segunda-feira, 1 de junho de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 20

Primeira Temporada Capítulo 20: O Hospedeiro Profano

Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Vinte: O Hospedeiro Profano



JONATHAN SIMS

Continuação do depoimento do Padre Edwin Burroughs, referente à sua alegada possessão demoníaca. Depoimento original prestado em 30 de maio de 2011. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

O depoimento continua.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Foi a primeira vez que experimentei algo assim. A essa altura, já começava a suspeitar que talvez estivesse tendo algum tipo de alucinação, mas nunca antes havia sentido... Uma presença dentro de mim, dentro do meu ser. Era uma sensação tão absolutamente horrível que é difícil descrevê-la em palavras. Como um reflexo, seus músculos se movendo sem qualquer comando da sua mente, porém em vez de um espasmo rápido da perna, era um movimento lento da mandíbula, dos lábios, formando palavras com a boca. Coisas piores ainda estavam por vir, é claro, contudo não acho que nenhuma delas tenha sido tão perturbadora quanto aquela sensação.

Só consegui andar algumas ruas da Hill Top Road antes de perder o equilíbrio e cair no chão, vomitando violentamente. Não podia negar, então, que havia algo dentro de mim, e acreditava que o que quer que fosse, havia entrado em mim por meio de Bethany O’Connor. Tentei rezar, tentei direcionar minha mente para De... Não consegui. Enquanto tentava, minha garganta fechou e lutei para respirar. Deitei na calçada e chorei. Enxugando as lágrimas, peguei minha Bíblia e procurei desesperadamente por conforto, entretanto quando a abri, embora a página estivesse no Evangelho de Lucas, as palavras eram de Gênesis. “Eis que hoje me expulsaste da face da terra, e da tua presença me esconderei; e serei fugitivo e errante pela terra; e acontecerá que todo aquele que me achar, me matará.”

Ao redor dessa passagem, a escrita se transformou e flutuou diante dos meus olhos. E onde quer que houvesse palavras que pudessem me confortar, eu as encontrava obscurecidas por manchas escuras. A bile começou a subir pela minha garganta outra vez, e em meio ao desespero quis jogar o livro para longe de mim. Segurei-o, por apenas um instante antes de colocar o pequeno volume de volta no meu casaco. Foi preciso mais força de vontade do que poderia imaginar, todavia consegui. Levantei cambaleando e voltei para a casa paroquial.

Dormi por muito tempo e perdi a missa da manhã, dizendo que não estava me sentindo bem. Não era mentira, claro; só fiquei deitado lá por horas. Parecia haver uma segurança na quietude, como se a inação não pudesse fazer mal. Foi a primeira boa decisão que tomei, e não há um dia que passe sem que me amaldiçoe por ter me levantado daquela cama. Ninguém me incomodou... Acho que a notícia de que vinha passando por um momento difícil se espalhou e eles deviam estar tentando decidir quem seria a pessoa mais indicada para conversar comigo, ou até mesmo se deveriam pedir ao bispo que interviesse.

Decidi que precisava falar com o Padre Singh. Não achava que ele pudesse me ajudar, mas pelo menos estava ciente do caso de Bethany O’Connor. Talvez tivesse alguma ideia do que estava acontecendo. Tentei encontrá-lo... Os rostos em cada crucifixo e pintura que passava pareciam se contorcer e zombar de mim enquanto caminhava, e minha cabeça latejava. O sangue pintado brilhava como se ainda estivesse fresco. Ainda bem que não encontrei ninguém, pois estava cambaleando tanto que é provável que pensariam que estava bêbado.

Por fim encontrei o Padre Singh na pequena capela. Ele pareceu surpreso ao me ver e, conforme me aproximava, seu rosto se contorceu e recuou um pouco. Não consigo imaginar o quão mal eu devia estar para provocar tal reação, mas mesmo assim sentei ao seu lado. Comecei a falar, a contar tudo o que havia acontecido. Ele permaneceu em silêncio enquanto me ouvia, até que comecei a falar sobre o exorcismo que tentei realizar em Bethany. Sua mão foi erguida e perguntou se preferia falar a respeito em confissão. Por um momento fiquei confuso e perguntei que pecado pensava que eu havia cometido. Seu olhar se voltou para mim e juro que havia quase um sorriso em seu rosto quando falou. “Orgulho espiritual!” disse. “Que levou a uma grande queda.”

