Capítulo 39: A Mão do Supremo Rei
Simon acordou e percebeu que a luz da caverna havia mudado. O fogo ainda ardia, finas chamas amarelas entre as cinzas brancas, mas as lâmpadas haviam se apagado. A luz do dia filtrava-se pelas frestas do teto, invisíveis na noite anterior, transformando a câmara de pedra em um salão de colunas, luz e sombra.
Seus três companheiros soldados seguiam dormindo, emaranhados em seus mantos, roncando, esparramados como vítimas de batalha. A caverna estava vazia, exceto por Binabik, que estava sentado de pernas cruzadas diante do fogo, dedilhando distraído sua flauta.
Simon sentou-se, ainda sonolento.
— Onde estão os sitha?
Binabik não se virou, porém tocou mais algumas notas.
— Saudações, bom amigo! — disse ele por fim. — Seu sono foi satisfatório?
— Acredito que sim. — resmungou Simon, virando-se para observar os flocos de poeira que brilhavam perto do teto da caverna. — Para onde foram os sitha?
— Para caçar, digamos assim. Levante-se. Preciso da sua ajuda.
Simon gemeu, contudo se arrastou até se aproximar.
— Caçando gigantes? — perguntou pouco depois, com a boca cheia de frutas. Os roncos de Haestan estavam ficando tão altos que Binabik largou a flauta, desgostoso.
— Caçando o que quer que ameace suas fronteiras, suponho. — o gnomo encarou algo à sua frente no chão de pedra da caverna. — Kikkasut! Isto não faz o menor sentido. Não estou gostando nem um pouco.
— O que não faz sentido? — Simon examinou preguiçosamente a câmara rochosa. — Esta é uma casa sitha?
O homenzinho o encarou, franzindo a testa.
— Suponho que seja bom que você tenha recuperado sua capacidade de fazer muitas perguntas ao mesmo tempo. Não, esta não é uma casa sitha propriamente dita. É, creio eu, o que Jiriki chamou: um pavilhão de caça, um lugar para seus caçadores ficarem enquanto vagam pelo campo. Quanto à sua outra pergunta, são esses ossos que não fazem sentido... Ou melhor, fazem muito sentido.
Os ossos das juntas estavam amontoados diante dos joelhos de Binabik. Simon os examinou.
— O que quer dizer?
— Vou lhe contar. Talvez fosse bom você aproveitar este tempo para lavar a sujeira, o sangue e o suco de frutas silvestres do seu rosto. — o gnomo exibiu um sorriso amarelo azedo, apontando para a poça no canto. — Ali é adequado para lavar.
Ele esperou até que Simon mergulhasse a cabeça uma vez na água gelada.
— Aaah! — disse o jovem, tremendo. — Frio!
— Já deve estar percebendo... — continuou Binabik, imperturbável pelas reclamações do rapaz. — Que eu estava lançando meus ossos esta manhã. O que eles estão dizendo é o seguinte: O Caminho das Sombras, Flecha Desembrulhada e Fenda Negra. Isso está me causando muita confusão e preocupação.
— Por quê?
Simon jogou mais água no rosto e a enxugou com a manga do gibão, que também não estava muito limpa.
— Porque estive consultando os ossos antes de sairmos de Naglimund. — disse Binabik, irritado. — E estão aparecendo as mesmas figuras! Exatamente!
— E por que seria ruim?
Algo brilhante na beira da poça chamou sua atenção. Ele o pegou com cuidado e descobriu que era um espelho redondo em uma moldura de madeira esplendidamente esculpida. A borda do vidro escuro estava gravada com caracteres desconhecidos.
— É ruim quando as coisas são sempre as mesmas. — respondeu Binabik. — Entretanto com os ossos é mais do que isso. Para mim, os ossos são guias para a sabedoria, entendeu?
— Hum-hum.
Simon poliu o espelho na frente da camisa.
— Bem, e se você abrisse seu Livro do Aedon e descobrisse que todas as suas páginas, de repente, só tinham um versículo... O mesmo versículo, repetidamente?
— Quer dizer um Livro que já vi? Que não era assim antes? Suponho que seria magia.
— Bem, então... — prosseguiu Binabik, mais tranquilo. — Aí está o meu problema. Existem centenas de combinações pelas quais os ossos podem se dispor. Obter o mesmo resultado seis vezes seguidas, só posso pensar que é ruim. Por mais que tenha estudado, ainda não gosto da palavra ‘magia’... Mas alguma força está controlando os ossos, como um vento poderoso que empurra todas as bandeiras na mesma direção... Simon? Está ouvindo?
Encarando o espelho, Simon ficou surpreso ao encontrar um rosto desconhecido refletido. O estranho tinha um rosto alongado e de ossatura larga, olhos sombreados de azul e uma penugem vermelho-dourada no queixo, bochechas e lábio superior. Simon ficou mais surpreso ao perceber que, é claro, estava vendo apenas seu próprio reflexo, magro e marcado pelas viagens, com os primeiros pelos da barba escurecendo seu maxilar. Que tipo de rosto era aquele? Perguntou-se de repente. Ainda não tinha traços masculinos, desgastados e severos, porém imaginava ter se livrado de parte de sua aparência de cabeça-oca. Mesmo assim, encontrou algo decepcionante no jovem de queixo comprido e cabelos despenteados que o encarava.
“Será que era assim que eu parecia para Miriamele? Como um filho de fazendeiro... Um lavrador?”
E enquanto pensava na Princesa, pareceu-lhe que vislumbrou seus traços no espelho, quase brotando dos seus próprios. Por um instante vertiginoso, eles se fundiram, como duas almas nebulosas em um só corpo; um instante depois, foi apenas o rosto de Miriamele que viu... Ou melhor, o de Malaquias, pois seu cabelo era curto e preto, e vestia roupas de menino. Um céu incolor se estendia além dela, salpicado de nuvens escuras de tempestade. Havia outro também, logo atrás, um homem de rosto redondo com um capuz cinza. Simon o vira antes, tinha certeza, muita certeza... Quem era?
— Simon!
A voz de Binabik o atingiu como a água fria do lago, justo quando o nome esquivo do estranho surgiu ao seu alcance. Assustado, balançou o espelho por um momento. Quando o apertou com força novamente, não havia nenhum rosto ali além do seu.
— Você está ficando doente? — perguntou o gnomo, preocupado com a expressão frouxa e confusa que Simon lhe dirigiu.
— Não... Acho que não...
— Então, se já tiver se lavado, venha me ajudar. Falaremos dos presságios mais tarde, quando sua atenção não estiver tão delicada. — Binabik se levantou, deixando os ossinhos de volta no saco de couro.
