sábado, 27 de junho de 2026

The Dragonbone Chair — Volume 03 — Capítulo 42

Capítulo 42: Sob a Árvore de Udun


— Não se apresse, Elias. — rosnou Guthwulf. — Não se apresse. Naglimund é um osso duro de roer... Duro... Você sabia que seria...

Guthwulf podia ouvir a própria voz arrastada; precisara se embriagar só para encarar seu antigo companheiro. O Conde de Utanyeat não se sentia mais à vontade perto do Rei, e se sentia ainda menos à vontade para lhe trazer más notícias.

— Você teve quinze dias. Eu lhe dei tudo... Tropas, máquinas de cerco... Tudo! — o Rei puxou a pele do rosto, franzindo a testa. Estava abatido e doentio, e não havia encontrado o olhar de Guthwulf. — Não posso esperar mais. Amanhã é a Véspera do Solstício de Verão!

— E que importância tem? — Guthwulf, sentindo-se gelado e enjoado, virou-se e cuspiu o pedaço de raiz de citrino, agora sem gosto, que estava mastigando. A tenda do Rei era tão fria e úmida quanto o fundo de um poço. — Ninguém jamais conquistou uma grande fortaleza em quinze dias, exceto por traição, mesmo que estivessem mal defendidas... Esses homens lutaram como animais encurralados. Tenha paciência, Alteza; paciência é tudo o que precisamos. Podemos fazê-los morrer de fome em questão de meses.

— Meses! — a risada de Elias era oca. — Meses, ele diz, Pryrates!

O sacerdote vermelho ofereceu um sorriso esquelético.

A risada do Rei cessou abruptamente, e baixou o queixo até quase tocar o pomo da longa espada cinza apoiada entre os joelhos. Havia algo naquela espada que Guthwulf não gostava, embora soubesse que era tolice ter tais pensamentos sobre uma mera coisa. Mesmo assim, para onde quer que Elias fosse, a espada o acompanhava, como um cãozinho mimado.

— Hoje é sua última chance, Utanyeat. — a voz do Supremo Rei era grossa e pesada. — Ou o portão é aberto, ou terei que fazer... Outros arranjos.

Guthwulf se levantou, cambaleando.

— Você está louco, Elias? Como podemos... Os mineiros mal cavaram até a metade... — ele parou de falar, atordoado, se perguntando se havia ido longe demais. — Por que deveríamos nos importar se amanhã é a Véspera do Solstício de Verão? — perguntou, voltando a se ajoelhar, implorando. — Fale comigo, Elias.

O Conde temia uma resposta explosiva de seu Rei furioso, contudo também, vagamente, esperava um tênue retorno da antiga camaradagem. Não obteve nenhuma das duas coisas.

— Não tem como entender, Utanyeat. — respondeu Elias, e seus olhos vermelhos e arregalados estavam fixos na parede da tenda, ou no ar vazio. — Eu tenho... Outras obrigações. Amanhã tudo mudará.



***



Simon pensara que havia compreendido o inverno. Após a travessia pela desolada imensidão do deserto, os intermináveis ​​dias brancos de vento, neve e olhos ardendo, tinha certeza de que o inverno não poderia lhe ensinar mais nada. Depois dos primeiros dias em Urmsheim, ficou surpreso com sua antiga inocência.

Eles caminhavam pelas estreitas trilhas de gelo, enfileirados por cordas, fincando cuidadosamente os dedos e os calcanhares antes de dar cada passo. Às vezes, o vento crescente os puxava como se fossem folhas de árvores, e tinham que se encolher contra a encosta gelada de Urmsheim e se agarrar até que o vento diminuísse. O terreno também era traiçoeiro; Simon, que se considerava um bom alpinista como mestre dos lugares altos de Hayholt, agora se via escorregando e se agarrando em trilhas estreitas, com apenas dois côvados de distância entre a parede e o precipício, uma nuvem giratória de neve em pó sendo a única coisa entre a trilha e a terra distante. Olhando para baixo da Torre do Anjo Verde, que outrora lhe parecera o ápice do mundo, agora lhe parecia tão infantil e reconfortante quanto estar sentado em um banquinho na cozinha do castelo.

Da trilha da montanha, logo pôde ver os cumes de outros picos e as nuvens rodopiando ao redor destes. O nordeste de Osten Ard se estendia diante dele, todavia tão distante que desviou o olhar da vista. Não seria bom ficar olhando para baixo de tamanha altura. Isso fazia seu coração disparar e a respiração falhar. Nesse ponto, desejava com todo o seu coração ter ficado para trás, mas agora sua única esperança de descer era continuar subindo.

Por muitas vezes se pegou rezando e esperando que a altitude do local acelerasse suas palavras até o Céu.

As alturas nauseantes e sua própria confiança que se esvaía rapidamente eram aterrorizantes por si só, porém Simon também estava conectado pela corda em volta da cintura a todos os outros do grupo, exceto os sitha que não estavam amarrados. Assim, não havia apenas seus próprios erros para se preocupar... Um passo em falso de um dos outros poderia arrastá-los para baixo, como uma linha de pesca com peso, e enviá-los mergulhando nas profundezas ilimitadas e vertiginosas. Seu progresso era dolorosamente lento, contudo ninguém, muito menos Simon, queria que fosse diferente.



***



Nem todas as lições da montanha foram dolorosas. Embora o ar fosse tão rarefeito e dolorosamente frio que às vezes sentia que outra respiração poderia transformá-lo em pedra congelada, a própria frieza da atmosfera trazia consigo uma estranha exaltação, uma sensação de franqueza e insubstancialidade, como se um vento impetuoso soprasse através de si.

A própria face gelada da montanha era uma coisa de dolorosa beleza. Simon nunca sonhara que o gelo pudesse ter cor; a variedade doméstica que conhecia, aquela que adornava os telhados de Hayholt durante a festa de Aedon e envolvia os poços em eneror, era transparente como diamante ou branca leitosa. Em contraste, a armadura de gelo de Urmsheim, deformada, retorcida e enrugada pelo vento e pelo sol distante, era uma floresta onírica de cores e formas estranhas. Grandes torres de gelo, atravessadas por veios verde-mar e violeta, inclinavam-se sobre as cabeças do grupo fatigado. Em outros lugares, os penhascos de gelo haviam rachado e desabado em blocos cristalinos, com bordas brutas como gemas, gravadas em um azul tempestuoso, desmoronando em uma confusão tesselada como os blocos abandonados de algum arquiteto gigante.

Em um lugar, os ossos negros de duas árvores congeladas, mortas há muito tempo, erguiam-se como sentinelas abandonadas diante da borda de uma fenda envolta em névoa branca. A camada de gelo que se estendia entre elas havia sido derretida e tornada fina como pergaminho pelo sol; as árvores mumificadas pareciam os portões do Paraíso, o gelo entre elas um leque cintilante e evanescente que estilhaçava a luz do dia em um arco-íris brilhante de luz rubi e nectarina, em redemoinhos de ouro, lavanda e rosa pálido que, Simon tinha certeza, fariam até mesmo as famosas vidraçarias do Sancellan Aedonitis parecerem carentes de beleza.



***



No entanto, ainda enquanto sua superfície brilhante seduzia os olhos, o coração frio da montanha conspirava contra seus hóspedes indesejados. No final da tarde do primeiro dia, enquanto Simon e seus camaradas mortais tentavam se acostumar com o ritmo estranho e deliberado imposto pelas travas de sapato de Binabik... Os sitha, que desprezavam tais dispositivos, escalavam quase tão lenta e cuidadosamente quanto os outros... A escuridão tomou conta do céu tão repentina e completamente quanto tinta derramada em um mata-borrão.

