barbatos um amigo, então não se preocupava se o traísse.
Barbatos então fez uma careta como se tivesse achado aquilo inesperado.
— Você teve a audácia... De aceitar meu convite para o leilão sabendo...
— Estava interessado em saber o que vinha planejando. Além do mais, era verdade que me sentia curioso sobre o legado do Arquidemônio.
Olhando para trás, graças a isso, Zagan conseguiu conhecer Nephy. Nesse sentido, era quase grato ao homem à sua frente.
Depois de retribuir com um sorriso amargo, Zagan continuou com um...
— Contudo antes disso... Você... Feriu a Nephy, não é?
O chão se abriu. A rocha rachou com o simples passo de Zagan.
— Ugh...
Quando Barbatos enfim se preparou, Zagan já estava bem na sua frente.
— Seu filho da...
— Primeiro, seus braços.
Barbatos estendeu os braços como se fosse usar algum tipo de feitiçaria, no entanto Zagan os desviou com uma só mão. Um estalo desagradável ecoou pelo ar e os dois braços de Barbatos se dobraram numa direção impossível.
— O quê...?
— Agora, seu joelho.
Em resposta ao seu grito, Zagan o derrubou sem nenhuma piedade. Não, não foi exatamente preciso. Ele chutou com força o joelho de Barbatos na diagonal, de cima para baixo. Com um único golpe, a articulação do joelho se estilhaçou.
— AGUAAAH! — Barbatos desmaiou, espumando pela boca o tempo todo.
Faziam apenas alguns instantes que Zagan entrara.
Lançando um olhar para trás para seu amigo indesejável, que tinha os braços e a perna esmagados e estava estendido no chão como uma lagarta, Zagan caiu de joelhos diante de Nephy.
Ele arrancou as correntes que prendiam suas mãos e pés com pura força e, em seguida, foi remover a coleira. A que usava era diferente da anterior e, para sua boa fortuna, pôde ser removida à força sem nenhum truque.
Verificando que não havia mais nada a prendendo, Zagan olhou para o rosto de Nephy. Seus cabelos brancos como a neve estavam sujos de lama e seus olhos estavam marejados.
— Aaah, hmm... Será que... Doeu?
— Doeu... É óbvio.
— Doeu, não é...? Desculpe.
Com um baque, Nephy bateu em seu peito.
— Em vez de mim, Mestre, você parecia... Estar com muito mais dor.
— Parecia?
Grandes lágrimas caíram dos olhos de Nephy enquanto continuava.
— Não sei o que aconteceu com você, Mestre. Se disser que não precisa de mim, então aceitarei, mas... — Nephy se agarrou ao peito de Zagan com força e disse. — Não tem como... Eu ficar bem com isso te machucando, Mestre!
Aquela foi a primeira vez que ele ouviu Nephy falar tão alto.
— Eu... Pareço estar machucado?
— Sim.
— Na verdade, diria que sou eu quem está te causando dor...
— Isso é diferente de você estar machucado ou não, Mestre.
— Como imaginei, eu... Machuquei você, não é?
— Por favor, não tente mudar de assunto. — disse Nephy, agindo de forma extremamente severa. E, ainda agarrada ao seu peito. Seu olhar se dirigiu para o rosto de Zagan.
— Por favor, não... Me deixe sozinha, Mestre.
Pouco a pouco, embora de forma constante, um calor subiu em seu peito.
Eu... Te deixei sozinha? E, ainda assim, longe de culpá-lo, foi Nephy quem o buscou.
A ideia de abraçá-la e tentar reconquistá-la parecia um exagero depois de todo esse tempo.
— Nephy... — todavia, mais do que qualquer outra coisa, naquele momento, havia algo que precisava dizer a ela.
E assim, tentou pronunciar essas palavras...
— Seu desgraçado, não aja como se tivesse vencido sem nem mesmo me dar o golpe final! — Barbatos se levantou, talvez tendo restaurado seus braços e pernas quebrados.
Abaixo de seus pés, um círculo mágico vermelho-sangue se estendia.
— Mestre! — Nephy soltou um grito, mas Zagan apenas acariciou sua cabeça para acalmá-la. — Não se preocupe. Não vai acontecer nada.
— O quê...?
E, de fato, tal qual Zagan afirmara, nada saiu do círculo mágico. Não havia como Barbatos não ter invocado sua feitiçaria. Porém, mesmo tendo invocado, nada aconteceu.
— O que... Houve...?
Enquanto Nephy assumia uma expressão confusa, Zagan se pronunciou.
— Antes, conversamos sobre uma magia suprema que existia em teoria, certo?
Era uma magia que destruía outras magias adicionando um circuito no interior de um círculo mágico. Existia em teoria, contudo era impossível na prática.
— Para falar a verdade, existe um método dissimulado de usá-la.