***
Binabik desceu primeiro pela rampa de gelo, avisando Simon para manter os dedos dos pés firmes e as mãos perto da cabeça. Os segundos vertiginosos descendo o túnel foram como um sonho de queda de um lugar alto, e quando caiu com um baque na neve macia sob a entrada do túnel, com a luz fria e brilhante do dia nos olhos, contentou-se em sentar por um momento e apreciar a sensação do seu coração batendo forte.
Um instante depois, foi derrubado por um golpe inesperado nas costas, seguido pela descida sufocante de uma montanha de músculos e pelos.
— Qantaqa! — ouviu Binabik gritar, rindo. — Se são seus amigos que estão recebendo esse tratamento, fico feliz por não ser um inimigo!
Simon empurrou a loba para longe, ofegante, apenas para enfrentar um novo ataque com a língua áspera em seu rosto. Por fim, com a ajuda de Binabik, se desvencilhou rolando. Qantaqa saltou de pé, choramingando animadamente, circulou o jovem e o gnomo uma vez e, em seguida, saltou para a floresta nevada.
— Agora... — disse Binabik, tirando a neve de seus cabelos negros. — Precisamos descobrir onde os sitha têm guardado nossos cavalos.
— Não está longe, homem de Qanuc.
Simon deu um pulo. Ele se virou para ver uma fila de sitha saindo sem fazer o menor som das árvores, com o tio de Jiriki, de jaqueta verde, à frente.
— E por que vocês os procuram?
Binabik sorriu.
— Certamente não para fugir de você, bom Khendraja’aro. Sua hospitalidade é generosa demais para que a abandonemos às pressas. Não, há certas coisas que quero garantir que ainda temos, coisas que consegui com alguma dificuldade em Naglimund e que precisaremos nas estradas adiante.
Khendraja’aro olhou para o gnomo sem expressão por um momento, depois fez um sinal para dois dos outros sitha.
— Sijandi, Ki’ushapo... Mostrem a eles.
A dupla de cabelos amarelos caminhou alguns passos pela encosta, afastando-se da entrada do túnel, e parou, esperando que Simon e o gnomo os seguissem.
Quando o garoto olhou para trás, viu Khendraja’aro ainda observando, com uma expressão indecifrável em seus olhos brilhantes e semicerrados.
Encontraram os cavalos a alguns metros de distância, em uma pequena caverna escondida por um par de pinheiros carregados de neve. A caverna era aconchegante e seca; os seis cavalos mastigavam contentes um monte de feno com cheiro adocicado.
— De onde veio tudo isso? — perguntou Simon, surpreso.
— Costumamos trazer nossos próprios cavalos. — respondeu Ki’ushapo, falando a língua ocidental com cuidado. — Surpreende-te que tenhamos um estábulo para eles?
Enquanto Binabik vasculhava uma das alforjas, Simon explorava a caverna, notando a luz que vazava por uma fenda no alto da parede e um cocho de pedra cheio de água limpa. Encostada na parede oposta, havia uma pilha de capacetes, machados e espadas. Simon reconheceu uma das lâminas como sendo sua, do arsenal de Naglimund.
— Estas são nossas armas, Binabik! — exclamou. — Como vieram parar aqui?
Ki’ushapo falou devagar, como se estivesse falando com uma criança.
— Colocamos aqui depois de as tomarmos de você e seus companheiros. Aqui estão seguras e secas.
Simon olhou para o sitha com desconfiança.
— Pensei que não pudessem tocar em ferro, que fosse veneno para vocês!
Ele parou abruptamente, temendo ter se aventurado em terreno proibido, no entanto Ki’ushapo apenas trocou um olhar com seu companheiro silencioso antes de responder.
— Então, ouviu histórias sobre os Dias do Ferro Negro. — comentou. — Sim, já foi assim, entretanto aqueles de nós que sobreviveram àqueles dias aprenderam muito. Agora sabemos quais águas beber e de quais fontes específicas, de modo que podemos manusear ferro mortal por um curto período de tempo sem nos machucar. Por que achou que permitimos que você mantivesse sua cota de malha? Mas, é claro, não gostamos dela e não a usamos... Nem mesmo a tocamos quando não há necessidade. — seu olhar se voltou para Binabik, que seguia vasculhando atentamente as malas de viagem. — Vamos deixá-lo terminar sua busca. — disse o sitha. — Não encontrará nada faltando... Pelo menos nada que tinha quando chegou às nossas mãos.
Binabik ergueu os olhos.
— Claro! — respondeu. — Só me preocupo com coisas que possam ter sido perdidas durante a luta de ontem.
— Claro. — respondeu Ki’ushapo. Ele e o quieto Sijandi saíram por baixo dos galhos da entrada.
— Ah! — disse Binabik por fim, erguendo um saco que tilintou como uma bolsa cheia de Imperadores de ouro. — Uma preocupação aliviada. — e o jogou de volta na alforje.
— O que é? — perguntou Simon, irritado por ter que fazer outra pergunta.
Binabik sorriu com malícia.
— Mais truques de qanuc, que serão muito úteis em breve. Venha, precisamos voltar. Se os outros acordarem, bêbados e sozinhos, podem se assustar e fazer alguma besteira.
Qantaqa os encontrou em sua curta jornada de volta, com a boca e o nariz manchados com o sangue de algum animal azarado. Ela deu várias voltas ao redor deles, depois parou, os pelos eriçados enquanto farejava o ar. Sua cabeça abaixou e cheirou novamente, depois seguiu a passos largos à frente.
Jiriki e An’nai haviam se juntado a Khendraja’aro. O Príncipe havia trocado seu manto branco por um casaco bege e azul. Segurava um arco alto, sem corda, e carregava uma aljava cheia de flechas com penas marrons.
Qantaqa circulou os sitha, rosnando e farejando, sua cauda ondulava no ar atrás dela como se estivesse cumprimentando velhos conhecidos. Avançou em direção a eles, depois recuou, resmungando profundamente e sacudindo a cabeça como se estivesse quebrando o pescoço de um coelho. Quando Binabik e Simon se juntaram ao círculo, ela se aproximou o suficiente para tocar a mão de Binabik com seu nariz negro, depois se afastou de novo e retomou seu círculo nervoso.
— Encontraram todos os seus pertences em ordem? — perguntou Jiriki.
Binabik assentiu.
— Sim, com certeza. Obrigado por cuidar dos nossos cavalos.
Jiriki acenou displicentemente com sua mão esguia.
— E agora, o que farão? — perguntou.
— Acho que devemos partir em breve. — respondeu o gnomo, protegendo os olhos do sol para observar o céu cinza-azulado.
— Certamente não hoje. — disse Jiriki. — Descanse esta tarde e coma conosco de novo. Ainda temos muito o que conversar, e vocês poderão partir amanhã ao amanhecer.
