segunda-feira, 29 de junho de 2026

The Dragonbone Chair — Volume 03 — Capítulo 43

Capítulo 43: A Devastação


O pisco-de-peito-ruivo, com o peito alaranjado brilhando como uma brasa que se apaga, pousou num dos galhos baixos do olmo. Virou a cabeça lentamente de um lado para o outro, examinando o jardim de ervas, e piou impaciente, como se estivesse descontente por encontrar tudo tão desordenado.

Josua observou-o voar, mergulhando sobre o muro do jardim e, em seguida, descrevendo um arco acentuado para cima, ultrapassando as ameias da torre principal. Num instante, tornou-se um ponto preto contra o cinza brilhante do amanhecer.

— O primeiro pisco-de-peito-ruivo que vejo em muito tempo. Talvez seja um sinal de esperança neste obscuro junen.

O Príncipe virou-se, surpreso, e viu Jarnauga parado no caminho, com os olhos fixos no local onde o pássaro havia desaparecido. O ancião, aparentando indiferença ao frio, vestia apenas calças e uma camisa fina; seus pés brancos estavam descalços.

— Bom dia, Jarnauga. — disse Josua, apertando um pouco mais a gola de sua capa, como se a insensibilidade do rimmerio aumentasse seu próprio frio. — O que o traz ao jardim tão cedo?

— Este velho corpo precisa de muito pouco sono, Príncipe Josua. — sorriu ele. — E eu poderia lhe perguntar o mesmo, mas acho que sei a resposta.

Taciturno, Josua assentiu.

— Não durmo bem desde que entrei nas masmorras do meu irmão. Embora meu conforto tenha melhorado desde então, a preocupação tomou o lugar das correntes que me impedem de descansar.

— Existem muitos tipos de prisão. — Jarnauga assentiu.

Caminharam em silêncio por um tempo pelo labirinto de passarelas. O jardim fora o antigo orgulho da senhora Vorzheva, projetado segundo suas diretrizes meticulosas... Para uma moça nascida em uma carroça, sussurravam os cortesãos do Príncipe, ela certamente era exigente com a elegância... Porém agora havia sido deixado para deteriorar-se devido ao mau tempo, bem como a uma série de preocupações mais urgentes.

— Há algo errado, Jarnauga. — disse Josua finalmente. — Consigo sentir. Quase consigo perceber, como um pescador sente o tempo. O que meu irmão está fazendo?

— A mim parece que está fazendo o possível para nos matar a todos. — respondeu o velho, um sorriso forçado vincando seu rosto curtido. — É isso que está ‘errado’?

— Não! — disse o Príncipe em um grave tom. — Não. Esse é justamente o problema. Conseguimos resistir por um mês, com perdas amargas... O Barão Ordmaer, Sir Grimstede, Wuldorcene de Caldsae, além de centenas de valentes yeomen... Contudo já faz quase duas semanas que não lança um ataque sério. Os ataques têm sido... Superficiais. Está apenas cumprindo formalidades de um cerco. Por quê?

Josua sentou-se em um banco baixo, e Jarnauga sentou-se ao seu lado.

— Por quê? — repetiu.

— Um cerco nem sempre é vencido pela força das armas. Talvez esteja planejando nos matar de fome.

— Então por que se dar ao trabalho de atacar? Infligimos perdas terríveis a eles. Por que não esperar? É como se quisesse apenas nos manter dentro e a si mesmo fora. O que Elias está fazendo?

O ancião deu de ombros.

— Como já lhe disse, posso ver muita coisa, no entanto o interior do coração dos homens está além da minha visão. Sobrevivemos até agora. Sejamos gratos.

— Eu sou. Todavia conheço meu irmão. Não é do tipo que fica sentado pacientemente esperando. Há algo no ar, algum plano... — ele se calou e ficou encarou um canteiro de flores de jasmim-da-virgínia tomado pelo mato. As flores nunca haviam se aberto, e ervas daninhas se erguiam insolentes entre os caules entrelaçados como carniceiros se misturando a uma manada moribunda.

— Ele poderia ter sido um rei magnífico, sabe? — disse Josua de repente, como se respondesse a alguma pergunta não formulada. — Houve uma época em que era apenas forte, e não um valentão. Quer dizer, às vezes era cruel quando éramos mais jovens, entretanto era apenas aquele tipo de crueldade inocente que os meninos grandes demonstram aos menores. Até me ensinou algumas coisas... Esgrima, luta livre. Nunca o ensinei nada. Não havia muito seu pelas coisas que eu sabia.

O Príncipe sorriu com tristeza, e por um instante o olhar frágil de uma criança pareceu transparecer em suas feições delicadas.

— Poderíamos até ter sido amigos... — o Príncipe entrelaçou seus longos dedos e soprou neles um hálito quente. — Se ao menos Hylissa tivesse vivido.

— A mãe de Miriamele? — Jarnauga perguntou baixinho.

— Ela era muito bonita... Do sul, sabe, cabelos negros, dentes brancos. Era muito tímida, mas quando sorria era como se uma lâmpada tivesse sido acesa. E amava meu irmão... O máximo que podia. Porém ele a assustava... Tão barulhento, tão grande. E ela era muito pequena... Esguia como um salgueiro, dava um pulo se alguém apenas tocasse em seu ombro...

O Príncipe não disse mais nada, contudo ficou sentado, perdido em pensamentos. Um raio de sol tênue rompeu as nuvens no horizonte, trazendo um pouco de cor ao jardim monótono.

— Parece que você tinha um carinho especial por ela. — disse o ancião em um tom amável.

— Oh, eu a amava. — a voz de Josua era pragmática, seus olhos ainda fixos na planta emaranhada. — Eu ardia de amor. Rezei a Deus para que levasse esse amor embora, mesmo sabendo que seria apenas uma casca vazia, sem nenhum vestígio de vida. Não que minha oração tenha adiantado alguma coisa. E acho que ela também me amava; fui seu único amigo, ela costumava dizer. Ninguém mais a conhecia como eu.

— Elias suspeitava?

— Claro. Suspeitava de qualquer um que sequer se aproximasse de Hylissa nos desfiles da corte, e eu estava com ela constantemente. Entretanto sempre com honra. — se apressou em acrescentar, e então parou. — Por que devo me preocupar tanto, mesmo agora? Que os deuses me perdoem, gostaria que tivéssemos o traído! — Josua cerrou os dentes. — Quem me dera que fosse minha amada falecida, em vez de apenas a falecida esposa do meu irmão. — ele olhou acusadoramente para o nódulo de carne cicatrizada que se projetava de sua manga direita. — Sua morte pesa em minha consciência como uma grande pedra... Foi minha culpa! Meu Deus, somos uma família assombrada.

Josua parou ao ouvir o ruído de passos na trilha.