— Deitem-se! — gritou Binabik, enquanto Simon e os dois soldados erkynos olhavam curiosos para o ponto onde, momentos antes, o sol estivera no céu. Atrás de Haestan e Grimmric, Sludig já havia se atirado na neve dura. — Para o chão! — gritou o gnomo.

Haestan puxou Simon para baixo.

Enquanto se perguntava se Binabik tinha visto algo perigoso na trilha à frente... E, em caso afirmativo, o que os sitha estariam fazendo, já que haviam desaparecido onde o caminho contornava parte do flanco sudeste de Urmsheim... Simon ouviu o som do vento, que havia sido um assobio baixo e constante por horas, elevar-se a um grito. Sentiu um puxão, depois uma forte puxada, e cravou os dedos na neve empoeirada até o gelo abaixo. Um instante depois, um estrondo de trovão ressoou dolorosamente em seus dois ouvidos. Mesmo enquanto o primeiro rufar de tambor ecoava pelo vale abaixo, outro o sacudiu como Qantaqa sacudiria um rato capturado. Gemeu e se agarrou ao chão enquanto o vento o arranhava com dedos ossudos, e o trovão ribombava sem parar, como se a montanha à qual se agarravam fosse uma bigorna para algum ferreiro gigantesco e terrível.

A tempestade parou de forma tão precipitada como havia começado. Simon permaneceu agachado por longos momentos depois que o grito do vento cessou, com a testa pressionada contra o chão congelado. Quando se sentou, com os ouvidos zumbindo, o sol branco emergia por entre as nuvens manchadas de tinta. Ao seu lado, Haestan estava sentado como uma criança perplexa, com o nariz sangrando e a barba coberta de neve.

— Por Aedon! — ele praguejou. — Pelo apenado Aedon, sangrento e triste e por Deus Altíssimo. — o homem limpou o nariz com as costas da mão e olhou para a mancha vermelha deixada em sua luva de pele. — O que...

— Tivemos sorte de estarmos em uma parte larga do caminho. — disse Binabik, levantando-se. Embora também estivesse coberto de neve grudada, parecia quase alegre. — Aqui as tempestades chegam rápido.

— Rápido... — Simon murmurou, olhando para baixo. Havia perfurado o tornozelo de sua bota direita com os pregos presos à esquerda, e pela ardência, tinha certeza de que havia sangrado. Um instante depois, a figura esguia de Jiriki apareceu na curva da trilha.

— Perderam alguém? — gritou.

Quando Binabik respondeu que todos estavam a salvo, o sitha fez uma saudação zombeteira e tornou a desaparecer.

— Não vejo neve nele. — comentou Sludig, com amargura.

— Tempestades de montanha se movem rapidamente... — respondeu o gnomo. — Contudo os sitha também.



***



Os sete viajantes passaram a primeira noite juntos encostados na parede dos fundos de uma caverna de gelo rasa na face leste da montanha, com a extremidade do caminho estreito a apenas cinco ou seis côvados de distância, o abismo negro à espreita lá embaixo. Enquanto tremia no frio penetrante, confortado, embora não aquecidos, pelo canto suave de Jiriki e An’nai. Simon se lembrou de algo que o Doutor Morgenes lhe dissera certa vez, no meio de uma tarde sonolenta, quando Simon reclamou de viver nos aposentos apertados e sem privacidade dos criados.

Nunca faça de um lugar a sua casa...’ dissera o velho, preguiçoso demais no calor da primavera para fazer mais do que balançar o dedo. ‘Faça da sua própria cabeça a sua casa. Você encontrará o que precisa para mobiliá-la... Memórias, amigos em quem pode confiar, amor pelo aprendizado e outras coisas do gênero.’ Morgenes sorriu. ‘Assim, ela irá com você aonde quer que vá. Nunca ficará sem um lar, a menos que perca a cabeça, é claro...’

Ainda não tinha certeza se entendia bem o que o doutor queria dizer; mais do que tudo, tinha certeza, queria um lar para chamar de seu uma vez mais. O quarto vazio do Padre Strangyeard em Naglimund começara a parecer um em apenas uma semana. Mesmo assim, havia uma espécie de romantismo na ideia de viver livre na estrada, fazendo de qualquer lugar que parasse sua casa, como um comerciante de cavalos hyrka. Contudo estava pronto para outras coisas. Começou a parecer que ele próprio estava em movimento há anos... Quanto tempo havia se passado, afinal?

Enquanto contava cuidadosamente de acordo com as fases da lua, com a ajuda de Binabik quando tinha dificuldade em se lembrar, ficou estupefato ao perceber que haviam se passado... Menos de dois meses! Era surpreendente, no entanto correto. O gnomo confirmou seu palpite, que três semanas de junen haviam se passado, e Simon sabia com certeza que sua jornada começara na fatídica Noite Empedrada, as últimas horas de avrel. Como o mundo havia mudado em sete semanas! E, refletiu vagamente, enquanto caía no sono, em grande parte para pior.



***



No final da manhã, o grupo escalava uma enorme placa de gelo que deslizara da encosta da montanha e se estendia transversalmente ao caminho como um vasto pacote descartado, quando Urmsheim atacou outra vez. Com um som horrível e estridente, uma longa cunha da placa de gelo estalou, passando de azul-acinzentada para branca, e se soltou, deslizando sob os pés de Grimmric para despencar, desmoronando, pela encosta da montanha. O erkyno teve tempo apenas para um breve grito de surpresa; um instante depois, havia caído para fora de vista na fenda deixada pela cunha. Antes que pudesse pensar, Simon sentiu-se puxado para a frente pela queda de Grimmric. Ele caiu para a frente, estendendo desesperado uma mão para se agarrar à parede de gelo; a fenda negra se aproximava cada vez mais. Horrorizado e impotente, viu uma fina faixa de ar vazio através da fenda no caminho e, além dela, a forma tênue dos penhascos a meia légua abaixo. Gritou e sentiu-se deslizar para a frente, seus dedos tentando agarrar-se sem sucesso ao caminho escorregadio.

Binabik estava guiando a corda, e sua agilidade experiente permitiu que mergulhasse para a frente quando ouviu o gelo se estilhaçando, esparramando-se de bruços, agarrando o gelo com uma das mãos enluvadas, cravando seu machado e pregos o mais fundo que podia. A mão larga de Haestan agora se agarrava ao cinto de Simon, mas nem mesmo o porte físico do guarda barbudo conseguia deter o deslizamento inexorável. O peso oculto de Grimmric os puxava para baixo, enquanto gritava abaixo da borda da fenda e balançava de um lado para o outro, suspenso pela corda acima do vazio rodopiante da neve. No final da fila, Sludig fincou-se no gelo, interrompendo por um momento o movimento de Simon e Haestan, e gritou pelos sitha.

An’nai e o Príncipe Jiriki voltaram correndo pela trilha da montanha, tocando a superfície pulverulenta tão levemente quanto lebres da neve. Correndo, cravaram seus próprios machados no gelo e os amarraram à ponta da corda de Binabik com nós rápidos. O gnomo, agora livre, contornou a fenda com os dois sitha e voltou para ajudar Sludig.

Simon sentiu o puxão em seu cinto se intensificar e a fenda começou a recuar aos poucos. Estava deslizando para trás. Não ia morrer! Pelo menos, parecia que não naquele momento. Ao recuperar o equilíbrio, abaixou-se para pegar uma das luvas que havia caído, e sua cabeça latejou.

Com todo o grupo agora se esforçando para se agarrar às cordas, eles por fim trouxeram Grimmric, agora inconsciente, com o rosto acinzentado sob o capuz, de volta pela abertura no gelo, onde pôde ser arrastado para um local seguro. Passaram-se longos minutos depois que acordou até que Grimmric pudesse reconhecer seus companheiros, e ele tremia como se estivesse com uma febre mortal. Sludig e Haestan improvisaram uma funda com duas capas de pele para carregá-lo até que pudessem parar e acampar.