— Você... E seu tio... Nos mostram muita gentileza, Príncipe Jiriki. E honra. — Binabik curvou-se.
— Não somos uma raça gentil, Binbiniqegabenik, não como éramos antes, porém somos uma raça cortês. Venha.
***
Após um esplêndido almoço de pão, leite doce e uma maravilhosa e peculiar sopa picante feita de nozes e flores de neve, a longa tarde foi passada pelos sitha e pelos homens em conversas tranquilas, cantos e longos cochilos.
Simon dormia um sonho superficial e sonhava com Miriamele em pé sobre o oceano, como se fosse um piso de mármore verde irregular, acenando para que ele se aproximasse. Em seu sonho, viu nuvens negras e furiosas no horizonte e gritou, tentando avisá-la. A Princesa não ouviu por causa do vento que se intensificava, apenas sorriu e acenou. Sabia que não podia ficar em pé sobre as ondas e mergulhou para nadar em sua direção, no entanto sentiu as águas frias puxando-o para baixo, arrastando-o para o fundo...
***
Quando enfim se libertou do sonho, acordou no final da tarde. Os pilares de luz haviam perdido o brilho e se inclinavam como se estivessem bêbados. Alguns dos sitha estavam colocando as lâmpadas de cristal em seus nichos na parede, todavia mesmo observando o processo, Simon não conseguiu entender melhor o que as iluminava. Depois de colocadas em seus lugares, elas apenas, lentamente, começaram a brilhar com uma luz suave e difusa.
Simon juntou-se a seus companheiros no círculo de pedras ao redor da fogueira. Eles estavam sozinhos, os sitha, embora hospitaleiros e até amigáveis, pareciam preferir a própria companhia, sentados em pequenos grupos ao redor da caverna.
— Garoto! — disse Haestan, estendendo a mão para dar um tapinha no ombro dele. — Temíamos que você dormisse o dia todo.
— Eu também dormiria, se comesse tanto pão quanto ele. — disse Sludig, limpando as unhas com uma lasca de madeira.
— Todos aqui concordaram em partir cedo amanhã. — disse Binabik, e Grimmric e Haestan assentiram. — Não há certeza de que essa amenidade do tempo vá durar muito, e ainda temos um longo caminho a percorrer.
— Amenidade do tempo? — disse Simon, franzindo a testa por causa da rigidez nas pernas enquanto se sentava. — Está nevando muito.
Binabik deu uma risadinha rouca.
— Amigo Simon, converse com um habitante da neve se quiser saber o que é frio. É como a nossa primavera em qanuc, quando brincamos nus na neve de Mintahoq. Quando chegarmos às montanhas, então, lamento dizer, você sentirá um frio de verdade.
“Não parece nada preocupado.” pensou Simon.
— Então, quando partimos?
— Ao primeiro raio de sol no leste. — disse Sludig. — Quanto antes... — acrescentou significativamente, olhando ao redor da caverna para seus anfitriões incomuns. — Melhor será.
Binabik o encarou e depois se voltou para Simon.
— Nesse caso, vamos colocar as coisas em ordem esta noite.
Jiriki apareceu como que do nada para se juntar a eles junto à lareira.
— Ah! — falou. — Gostaria de falar com vocês sobre esses assuntos.
— Há algum problema com relação a nossa partida? — perguntou Binabik, sua expressão alegre não disfarçando por completo uma certa ansiedade. Haestan e Grimmric pareciam preocupados, Sludig demonstrava um leve ressentimento.
— Creio que não. — respondeu o sitha. — Entretanto há certas coisas que desejo enviar com você.
Com um gesto fluido, ele enfiou uma mão de dedos longos em seu manto, retirando a Flecha Branca de Simon.
— Esta é sua, Seoman. — disse.
— O quê? Mas... Ela pertence a você, Príncipe Jiriki.
O sitha ergueu a cabeça por um instante, como se ouvisse um chamado distante, e então baixou o olhar de volta.
— Não, Seoman, não será minha até que eu a recupere... Uma vida por uma vida.
Ele a ergueu entre as duas mãos, como um pedaço de barbante, de modo que a luz oblíqua vinda de cima realçava os minúsculos e complexos desenhos ao longo de seu comprimento.
— Sei que vocês não conseguem ler estas inscrições... — disse Jiriki lentamente. — Porém direi que são Palavras de Criação, inscritas na flecha pelo próprio Vindaomeyo, o Flecheiro... Em um passado muito, muito remoto, antes de nós, os Primeiros Povos, sermos divididos nas Três Tribos. Ela é tão parte da minha família como se fosse feita com meus próprios ossos e tendões, e tão parte de mim. Não a entreguei levianamente, poucos mortais alguma vez já seguraram uma Staja Ame, e sem dúvida não poderia recuperá-la até que tivesse pago a dívida que representa.
Dito isso, ele a entregou a Simon, cujos dedos tremeram ao tocar o corpo liso da flecha.
— Eu... Não entendo... — gaguejou, sentindo-se como se de repente fosse ele quem estivesse em dívida. Dando de ombros, incapaz de dizer mais alguma coisa.
— Então... — disse Jiriki, voltando-se para Binabik e os outros. — Meu destino, como vocês, mortais, podem entendê-lo, parece estranhamente ligado a este rapaz. Portanto, não se surpreenderá quando lhe disser o que mais enviarei com vocês nesta sua missão incomum e provavelmente infrutífera.
Após um momento, Binabik perguntou.
— E o que seria, Príncipe?
Jiriki sorriu, um sorriso felino e presunçoso.
— Eu mesmo! — respondeu. — Irei com vocês.
***
O jovem lanceiro ficou parado por alguns segundos, sem saber se deveria interromper os pensamentos do Príncipe. Josua encarava o horizonte, com os nós dos dedos brancos enquanto se agarrava ao parapeito da muralha oeste de Naglimund.
Por fim, o Príncipe pareceu notar a presença estranha. Virou-se, revelando um rosto tão pálido que o soldado deu meio passo para trás.
— Vossa Alteza...? — perguntou, com dificuldade em olhar nos olhos de Josua. O olhar do Príncipe, pensou o soldado, era como o da raposa ferida que vira os cães se aproximando em sua direção.
— Diga a Deornoth para que venha. — disse Josua, forçando-se a sorrir, o que o jovem soldado considerou a coisa mais horrível de todas. — E chame o velho Jarnauga, o rimmerio. Você o conhece?
— Acho que sim, Vossa Alteza. Aquele com o padre caolho na sala de livros.
— Muito bem.