— Príncipe Josua! Príncipe Josua, onde você está?

— Aqui! — respondeu o Príncipe, distraído, e um instante depois um de seus guardas surgiu cambaleando atrás de um muro de sebes.

— Meu Príncipe! — ofegou o guarda, dobrando um joelho. — Sir Deornoth disse que o senhor deve vir imediatamente!

— Eles estão nos muros de novo? — perguntou Josua, levantando-se e sacudindo o orvalho de sua capa de lã. Sua voz ainda soava distante.

— Não, senhor! — disse o guarda, sua boca bigoduda abrindo e fechando em excitação como se fosse um peixe barbudo. — É seu irmão... Quero dizer, o Rei, senhor. Ele está recuando. O cerco está terminando.

O Príncipe lançou a Jarnauga um olhar confuso e preocupado enquanto subiam apressados o caminho atrás do agitado guarda.



***



— O Supremo Rei se rendeu! — Deornoth gritou enquanto Josua subia os degraus, a capa esvoaçando ao vento. — Veja! Ele deu meia-volta e fugiu!

Deornoth se virou e deu um tapinha amigável no ombro de Isorn. O filho do Duque sorriu, contudo Einskaldir, ao seu lado, lançou um olhar furioso para o jovem erkyno, insinuando que não tentasse algo tão tolo com ele.

— E agora, o que houve? — perguntou Josua, chegando ao lado de Deornoth. Logo abaixo deles jaziam as ruínas de uma cabine de mineiro, evidência de uma tentativa fútil de derrubar a muralha cavando um túnel por baixo dela. A muralha havia cedido alguns metros, no entanto resistiu... Dendinis construíra para a eternidade. Os mineiros, mesmo depois de terem incendiado os pilares de madeira que sustentavam o túnel, foram derrubados pelas poucas pedras que os próprios haviam soltado.

Ao longe, jazia o acampamento de Elias, um formigueiro de atividade frenética. As máquinas de cerco restantes haviam sido derrubadas e destruídas, de modo que não serviriam a mais ninguém; as fileiras e fileiras de tendas haviam desaparecido, como se varridas e levadas por ventos fortes. Sons tênues... O grito distante dos vaqueiros, o estalo dos chicotes... Flutuavam no ar enquanto as carroças do Supremo Rei eram carregadas.

— Está recuando! — disse Deornoth, feliz. — Conseguimos!

Josua balançou a cabeça.

— Por quê? Por que deveria? Reduzimos uma pequena fração de suas tropas.

— Talvez tenha percebido agora o quão forte Naglimund é! — disse Isorn, semicerrando os olhos.

— Então por que não esperar que a situação se acalme? — exigiu o Príncipe. — Aedon! O que está acontecendo aqui? Posso acreditar que o próprio Elias possa voltar para Hayholt, entretanto por que não deixar pelo menos um cerco simbólico?

— Para nos atrair para fora. — disse Einskaldir em voz baixa. — Para um terreno aberto. — franzindo a testa, esfregou seu polegar áspero na lâmina da faca.

— Pode ser! — disse o Príncipe. — Mas ele deveria me conhecer melhor que isso.

— Josua... — Jarnauga olhava além do exército em retirada, para a névoa matinal que encobria o horizonte norte. — Há nuvens estranhas ao norte.

Os outros olhavam fixamente, porém não conseguiam ver nada além dos tênues primórdios da Marca Gelada.

— Que tipo de nuvens? — perguntou o Príncipe.

— Nuvens de tempestade. Muito estranhas. Como nenhuma que eu já tenha visto ao sul das montanhas.



***



O Príncipe estava de pé junto à janela, ouvindo o murmúrio do vento que se aproximava, com a testa pressionada contra a moldura de pedra fria. O pátio austero abaixo estava iluminado pela luz da lua, e as árvores balançavam.

Vorzheva estendeu um braço branco debaixo da colcha de pele.

— Josua, o que foi? Está frio. Feche a janela e volte para a sua cama.

Ele não se virou.

— O vento sopra em todo lugar. — disse baixinho. — Não há como impedi-lo de entrar, e não há como detê-lo quando quer partir.

— É muito tarde para seus enigmas, Josua. — disse ela, bocejando e passando os dedos pelos cabelos negros como azeviche, de modo que se espalharam pelo lençol como asas negras.

— Talvez seja tarde demais para muitas coisas. — respondeu, e foi sentar-se na cama ao lado de Vorzheva. Sua mão acariciou com carinho seu pescoço, contudo continuou olhando para a janela. — Desculpe, Vorzheva. Sou... Confuso, eu sei. Nunca fui o homem certo... Nem para meus tutores, nem para meu irmão, nem para meu pai... E nem para você. Às vezes me pergunto se nasci fora do meu tempo. — seu dedo se ergueu para acariciar sua bochecha, e sua respiração quente estava em sua mão. — Quando vejo o mundo como me foi apresentado, sinto apenas uma profunda solidão.

— Solidão? — Vorzheva sentou-se. O manto de pele caiu; sua pele lisa e cor de marfim estava banhada pelo luar. — Pelo meu clã, Josua, você é um homem cruel! Ainda assim me pune pelo meu erro em tentar ajudar a Princesa. Como pode compartilhar minha cama e se dizer solitário? Vá embora, seu rapaz melancólico, vá dormir com uma daquelas moças frias do norte, ou em algum covil de monge. Vá então!

Ela o atacou, e ele segurou seu braço. A dama era forte apesar de sua magreza, e o esbofeteou duas vezes com a outra mão antes que pudesse rolar sobre ela e imobilizá-la.

— Paz, senhora, paz! — pediu Josua, e então riu, embora seu rosto ardesse. Vorzheva franziu a testa e se debateu. — Tem razão. — disse. — Eu a insultei e peço desculpas. Imploro pela paz.

Josua se inclinou e a beijou no pescoço, e depois de novo em sua bochecha avermelhada pela raiva.

— Chegue mais perto e vou mordê-lo! — sibilou Vorzheva. Seu corpo tremia contra o dele. — Fiquei com medo por você quando foi para a batalha, Josua. Pensei que fosse morrer.

— Não fiquei menos assustado, minha senhora. Há muito no mundo para se temer.

— E agora se sente sozinho.

— Pode-se sentir solidão... — disse o Príncipe, oferecendo o lábio para ser mordido. — Mesmo na mais dedicada e melhor companhia.

Seu braço, agora livre, fechou-se em volta do pescoço dele para puxá-lo para mais perto. O luar tingia de prata seus membros entrelaçados.



***



Josua deixou cair sua colher de osso de volta na tigela de sopa e observou com raiva os pequenos redemoinhos que se espalhavam pela superfície. O salão de jantar zumbia com o murmúrio de muitas vozes.

— Não consigo comer. Preciso saber!

