quarta-feira, 17 de junho de 2026

The Dragonbone Chair — Volume 03 — Capítulo 41

Capítulo 41: Fogo Frio e Pedra Resistente


O sonho foi se dissipando gradualmente, derretendo como névoa, um sonho aterrador em que estava cercado por um mar verde sufocante. Não havia cima nem baixo, apenas uma luz sem origem ao redor e uma horda de sombras cortantes, tubarões, cada um com os olhos negros e sem vida de Pryrates.

Conforme o mar recuava, Deornoth emergiu, de um brusco despertar do sono para um estado de semiconsciência turva. As paredes do quartel da guarda estavam salpicadas de um luar frio, e a respiração constante dos outros homens era como o vento soprando entre folhas secas.

Mesmo com o coração palpitando no peito, sentiu o sono voltando a estender a mão para reivindicar sua alma exausta, acalmando-o com dedos delicados, sussurrando em seu ouvido. Ele começou a recuar, a força da maré do sonho mais suave do que antes. Dessa vez, o vento o levou para um lugar mais luminoso, um lugar de umidade matinal e sol suave do meio-dia: a propriedade de seu pai em Hewenshire, onde crescera trabalhando nos campos ao lado de suas irmãs e irmão mais velho. Uma parte sua não havia saído do quartel... Era antes do amanhecer, sabia, o nono dia de junen... Porém outra parte havia ficado para trás, no passado. Tornou a sentir o cheiro almiscarado da terra revolvida e ouviu o rangido paciente dos sulcos do arado e o chilrear cadenciado das rodas da carroça enquanto o boi a puxava pela estrada em direção ao mercado.

O rangido ficou mais alto, mesmo quando o cheiro pungente e lamacento dos sulcos começou a desaparecer. O arado estava se aproximando; a carroça parecia estar logo atrás. Os condutores de bois estavam dormindo? Alguém havia deixado os bois vagarem pelos campos? Sentiu um horror infantil.

“Meu pai vai ficar muito bravo... Fui eu? Deveria estar vigiando-os?” sabia como seria a expressão do pai, o rosto enrugado e manchado de raiva que não aceitaria desculpas, o rosto, como o jovem Deornoth sempre pensara, de Deus enviando um pecador para o Inferno. “Mãe Elysia. Papai vai me dar uma bronca daquelas, com certeza...”

Ele se sentou ereto em seu catre, respirando com dificuldade. Seu coração estava palpitando tanto quanto depois do sonho com o tubarão, contudo começou a se acalmar enquanto olhava ao redor do quartel.

“Há quanto tempo você está morto, pai?” perguntou-se, enxugando rapidamente o suor que esfriava da testa com o pulso. “Por que ainda me assombra? Os anos e as orações não...?”

Deornoth de repente sentiu um frio arrepio de medo percorrer sua espinha. Estava acordado agora, não estava? Então por que o rangido implacável não havia desaparecido com seu meio sonho? Em um instante, se levantou, gritando, o fantasma do pai morto se apagando como uma vela.

— Levantem-se, homens, levantem-se! Às armas! O cerco começou!

Vestindo com dificuldade sua cota de malha, percorreu a fileira de camas, despertando os sonolentos e embriagados de vinho, dando instruções àqueles que seu primeiro grito havia trazido à vida. Ouviram-se gritos de alarme vindos da guarita acima e o som rouco de uma trombeta.

Seu capacete estava torto em sua cabeça, e seu escudo batia em seu flanco enquanto saía trotando pela porta, lutando com o cinto da espada. Espiando no outro alojamento, viu os habitantes já de pé, armando-se com pressa.

— Homens! — gritou, agitando um punho enquanto segurava o cinto com o outro. — Esta é nossa prova, Deus nos ajude, agora é hora de mostrarmos nosso valor!

Sorriu ao ouvir o grito rouco que lhe respondeu e dirigiu-se para as escadas, ajeitando o capacete.

O topo do grande portão, na muralha ocidental, parecia estranhamente disforme à luz da meia-lua acima, as paliçadas haviam sido concluídas apenas alguns dias antes, paredes e teto de madeira que protegeriam os defensores das flechas. O topo da portaria já estava repleto de guardas seminus, estranhas formas fugazes marcadas pelos raios de luar que vazavam pelas paliçadas.

Tochas brilhavam ao longo da muralha enquanto arqueiros e lanceiros tomavam suas posições. Outra trombeta grasnou, como um galo que havia perdido a esperança da chegada do amanhecer, convocando mais soldados para o pátio abaixo.

O protesto estridente das rodas de madeira aumentou. Deornoth olhou para a planície desnudada e inclinada diante da muralha da cidade, procurando a origem do ruído... Sabendo o que seria, no entanto ainda despreparado para a cena.

— Pela Árvore Sagrada! — praguejou, e ouviu o homem ao seu lado repetir o juramento.

Movendo-se em direção a eles tão lento quanto gigantes mancos, tomando forma das sombras da aurora, estavam seis grandes torres de cerco, seus cumes de madeira tão altos quanto a poderosa muralha de Naglimund. Revestidas por peles escuras, elas se inclinavam para a frente como ursos altos de cabeça quadrada; os grunhidos e gritos dos homens escondidos que as empurravam, e o rangido das rodas, grandes como casas, pareciam as vozes de monstros nunca vistos desde os Dias Mais Antigos.

Deornoth sentiu uma onda de medo não desagradável. O Rei enfim chegara, e agora seu exército estava à porta deles. Pelo Bom Deus, as pessoas cantariam sobre isso algum dia, aconteça o que acontecer!

— Guardem suas flechas, tolos! — gritou, enquanto alguns dos defensores lançavam disparos aleatórios na escuridão, os projéteis caindo muito longe de seus alvos ainda distantes. — Esperem, esperem, esperem! Em breve estarão mais perto do que vocês gostariam!

O exército de Elias, em resposta ao florescimento do fogo nas muralhas de Naglimund, deixou seus tambores trovejarem pela escuridão, um grande estrondo retumbante que aos poucos se transformou em um passo pesado e ritmado, como o de um titã. Os defensores tocaram trombetas de cada torre... Um som fraco e metálico contra o estrondo dos tambores, mas que, mesmo assim, prenunciava vida e resistência.