O rosto de Josua se inclinou para o céu, observando a massa de nuvens escuras como se fossem um livro de profecias. O lanceiro hesitou, sem saber se estava dispensado, e então se virou para se afastar.
— Você, homem. — disse o Príncipe, parando-o no meio do passo.
— Vossa Alteza?
— Qual é o seu nome?
Ele poderia estar perguntando ao céu.
— Ostrael, Alteza... Filho de Firsfram, senhor... Sou de Runchester.
O Príncipe lançou um breve olhar para o lado, depois seu olhar voltou-se para o horizonte que escurecia como se irresistivelmente atraído.
— Quando foi a última vez que esteve em casa em Runchester, meu bom homem?
— Elysiamansa, Príncipe Josua, mas envio a eles metade do meu pagamento, senhor.
O Príncipe puxou a gola alta para mais perto e assentiu com a cabeça como se reconhecesse grande sabedoria.
— Muito bem, então... Ostrael, filho de Firsfram. Vá e chame Deornoth e Jarnauga. Vá agora.
Muito antes daquele dia, o jovem lanceiro já ouvira dizer que o Príncipe era meio louco. Enquanto descia os degraus da guarita com suas botas pesadas, pensou no rosto de Josua, lembrando-se com um arrepio dos olhos brilhantes e extasiados dos mártires pintados no Livro do Aedon de sua família... E não apenas dos mártires cantando, como também da tristeza cansada do próprio Jesuris, conduzido acorrentado à Árvore da Execução.
***
— E os batedores têm certeza, Alteza? — perguntou Deornoth com cautela. Não queria ofender, porém pressentia uma selvageria no Príncipe hoje que não compreendia.
— Pela Árvore Sagrada, Deornoth, é claro que têm certeza! O senhor os conhece bem... São homens confiáveis. O Supremo Rei está no Vado de Greenwade, a menos de dez léguas de distância. Estará diante das muralhas amanhã de manhã. Com considerável força.
— Quer dizer que Leobardis chegará tarde. — Deornoth cerrou os olhos, olhando não para o sul, onde os exércitos de Elias se aproximavam inexoravelmente, e sim para o oeste, onde, em algum lugar além da névoa do final da manhã, as Legiões do Martim Pescador trabalhavam em um árduo esforço através do Inniscrich e da Marca Gelada meridional.
— A menos que aconteça um milagre. — disse o Príncipe. — Vá em frente, Deornoth. Diga a Sir Eadgram para manter todos em prontidão. Quero todas as lanças afiadas, todos os arcos tensionados e nem uma gota de vinho na guarita... Ou nos guardas. Entendido?
— Claro, Alteza! — Deornoth assentiu. Ele sentiu a respiração acelerar, um leve enjoo de expectativa no estômago. Pelo Deus Misericordioso, eles dariam ao Supremo Rei uma amostra da honra de Naglimund... Sabia que dariam!
Alguém pigarreou em tom de aviso. Era Jarnauga, subindo as escadas até a ampla passarela com a mesma facilidade de um homem com metade de sua idade. Estava vestindo uma das vestes negras folgadas de Strangyeard e havia enfiado a ponta de sua longa barba sob o cinto.
— Atendo ao seu chamado, Príncipe Josua! — disse o ancião, formalmente cortês.
— Obrigado, Jarnauga! — respondeu Josua. — Vá em frente, Deornoth. Falarei com você no jantar.
— Sim, Alteza.
Deornoth curvou-se, com o capacete na mão, e desceu as escadas dois degraus de cada vez.
Josua esperou alguns instantes depois que ele se foi para falar.
— Olhe ali, ancião, veja! — disse por fim, gesticulando com o braço sobre a confusão da cidade de Naglimund e os prados e terras agrícolas além, os verdes e amarelos pintados de escuro pelo céu ameaçador. — Os ratos estão vindo roer nossas muralhas. Não veremos essa vista tranquila por muito tempo, se é que veremos algum dia.
— A chegada de Elias é o assunto do castelo, Josua.
— Como deveria ser.
O Príncipe, como se tivesse se fartado da visão diante de si, virou as costas para o parapeito e encarou o velho de olhos brilhantes com seu próprio olhar penetrante.
— Você acompanhou Isgrimnur até a partida?
— Sim. Ele não ficou contente em partir em segredo, e antes do amanhecer.
— Bem, o que mais poderíamos fazer? Depois de espalharmos a história de sua missão para Perdruin, seria difícil se alguém o visse partir com vestes de sacerdote... E sem barba como quando era menino em Elvritshalla. — o Príncipe forçou um sorriso sombrio, com o maxilar cerrado. — Deus sabe, Jarnauga, embora eu tenha zombado de seu disfarce, é uma facada no meu estômago ter tirado aquele bom homem de sua família e o enviado para tentar recuperar minha própria falha.
— Você é o mestre aqui, Josua; às vezes, ser mestre significa ter menos liberdade do que a concedida ao servo mais humilde.
O Príncipe enfiou o braço direito dentro da capa.
— Ele levou Kvalnir?
Jarnauga sorriu.
— Embainhada sob sua túnica. Que seu Deus proteja aquele que tentar roubar aquele velho monge gordo.
O sorriso cansado do Príncipe se alargou por um instante.
— Nem mesmo Deus poderá ajudá-los, com o humor de Isgrimnur. — o sorriso não durou mais do que o momento. — Agora, Jarnauga, caminhe comigo aqui nas ameias. Preciso de seus bons olhos e palavras sábias.
— De fato, consigo enxergar mais longe do que a maioria, Josua... Assim me ensinaram meu pai e minha mãe. É por essa razão que sou chamado de ‘Olhos de Ferro’ em nosso rimmerspakk. Fui ensinado a ver através dos véus da ilusão como o ferro negro corta feitiços. Todavia quanto ao resto, não posso prometer nenhuma sabedoria digna desse nome nesta hora tardia.
O Príncipe fez um gesto de desdém.
— Suspeito que você já nos ajudou a ver muito que não teríamos visto sozinhos. Conte-me sobre essa Liga do Pergaminho. Eles o enviaram a Tungoldyr para espionar o Pico das Tormentas?
O velho se aproximou de Josua, suas mangas esvoaçando como flâmulas negras.
— Não, Príncipe, esse não é o método da Liga. Meu pai também era um Portador do Pergaminho. — o ancião tirou uma corrente dourada do pescoço de suas vestes, mostrando a Josua uma pena esculpida e um pergaminho que nela pendiam. — Fui criado para ocupar seu lugar, e não teria feito menos para agradá-lo. A Liga não obriga; pede apenas que se faça o que se pode fazer.
Josua caminhou em silêncio, pensativo.
