quinta-feira, 4 de junho de 2026

Vampire Hunter D — Volume 04: Tale of the Dead Town — Capítulo 22

Volume 04: Tale of the Dead Town Capítulo 22: Destino Desconhecido

Parte 1


A garota estava sentada na cama. Parecia uma boneca coberta de neve, o gesso usado para remover os radioisótopos que cobriam seus membros era chamado de “partes de neve”. Brilhando fracamente ao entardecer devido à radiação que absorvera de seu corpo, escondia a tragédia arrepiante que a atingira sob a beleza da neve recém-caída.

— Não há ameaça imediata à sua vida. Acredito que já soube de tudo sobre o estado dela por Plutão VIII.

D respondeu às palavras do médico com silêncio. A garota, Lori, estava refletida nos olhos do Caçador, mas nem mesmo o Dr. Tsurugi conseguia dizer quais emoções mais profundas a visão da jovem despertava na psique de D. Ou talvez não despertasse nada. O médico achou que seria perfeitamente apropriado para o jovem.

Eles estavam em um dos quartos do hospital que ficava perto do centro do setor residencial. O Dr. Tsurugi e uma enfermeira de meia-idade moravam lá e tratavam de todas as doenças imagináveis, desde um resfriado comum até a instalação de peças ciborgues. Sua habilidade em lidar com uma gama tão ampla de problemas de saúde o tornava um médico de circuitos qualificado e competente.

— Posso fazer algumas perguntas a ela por escrito?

A pergunta de D fez o Dr. Tsurugi inclinar a cabeça, preocupado.

— Talvez por um curto período. — respondeu, relutante. — É que...

D esperou por sua explicação.

— Gostaria que evitasse fazer perguntas que possam ser chocantes. Estamos lidando com uma jovem com graves feridas, tanto física quanto psicológicas. Já está bem ciente do que o futuro lhe reserva.

— Qual a sua idade?

— Dezessete.

D assentiu.

O médico pareceu bastante preocupado, porém caminhou até a cabeceira da cama de Lori, pegou o bloco de notas e a caneta eletromagnética ao lado do travesseiro e anotou algo. Uma apresentação para D, sem dúvida. Seus ombros brancos tremeram um pouco, seu rosto cabisbaixo se virou um pouco em sua direção, e então parou. D observou, sem expressão, enquanto seu rosto se voltava e seus dedos alvas como lírios pegavam a caneta eletromagnética do médico. A caneta se movia com traços curtos e poderosos. Como se estivesse lutando contra alguma coisa. Arrancando a página, o médico se endireitou e entregou a mensagem a D. Em uma caligrafia bonita e precisa, lia-se... Muito obrigada.

Devolvendo a folha ao médico, D se acomodou na cadeira ao lado da cama de Lori sem dizer uma palavra. Os olhos azuis que espreitavam por baixo das várias bandagens brancas de repente se arregalaram. A garota desviou o rosto. Rapidamente voltando a olhar para ela, ela baixou o olhar. Pela sua reação, parecia reconhecer D.

O médico pegou outra caneta e um bloco de notas e os entregou a D. A mão do Caçador entrou em ação. Há alguém na sua casa, escreveu. Houve alguma ocorrência estranha lá antes?

Lori encarou a página que lhe dera. E continuou assim por um longo tempo. Parecia que quase dez minutos se passaram antes que balançasse a cabeça de um lado para o outro.

Mais uma vez, a mão de D rabiscou algumas palavras. Sabe em que envolviam os experimentos do seu pai?

Outra vez sua cabeça balançou.

D preparou sua caneta mais uma vez.

Lori balançou a cabeça. Balançou-a várias vezes. Seus ombros também começaram a tremer. Pedaços de gesso cicatrizante caíram como flocos de neve. O Dr. Tsurugi segurou seus ombros com firmeza. Mesmo assim, Lori tentou continuar balançando a cabeça.

— Por favor, saia. Depressa! — disse o médico a D. A porta se abriu e a enfermeira entrou correndo.

Levantando-se, D perguntou.

— Onde Plutão VIII está hospedado?

— Se bem me lembro, está no P9, no distrito residencial especial. Fica bem perto da delegacia. — gritou o médico, contudo suas palavras apenas ecoaram na porta fechada e se perderam.

Ao sair do hospital, D caminhou pela rua. Apesar da repentina loucura que havia testemunhado em Lori, seus olhos estavam tão frios e claros como sempre. Qualquer emoção humana pareceria uma mancha quando vista nos olhos do jovem.

Embora muitas pessoas estivessem indo e vindo pela rua, o caminho à frente de D estava desobstruído. Todas as pessoas em seu caminho se afastaram. Elas não o faziam por superstição, por aversão arraigada que tinham por aqueles que viviam fora de sua sociedade, e sim por causa da boa aparência do jovem e da aura que o cercava. Todos sabiam. Também sabiam que nem todos na rua eram necessariamente humanos.