Deornoth sentiu um toque em seu ombro e olhou para cima, vendo duas figuras blindadas ao seu lado: Isorn, com seu elmo de urso, e Einskaldir, carrancudo, com um capacete de aço sem adornos, exceto por um bico de metal que se curvava sobre o nariz. Os olhos do rimmerio barbudo brilhavam como a luz da tocha enquanto colocava uma mão firme no filho de seu mestre Isgrimnur, movendo Isorn com cuidado, porém com força, para fora do caminho para que pudesse caminhar até o parapeito. Olhando fixamente para a penumbra, Einskaldir rosnou baixinho, como um cão.

— Ali! — rosnou, apontando para a base das torres de cerco. — Aos pés dos grandes ursos. Os lançadores de pedras e o aríete.

Ele indicou outras grandes máquinas que se moviam atrás das torres. Várias eram catapultas, com braços longos e fortes armados como cabeças de cobras assustadas. Outras pareciam meras caixas revestidas de couro, seus mecanismos ocultos pela armadura, projetadas para chegar em segurança como caranguejos de carapaça dura através das flechas e pedras até a muralha, onde executariam as tarefas que lhes haviam sido designadas.

— Onde está o Príncipe? — perguntou Deornoth, incapaz de desviar os olhos das máquinas que se moviam lentamente.

— Já estou vindo! — respondeu Isorn, ficando na ponta dos pés para tentar olhar por cima de Einskaldir. — Está com Jarnauga e o mestre dos arquivos desde que você voltou da reunião. Espero que estejam preparando algum estratagema maravilhoso para nos dar força, ou para minar a do Rei. É verdade, Deornoth, olhe para todos eles. — apontou para as formas escuras e fervilhantes do exército do Rei, numerosos como formigas atrás das torres que rolavam devagar. — São tantos, malditos.

— Pelas feridas de Aedon! — rosnou Einskaldir, e voltou um olho vermelho para Isorn. — Que venham. Nós os devoraremos e cuspiremos fora.

— Então... — disse Deornoth, e esperava ter conseguido arrancar um sorriso de Isorn, como pretendia. — Com Deus, o Príncipe e Einskaldir, o que temos a temer?



***



O exército do Rei chegou às planícies na trilha de máquinas de cerco, infestando os prados encharcados de névoa como moscas na casca de uma maçã verde. Tendas pareciam brotar da terra úmida como cogumelos angulares.

O amanhecer chegou silenciosamente enquanto os sitiantes se posicionavam. O sol oculto dissipou apenas uma camada da escuridão da noite, deixando o mundo suspenso em uma luz cinzenta e sem direção.

As grandes torres de cerco, que haviam permanecido imóveis por uma longa hora, como sentinelas sonolentas, de repente retomaram seu avanço. Soldados se esquivavam entre as poderosas rodas, puxando os cabos de sustentação enquanto as enormes máquinas rolavam laboriosamente morro acima. Por fim, chegaram ao alcance; os arqueiros nas muralhas dispararam, gritando de alegria aterrorizada quando as flechas saíram sibilando, como se soltassem as amarras que prendiam seus corações junto com as cordas dos arcos.

Após a primeira saraivada instável, começaram a acertar o alvo; muitos dos homens do Rei caíram mortos no mesmo lugar, ou ficaram feridos enquanto as rodas implacáveis ​​de suas próprias máquinas os esmagavam, gritando, contra o solo. Porém para cada um que caía, transpassado por flechas, outro dos engenheiros de capacete e jaqueta azul saltava para a frente para pegar seu cabo de sustentação. As torres de cerco continuaram a avançar em direção às muralhas, sem se deixarem deter.

Agora os arqueiros do Rei em terra estavam perto o suficiente para revidar o fogo. Flechas cintilavam entre as muralhas e a terra abaixo como abelhas enlouquecidas. Enquanto as máquinas rangiam e estalavam em direção à muralha, o sol rompeu por um breve momento; as ameias já estavam salpicadas de vermelho em alguns lugares, como se caíssem com uma chuva suave.



***



— Deornoth! — o rosto pálido do soldado, manchado de terra, brilhava dentro do capacete como uma lua cheia. — Grimstede ordena que você venha, e logo! Eles trouxeram escadas para a muralha abaixo da Torre de Dendinis!

— Pela Árvore! — Deornoth cerrou os dentes de frustração e se virou para procurar Isorn. O rimmerio havia tomado um arco de um guarda ferido e estava ajudando a manter livres os últimos metros de terreno entre a torre de cerco mais próxima e a muralha, empalando qualquer soldado tolo o suficiente para sair da proteção da torre parada e que tentasse pegar as cordas soltas que tremulavam ao vento.

— Isorn! — Deornoth gritou. — Enquanto mantemos as torres afastadas, eles trouxeram escadas para a muralha sudoeste!

— Então vá! — o filho de Isgrimnur não desviou o olhar da ponta de sua flecha. — Eu me juntarei a vocês quando puder!

— Onde está Einskaldir?

Pelo canto do olho, viu o mensageiro se remexendo de um lado para o outro, impaciente e temeroso.

— Só Deus sabe!

Resmungando baixinho, Deornoth baixou a cabeça e correu desajeitadamente atrás do mensageiro de Sir Grimstede. Juntou meia dúzia de guardas pelo caminho, homens cansados ​​que haviam se sentado por um instante ao abrigo da ameia para recuperar o fôlego. Chamados, balançaram a cabeça com pesar, contudo colocaram seus elmos e o seguiram; Deornoth era de confiança; muitos o chamavam de ‘Mão Direita do Príncipe’.

“No entanto Josua teve azar com sua primeira mão direita.” pensou Deornoth amargamente enquanto se curvava pela passarela, suando apesar do ar frio e cinzento. “Espero que esta nova mão dure mais. E onde está o Príncipe, afinal? De todas as vezes que desejei vê-lo...”

Contornando a imponente Torre de Dendinis, ficou chocado ao ver os homens de Sir Grimstede recuando e as cores vermelho e azul dos homens de Cellodshire do Barão Godwig invadindo a ameia e a muralha.

— Por Josua! — gritou, saltando para a frente.