— Se ao menos uma terra pudesse ser governada assim! — disse ele por fim. — Se ao menos os homens fizessem o que deveriam. — seu olhar pensativo de olhos cinzentos se voltou para o velho rimmerio. — Mas as coisas nem sempre são tão fáceis... O certo e o errado nem sempre são tão óbvios. Certamente a Liga deve ter seu sumo sacerdote, ou seu Príncipe? Teria sido Morgenes?
Jarnauga curvou os lábios.
— De fato, há momentos em que nos beneficiaria ter um líder, uma mão firme. Nossa lamentável falta de preparo para esses eventos demonstra isso. — Jarnauga balançou a cabeça. — E teríamos concedido tal liderança ao Doutor Morgenes num instante, se tivesse pedido... Era um homem de incrível sabedoria, Josua; espero que o tenha apreciado quando o conheceu. Porém ele não quis. Apenas queria pesquisar, ler e fazer perguntas. Ainda assim, agradeçamos a quaisquer poderes que o tenham tido por tanto tempo. Sua perspicácia é, neste momento, nosso único escudo.
Josua parou, apoiando os cotovelos no parapeito.
— Então esta sua Liga nunca teve um líder?
— Não desde que o Rei Eahlstan Fiskerne, seu Santo Eahlstan, a uniu... — ele fez uma pausa, lembrando-se. — Quase houve um, e ainda na minha época. Era um jovem hernystiro, mais uma das descobertas de Morgenes. Tinha quase a mesma habilidade de Morgenes, embora menos cautela, de modo que estudava coisas que Morgenes não estudaria. Tinha ambições e argumentava que deveríamos nos tornar uma força maior para o bem. Poderia ter sido um dia o líder do qual comentou, Josua, um homem de grande sabedoria e força...
Quando o velho não continuou, Josua olhou para Jarnauga, que estava com os olhos fixos no horizonte oeste.
— O que aconteceu? — perguntou o Príncipe. — Está morto?
— Não! — respondeu Jarnauga lentamente, com os olhos ainda fixos na planície ondulada. — Não, não acho. Ele... Mudou. Algo o assustou, ou o machucou, ou... Ou algo assim. Ele nos deixou há muito tempo.
— Então vocês também têm fracassos. — disse Josua, começando a andar.
O velho não o seguiu.
— Oh, certamente. — respondeu, erguendo a mão como se para sombrear a testa, olhando para a distância escura. — Pryrates também já foi um dos nossos.
Antes que o Príncipe pudesse responder, foi interrompido.
— Josua! — gritou alguém do pátio. As linhas ao redor da boca do Príncipe se contraíram.
— Senhora Vorzheva! — respondeu, virando-se para olhar para baixo, onde ela estava indignada, vestida com um reluzente vermelho, os cabelos rodopiando ao vento como fumaça negra. Towser se escondia, desconfortável, ao seu lado. — O que quer de mim? — exigiu o Príncipe. — Você deveria estar na torre principal. Aliás, eu ordeno que vá para a torre principal.
— Já estive lá! — respondeu Vorzheva, irritada. Levantando a barra do vestido, caminhou em direção à escadaria, falando enquanto subia. — E logo voltarei, não se preocupe. Contudo primeiro, preciso ver o sol mais uma vez... Ou prefere me manter em uma cela escura?
Apesar da exasperação, Josua se esforçava para manter o rosto completamente sério.
— Deus sabe que há janelas na torre principal, senhora. — ele baixou o cenho franzido para Towser. — Será que não pode ao menos mantê-la longe das muralhas, Towser? Logo estaremos sitiados.
O homenzinho deu de ombros e subiu mancando as escadas atrás de Vorzheva.
— Mostre-me os exércitos do seu terrível irmão! — disse ela, um pouco sem fôlego ao chegar ao lado do Príncipe.
— Se os seus exércitos estivessem aqui, você não estaria. — disse Josua irritado. — Não há nada para ver ainda. Agora, por favor, desça.
— Josua? — Jarnauga estava semicerrando os olhos para o oeste nublado. — Acho que talvez haja algo para ver.
— O quê?
Num instante, o Príncipe estava ao lado do velho rimmerio, seu corpo desajeitadamente encostado no parapeito enquanto se esforçava para ver o que o homem via.
— É Elias? Tão cedo? Não vejo nada! — ele bateu com a palma da mão na pedra, frustrado.
— Duvido que seja o Supremo Rei, vindo de uma direção tão ocidental... — disse Jarnauga. — Não se surpreenda por não os ver. Como já lhe disse, fui treinado para olhar onde outros não conseguem. Mesmo assim, eles estão lá, muitos cavalos e homens, seguem estando muito longe para estimar quantos, vindo em nossa direção. Ali. — apontou.
— Louvado seja Jesuris! — disse Josua, animado. — Tem razão! Só pode ser Leobardis!
Josua se endireitou, subitamente cheio de vida, embora seu rosto se nublasse de preocupação.
— Isto é delicado! — falou, mais que para si mesmo. — Os nabbanos não devem se aproximar muito, senão serão inúteis para nós, presos entre Elias e as muralhas de Naglimund. Então teremos que trazê-los para dentro, onde serão apenas mais bocas para alimentar. — seus passos seguiram em direção às escadas. — Se ficarem muito longe, não seremos capazes de protegê-los quando Elias se voltar contra eles. Precisamos enviar cavaleiros!
O Príncipe desceu as escadas aos pulos, gritando por Deornoth e Eadgram, o Lorde Condestável de Naglimund.
— Oh, Towser! — disse Vorzheva, com as bochechas coradas pelo vento e pela rapidez dos acontecimentos. — Afinal, parece que seremos salvos! Tudo ficará bem.
— Assim espero, minha senhora! — respondeu o bobo da corte. — Já passei por tudo isso antes com meu mestre John, sabe... E não estou ansioso passar outra vez.
Os soldados agora praguejavam e gritavam no pátio do castelo, lá embaixo. Josua estava na borda do poço, com sua espada fina na mão, dando instruções. O som de metal contra metal, enquanto cabos de lanças batiam em escudos, e capacetes e espadas eram retirados às pressas dos cantos onde haviam sido colocados, ecoava pelas muralhas como uma invocação.
***
O Conde Aspitis Preves trocou algumas palavras lacônicas com Benigaris, depois parou seu cavalo ao lado do Duque, acompanhando-o passo a passo pela grama alta e orvalhada. O sol da aurora era uma mancha brilhante acima do horizonte cinzento.
— Jovem Aspitis! — falou Leobardis, contente. — Que notícias traz?
Se ele e seu filho quisessem se dar melhor, precisava tentar mostrar gentileza aos íntimos de Benigaris... Até mesmo a Aspitis, a quem considerava um dos produtos menos impressionantes da Casa Preves.