Vorzheva, comendo em silêncio, embora com seu apetite habitual, lançou um olhar inquieto ao longo da mesa.

— Seja o que for que esteja acontecendo, meu Príncipe. — disse Deornoth timidamente. — Você precisa ter forças.

— Precisará disso para falar com seu povo, Príncipe Josua. — comentou Isorn com a boca cheia de pão. — Eles estão chateados e confusos. O Rei se foi. Por que não há comemoração?

— Você sabe muito bem por que não! — retrucou Josua, levando a mão à têmpora com dor. — Certamente já percebe que é uma armadilha... Que Elias não desistiria tão fácil.

— Suponho que sim! — disse Isorn, embora não parecesse convencido. — Isto não significa que as pessoas que foram amontoadas na fortaleza interna como gado... — ele gesticulou com uma mão grande para a multidão aglomerada ao redor da mesa do Príncipe, a maioria sentada no chão ou encostada nas paredes do salão de jantar, cadeiras preciosas demais para qualquer um, exceto os mais nobres. — Que elas entenderão. Acredite em alguém que passou um inverno infernal preso pela neve em Elvritshalla. — Isorn mordeu outro pedaço grande de pão.

Josua suspirou e se virou para Jarnauga. O ancião, com suas tatuagens de serpente estranhamente móveis à luz da lanterna, estava absorto em uma conversa com o Padre Strangyeard.

— Jarnauga... — disse o Príncipe em voz baixa. — Você disse que queria falar comigo sobre um sonho que teve.

O velho rimmerio se desculpou com o padre.

— Sim, Josua — respondeu, inclinando-se para perto. — Todavia talvez devêssemos esperar até que possamos conversar em particular. — ele aguçou o ouvido para o clamor do salão de jantar. — Por outro lado, ninguém conseguiria ouvir nossa conversa aqui, mesmo que se sentasse debaixo da sua cadeira. — disse o velho e esboçou um sorriso gélido.

— Tive sonhos outra vez. — disse por fim, com os olhos brilhando como joias sob as sobrancelhas. — Não tenho poder para invocá-los, mas às vezes eles vêm sem serem chamados. Algo aconteceu com a companhia enviada a Urmsheim.

— Algo? — o rosto de Josua estava sombrio, inexpressivo.

— Eu apenas sonhei... — disse Jarnauga na defensiva. — Porém senti uma grande ruptura... Dor e terror... E ouvi o jovem Simon gritando... Gritando de medo e raiva... E algo mais...

— Será que o que aconteceu com eles pode ser a causa da tempestade que viu esta manhã? — perguntou o Príncipe, com voz pesada, como se estivesse recebendo más notícias há muito esperadas.

— Não creio. Urmsheim fica em uma cordilheira mais a leste, atrás do lago Drorshull e do outro lado dos Ermos.

— Eles estão vivos?

— Não tenho como saber. Foi um sonho, e um sonho curto e estranho.



***



Mais tarde, caminharam em silêncio pelas altas muralhas do castelo. O vento havia dissipado as nuvens, e a lua transformara a cidade deserta abaixo em ossos e pergaminho.

Olhando fixamente para o céu negro do norte, Josua exalou com um suspiro desalentado.

— Então, até mesmo a tênue esperança de Espinho se foi.

— Não foi o que eu disse.

— Não precisou. E suponho que você e Strangyeard não estejam mais perto de descobrir o que aconteceu com a espada de Fingil, Minneyar?

— Infelizmente, não.

— Nesse caso, o que mais precisa ser feito para garantir nossa ruína? Deus pregou uma peça cruel em... — Josua parou de falar quando o velho apertou seu braço.

— Príncipe Josua... — disse o ancião, olhando com os olhos semicerrados para o horizonte. — Você me convenceu a nunca desafiar os deuses, mesmo aqueles que não são os seus.

Sua voz parecia velha e abalada, pela primeira vez.

— O que quer dizer?

— Estava para perguntar o que mais poderia ser feito conosco? — o velho bufou com humor amargo. — As nuvens de tempestade, aquela tempestade negra no norte? Está se movendo em nossa direção.... E muito, muito rápida também.



***



O jovem Ostrael de Runchester ficou tremendo junto à muralha e refletiu sobre o que seu pai havia dito certa vez.

— É bom servir ao seu Príncipe. Vai conhecer um pouco do mundo como soldado, rapaz. — Firfram dissera-lhe, passando a mão calejada de agricultor pelo ombro do filho, enquanto a mãe, de olhos vermelhos, observava em silêncio. — Talvez vá até para as Ilhas do Sul, ou para Nabban, e enfim se livrará deste maldito vento da Marca Gelada.

Seu pai havia partido. Desaparecera no inverno passado, arrastado por lobos durante aquele terrível e frio decimbre... Lobos ou algo mais, pois nenhum vestígio seu jamais foi encontrado. E o filho de Firfram, ainda sem ter experimentado a vida no sul, estava em um muro sob o vento gélido, sentindo o frio penetrar seu próprio coração.

A mãe e as irmãs de Ostrael se amontoavam lá embaixo, com centenas de outros desabrigados, em barracões improvisados ​​dentro da pesada fortaleza de pedra de Naglimund. As paredes da fortaleza ofereciam um abrigo muito melhor contra o vento do que o alto ponto de observação de Ostrael, contudo nem mesmo as paredes de pedra, por mais grossas que fossem, conseguiam abafar a música terrível da tempestade que se aproximava.

Seus olhos foram atraídos, com medo, embora irresistivelmente, para a mancha escura que se agitava no horizonte, espalhando-se à medida que se aproximava como tinta cinza derramada na água. Era uma mancha, um espaço em branco, como se algo tivesse apagado a essência da realidade. Era um lugar onde o próprio céu parecia inclinar-se, canalizando as nuvens para baixo, formando uma massa giratória lenta como a cauda de um redemoinho. De tempos em tempos, relâmpagos brilhantes cruzavam o topo da tempestade. E sempre, sempre, havia o som horrível de tambores, distante como um respingo de chuva em um telhado grosso, insistente como o bater dos dentes de Ostrael.

O ar quente e as lendárias colinas ensolaradas de Nabban pareciam cada vez mais ao filho de Firfram como as histórias do Livro contadas pelos sacerdotes, um consolo imaginário para arrastar alguém, para esconder o terror da morte inescapável.

A tempestade chegou, pulsando com tambores como uma colmeia de vespas.



***



A lanterna de Deornoth tremia com o vento forte e quase se apagou; ele a protegeu com sua capa até que a chama se estabilizasse de volta. Ao seu lado, Isorn, filho de Isgrimnur, encarava a escuridão fria e riscada por relâmpagos.

— Pela Árvore de Deus! Está escuro como a noite! — gemeu Deornoth. — Passou do meio-dia, e mal consigo enxergar.