Os homens atrás repetiram o grito. Investiram contra os sitiantes com um estrondo metálico de espada contra espada e, por um instante, repeliram seus atacantes. Um deles caiu das muralhas, gritando, agitando os braços como se o vento gélido pudesse sustentá-lo. Os homens de Grimstede se animaram e avançaram. Enquanto o inimigo era arrastado de volta ao combate, Deornoth arrancou uma lança das mãos rígidas de um cadáver estendido, sofrendo um duro golpe no corpo com a coronha de uma lança perdida, e empurrou a primeira das altas escadas para longe da muralha. Um instante depois, dois de seus guardas se juntaram e, juntos, alavancaram a escada; ela caiu tremendo no vazio enquanto os sitiantes se agarravam a ela, praguejando, com a boca escancarada como buracos negros e vazios. Por um momento, ela ficou suspensa, a meio caminho entre a terra e o céu, perpendicular a ambos; então, a escada perdeu o equilíbrio para trás, em direção ao chão, derrubando soldados como frutos de um galho sacudido.

Logo, todos, exceto dois soldados de vermelho e azul, jaziam ensanguentados na passarela. Os defensores empurraram as três escadas restantes, e Grimstede ordenou que seus homens rolassem uma das grandes pedras que não tiveram tempo de mover no início do ataque. Eles a derrubaram do ponto mais baixo da muralha, fazendo com que caísse sobre as escadas tombadas, estilhaçando-as como gravetos e matando um dos soldados que estava na escada, que ficou sentado onde havia caído, olhando com uma expressão estúpida enquanto a grande pedra rolava sobre ele.

Um dos guardas defensores, um jovem barbudo que já havia jogado dados com Deornoth, jazia morto, com o pescoço quebrado pela borda de um escudo. Quatro dos homens de Sir Grimstede também haviam caído, estilhaçados como espantalhos derrubados pelo vento, entre os sete homens de Cellodshire que também não sobreviveram ao ataque fracassado.

Deornoth sentia o golpe no estômago e permanecia ofegante enquanto Grimstede, com seus dentes separados, mancava para ficar ao seu lado, com um buraco irregular e sangrento na panturrilha da bota.

— São sete aqui, e mais meia dúzia despencaram da escada. — disse o cavaleiro, olhando com satisfação para os corpos contorcidos e os destroços abaixo. — Ao longo da muralha é a mesma coisa. O Rei Elias está perdendo muito mais do que nós, muito mais.

Deornoth sentia-se mal, e seu ombro ferido latejava como se um prego tivesse sido cravado nele.

— O Rei tem... Muito mais do que nós. — respondeu. — Pode... Jogá-los fora como cascas de maçã.

Agora ele sabia que ia vomitar e caminhou em direção à beira do muro.

— Cascas de maçã... — repetiu, inclinando-se sobre o parapeito, com tanta dor que não sentia vergonha.



***



— Leia de novo, por favor. — disse Jarnauga baixinho, olhando para os dedos unidos.

O padre Strangyeard ergueu os olhos, a boca cansada aberta para formular uma pergunta. Em vez disso, um baque estrondoso vindo de fora trouxe uma expressão de pânico ao rosto do padre caolho, e rapidamente desenhou uma árvore no peito de sua túnica preta.

— Pedras! — exclamou, com a voz estridente. — Eles estão... Estão jogando pedras por cima do muro! Não deveríamos... Não há...

— Os homens que lutam no topo das muralhas também estão em perigo. — disse o velho rimmerio, com o rosto severo. — Estamos aqui porque é aqui que melhor servimos. Nossos camaradas procuram uma espada no norte branco, contra probabilidades letais. Outra já está nas mãos do nosso inimigo, mesmo enquanto ele sitia nossas muralhas. A pouca esperança que temos de descobrir o que aconteceu com a espada de Fingil, Minneyar, reside em nós. — sua expressão suavizou-se ao olhar para o preocupado Strangyeard. — As poucas pedras que alcançam a fortaleza interna devem passar pelo alto muro atrás desta sala. Corremos pouco risco. Agora, por favor, leia essa passagem de novo. Há algo nela que não consigo compreender bem, mas que parece importante.

O alto sacerdote encarou a página por alguns instantes, e enquanto a sala mergulhava em silêncio, uma onda de gritos e exortações, abafada pela distância, invadiu a janela como uma névoa. A boca de Strangyeard se contraiu.

— Leia! — sugeriu Jarnauga.

O sacerdote pigarreou.



“... E assim John desceu pelos túneis sob Hayholt... Aberturas fumegantes e passagens úmidas, repletas do hálito de Shurakai. Desarmado, exceto por uma lança e um escudo, com o couro de suas botas fumegando à medida que se aproximava da toca do dragão de fogo, ele estava, sem dúvida, tão assustado quanto jamais estaria em sua longa vida...”



Strangyeard interrompeu-se.

— Para que serve isto, Jarnauga?

Algo caiu no chão a uma curta distância com um som semelhante ao da queda de um martelo gigante. Strangyeard ignorou estoicamente.

— Você... Quer que eu continue? Conte toda a batalha do Rei John contra o dragão?

— Não. — Jarnauga acenou com uma mão nodosa. — Vá para a passagem final.

O sacerdote virou cuidadosamente algumas folhas.



“... Assim foi como voltou a emergir na luz de forma inesperada, pois ninguém acreditava em seu regresso. Os poucos que permaneceram na entrada da caverna... O que por si só já demonstrava grande bravura, pois quem poderia prever o que aconteceria à porta do túnel de um dragão enfurecido? Proferiram grandes juramentos de alegria e espanto; alegria, ao verem John de Warinsten emergir vivo da toca do verme, e espanto ao verem a enorme garra, de escamas carmesim e gancho, que carregava em seu ombro ensanguentado. Enquanto caminhavam gritando pela estrada à sua frente, conduzindo triunfante seu cavalo pelos portões de Erchester, as pessoas vinham boquiabertas às janelas e às ruas. Alguns dizem que aqueles que mais ruidosamente profetizaram a morte horrível de John e as terríveis consequências que as ações do jovem cavaleiro lhes acarretariam, agora eram os mais audíveis em sua aclamação por seu grande feito. À medida que a notícia se espalhava, as fileiras de carroças logo se encheram de cidadãos clamorosos que jogavam flores diante de John enquanto este cavalgava. Cravo Brilhante ergueu-se à sua frente como uma tocha, através da cidade que agora lhe pertencia...”



