Capítulo 40: A Tenda Verde
— Não, Príncipe Josua. Não podemos permitir que faça uma coisa tão insensata. — Isorn sentou-se pesadamente, apoiando-se na perna.
— Não podem? — o Príncipe ergueu o olhar do chão para o rimmerio. — Vocês são meus guardiões? Sou um regente criança ou um idiota, para que me digam o que fazer?
— Meu senhor... — disse Deornoth, colocando a mão no joelho de Isorn para instá-lo ao silêncio. — Você é o mestre aqui, é claro. Não o seguimos? Não lhe juramos todos lealdade? — cabeças ao redor da sala assentiram sombriamente. — Mas está exigindo muito de nós, deve saber disso. Depois de tamanha traição como a que nos foi feita, realmente acredita que pode confiar no Rei?
— Eu o conheço como nenhum de vocês. — Josua, como se consumido por um fogo interior, saltou da cadeira e caminhou até sua mesa. — Ele quer me matar, é certo, mas não de tal maneira. Não de forma tão desonrosa. Se ele jurar salvo-conduto... E se evitarmos a estupidez óbvia... Então voltarei ileso. Ele ainda quer agir como o Supremo Rei, e o Supremo Rei não mata seu irmão desarmado sob uma bandeira de trégua.
— Então por que te jogou na cela que mencionou? — perguntou Ethelferth de Tinsett, franzindo a testa. — Acha que aquilo é prova de honra?
— Não! — respondeu Josua. — Porém não acho que tenha sido ideia de Elias. Não vejo outra mão além da de Pryrates ali... Pelo menos até o ato ser consumado. Elias se tornou um monstro, Deus me ajude, pois já foi meu irmão em mais do que sangue, contudo ainda tem um estranho senso de honra, é o que acredito.
Deornoth sibilou para o ar.
— Como demonstrou a Leobardis?
— A honra de um lobo, que mata os fracos e foge dos fortes. — zombou Isorn.
— Acho que não. — a careta paciente de Josua se tornou mais tensa. — O parricídio de Benigaris me parece uma vingança. Suspeito que Elias...
— Príncipe Josua, com seu perdão... — Jarnauga interrompeu, arqueando as sobrancelhas ao redor da sala. — Não acha que está se esforçando para encontrar desculpas para seu irmão? Essas são preocupações úteis que seus súditos têm. Só porque Elias pede para negociar não significa que está obrigado a ir até ele. Ninguém questionará sua honra se viesse a se negar.
— Que Aedon me proteja, homem, não me importo nem um pouco com o que qualquer um pensa da minha honra! — o Príncipe retrucou. — Conheço meu irmão, e o conheço de maneiras que nenhum de vocês consegue entender... E não me diga que ele mudou, Jarnauga. — falou Josua, antecipando as palavras do velho. — Pois ninguém sabe disso melhor do que eu. No entanto, mesmo assim, irei, e não preciso explicar mais nada. Quero que todos me deixem agora. Tenho outros assuntos em que pensar.
Virando-se da mesa, acenou para que saíssem da sala.
***
— Por acaso enlouqueceu, Deornoth? — perguntou Isorn, com o rosto largo pesado de apreensão. — Como pode cair nas mãos ensanguentadas do Rei desse jeito?
— Teimosia, Isorn... Ah, quem sou eu para dizer? Talvez ele saiba do que está falando. — Deornoth balançou a cabeça. — Aquela maldita coisa ainda está lá?
— A tenda? Sim. Logo fora do alcance do arco e flecha das muralhas, e também bem fora do alcance do acampamento de Elias.
Deornoth caminhava devagar, permitindo que o jovem rimmerio ditasse o ritmo exigido por sua perna ferida.
— Deus nos proteja, Isorn, nunca o vi assim, e o sirvo desde que tive idade suficiente para desembainhar uma espada. É como se quisesse provar que Gwythinn estava errado ao chamá-lo de ‘relutante’. — Deornoth suspirou. — Bem, se não há como detê-lo, devemos fazer o possível para protegê-lo. O arauto do Rei disse dois guardas, não mais?
— E o mesmo para o Rei.
Deornoth assentiu, pensativo.
— Se este meu braço... — disse, apontando para a tipoia de linho branco. — Estiver móvel depois de amanhã, então nenhuma força na Terra me impedirá de ser um daqueles guardas.
— E eu serei o outro! — disse Isorn.
— Acho melhor que fique dentro das muralhas com uns vinte homens a cavalo. Vamos falar com o Lorde Condestável Eadgram. Se houver uma emboscada, se ao menos um pardal for visto voando do acampamento do Rei em direção àquela tenda, você pode chegar lá num instante.
Isorn assentiu.
— Suponho que sim. Talvez possamos falar com o sábio Jarnauga, pedir-lhe que de a Josua algum amuleto para protegê-lo.
— O que ele precisa, e me dói dizer isso, é de um feitiço para protegê-lo de sua própria imprudência. — Deornoth passou por cima de uma grande poça d’água. — De qualquer forma, nenhum amuleto é à prova de uma adaga pelas costas.
***
Os lábios de Lluth estavam em constante movimento silencioso, como se oferecessem uma série interminável de explicações. Seu murmúrio havia se transformado em silêncio no dia anterior; Maegwin se amaldiçoou por não ter anotado suas últimas palavras, entretanto tinha certeza de que ele encontraria a voz novamente, como fizera muitas vezes desde que fora ferido. Desta vez, pressentia, não encontraria.