A boca de Isorn se abriu, um corte escuro em seu rosto pálido e iluminado pela lanterna, no entanto nenhum som saiu. Sua mandíbula se moveu.

— Tudo ficará bem. — disse Deornoth, assustado pelo medo do jovem e forte rimmerio. — É apenas uma tempestade... Algum truque maligno e mesquinho de Pryrates... — mesmo enquanto dizia isso, tinha certeza de que era mentira. As nuvens negras que mascaravam o sol, arrastando a noite até os portões de Naglimund, traziam consigo um pavor que o oprimia como um peso, como a tampa de pedra de um caixão. Que tipo de invocação de mago era essa, que mera feitiçaria seria capaz de cravar uma lança gélida de horror bem em suas entranhas?

A tempestade avançava pesadamente em direção a eles, uma massa de escuridão se espalhando muito além das muralhas do castelo em ambos os lados, pairando acima das ameias mais altas, atravessada pelo brilho azul-esbranquiçado dos relâmpagos. A cidade e o campo, amontoados, ganharam um novo relevo por um instante, para depois desaparecerem de novo na penumbra. O som pulsante dos tambores ecoava contra a muralha.

Quando o relâmpago brilhou mais uma vez, simulando momentaneamente a luz roubada do sol, Deornoth viu algo que o fez se virar e agarrar o braço largo de Isorn com tanta força que o rimmerio estremeceu.

— Chame o Príncipe! — disse Deornoth com a voz oca.

Isorn ergueu os olhos, seu medo supersticioso da tempestade superado pela estranheza do comportamento de Deornoth. O rosto do jovem cavaleiro havia ficado inexpressivo, vazio como um saco de farinha, mesmo enquanto suas unhas desenhavam um filete de sangue imperceptível no braço de Isorn.

— O que... O que foi?

— Chame o Príncipe Josua! — repetiu Deornoth. — Vá!

O rimmerio, lançando um olhar para trás, para o amigo, fez o sinal da Árvore e cambaleou ao longo da muralha em direção à escadaria.

Entorpecido, pesado como chumbo, Deornoth ficou parado, desejando ter morrido na Colina do Touro... Até mesmo ter morrido em desgraça, em vez de ver o que estava diante dele.



***



Quando Isorn retornou com o Príncipe e Jarnauga, Deornoth seguia olhando fixamente. Não havia necessidade de perguntar o que via, pois o relâmpago iluminava tudo.

Um grande exército havia chegado a Naglimund. Dentro da névoa rodopiante da tempestade, erguia-se uma vasta floresta de lanças eriçadas. Uma galáxia de olhos brilhantes reluzia na escuridão. Os tambores rufaram outra vez, como trovões, e a tempestade se instalou sobre o castelo e a cidade, uma grande tenda ondulante de chuva, nuvens negras e neblina congelante.

Os olhos fitavam as muralhas... Milhares de olhos brilhantes, todos cheios de intensa expectativa. Cabelos brancos esvoaçavam ao vento, rostos brancos e estreitos voltados para cima em seus elmos escuros, fitando as muralhas de Naglimund. Pontas de lanças brilhavam em azul em outro clarão de fogo celeste. Os invasores olhavam silenciosamente para cima como um exército de fantasmas, pálidos como peixes cegos, etéreos como o brilho da lua. Os tambores pulsavam. Na névoa, outras sombras, mais longas, espreitavam... Formas gigantescas envoltas em armaduras, carregando grandes clavas nodosas. Os tambores pulsaram de novo e, em seguida, silenciaram.

— Aedon misericordioso, conceda-me descanso. — orou Isorn. — Em Teus braços dormirei, em Teu seio...

— Quem são eles, Josua? — perguntou Deornoth em voz baixa, como se estivesse apenas curioso.

— As Raposas Brancas... As nornas. — respondeu o Príncipe. — São os reforços de Elias. — ele ergueu a mão, exausto, como se quisesse bloquear a legião espectral de sua vista. — São os filhos do Rei da Tormenta.



***



— Vossa Eminência, por favor! — o Padre Strangyeard puxou o braço do velho, de maneira gentil a princípio, depois com força crescente.

O velho se agarrou ao banco como um búzio, uma pequena forma na escuridão do jardim de ervas.

— Precisamos orar, Strangyeard! — repetiu o Bispo Anodis em sua teimosia. — Ajoelhe-se.

O som pulsante e percussivo da tempestade se intensificou. O arquivista sentiu um impulso desesperado de correr para qualquer lugar.

— Isto... Não é um crepúsculo natural, Bispo. O senhor precisa entrar agora. Por favor.

— Eu sabia que não deveria ter ficado. Eu disse ao Príncipe Josua para não resistir ao Rei legítimo. — acrescentou Anodis, com um tom de lamento. — Deus está irado conosco. Devemos orar para que nos mostrem o caminho correto... Devemos nos lembrar de Seu martírio na Árvore... — o Bispo acenou com a mão convulsivamente, como se estivesse espantando moscas.

— Isto? Isto não é obra de Deus! — respondeu Strangyeard, com uma carranca em seu rosto geralmente afável. — É obra do seu ‘rei legítimo’... Ele e seu feiticeiro de estimação.

O Bispo não lhe deu atenção.

— Bem-aventurado Jesuris... — balbuciou, rastejando para longe do sacerdote em direção ao emaranhado sombrio do canteiro de imitação de folhagem. — Seus humildes suplicantes se arrependem de seus pecados. Frustramos a Sua vontade e, ao fazê-lo, atraímos a Sua justa ira...

— Bispo Anodis! — exclamou Strangyeard em exasperação nervosa, dando um passo para segui-lo, mas parando surpreso. Um frio denso e rodopiante pareceu descer sobre o jardim. Um instante depois, enquanto o mestre-arquivista estremecia com o frio crescente, o som dos tambores cessou.

— Algo...

Um vento gélido bateu o capuz de Strangyeard em seu rosto.

— Oh, sim, pecamos m-m-muito em nossa arrogância, nós, homens insignificantes! — cantou Anodis, fazendo barulho através da imitação de folhagem. — Nós r-rezamos... Nós... r-rezamos...? — sua voz se elevou, em um curioso tom de dúvida.

— Bispo?

Houve um tremor de movimento na profundidade da vegetação rasteira. Strangyeard viu o rosto do velho aparecer, a boca escancarada. Algo pareceu prendê-lo; poeira começou a jorrar ao redor, obscurecendo ainda mais os eventos na vegetação sombria. O bispo gritou, um som fino e lancinante.

— Anodis! — gritou Strangyeard, mergulhando na vegetação rasteira. — Bispo!

O grito cessou. Strangyeard parou um instante depois, parado sobre a figura encolhida do Bispo. Aos poucos, como se o velho estivesse revelando o fim de algum truque elaborado, o Bispo rolou para o lado.