Suspirando, Strangyeard guardou delicadamente as páginas do manuscrito na caixa de cedro que encontrara para guardá-las.

— Uma história encantadora e assustadora, eu diria, Jarnauga, e Morgenes, hmmm, sim, ele descreve as coisas maravilhosamente bem... Porém de que nos serve?

Jarnauga cerrou os olhos para os próprios nós dos dedos proeminentes e franziu a testa.

— Não sei. Algo, há algo ali. O Doutor Morgenes, querendo ou não, colocou algo ali. Céu, nuvens e pedras! Quase consigo tocar! Sinto-me cego!

Outro ruído veio da janela... Gritos altos e preocupados e o tilintar pesado de armaduras enquanto um grupo de guardas passava correndo no pátio lá fora.

— Não acho que tenhamos muito tempo para refletir, Jarnauga. — disse Strangyeard.

— Nem eu! — disse o velho, esfregando os olhos.



***



Durante toda a tarde, a maré do exército do Rei Elias se chocou contra os penhascos rochosos de Naglimund. A fraca luz do sol incidia sobre fragmentos brilhantes de reflexo do metal polido enquanto onda após onda de soldados com cotas de malha e capacetes subiam as escadas, apenas para serem repelidos pelos defensores do castelo. Aqui e ali, as forças do Rei encontravam uma brecha momentânea no anel de homens persistentes e pedra resistente, contudo sempre eram repelidas. O gordo Ordmaer, barão de Utersall, defendeu sozinho uma dessas brechas por longos minutos, lutando corpo a corpo com os soldados que escalavam as escadas por baixo, matando quatro deles e mantendo o resto à distância até a chegada de reforços, embora tenha sofrido um ferimento mortal na luta.

Foi o próprio Príncipe Josua quem trouxe uma tropa de guardas, assegurando toda a extensão da muralha e destruindo a escada. A espada de Josua, Naidel, era um raio de sol que cintilava entre as folhas, cortando e perfurando com rapidez, transformando vivos em mortos enquanto seus atacantes brandiam espadas largas desajeitadas ou adagas inadequadas.

O Príncipe chorou quando o corpo de Ordmaer foi encontrado. Não havia grande vínculo entre o Barão e ele, no entanto a morte de Ordmaer fora heroica, e no calor da batalha, sua queda repentinamente pareceu a Josua representativa de todas as outras... Todos os piqueiros, arqueiros e soldados de infantaria de ambos os lados, morrendo em seu próprio sangue sob céus frios e nublados.

O Príncipe ordenou que o grande e inerte corpo do Barão fosse carregado até a capela do castelo. Seus guardas, praguejando em silêncio, obedeceram.

À medida que o sol avermelhado se arrastava em direção ao horizonte oeste, o exército do Rei Elias parecia fraquejar, desistir... Suas tentativas de empurrar as máquinas de cerco contra a muralha sob o sibilante fogo das flechas tornaram-se tímidas, e os escaladores começaram a abandonar suas escadas à primeira resistência vinda das alturas. Era difícil para erkynos matarem erkynos, mesmo sob o comando do Supremo Rei. E era ainda mais difícil quando aqueles irmãos lutavam como texugos encurralados.

Com a chegada do pôr do sol, um toque de trompa melancólico ecoou pelo campo vindo das fileiras de tendas, e as forças de Elias começaram a recuar, arrastando os feridos e também muitos dos mortos, deixando as torres de cerco cobertas de couro e as estruturas dos mineiros onde estavam, aguardando o ataque da manhã seguinte. Quando a trompa voltou a soar, os tambores rufaram alto, como que para lembrar aos defensores que o grande exército do Rei, como o oceano verde, poderia enviar ondas para sempre. Por fim, pareciam dizer os tambores, até a pedra mais resistente acabaria por ruir.



***



As torres de cerco, erguendo-se como obeliscos solitários diante das muralhas, eram outro lembrete evidente da intenção de Elias de retornar. As peles úmidas penduradas nelas não permitiam que uma simples flecha flamejante causasse dano, mas Eadgram, o Lorde Condestável, havia ponderado o dia todo. Depois de buscar conselhos de Jarnauga e Strangyeard, por fim elaborou um plano.

Em silêncio, mesmo enquanto o último dos homens do Rei mancava pela encosta em direção ao acampamento, Eadgram ordenou que seus homens carregassem sacos de vinho cheios de óleo nas duas pequenas catapultas de Naglimund. Quando foram soltos, os sacos de óleo assobiaram pela distância aberta além da muralha, respingando sobre o revestimento de couro das torres. Feito isso, foi simples enviar algumas flechas com pontas de piche flamejantes rasgando o crepúsculo azul; em instantes, as quatro enormes torres se transformaram em tochas fumegantes.

Não havia nada que os homens de Elias pudessem fazer para apagar o incêndio. Os defensores nas muralhas bateram palmas, pisaram forte e gritaram, cansados, embora animados, enquanto uma luz alaranjada dançava nas ameias.

Quando o Rei Elias saiu do acampamento, envolto em seu grande manto negro como um homem das sombras, os defensores de Naglimund zombaram dele. Quando o monarca ergueu sua estranha espada cinza e gritou como um louco para que a chuva caísse e apagasse as torres em chamas, eles riram com um sentimento de incômodo. Foi só depois de um tempo, enquanto o Rei cavalgava de um lado para o outro, com a capa negra como azeviche esvoaçando ao vento frio, que começaram a entender, pela raiva terrível na voz ecoante de Elias, que de fato esperava que a chuva viesse ao seu chamado e que estava indignado por ela não ter vindo. O riso se dissipou em um silêncio temeroso. Os defensores de Naglimund, um a um, cessaram suas comemorações e desceram das muralhas para cuidar de seus ferimentos. Afinal, o cerco mal havia começado. Não havia trégua à vista, nem descanso deste lado do céu.



***



— Tenho tido sonhos estranhos de novo, Binabik.

Simon cavalgava ao lado de Qantaqa, alguns metros à frente do resto do grupo. O céu estava limpo, mas fazia um frio terrível; aquele era o sexto dia que cavalgavam pela Terra Branca.

— Sonhos de que tipo?

O rapaz ajeitou a máscara que o gnomo lhe fizera, uma tira de couro com um corte, para mascarar o brilho intenso da neve.

