domingo, 14 de junho de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 02 — Capítulo 09

Capítulo 09: Um dragão que adotei se apegou demais a mim, então a fiz minha filha

— Chastille Lillqvist... Sua autoridade como Arcanja está suspensa por tempo indeterminado.

Ao ouvir isso de seu superior direto, o Cardeal Clavwell, Chastille baixou a cabeça em silêncio. E sua Espada Sagrada havia desaparecido. Como era um símbolo importantíssimo da igreja, agora estava guardada em seu tesouro.

A origem de tudo foi o que aconteceu há meio mês. O assento do décimo terceiro Arquidemônio, que havia ficado vago, foi entregue a um jovem feiticeiro chamado Zagan. E, naturalmente, a igreja queria derrubá-lo enquanto era inexperiente e começou a reunir suas forças.

Porém, quem se opôs à ideia foi Chastille.

— Minha vida já foi salva por ele duas vezes. Não posso o enfrentar agora.

Era certo que havia uma maneira mais inteligente de provar seu ponto. Contudo, ainda com o enorme poder de um demônio bem diante de seus olhos, Zagan não vacilou. Vendo-o daquela forma, Chastille sentiu vergonha de si mesma.

Essa é a razão pela qual não quero lutar contra ele, ainda que signifique trair meus juramentos.

Como portadora de uma Espada Sagrada, que servia como a maior arma da igreja, e não apenas isso, como a única mulher no grupo, Chastille tinha forte apoio da população, e mesmo assim escolheu fazer algo que poderia ser considerado heresia.

Eles não tinham mais tempo para se preocupar com a subjugação de Zagan, já que o Cardeal Clavwell teve que proferir sua sentença. O que era, em outras palavras, a prova de que não havia propósito em suas ações além de exibir ostensivamente a autoridade da igreja.

Ao apenas retratar os feiticeiros como maus, eles conseguiam se justificar. Era por esse motivo que qualquer traidor era visto como um problema maior do que um poderoso feiticeiro.

A corrupção da igreja... Talvez tenha chegado ao seu limite. Enquanto Chastille reprimia um suspiro, os Cavaleiros Angelicais atrás dela elevaram suas vozes.

— Por favor, espere, Vossa Eminência Clavwell! Essa decisão é excessiva demais.

— Concordo! Se levarem em consideração as conquistas da senhorita Chastille, deveria haver alguma clemência.

— Além do mais, agora que um novo Arquidemônio apareceu, diminuir o número de Espadas Sagradas em campo só trará caos!

— Parem, todos vocês! — Chastille interveio com uma áspera voz em resposta à reação dos Cavaleiros Angelicais.

Observando aqueles que se calaram sem hesitar, o velho cardeal soltou um suspiro grave.

— Parece a todos vocês que não sinto nenhum remorso? — murmurou o Cardeal Clavwell, que parecia ter envelhecido ainda mais, como se lamentasse.

— Isto...

Assim, os Cavaleiros Angelicais não tiveram escolha a não ser permanecer em silêncio em resposta.

Tudo o que eu queria... Era proteger as pessoas que clamavam por ajuda... Foi por essa razão que me tornei uma Cavaleira Angelical... Depois de receber uma Espada Sagrada, ela se orgulhava de seu trabalho ao proteger as massas inocentes da opressão irracional dos feiticeiros.

E, antes que percebesse, só recebia ordens da igreja com o título “deve ser eliminado”, e não era mais capaz nem sequer de brandir sua espada por vontade própria.

Uma única frase sua, de que um feiticeiro não era mau, causou toda essa comoção justamente por causa de sua lealdade até então.

No entanto, com isso, acho que pelo menos consegui pagar minha dívida com Zagan. No mínimo, a formação do esquadrão de subjugação seria bastante atrasada. Não havia como aquele feiticeiro astuto não tomar contramedidas contra a igreja, e deveria pelo menos ter sido capaz de ajudá-los, ganhando algum tempo.

De repente, Chastille se lembrou da garota elfa que estava ao lado de Zagan. Mesmo sendo criada de um feiticeiro, agia como se Chastille fosse sua amiga. E Chastille sentiu que elas de fato poderiam ter sido boas amigas, se não fosse uma Cavaleira Angelical.

Embora fosse tarde demais, esse pensamento fantasioso passou por sua mente.

Por fim, o Cardeal Clavwell colocou a mão no ombro de Chastille.

— Chastille, por favor, não faça essa cara de resignação. Com o passar do tempo, acredito que poderei revogar sua punição.

Chastille olhou para ele com espanto ao ouvir aquelas palavras cheias de esperança.

— O que... Você...?