E, no entanto, havia um toque de embriaguez nos olhos de todos enquanto olhavam para D. Seus traços belos os faziam estremecer com algo além de medo, e não apenas as mulheres, como até os homens sentiam uma espécie de excitação sexual ao vê-lo. A maioria das pessoas vestia roupas de trabalho e carregava implementos agrícolas. Trabalhar a terra não era a mesma coisa em um setor de uma cidade em movimento, entretanto as pessoas seguiam com suas vidas da melhor maneira possível. Elas trabalhavam. Do outro lado do parque ficavam fazendas e campos, bem como um extenso setor industrial.

D logo encontrou a delegacia de polícia. Apesar do nome pomposo, não era diferente da delegacia de qualquer cidade desse porte. O conjunto de prédios azuis do outro lado da rua formava o distrito residencial especial. Um par de prédios de três andares que pareciam hotéis... Era só isso que havia no distrito. Quando D chegou à porta, uma voz alegre o chamou do outro lado da rua. Ao se virar, o Caçador encontrou Plutão VIII trotando em sua direção. Ambas as mãos estavam cobertas por uma profusão de cores... Flores.

— E aí, o que está fazendo, garanhão? — o motoqueiro tinha um sorriso amigável que fazia sua hostilidade na casa do prefeito parecer esquecida há muito tempo. Assim que alcançou D, olhou ao redor. — Eles são muito antipáticos nesta cidade! — resmungou. — Ouvi dizer que não há uma única floricultura em lugar nenhum. Alguém disse que havia um jardim de flores, então fui dar uma olhada, e me disseram que lá não vendem para forasteiros. Bem, não é tão raro em si, mas eu falei: “Droga, eu quero levá-las para um amigo doente”, e mesmo assim não me deram permissão. — ele estava realmente indignado com a situação. Espumando pela boca, acrescentou. — Caramba, falei que as flores eram para a Lori. Até disse: “Ela costumava morar aqui como todos vocês, certo? Não me importo se a sua família decidiu ir embora; não é como se tivesse voltado porque queria. A garota perdeu a mãe e o pai, se machucou muito e só voltou para tentar salvar a própria vida.” Bando de filhos da puta, ainda me disseram que eu não podia ficar com elas. Disseram que, uma vez que se sai da cidade, você é um forasteiro.

Para seu companheiro resmungão, D disse em um tom de voz suavizado.

— Então, como conseguiu essas flores?

— Bem, é... Sabe como é. Enfim, fiquei bem irritado na hora.

— Porém isso não é nenhuma novidade para você.

— É, pode-se dizer que sim. — confessou Plutão VIII com naturalidade. Era assustador como seu humor podia mudar tão rápido. — Ah, bem, não há muito o que posso fazer agora. Enfim... Queria falar comigo?

— Quero te perguntar uma coisa.

— Sério? Bom, vamos parar de ficar aqui conversando. Tem um bar ali na esquina. Que tal tomarmos um drinque enquanto conversamos? — rindo, acrescentou. — Contudo acho que não servem sangue humano.

Sabendo exatamente para quem estava falando, sua piada poderia ter consequências mortais, no entanto D não pareceu se importar. Ele seguiu Plutão VIII.



O bar estava lotado. O trabalho na cidade devia ser feito em turnos. Assim que os dois entraram, toda a conversa no bar parou abruptamente. Os olhos do barman e dos homens ao redor das várias mesas se voltaram para a dupla.

— Com licença! Estou passando! Desculpe! — Plutão VIII falou amigavelmente enquanto se esgueiravam entre as mesas lotadas, enfim se sentando em uma vazia no fundo. Com uma voz meio rouca, gritou. — Ei, eu gostaria de uma cerveja amarga. Isso, e uma... — virando-se para D, perguntou de maneira incerta. — O que vai querer?

— Nada.

— Cara, você não pode só entrar num bar e não pedir nada... Vai ser um estorvo. — gritando, continuou para o barman. — Ele vai querer o mesmo.

Plutão VIII se virou para D e disse.

— Então, qual é o seu problema comigo?

— Entrei numa certa casa mais cedo. — disse D. — Havia alguém estranho lá dentro. Não era você?

— Como assim?

— Não acho que alguém da cidade estaria vasculhando a casa a essa hora. E os únicos de fora aqui somos nós.

Plutão VIII recostou-se e riu com gosto. Os que estavam sentados ao redor se encolheram e o olharam surpresos.

— Sinto muito em desapontá-lo, não fui eu. Aliás, mesmo que fosse, acha que confessaria logo de cara?

— Por que está aqui? Parece que alguém como você estaria melhor se fosse embora da cidade.

— Concordo! — admitiu Plutão VIII facilmente. — Mas não é tão simples assim. Comparado com o mundo lá embaixo, este lugar é como o paraíso. Se tem dinheiro para gastar, pode comprar quase qualquer coisa e se virar sem se meter com nenhum dos amiguinhos mortais da Nobreza. Vou adiantar e dizer, pretendo ficar por aqui até me expulsarem.

— Você não podia comprar flores. — lembrou D.