Os olhos do Rei estavam fechados, todavia seu rosto pálido como cera percorria incessantemente expressões de medo e tristeza. Tocando sua testa ardente, sentindo os músculos se contraírem de leve nos ritmos incompletos da fala, ela sentiu outra vez como se devesse chorar, como se as lágrimas que brotavam dentro dela, não derramadas, por fim forçassem sua saída através da própria pele. Mas não chorava desde a noite em que seu pai liderara o exército para Inniscrich... Nem mesmo quando o trouxeram de volta em uma liteira, enlouquecido de dor, os metros de pano que envolviam seu estômago encharcados de sangue escuro. Se não chorou naquela ocasião, nunca mais choraria. Lágrimas eram para crianças e idiotas.
Uma mão tocou seu ombro.
— Maegwin. Princesa.
Era Eolair, seu rosto inteligente contorcido em tristeza tão cuidadosamente quanto um robe de verão guardado para o inverno.
— Preciso falar com você lá fora.
— Vá embora, Conde! — disse, olhando para a cama rústica de toras e palha. — Meu pai está morrendo.
— Compartilho sua dor, senhora. — seu toque era mais pesado, como o de um animal farejando às cegas na escuridão. — Acredite em mim, eu compartilho. Porém os vivos precisam viver, os deuses sabem, e seu povo precisa de você neste momento. — como se sentisse suas palavras frias demais, orgulhosas demais, o Conde apertou de leve seu braço e a soltou. — Por favor. Lluth ubh-Llythinn não gostaria que fosse de outra forma.
Maegwin conteve uma resposta amarga. Ele estava certo, é claro. Ela se levantou, com os joelhos doendo por causa do chão de pedra da caverna, e o seguiu, passando por sua silenciosa madrasta, Inahwen, que estava sentada aos pés da cama, encarando fixa as tochas bruxuleantes na parede.
“Olhe para nós...” pensou Maegwin, maravilhada. “Os hernystiros levaram milhares e milhares de anos para rastejar para fora das cavernas em direção à luz do sol.” sua cabeça abaixou para passar sob o ponto mais baixo do teto da caverna, semicerrando os olhos contra a fumaça áspera das tochas. “E, no entanto, levou menos de um mês para nos obrigarem a voltar para dentro. Estamos nos tornando animais. Os deuses nos viraram as costas.”
Erguendo a cabeça ao emergir para a luz do dia atrás de Eolair. A desordem do acampamento diurno estava ao seu redor; crianças cuidadosamente observadas brincando no chão lamacento, mulheres da corte... Muitas em farrapos de suas melhores roupas... De joelhos preparando esquilo e lebre para o ensopado e moendo grãos em pedras planas. As densa árvores que cresciam ao redor, na encosta rochosa da montanha, curvavam-se ao vento.
Quase todos os homens haviam partido; aqueles que não estavam mortos no Inniscrich ou recebendo tratamento para seus ferimentos no labirinto de cavernas estavam caçando ou guardando as encostas mais baixas contra qualquer movimento do exército de Skali para enfim esmagar a resistência debilitada de Hernystir.
“Tudo o que nos resta são memórias...” pensou ela, olhando para sua saia manchada e esfarrapada e para os esconderijos de Grianspog. “Estamos encurralados como uma raposa. Quando Elias, o mestre, vier buscar a presa de seu cão Skali, estaremos perdidos.”
— O que você quer, Conde Eolair? — perguntou.
— Não é o que quero, Maegwin. — respondeu o Conde, balançando a cabeça. — É Skali. Alguns sentinelas voltaram para dizer que ele passou a manhã toda no fundo do Moir Brach, gritando por seu pai.
— Deixe o porco gritar! — resmungou Maegwin. — Por que nenhum dos homens acerta uma flecha em sua pele imunda?
— Ele não está perto de um tiro de arco, Princesa. E tem cinquenta homens o acompanhando. Não, acho que devemos descer e ouvi-lo... Escondidos, é claro, fora da vista.
— É claro. — disse ela com desdém. — Por que deveríamos nos importar com o que Nariz Afiado tem a dizer? Não duvido que venha exigir rendição outra vez.
— É possível. — Conde Eolair baixou os olhos, pensativo, e Maegwin sentiu uma onda de tristeza por ele, por ter que suportar sua má vontade. — Entretanto acho que há algo mais aqui, senhora. Segundo nossos homens, está lá há mais de uma hora.
— Muito bem! — disse Maegwin, querendo se afastar da cama escura de Lluth e se odiando por esse desejo. — Deixe-me calçar meus sapatos e irei com você.
***
Levou quase uma hora para descer a encosta da montanha arborizada. O chão estava úmido e o ar frio; a respiração de Maegwin saía em pequenas nuvens enquanto descia com cuidado pelas ravinas atrás de Eolair. O frio cinzento havia expulsado os pássaros do Circoille, ou os entorpecido em silêncio. Nenhum som acompanhava sua passagem, exceto o murmúrio trêmulo dos galhos agitados pelo vento.
Observando o Conde de Nad Mullach abrindo caminho agilmente pela vegetação rasteira, tão parecido com uma criança com suas costas esguias e a brilhante cauda de cabelo, com seus movimentos tão rápidos e impensados, Maegwin foi novamente tomada por um amor fraco e desesperado por ele. Parecia-lhe um sentimento tão ridículo... Uma criança alta e desajeitada, filha de um homem moribundo... Que se transformou em uma espécie de raiva. Quando Eolair se virou para ajudá-la a atravessar uma pedra saliente, ela franziu a testa como se a tivesse insultado em vez de estender a mão.