Quando encontraram uma fenda profunda que se estendia montanha adentro até atingir a rocha propriamente dita, o sol estava apenas um pouco além do meio-dia, porém não tiveram escolha a não ser acampar cedo. Acenderam uma pequena fogueira, pouco maior que a altura dos joelhos, com gravetos que haviam recolhido aos pés de Urmsheim e carregado até o topo justo para essa ocasião. Grimmric, tremendo, jazia ao lado da fogueira, batendo os dentes, aguardando a poção de gnomo que Binabik, misturando ervas e pós de sua bolsa com água da neve derretida, se esforçava para preparar. Ninguém invejava o calor de Grimmric.

Conforme a tarde avançava, e o estreito raio de sol que se projetava na fenda subia pelas paredes azuis e depois desaparecia, um frio ainda mais profundo e agonizante se instalou. Simon, com os músculos tremendo como cordas de alaúde, as orelhas latejando apesar do capuz de pele, sentiu-se deslizar... Tão precipitada e desamparadamente quanto deslizara em direção ao vazio nu da fenda... Em direção a um sonho acordado. Contudo, em vez do frio sombrio que esperava, seu sonho o acolheu com braços quentes e perfumados.



***



Era verão outra vez... Quanto tempo havia passado? Não importava, pois as estações enfim haviam se invertido, e o ar quente e expectante estava repleto do zumbido das abelhas. As flores da primavera agora pendiam inchadas e maduras demais, ficando marrons e quebradiças nas bordas como as tortas de carneiro de Judith assando nos fornos do castelo. Nos campos abaixo dos muros de Hayholt, a grama estava amarelando, iniciando a transformação alquímica que terminaria no outono, quando seria empilhada em montes dourados e perfumados, pontilhando a terra como pequenas casas.

Simon podia ouvir os pastores cantando sonolentos, ecoando o zumbido das abelhas enquanto conduziam seus rebanhos balindo pelos prados. Verão! Logo, ele sabia, chegariam os festivais... São Sutrin, Hlafmansa... Mas primeiro o seu favorito, a Véspera do Solstício de Verão...

Solstício de Verão, quando tudo era diferente e tudo estava disfarçado, quando amigos mascarados e inimigos fantasiados se misturavam sem saber na escuridão sufocante... Quando a música tocava por toda a noite sem dormir, e o Jardim da Cerca Viva era enfeitado com fitas prateadas, e formas risonhas e saltitantes povoavam as Horas da Lua...



***



— Seoman? — uma mão estava em seu ombro, sacudindo-o de leve. — Seoman, você está chorando. Acorde.

— Os dançarinos... As máscaras...

— Acorde!

A mão o sacudiu de novo, com mais vigor. Ao abrir os olhos, viu o rosto estreito de Jiriki, com a testa e as maçãs do rosto proeminentes, na luz fraca e oblíqua.

— Parecia que você estava tendo um sonho assustador. — disse o sitha, agachando-se ao lado do rapaz.

— Não... Não foi bem assim. — estremeceu. — Era... Era a véspera do solstício de verão...

— Ah. — Jiriki ergueu uma sobrancelha e deu de ombros sinuosamente. — Acho que talvez tenha andado vagando por reinos onde não deveria ir.

— O-O que poderia haver de ruim no v-verão?

O Príncipe dos sitha deu de ombros e, em seguida, tirou de dentro de sua capa, com um gesto como o de um tio querido que tira um brinquedo para distrair uma criança que está fungando, um objeto brilhante em uma moldura de madeira delicadamente esculpida.

— Sabe o que é isso? — perguntou Jiriki.

— Um... Espelho... — Simon não tinha ideia do que o sitha estava perguntando.

Ele sabia que Simon o havia manuseado na caverna?

Jiriki sorriu.

— Sim. Um espelho muito especial, um que tem uma longa história. Sabe o que se pode fazer com uma coisa dessas? Além de barbear o rosto como os homens fazem? — sua mão se estendeu e tocou a bochecha peluda de Simon com um dedo frio. — Consegue adivinhar?

— V-V-Ver coisas que estão l-longe? — respondeu após um momento de hesitação, esperando então pela explosão de raiva que tinha certeza que viria.

O sitha o encarou.

— Já ouviu falar dos espelhos do Povo Encantado? — perguntou, curioso. — Ainda agora eles são tema de contos e canções?

Agora Simon tinha a chance de se esquivar da verdade. Em vez disso, surpreendeu a si mesmo.

— N-Não. Olhei para ele quando e-estávamos em seu pavilhão de caça.

Ainda mais surpreendente foi o fato dessa admissão levar os olhos de Jiriki a se arregalarem.

— Você viu outros lugares? Mais do que um reflexo?

— Vi... A Princesa Miriamele... Minha amiga. — assentiu e deu um tapinha em seu cachecol azul, que estava enrolado em seu pescoço. — Foi como um sonho.

O sitha olhou para o espelho com uma expressão carrancuda, não com raiva, era como se fosse a superfície de um lago sob o qual se movia um peixe esquivo que desejava localizar.

— Você é um jovem de vontade forte. — disse Jiriki lentamente. — Mais forte do que imagina, ou isso, ou foi tocado por outros poderes, de alguma forma... — seu olhar foi de Simon de volta para o espelho e ficou em silêncio por um tempo. — É uma coisa muito antiga, este espelho. — prosseguiu. — Dizem que é uma escama do Grande Verme.

— O que s-significa?

— O Grande Verme, aquele que muitas histórias dizem circundar o mundo. Nós, sitha, porém, vemos o Verme circundando todos os mundos ao mesmo tempo, os da vigília e os dos sonhos... Os que foram e os que serão. Sua cauda está em sua boca, então não tem fim nem começo.

— Um v-verme? Q-Quer dizer um dragão?

Jiriki assentiu uma vez, um movimento abrupto como um pássaro bicando grãos.

— Também se diz que todos os dragões descendem do Grande Verme, e que cada um é inferior aos que vieram antes. Igjarjuk e Shurakai eram menos grandiosos que sua mãe Hidohebhi, assim como ela, por sua vez, não era tão grandiosa quanto seu progenitor Khaerukama’o, o Dourado. Algum dia, se tudo isso for verdade, os dragões desaparecerão por completo... Se é que já não desapareceram.

— Isto seria bom! — disse Simon.

— Seria mesmo? — o Príncipe sorriu, contudo seus olhos eram pedras frias e brilhantes. — Os homens crescem enquanto os grandes vermes... E outros... Diminuem. Parece ser assim que as coisas acontecem. — ele se espreguiçou, com a graça trêmula e escorregadia de um gato recém-desperto. — As coisas acontecem... — repetiu. — Ainda assim, trouxe esta escama do Grande Verme para lhe mostrar algo. Gostaria de ver, jovem?

Simon assentiu.

— Esta foi uma jornada difícil para você. — Jiriki lançou um olhar por cima do ombro para onde os outros estavam reunidos em torno de Grimmric e da pequena fogueira. Apenas An’nai olhou para cima, e alguma comunicação ilegível surgiu entre os dois sitha. — Olhe! — disse Jiriki um momento depois.

O espelho, que segurava em suas mãos como um precioso copo d’água, pareceu quase ondular. A escuridão que continha... Cortada por um traço irregular de cinza claro, o reflexo do céu acima da fenda — parecia brotar lentamente pontos de luz verde, como estranhas estrelas vegetais germinando no céu noturno. — Eu lhe mostrarei um verdadeiro verão. — disse Jiriki suavemente. — Mais verdadeiro do que qualquer outro que já conheceu.