Por mais incomodado que estivesse com sua atitude, não pude negar que tinha razão. Concordei e saímos da capela. Logo estava dando meu relato em uma confissão completa e não consegui conter as lágrimas enquanto descrevia o que aconteceu quando tentei abençoar aquela casa na Hill Top Road. Terminei meu relato e esperei que o Padre Singh falasse sobre minha penitência ou absolvição. Em vez disso, fez uma pausa por alguns instantes e disse. “Não, seus pecados são mais profundos do que isso.” E começou a listá-los.

Todas as transgressões que cometi desde os seis anos de idade. A criança deficiente que intimidei na escola primária, a vez em que roubei dinheiro da bolsa da minha mãe para comprar cigarros, as indiscrições que cometi no seminário. Todas elas. Já havia confessado cada uma delas antes e sido absolvido, porém não ao Padre Singh, e ouvi-las sendo jogadas na minha cara como uma lista tão crua de maldades me abalou profundamente. Percebi outra coisa enquanto o ouvia... O Padre Singh havia emigrado de Jaipur apenas uma década antes de eu o conhecer, e sempre teve um sotaque bastante carregado, contudo a voz que falava agora para ler minha lista de transgressões e erros não tinha nenhum traço seu. Era um sotaque britânico conciso e preciso, embora o tom parecesse combinar com o do meu amigo.

Pulei da cama e corri para fora da sala, em direção à porta da frente. Precisava sair, chegar a algum lugar onde pudesse respirar. No corredor, passei correndo por dois outros padres, que pareciam mais preocupados do que nunca. Um deles era o Padre Singh.

Já estava escuro quando saí da casa paroquial. Não fazia ideia de para onde me dirigia ou por quê; só sentia uma necessidade desesperada de estar em outro lugar. As ruas de Oxford deveriam estar cheias de estudantes bêbados naquela noite de domingo, ou pelo menos acreditei que era domingo, no entanto estavam quase desertas. De vez em quando, via figuras paradas ou caminhando no final das ruas estreitas, entretanto eram sombrias, silhuetadas contra a pouca luz que havia, e sempre desapareciam quando me aproximava. Tentei rezar mais uma vez, todavia as palavras morreram na minha língua. Nunca senti um desespero tão profundo quanto aquele.

As ruas de Oxford são sinuosas e revelam a idade do lugar, mas eu morava lá há um bom tempo e as conhecia bem. Naquela noite, porém, era como se nunca as tivesse percorrido antes. Vi ruas que já havia viajado centenas de vezes que pareciam diferentes, meus olhos se concentrando em detalhes que nunca havia notado antes, e a cada curva percebia que não sabia para onde estava indo ou a que lugar ela me levaria. O mundo que conhecia havia se tornado estranho para mim, e não sabia o que fazer.

Finalmente, me vi em frente ao Oratório na Woodstock Road. A grande janela redonda da igreja se moveu enquanto a observava, como se fosse um olho enorme que se voltava para olhar para mim. A porta estava aberta e, de dentro, uma luz quente se espalhava. Mesmo nas profundezas da minha... Suponho que se possa chamar de mania... Havia algo reconfortante naquela luz. Um homem apareceu na porta. Era alto e pálido, e estava vestido como um coroinha.

Arte por kazoosnow.

Caminhei até ele. Minha visão estava turva, embora não soubesse dizer se era meu estado de espírito na época ou apenas porque eu estava chorando. Deveria ter percebido que algo estava errado. Sabia que havia alguma coisa de errado, contudo não importava. Não tinha mais forças para lutar, então, quando ele me disse que era hora da missa, apenas assenti e o segui.

Fui conduzido pela igreja. Estava iluminada, muito iluminada. Velas cobriam todas as superfícies, cada uma brilhando com tanta intensidade que mal conseguia olhar direto para elas. A disposição era como me lembrava, no entanto os bancos estavam todos vazios e não conseguia ver nenhuma das estátuas ou cruzes que esperava. O homem me conduziu sem resistência até a sacristia, onde encontrei minha batina e estola estendidas à minha frente. A estola não era verde como se esperaria para uma missa normal de domingo, nem era violeta, vermelha ou qualquer outra cor litúrgica. Em vez disso, era um amarelo pálido e doentio. Senti os olhos do coroinha em minhas costas e me apressei em me vestir.