Os homens que se aglomeravam no bosque com vista para a longa crista chamada Moir Brach olharam para cima, assustados com a aproximação de Eolair e Maegwin, mas logo abaixaram de volta seus arcos e acenaram para que os dois avançassem. Espiando através das samambaias ao longo da crista rochosa que lhe dava nome, ela viu uma multidão de figuras semelhantes a formigas na base, a cerca de cinco metros de distância.
— Ele parou de falar agora há pouco... — sussurrou um dos sentinelas, um menino, com os olhos arregalados de nervosismo. — Vai começar de novo, Princesa, você vai ver.
Como se fosse uma confirmação planejada, uma das figuras saiu da multidão de homens de capacete e capa que cercavam uma carroça puxada por cavalos. A figura levou as mãos à boca e ficou de frente, ligeiramente ao norte do esconderijo dos vigias.
— ... da última vez... — sua voz subiu, abafada pela distância. — Ofereço a voc... Reféns... Em troca de...
Maegwin se esforçou para decifrar as palavras. Informações?
— ... sobre o garoto do mago e... A Princesa.
Eolair lançou um olhar rápido para Maegwin, que permanecia imóvel. O que eles queriam com ela?
— Se vocês não nos disserem... Onde... A Princesa está... Nós... Faremos esses reféns...
O homem que falou, e Maegwin tinha certeza em seu coração que era o próprio Skali, apenas pela postura de pernas afastadas e pelo tom azedo e zombeteiro que nem mesmo a distância conseguia disfarçar, acenou com o braço, e uma figura lutando, vestida com um trapo azul-claro, foi retirada da carroça e trazida para onde estava. Maegwin olhou fixamente, sentindo uma pressão desagradável no coração. Tinha certeza de que aquele vestido azul-claro pertencia a Cifgha... A pequena Cifgha, bonita e tola.
— Se não nos disserem... Vocês sabem... A Princesa Miriamele, as coisas... ficarão mal para estes... — Skali fez um gesto e a garota que se debatia e chorava baixinho, que talvez não fosse realmente Cifgha, Maegwin tentou convencer a si mesma... Foi jogada de volta na carroça, em meio a outros cativos pálidos, deitados em fila no leito da carroça como dedos.
“Então, era a Princesa Miriamele que procuravam.” ela se maravilhou. “A filha do Supremo Rei! Teria fugido? Ou teria sido sequestrada?”
— Não podemos fazer nada? — sussurrou para Eolair. — E quem é ‘o garoto do mago’?
O Conde balançou a cabeça, a frustração estampada em cada linha do rosto.
— O que poderíamos fazer, Princesa? Skali adoraria que descêssemos. Ele tem dez vezes mais homens do que nós!
Longos minutos se passaram em silêncio enquanto Maegwin observava, a fúria a consumindo como uma criança mimada. Pensava no que mais dizer a Eolair e aos outros... Como lhes diria que, se nenhum dos homens quisesse ir, ela mesma desceria até Taig e resgataria os cativos de Skali... Ou, mais provavelmente, morreria bravamente na tentativa... Quando a figura corpulenta abaixo, agora sem capacete, revelando a pequena mancha amarela que eram seu cabelo e barba, voltou para a base do Moir Brach.
— Muito bem! — rugiu. — Que Lokën os amaldiçoem... Teimosos! Nós... E levarmos isso conosco... — a pequena figura apontou para a carroça. — Mas... Deixarei um presente para você!
Algo foi desamarrado de um dos cavalos, um embrulho escuro, e jogado aos pés de Skali Nariz Afiado.
— Só por precaução... Esperando por ajuda! Será de pouca utilidade contra... Kaldskryke!
Um instante depois, montou em seu cavalo e, com o som áspero de uma trompa, ele e seus rimmerios partiram pelo vale em direção a Hernysadharc, com a carroça sacudindo atrás deles.
***
Eles esperaram uma hora antes de descerem com toda cautela o barranco, movendo-se com a mesma atenção de uma corça atravessando uma clareira. Ao chegarem ao fundo do Moir Brach, correram até o embrulho preto que Skali havia deixado para trás.
Quando foi aberto, os homens gritaram de horror e choraram, soluços convulsivos de profunda tristeza... Todavia Maegwin não derramou uma lágrima, mesmo quando viu o que Skali e seus carrascos haviam feito com seu irmão Gwythinn antes de sua morte. Quando Eolair passou um braço em volta de seus ombros para ajudá-la a se afastar do embrulho encharcado de sangue, ela o sacudiu com raiva, depois se virou e lhe deu um tapa forte na bochecha. O Conde não se defendeu, apenas a encarou. As lágrimas que enchiam seus olhos, ela sabia, não eram do golpe... E naquele momento, aquilo a fez odiá-lo ainda mais.
Porém seus próprios olhos permaneceram secos.
***
Flocos de neve enchiam o ar, turvando a visão, pesando nas roupas, gelando os dedos e as orelhas com uma dor aguda, contudo Jiriki e seus três companheiros sitha pareciam não se importar muito. Enquanto Simon e os outros seguiam a cavalo, os sitha caminhavam alegremente à frente, parando para esperar que os cavaleiros os alcançassem, pacientes como gatos bem alimentados, com uma serenidade indecifrável por trás de seus olhos luminosos. Caminhando o dia todo, do nascer ao pôr do sol, Jiriki e seus companheiros pareciam tão ágeis pelo acampamento naquela noite quanto ao amanhecer.