Os pontos de verde brilhante começaram a flutuar e se unir, peixes esmeralda cintilantes subindo à superfície de um lago sombrio. Simon sentiu-se afundando no espelho, embora não se movesse de onde estava debruçado sobre ele. O verde se transformou em muitos verdes, em tantas tonalidades e matizes como sempre existiram. Em um instante, eles se revolveram em uma confusão surpreendente de pontes, torres e árvores... Uma cidade e uma floresta que cresceram juntas, brotando como uma só em meio a uma planície gramada... Não uma cidade que uma floresta cobriu, como Da’ai Chikiza, e sim uma amálgama próspera e viva de plantas e pedras polidas, murta, jade e verde-viridiano.

— Enki-e-Shao’saye. — sussurrou Jiriki.

A grama na planície ondulava exuberantemente ao vento; flâmulas escarlates, brancas e azul-celeste tremulavam como flores entre as torres ramificadas da cidade.

— A última e maior cidade do Verão.

— Onde... Fica...? — Simon respirou, maravilhado e enfeitiçado por sua beleza.

— Não se trata de onde, garoto, mas quando. O mundo não é apenas mais vasto do que imagina, Seoman, como também é muito, muito mais antigo. Enki-e-Shao’saye já está em ruínas há muito tempo. Ficava a leste do grande bosque.

— Em ruínas?

— Foi o último lugar onde Zida’ya e Hikeda’ya viveram juntos, antes da Separação. Era uma cidade de grande engenhosidade e ainda maior beleza; o próprio vento nas torres fazia música, e as lâmpadas da noite brilhavam como estrelas. Nenais’u dançava sob o luar junto ao seu lago na floresta, e as árvores, admiradas, inclinavam-se para observar. — o Príncipe balançou a cabeça. — Tudo se foi. Aqueles eram os dias de verão do meu povo. Agora estamos no meio do outono...

— Se foi...? — Simon ainda não conseguia assimilar a tragédia. Parecia que podia estender a mão para o espelho, tocar uma das torres pontiagudas com o dedo. Sentiu lágrimas lutando para escapar. Sem lar. Os sitha haviam perdido seus lares... Estavam solitários e sem lar no mundo.

Jiriki passou a mão sobre a superfície, e esta embaçou.

— Desapareceu. — falou. — No entanto enquanto houver memória, o Verão permanecerá. Até o Inverno deixar seu lugar para a próxima estação.

O Príncipe se virou e olhou demoradamente para Simon, e a expressão de agonia no rosto do jovem lhe trouxe um pequeno e cauteloso sorriso ao seu próprio.

— Não lamente tanto... — disse, e deu um tapinha no braço de Simon. — O brilho não foi apagado do mundo... Ainda não. E nem todos os lugares bonitos caíram em ruínas. Jao é-Tinukai’i segue existindo, a morada da minha família e do meu povo. Talvez algum dia, se ambos descermos em segurança desta montanha, você a veja. — o sitha esboçou seu sorriso estranho, pensando em algo. — Talvez você...



***



O restante da subida em Urmsheim, mais três dias em trilhas estreitas e perigosas, pouco mais que fitas de gelo, sobre superfícies lisas e vítreas, com apoios laboriosamente esculpidos para mãos e pés; mais duas noites de um frio cruel e cortante, passaram por Simon como um sonho fugaz, embora doloroso. Em meio ao terrível cansaço que o acometia, se agarrou ao presente de verão de Jiriki, pois era um presente, tinha certeza, e se sentiu confortado. Mesmo enquanto seus dedos dormentes lutavam para se agarrar e seus pés dormentes para se manterem na trilha, pensou que em algum lugar devia haver calor, e algo como uma cama e roupas limpas... Até um banho seria bem-vindo! Todas essas coisas estavam lá fora em algum lugar, se conseguisse apenas manter a cabeça focada e descer a montanha vivo.

Quando se parava para pensar, refletiu o garoto, não havia muitas coisas na vida de que realmente precisássemos. Querer demais era pior que ganância: era estupidez... Um desperdício de tempo e esforço preciosos.

O grupo foi subindo devagar ao redor da montanha até que o sol nascia a cada manhã para brilhar sobre seus ombros direitos. O ar estava ficando dolorosamente rarefeito, forçando paradas frequentes para recuperar o fôlego; até mesmo os resistentes Jiriki e o submisso An’nai se moviam mais devagar, com os membros pesados ​​como se estivessem carregando roupas pesadas. Os companheiros humanos, com exceção do gnomo, quase se arrastavam. Grimmric havia se recuperado, graças à potência do elixir qanuc de Binabik, mas tremia e tossia enquanto subia.

De tempos em tempos, o vento aumentava, fazendo com que as nuvens que abraçavam os ombros de Urmsheim voassem como fantasmas esfarrapados. Os vizinhos silenciosos da montanha se materializavam, picos irregulares mantendo uma convenção altiva muito acima da superfície de Osten Ard, indiferentes à paisagem sórdida e minúscula a seus pés. Binabik, tão à vontade respirando o ar rarefeito do Teto do Mundo quanto estivera sentado na despensa de Naglimund, apontou para a ampla e escarpada Mintahoq, a leste, para seus companheiros ofegantes, assim como para várias outras montanhas que circundavam os montes dos gnomos de Yiqanuc.



***



Eles a encontraram de repente, enquanto metade da altura da montanha ainda se erguia acima de suas cabeças. Lutando para escalar um afloramento rochoso, a corda esticada como a corda de um arco entre eles, cada respiração queimando seus pulmões, ouviram um dos sitha... Que havia escalado à frente e desaparecido de vista... Soltar um grito estranho, como um assobio. Os companheiros correram em direção ao topo com toda a pressa possível; a questão de para onde estavam correndo permaneceu sem resposta. Binabik, liderando a fila, parou no cume da colina; ele se inclinou um pouco para manter o equilíbrio.

— Filha das Montanhas! — o gnomo arquejou, uma nuvem de vapor subindo de sua boca. Ele ficou parado e não se moveu por longos momentos. Simon subiu com cuidado os últimos passos.

A princípio, não viu nada à sua frente além de outro amplo vale de neve, sua parede branca erguendo-se do outro lado, aberto à direita para o ar e o céu e uma sucessão de penhascos nevados que despencavam pela encosta de Urmsheim. Virou-se para Binabik para perguntar o que o fizera gritar. A pergunta morreu em seus lábios.

À esquerda, o vale cavava fundo na face da montanha, o fundo do vale subindo à medida que suas altas paredes se inclinavam gradualmente uma em direção à outra. Em seu ápice, estendendo-se do chão até o triângulo de céu cinza-azulado, erguia-se a Árvore de Udun.

— Elysia, Mãe de Deus! — disse Simon, com a voz embargada. — Mãe de Deus! — repetiu.

A princípio, confrontado com a vastidão, a loucura inverossímil da coisa, pensou que fosse uma árvore... Uma árvore titânica de gelo com mil pés de altura, miríades de galhos cintilando e brilhando sob o sol, sombreada em seu cume impossível por uma auréola de névoa. Foi somente quando enfim se convenceu de que era real, que tal coisa pudesse existir em um mundo que também continha objetos tão mundanos como porcos, cercas e tigelas, que começou a entender o que era. Uma cachoeira congelada, o acúmulo de anos de neve derretida e gelada capturada em milhões de pingentes de gelo, um traçado cristalino ao longo da espinha dorsal de pedra irregular que formava o tronco da Árvore de Udun.