— É, porém isso não muda muita coisa.

Contudo, no momento em que seu sorriso confiante se espalhou por seu rosto carrancudo, várias pessoas entraram pela porta do bar. Uma velha de cabelos grisalhos estava na frente, e atrás dela, três jovens de aparência poderosa. Os quatro estavam pálidos de raiva.

Os olhos de D se voltaram para o buquê sobre a mesa, e disse.

— Roubou as flores, não foi?

— Não, estou alugando, seu idiota. Só não deixei um depósito.

O bar inteiro começou a fervilhar de conversas, e um grupo de pessoas se reuniu em volta da mesa de D e Plutão VIII.

— Lá está ele. Lá está o ladrão de flores sem-vergonha. Tenho certeza. — gritou a velha, apontando o dedo ossudo para o rosto de Plutão VIII.

— Isso não é nada gentil da sua parte. — disse Plutão VIII, franzindo a testa. — Só estou pegando emprestado para levar para uma amiga doente, entendeu? O que poderia deixar uma flor mais feliz do que isso?

— Nem pensar! — a raiz do cabelo e os cantos dos olhos da velha se ergueram com o tom de voz. — Tem ideia do trabalho árduo que dá cultivar uma única flor nesta cidade? Claro que não! Não passa de um ladrão sujo e desprezível!

— Com certeza! — concordou outra pessoa ao redor da mesa.

— E ladrões têm que pagar um preço. Vamos lá fora.

— Nem pensar! — riu Plutão VIII, em tom zombeteiro. — O que vocês vão fazer se eu não for?

— Então não teremos escolha a não ser usar a força.

A risada confiante do motoqueiro ecoou nos rostos dos homens tensos.

— Será que sabem quem diabos sou? Sou o único e inigualável John M. Brasselli Plutão VIII, conhecido por toda a Fronteira.

Silêncio.

— O quê, seus bastardos, nunca ouviram falar de mim? — disse Plutão VIII, franzindo a testa. — Bem, de qualquer forma, aposto que conhecem meu amigo aqui. O cara mais bonito da Fronteira, um matador de nobres de primeira linha, um apóstolo dos demônios dos sonhos e toda a beleza das trevas em forma humana... Apresento a vocês o Caçador de Vampiros D!

Todos os rostos ao redor empalideceram. Até mesmo os dos homens no fundo do bar.

— Que reputação ele tem, hein? — Plutão VIII gargalhou. Olhando em volta para os homens que agora estavam imóveis e pálidos como cadáveres, perguntou. — Ainda querem que a gente saia? Meu amigo consegue dividir um raio laser em dois.

— Para sua informação, esse assunto não me diz respeito nem um pouco. — disse D, com o olhar fixo no mesmo ponto da mesa o tempo todo.

— Como assim? — disse Plutão VIII, arregalando os olhos. — Ah, está sendo frio e calculista. Não somos amigos? Não deem ouvidos a ele, pessoal. — riu Plutão VIII. — Só está brincando.

— Saiam se quiserem. No entanto me deixem fora disso. — disse o Caçador.

— Não acredito em você! — Plutão VIII se levantou indignado. — Já se esqueceu da cerveja que acabei de te pagar?

— Desculpe, senhor! — gritou alguém de trás do balcão. — Acabou a sua cerveja.

— Droga, esse não é o meu dia! — praguejou Plutão VIII.

— Pare de reclamar e saia logo! — disse um dos homens que o cercavam. — Roubar flores é roubar, e um ladrão ainda tem que pagar o preço.

— Ah, é mesmo? E o que tem em mente?

— Mil chicotadas com o chicote de elétrons, ou trinta dias de trabalhos forçados.

— Não me importo muito com nenhuma das duas opções. Bem, vou sair com vocês de qualquer maneira.

Lançando um olhar mortal para D, Plutão VIII não parecia muito assustado enquanto seguia os homens para fora. Ainda assim, não era a briga que se desenrolava lá fora que atraía todos os olhares no local... Seus olhos estavam fixos no belo jovem que permanecia à mesa.

Quatro homens escoltaram Plutão VIII para fora. Dois destes tinham trinta e poucos anos, enquanto os outros dois eram mais jovens. Deviam ter por volta de vinte anos. Como era comum entre os trabalhadores da Fronteira, sua massa muscular era evidente mesmo através de suas roupas rústicas. Cada um tinha mais de um metro e oitenta de altura. Plutão VIII, por outro lado, tinha um metro e sessenta e dois. O motoqueiro era tão grande no peito e nos ombros quanto os outros, entretanto, em uma briga de rua, estaria em enorme desvantagem.

Estalando os dedos, Plutão VIII perguntou.

— Certo, quem quer ser o primeiro?

— Não procure se machucar mais do que o necessário. — disse o homem que parecia ser o líder deles. — Apenas venha quietinho até a delegacia e escolha uma das duas punições. Aí tudo acaba.

Plutão VIII deu uma risadinha.