Parte de seu rosto estava manchada de sangue vermelho. Uma cabeça negra jazia no chão ao lado dele, como uma boneca jogada de lado por uma criança esquecida. A cabeça, mastigando rapidamente, virou-se sorrindo para Strangyeard. Seus minúsculos olhos eram brancos como groselhas descoloridas, os bigodes desgrenhados brilhavam com o sangue do Bispo. Enquanto estendia uma mão de dedos longos para fora do buraco, a fim de puxar o Bispo para mais perto, mais duas cabeças surgiram do chão, uma de cada lado. O arquivista deu um passo para trás. Um grito ficou preso em sua garganta como uma pedra. O chão se contraiu outra vez... Aqui, ali, para todos os lados. Mãos finas e negras, contorcendo-se como focinhos de toupeira, emergiram do solo.

Strangyeard cambaleou para trás e caiu, arrastando-se em direção a passagem, certo de que a qualquer momento uma mão úmida se fecharia em seu tornozelo. Sua boca estava escancarada em uma expressão de medo, contudo nenhum som saía. Havia perdido as sandálias na vegetação rasteira e cambaleou pelo caminho em direção à capela com os pés descalços e silenciosos. O mundo parecia coberto por um silêncio úmido; sufocava-o e apertava seu coração. Até mesmo o estrondo da porta da capela atrás de suas costas parecia abafado. Enquanto buscava o ferrolho da porta, uma cortina cinza e sem detalhes desceu diante de seus olhos, e ele se jogou nela com gratidão, como em uma cama macia.



***



As chamas de inúmeras tochas agora se erguiam entre as nornas como flores em um campo de papoulas, projetando os rostos horrivelmente belos em silhuetas escarlates, aumentando grotescamente a estatura dos Hunën em armaduras de batalha que espreitavam por trás. Soldados escalavam as muralhas do castelo, apenas para olhar para baixo em silêncio chocado.

Cinco figuras fantasmagóricas em cavalos pálidos como teias de aranha cavalgavam para o espaço aberto diante da muralha. A luz das tochas brincava em seus mantos brancos com capuz, e a pirâmide vermelha do Pico das Tormentas cintilava e pulsava em seus longos escudos retangulares. O medo parecia envolver esses encapuzados como uma nuvem, alcançando os corações de todos que os viam. Os vigias nas muralhas sentiram uma terrível e impotente fraqueza se abater sobre eles.

O cavaleiro da frente ergueu sua lança; os quatro atrás fizeram o mesmo.

Os tambores soaram três vezes.

Onde está o mestre de Ujin e-d’a Sikhunae, ‘A Armadilha que Prende o Caçador’? — a voz do primeiro cavaleiro era um gemido zombeteiro e ecoante, como o vento soprando por um longo cânion. — Onde está o mestre da Casa dos Mil Pregos?

A tempestade pairou por longos momentos antes da resposta chegar.

— Estou aqui. — Josua deu um passo à frente, uma sombra esguia sobre o portão. — O que um bando tão estranho de viajantes quer à minha porta? — sua voz era calma, no entanto havia nela um leve tremor.

Ora... Viemos ver como os pregos enferrujaram, enquanto nós nos fortalecemos. — as palavras saíram lentamente, forçadas num sibilo de ar, como se o cavaleiro não estivesse acostumado a falar. — Viemos, mortal, para tomar o que é nosso. Desta vez, será sangue humano que se derramará no solo de Osten Ard. Viemos para derrubar sua casa bem acima de suas cabeças.

O poder implacável e o ódio da voz oca eram tais que muitos dos soldados gritaram e começaram a descer correndo pelas muralhas de volta para o castelo abaixo. Enquanto Josua permanecia no portão, sem dizer uma palavra, um grito agudo ecoou acima dos gemidos e sussurros assustados dos soldados de Naglimund.

— Escavadores! Há escavadores dentro das muralhas!

O Príncipe se virou ao ouvir um movimento próximo. Era Deornoth, subindo com as pernas trêmulas para ficar ao seu lado.

— Os jardins da fortaleza estão cheios de bukken. — disse o jovem cavaleiro. Seus olhos estavam arregalados enquanto olhava para os cavaleiros brancos.

O Príncipe deu um passo à frente.

— Vocês falam como se estivessem se vingando. — gritou para a multidão pálida abaixo. — Todavia isso é uma mentira! Vocês vêm a mando do Supremo Rei Elias... Um mortal. Servem a um mortal, então que venham. Façam o seu pior! Descobrirão que nem todos os pregos de Naglimund estão enferrujados e que ainda há ferro aqui que pode matar os sitha!

Um grito rouco ecoou dos soldados que ainda estavam no topo das muralhas. O primeiro cavaleiro esporeou seu cavalo um passo à frente.

Nós somos a Mão Vermelha! — sua voz era fria como a sepultura. — Não servimos a ninguém além de Ineluki, o Senhor da Tormenta. Nossos motivos são nossos, assim como a sua morte será sua! — ele brandiu sua lança acima da cabeça, e os tambores irromperam novamente. Trompas estridentes soaram.

— Tragam aquelas carroças! — gritou Josua do telhado da guarita. — Bloqueiem o caminho! Eles tentarão derrubar o portão!

Mas, em vez de trazer um aríete para tentar quebrar o pesado aço e as robustas vigas do portão, as nornas permaneceram em silêncio, observando os cinco cavaleiros avançarem sem pressa. Um dos guardas no alto da muralha disparou uma flecha. Esta foi seguida por uma dezena de outras, porém se atingiram os cavaleiros, foi apenas para atravessar seus corpos... Os pálidos cavaleiros não vacilaram um passo sequer.

Os tambores rufavam furiosamente, as flautas e estranhas trombetas gemiam e gritavam. Desmontando, os cavaleiros apareceram e desapareceram em relâmpagos enquanto davam os últimos passos até o portão.

Com terrível deliberação, o líder ergueu a mão para abrir seu manto com capuz. Uma luz escarlate pareceu emanar dele. Ao arrancá-lo, foi como se ele se virasse do avesso; de repente, era pura disformidade e um brilho vermelho incandescente. Os outros fizeram o mesmo. Cinco seres de linhas mutáveis ​​e cintilantes cresceram e se revelaram... Maiores do que antes, cada um com a altura de dois homens, sem rosto, ondulando como seda vermelha em chamas.

Uma boca negra se abriu no rosto sem olhos do líder enquanto erguia os braços em direção ao portão e colocava as mãos em chamas contra este.

Morte! — bradou, e sua voz pareceu estremecer os próprios alicerces das muralhas. As dobradiças de ferro começaram a brilhar em um laranja opaco. — Hei ma’akajao-zha!

As enormes vigas escureceram e fumegaram. Josua, puxando freneticamente o braço do atônito Deornoth, saltou para o topo da muralha.