Jiriki e An’nai ficaram paralisados ​​alguns passos abaixo do fundo do vale, olhando para a árvore. Simon, seguindo Binabik, começou a descer a encosta em direção a eles, sentindo a corda em volta de sua cintura ficar tensa quando Grimmric alcançou o topo e ficou imóvel; paciente, Simon então esperou enquanto o processo se repetia mais duas vezes para Haestan e Sludig. Por fim, todos desceram cambaleantes e absortos até a neve profunda do fundo do vale. Os sitha cantavam baixinho e não deram atenção à chegada de seus companheiros humanos.

Por um longo tempo, ninguém falou. A majestade da Árvore de Udun parecia quase sugar o fôlego de seus corpos, e por um longo tempo os companheiros apenas ficaram parados, contemplando, sentindo-se vazios.

— Vamos em frente! — disse Binabik finalmente.

Simon sobressaltou-se, ressentido. A voz do gnomo pareceu uma intrusão rude.

— É-É a visão mais m-maldita que meus olhos já v-viram. — gaguejou Grimmric.

— Aqui o velho Um-olho subiu até as estrelas. — disse Sludig baixinho. — Deus me livre da blasfêmia, mas ainda posso sentir sua presença.

Binabik começou a atravessar o vale aberto. Os outros o seguiram depois de alguns instantes, puxados pela corda do arnês do gnomo A neve chegava à altura das coxas e o progresso era lento. Depois de darem cerca de trinta passos difíceis, Simon enfim desviou o olhar do espetáculo para olhar para trás. An’nai e Jiriki não haviam se juntado a eles; os dois sitha seguiam lado a lado, como se esperassem por algo.

Eles avançaram. As paredes do vale se inclinavam cada vez mais sobre suas cabeças, como se estivessem fascinadas por esses raros visitantes. Simon podia ver que a base da árvore de gelo era um enorme e desordenado amontoado de pedras, protegido sob os galhos inferiores arqueados... Não galhos verdadeiros, e sim camadas e mais camadas de estalactites derretidas e congeladas, cada uma mais larga que a anterior, de modo que os galhos mais baixos formavam um teto com metade da largura de um campo de torneio sobre a profusão de pedregulhos.

O grupo havia chegado tão perto que o grande pilar de gelo parecia se estender até o teto do céu. Ao curvar o pescoço dolorosamente para um último vislumbre do pico quase desaparecido da árvore, uma onda de surpresa e medo o invadiu, turvando sua visão por um instante.

“A torre! Dos meus sonhos, a torre com galhos!” atordoado, tropeçou e caiu na neve. Haestan estendeu uma mão larga e o levantou sem dizer uma palavra. Simon arriscou um último olhar para cima, e uma sensação assustadora, mais do que mera tontura, o invadiu.

— Binabik! — gritou.

O gnomo, que acabava de entrar na escuridão violeta da sombra da Árvore de Udun, virou-se rapidamente.

— Quieto, Simon! — sibilou. — Não sabemos se podemos partir o gelo, para nosso grande pesar.

Simon avançou pela neve pegajosa o mais rápido que pôde.

— Binabik, esta é a torre com a qual sonhei... Uma torre branca com galhos como uma árvore! É esta!

O homenzinho examinou a confusão de enormes pedregulhos e rochas quebradas na parte escura da árvore.

— Pensei que você acreditasse ter visto a Torre do Anjo Verde, de Hayholt?

— Sim, pensei que fosse, porém como nunca tinha visto essa antes, não sabia que poderia ser outra coisa! Entendeu?

Binabik arqueou uma sobrancelha negra e espessa.

— Quando tivermos tempo, farei o lançamento dos ossos. Agora temos uma missão para cumprir.

Ele esperou até que os outros se aproximassem antes de seguir falando.

— Acho que devemos montar acampamento em breve. Então poderemos passar as últimas horas de luz do dia procurando por algum sinal da companhia de Colmund, ou da espada Espinho.

— Eles... — Haestan indicou os sitha, agora distantes. — Vão ajudar?

Antes que Binabik pudesse expressar uma opinião, Grimmric assobiou animadamente e apontou para o amontoado de pedras.

— Vejam! — disse ele. — Acho que alguém já esteve aqui antes. Olha aquelas pedras ali!

Simon seguiu o dedo do soldado até um ponto mais acima na pilha de pedras inclinada, onde várias fileiras de pedras haviam sido empilhadas na entrada de um dos buracos semelhantes a cavernas.

— Tem razão! exclamou Haestan. — Ele tem razão! Tão certo quanto os Ossos de Tunath estarem de norte a sul, alguém fez um acampamento ali.

— Cuidado! — disse Binabik com urgência, entretanto Simon já havia tirado seu arnês e estava subindo o pedregal, provocando pequenas avalanches onde pisava sem cuidado. Chegou à caverna em poucos instantes e parou, equilibrando-se em uma pedra solta.

— Esta parede foi feita por homens, disso eu tenho certeza! — gritou, animado. A entrada da caverna tinha talvez três côvados de largura, e alguém havia colocado pedra sobre pedra às pressas na frente, embora não sem habilidade.

“Para se aquecer, talvez? Para afastar animais?”

— Por favor, não grite, Simon. — pediu Binabik. — Subiremos até aí.

Esperando impacientemente, deixando de lado todos os pensamentos sobre o ar rarefeito e o frio mortal, Simon observou o grupo subir atrás. Ainda quando Haestan começou a escalar a pilha, os dois sitha apareceram sob a copa da árvore Udun. Depois de contemplarem a cena por um momento, subiram até a caverna com a agilidade de esquilos saltando entre os galhos.

Levou um instante para que os olhos de Simon se ajustassem à escuridão mais profunda dentro da caverna baixa. Quando enfim conseguiu enxergar, levou apenas mais um instante para que seus olhos se arregalassem em choque.

— Binabik! E-Estão...

O gnomo, capaz de ficar de pé ao seu lado, onde Simon estava agachado, levou a palma da mão contra o próprio esterno.

— Qinkipa...! — exclamou. — Deviam ter esperado que alguém chegasse.

A caverna estava repleta de ossos marrons de homens. Os esqueletos, nus, exceto por acessórios e joias de metal preto e verde corroído, estavam encostados nas paredes da caverna. Uma fina camada de gelo cobria tudo, como um vidro de preservação.

— É Colmund? — perguntou Simon.

— Jesuris, no ajude! — engasgou Sludig atrás. — Saiam daí, o ar pode estar envenenado!

— Não há veneno aqui. — respondeu Binabik. — Quanto a ser ou não o grupo de Sir Colmund... As chances me parecem boas.

— É interessante imaginar como eles podem ter morrido. — a voz de Jiriki ressoou surpreendentemente na pequena caverna. — Se congelavam, por que não se amontoaram para se aquecer? — ele apontou para a dispersão dos corpos pela câmara. — Se foram mortos por algum animal, ou uns pelos outros, então por que os ossos estão dispostos com tanto cuidado, como se cada um tivesse se deitado para morrer por sua vez?

— Há mistérios aqui que valem a pena serem muito discutidos algum dia. — respondeu o gnomo. — Mas temos outros deveres, e a luz está se esvaindo.

— Pessoal! — disse Sludig, com a voz tensa e carregada de uma terrível urgência. — Venham aqui! Aqui!

O rimmerio estava sobre um dos esqueletos. Embora os ossos tivessem caído formando um pequeno montículo, ainda assim tinha a aparência de alguém flagrado em oração, ajoelhado com os braços estendidos. Entre os ossos de suas duas mãos, que jaziam semi-submersos no gelo como pedras em uma tigela de leite, havia um longo embrulho envolto em uma lona oleada congelada e apodrecida.

Todo o ar pareceu escapar repentinamente da caverna. Um silêncio tenso e sufocante se abateu sobre o grupo. O gnomo e o rimmerio se ajoelharam, como se imitassem os ossos antigos, e começaram a quebrar o embrulho congelado com seus machados de gelo. A lona oleada se desprendeu em lascas, como casca de árvore. Uma longa tira se estilhaçou, revelando uma profunda escuridão por baixo.