Simon aproximou-se, hesitando, de An’nai enquanto os outros procuravam lenha seca para a fogueira da noite.
— Posso lhe fazer algumas perguntas? — perguntou.
O sitha ergueu seu olhar imperturbável.
— Pergunte.
— Por que o tio do Príncipe Jiriki ficou zangado por ele ter decidido vir conosco? E por que trouxe vocês três?
An’nai levou uma mão fina à boca como se quisesse esconder um sorriso, embora não houvesse sorriso algum. Um instante depois, a abaixou de volta, revelando a mesma expressão impassível.
— O que acontece entre o Príncipe e S’hue Khendraja’aro não me cabe averiguar, então não posso compartilhar. — ele assentiu uma vez. — Quanto à outra pergunta, talvez o próprio possa respondê-la melhor... Certo, Jiriki?
Simon ergueu os olhos, surpreso, e encontrou o Príncipe parado atrás dele, os lábios finos curvados em um sorriso.
— Por que eu trouxe estes três? — perguntou Jiriki, fazendo um gesto amplo de An’nai para os outros dois sitha, retornando de uma busca ao redor do perímetro densamente florestado do acampamento. — Ki’ushapo e Sijandi eu trouxe porque alguém precisa cuidar dos cavalos.
— Cuidar dos cavalos?
Jiriki ergueu uma sobrancelha e estalou os dedos.
— Gnomo... — gritou por cima do ombro. — Se esse rapaz é seu aluno, então você é um péssimo professor! Sim, Seoman, os cavalos... Ou você esperava vê-los escalar as montanhas ao seu lado?
Simon ficou perplexo.
— E-Escalar? Os cavalos? Não pensei nisso... Quero dizer, não poderíamos apenas deixá-los? Deixá-los ir? — não parecia justo; nunca se sentira muito mais do que uma borla pendurada em sua jornada... Exceto, é claro, pela Flecha Branca... E agora o sitha o responsabilizava pelos cavalos!
— Deixá-los ir? — a voz de Jiriki era áspera, quase raivosa, no entanto seu rosto seguia impassível. — Deixá-los morrer, quer dizer? Depois de terem sido levados muito além do que eles mesmos conseguiriam ir, devemos libertá-los para que lutem para atravessar as vastidões nevadas ou morram?
Simon estava prestes a protestar, a salientar que não era sua responsabilidade, mas decidiu que não valia a pena discutir.
— Não! — respondeu. — Não, não devemos deixá-los morrer sozinhos.
— Além disso... — disse Sludig, passando com um braçado de lenha nos braços. — Como então atravessaríamos o caminho de volta por conta própria?
— Exato. — disse Jiriki, com um sorriso largo; estava satisfeito. — Então trouxe Ki’ushapo e Sijandi. Eles cuidarão dos cavalos e prepararão as coisas para o meu... Para o nosso retorno. — as pontas de seus dedos indicadores foram unidas, como se indicasse algum tipo de conclusão. — Agora, An’nai... — continuou. — É uma questão mais complexa. O motivo de estar aqui é mais parecido com o meu.
Seu olhar se virou para o outro sitha.
— Honra! — disse An’nai, com os olhos baixos, encarando os próprios dedos entrelaçados. — Eu prendi o Hikka Staja... O Portador da Flecha. Não demonstrei o devido respeito por um... Hóspede sagrado. Portanto, venho para expiar minha dívida.
— Uma pequena dívida... — aclarou Jiriki. — Comparada à minha grande dívida, porém An’nai fará o que for preciso.
Simon se perguntou se An’nai havia decidido por conta própria ou se Jiriki o havia forçado a se juntar a eles. Era difícil saber qualquer coisa sobre esses sitha, como pensavam, o que queriam. Eram tão terrivelmente diferentes, tão delicados e tão sutis!
— Venham! — anunciou Binabik. Uma pequena chama tremulou diante dele, e a abanou com as mãos. — Agora vamos acender uma fogueira, e tenho certeza de que todos estarão interessados em um pouco de comida e vinho para aquecer os seus estômagos.
***
Nos dias seguintes de cavalgada, deixaram para trás o norte de Aldheorte, descendo o último declive das colinas de Wealdhelm até a planície varrida pela neve.
Sempre fazia frio. Agora, em cada longa noite, em cada dia branco e sombrio... Um frio cortante e amargo. A neve voava continuamente contra o rosto de Simon, ardendo em seus olhos, queimando e rachando seus lábios. Seu rosto avermelhava dolorosamente, como se tivesse ficado tempo demais no sol, e mal conseguia segurar as rédeas do cavalo de tanto tremer. Era como ser jogado ao relento para sempre, um castigo que já durava tempo demais. Ainda assim, não havia nada que pudesse fazer para remediar a situação, a não ser oferecer orações silenciosas a Jesuris todos os dias, pedindo forças para aguentar até que o acampamento fosse montado.
“Pelo menos...” refletiu consigo, com as orelhas ardendo mesmo sob o capuz da capa. “Pelo menos Binabik está se divertindo.”
O gnomo estava, de fato, em seu elemento, cavalgando à frente, incentivando seus companheiros, rindo de vez em quando por puro prazer enquanto ele e Qantaqa saltavam pelas crescentes dunas de neve. Longas noites ao redor da fogueira, enquanto os outros companheiros mortais tremiam e untavam suas luvas e botas encharcadas de granizo. Binabik detalhou os diferentes tipos de neve e os vários sinais que prenunciavam avalanches, tudo para prepará-los para as montanhas que se erguiam implacáveis no horizonte à sua frente, severas e julgadoras como deuses em suas coroas de neve branca.