Zagan então passou o dedo pelo ar enquanto falava, desenhando um círculo mágico idêntico ao do chão.
— Se for uma cópia exata do círculo mágico do seu oponente, pode sobrepô-lo por dentro. Se fizer isso, ocorrerá um fenômeno semelhante à ressonância.
A primeira vez que Zagan usou feitiçaria foi aos oito anos de idade. Na época, o jovem vagabundo Zagan foi capturado por Andras, o Ressentimento, para ser um sacrifício.
Zagan já entendia o que significava para uma criança como ele, com uma identidade desconhecida, ser capturada por um feiticeiro. Foi por esse motivo memorizou o formato do círculo mágico quando foi capturado e o desenhou em segredo no seu próprio braço. Como não tinha nada com que escrever, Zagan até usou seu próprio sangue.
Pensando bem, não passava da ideia superficial de uma criança. Afinal, um amador que apenas imitava o formato jamais poderia usar algo como feitiçaria. E, no entanto, Zagan conseguiu de alguma forma.
Enquanto tentava fugir, foi descoberto por Andras, e quando Zagan estava prestes a ser morto por um raio... Zagan usou a exata mesma feitiçaria.
Talvez tenha sido apenas uma coincidência. Quando a mesma feitiçaria foi invocada com um ínfimo intervalo de tempo entre elas, a feitiçaria ressonante ricocheteou em Andras.
Não era um fenômeno tão simples quanto parecia. Se alguém tentasse usar feitiçarias idênticas, ambas se dissipariam espontaneamente ou todas retornariam para quem tentou fazê-lo. Em primeiro lugar, a invocação nunca chegaria a tempo.
Foi um milagre que ocorreu porque a mesma feitiçaria foi sobreposta à de um inimigo em uma fração de segundo. E assim, Zagan matou Andras.
Ele fez aquilo com uma técnica que pertencia somente a Zagan... O poder que fez com que aqueles doze Arquidemônios escolhessem Zagan como um amigo jurado.
Barbatos então recuou.
— R-Ridículo... Está dizendo... Que esse é o legado de Andras?
— Andras...? Ah, agora que mencionou, havia um cara com esse nome... Ele também era capaz de fazer tal coisa?
Pensando com um pouco mais de consideração, ele certamente morreu de forma um tanto fácil demais.
Talvez sabendo que não era o caso, o rosto de Barbatos ficou roxo.
— Q-Que diabos é você?
Perdendo seu auto controle, Barbatos começou a lançar feitiços às cegas.
Suas ações ocorreram dentro de sua barreira. O poder de Barbatos foi elevado ao máximo, e, inversamente, o poder de Zagan foi reduzido de forma considerável.
Todavia, nenhum dos seus vários ataques atingiu o alvo. Em vez disso, apenas desapareceram diante de Zagan. Ele havia copiado o círculo mágico de cada feitiço invocado por Barbatos, fazendo com que ocorresse uma “ressonância”.
Seu feito foi realizado em um instante, mesmo contra algo que estava testemunhando pela primeira vez.
Se houvesse algo que definisse o talento de Zagan, seria isso.
Nephy murmurou, surpresa.
— Mas... Por que nada aconteceu? Se a mesma feitiçaria é empilhada uma sobre a outra, ela não deveria ativar...?
— Bom ponto, Nephy. — Zagan fez um elogio sincero a sua discípula, que havia percebido o cerne da questão.
— Só expliquei o básico para você. Até um amador consegue fazê-lo com o tempo certo. Ainda assim, feitiçaria é algo que se desenvolve, não é?
A primeira coisa que Zagan aprendeu foi a reflexão da magia por meio da ressonância. E assim, sua vida como feiticeiro começou, enquanto tentava descobrir se poderia usar a ressonância para fazer mais do que refletir.
Em pouco tempo, conseguiu reduzir a feitiçaria na qual usou ressonância à sua própria mana.
Depois de deixar Barbatos à solta por um tempo, Zagan jogou seu manto para trás e abriu os braços. E havia vários círculos mágicos visíveis em seu braço direito.
Os círculos mágicos estavam todos ativados e mana circulava continuamente por eles.
— Você consegue ver? Estes são círculos mágicos que converteram a feitiçaria que Barbatos vinha lançando.
Em outras palavras, eles absorveram sua feitiçaria.
O próprio uso da feitiçaria alimentava o poder de Zagan. Ainda que um Arquidemônio o atacasse, Zagan não poderia ser morto com feitiçaria. E esse poder exato permitiu que sucedesse Marchosias.
— Dito isso, é um fato que não consigo convertê-la em nada além da feitiçaria na qual me especializo. Preciso desenvolvê-la a um ponto em que possa aplicá-la a qualquer feitiçaria.
Seu poder seguia sendo muito bruto. Foi por essa razão que os Arquidemônios chamavam Zagan de pigmeu.