— Da Torre do Anjo Verde... Ou de alguma torre. Sonhei ontem à noite que ela jorrava sangue.

Binabik apertou os olhos por trás da própria máscara e apontou para uma tênue faixa cinza que se estendia ao longo do horizonte, na base das montanhas.

— Aquilo, tenho certeza, é a borda do Dimmerskog, ou do Qilakitsoq, como meu povo o chama: o Bosque Sombrio. Devemos chegar lá em um ou dois dias.

Olhando fixamente para a faixa desolada, Simon sentiu sua frustração fervilhar.

— Não me importo com a maldita floresta. — disse, com brusquidão. — Estou farto de gelo e neve, gelo e neve! Vamos congelar e morrer neste deserto horrível! E os sonhos que estou tendo?

O gnomo balançou por um momento enquanto Qantaqa avançava sobre uma série de pequenos montes de neve. Em meio à canção do vento, Haestan podia ser ouvido gritando algo para alguém.

— Já estou cheio de tristeza. — Binabik falou com calma, como se estivesse adaptando sua fala à cadência de seu progresso. — Passei duas noites acordado em Naglimund, preocupado com o mal que eu poderia causar ao trazê-los comigo nesta jornada. Não sei o que seus sonhos significam, e a única maneira de descobrir seria percorrer a Estrada dos Sonhos.

— Como fizemos na casa de Geloë?

— Porém não tenho fé em minhas próprias forças para isso, não aqui, não agora. É possível que seus sonhos possam nos ajudar, contudo ainda assim não acho sábio trilhar a Estrada dos Sonhos agora. Aqui estamos todos, então este será o nosso destino. Só posso dizer que tenho feito o que me pareceu melhor.

Simon pensou sobre e grunhiu.

“Aqui estamos todos. Binabik tem razão; aqui estamos todos, longe demais para voltar atrás.”

— Inelu... — ele fez o sinal da Árvore com os dedos tremendo de frio. — O Rei da Tormenta... É o Diabo? — perguntou.

Binabik franziu a testa profundamente.

— O Diabo? O inimigo do seu Deus? Por que está perguntando? Você ouviu as palavras de Jarnauga... Sabe o que Ineluki é.

— Suponho que sim. — seu corpo estremeceu. — É que... Eu o vejo em meus sonhos. Ao menos creio que seja ele. Olhos vermelhos, é tudo o que vejo, na verdade, todo o resto preto... Como toras queimadas com as partes quentes ainda visíveis.

Simon se sentiu mal só de se lembrar.

O gnomo deu de ombros, com as mãos presas na juba do lobo.

— Não é o Diabo, amigo Simon. É mau, porém, ou pelo menos acredito que as coisas que quer serão más para o resto de nós. Isto já é maldade suficiente.

— E... O dragão? — Simon perguntou hesitante um momento depois.

Binabik virou a cabeça bruscamente, exibindo seu olhar estranho e penetrante.

— Dragão?

— Aquele que vive na montanha. Aquele cujo nome não posso dizer.

Binabik riu, caindo em gargalhadas, sua respiração formando uma nuvem.

— Igjarjuk é o seu nome! Filha das Montanhas, você tem muitas preocupações, jovem amigo! Demônios! Dragões! — ele recolheu uma de suas próprias lágrimas com o dedo da luva e a ergueu. — Veja! — continuou rindo. — Como se fosse preciso fazer mais gelo.

— Mas há um dragão! — Simon respondeu com veemência. — Todos diziam haver um!

— Há muito tempo, Simon. É um lugar de mau agouro, porém se deve tanto ao seu isolamento quanto a qualquer outra coisa, é o que suponho. As lendas qanuc contam que um grande verme de gelo viveu lá outrora, e meu povo não vai para lá, contudo agora acho mais provável que seja um refúgio de leopardos-das-neves e criaturas semelhantes. Não que não haja perigos. Os hunën, como bem sabemos, vagam por terras distantes hoje em dia.

— Então, na verdade não tenho muito a temer? As coisas mais terríveis têm passado pela minha cabeça à noite.

— Não disse que não tinha muito a temer, Simon. Nunca devemos nos esquecer de que temos inimigos; alguns, ao que parece, são realmente muito poderosos.



***



Outra noite gélida no deserto; outra fogueira na escuridão e no vazio dos campos de neve ao redor. Simon não desejaria nada mais no mundo do que estar enrolado em uma cama em Naglimund, coberto por cobertores, mesmo que a batalha mais sangrenta da história de Osten Ard estivesse acontecendo bem em frente à sua porta. Estava convicto de que, se alguém lhe oferecesse agora mesmo um lugar quente e seco para dormir, mentiria, mataria ou usaria o nome de Jesuris em vão para consegui-lo. Tinha certeza, enquanto estava sentado, enrolado em sua manta, tentando impedir que seus dentes batessem, de que podia sentir seus cílios congelando em suas pálpebras.

Lobos uivavam na escuridão sem fim além da fraca luz da fogueira, mantendo longas e melancolicamente intrincadas conversas. Duas noites antes, quando os companheiros começaram a ouvir seus cantos, Qantaqa passou a noite inteira andando nervosamente ao redor da fogueira. Ela já havia se acostumado aos uivos noturnos de seus companheiros e respondia apenas com um ocasional gemido inquieto.

— Por que ela não responde? — perguntou Haestan, preocupado. Um homem das planícies do norte de Erkynlandia, não tinha mais apreço por lobos do que Sludig, embora tivesse desenvolvido um certo carinho pela montaria de Binabik. — Por que não manda eles irem atormentar outra pessoa?

— Assim como os homens, nem todas as tribos da espécie de Qantaqa vivem em paz. — respondeu Binabik, sem tranquilizar ninguém.

Esta noite, a grande loba fazia o possível para ignorar os uivos... Fingindo dormir, embora se entregando quando suas orelhas eretas se voltaram para os uivos mais altos. O canto do lobo, Simon concluiu enquanto se aconchegava ainda mais em seu cobertor, era o som mais solitário que já ouvira.