T’si anh pra INELUKI!

Enquanto os soldados do Príncipe despencavam gritando pelas escadarias, houve uma explosão de luz, um estrondo ensurdecedor mais alto que tambores ou trovões, e o poderoso portão se estilhaçou em faíscas fumegantes e brilhantes. Os estilhaços sibilavam como uma chuva mortal enquanto a muralha desabava de ambos os lados, esmagando homens sob seus pés mesmo enquanto tentavam fugir.

Nornas blindadas saltaram para a brecha fumegante nas muralhas. Algumas ergueram longos tubos de madeira ou osso, tocando-os nas extremidades com tochas em chamas. Jatos de fogo horríveis jorraram dos tubos, transformando os soldados em fuga em tochas trêmulas e lamentosas. Grandes formas escuras irromperam dos escombros... Os hunën, brandindo longos porretes cravejados de ferro em suas mãos peludas, uivando como ursos enlouquecidos enquanto esmagavam tudo em seu caminho. Corpos despedaçados voavam à sua frente.

Alguns dos soldados, resistindo corajosamente ao medo sufocante, voltaram-se para lutar. Um gigante caiu com duas lanças nas entranhas, porém um instante depois os lanceiros estavam mortos, emplumados com flechas de penas brancas das nornas. As pálidas nornas avançavam pela brecha fumegante na muralha como larvas, gritando enquanto vinham.


Deornoth puxou um Josua cambaleante em direção à fortaleza interna. O rosto do Príncipe, enegrecido pela fuligem, estava molhado de lágrimas e sangue.

— Elias afiou os dentes do dragão! — Josua engasgou enquanto Deornoth o arrastava por cima de um soldado que gorgolejava. Deornoth achou que reconheceu o jovem piqueiro Ostrael, que havia ficado de sentinela na reunião do Rei, enterrado sob os corpos negros e contorcidos de uma dezena de escavadores. — Meu irmão plantou sementes para a morte de todos os homens! — vociferou Josua. — Ele está louco!

Antes que Deornoth pudesse responder... E que resposta, pensou ele por um instante, poderia dar? Dois soldados inimigos, com os olhos brilhando como fogo nas fendas de seus elmos, contornaram a esquina da fortaleza interna arrastando uma garota que gritava. Ao avistar Deornoth, um deles sibilou algo, depois estendeu a mão com sua espada escura e fina e passou a lâmina pela garganta da garota.

Ela caiu, tremendo, no chão atrás deles.

O capitão sentiu a bile subir à garganta enquanto se lançava para a frente, espada erguida. O Príncipe chegou logo em seguida. Naidel, sua espada, cintilando como o relâmpago que riscava o céu negro... Da tarde, era apenas tarde!

“Esta é finalmente a hora, então.” pensou, desvairado. O aço tilintou na madeira polida arcana. “Deve haver honra.” o pensamento era desesperado. “Mesmo que não haja ninguém para vê-la... Deus verá...”

Os rostos brancos, odiosos e cheios de ódio, giravam diante de seus olhos ardendo de suor.



***



Nenhum sonho com o Inferno, nenhuma gravura em madeira em seus muitos livros, nenhum aviso de seus mestres aedonitas poderia preparar o Padre Strangyeard para o inferno uivante em que Naglimund se transformara. Raios cortavam o céu, trovões ribombavam e as vozes de assassinos e vítimas subiam aos céus como o balbucio dos condenados. Apesar do vento e da chuva torrencial, incêndios irrompiam por toda parte na escuridão, matando muitos que ousavam se esconder atrás de portas robustas da loucura lá fora.


Mancando pelas sombras dos corredores internos, viu nornas entrando pelas janelas quebradas da capela e ficou impotente enquanto elas capturavam o pobre Irmão Eglaf, que estava ajoelhado em oração diante do altar. Strangyeard não podia ficar para assistir ao horror que estava por vir, assim como não podia fazer nada para ajudar seu semelhante na fé. Escapando com os olhos cheios de lágrimas cegantes e o coração pesado como chumbo no peito, se dirigiu para a torre principal e os aposentos do Príncipe.

Escondido nas profundezas escuras de uma sebe, viu o robusto Ethelferth de Tinsett e dois de seus guardas reduzidos a uma polpa vermelha sob o porrete de um gigante rugindo.

Observou, tremendo, o Lorde Condestável Eadgram sangrar até a morte em pé, cercado por escavadores guinchando.

Viu uma das damas da corte ser despedaçada por outro dos peludos hunën, enquanto outra mulher se agachava no chão próximo, o rosto inexpressivo pela loucura.

Por toda a fortaleza destruída, essas tragédias se repetiam mil vezes, um pesadelo aparentemente sem fim.

Chorando uma prece a Jesuris, certo de que o rosto de Deus estava desviado dos estertores de Naglimund, no entanto rezando mesmo assim em um reflexo desesperado e apaixonado, cambaleou até a frente da torre principal interna. Dois cavaleiros chamuscados e sem capacete estavam lá, diante da porta há alguns passos de uma pilha de cadáveres, com os olhos brancos tomados de dor. Demorou um longo momento até que reconhecesse Deornoth e o Príncipe, e outra espera angustiante antes que pudesse convencê-los a segui-lo.



***



O silêncio reinava no labirinto de corredores da residência. As nornas haviam invadido; alguns corpos jaziam encolhidos contra as paredes ou estendidos sobre as lajes de pedra, todavia a maioria das pessoas havia fugido em direção à capela ou ao refeitório, e as nornas não haviam ficado para revistar. Isso seria feito mais tarde.

Isorn destrancou a porta ao comando gritado de Josua. O filho de Isgrimnur, com Einskaldir e um punhado de soldados erkynos e rimmerios, guardavam a Senhora Vorzheva e a Duquesa Gutrun. Alguns outros cortesãos também estavam reunidos ali, entre eles Towser e o harpista Sangfugol.

Enquanto o Príncipe se afastava friamente do abraço choroso de Vorzheva, Strangyeard descobriu Jarnauga deitado em um catre no canto; uma bandagem ensanguentada estava enrolada descuidadamente em sua cabeça.

— O teto da biblioteca desabou. — disse o ancião, com um sorriso amargo.

— Receio que as chamas tenham consumido quase tudo.

Para o Padre Strangyeard, este foi, de certa forma, o pior golpe de todos. Ele irrompeu em um novo pranto, lágrimas escorrendo até mesmo por baixo de seu tapa-olho.

— Pior... Poderia ser pior. — engoliu em seco por fim. — Você poderia ter ido com eles, meu amigo.

Jarnauga balançou a cabeça branca e fez uma careta.

— Não. Ainda não. Mas em breve. Salvei uma coisa.

Ele tirou de dentro de sua túnica o pergaminho surrado do manuscrito de Morgenes, a primeira página agora manchada de sangue.