Depois de ouvir tudo, o rosto de Barbatos se contorceu de medo.
— Está dizendo... Que devorou minha feitiçaria?
Ser capaz de fazer tal expressão à primeira vista mostrava que ele também era um feiticeiro de primeira linha.
A feitiçaria na qual Zagan mais se especializava... Era o aprimoramento físico. Ele causava ressonância na feitiçaria lançada por outros feiticeiros e a convertia para aprimorar seu próprio corpo. Seria apropriado chamar de feitiçaria devoradora.
De repente, Zagan falou como se tivesse se lembrado de algo.
— Ah, certo, Barbatos. Enfim me deram um segundo nome. — seu punho direito cerrou e o círculo mágico que envolvia seu braço girou enquanto brilhava.
— “Matador de Feiticeiros”... É, parece que esse é o meu segundo nome.
E então, desferiu um soco.
Barbatos provavelmente tinha algum tipo de defesa. Porém, toda a sua feitiçaria havia sido absorvida por Zagan. Ainda que aprimorasse seu corpo, não havia nenhum feiticeiro que se destacasse mais em aprimoramento físico do que seu oponente.
Em resumo, se Zagan desferisse um soco, nenhum feiticeiro poderia impedi-lo. Mesmo que, por exemplo, enfrentasse um Arquidemônio.
— Urk...
O punho de Zagan perfurou o abdômen de Barbatos. Seus órgãos internos se romperam, e até mesmo a sensação de sua coluna sendo esmagada foi transmitida a Zagan.
Ao ser arremessado para longe, Barbatos rolou pelo enorme círculo mágico que se estendia por todo o salão. Por fim, parou, mas só conseguia sangrar enquanto começava a convulsionar.
Aproveitando a oportunidade, Zagan o perseguiu em um ritmo tranquilo.
— E-Espere um minuto. É... Minha derrota. Não consigo... Lutar mais. Não vou... Mostrar meu rosto... Na sua frente... Nunca mais... Eu juro. Também vou... Transferir todo o meu conhecimento... Para você.
Zagan cerrou o punho enquanto Barbatos implorava por sua vida. O número de círculos mágicos que se enrolavam em seu braço havia diminuído, contudo seguia havendo uma quantidade considerável.
O rosto de Barbatos empalideceu ao ver isso.
— Zagan... Nós somos amigos... Certo?
Aquele comentário desagradável fez Zagan inclinar a cabeça para o lado, confuso.
— O conceito de amigos... Sequer existe para um feiticeiro?
E então, desferiu um soco para baixo.
A rocha desabou e o círculo mágico desenhado no grande salão se desfez sem deixar vestígios. A destruição não parou no chão, e se estendeu até as paredes e o teto. As rachaduras chegaram até a parede onde Chastille estava presa e desfizeram suas correntes.
Quanto a Barbatos, que recebeu o ataque em cheio, não sobrou nem um pedaço de carne... Ou pelo menos era o que deveria ter acontecido.
— Hã...?
Os olhos de Barbatos se arregalaram. O punho de Zagan havia atingido o chão ao lado de sua cabeça. E, em resposta ao olhar patético de seu amigo indesejável, Zagan riu.
— Hahaha, estou brincando. Não se assuste, cara.
— V-Você...? O que diabos está planejando?
Zagan deu de ombros ao ouvir aquelas palavras.
— Bom, não tem problema te matar e tudo mais, só que aí não vou poder mais beber um bom licor. Afinal, não entendo nada de avaliar qualidade.
— Está com pena de mim...?
— Digamos que tenho tempo de sobra para isso.
Barbatos lançou um olhar furioso para Zagan antes de responder.
— Não me provoque... Se me deixar viver, vou te certeza de te matar um dia. Nem pensar que vou desistir!
— Não me importo. Sempre que perder para mim, só quero que me pague uma boa bebida.
Barbatos então arregalou os olhos ao ouvi-lo, finalmente se dando conta do que Zagan estava dizendo.
— Voc... Que diabos? Está dizendo que há algum benefício em deixar um inimigo viver?
— É, quem sabe... — Zagan bateu palmas de repente, como se tivesse esquecido algo. — Barbatos, eu sucedi o Arquidemônio Marchosias.
Barbatos cerrou os dentes com força, como se estivesse frustrado. E, enquanto o observava daquele jeito, Zagan continuou falando.
— Não acha que um Arquidemônio que não se importa com as regras e leis é muito mais imponente?
Os doze Arquidemônios eram extremamente poderosos e aterrorizantes.
E depois de conhecê-los, depois de realizar o sonho de todo feiticeiro, Zagan finalmente percebeu algo. Que sentia medo.