“Por que estou aqui?” perguntou-se. “Por que estamos aqui? Procurando nesta neve horrível por alguma espada que ninguém sequer pensou em usar nos últimos anos. Enquanto isso, a Princesa e todos os outros estão no castelo esperando o Rei atacar! Que estupidez! Binabik cresceu nas montanhas, na neve... Grimmric, Haestan e Sludig são soldados... Só Aedon sabe o que os sitha querem. Então, por que estou aqui? É uma estupidez!”

Os uivos cessaram. Um longo dedo indicador tocou a mão de Simon, fazendo-o pular.

— Você ouve os lobos, Seoman? — perguntou Jiriki.

— É-É difícil não ouvir.

— Eles cantam canções tão ferozes. — o sitha balançou a cabeça. — São como vocês, mortais. Cantam sobre onde estiveram, o que viram e sentiram o cheiro. Contam uns aos outros para onde os alces estão correndo e quem acasalou com quem, no entanto, na maioria das vezes, estão apenas gritando ‘Aqui estou! Aqui estou!’ — Jiriki sorriu, revelando os olhos enquanto observava o fogo se extinguir.

— E é i-isso que acha que nós... Nós, mortais, estamos dizendo?

— Com palavras e sem elas. — respondeu o Príncipe. — Vocês precisam tentar ver as coisas com nossos olhos: para os Zida’ya, seu povo muitas vezes parece como crianças. Vocês veem que os longevos sitha não dormem, que permanecemos acordados durante a longa noite da história. Vocês, homens, como crianças, desejam permanecer ao redor do fogo com seus anciãos, para ouvir as canções e histórias e observar a dança. — ele gesticulou ao redor, como se a escuridão estivesse povoada por foliões invisíveis.

— Mas você não pode, Simon. — continuou, em uma voz gentil. — Não pode. É dado ao seu povo dormir o sono eterno, assim como é dado ao nosso povo caminhar e cantar sob as estrelas a noite toda. Talvez haja até uma riqueza em seus sonhos adormecidos que nós, Zida’ya, não compreendemos.

As estrelas penduradas no céu de cristal negro pareciam deslizar para longe, afundar mais fundo na vasta noite. Simon pensou nos sitha e em uma vida que não terminasse, e não conseguia imaginar como seria. Gelado até os ossos... Até mesmo, ao que parecia, até a alma... Ele se aproximou do fogo, tirando as luvas úmidas para aquecer as mãos.

— Porém os sitha podem m-morrer, n-não podem? — perguntou com certa cautela, amaldiçoando sua fala congelada e gaguejante.

Jiriki se inclinou para perto, seus olhos se estreitando, e por um momento assustador Simon pensou que o sitha fosse atacá-lo por sua temeridade. Em vez disso, Jiriki pegou a mão trêmula de Simon e a inclinou.

— Seu anel... — disse, encarando o ornamento em forma de peixe. — Eu não o tinha visto antes. Quem lhe deu?

— Me-Meu mestre, eu su-suponho que tenha sido. — gaguejou Simon. — O Doutor Morgenes de Hayholt o enviou para mim, para B-B-Binabik.

O aperto frio e forte da mão do Príncipe sitha era perturbador, contudo não ousou se soltar.

— Então você é um dos seus que conhece o Segredo? — perguntou Jiriki, observando-o atentamente. A profundidade de seus olhos dourados, tingidos de ferrugem pelo reflexo do fogo, era assustadora.

— S-Segredo? N-N-Não! Não, não sei nenhum segredo!

Jiriki o encarou por um instante, mantendo-o imóvel com o olhar, como se segurasse a cabeça de Simon com as duas mãos.

— Então por que te daria o anel? — perguntou Jiriki, mais para si mesmo, balançando a cabeça enquanto soltava a mão de Simon. — E eu mesmo te dei uma Flecha Branca! Os Ancestrais realmente nos proporcionaram um caminho estranho.

Ele voltou a encarar o fogo trêmulo e se recusou a responder às perguntas de Simon.

“Segredos...” pensou Simon com raiva, mais segredos! “Binabik os tem. Morgenes os tinha, os sitha estão cheios deles! Não quero saber de mais nenhum segredo! Por que fui escolhido para este castigo? Por que todos estão sempre me obrigando a revelar seus horríveis segredos?”

Ele chorou silenciosamente por um tempo, abraçando os joelhos e tremendo, desejando coisas impossíveis.



***



O grupo chegou aos arredores orientais de Dimmerskog na tarde do dia seguinte. Embora o bosque estivesse coberto por um espesso manto de neve branca, parecia, como Binabik o havia nomeado, um lugar de sombras. O grupo não passou por baixo de suas copas, e talvez nem o fizessem se o caminho fosse por ali, tão densa e sinistra era a atmosfera da mata. As árvores, apesar de seu tamanho... E algumas eram sem dúvida enormes, pareciam anãs e retorcidas, como se se contorcessem amargamente sob o peso de seus galhos espinhosos e neve. Os espaços abertos entre os troncos contorcidos pareciam se curvar como túneis cavados por alguma toupeira enorme e bêbada, levando, enfim, a profundezas perigosas e secretas.

Passando em quase silêncio, com os cascos do cavalo afundando suavemente na neve, Simon imaginou seguir os caminhos abertos até os salões de Dimmerskog, com seus pilares de casca e tetos brancos, chegando enfim a... Quem poderia saber? Talvez ao coração escuro e maligno do bosque, um lugar onde as árvores respiravam juntas e transmitiam rumores intermináveis ​​com o roçar escamoso de galho em galho, ou a exalação maliciosa do vento através de gravetos e folhas congeladas.

Naquela noite voltaram a acampar ao ar livre, embora Dimmerskog estivesse agachado a uma curta distância como um animal adormecido. Ninguém queria passar a noite sob os galhos da floresta, em especial Sludig, que havia sido criado com histórias das coisas horríveis que espreitavam os corredores pálidos da mata. Os sitha não pareciam se importar, mas Jiriki passou parte da noite lubrificando sua espada de madeira arcana escura. Mais uma vez, o grupo se aconchegou em volta de uma fogueira sem cobertura, e o vento leste passou por eles durante toda a longa noite, lançando grandes jatos de neve ao redor e brincando nas partes mais altas de Dimmerskog. Quando se deitaram para dormir naquela noite, foi acompanhado ao som da floresta rangendo e dos galhos batidos pelo vento se chocando uns contra os outros.