A cada dia, a grande cordilheira à sua frente parecia maior, sem nunca parecer um palmo mais perto, não importava o quão longe cavalgassem. Depois de uma semana nos ermos inóspitos e sem graça, Simon começou a ansiar pelo bosque de Dimmerskog, de fama duvidosa, ou mesmo pelos picos fustigados pelo vento das próprias montanhas... Qualquer coisa, menos esta planície de neve interminável e gélida.
***
No sexto dia, passaram pelas ruínas da abadia de São Skendi. Estava quase toda coberta por montes de neve, apenas a torre da capela se projetava um pouco acima da superfície, uma Árvore de ferro circundada pelas espirais de alguma besta serpentina coroando seu telhado apodrecido. Erguendo-se através da névoa carregada de gelo à sua frente, parecia um navio quase afundado em um mar de um branco puríssimo.
— Quaisquer que sejam os segredos que guarde, o que quer que saiba sobre Colmund ou a espada Espinho, ela os guarda oculto para nós. — disse Binabik enquanto seus cavalos passavam penosamente pela abadia submersa.
Sludig fez uma Árvore em sua testa e coração, com os olhos preocupados, mas os sitha circularam devagar, olhando como se nunca tivessem visto nada tão interessante.
***
Enquanto os viajantes se reuniam ao redor da fogueira naquela noite, Sludig exigiu saber por que Jiriki e seus companheiros haviam passado tanto tempo examinando o mosteiro perdido.
— Porque... — disse o Príncipe. — Achamos agradável.
— O que isso significa? — perguntou Sludig, irritado e perplexo, olhando para Haestan e Grimmric como se eles pudessem saber o que os sitha queriam dizer.
— Talvez seja melhor não falar dessas coisas. — disse An’nai, fazendo um gesto de achatamento com os dedos abertos. — Somos companheiros nesta fogueira.
Jiriki dirigiu um solene olhar para o fogo por um momento, então seu rosto revelou um sorriso estranho e travesso. Simon se maravilhou; às vezes era difícil imaginar Jiriki sendo mais velho do que ele, tão jovem e imprudente seu comportamento parecia por vezes. Porém também se lembrou da caverna com vista para a floresta. Juventude e velhice misturadas de forma confusa; era assim que Jiriki era.
— Nós contemplamos coisas que nos interessam. — disse Jiriki. — Assim como os mortais. Apenas os motivos são diferentes, e os nossos vocês provavelmente não entenderiam.
Seu largo sorriso parecia amigável, contudo agora Simon detectou uma nota dissonante, algo fora do lugar.
— A questão, nortenho... — continuou Jiriki. — É por que nosso olhar o ofende tanto?
Por um momento, o silêncio pairou sobre a fogueira enquanto Sludig mantinha um olhar fixo no Príncipe sitha. As chamas estalavam e crepitavam na madeira úmida, e o vento uivava, fazendo os cavalos se mexerem nervosamente.
Sludig baixou os olhos.
— Podem olhar o que quiserem, é claro. — falou, sorrindo tristemente; sua barba loira estava salpicada de neve derretida. — É só que me lembrou de Saegard... Dos Skipphavven. Foi como se tivessem zombado de algo querido para mim.
— Skipphavven? — Haestan resmungou, afundado em suas peles. — Nunca ouvi falar. Não é uma igreja?
— Barcos... — disse Grimmric, franzindo o rosto estreito em lembrança. — Há barcos ali.
Sludig assentiu, com o rosto sério.
— Você diria Porto dos Navios. É onde repousam os drakkar de Rimmersgardia.
— No entanto os rimmerios já não navegam! — Haestan ficou surpreso. — Em toda a Osten Ard, nenhuma outra raça é tão ligada à terra!
— Ah, mas nós navegávamos. — o rosto de Sludig brilhou com o reflexo da luz da fogueira. — Antes de atravessarmos o mar... Quando vivíamos em Ijsgard, no Oeste perdido... Nossos pais queimavam homens e enterravam navios. Pelo menos, é o que dizem nossas histórias.
— Homens queimados...? — Simon se perguntou.
— Os mortos! — explicou Sludig. — Nossos pais construíram navios funerários de freixo novo e cremaram os mortos na água, enviando suas almas para o alto com a fumaça. Entretanto nossos grandes navios longos, aqueles que nos transportaram pelos oceanos e rios do mundo... Os navios que eram nossas vidas tão seguramente quanto o acre de um terreno para um agricultor ou o rebanho de um pastor... Esses nós enterramos na terra quando ficaram velhos demais para navegar, para que suas almas fossem para as árvores e as fizessem crescer retas e altas para se tornarem novos navios.
— Todavia isso foi do outro lado do oceano, você disse... Há muito tempo. — observou Grimmric. — Saegard fica aqui, não é? Em Osten Ard?
Os sitha ao redor da fogueira permaneceram em silêncio e imóveis, observando atentos enquanto Sludig respondia.
— Fica. Foi lá que a quilha do barco de Elvrit tocou terra pela primeira vez, e onde disse: ‘Atravessamos o oceano negro para um novo lar’.
Sludig olhou ao redor do círculo.
— Eles enterraram os grandes navios longos lá. ‘Nunca mais voltaremos a atravessar aquele mar assombrado por dragões’, disse Elvrit. Ao longo de todo o vale de Saegard, aos pés das montanhas, jazem os montes dos últimos navios. No promontório à beira-mar, sob o maior monte, enterraram o navio de Elvrit, Sotfengsel, deixando apenas seu alto mastro emergindo da terra como uma árvore sem galhos... Foi isso que vi em minha mente quando vi a abadia.