— Guarde-o em segurança. Ainda será útil, espero.

Strangyeard pegou-o com cuidado, amarrando-o com um cordão da mesa de Josua e enfiando-o no bolso interno de sua batina.

— Consegue ficar de pé? — perguntou a Jarnauga.

O rimmerio assentiu com cautela, e o padre o ajudou a se levantar.

— Príncipe Josua... — disse Strangyeard, segurando o cotovelo de Jarnauga. — Pensei em algo.

O Príncipe se virou de sua urgente conversa com Deornoth e os outros para encarar impacientemente o mestre do arquivo.

— O que é? — suas sobrancelhas se franziram, a testa de Josua parecia mais proeminente do que nunca, uma pálida protuberância lunar sob seus cabelos curtos. — Deseja que eu construa uma nova biblioteca? — o Príncipe se encostou cansado na parede enquanto o clamor aumentava lá fora. — Sinto muito, Strangyeard. Foi uma tolice minha. O que lhe veio à mente?

— Há uma saída.

Vários rostos sujos e desesperados se voltaram para ele.

— O quê? — perguntou Josua, inclinando-se para frente para olhar atentamente. — Devemos sair pelo portão? Ouvi dizer que foi aberto para nós.

A urgência de Strangyeard lhe deu forças para encarar o Príncipe. — Há uma passagem secreta que sai da sala da guarda e leva ao Portão Leste. — continuou. — Eu sei disso... Você me fez examinar as plantas do castelo de Dendinis por meses, em preparação para o cerco. — ele pensou nos rolos de pergaminho marrom insubstituíveis, cobertos pela tinta desbotada das anotações cuidadosas de Dendinis, agora cinzas, carbonizadas nos escombros da biblioteca. Lutou contra mais lágrimas. — Se... Se conseguirmos chegar lá, poderemos escapar pela Escada para as Colinas de Wealdhelm.

— E de lá, o quê? — perguntou Towser, queixoso. — Morrer de fome nas colinas? Ser devorado por lobos na Velha Floresta?

— Preferiria ser devorado aqui e agora, por coisas menos agradáveis? — retrucou Deornoth. Seu coração acelerou com as palavras do sacerdote; o tênue retorno da esperança era quase doloroso demais, contudo suportaria qualquer coisa para levar seu Príncipe em segurança.

— Teremos que lutar para sair daqui. — disse Isorn. — Mesmo agora, consigo ouvir as nornas por todo o lugar. Temos mulheres e algumas crianças conosco.

Josua olhou ao redor da sala para quase vinte rostos cansados ​​e assustados.

— Melhor morrer lá fora do que ser queimado vivo aqui, suponho. — disse por fim. Levantou a mão num gesto de bênção ou resignação. — Vamos depressa.

— Só uma coisa, Príncipe Josua. — ao ouvi-lo, o Príncipe aproximou-se de onde o sacerdote ajudava Jarnauga a lutar. — Se conseguirmos chegar ao Portão do Túnel... — disse Strangyeard em voz baixa. — Ainda teremos outro problema para resolver. Foi construído para defesa, não para fuga. Pode ser aberto ou fechado por dentro com a mesma facilidade.

Josua limpou as cinzas da testa.

— Está dizendo que precisamos encontrar uma maneira de bloqueá-lo atrás de nós?

— Se quisermos ter alguma esperança de escapar.

O Príncipe suspirou. Um corte no lábio pingava sangue no queixo.

— Que cheguemos ao portão, então faremos o que precisa ser feito.



***



Eles irromperam pela porta em grupo, surpreendendo um par de nornas que esperavam no corredor. Einskaldir cravou seu machado no capacete do mais próximo, lançando faíscas no corredor escuro. Antes que o outro pudesse fazer mais do que erguer sua espada curta, foi empalado entre Isorn e um dos guardas de Naglimund. Deornoth e o Príncipe se apressaram em conduziram os cortesãos para fora.

Grande parte do fragor da matança havia cessado. Apenas um grito ocasional de dor ou um cântico crescente de triunfo ecoava pelos corredores vazios. Fumaça ofegante, chamas crepitantes e as canções zombeteiras das nornas davam à residência a aparência de um submundo terrível, um labirinto à beira do Grande Abismo.

Nas ruínas devastadas dos jardins do castelo, foram atacados por escavadores. Um dos soldados caiu morto com uma faca bukken serrilhada nas costas, e enquanto o resto da companhia lutava contra os outros, uma das criadas de Vorzheva foi arrastada, gritando, para dentro de uma fenda na terra negra. Deornoth saltou para a frente para tentar salvá-la, empalando um corpo negro que se contorcia e assobiava na ponta de sua espada, no entanto ela havia desaparecido. Apenas sua delicada sandália, caída na lama salpicada de chuva, indicava que sequer existira.

Dois dos imensos hunën haviam descoberto as adegas de vinho e lutavam embriagados pelo último barril antes da guarita da fortaleza interna, golpeando-se e arranhando-se em fúria estrondosa. O braço de um gigante pendia inerte ao lado do corpo, e o outro sofrera um ferimento tão terrível na cabeça que um pedaço de pele pendia solto, e seu rosto era uma faixa de sangue. Mesmo assim, eles se atacavam, rosnando sua língua incompreensível em meio aos destroços de barris quebrados e aos corpos esmagados dos defensores de Naglimund.

Agachados na lama à beira dos jardins, Josua e Strangyeard semicerraram os olhos contra a chuva torrencial.

— A porta da guarita está fechada. — disse Josua. — Talvez consigamos atravessar o pátio aberto, entretanto se estiver trancada por dentro, estamos condenados. Nunca conseguiríamos arrombá-la a tempo.

Strangyeard estremeceu.

— Ainda se conseguíssemos, não... Não seríamos capazes de trancá-la atrás de nós.

Josua olhou para Deornoth, que não disse nada.

— Mesmo assim... — sibilou o Príncipe. — É para isso que viemos. Vamos correr.

Quando formaram o pequeno grupo, partiram em disparada desajeitada. Os dois hunën, um destes com seus grandes dentes cravados na garganta do outro, rolavam no chão, travando uma batalha estrondosa como deuses de um passado primordial. Alheio aos humanos que passavam, um deles estendeu uma perna enorme em um acesso de dor e derrubou o harpista Sangfugol. Isorn e o velho Towser voltaram-se apressadamente e o levantaram; enquanto o faziam, um grito agudo e excitado veio do outro lado do pátio.

Uma dúzia de nornas, duas delas em altos cavalos brancos, viraram-se ao chamado de seus companheiros. Ao verem o grupo do Príncipe, deram um grande grito e esporearam para a frente, galopando pelos gigantes agora inconscientes.