— Os batedores acabaram de se juntar a nós, meu senhor Duque. — o Conde, um jovem bonito e esguio, estava bastante pálido. — Estamos a menos de cinco léguas das muralhas de Naglimund, meu senhor.
— Ótimo! Com sorte, chegaremos lá no início da tarde!
— Mas Elias está à nossa frente. — Aspitis olhou para o filho do Duque, que balançou a cabeça e praguejou baixinho.
— Ele já sitiou a cidade? — perguntou Leobardis, surpreso. — Como conseguiu? Aprendeu a fazer seus exércitos voarem?
— Bem, não, senhor, não é Elias. — Aspitis apressou-se a corrigir-se. — É uma grande força cavalgando sob a bandeira do Javali e das Lanças... O estandarte do Conde Guthwulf de Utanyeat. Eles estão a cerca de meia légua de distância de nós e nos impedirão de chegar aos portões.
O Duque balançou a cabeça, aliviado.
— Quantos homens Guthwulf tem?
— Talvez uma centena de cavalos, meu senhor, porém o Supremo Rei não deve estar muito longe.
— Certo, teremos de ser precavidos! — disse Leobardis, parando na margem de um dos muitos pequenos riachos que cruzavam os prados a leste de Greenwade. — Que a Mão do Supremo Rei e sua tropa definhem ali. Serviremos melhor a Josua a uma curta distância, onde podemos hostilizar os sitiantes e manter as linhas de suprimento abertas.
Com um mergulho, desceu a galope para o vau.
Benigaris e o Conde esporearam atrás.
— Mas pai... — disse Benigaris, alcançando-o. — Pense bem! Nossos batedores dizem que Guthwulf se adiantou ao exército do Rei, e com apenas cem cavaleiros.
Aspitis Preves assentiu em confirmação, e Benigaris franziu as sobrancelhas escuras em uma expressão de seriedade.
— Temos o triplo disso, e se enviarmos cavaleiros velozes à frente, podemos reunir também as forças de Josua. Poderíamos esmagar Guthwulf contra as muralhas de Naglimund como se fosse um martelo e uma bigorna. — ele sorriu e deu um tapinha no ombro blindado do pai. — Imagine como isso seria recebido pelo Rei Elias... Faria com que pensasse duas vezes, não é?
Leobardis cavalgou em silêncio por um longo minuto. Olhou para trás, para os estandartes ondulantes de suas legiões que se estendiam por vários quilômetros pelos prados. O sol, por um instante, encontrara um ponto mais tênue no céu nublado, trazendo cor à grama curvada pelo vento. Aquilo o fez lembrar das Terras dos Lagos a leste de seu palácio.
— Chamem o trompetista! — ordenou, e Aspitis se virou e gritou uma ordem.
— Ei! Enviarei cavaleiros à frente para Naglimund, pai. — disse Benigaris, sorrindo quase com alívio. O Duque podia ver o quanto seu filho ansiava por glória, contudo seria a glória de Nabban também.
— Escolha seus cavaleiros mais rápidos, meu filho! — gritou enquanto Benigaris cavalgava de volta pelas linhas. — Pois nos moveremos mais rapidamente do que qualquer um sonha que possamos! — sua voz se elevou em um grande grito, chamando a atenção de todos no campo. — As legiões cavalgarão! Por Nabban e pela Mãe Igreja! Que nossos inimigos se acautelem!
Benigaris retornou em breve para anunciar o envio dos mensageiros. O Duque Leobardis fez soar as trombetas, e depois voltaram a soar, e o grande exército partiu a toda velocidade. O som de seus cascos ecoava como batidas rápidas de tambor nos vales da pradaria enquanto saíam de Inniscrich. O sol nasceu no céu matinal e lamacento, e os estandartes tremulavam em azul e dourado. O Martim Pescador voou para Naglimund.
***
Josua ainda ajeitava seu elmo sem adornos e brilhantemente polido quando passou pelo portão à frente de quarenta cavaleiros montados. O harpista Sangfugol correu ao lado, mostrando-lhe algo; o Príncipe freou e reduziu o passo do cavalo.
— O que foi, homem? — perguntou impaciente, examinando o horizonte enevoado.
O harpista lutou para respirar.
— É... O estandarte de seu pai, Príncipe Josua. — respondeu, entregando-o. — Trazido... De Hayholt. Você não carrega outro estandarte senão o Cisne Cinzento de Naglimund... Que melhor poderia desejar?
O Príncipe encarou o pendão vermelho e branco, meio desdobrado em seu colo. O olho do dragão de fogo brilhava severamente, como se algum intruso ameaçasse a Árvore Sagrada em torno da qual se envolvia. Deornoth e Isorn, com alguns dos outros cavaleiros por perto, sorriram expectantes.
— Não! — disse Josua, devolvendo-o. Seu olhar era frio. — Não sou meu pai. E não sou Rei.
Ele se virou, enrolando as rédeas em seu braço direito e ergueu a mão.
— Avante! — gritou. — Vamos encontrar amigos e aliados!
Ele e sua tropa cavalgaram pelas ruas íngremes da cidade. Algumas flores, atiradas por pessoas bem-intencionadas do alto das muralhas do castelo, caíram na estrada lamacenta e revolvida atrás deles.
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— O que você ve aí, rimmerio? — perguntou Towser, franzindo a testa. — Por que está murmurando assim?
A pequena força de Josua agora era apenas um borrão colorido, desaparecendo rapidamente na distância.
— Há um grupo de homens a cavalo vindo pela borda das colinas ao sul. — disse Jarnauga. — Daqui, não parece um grande exército, no entanto ainda estão distantes. — seus olhos se fecharam por um instante, como se tentasse se lembrar de algo, e então os reabriu, fitando a distância.
Towser fez o sinal da Árvore por reflexo; os olhos do velho rimmerio eram tão brilhantes e reluziam com tanta intensidade, como lâmpadas de safira!
— Uma cabeça de javali em lanças cruzadas. — sibilou Jarnauga. — De quem será?
— Guthwulf! — disse Towser, confuso. O rimmerio poderia estar observando fantasmas, pois o horizonte se estendia vazio aos olhos do velho bobo da corte. — Conde de Utanyeat... A Mão do Rei.
Mais abaixo na muralha, Senhora Vorzheva olhava melancolicamente para os cavaleiros do Príncipe, que desapareciam.
— Está vindo do sul, então, à frente de todo o exército de Elias. Parece que Leobardis o viu... Os nabbanos se voltaram para as colinas do sul, como se fossem enfrentá-lo.
— Quantos... Quantos homens? — perguntou Towser, sentindo-se cada vez mais confuso. — Como você consegue ver tal coisa agora? Eu não vejo nada, e minha visão é a única coisa que não...