Naquele momento, o sino tocou para marcar o início da missa. Foi um toque único e estridente que cortou o ar e quase me fez dobrar de dor, tão forte foi a dor que penetrou em meu crânio latejante. Recuperei-me, agarrando o braço fino e ossudo do coroinha, e saí para a igreja. Os bancos estavam lotados. Fileiras e mais fileiras de pessoas, muito mais do que jamais haviam comparecido a uma missa que eu havia celebrado. Cada um estava vestido de preto da cabeça aos pés, e sua pele estava febril, amarelada como icterícia. Os olhos de cada homem, mulher e criança olhavam fixamente para a frente, e suas bocas estavam abertas, largas e sorridentes, como se suas mandíbulas tivessem se travado em um ricto silencioso.

Eu poderia ter ido embora. Sei disso agora. Sei que minha vontade e minhas ações foram minhas, e mesmo na época sabia que o que estava vendo era muito errado. Muito errado, mas... Naquele momento, não me pareceu que pudesse ter feito qualquer outra escolha. Mesmo naquele lugar estranho, encarado por paroquianos infernais que devia saber que não estavam de fato lá. D... Perdoe-me, mesmo daquela forma, pensei em encontrar algum conforto na liturgia. O incenso de cheiro estranho girava ao meu redor vindo do braseiro do coroinha e minha cabeça girava com um aroma que parecia tão familiar, porém tão estranho.

Finalmente, fiquei diante do altar e comecei a missa. Fiquei surpreso ao falar, e os santos nomes escaparam da minha boca sem hesitação, contudo a congregação a quem me dirigi estava em silêncio, e cada pausa para uma resposta era recebida apenas com aquele silêncio opressivo e de boca aberta, um vazio perturbador que apertava o medo que eu sentia agarrando minha alma. Quando a Liturgia da Palavra começou, observei em silencioso temor enquanto o coroinha subia ao púlpito para fazer a primeira leitura. Ele ficou ali parado, os olhos escuros percorrendo a Bíblia aberta, antes de levantar a cabeça e olhar para cima como se fosse falar, no entanto tudo o que saiu de sua garganta foi o som único e ressonante daquele sino, e minha cabeça pulsou de dor. A mesma coisa aconteceu na segunda leitura, aquele soar longo e prolongado.

Então veio a leitura do Evangelho. Caminhei até o púlpito e vi que a passagem indicada era Marcos, capítulo 9, versículos 14-19. Comecei a tentar lê-la, entretanto minha voz sumiu e da minha própria boca saiu o som daquele sino. Caí no chão, todavia ninguém se moveu para me ajudar.

Por fim, consegui me levantar de volta, e um pânico surdo começou a surgir dentro de mim ao perceber que a próxima etapa seria a liturgia da eucaristia. A ideia dessas pessoas, dessas coisas, tomando o corpo de Je... Tomando o sacramento da sagrada comunhão, parecia a mais terrível das blasfêmias. Ainda assim, não parei. Não sabia o que mais fazer, e minha mente estava repleta do som do sino e do horror coletivo de todas as coisas que tinha visto e sentido.

O coroinha me trouxe as hóstias e o vinho, e eu os peguei. Minhas mãos estavam estranhas e úmidas enquanto as segurava, embora as levei ao altar e comecei a falar.

Arte por @Georgiacooked.

Desta vez, minhas palavras saíram nítidas e claras, e enquanto as dizia, percebi que cada vez menos fiéis pareciam estar nos bancos. A esperança começou a surgir dentro de mim, pois parecia que as palavras funcionariam para afastar esses observadores ictéricos, e continuei. No fim, os bancos estavam vazios, e meu coração se encheu de alegria quando me virei para o tabernáculo para pegar o restante da hóstia.

Era estranho, a rica cortina de tecido que cobria aquela caixa de metal ornamentada parecia presa, então puxei, puxei e por fim ela se soltou. Abri a porta e peguei a Hóstia, devolvendo-a ao altar. Então... Levei-a à boca e comi. Não tinha o gosto que costumeiro que esperava.

Tenho certeza de que você já adivinhou o que eu estava comendo. Nem sei onde estava, algum porão escuro, pelo que me pareceu quando a luz se apagou dos meus olhos e voltei à realidade. Pelo menos, presumo que esta seja a realidade. Às vezes, sonho que talvez esta seja a ilusão... Minha prisão e encarceramento, meras alucinações. Que não sou um canibal assassino.

Arte por @mads-schubert.