***



Mais dois dias de cavalgada lenta os levaram ao redor do bosque e através do último trecho de terra aberta e gelada até o sopé das montanhas. A paisagem era desolada, e a luz do dia brilhava na crosta de neve até a cabeça de Simon latejar de tanto semicerrar os olhos, porém o tempo parecia um pouco mais quente. A neve ainda caía, contudo o vento forte não penetrava capas e casacos como fazia vindo do amplo sotavento das montanhas.

— Vejam! — gritou Sludig, apontando para o sopé inclinado do sopé das montanhas.

A princípio, Simon não viu nada além das onipresentes rochas e árvores cobertas de neve. Então, enquanto seu olhar percorria a linha de colinas baixas a leste, viu movimento. Duas figuras de formas estranhas... Ou seriam quatro, estranhamente misturadas? Estavam silhuetadas no topo da crista a cerca de 200 côvados de distância.

— Lobos? — perguntou, nervoso.

Binabik cavalgou Qantaqa adiantando-se do grupo até que pudesse ver com maior claridade, então levou as mãos enluvadas à boca.

Yah aqonik mij-ayah nu tutusiq, henimaatuq? — chamou o gnomo. Suas palavras ecoaram brevemente e depois se perderam em meio às colinas encobertas. — Na verdade, não se deve gritar. — sussurrou ele para um Simon perplexo. — Mais acima, isso pode causar deslizamentos de neve.

— Mas quem são...?

— Shhh! — Binabik acenou com a mão.

Um instante depois, as duas figuras desceram a crista um pouco em direção aos companheiros. Agora Simon podia ver que os dois eram homens pequenos, cada um montado em um carneiro peludo com chifres retorcidos.

Gnomos!

Um deles gritou. Binabik, depois de ouvir atentamente, virou-se com um sorriso para seus camaradas.

— Eles querem saber para onde vamos, e se esse for um rimmerio comedor de carne em nosso meio, se é um prisioneiro?

— Que o diabo os leve! — rosnou Sludig.

O sorriso de Binabik se alargou e voltou-se para a crista.

Binbiniqegabenik ea sikka! — ele gritou em resposta. — Uc sikkan mo-hinaq da Yijarjuk!

As duas cabeças redondas com capuzes de pele os encararam por um momento, como corujas perplexas com o sol. Um instante depois, um deles bateu no peito com a mão, e o outro acenou com o braço enluvado em um amplo círculo enquanto viravam suas montarias e subiam a colina em uma nuvem de neve fofa.

— O que foi tudo aquilo? — perguntou Sludig, irritado.

O sorriso de Binabik parecia forçado.

— Eu disse que íamos para Urmsheim. — explicou. — Um fez o sinal para afastar o mal, o outro estava usando um feitiço contra loucos.



***



Depois de subirem as colinas, o grupo acampou em um vale rochoso escavado na orla de Urmsheim.

— Aqui é onde devemos deixar os cavalos e essas coisas que não precisamos carregar. — disse Binabik enquanto examinava o local abrigado.

Jiriki caminhou até a entrada do vale e inclinou-se para trás, olhando para o topo rochoso e nevado de Urmsheim, com um tom rosado na face oeste devido ao pôr do sol. O vento ondulou sua capa e espalhou seus cabelos ao redor do rosto como mechas de nuvens lavanda.

— Faz muito tempo que não vejo este lugar. — disse ele.

— Você já escalou esta montanha antes? — perguntou Simon, lutando com a fivela da sela do cavalo.

— Nunca vi o outro lado do pico. — respondeu o sitha. — Será algo novo para mim, ver o reino mais oriental dos Hikeda’ya.

— As nornas?

— Tudo ao norte das montanhas foi cedido a elas há muito tempo, na época da Separação. — Jiriki caminhou de volta pelo barranco. — Ki’ushapo, você e Sijandi devem preparar um abrigo para os cavalos. Veja, há alguns arbustos crescendo aqui, sob as rochas inclinadas, que podem ser úteis se faltar feno.

O Príncipe passou a falar em sitha, e An’nai e os outros dois começaram a montar um acampamento mais permanente do que qualquer outro que o grupo tivesse tido desde que deixaram a cabana de caça.

— Aqui, Simon, veja o que eu trouxe! — chamou Binabik.

O jovem passou pelos três soldados, que estavam rachando as pequenas árvores que haviam derrubado para lenha. O gnomo estava agachado no chão, tirando fardos envoltos em capas de chuva de sua alforje.

— O ferreiro de Naglimund me achava tão louco quanto pequeno... — Binabik sorriu quando Simon se aproximou. — Porém ainda fez para mim as coisas que pedi.

Desatados, os sacos revelaram todo tipo de objetos estranhos... Placas de metal cobertas de espinhos com tiras e fivelas, martelos esquisitos com cabeças pontiagudas e arreios que pareciam feitos para cavalos bem pequenos.

— O que são todas essas coisas?

— Para cortejar e conquistar montanhas. — Binabik sorriu com desdém. — Nem mesmo os qanuc, com toda a nossa agilidade, sobem aos picos mais altos despreparados. Veja, estas são para usar nas botas... — indicou as placas com pregos. — Estas são picaretas de gelo, muito úteis, sem dúvida. Sludig já deve tê-las visto.

— E os arreios?

— Talvez tenhamos que nos amarrar uns aos outros. Assim, se estiver nevando muito, ou se estivermos em neve fofa ou gelo muito fino, quando um cair, os outros poderão suportar o seu peso. Se houvesse tempo, eu também teria preparado um para Qantaqa. Ela ficará chateada por ter que ficar para trás, e teremos uma despedida triste.

O gnomo cantarolava uma melodia suave enquanto lubrificava e polia as ferramentas.

Simon olhou para as ferramentas de Binabik sem dizer nada. De alguma forma, havia pensado que escalar a montanha seria algo como subir as escadas da Torre do Anjo Verde... Uma subida íngreme, contudo essencialmente nada mais do que uma caminhada difícil. Essa conversa sobre pessoas caindo e gelo fino...

— Ei, Simon! — chamou Grimmric. — Venha ser útil. Recolha alguns pedaços de madeira. Faremos uma última boa fogueira antes de nos matarmos de trabalhar montanha acima.