O Cardeal Clavwell olhava para Chastille como se estivesse zelando por uma filha amada.

— Uma Espada Sagrada escolhe seu portador por sua própria vontade. Alguém escolhido por uma Espada Sagrada não definhará na miséria para sempre. Por favor, suporte essa situação por enquanto. Estes ossos antigos resolverão esse problema.

— Suas palavras são muito mais do que eu mereço. — respondeu Chastille em voz baixa.

A igreja é corrupta, todavia ainda pode haver esperança de salvação.

Ao menos, não havia uma pessoa que a reconhecesse?

Os cantos de seus olhos arderam, entretanto a expressão do Cardeal Clavwell permaneceu severa.

— Porém, lembre-se, Chastille. Só posso protegê-la... No topo da hierarquia política.

— O-O que quer dizer?

O Cardeal Clavwell soltou um suspiro grave e então lhe disse o que queria dizer em um tom quase temeroso.

— O membro mais temido dos Arcanjos, Rafael Hyurandell, está a caminho.

A mera menção desse nome fez Chastille engolir em seco e estremecer.

Ele era um grande homem que continuou a cultivar sua lenda até bem depois dos cinquenta anos. Mais do que sua habilidade com a espada, sua natureza cruel fez com que as palavras “o mais temido” fossem associadas a ele.

O Cardeal Clavwell a informou discretamente sobre sua chegada iminente.

— A maioria das críticas aos Arcanjos nunca se torna pública. Contudo, ouvi muitos rumores ruins a seu respeito.

O homem que era temido a ponto de ser chamado de “o mais temível” estava viajando em direção à apóstata Chastille.

Purgar... Uma única palavra manchada de sangue veio à mente, no entanto o que o Cardeal Clavwell tinha a dizer era diferente.

— Dizem que está tentando criar uma nova força dentro da igreja, reunindo indivíduos com ideias semelhantes.

Ao ouvir essas palavras, Chastille arregalou os olhos. Não sabia quantos haviam se juntado a ele até então, entretanto era a igreja que declarava os feiticeiros como malignos. Entre os Cavaleiros Angelicais e sacerdotes, talvez houvessem muitos que simpatizavam com suas ideias.

O Arcanjo mais temível assumiria ainda mais autoridade... E considerando o momento de tudo...

Isso pode se tornar um farol. A traição da Donzela da Espada Sagrada não poderia se tornar pública. Afinal, se outro Arcanjo a derrotasse, esses rumores se tornariam um terremoto severo e abalariam o mundo. A igreja seria fortemente impactada.

Ainda assim, segui meu coração por uma vez. Seu futuro pode ter se tornado sombrio e inacessível, todavia não sentia nenhum arrependimento.



***



— Onde... Estou...?

A jovem Valefor murmurou essas palavras ao abrir os olhos atordoada.

Este era um quarto no castelo de Zagan. Até pouco tempo atrás, havia coisas como espécimes de criaturas estranhas e tubos de ensaio usados ​​em experimentos para criá-las espalhados por toda parte, mas agora continha apenas móveis simples e uma cama. Parecia funcionar como um quarto de hóspedes.

Os visitantes de Zagan eram em sua esmagadora maioria assassinos que visavam seu conhecimento e status ou outros tipos desprezíveis, então pensou que não havia propósito em preparar um quarto de hóspedes, porém Nephy argumentou.

— O Lorde Barbatos não vem aqui? — enquanto arrumava tudo cuidadosamente.

Zagan pretendia nunca deixar aquele vilão usar o quarto que Nephy havia arrumado, contudo mesmo assim, sempre havia a possibilidade de outros aparecerem.

Quer dizer, os amigos de Nephy sempre podiam aparecer. Havia a balconista da loja de roupas em Kianoides, cujo nome tinha surgido durante o almoço, e também a Cavaleira Angelical Chastille, por exemplo. Não havia como Zagan só as rejeitar se aparecessem à sua porta.

Dentro daquele quarto de hóspedes, Zagan e Nephy estavam lado a lado, observando o estado de Valefor.

O olhar da garotinha vagava pelo quarto arrumado. Era evidente que estava confusa.

E ao ver aquilo, Zagan sentiu alívio. Ah, graças a Deus. Está viva.

Claro, Nephy havia confirmado que estava viva, e Valefor também estava respirando enquanto dormia, no entanto seguia preocupado se ela acordaria.

Zagan tentara não tirar a vida de seu oponente. Era pelo bem de Nephy, embora também havia o problema de limpar os cadáveres que estivessem em seu domínio. Por isso, quase sempre apenas os dava uma leve cutucada antes de jogá-los fora, entretanto, dito isso, nunca confirmava se eles haviam sobrevivido.