— Sem chance. — seu rosto transbordava autoconfiança. Sob a barba que escondia sua boca, sua língua vermelha escura lambia os lábios. — Se tem uma coisa que não suporto, são idiotas que se acham valentões quando estão em vantagem numérica. Vejam bem, sou do tipo solitário. Então não fiquem aí parados bancando os assustadores. Andem logo e venham me enfrentar!

Antes mesmo de perceber que a última parte tinha sido um desafio, o jovem à esquerda desferiu um soco em Plutão VIII. Sequer disse uma palavra, nem ao menos respirou. Devia ser um brigão de primeira. No momento em que as duas figuras estavam prestes a se tocar, Plutão VIII recuou sem mover um músculo. Ainda desferindo um golpe com a mão direita com toda a força, o jovem não teve tempo de reagir e caiu no chão com o ombro primeiro. Que diabos aconteceu? O timing perfeito da defesa do motoqueiro contra o ataque quase fez parecer que os dois estavam em conluio.

— Ok, próximo! — disse Plutão VIII com um sorriso largo e presunçoso. Não parecia nem um pouco perturbado. Na verdade, parecia estar gostando da briga. Qualquer truque estranho que tivesse na manga fazia as artes marciais do Dr. Tsurugi parecerem banais em comparação.

O trio restante de oponentes estava unido pela inquietação.

— Qual é o problema? Encaro os três de uma vez. Olhem... — com as duas mãos penduradas ao lado do corpo, deixando-o completamente vulnerável, Plutão VIII ergueu o queixo para eles como se implorasse para que o socassem.

Gritando maldições, os dois homens na casa dos trinta avançaram sobre ele... Um pela frente, o outro por trás. Confiando nos músculos abdominais que haviam endurecido com uma respiração profunda para protegê-los de qualquer ataque inesperado de Plutão VIII, os homens abriram os braços para esmagar o pequeno como um inseto. Era um plano de ataque que deixava claro que não tinham consideração por alguém de sua pequena estatura. Em um instante, ficou evidente que aquilo era um erro. Quando os dois homens se uniram para esmagá-lo, não havia nenhum vestígio de Plutão VIII ali, e, no instante em que seu corpo retornou à terra a uns três metros de distância, seus enormes agressores caíram de cara no chão com uma força que fez o solo tremer. O que o homem diminuto havia realizado naquela batalha sob a fria luz do sol era nada menos que milagroso.

Agilmente, Plutão VIII se virou. O rosto do único jovem adversário que restava estava bem à sua frente. E estava mais pálido agora do que quando ouvira o nome de D ser mencionado antes.

— Vai tentar a sorte? Que tal, garoto?

A única resposta que o jovem deu àquela pergunta afável foi uma corrida na direção oposta.

Observando o jovem durão fugir sem sequer olhar para trás, o olhar de Plutão VIII tornou-se inesperadamente caloroso, e então seus olhos se voltaram para a entrada do bar.

— O que achou? Sou mais rápido do que essa sua espada? — seu tom era tão carregado de autoconfiança que fazia a luz do sol empalidecer em comparação, mas a única resposta de D foi um silêncio sombrio. — Bem, então, vou visitar uma certa mocinha agora. Você vem comigo?

Sem responder, D se virou.

— Cara, não me importa o quão bonito você seja, precisa ser um pouco mais sociável. Estou te dizendo, as mulheres hoje em dia estão interessadas no que há dentro de um homem.

Gargalhando de um jeito que deixava claro seu próprio orgulho, nem mesmo Plutão VIII tinha certeza se suas palavras haviam chegado à figura vestida de preto, cujas costas agora desapareciam na distância.



Parte 2

Alguns minutos depois, o prefeito Ming cumprimentava um visitante vestido de preto.

— Por que não me contou sobre a casa?

O prefeito recuou diante do tom sereno, apesar de como sua voz soou.

— Que casa?

— Onde encontraram sua filha. Parece que era a casa da garota que está no hospital... Lori.

— Isso mesmo. — disse o prefeito de forma despreocupada. — Não revelei essa informação específica porque não a considerei vital. Aconteceu alguma coisa?

— Não sei ao certo o que aconteceu, porém havia alguém lá dentro. Acredito que estivessem procurando alguma coisa.

— Que tipo de pessoa era?

Os olhos do prefeito brilharam de curiosidade.

— Não adianta entrar em detalhes. Algum morador da cidade demonstrou algum interesse particular naquela casa?

— Não consigo imaginar como poderiam. O lugar deveria estar trancado a sete chaves.

— Conhece alguém na cidade com talento para intangibilidade molecular? — perguntou D.

O prefeito não respondeu.

— O que a família de Lori Knight estava pesquisando lá?