— Cem cavaleiros, talvez menos. — interrompeu Jarnauga. — É isso que me preocupa, por que são tão poucos...?
***
— Deus misericordioso! O que o Duque está tramando? — praguejou Josua, erguendo-se nos estribos para ter uma visão melhor. — Ele virou para o leste e está galopando a toda velocidade em direção às colinas do sul! Terá perdido o juízo?
— Meu senhor, olhe! — Deornoth gritou para Josua. — Olhe ali, nos arredores da Colina do Touro!
— Pelo amor de Aedon, é o exército do Rei! O que Leobardis está fazendo? Está pensando em atacar Elias sem apoio? — Josua deu um tapa no pescoço do cavalo e esporeou para frente.
— Parece ser uma força pequena, Príncipe Josua! — disse Deornoth. — Uma vanguarda, talvez.
— Por que ele não enviou mensageiros? — perguntou o Príncipe, lamentando. — Veja, eles tentarão empurrá-los em direção a Naglimund, para encurralá-los contra a muralha. Por que, em nome de Deus, Leobardis não enviou nenhum mensageiro para mim? — ele suspirou e se virou para Isorn, que havia afastado o elmo de urso do pai para observar melhor o horizonte. — Agora, afinal, nossa coragem será testada, amigo.
A inevitabilidade da luta parecia ter envolvido Josua em serenidade como um manto. Seus olhos estavam calmos e ostentava um estranho meio sorriso. Isorn sorriu para Deornoth, que estava soltando seu escudo do pomo da sela, e então olhou de volta para o Príncipe.
— Que o testem, senhor! — disse o filho do Duque.
— Adiante! — gritou o Príncipe. — O destruidor de Utanyeat está diante de nós! Cavalguem!
Gritando a plenos pulmões, esporeou seu cavalo malhado, fazendo a terra jorrar sob os cascos do animal.
— Por Naglimund! — Deornoth gritou, erguendo a espada. — Por Naglimund e nosso Príncipe!
***
— Guthwulf está firme! — Jarnauga disse. — Resiste na encosta, mesmo com os nabbanos vindo em sua direção. Josua se virou para enfrentá-los.
— Eles estão lutando? — Vorzheva perguntou, assustada. — O que está acontecendo com o Príncipe?
— Ainda não chegou à batalha... Ali! — Jarnauga descia a muralha em direção à torre sudoeste. — Os cavaleiros de Guthwulf recebem a primeira investida dos nabbanos! É uma confusão total! — seus olhos cerraram e os punhos foram fechados em punhos.
— O quê? O quê? — Towser colocou o dedo na boca, olhando fixamente e roendo as unhas. — Não se cale agora, rimmerio!
— É difícil distinguir o que está acontecendo daqui de longe. — disse o ancião, desnecessariamente, pois nenhum de seus dois companheiros, nem ninguém mais nas muralhas do castelo, conseguia ver nada além de um tênue borrão de movimento na sombra da enevoada Colina Lombo do Touro. — O Príncipe avança para a batalha, e os cavaleiros de Leobardis e Guthwulf estão espalhados pelas encostas. Agora... Agora... — sua voz se deteve, concentrando-se.
— Ah! — exclamou Towser com desgosto, batendo na coxa magra. — Por São Muirfath e o Arcanjo, isso é pior do que qualquer coisa que posso imaginar. Eu bem que poderia ler isso em... Em um livro! Maldito seja você, homem… Fale!
***
Deornoth viu tudo se desenrolar diante seus olhos como em um sonho... O brilho turvo da armadura, os gritos e o som abafado da lâmina contra o escudo. Enquanto as tropas do Príncipe avançavam sobre os combatentes, viu os rostos dos cavaleiros nabbanos surgirem aos poucos, e os dos habitantes erkynos também, uma onda de surpresa se espalhando pela batalha com a aproximação deles. Por um instante atemporal, se sentiu como um ponto de espuma brilhante, aprisionado na crista de uma onda suspensa. Um momento depois, com um rugido chocante e um choque de armas, a batalha estava ao redor deles, quando os cavaleiros de Josua atacaram o flanco do Javali e Lanceiros de Guthwulf.
De repente, havia alguém diante dele, um rosto inexpressivo com capacete acima dos olhos esbugalhados e da boca vermelha de um cavalo de guerra. Deornoth sentiu um golpe no ombro que o sacudiu na sela; a lança do cavaleiro atingiu seu escudo e deslizou para longe. Viu o sobreveste escuro do homem à sua frente por um instante e brandiu sua espada com ambas as mãos, sentindo um impacto arrepiante quando ela ricocheteou pelo escudo e atingiu o peito do cavaleiro, derrubando-o de seu corcel na lama e na grama ensanguentada.
Por um momento, teve clareza; olhou ao redor, tentando encontrar o estandarte de Josua, e sentiu uma pulsação distante em seu ombro. O Príncipe e o filho de Isgrimnur, Isorn, lutavam costas com costas em meio a uma onda turbulenta dos cavaleiros de Guthwulf. A mão ágil de Josua disparou e Naidel perfurou a viseira de um dos cavaleiros de crista negra. As mãos do homem voaram para seu rosto revestido de metal, coberto instantaneamente de vermelho, e então foi puxado para baixo, desaparecendo de vista, quando seu cavalo sem rédeas empinou.
Deornoth viu Leobardis, o Duque de Nabban, sentado em seu cavalo no extremo sudeste do campo de batalha, sob sua bandeira tremulante com a figura de um martim pescador. Dois cavaleiros seguravam seus cavalos relutantes por perto, e Deornoth deduziu que o grandalhão com a armadura de gala era seu filho, Benigaris.
“Maldito seja! O Duque Leobardis é velho, porém o que Benigaris estava fazendo à margem da batalha? Isto era guerra!”
Uma figura surgiu à sua frente, e Deornoth esporeou para a esquerda para desviar de um machado de batalha que vinha em sua direção. O cavaleiro passou zunindo, sem se virar, contudo foi seguido por outro. Por um instante, tudo lhe escapou da mente, exceto a dança de golpe após golpe enquanto trocava investidas com o homem de Utanyeat; o clangor do campo pareceu diminuir para um ruído surdo, como o som de água caindo. Por fim, encontrou uma brecha na guarda do homem e desferiu um golpe de espada contra seu elmo, amassando-o na dobradiça da viseira. O cavaleiro tombou para o lado e caiu, com o pé preso no estribo, de modo que ficou pendurado como um porco abatido em uma despensa. Seu cavalo enfurecido o arrastou para longe.