— Não é de metal. — disse Simon, desapontado.

— Espinho não foi feita de metal. — resmungou Binabik. — Ou de qualquer metal que você já tenha visto.

Sludig conseguiu enfiar a ponta do machado por baixo do pano petrificado e, com a ajuda esforçada de Haestan, eles rasgaram outra tira. Simon engasgou. Binabik estava certo, aquela coisa emergindo como uma borboleta negra como azeviche de seu casulo não era apenas uma espada, era uma espada como nenhuma outra que já vira... Tão longa quanto os braços abertos de um homem, ponta a ponta dos dedos, e negra. A pureza de sua negritude não era afetada pelas cores que brilhavam em sua lâmina, como se fosse tão sobrenaturalmente afiada que cortava até mesmo a luz tênue da caverna em arco-íris. Se não fosse pelo cordão de prata enrolado no cabo como uma empunhadura, deixando a guarda e o pomo descobertos tão escuros quanto o resto da lâmina, ela não teria nenhuma relação com a humanidade. Na verdade, apesar de sua simetria, haveria dado a impressão de haver crescido de forma natural, como a essência pura da escuridão da natureza expelida por acaso na forma de uma espada requintada.

— Espinho! — sussurrou Binabik, com uma espécie de reverência colorindo sua satisfação.

— Espinho. — repetiu Jiriki, e Simon nem sequer tentou adivinhar os pensamentos por trás de seu nome.

— Então é isso? — disse Sludig por fim. — É uma coisa linda. O que poderia matá-los com uma lâmina dessas em sua posse?

— Quem pode saber o que aconteceu com Colmund? — disse Binabik. — Porém mesmo uma espada como Espinho não se pode comer quando não há comida.

Todos continuaram a encarar a lâmina. Grimmric, que estava mais perto da entrada da caverna, finalmente endireitou-se, abraçando-se com seus braços magros para se proteger do frio.

— Como o gnomo diz, não se pode comer espadas. Vou acender uma fogueira para esta noite.

O erkyno saiu da caverna e parou, alongando-se. Assobiou um pouco; a melodia, fraca a princípio, foi ficando mais forte.

— Há arbustos nas fendas das rochas que podem queimar com nossa lenha. — gritou Sludig atrás.

Haestan inclinou-se para a frente e tocou a lâmina negra com um dedo cauteloso.

— Está fria. — sorriu. — Não é surpresa, não é? — virou-se para Binabik, estranhamente hesitante. — Posso levantá-la?

O gnomo assentiu.

— Com cuidado.

Haestan deslizou os dedos delicadamente sob o cabo envolto em corda e puxou, porém a espada não se moveu.

— Congelada. — supôs. Tentou puxar outra vez, com mais força, sem melhor resultado. — Muito congelada. — ofegou, puxando agora com toda a sua força. Sua respiração subiu como uma nuvem.

Sludig inclinou-se para ajudá-lo. Grimmric, do lado de fora da caverna, parou de assobiar e disse algo ininteligível.

Enquanto o rimmerio e o erkyno se esforçavam, a espada negra enfim começou a se mover, contudo em vez de se libertar do gelo que a aprisionava, a lâmina apenas deslizou um pouco para o lado e parou.

— Não está congelada... — ofegou Sludig. — É pesada como uma mó de moinho. Nós dois juntos mal conseguimos movê-la!

— Como vamos levá-la montanha abaixo, Binabik? — perguntou Simon. Ele queria rir. Era tudo tão bobo e estranho, encontrar uma espada mágica e não conseguir carregá-la! Ele estendeu a mão e sentiu o peso profundo e frio da coisa... E algo mais. Um sensação cálida? Sim, alguma vida indefinível sob a superfície fria, como uma serpente adormecida despertando... Ou estaria imaginando coisas?

Binabik olhou fixamente para a lâmina imóvel e coçou os cabelos desgrenhados, pensativo. Um momento depois, Grimmric apareceu na caverna, acenando com os braços. Ao se virarem para olhá-lo, ele caiu de joelhos e tombou, mole como um saco de farinha.

Uma flecha negra, um espinho de outro tipo, vibrava em suas costas.



***



Uma luz azul banhava a máscara prateada, tocando seus contornos com um fogo pálido.

O rosto por baixo fora outrora o modelo para sua beleza esculpida e desumana, no entanto o que a máscara agora escondia, nenhuma criatura viva poderia dizer. O mundo havia dado incontáveis ​​voltas desde que o rosto de Utuk’ku desaparecera para sempre por trás de suas linhas brilhantes.

A máscara azulada virou-se e examinou o gigantesco salão de pedra, repleto de sombras, observando seus servos que se apressavam enquanto se esforçavam para cumprir todas as suas ordens. Suas vozes se elevavam em cânticos de louvor e lembrança; seus cabelos brancos esvoaçavam nos ventos eternos da Câmara da Harpa. Ela ouviu com aprovação o clangor dos martelos de madeira arcana ecoando pelo labirinto infinito de corredores que permeavam a congelada Nakkiga, a montanha que as Nornas chamavam de Máscara das Lágrimas. Os mortais chamavam seu lar de Pico das Tormentas, e Utuk’ku sabia que assombrava seus sonhos... Como deveria.

O rosto prateado assentiu, satisfeito. Tudo estava pronto.

Suspenso na névoa que coroava o Grande Poço, a Harpa gemeu repentinamente, um som desolado como o vento nos altos desfiladeiros. A Rainha das Nornas sabia que não era a voz Dele... Não era Ele quem podia fazer a Harpa Respiratória cantar e uivar, não era Ele cuja canção irada fazia toda a câmara do poço trovejar com músicas impossíveis. Alguma voz inferior rastejava pela Harpa, presa em suas infinitas complexidades como um inseto em um labirinto selado.

Ela ergueu um dedo enluvado de prata e branco a poucos centímetros da pedra negra de sua cadeira e fez um pequeno gesto. O gemido ficou mais alto, e algo ganhou substância na névoa acima do Poço... A espada cinzenta Jingizu, pulsando com uma luz dolorosa. Algo a segurava... Uma figura sombria, sua mão um nó sem forma em torno do cabo de Jingizu.

Utuk’ku entendeu. Não precisava ver o suplicante; a espada estava lá, muito mais real do que qualquer mortal que tivesse permissão temporária para possuí-la.

— Quem se apresenta perante a Rainha dos Hikeda’ya? — perguntou, sabendo muito bem a resposta.

— Elias, Supremo Rei de Osten Ard. — respondeu a figura sombria. — Decidi aceitar os termos do seu mestre.

A palavra ‘mestre’ a incomodou.

— Mortal... — disse ela por fim, com languidez régia. — O que você deseja lhe será dado. Mas nos fez esperar muito... Quase tempo demais.

— Havia... — a coisa sombria que segurava a espada cambaleou, como se estivesse cansada.

“Quão carnais, quão débeis são esses mortais! Como puderam causar tanto estrago?”

— Eu pensei... — continuou. — Que as coisas seriam... Diferentes. Agora eu me submeto.

— Claro que sim. E receberá o que lhe foi prometido.

— Obrigado, ó Rainha. E eu lhe darei o que prometi em troca...

— É claro que você irá.

Seus dedos enluvados abaixaram, e a aparição desapareceu. Uma luz vermelha floresceu no fundo do Poço quando Ele chegou. Ao tocar da Harpa, o instrumento vibrou em uma nota de triunfo perfeito.



***



— Não... Não quero morrer...! — Grimmric ofegou.