Não importa. Naquele momento, vendo aqueles cadáveres amarrados à minha frente, tomei a decisão de nunca mais fazer nada. Não cometerei o pecado adicional de tirar minha própria vida, mas fiquei sentado ali até a chegada da polícia. Declarei-me culpado de todas as acusações que me foram imputadas e agora aqui estou, duvidando de tudo o que vejo e ouço. Preocupo-me com o estado da minha alma, é claro, porém há pouco a fazer. Meus antigos colegas vieram me visitar de vez em quando, e até o Bispo uma vez, contudo não adianta. Seja lá o que eles estejam dizendo, tudo o que consigo ouvir é o som do sino.

Obrigado pelo seu tempo.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Acontece que a segunda parte desta declaração foi arquivada incorretamente na pasta seguinte, o que foi útil, embora levante a questão de quem a leu por último? Martin ainda está ausente, entretanto Tim e Sasha juram que nunca o viram. Será que minha antecessora a leu em algum momento? Parece improvável, dado o estado do lugar; acho difícil acreditar que Gertrude Robinson tenha de fato lido algum desses arquivos. Ainda assim, não é a nossa maior preocupação.

É difícil saber por onde começar com um depoimento como esse. Se a pessoa que presta depoimento não consegue distinguir o real do irreal, isso geralmente não é um bom sinal para quem tenta encontrar provas. Comecemos com Bethany O’Connor. Pelo que Sasha conseguiu encontrar nos registros do Saint Hugh, ela era de fato aluna da instituição, cursando arqueologia e tendo ingressado em 2008. Tudo o que o Padre Burroughs diz sobre sua fé, sua hospitalização e sua morte parece coincidir com os registros oficiais. Todavia, os registros da faculdade a listam como uma das estudantes que moravam no alojamento estudantil durante seu segundo ano, e não em uma casa fora do campus, e foi um porteiro que ela atacou com uma faca de cozinha, e não um colega de quarto. Aliás, segundo a imobiliária, não havia ninguém morando no número 89 da Bullingdon Road naquele ano, então, seja lá o que Bethany estivesse fazendo naquela casa, não era morando lá legalmente.

Os antigos colegas do Padre Burroughs na Igreja com certeza se lembram de seu colapso após o exorcismo fracassado. Pelo visto, eles estavam conversando com o Bispo para conseguir ajuda para ele quando ocorreu o “incidente culminante” que levou à sua prisão. Antes de conhecer Bethany O’Connor, nenhum deles tinha nada além dos maiores elogios para o homem.

Quanto ao incidente em si, o Padre Burroughs foi encontrado em um dos cômodos dos fundos do número 89 da Bullingdon Road. Estava usando um avental de açougueiro e sentado em frente a dois estudantes, Christopher Bilham e James Mann. Ambos estavam amarrados a cadeiras e já sem vida. A causa da morte foi listada como perda de sangue devido a múltiplos cortes nas pernas e no torso, bem como a remoção de seus rostos com uma lâmina afiada, possivelmente um bisturi. O rosto de James Mann foi encontrado parcialmente comido pelo Padre Burroughs. Ele se declarou culpado de todas as acusações apresentadas contra sua pessoa e no atual momento se encontra cumprindo duas penas de prisão perpétua na Prisão de Wakefield, embora o HMPS tenha recusado nosso pedido de entrevista complementar.

O que me interessa é o paralelo entre a alucinação culminante do Padre Burroughs e a realidade, e o fato de que em nenhum momento realizou qualquer ação que pudesse ser análoga ao ato de amarrar e assassinar os estudantes. Além disso, me chama a atenção o fato de o coroinha que descreveu parecer destoar da maioria de seus outros delírios, já que parecia ter uma ação ativa, o que é incomum para essas visões que o padre descreve. Enfim, há o pequeno detalhe mencionado no relatório policial de que nenhuma das ferramentas usadas para matar ou mutilar as vítimas foi encontrada na cena do crime. Tudo isto me leva a crer que pode ter havido uma segunda pessoa lá naquela noite, no entanto, conversando com a polícia, tenho a impressão de que há pouco interesse em reabrir o caso, considerando o sucesso da acusação inicial.

Há um outro detalhe que Tim descobriu que me chama a atenção. É um nome que reconheço, embora não tenha ideia do que possa significar. O Oratório obviamente não foi o local exato dos crimes do Padre Burroughs, mas houve um evento estranho alguns dias antes. Eles receberam uma estola amarelo-clara, que parece ter desaparecido menos de um dia depois de assinarem o recebimento. Isso seria incomum, porém nada digno de nota, se não fosse pelo fato de um dos diáconos ter se lembrado de que o pacote foi entregue por uma empresa chamada Entregas Breekon e Hope.

Fim da gravação.

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