— Estava apenas... — o prefeito começou a dizer, contudo se calou. Um leve suspiro escapou de seus lábios. — Durante muito tempo, os experimentos dos Knight foi motivo de preocupação para os moradores da cidade. Não pelos resultados em si, e sim porque ninguém conseguia entender o que poderiam estar fazendo lá dentro. Como você certamente sabe, em uma cidade como esta, é impossível tentar fazer qualquer coisa sem que alguém descubra. Às vezes, o ego individual chega a colocar em risco o modo de vida de comunidades inteiras. Eu mesmo os procurei mais de uma vez, no entanto Franz... O pai da garota, sempre insistia que eram apenas experimentos de química.

O rosto do prefeito demonstrava um profundo cansaço. Sem dizer uma palavra, D continuou olhando pela janela. Até onde a vista alcançava, as planícies marrons se estendiam à sua frente. O ritmo da cidade, ao que parecia, estava longe de ser tranquilo.

— Se eu tivesse percebido antes... — continuou o prefeito. Sua voz era pesada. — O Sr. e a Sra. Knight eram os químicos mais renomados da cidade. Foi apenas o intelecto do Sr. Knight que nos salvou da fome há quinze anos, ou evitou os ataques da besta trovejante no último instante, há apenas quatro anos. Se não fosse por ele, uns setenta por cento da cidade teriam ido para o inferno. Achei que poderíamos relevar seu hobby um tanto peculiar, e os moradores pareciam pensar da mesma forma. Foi um erro. E então, um dia, ele decidiu deixar a cidade. Sim, foi há cerca de dois meses. Tentei ao máximo dissuadi-lo, entretanto sua determinação era forte como aço. Ainda me lembro da expressão em seu rosto. Parecia que chamas estavam prestes a sair de seus olhos. Suponho que o que quer que tenha descoberto aqui na cidade poderia ter lhe sido muito útil em uma vida no mundo amaldiçoado lá embaixo. Ele poderia facilmente ter criado algo útil assim. E não tive escolha a não ser deixá-los ir. Claro, não deixei de deixar isso perfeitamente claro. Eles nunca mais teriam permissão para voltar à cidade. E foi tudo o que houve.

— Acho que não. — disse D, como se estivesse conversando com o vento.

— Havia algo na casa que beirava a ruína total. Qualquer um notaria. Onde vocês se desfizeram das coisas que estavam na casa?

— Não havia nada disso. — disse o prefeito, quase cuspindo as palavras. — As únicas coisas perturbadoras de fato eram alguns frascos de remédio de aparência estranha e duas ou três engenhocas que pareciam ter sido improvisadas, e não perdemos tempo em destruí-las. Mas o resto das drogas e máquinas foram enviadas para outros laboratórios ou fábricas que pudessem utilizá-las. Não havia nada de anormal.

— Quem fez o trabalho de fato?

— Pessoas de toda a cidade colaboraram. É só conferir os nomes e verá.

— Quer dizer que não esteve envolvido?

O prefeito balançou a cabeça.

— Não. Eu que dou as ordens por aqui. Estava lá quando chegou a hora de lacrar o prédio.

D não disse nada, mas olhou fixamente para o prefeito. Seus olhos eram escuros além da imaginação, e mais claros do que qualquer palavra poderia descrever.

— Preciso de uma lista de todos os envolvidos no projeto. Quero perguntar algo a eles.

— Por quê? Acha que estou mentindo? — perguntou o prefeito, sem demonstrar a menor raiva.

— Qualquer um pode mentir. — respondeu D.

— Suponho que tenha razão. Só um segundo. Vou fazer uma cópia.

O prefeito usou o interfone em sua mesa para dar o comando ao computador com a lista de contatos e, em menos de cinco segundos, entregou uma folha de papel a D. Os nomes e endereços de quase vinte homens estavam registrados na lista. Guardando o papel no bolso do casaco, D saiu sem fazer barulho.



A sala antiga parecia suja. Além das instalações industriais, aquele lugar tinha mais máquinas em funcionamento do que qualquer outro lugar em toda a cidade, e depois que a energia nuclear era produzida, os resíduos eram prontamente processados ​​e dispersos como um pó inofensivo. Apesar disso, a sala na verdade parecia um tanto manchada de fuligem.

Uma figura negra se aproximou sorrateiramente do painel de controle que regulava o trio de reatores nucleares. Como essa seção fornecia energia para todas as necessidades da cidade, ela era protegida por três muros Dewar, cada uma com quase dois metros de espessura. Toda a atividade no prédio era monitorada pelo computador. Ainda assim, a figura sombria permaneceu de forma suspeita diante dos controles, despercebida pelos olhos eletrônicos e sem ser registrada em suas memórias. Uma mão negra, perfeitamente adequada à figura escura, estendeu-se e começou a apagar as luzes do painel... Algo que nunca deveria ter sido permitido.



Nas profundezas do caos turbulento, manchas vermelhas começaram a se formar. Algumas dessas manchas logo se fundiram em uma só, e de uma mancha cresceu para uma mancha maior, e da mancha maior formou-se uma rede. Dentro do escarlate estava o rosto de seu pai. Sua expressão era calma ao ponto do estranhamento. Uma luz azul dançava ao seu redor. A luz era tão brilhante quanto um relâmpago, porém ao mesmo tempo também parecia um pouco com coral. Seu pai ergueu os olhos da mesa. Alguns segundos depois, um tom de euforia se espalhou por suas feições emaciadas. Os lábios de seu pai se moveram.