O Conde Guthwulf, de manto e elmo negros, estava agora a um passo de distância, desferindo golpes para a esquerda e para a direita com sua grande espada larga, repelindo dois cavaleiros nabbanos de casaco azul como se fossem meninos. Deornoth inclinou-se na sela para esporear em sua direção... Que glória, trocar golpes com o Monstro de Utanyeat! Quando um cavalo que tombou ao seu lado girou sua própria montaria.
Parando, ainda tão confuso como se estivesse sonhando, percebeu que havia sido levado colina abaixo em direção à periferia da batalha. O estandarte azul e dourado de Leobardis estava diante dele; o Duque, com os cabelos brancos esvoaçando sob o elmo, estava de pé nos estribos, gritando exortações para seus homens, depois puxou a viseira para baixo sobre seus olhos brilhantes, preparando-se para esporear para a luta.
O sonho se transformou em pesadelo enquanto Deornoth observava. Aquele que supôs ser Benigaris, movendo-se tão lentamente que Deornoth quase sentiu que poderia estender a mão e detê-lo, puxou sua longa espada e, com cuidado e deliberação, a cravou na nuca do Duque, sob o elmo. Na multidão agitada, com a batalha estrondosa ao redor, parecia que ninguém além de Deornoth testemunhara aquele ato terrível. Leobardis arqueou as costas quando a lâmina foi retirada, manchada de sangue escarlate, e levou as mãos trêmulas e enluvadas à garganta, mantendo-as ali por um instante, como se tentasse falar em meio a uma dor avassaladora. Um momento depois, o Duque se inclinou para a frente na sela, apoiando-se no pescoço branco do cavalo e manchando a crina com seu sangue abundante antes de rolar da sela para o chão.
Benigaris olhou para baixo por um momento, como se contemplasse um pássaro que caísse do ninho, e então levou a corneta aos lábios. Por um instante, em meio ao caos e aos gritos por todos os lados, Deornoth pensou ter visto um brilho na fenda negra do elmo de Benigaris, como se o filho do Duque tivesse cruzado seu olhar por cima das cabeças de todos os combatentes entre eles.
A corneta soou, longa e áspera, e muitas cabeças se viraram.
— Tambana Leobardis eis! — bradou Benigaris, sua voz terrível, rouca e pesarosa. — O Duque caiu! Meu pai foi morto! Recuem!
Tornou a soar a corneta, e mesmo enquanto Deornoth olhava horrorizado e incrédulo, outro toque de corneta veio da encosta acima deles. Uma fileira de cavaleiros blindados saltou da sombra das árvores.
***
— Luzes do Norte! — gemeu Jarnauga, levando Towser a outro paroxismo de frustração.
— Contem-nos! Como está a batalha?
— Receio que esteja perdida. — disse o rimmerio, sua voz um eco oco. — Alguém caiu.
— Oh! — exclamou Vorzheva, com lágrimas nos olhos. — Josua! Não é o Josua?
— Não sei dizer. Acho que pode ser Leobardis. Mas agora outra força de homens desce a encosta, vinda de entre as árvores. Casacos vermelhos, em seu estandarte... Uma águia?
— Falshire! — gemeu Towser, e tirando o chapéu com sino, atirou-o com um estrondo sobre a pedra. — Mãe de Deus, é o Conde Fengbald! Oh, Jesuris Aedon, salve nosso Príncipe! Os bastardos filhos da puta!
— Eles descem sobre Josua como um martelo. — disse Jarnauga. — E os nabbanos estão confusos, eu acho. Eles...
***
— Recuem! — gritou Benigaris, e Aspitis Preves, ao seu lado, arrancou o estandarte dos braços atordoados do escudeiro de Leobardis, derrubando o jovem sob os cascos de seu cavalo.
— São muitos! — gritou Aspitis. — Recuem! O Duque está morto!
Deornoth virou seu cavalo e mergulhou de volta através da confusão em direção a Josua.
— Uma armadilha! — gritou. Os cavaleiros de Fengbald desciam a colina a toda velocidade, lanças reluzentes. — É uma armadilha, Josua!
Ele abriu caminho através de dois javalis de Guthwulf que teriam bloqueado seu caminho, recebendo golpes duros em seu escudo e elmo, atravessando a garganta do segundo homem com uma espada e quase perdendo-a quando esta ficou presa na espinha. Viu um filete de sangue escorrer por sua viseira e não sabia se era de alguém ou seu próprio.
O Príncipe chamava seus cavaleiros de volta, o chifre de Isorn soando alto acima dos gritos e do choque das armas.
— Benigaris matou o Duque! — gritou Deornoth. Josua olhou para cima, assustado, enquanto a figura ensanguentada avançava em sua direção. — Benigaris o apunhalou pelas costas! Estamos encurralados!
Por um breve instante, o Príncipe hesitou, levantando a mão como se fosse erguer a viseira e olhar ao redor. Fengbald e seus homens haviam se lançado em direção ao flanco dos homens de Naglimund, tentando cortar sua retirada.
Um momento depois, o Príncipe ergueu o braço com o escudo envolto pelas rédeas.
— Seu chifre, Isorn! — gritou. — Precisamos abrir caminho! Para trás! Para trás para Naglimund! Fomos traídos!
Com um toque do chifre e um grande grito de raiva, os cavaleiros do Príncipe avançaram, diretamente para a linha carmesim de Fengbald. Deornoth incitou seu cavalo a avançar, tentando alcançar a frente, e observou a lâmina giratória de Josua serpentear pela guarda da primeira Águia, golpeando como uma serpente sob o braço do homem, entrando e saindo. Um instante depois, Deornoth encontrou uma horda de sobretudos vermelhos à sua frente. Brandiu sua lâmina e praguejou; embora não soubesse, sob seu elmo suas bochechas estavam molhadas de lágrimas.
Os homens de Fengbald, assustados pela ferocidade de seus atacantes, viraram-se lentamente, e naquele instante suas linhas foram rompidas. Atrás deles, as legiões nabbanas estavam em plena retirada, fugindo desordenadas de volta para Inniscrich. Guthwulf não os perseguiu, mas enviou suas tropas para se juntarem a Fengbald na perseguição dos cavaleiros de Josua em fuga.
Deornoth abraçou o pescoço de seu cavalo. Podia ouvir sua respiração ofegante enquanto galopavam a toda velocidade, de volta pelos prados e terras agrícolas em pousio. O som da perseguição foi diminuindo aos poucos à medida que as muralhas de Naglimund se erguiam à frente.
O portão estava erguido, uma boca negra e aberta. Olhando fixamente para ele, sua cabeça latejava como um tambor batido. Deornoth de repente desejou muito ser engolido... Deslizar para o profundo esquecimento sem luz e nunca mais sair.
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Link para o índice de capítulos: The Dragonbone Chair
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