Não era como se não tivesse confiança em seu controle ou algo assim!

Uma jovem chamada Valefor estava deitada na cama sem sua armadura ou manto. Tudo o que vestia por baixo da armadura de papel machê era uma camisa velha. Nem sequer usava calças.

Como era criança, talvez estivesse vestindo apenas o mínimo necessário por baixo da armadura.

Seus cabelos verdes estavam presos em tranças grossas, e dois chifres se projetavam para trás, saindo das aberturas em seu cabelo. Seus olhos, que enfim estavam expostos, eram dourados, e sua altura alcançava, no máximo, a cintura de Zagan.

A julgar por sua aparência, além dos chifres em sua cabeça, era como uma criança humana.


— S-Seu desgraçado!

Ela enfim parecia ter recobrado os sentidos. Os olhos dourados de Valefor se abriram de repente, e saltou no ar para atacar Zagan.

— Hmm? Bom, se está tão enérgica assim, suponho que esteja bem.

Apesar do que disse, Zagan parou aquele soco com movimentos tranquilos.

Embora pudesse ser chamado de soco, era suave, e ainda que o atingisse, teria, no máximo, o poder destrutivo encantador de um tapinha.

No entanto, Zagan podia sentir um poder naquele braço que teria reduzido um feiticeiro comum a carne moída.

Bem, ela é uma feiticeira afinal.

Aqueles que almejavam ser feiticeiros começavam aprimorando seus próprios corpos. Eles prolongavam suas vidas, ganhavam poder suficiente para esmagar até uma rocha e obtinham um corpo capaz de prevenir doenças e a necessidade de dormir. Fazendo isso, podiam eliminar todos os obstáculos à sua pesquisa.

Era por essa razão que pessoas comuns não tinham chance de derrotar um feiticeiro. Ainda que pudessem manipular fogo e relâmpagos, sua força física e velocidade puras estavam em outro nível. Se Zagan não tivesse segurado o seu punho, era possível que todo o quarto tivesse virado uma zona.

Entretanto, a atmosfera era de alguma forma difícil. Essa garota, Valefor, era uma feiticeira do mesmo calibre que Barbatos e Zagan antes de suceder ao Arquidemônio Marchosias. Estava em um nível diferente do feiticeiro ou bandido comum. Uma inimiga que merecia cautela, basicamente.

Mas é só uma pirralha...

Era baixinha, e suas bochechas pareciam macias e fofinhas. Uma criança genuína e autêntica, ao que parecia.

Zagan não sabia ao certo se deveria tentar dominá-la ou ser gentil com ela.

De qualquer forma, era alguém difícil de lidar. Mesmo quando parou o seu golpe, Valefor soltou um grunhido ameaçador e deixou Zagan coçando a bochecha.

— Hmph. Mostre um pouco de gratidão à Nephy. Não tenho piedade com meus oponentes, sejam pirralhos ou não, então se Nephy não tivesse implorado pela sua vida, sua cabeça já estaria decepada e já teria te jogado para fora.

Só com essas palavras, Valefor enfim pareceu entender que tinha “permissão para viver”. E que, se Zagan quisesse, naquele exato instante, poderia tê-la matado.

Porém eu não posso fazer algo tão cruel na frente da Nephy!

E, finalmente, o punho que havia desferido começou a perder a força.

— Por quê? — era uma voz infantil e arrastada que combinava com sua aparência. A voz abafada que tinha antes devia ser fruto de algum poder da máscara, algo fabricado.

E em resposta à pergunta de Valefor, Zagan inclinou a cabeça para o lado.

— Por que... O quê?

— Eu vim aqui... Querendo tirar a sua maldita vida. Por que não... Me matou por me opor a você?

Zagan então franziu a testa como se não tivesse o menor interesse naquilo.

— Já te disse, não disse? Nephy te salvou. Foi por esse motivo que te deixei viver. Não tem nenhuma grande razão, na verdade.

Era óbvio que a morte da criança pelas mãos de Zagan partiria o coração de Nephy, ainda que estivesse apenas se defendendo. Foi de fato bom que a criança tenha percebido isso antes que tivesse que matá-la.

Apesar de ter dito isso, não consigo sentir nenhuma hostilidade ou ódio... Já que ela foi a vencida, parecia normal que sentimentos de ressentimento e humilhação crescessem.

Pode ser que apenas tivesse perdido a vontade de lutar, embora ninguém imaginaria que era uma feiticeira que estava mirando na vida de Zagan minutos atrás.

Pelo contrário, Valefor fazia uma cara de mais perplexidade do que o próprio Zagan.