Sua cabeça balançou, os olhos brilhando com as lembranças.
— O visco cresce no mastro de Sotfengsel. Todos os anos, no dia da morte de Elvrit, as bagas brancas do visco são colhidas por jovens donzelas de Saegard e levadas para a igreja...
Sludig parou de falar. O fogo crepitou.
— O que você não conta... — disse Jiriki depois de um tempo. — É como seu povo veio para esta terra apenas para expulsar outros dela.
Simon respirou fundo. Pressentia algo assim sob a superfície plácida do Príncipe.
Sludig respondeu com uma surpreendente brandura, talvez ainda pensando nas piedosas donzelas de Saegard.
— Não posso desfazer o que meus ancestrais fizeram.
— Há verdade nisso... — disse Jiriki. — Porém nós, Zida’ya... Nós, sitha... Também não cometeremos o mesmo erro que nossos parentes cometeram antes de nós. — seu olhar feroz se virou para Binabik, que o encarou solenemente. — Algumas coisas precisam ser esclarecidas entre nós, Binbiniqegabenik. Eu só falei a verdade quando expliquei meus motivos para acompanhá-lo: um certo interesse que tenho em onde vão e um laço frágil e incomum entre o rapaz e eu. Não acredite nem por um instante que compartilho seus medos ou lutas. No que me diz respeito, vocês e seu Supremo Rei podem se reduzir a pó.
— Com todo o respeito, Príncipe Jiriki... — disse Binabik. — Você não está examinando toda a verdade. Se fosse apenas a luta entre reis e príncipes mortais que nos preocupasse, todos nós estaríamos defendendo Naglimund. Sei que sabe que nós cinco, pelo menos, temos outros objetivos.
— Então saiba disso... — disse Jiriki, com rigidez. — Embora os anos que se passaram desde que fomos separados dos Hikeda’ya... Aqueles que vocês chamam de Nornas... Sejam tão numerosos quanto flocos de neve, ainda somos um só sangue. Como poderíamos ficar do lado de homens arrogantes contra nossos parentes? Por que deveríamos, quando antes caminhávamos juntos sob o sol, vindos do extremo leste? Que lealdade poderíamos dever a mortais, que nos destruíram com a mesma avidez com que destroem tudo o mais... Até mesmo a si mesmos?
Nenhum dos humanos, exceto Binabik, conseguiu encarar seu olhar frio. Jiriki ergueu um longo dedo diante dele.
— E aquele a quem sussurram chamando de Rei da Tormenta... Aquele cujo nome era Ineluki... — um sorriso amargo surgiu em seu semblante enquanto os companheiros se remexiam e tremiam. — Ah, até o seu nome é temível! Ele já foi o melhor de nós... Belo de se ver, sábio muito além da compreensão dos mortais, brilhante como uma chama! Se agora é uma criatura de horror sombrio, fria e odiosa, de quem é a culpa? Se agora, sem corpo e vingativo, planeja varrer a humanidade da face de sua terra como poeira de uma página, por que não deveríamos nos alegrar? Não foi Ineluki quem nos expulsou para o exílio, de modo que temos que nos esconder entre as árvores escuras de Aldheorte como cervos, sempre receosos de sermos descobertos. Caminhávamos por Osten Ard sob a luz do sol antes da chegada dos homens, e as obras de nossas mãos eram belas sob as estrelas. O que os mortais já nos trouxeram senão sofrimento?
Ninguém conseguiu responder, contudo na quietude que se seguiu às palavras de Jiriki, um som plangente e suave surgiu. Pairou na escuridão, repleto de palavras desconhecidas, uma melodia de beleza espectral.
Quando terminou de cantar, An’nai olhou para seu Príncipe silencioso e seus companheiros sitha, depois para aqueles que os encaravam do outro lado das chamas dançantes.
— É uma canção nossa que os mortais outrora cantavam... — murmurou. — Os homens do oeste a amavam antigamente e lhe deram palavras em sua língua. Eu... Tentarei dar-lhe palavras em sua língua.
Ele olhou para o céu enquanto pensava. O vento estava diminuindo e, à medida que os flocos de neve cessavam, as estrelas brilhavam, frias e distantes.
“Musgo cresce nas pedras de Sení Ojhisá.”
An’nai cantou enfim, os cliques e vogais fluidas da fala sitha silenciados.
“As sombras permanecem, imóveis como se estivessem escutando.
As árvores abraçaram as torres brilhantes de Da’ai Chikiza.
As sombras sussurram, escuras sobre as folhas.
A grama alta ondula sobre Enki-e-Shao’saye.
As sombras crescem, alongando-se sobre a relva.
O túmulo de Nenais’u veste um manto de flores.
O riacho sombreado está silencioso, e ninguém ali se lamenta.”
“Para onde foram?
Agora a floresta está em silêncio.
Para onde foram?
A canção desapareceu.
Por que não voltarão mais, dançando ao crepúsculo?
Suas lâmpadas, mensageiras das estrelas.
Ao fim do dia...”
À medida que a voz de An’nai se elevava, acariciando as palavras melancólicas, Simon sentiu uma saudade como nunca sentira antes... Uma nostalgia por um lar que nunca conhecera, uma sensação de perda por algo que nunca lhe pertencera. Ninguém falou enquanto An’nai cantava. Ninguém poderia.
“O mar golpeia sobre as ruas escuras de Jhiná-T’eneí
As sombras se escondem, em grutas profundas adormecidas.