Isorn alcançou a porta e puxou. Ela se abriu de repente, todavia mesmo quando o grupo aterrorizado começou a entrar, o primeiro cavaleiro já estava sobre eles, com um elmo alto na cabeça e uma longa lança em punho.

Einskaldir, de barba escura, avançou com um rosnado de cão encurralado, esquivando-se do golpe serpentino da lança, depois saltando e atirando-se contra o flanco da norna. Ele agarrou a capa esvoaçante do oponente com a mão e o puxou, caindo no chão e derrubando o inimigo atrás de si. O cavalo sem cavaleiro derrapou nos paralelepípedos molhados. Ajoelhado sobre a norna caída, Einskaldir golpeou com seu machado com toda força, e depois o golpeou de novo. Cego para tudo ao seu redor, teria sido perfurado pela lança do segundo cavaleiro norna, mas Deornoth ergueu e arremessou a tampa de um barril quebrado, derrubando o cavaleiro do cavalo e jogando-o em uma das sebes. As tropas de infantaria uivantes avançavam rapidamente enquanto Deornoth puxava o espumante Einskaldir de cima do cadáver retalhado.

Eles atravessaram a porta momentos antes dos atacantes, e Isorn e dois dos outros membros do grupo a fecharam à força. Lanças se chocaram contra a madeira pesada; um momento depois, uma das nornas gritou com uma voz aguda e estalada.

— Machados! — disse Jarnauga. — Conheço boa parte da língua Hikeda’ya. Estão indo atrás de machados.

— Strangyeard! — gritou Josua. — Onde fica a maldita passagem?

— Está... Está tão escuro. — o sacerdote gaguejou. De fato, a sala era iluminada apenas pela luz inconstante de chamas alaranjadas que começavam a queimar as vigas do teto. Fumaça se acumulava sob o teto baixo. — Eu... Acho que é no lado sul... — ele começou. Einskaldir e vários outros saltaram para a parede e começaram a derrubar as pesadas tapeçarias.

— A porta! — rugiu Einskaldir. — Trancada! — acrescentou um momento depois.

A fechadura da pesada porta de madeira estava vazia. Josua olhou fixamente por um momento, enquanto um pedaço de lâmina de machado atravessava a porta vindo do pátio externo.

— Arrombem! — disse ele. — Os outros empilhem o que puderem diante da outra porta.

Em questão de instantes, Einskaldir e Isorn arrancaram o ferrolho da ombreira, enquanto Deornoth ergueu uma tocha apagada em direção ao teto fumegante. Um instante depois, a porta foi arrancada das dobradiças e eles passaram, fugindo pelo corredor inclinado. Outro pedaço se estilhaçou da porta atrás deles.



***



Correram por vários quilômetros, os mais fortes ajudando os mais fracos. Um dos cortesãos enfim caiu no chão chorando, incapaz de ir mais longe. Isorn foi ajudá-lo a se levantar, porém sua mãe, Gutrun, também extremamente cansada, o dispensou com um gesto.

— Deixe-o lá! — disse ela. — Ele consegue acompanhar.

Isorn olhou para o homem por um momento e deu de ombros. Enquanto continuavam subindo o caminho de pedra inclinado, ouviram o homem se levantar com dificuldade, amaldiçoando-os, e seguindo-os.

Mesmo quando as portas se erguiam diante deles, escuras e sólidas à luz da tocha solitária, estendendo-se do chão da passagem até o teto, o som da perseguição ecoou atrás deles. Temendo o pior, Josua estendeu a mão para um dos anéis de ferro e puxou. A porta se abriu para dentro com um leve rangido das dobradiças.

— Louvado seja Jesuris! — disse Isorn.

— Deixem as mulheres e os outros passarem. — ordenou Josua, e um instante depois dois soldados os conduziram bem adiante pela passagem, além das imponentes portas.

— Agora chegamos ao ponto. — disse Josua. — Ou encontramos uma maneira de selar esta porta, ou deixamos homens suficientes para trás para atrasar nossos perseguidores.

— Eu ficarei! — rosnou Einskaldir. — Provei sangue mágico esta noite. Não me importaria de provar mais. — ele deu um tapinha no punho da espada.

— Não. Eu ficarei, e somente eu. — Jarnauga tossiu e se apoiou no braço de Strangyeard, depois se endireitou. O alto sacerdote se virou para olhar para o velho e, de repente, entendeu.

— Estou morrendo. — disse Jarnauga. — Não deveria ter deixado Naglimund. Sempre soube disso. Só precisa me deixar uma espada.

— Você não tem forças! — disse Einskaldir com raiva, como se estivesse decepcionado.

— Tenho o suficiente para fechar esta porta — disse o ancião com gentileza. — Veja? — Jarnauga apontou para as grandes dobradiças. — São muito bem trabalhadas. Uma vez que a porta esteja fechada, uma lâmina quebrada na fenda da dobradiça deterá o perseguidor mais forte. Vão.

O Príncipe se virou como se fosse protestar; um grito estaladiço reverberou pelo corredor.

— Muito bem. — respondeu com uma suave voz. — Deus o abençoe, ancião!

— Não precisa. — disse Jarnauga e tirou algo brilhante do pescoço e colocou na mão de Strangyeard. — Que estranho fazer um amigo no final. — disse Jarnauga. Os olhos do padre se encheram de lágrimas e ele beijou a bochecha do rimmerio.

— Meu amigo! — sussurrou ele, e passou pela porta aberta.

A última coisa que viram foi o olhar brilhante de Jarnauga captando a luz da tocha enquanto encostava o ombro na porta. Ela se fechou, abafando os sons da perseguição. Os ferrolhos internos deslizaram firmemente para o lugar.



***



Depois de subir uma longa escadaria, enfim emergiram na noite ventosa e chuvosa. A tempestade havia diminuído e, enquanto estavam na encosta nua abaixo do bosque de Stile, podiam ver o fogo tremeluzindo nas ruínas de Naglimund e formas negras e desumanas dançando entre as chamas.

Josua ficou parado, encarando por um longo tempo, o rosto sujo de fuligem e riscado pela chuva. Seu pequeno grupo tremia atrás dele, aguardando para retomar o caminho.

O Príncipe ergueu o punho esquerdo.

— Elias! — gritou Josua, e o vento levou os ecos embora. — Você trouxe morte e coisas piores para o reino de nosso pai! Você ressuscitou um mal ancestral e destruiu a Tutela do Supremo Rei! Você me desabrigou e destruiu muito do que eu amava. — ele parou e lutou contra as lágrimas. — Agora não é mais Rei! Tomarei a coroa de você. Juro que a tomarei!

Deornoth o segurou pelo braço e o conduziu para longe da beira do caminho. Os súditos de Josua o esperavam, com frio e medo, sem lar na selvagem Wealdhelm. Sua cabeça se curvou por um instante, cansado ou em oração, e os conduziu para a escuridão.

***

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