Com espuma de sangue no queixo e na bochecha, os dentes tortos à mostra na boca escancarada, ele parecia uma lebre pega e atacada por cães.

— Está... Está muito frio. — o erkyno tremia.

— Quem fez isso? — Simon guinchou, perdendo o controle da voz em choque e pânico.

— Quem quer que seja... — murmurou Haestan, pálido como a noite enquanto se inclinava sobre o compatriota ferido. — Nos encurralou como coelhos na toca.

— Precisamos sair daqui! — Sludig falou.

— Enrole capas nos braços. — disse Binabik, montando sua zarabatana com os pedaços de seu bastão. — Não temos escudos contra flechas, contudo isso irá ajudar um pouco.

Sem dizer uma palavra, Jiriki passou por cima de Haestan e do caído Grimmric, caminhando em direção à entrada da caverna. An’nai, de lábios cerrados, o seguiu.

— Príncipe Jiriki...? — Binabik começou, no entanto o sitha não lhe deu atenção.

— Vamos! — disse Sludig. — Não podemos deixá-los sair sozinhos.

O rimmerio pegou sua espada do manto onde a havia guardado.

Mesmo enquanto os outros seguiam os sitha até a entrada da caverna, Simon olhou para a espada negra Espinho. Eles tinham vindo de tão longe para encontrá-la... Iriam perdê-la agora? E se escapassem, e o caminho para a caverna fosse barrado e não pudessem voltar? Pousou a mão no cabo e sentiu outra vez a estranha sensação pulsante. Puxou e, para sua surpresa, a espada se ergueu em sua mão. O peso era tremendo, todavia usando as duas mãos conseguiu levantá-la do chão congelado da caverna.

O que estava acontecendo ali? O garoto ficou atônito. Dois homens fortes não conseguiam levantá-la, mas ele sim. Seria magia?

Simon carregou a longa e dolorosamente pesada lâmina até onde seus companheiros estavam. Haestan desamarrou sua capa, porém em vez de enrolá-la no braço para se proteger, colocou-a com cuidado sobre Grimmric. O homem ferido tossiu, cuspindo mais sangue. Ambos os habitantes de Erkynlandia choravam.

Antes que Simon pudesse dizer uma única palavra sobre a espada, Jiriki saiu da entrada da caverna e caminhou até o alpendre rochoso, arrogante como um malabarista.

— Parem! — gritou ele, e as paredes geladas do vale enviaram os ecos de volta. — Quem ataca a companhia do Príncipe Jiriki i-Sa’onserei, filho de Shima’onari e herdeiro da Casa da Dança Anual? Quem ousa guerrear contra os Zida’ya?

Em resposta, uma dúzia de figuras desceu pelas encostas do vale e parou a cem côvados da base da Árvore Udun. Todos estavam armados, todos usavam máscaras e capas brancas com capuz, e cada um ostentava no peito o emblema triangular do Pico das Tormentas.

— Nornas? — Simon engasgou, esquecendo por um instante o estranho objeto que embalava nos braços.

— Não são Hikeda’ya. — disse An’nai. — São mortais que cumprem as ordens de Utuk’ku.

Um dos homens encapuzados deu um passo mancando e rígido para a frente. Simon reconheceu a pele queimada de sol e a barba pálida.

— Vá embora, Zida’ya. — disse Ingen Jegger. Sua voz era lenta e fria. — O Caçador da Rainha não tem nada contra vocês. São esses mortais acovardados que protege que me frustraram e que não podem deixar este lugar.

— Eles estão sob minha proteção, mortal. — o Príncipe Jiriki deu um tapinha em sua espada. — Volte e sente-se debaixo da mesa de Utuk’ku... Você não receberá migalhas aqui.

Ingen Jegger assentiu.

— Que assim seja.

Ele acenou com a mão displicentemente e um de seus caçadores se apressou em puxar o arco e disparar. Jiriki saltou para o lado, puxando Sludig consigo, que estava logo atrás. A flecha se estilhaçou em uma rocha ao lado da entrada da caverna.

— Para o chão! — gritou o Príncipe, enquanto An’nai lançava uma flecha em resposta.

Os caçadores se dispersaram, deixando um de seus companheiros com o rosto na neve. Simon e seus companheiros desceram correndo pelas rochas escorregadias até a base da árvore de gelo enquanto as flechas zuniam ao seu redor.

Em poucos minutos, a escassa ração de flechas de ambos os lados havia se esgotado, contudo não antes de Jiriki atingir outro dos invasores de Ingen, cravando um flecha no olho do homem que corria com a mesma precisão com que se atira em uma maçã equilibrada em uma parede de pedra. Perto dali, Sludig foi atingido na parte carnuda da coxa, no entanto a flecha ricocheteou numa pedra e o rimmerio conseguiu arrancar a ponta e mancar até um abrigo.

Simon agachou-se atrás de um promontório de pedra, parte do tronco da Árvore de Udun, amaldiçoando-se por ter deixado seu precioso arco e flechas na caverna. Observou An’nai, com sua própria aljava esgotada, jogar o arco de lado e desembainhar sua espada escura e esguia; o rosto do sitha era implacável. Simon tinha certeza de que o seu próprio rosto devia ser um reflexo de seu medo interior avassalador, de seu coração acelerado e estômago vazio. Olhou para Espinho e sentiu um pulso de vida nela. A massa pesada havia se tornado diferente de alguma forma, animada, como se estivesse cheia de abelhas zumbindo; parecia um animal preso, se mexendo enquanto respirava os aromas tentadores da liberdade.

Um pouco à sua esquerda, do outro lado do tronco de pedra, Haestan e Sludig avançavam furtivamente, usando os grandes galhos de gelo retorcidos como cobertura. Agora a salvo das flechas, Ingen reunia seus caçadores para um ataque no vale.

— Simon! — uma voz sibilou.

Assustado, se virou e viu Binabik agachado na saliência rochosa acima de sua cabeça.

— O que vamos fazer? — perguntou o jovem, tentando manter a voz firme, embora sem sucesso. Todavia o gnomo encarava o corpo negro de Espinho, aninhada nos braços de Simon como uma criança.

— Como...? — perguntou Binabik, com o rosto redondo cheio de surpresa.

— Eu não sei, só peguei! Não sei! O que vamos fazer?

O gnomo balançou a cabeça.

— Agora você deve ficar aqui. Vou ajudar no que puder. Gostaria de ter uma lança.

Ele saltou levemente, seu calcanhar espalhando uma pedrinha em Simon enquanto passava correndo.

— Por Josua, o Manco! — Haestan gritou e saiu correndo da beirada da Árvore de Udun para o chão branco do vale, com Sludig mancando resolutamente atrás. Assim que alcançaram a neve profunda, diminuíram o passo como se estivessem correndo em lama. Os caçadores de Ingen avançaram em direção a eles, executando a mesma dança hesitante e mortal.

Haestan brandiu sua pesada espada, porém antes mesmo de alcançar os atacantes, a primeira figura de manto branco caiu, agarrando a garganta.

— Yiqanuc! — Binabik gritou triunfante, depois se agachou para repor sua zarabatana.

O clangor das espadas reverberou quando o primeiro dos homens de Ingen alcançou Haestan e Sludig. Os sitha chegaram um instante depois, movendo-se com grande agilidade sobre a neve, contudo ainda assim os companheiros estavam em grande desvantagem numérica. Um momento depois, o alto Haestan foi atingido pelo lado plano da lâmina em seu crânio encapuzado e caiu em uma nuvem de neve. Apenas An’nai, saltando para frente e ficando sobre ele, impediu que fosse empalado ali mesmo.