Gelo azul congela Tumet’ai, sepultando seus doces recantos.
As sombras mancharam todos os padrões que o Tempo tece.”
“Para onde foram?
Agora a floresta está em silêncio.
Para onde foram?
A canção desapareceu.
Por que não voltarão mais, dançando ao crepúsculo?
Suas lâmpadas, mensageiras das estrelas.
Ao fim do dia...”
A canção terminou. O fogo era um ponto de luz solitário em um deserto de sombras.
***
A tenda verde erguia-se solitária na planície úmida e vazia diante das muralhas de Naglimund. Suas laterais ondulavam e tremulavam ao vento, como se, dentre todas as coisas que poderiam se mover invisivelmente naquele vasto espaço aberto, apenas ela respirasse.
Rangendo os dentes contra um arrepio supersticioso, embora o vento úmido e cortante fosse motivo suficiente para deixá-los arrepiados, Deornoth olhou para Josua, que cavalgava um pouco à frente.
“Olhe para ele...” pensou. “É como se já visse seu irmão... Como se seus olhos pudessem enxergar através da seda verde e do brasão do dragão negro, direto para o coração de Elias.”
Voltando seu olhar para o terceiro e último membro do grupo, Deornoth sentiu seu coração pesado afundar ainda mais. O jovem soldado que Josua insistira em trazer, Ostrael, seu nome... Parecia prestes a desmaiar de puro medo. Seus traços angulosos e quadrados, agora desbotados pelo calor do sol nas semanas sem sol da primavera, estavam contraídos num terror mal disfarçado.
“Que Aedon nos proteja se tiver que nos servir para alguma coisa. Por que diabos Josua o escolheu?”
À medida que se aproximavam, a aba da tenda se abriu. Deornoth se enrijeceu, pronto para pegar seu arco. Teve um instante para se amaldiçoar por permitir que seu Príncipe fizesse uma coisa tão tola, mas o soldado de manto verde que surgiu apenas olhou para eles sem curiosidade, depois se posicionou ao lado da entrada, segurando a aba aberta.
Deornoth fez um sinal respeitoso para Josua esperar e esporeou seu cavalo, dando uma rápida volta ao redor da tenda verde. Era grande, com uma dúzia de passos ou mais de cada lado, e as cordas de sustentação vibravam com o peso da estrutura fustigada pelo vento, porém a grama achatada ao redor estava livre de emboscadores.
— Muito bem, Ostrael... — disse ele, voltando-se. — Você ficará aqui, ao lado deste homem. — indicou o outro soldado. — Com pelo menos um de seus ombros visível na porta o tempo todo, certo?
Tomando o sorriso doentio do jovem piqueiro como uma afirmação, Deornoth se virou para o guarda do Rei. O rosto barbudo do homem era familiar; sem dúvida, ele o vira em Hayholt.
— Se você também ficar perto da porta, será melhor para todos os envolvidos.
O guarda fez uma careta, contudo deu um passo em direção à entrada. Josua já havia desmontado e se dirigido à porta, no entanto Deornoth passou rapidamente à sua frente, com uma das mãos repousando no punho da espada.
— Não há necessidade de tanta cautela, Deornoth! — disse uma voz suave, embora penetrante. — Esse é o seu nome, não é? Afinal, somos todos cavalheiros aqui.
Deornoth piscou quando Josua entrou logo atrás. Estava um frio cortante lá dentro, e escuro. As paredes brilhavam fracamente, deixando entrar apenas uma fração verde da luz externa, como se os ocupantes da tenda flutuassem dentro de uma enorme esmeralda imperfeitamente lapidada.
Um rosto pálido surgiu adiante, os olhos negros perfurando o vazio. O manto escarlate de Pryrates era marrom-ferrugem na penumbra verde, da cor de sangue seco.
— E Josua! — disse ele, com uma estranha leviandade na voz. — Nos encontramos de novo. Quem diria que tantas coisas teriam acontecido desde nossa última conversa...?
— Cale a boca, sacerdote! Ou seja lá o que você for. — retrucou o Príncipe. Havia uma frieza tão grande em sua voz que até Pryrates piscou surpreso, como um lagarto assustado. — Onde está meu irmão?
— Estou aqui, Josua! — disse uma voz, um sussurro profundo e rouco que parecia ecoar o vento.
Uma figura estava sentada em uma cadeira de encosto alto no canto da tenda, uma mesa baixa próxima, outra cadeira à sua frente... Os únicos móveis na enorme e sombria tenda. Josua se aproximou. Deornoth apertou o manto e o seguiu, mais por um desejo de não ficar sozinho com Pryrates do que por pressa em ver o Rei.
O Príncipe sentou-se na cadeira de frente para o irmão. Elias estava sentado, estranhamente rígido, os olhos brilhantes como joias em seu rosto adunco, os cabelos negros e a testa pálida presos pela coroa de ferro de Hayholt. Entre as pernas, uma espada embainhada em couro preto. As mãos poderosas do Supremo Rei repousavam no pomo, acima da estranha empunhadura dupla. Embora o encarasse por um instante, os olhos de Deornoth não queriam se fixar na espada; ela lhe causava uma sensação de enjoo, como se estivesse olhando de uma grande altura. Em vez disso, voltou a olhar para o Rei, entretanto a situação não era muito melhor. No frio congelante da tenda, o ar tão gélido que uma névoa de respiração pairava diante dos olhos de Deornoth, Elias vestia apenas um gibão sem mangas, seus braços brancos nus até as pesadas pulseiras, os tendões pulsando sob a pele como se tivessem vida própria.