E enquanto os dois permaneciam ali, confusos um com o outro, Zagan lançou suas dúvidas para Valefor.

— Então, o que estava planejando ao me atacar?

— ...

Ela declarou que tomaria o poder de um Arquidemônio, porém a maioria dos feiticeiros não era tão obcecada por poder. Não, talvez fosse melhor dizer que a definição de poder para um feiticeiro comum era diferente.

O que os feiticeiros buscavam era o acúmulo de conhecimento e técnicas. A maioria não demonstrava interesse no poder de combater os outros.

Isto porque, ao adquirir conhecimento, os feiticeiros adquiriam poder. O poder era o resultado que surgia por si só através do processo de obtenção de conhecimento. O poder de lutar era um meio viável de fazer os outros obedecerem, contudo não era muito útil para a busca de conhecimento.

Adquirir conhecimento tinha o mesmo significado que adquirir poder, no entanto o oposto não era verdadeiro.

E, com tudo dito, o que Valefor cobiçava era o “poder de lutar”.

O poder de um Arquidemônio era uma vasta quantidade de mana concedida pelo Sigilo do Arquidemônio, não conhecimento. Havia também aqueles como Barbatos que almejavam o status e os bens de um Arquidemônio, entretanto era incompreensível para uma feiticeira cobiçar tal poder.

E, enquanto Zagan a encarava, o corpo de Valefor enrijeceu como se estivesse assustada.

Vendo-a desse jeito, ela realmente é só uma criança, não é?

Não importava como a olhasse, não parecia uma feiticeira capaz sequer de lançar um sopro de dragão.

E enquanto Nephy a examinava de cima a baixo, Valefor abriu a boca como se fosse soltar um gemido.

— Eu queria... Poder.

— Entendo. Não acho que seja algo que a maioria dos feiticeiros queira, não é?

Os feiticeiros ficavam fortes só para poderem se proteger. Com suas vidas prolongadas, precisavam do poder para proteger seus próprios corpos e bens.

Não era um meio nem um fim. Não era algo que alguém cobiçaria a ponto de arriscar a própria vida.

Bem, era óbvio que existiam exceções no mundo.

Enquanto Zagan apontava esse fato, Valefor murmurou algumas palavras, como se estivesse engolindo sua desgraça.

— Porque... Sou fraca. É por esse motivo que... Preciso de... Poder.

— Entendo. Então precisa de poder para poder viver?

Parecia contradizer a noção geral de feiticeiros, todavia Zagan se convenceu com essa resposta. Em primeiro lugar, estava determinado a aprimorar seu próprio poder para alcançar a imortalidade.

Em outras palavras, a chamada “exceção que se concentrava mais no poder do que no conhecimento” se referia ao próprio Zagan. Ou seja, não havia de fato necessidade de que seu inimigo fosse Zagan ou Nephy, então essa era provavelmente a razão pela qual não nutria nenhuma hostilidade ou ódio.

— Então, por que me escolheu como alvo? Sou um Arquidemônio, não achou que estava despreparada para me desafiar?

— Zagan, você é um Arquidemônio novato. E se o segundo nome “Matador de Feiticeiros” fosse verdadeiro, então imaginei que seria fraco contra alguém que não fosse uma feiticeira.

— Foi assim que pensou que até você poderia me derrotar?

Enquanto Zagan respondia de forma arrogante, Valefor assentiu. Então, suas mãos começaram a tremer levemente.

De alguma forma, parece que estou intimidando os fracos ou algo assim.

Não era uma sensação boa. Zagan era quem estava sendo ameaçado, mas sentia que era o único fazendo algo errado. Não sabia bem como descrever tal situação. De qualquer forma, aquilo o desestabilizou.

— Bem, foi uma boa ideia, porém sua força é insuficiente para me matar.

— ...

Valefor não respondeu, porém mordia o lábio.

E, no meio tempo em que Zagan se recostava, juntando as mãos atrás da cabeça, perguntou o que mais o preocupava.

— A propósito, você é um dragão, certo?

Com um sobressalto, o corpo de Valefor estremeceu.

— Isso mesmo.

— Pensar que ainda havia um espécime vivo por aí, hein? Vocês não ficam muito mais fortes que os humanos com o simples passar do tempo? Por que cobiçar tanto o poder?

Só por viverem, os dragões cresceriam a alturas além da compreensão do intelecto humano. Nem mesmo precisariam acumular conhecimento como os feiticeiros. Segundo as lendas, um dragão que viveu por dez mil anos chegou a matar e devorar um deus.

E sendo assim, se arriscar a lutar com uma tênue esperança de vitória parecia mais algo que um humano faria.