— Eu consegui! — disse ele. — Enfim consegui.

No instante seguinte, sua mãe e seu pai estavam vagando pela natureza selvagem. Ao longe, o vento uivava. Era um vento frio, tão gélido quanto uma neblina. Na planície desolada à sua frente, não havia nada para ver além de nuvens e céu. As nuvens rodopiavam, e apenas o vento soprava contra ela. E então aquele vento formou um rosto ao seu lado. Um rosto que sentia que talvez já tivesse visto antes, e ao mesmo tempo sentia que nunca tinha visto. E não havia apenas um rosto. Havia outro, e este era familiar. Seus lábios se entreabriram para falar.

— Fiquem. Fiquem aqui.

Enquanto ela e sua família atravessavam o deserto cortante e varrido pelo vento, teve a sensação de que a voz ecoava atrás deles por uma eternidade.

Para onde seu pai e sua mãe estavam tentando ir, era algo que não sabia. Às vezes, sua mãe olhava para trás, ansiosa. Embora soubesse que não veriam nada além de planícies desoladas lá fora, sua mãe parecia temer que alguma coisa os alcançasse. O que deixava a menina inquieta era o rosto desconhecido que pairava no céu. Seus olhos não estavam fixos em seu pai ou em sua mãe, e sim nela mesma... Disso a menina tinha certeza absoluta. O vento e grãos de areia batiam no rosto da menina.



Ele estava no parque. Sentado em um banco, observava a água jorrando na fonte à sua frente. Como sempre, seus pensamentos eram um mistério. Uma sombra negra de repente se projetou sobre seu perfil.

— Ei, você é o D...? — perguntou alguém com uma voz grave.

D não respondeu. Era quase como se já esperasse a pergunta. O homem parado na ponta do banco era um gigante que parecia se estender até as nuvens. Não tinha um metro e oitenta ou dois metros e dez de altura, sua altura chegava quase aos 3 metros. Com uma estrutura como uma rocha enorme com troncos cravados nela como membros, sua sombra cobria D e se estendia até a base da fonte a vários metros de distância. No peito de sua camisa azul havia um pequeno e intenso brilho de luz.

Aparentemente não gostando nada de ser ignorado, o gigante continuou.

— Eu sou o Xerife Hutton. Manter os moradores daqui da cidade a salvo de forasteiros indesejáveis ​​é o que faço. E não importa se é convidado do prefeito ou não, isso não vai te dar moleza da minha parte. Se quer ficar na cidade, é melhor se comportar direitinho e não sair por aí procurando confusão. Veja bem, se trabalhar três dias e não tiver nada para mostrar, até o prefeito vai desistir. Eu serei aquele quem vai procurar seu parente fedorento. Vou encontrá-lo e cravar uma estaca no seu coração, como manda a tradição. Como xerife, não gosto nada de ser ignorado e de chamarem um moleque convencido como você.

Hutton tinha uma arma mortal ao seu lado direito, um lançador de foguetes que parecia consistir em sete canos unidos por faixas. Uma peça de maquinaria pesada como aquela poderia destruir uma grande fera ou até mesmo um pequeno prédio com um único tiro. E presa ao seu cinto estava uma enorme espada larga. Ainda sem ver suas armas, uma pessoa comum precisaria apenas de um olhar para o tamanho de seu dono para começar a tremer na base. Com apenas um olhar para o xerife, algumas pessoas poderiam até confessar crimes que nem sequer cometeram.

— Quero saber se vai me prometer uma coisa... — disse o xerife. — Apenas me diga que vai sair da cidade sem fazer nada. Não se preocupe, direi ao prefeito que fez todo o possível para resolver a situação. Entendeu?

Não houve resposta. A única coisa em D que se mexeu foi o cabelo, roçado pelo vento. Um tom avermelhado começou a tingir o rosto do xerife Hutton. Pouco a pouco, ele recuou. A ponta do lançador de foguetes que ainda carregava sob o braço se ergueu. Todos os sete canos brilhavam para D.

— Não pense que vou lhe dar um segundo aviso. — o leve clique metálico era o som da trava de segurança sendo desativada. — Só te dou a dica uma vez. Ignorá-la é o mesmo que me desafiar. E não faria nenhum bem à cidade deixar um idiota como esse continuar vivendo. — disse o xerife, com a voz alegre e o rosto radiante.

Um tom gélido se misturou ao vento.

— Você foi uma das pessoas que investigaram a casa dos Knight, não foi? O que havia lá dentro?

— Do que diabos está falando? — disse o xerife, com a voz tensa, mas não fez nada. Nem sequer moveu o dedo que estava em volta do gatilho do lançador de foguetes.