As lâminas brilhavam sob a tênue luz do sol, e gritos de dor e fúria quase abafaram o choque do metal. Simon viu, com o coração apertado, que Binabik, cujos dardos restantes se provaram inúteis contra os grossos mantos dos caçadores, estava sacando sua longa faca do cinto.

“Como ele pode ser tão corajoso? Ele é muito pequeno, eles o matarão antes que consiga chegar perto o suficiente para usá-la!”

— Binabik! — gritou o garoto, e se levantou. Ergueu a pesada espada negra acima da cabeça, sentindo seu grande peso o puxando enquanto cambaleava para frente.

De repente, o chão cedeu sob seus pés. Simon cambaleou, abriu as pernas e então sentiu a própria montanha balançar. Um guincho estrondoso perfurou seus ouvidos, como o som de uma pedra pesada sendo arrastada por uma pedreira.

Os combatentes pararam, atônitos, e olharam para os próprios pés.

Com outro grito horrível de gelo torturado, o chão começou a se expandir. No centro do vale, a poucos côvados de onde Ingen Jegger estava parado, boquiaberto em terrível confusão, uma grande placa de gelo emergiu, rachando e se deformando à medida que subia, com a neve deslizando em grandes montes.

Impulsionado pela súbita mudança do chão sob seus pés, Simon tropeçou e caiu para a frente, agarrando-se o mais firme que podia a Espinho, e parou quase no meio dos combatentes. Ninguém pareceu notá-lo, todos estavam congelados no lugar, como se o próprio gelo da Árvore de Udun tivesse transformado seu sangue em gelo paralisante, boquiabertos com a coisa impossível que emergia de debaixo da neve.

O dragão de gelo.

Uma cabeça serpentina tão comprida quanto um homem surgiu da fenda recém-formada, cheia de escamas brancas acima de uma boca cheia de dentes, os olhos azuis e opacos. Ela balançava sinuosamente de um lado para o outro em seu longo pescoço, como se observasse com curiosidade as minúsculas criaturas que a haviam despertado de um sono de anos. Então, terrivelmente rápida, disparou e agarrou um dos caçadores em suas mandíbulas, mordendo-o ao meio e engolindo suas pernas. Seu torso esmagado e ensanguentado caiu na neve como um trapo descartado.

— Igjarjuk! É Igjarjuk! — veio o grito fraco de Binabik.

A cabeça de marfim brilhante abocanhou outra presa gritando, envolta em um manto branco. Enquanto os outros se dispersavam, seus rostos vazios de horror inconsciente, pés brancos com garras abertas agarraram a borda da fenda, e o longo corpo do dragão, costas cobertas por uma estranha pelagem pálida, amarelada como pergaminho antigo, emergiu aos poucos de baixo. Uma cauda semelhante a um chicote, longa como um campo de torneio, arrastou dois dos caçadores, que choramingavam, para dentro da cratera.

Simon sentou-se atordoado na neve, incapaz de acreditar na coisa monstruosa que se agachava na borda da fenda no gelo como um gato no encosto de uma cadeira. A cabeça de focinho comprido inclinou-se para olhá-lo, e os olhos azuis escuros e fixos o encararam com uma malícia calma e atemporal. Sua cabeça latejava, como se tentasse olhar através da água... Aqueles olhos, ocos como fendas glaciais! A criatura o viu, o reconheceu de alguma forma... Era tão antiga quanto os ossos das montanhas, tão sábia, cruel e indiferente quanto o próprio Tempo.

As mandíbulas se abriram e uma lasca de língua negra saiu, provando o ar. A cabeça se aproximou.

— Ske’i, cria de Hidohebhi! — gritou uma voz. Um instante depois, An’nai saltou para a traseira da criatura, agarrando-se à pelagem espessa para se apoiar. Cantando, ergueu a espada e golpeou uma perna escamosa. Simon se levantou e cambaleou para trás, enquanto o dragão erguia a cauda e a esmagava contra o sitha; An’nai voou cinquenta côvados e pousou encolhido na neve na borda exposta do vale, sem nada além de névoa. Jiriki correu atrás dele com um grito de raiva e desespero.

— Simon! — gritou o gnomo. — Corra! Não podemos fazer nada!

Ao ouvir o grito, a névoa que envolvia a lucidez de Simon começou a dissipar-se. Em instantes se levantou e começou a correr atrás de Jiriki. Binabik, que estava empoleirado na borda da fenda, atirou-se para trás quando o dragão atacou, e as grandes mandíbulas se fecharam no nada com um som como o de um portão de ferro. O gnomo caiu numa fenda no gelo e desapareceu.

Jiriki se encolheu sobre o corpo de An’nai, imóvel como uma estátua. Correndo em sua direção, Simon olhou por cima do ombro e viu Igjarjuk deslizando da muralha de gelo quebrada e atravessando o pequeno vale, suas curtas patas agarrando o gelo enquanto serpenteava pelo chão, diminuindo rapidamente a distância entre si e sua presa cambaleante.

O garoto tentou gritar o nome de Jiriki, no entanto sua garganta não atendeu aos seus anseios; tudo o que saiu foi um grunhido estrangulado. O sitha se virou. Seus olhos âmbar brilhavam. Ele se levantou ao lado do corpo de seu camarada, erguendo sua longa espada de madeira arcana, entalhada com runas.

— Venha, Ancião! — gritou Jiriki. — Venha até mim e prove Indreju! Filho bastardo de Hidohebhi!

Simon fez uma careta enquanto corria em direção ao Príncipe. Não precisava gritar, o dragão estava vindo por conta própria.

— Fique para trás... — Jiriki começou a dizer quando Simon o alcançou, então o sitha abruptamente se inclinou para a frente; a neve sob seus pés havia cedido. Jiriki deslizou para trás em direção à borda do vale e à distância vazia além. Desesperado, estendeu a mão para agarrar a neve. Parou, agarrando-se, com os pés balançando sobre o nada. An’nai, um emaranhado ensanguentado, jazia intocado a um côvado de distância.

— Jiriki...!

Simon parou. Havia um ruído como um trovão vindo de trás. Ele se virou bruscamente para ver a vasta massa branca de Igjarjuk se aproximando, a cabeça balançando de um lado para o outro com o movimento das patas. Mergulhando para um lado, para longe de Jiriki e An’nai, seu corpo rolou e se levantou. Os olhos azuis arregalados o seguiram, e a criatura, agora a apenas cem passos de distância, desviou para segui-lo.

Simon percebeu que ainda carregava Espinho. Ele a ergueu; de repente, estava leve como uma vara de salgueiro e parecia cantar em suas mãos, como uma corda serrada pelo vento. Olhou para trás por cima do ombro, apenas alguns passos de chão, depois o ar vazio. Um dos picos distantes pairava nas névoas rodopiantes do outro lado do abismo... Branco, silencioso, sereno.

“Que Jesuris me proteja!” rogou. “Por que o dragão não faz nenhum som?”

Sua mente parecia flutuar solta dentro de seu corpo. Uma mão deslizou até o cachecol de Miriamele em sua garganta, e então agarrou o cabo envolto em prata mais uma vez. A cabeça de Igjarjuk pairava no horizonte, a garganta um poço negro, o olho uma lanterna azul. O mundo parecia construído de silêncio.

O que deveria gritar por fim?

Ele se lembrou do que Jiriki dissera certa vez sobre os mortais, mesmo enquanto o almíscar gélido do dragão soprava sobre ele, um fedor como terra fria e azeda e pedras molhadas.

— Aqui estou eu! — gritou, e trouxe Espinho assobiando em direção ao olho maligno. — Eu sou... Simon!


Algo se prendeu à lâmina, e um jato de sangue negro jorrou sobre ele, queimando como fogo, como gelo, queimando seu rosto enquanto algo branco e imenso irrompia e o arrastava para a escuridão.

***

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