— Então, irmão... — disse o Rei, mostrando os dentes em um sorriso. — Você está com boa aparência.
— Não posso dizer o mesmo a seu respeito. — respondeu Josua secamente, mas Deornoth podia ver a preocupação em seus olhos. Algo estava muito errado ali; qualquer um podia sentir. — Você convocou a reunião, Elias. O que quer?
O Rei estreitou os olhos, ocultando-os em uma sombra verde, e esperou um longo tempo antes de responder.
— Minha filha. Quero minha filha. Há outro também... Um menino, porém este é menos importante. Não, é Miriamele quem quero de verdade. Se me entregar ela, darei minha palavra de salvo-conduto a todas as crianças e mulheres de Naglimund. Caso contrário, todos que se esconderem atrás de seus muros e me desafiarem... Morrerão.
Pronunciou as últimas palavras com uma indiferença tão casual que Deornoth se assustou com o olhar faminto que cruzou seu rosto sem pudor.
— Eu não a tenho, Elias! — respondeu Josua lentamente.
— Onde ela está?
— Não sei.
— Mentiroso! — a voz do Rei estava tão cheia de raiva que Deornoth quase desembainhou a espada, esperando que Elias saltasse da cadeira. Em vez disso, o Rei permaneceu quase imóvel, apenas gesticulando para que Pryrates enchesse seu cálice novamente com um jarro cheio de um líquido preto.
— Não me considere um mau anfitrião por não lhe oferecer. — disse Elias depois de tomar um longo gole; um sorriso sombrio desenhou-se em seus lábios. — Receio que esta bebida não lhe faria bem. — Elias entregou a taça a Pryrates, que a pegou com delicadeza entre os dedos e a colocou sobre a mesa. — Agora... — continuou, num tom quase razoável. — Não podemos nos poupar desta conversa inútil? Quero minha filha e a terei. — seu tom tornou-se grotescamente lamentoso. — Um pai não tem direito à filha que amou e criou?
Josua respirou fundo.
— Quaisquer direitos que tenha são entre você e ela. Não a tenho e não a entregaria contra a sua vontade, mesmo que a tivesse. — ele continuou, antes que o Rei pudesse responder. — Vamos, Elias, por favor... Você já foi meu irmão, em tudo. Nosso pai nos amava, a você mais do que a mim, contudo amava esta terra ainda mais. Será que não ve o que está fazendo? Não apenas com esta luta, Aedon sabe que esta terra já viu muitas guerras. No entanto há algo mais em jogo aqui. Pryrates sabe do que estou falando. Foi ele quem guiou seus primeiros passos pelo caminho, disso não tenho dúvidas!
Deornoth viu o sacerdote se virar, soltando um suspiro surpreso com as palavras do Príncipe.
— Por favor, Elias... — insistiu Josua, com o rosto severo tomado pela tristeza. — Desvie apenas do caminho que escolheu, devolva essa espada amaldiçoada àqueles profanos que querem envenenar você e Osten Ard... E colocarei minha vida em suas mãos. Abrirei os portões de Naglimund para você como uma donzela abre a janela para um amante! Moverei pedra sobre pedra para encontrar Miriamele! Jogue a espada fora, Elias! Jogue-a fora! Não foi por acaso que ela foi nomeada Dor!
O Rei olhou para Josua como se estivesse atônito. Pryrates, resmungando, avançou, todavia Deornoth saltou e o agarrou. O sacerdote se contorceu sob o braço que o prendia como uma serpente, e seu toque era horrível, entretanto Deornoth o segurou firme.
— Não se mova! — sibilou no ouvido de Pryrates. — Mesmo que me atinja com um feitiço, ainda assim cortarei sua garganta antes de morrer! — ele cutucou a lateral do manto escarlate com sua adaga desembainhada, apenas o suficiente para tocar a pele encapuzada. — Você não tem lugar nisso... Nem eu! Isso é entre irmãos.
Pryrates se calou. Josua estava inclinado para a frente, encarando o Supremo Rei. Elias observava, como se tivesse dificuldade em enxergar o que estava à sua frente.
— Ela é linda, minha Miriamele. — sussurrou. — Nela, às vezes, vejo sua mãe, Hylissa... Pobre garota morta! — o rosto do Rei, congelado um momento antes em malícia, desmoronou em confusão. — Como Josua pôde deixar isto acontecer? Como pôde? Ela era tão jovem...
Apalpando, sua mão branca se estendeu. Josua estendeu a sua tarde demais. Em vez de a segurar, os dedos longos e frios do Rei pousaram no toco envolto em couro do pulso direito do Príncipe. Seus olhos se arregalaram e seu rosto se enrijeceu em uma máscara de fúria.
— Volte para o seu esconderijo, traidor! — rosnou enquanto Josua puxava seu braço. — Mentiroso! Mentiroso! Vou despedaçá-lo até o último pedaço!
Tanto ódio emanava do Rei que Deornoth cambaleou para trás, deixando Pryrates se soltar.
— Vou arruiná-lo completamente! — trovejou Elias, se remexendo na cadeira enquanto Josua caminhava até a porta da tenda. — Que Deus Todo-Poderoso procurará por mil anos e jamais encontrará sequer sua alma!
***
O jovem soldado Ostrael estava tão aterrorizado com os rostos de Deornoth e do Príncipe que chorou silenciosamente durante todo o caminho de volta, sob o vento forte, até os muros sombrios de Naglimund.
***
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