***



A torre branca surgiu novamente em seus sonhos naquela noite. Ele se agarrou desesperado às suas laterais manchadas de sangue enquanto lobos uivavam abaixo, e uma figura escura de olhos vermelhos tocava os sinos sinistros acima.



***



O estalajadeiro olhou para cima, com a boca aberta para falar, no entanto desistiu de fazê-lo. Piscou e engoliu em seco, como um sapo.

O estranho era um monge, vestido com um manto e capuz pretos, suas vestes salpicadas em alguns lugares com a lama da estrada. O que chamava a atenção era seu tamanho, era bastante alto, e largo como um barril de cerveja, tão largo que o salão da taverna, que já não era dos mais iluminados, escureceu visivelmente quando entrou pela porta.

— Eu... Sinto muito, padre. — o estalajadeiro esboçou seu melhor sorriso bajulador. Ali estava um homem do Deus Aedonita que parecia capaz de espremer o pecado de você se quisesse. — O que estava perguntando?

— Disse que já estive em todas as estalagens de todas as ruas do distrito portuário e não tive sorte. Minhas costas doem. Me de uma caneca da sua melhor cerveja. — ele caminhou a passos pesados até uma mesa e sentou-se em um banco rangente. — Esta maldita Abaingeat tem mais estalagens do que estradas.

Seu sotaque, notou o estalajadeiro, era de um rimmerio. O que explicava a aparência crua e rosada de seu rosto... O estalajadeiro ouvira dizer que os rimmerios tinham barbas tão espessas que precisavam se barbear três vezes ao dia, aqueles poucos que não o faziam apenas as deixavam crescer.

— Somos uma cidade portuária, padre. — comentou, colocando um cantil generoso diante do monge carrancudo e desgrenhado. — E com as coisas que estão acontecendo hoje em dia... — ele deu de ombros e fez uma careta. — Bom, há muitos estrangeiros querendo quartos.

O monge limpou a espuma do lábio superior e franziu a testa.

— Eu sei. Uma pena. Pobre Lluth...

O estalajadeiro olhou em volta, nervoso, mas os guardas erkynos no canto não lhe davam atenção.

— O senhor disse que não teve sorte, padre. — falou, mudando de assunto. — Posso perguntar o que o senhor está procurando?

— Um monge! — rosnou o grandalhão. — Um irmão monge, isto é... E um menino. Vasculhei o cais de cima a baixo.

O meseiro sorriu, polindo um caneco de metal com o avental.

— E o senhor veio aqui por último? Com ​​licença, padre, porém acho que seu Deus achou por bem testá-lo.

O grandalhão grunhiu e, em seguida, ergueu os olhos da cerveja.

— O que quer dizer?

— Eles estiveram aqui, sim... Se forem os mesmos dois.

Seu sorriso satisfeito congelou no rosto quando o monge se levantou bruscamente do banco. Seu rosto avermelhado estava a centímetros da face do estalajadeiro.

— Quando?

— Há dois ou três dias... Não tenho certeza...

— Não tem certeza? — perguntou o monge em um tom ameaçador. — Ou só quer dinheiro?

Ele deu um tapinha em sua túnica. O estalajadeiro não sabia se era uma bolsa ou uma faca que aquele estranho homem de Deus estava procurando; nunca confiara muito nos seguidores de Jesuris, e viver na cidade mais cosmopolita de Hernystir não melhorara sua opinião sobre eles.

— Oh, não, padre, de verdade! Os dois... Estiveram aqui há alguns dias. Perguntaram sobre um barco que ia para Perdruin, descendo a costa. O monge era baixinho, careca? O rapaz, de rosto magro e cabelo preto? Estiveram aqui.

— E o que disse a eles?

— Para irem ver o velho Gealsgiath lá perto do Eirgid Ramh, aquela taverna com o remo pintado na porta da frente, perto do fim da terra! — o estalajadeiro se afastou alarmado quando as mãos enormes do monge se fecharam sobre seus ombros. Apesar de ser um homem razoavelmente forte, sentiu-se agarrado com a mesma segurança que uma criança. Um instante depois, cambaleava com um abraço esmagador e só conseguia ficar ofegante enquanto o monge colocava um Imperador de ouro em sua mão.

— Que o misericordioso Jesuris abençoe sua estalagem, hernystiro! — bradou o grandalhão, atraindo olhares por toda a rua. — Esta é a primeira sorte que tive desde que comecei esta busca amaldiçoada por Deus!

Ele saiu pela porta como um homem fugindo de uma casa em chamas.

O estalajadeiro respirou fundo, com dificuldade, e apertou a moeda, ainda quente da grande pata do monge.

“Loucos como um bezerro de leite, esses Aedonitas.” pensou ele. “Todos loucos!”



***



Ela ficou parada na grade, observando Abaingeat deslizar para longe, desaparecendo na neblina. O vento bagunçava seus cabelos negros curtos.

— Irmão Cadrach! — chamou. — Venha cá. Existe algo tão glorioso quanto isso? — gesticulou para a crescente faixa de oceano verde que os separava da costa enevoada. Gaivotas circulavam e grasnavam acima do rastro espumante do barco.

O monge acenou com a mão mole de onde estava agachado ao lado de um conjunto de barris amarrados.

— Me alegro de que se divirta... Malaquias. Nunca fui muito marinheiro. Deus sabe, não acho que esta viagem vá mudar isso.

Cadrach enxugou os respingos, ou suor, da testa. Não havia tocado em uma gota de vinho desde que haviam pisado a bordo.

Miriamele ergueu os olhos e viu dois marinheiros hernystiros observando-a com curiosidade do convés de proa. Inclinou a cabeça e caminhou até sentar-se ao lado do monge.

— Por que você veio comigo? — perguntou ela depois de um tempo. — É algo que ainda não entendo.

O monge não ergueu os olhos.

— Vim porque a senhora me pagou.

A Princesa puxou o capuz para a frente.

— Não há nada como o oceano para nos lembrar do que é importante. — disse baixinho, e sorriu. O sorriso de Cadrach foi fraco em resposta.

— Ah, pelo Bom Deus, é verdade! — gemeu ele. — Lembro-me de que a vida é doce, que o mar é traiçoeiro e que sou um tolo.

Miriamele assentiu solenemente, olhando para as velas enfunadas.

— São boas coisas para se lembrar! ­— assentiu.

***

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