— Responda! — disse a voz outra vez. Os olhos do Caçador seguiam fixos na coluna branca de água que jorrava para cima, tornando difícil dizer quem estava interrogando quem naquela cena bizarra. Nenhum dos dois se moveu, contudo no espaço entre eles, uma batalha invisível, porém feroz, se desenrolava.

Uma onda de força percorreu o dedo indicador do xerife. Sua arma estava programada para disparar todos os sete projéteis de uma só vez. Em questão de segundos, o banco e o jovem sentado neste seriam reduzidos a cinzas por uma conflagração de trinta mil graus.

O som fraco de uma sirene desviou o cano da arma de seu alvo. Com um inesperado olhar aliviado, o rosto comprido do xerife se voltou para cima. Algo mais do que apenas nuvens residia no céu azul.

— Parece que os desgraçados vieram atrás de nós. Droga, sua sorte te salvou. Da próxima vez que te pegar sozinho, vai desejar ter saído da cidade quando teve a chance.

O xerife manteve os olhos no céu enquanto se afastava, no entanto D não lançou um olhar sequer ao homem. Quando o Caçador enfim ergueu o rosto, as formas que desciam de cima podiam ser claramente identificadas como pássaros. Uma sirene começou a soar, como uma pessoa sufocada lutando por ar. As pessoas correram para o setor residencial, tropeçando na pressa. D se levantou.

Um bando de aves de rapina estava atacando. Em condições normais, esses monstros ferozes voavam a altitudes de seis mil pés ou mais e se alimentavam das bestas aéreas e águas-vivas voadoras que viviam nessa altura, entretanto, quando a comida se tornava escassa, desciam para mais perto da terra. Os maiores tinham envergadura de mais de 18 metros. Eles podiam até carregar um ciclope gigante. Todavia o mais assustador era que não agiam sozinhos e sempre atacavam em bandos de dezenas. Para seus olhos famintos, a cidade em movimento devia parecer uma refeição tremenda ao alcance.

Ao longe, o som de tiros de metralhadora começou. Raios de chamas subiram ao encontro das formas que se aproximavam. Uma cortina negra caiu em uma velocidade absurda sobre as ruas. Ao redor de D, a mata se curvou para trás devido à intensa pressão do vento.

Soltando um grasnido nauseante, um pássaro com uma envergadura de mais de cinco metros mergulhou como se fosse pousar bem em cima de D. Parecido com uma pequena corneta, seu bico estava repleto de dentes afiados como pregos. Entre as asas que batiam incessantemente com a força do vento, patas com garras eram visíveis. Três dedos tão grossos quanto raízes de árvores se voltaram para D, na esperança de prendê-lo em suas garras de ferro.

Uma luz prateada brilhou. Embora a lâmina do Caçador parecesse ter desenhado apenas um único arco, as asas do pássaro colossal foram cortadas ao meio, e sangue fresco jorrou da garganta da criatura. A água que jorrava da fonte logo ficou tingida de vermelho.


Enquanto D saltava para longe do cadáver em queda da enorme besta, outras garras o alcançaram. Deixando apenas o estalo de ossos quebrados em seu rastro, ele cortou uma perna gigantesca pela raiz.

Um grito estridente ecoou no ar. D se virou. Sob um par de asas que subiam aos poucos a cerca de cinco metros de distância, viu uma figura lutando em meio ao seu desespero. Era uma garotinha de saia longa. D correu direto para baixo da jovem e de seu captor. Sua mão esquerda entrou em ação. Deixando um rastro branco, a agulha que arremessou perfurou a ave colossal na base da garganta. Soltando um grito, a criatura parou de bater as asas e começou a perder altitude a uma velocidade alarmante.

Um segundo depois, a expressão de D mudou. Em um instante, tudo ao seu redor ficou preto, quando uma ave de rapina até então invisível, com uma enorme envergadura de dezesseis metros, mergulhou sobre a ave que tinha a menina, cravou suas garras na base das costas da outra ave e começou a subir de novo. A ave monstruosa bateu as asas e uma tremenda onda de choque atingiu o solo. Árvores estalaram e o gêiser da fonte jorrou horizontalmente. Uma após a outra, as vidraças de todas as casas ao redor do parque se estilhaçaram.

A barra do casaco de D protegia seu rosto. Seria isso tudo o que era preciso para neutralizar os ventos fortes que emanavam da ave monstruosa? Embora os ventos o açoitassem, a postura de D não mudou nem um pouco enquanto permanecia firme. Quando a monstruosidade aviária ergueu as asas pela segunda vez, D impulsionou-se do chão com uma força incrível. Voando quase em linha reta para cima, subiu mais de cinco metros e meio. Sua mão esquerda estendida agarrou o tornozelo da ave enorme que a outra carregava. Tendo recebido um golpe mortal em um ponto vital, a ave de baixo já estava morta. E a garota que havia capturado desmaiara. Usando a mão esquerda como fulcro, D balançou o corpo como um pêndulo. Em pleno ar, seu casaco se abriu e, compensando a resistência do vento, D deslizou habilmente para as costas da ave maior. A monstruosidade aviária rugiu. O grito áspero não era de um pássaro, mas de um carnívoro feroz.