Não foca comigo. Como pude ter entendido tudo tão errado? Não fiquei mais forte porque queria viver? Não almejava a força porque odiava ser vitimizado? Se cedesse à força de outro, seria o mesmo que trair a mim mesmo.
Por ser tão patético, acabei até machucando Nephy. Zagan não era o tipo que ficava ressentido com a derrota. Foi por isso que declarou sua intenção com ousadia...
— Vou agir como bem entender. Se eu quiser deixar Nephy viver à luz do dia, então apenas tenho que dominar tudo sob essa luz.
E mais uma vez, encarou Barbatos de cima.
— É por essa razão que não vou te matar. Porque decidi não o fazer. Se não gosta, então me obrigue a obedecer com a sua própria força.
Exausto, Barbatos esticou os membros. Ele admitiu que havia perdido não apenas em termos de poder, entretanto também em termos de espírito. No verdadeiro sentido da palavra, a derrota era sua.
— Que bastardo arrogante.
— Com certeza. Sem arrogância, como sobreviveria como um Arquidemônio?
E assim que Zagan respondeu... O círculo mágico que se estendia pelo salão, que deveria ter se desfeito em pedaços, começou a brilhar fracamente.
— Ei, você ainda quer continuar, Barbatos?
Como esperado, Zagan fez uma cara de exasperação, mas Barbatos balançou a cabeça.
— N-Não, a culpa não é minha.
Zagan olhou para onde havia fincado o punho. Era o centro do círculo mágico. A feitiçaria de Zagan ressoava com outras feitiçarias, então pode ter interferido inconscientemente no círculo mágico.
O que é isso? Uma quantidade bizarra de mana está se acumulando? Era um poder que nem mesmo Zagan conseguia absorver. Não estava muito fora do limite, porém ultrapassava o limite máximo permitido para um humano.
— O que diabos estava planejando fazer aqui?
O rosto de Barbatos se contraiu em um espasmo.
— Deveria ter... Invocado um demônio de verdade.
Os brasões usados por feiticeiros, e talvez até mesmo os usados pela igreja, eram considerados cartas deixadas por deuses e demônios de tempos antigos.
Um demônio de verdade... Pode ser invocado?
Esse era o abismo da feitiçaria, do qual a jovem Zagan nada sabia. E então, Zagan soltou um grito, claramente em pânico.
— Nephy, corra! Manuela, e vocês todos também!
Contudo, até Zagan sabia que era um pedido irracional. Afinal, a caverna estava tremendo a ponto de desabar a qualquer momento.
Já estava coberta de fissuras devido ao golpe de Zagan, e agora havia o poder daquele círculo mágico em expansão. O teto começou a desabar, então até o ato de se levantar se tornou difícil.
— Ugh, o que está acontecendo?
Ainda assim, Chastille rastejou até Nephy e se inclinou sobre ela como se quisesse protegê-la. Depois de tudo, seguia sendo uma Cavaleira Angelical. Mesmo com suas asas, Manuela não tinha como voar em um lugar tão confinado, então não conseguia se mover.
Não havia outra escolha a não ser enfrentá-lo de frente, né? Ele não sabia o que apareceria, entretanto sua única opção era abatê-los.
Momentos depois, surgiu do centro do círculo mágico, e Zagan logo se deu conta de sua própria arrogância.
Talvez porque o círculo mágico estivesse incompleto, ou talvez porque tivesse sido ativado por coincidência, era apenas uma “sombra” sem forma definida. Ainda assim, sentiu medo ao ver a sombra.
É inútil. Um humano não pode fazer nada contra algo assim. A mera visão daquilo o fez engasgar.
Aos seus olhos, nem mesmo encontrar os doze Arquidemônios era tão intimidante.
Nephy empalideceu e tremia. Chastille não aguentou e perdeu a consciência. E Manuela cobria o rosto, encolhida.
Isso é... Um demônio...! Ele recebeu o codinome de “Matador de Feiticeiros”, mas será que o monstro à sua frente sequer usava feitiçaria? E ainda que fosse feitiçaria, o poder de Zagan seria capaz de contrabalançá-la?
Provavelmente era impossível. Afinal, não importa quanto poder alguém obtivesse, o homem não poderia se tornar um deus.
E então, quando se preparava para morrer... O monstro... De repente caiu de joelhos, quase como se... Estivesse se curvando diante de Zagan. E em seguida, proferiu algumas palavras bastante chocantes.
— Ó, meu rei. Dê-me ordens como quiser.
O monstro que superava o intelecto humano... Estava, por algum motivo, obedecendo a Zagan.
Enquanto tentava organizar seus pensamentos, percebeu que um glifo havia aparecido em seu próprio punho. Era o Sigilo do Arquidemônio que herdara... E o monstro estava se curvando à sua frente.
Que diabos... Eu acabei de obter? O trono de Arquidemônio detinha poder demais para ser considerado um mero título.
***
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