Com a ponta da espada apontada para baixo, D ergueu a arma bem acima da cabeça. De repente, as asas da ave monstruosa se abriram para trás. Tremendo, elas emitiram intensas ondas vibratórias. As costas da monstruosidade semelhante a um pássaro tornaram-se semitransparentes. A agonia de ter uma agulha atravessando cada célula do seu corpo atingiu o Caçador. A testa de D se franziu. Essa foi sua única reação. A espada longa que rapidamente abaixou perfurou a ave monstruosa bem no meio do bulbo raquidiano.

Um uivo de dor sacudiu o céu e, quando cessou, a destruição começou. Os estertores da criatura devem ter voltado as vibrações contra sua própria anatomia, porque cada pena caiu de suas asas, e sua pele e carne racharam como argila secando. Num piscar de olhos, a ave de rapina monstruosa foi reduzida a inúmeros pedaços de carne espalhados pelo céu.

Tudo isto aconteceu a uma altitude de 200 metros. Juntos, D e a garotinha caíram do céu.



Ao todo, a cidade levou duas horas para repelir as aves de rapina. Depois, vestígios da batalha permaneceram. Sangue vivo escorria pelas ruas, vários prédios tiveram seus telhados arrancados pela força do vento, e um menino que havia pegado um projétil antiaéreo ainda quente gritou de dor. Os rostos das pessoas estavam inesperadamente radiantes. Não houve mortes. Quase ninguém ficou ferido também. Algumas pessoas sofreram cortes leves causados ​​por estilhaços de vidro das janelas, porém esse foi o limite dos ferimentos. Além disso, a situação alimentar na cidade começou a mostrar sinais de melhora.

As aves de rapina menores estavam sendo carregadas em carroças e levadas embora, enquanto homens com machados e motosserras se reuniam em torno das carcaças gigantescas que enchiam as ruas. O zumbido dos motores se misturava com o som de carne e ossos sendo cortados, e aqui e ali o cheiro de sangue impregnava a cidade. Em menos de trinta minutos, uma ave enorme com nove metros de envergadura podia ser desmembrada a ponto de se tornar irreconhecível. Afinal, aves devoradoras de homens eram deliciosas, até mesmo para as próprias pessoas que elas pretendiam comer.

A cidade fervilhava de atividade. Carroças estavam carregadas com pilhas de carne, vísceras, penas e ossos para serem transportados. Todos seriam enviados para as fábricas para processamento químico, com parte da carne sendo preservada e enviada para armazéns para armazenamento. O restante circularia para os açougues e apareceria nas mesas de jantar naquela mesma noite. Nas fábricas, homens com diversas habilidades à sua disposição aguardavam. Lanças poderiam ser feitas com alguns dos ossos, tendões e vísceras poderiam ser usados ​​para cordas de arco, e o restante do esqueleto seria pulverizado para fazer uma pasta a ser entregue ao hospital. Até mesmo as presas afiadas poderiam ser transformadas em acessórios. E o sangue também tinha seus usos... Pequenas quantidades provavelmente seriam misturadas em suco ou em suas bebidas noturnas no bar. O sangue de aves de rapina havia comprovado ter um efeito revigorante nos humanos.

Em meio a toda a agitação, uma mãe de repente percebeu que sua filha estava desaparecida. Vendo-a correndo pela cidade como uma mulher possuída enquanto chamava pelo nome da menina, as outras pessoas enfim perceberam que não tinham visto a única filha da mulher em lugar nenhum. Enquanto alguém tentava acalmar a mãe meio desesperada, uma de suas amigas respondeu que sua filha tinha sido vista indo para o parque. Havia todos os motivos para suspeitar que a menina pudesse ter encontrado seu fim nas garras das aves colossais.

Várias pessoas começaram a correr pela rua, contudo logo pararam. Da direção oposta vinha um jovem bonito, porém ameaçador. Ao seu lado estava uma figura esguia. A mulher chamou o nome da menina e correu até ela. Enquanto mãe e filha se abraçavam em meio a lágrimas, D se virou e foi embora sem sequer olhar para elas. Para onde estava indo?

Depois que a mãe afastou os cabelos do pescoço da menina e confirmou que não havia nenhuma marca na criança, um sorriso de alívio surgiu em seu rosto.

— Ele não fez nada de estranho com você, fez? — disse um homem. — É um dampiro, sabia?

Todos murmuraram seus sentimentos em comum.

— Ele me salvou! — murmurou a menina.

— Te salvou? De quê?

— Um pássaro me pegou... Me levou para o alto do céu...

— Você está falando bobagem. Nada parecido caiu no parque.

— É verdade! — insistiu a menina. — Estávamos caindo do céu. E então ele me salvou... Realmente me salvou.

Os olhos dos moradores da cidade procuravam o jovem Caçador. No entanto eles não conseguiam mais encontrar o menor vestígio seu na rua barulhenta.

***

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