Além do mais, será que está com pressa? Por algum acaso poderia ter um motivo para precisar ficar mais forte naquele instante.

Após ouvir Zagan falar, Valefor baixou a cabeça e até lágrimas brotaram em seus olhos.

— Quer dizer...

Parecia que não queria que ninguém soubesse disso. Sua figura frágil, enquanto baixava o olhar, não se parecia em nada com a de uma feiticeira, muito menos com a de um dragão.

— Ah, entendi! — e olhando para aquela figura, Zagan por fim percebeu a origem de seu desconforto.

Essa garota... É isso. É igual a mim quando fui pego tentando roubar comida! Não era nada absurdo como tê-lo como inimigo, guardar rancor ou coisa do tipo.

Era como se apenas estivesse com fome e, como não havia outra saída, tentasse roubar comida, contudo falhasse, ou tentasse furtar algum objeto de valor, no entanto seu alvo acabasse sendo um bandido. De qualquer forma, era como uma criança que se meteu em uma situação em que estava pagando pelo próprio erro.

Zagan tinha lembranças de ter passado pela mesma coisa inúmeras vezes, então a entendia a ponto de doer.

E, enquanto chegava a essa compreensão por conta própria, Nephy inclinou a cabeça para o lado.

— Mestre Zagan, aconteceu alguma coisa?

— Não, só estou falando sozinho.

Ah, entendi. É como se ela tivesse encontrado uma presa fácil, então tentou aproveitar, entretanto foi impiedosamente derrotada e acabou à beira das lágrimas. Faz sentido.

Se substituísse a frase “quero poder” por “quero comida”, então ele a entendia perfeitamente.

Afinal, quando se está com fome, não se está com vontade de ficar com raiva.

Claro, o que aquela garotinha tinha feito era errado, todavia em vez de gritar “O que vai fazer a respeito?”, talvez fosse melhor repreendê-la por ter feito algo errado.

Como Zagan agiu como se estivesse falando com outro feiticeiro ou um inimigo, ele estava tenso. Quando, na verdade, sua suposição estava incorreta.

Então, já era óbvio como ela deveria ser tratada. E enquanto pensava em como era absurdo bancar o arrogante, Zagan soltou um resmungo.

— Bem, tanto faz. Mais importante, como me desafiou, um Arquidemônio... Terá de ser punida por suas ações.

— Mestre Zagan, hmm... — enquanto Nephy elevava a voz como se quisesse lhe pedir alguma coisa, Zagan apenas assentiu com a cabeça como se já entendesse.

E que tipo de tratamento terrível ela acabou imaginando? Valefor de repente começou a tremer com lágrimas nos olhos ao pensar nos possíveis castigos.

Então, como se estivesse proferindo um julgamento sobre aquela garotinha, Zagan declarou o seguinte.

— Durante uma semana, a partir de agora, ordeno que ajude a Nephy!

— Hã? — tanto Nephy quanto Valefor soltaram exclamações de espanto em resposta às suas palavras.

— Estamos com falta de gente para a limpeza, não é?

— É, ah, bem, sim... — enquanto Nephy balançava a cabeça para cima e para baixo, Zagan recostou-se e assentiu em resposta.

— Bem, nesse caso, pode usar essa garota como bem entender.

Se Valefor não nutria inimizade por Zagan ou algum rancor, não era como se estivesse obcecada pelo trono de um Arquidemônio. Portanto, não havia motivo para chegar ao ponto de matá-la.

Se fosse uma punição para uma criança, então esse tipo de coisa seria aceitável.

E no meio tempo em que estiver ajudando, provavelmente não há problema em ensiná-la o que é certo e o que não é.

Zagan não tinha o direito de pregar sobre o conceito de bem e mal, mas pelo menos poderia ensiná-la sobre o bom senso e as regras da perspectiva de um vilão. Já que sua oponente era uma criança, Zagan pensou que era hora de se impor como um adulto.

Se voltasse a cometer os mesmos erros, não teria mais nada a ver com Zagan. Se conseguisse entender melhor como se comportar, isso por si só já seria ótimo.

E, enquanto Zagan explicava, Valefor fez uma cara de incredulidade e falou.

— Você não... Vai... Me comer?

Ouvir palavras tão inesperadas deixou Zagan tonto.

— Espera aí. Por que eu comeria alguém como você? — Zagan sabia que seu rosto parecia maligno, porém não havia como só concordar em ser chamado de alguém que comeria crianças inteiras.

Valefor então abriu a boca como se tivesse dificuldade em expressar seus pensamentos em palavras.

— Se os humanos... Obtiverem sangue fresco de dragão... Eles se tornam mais fortes...

— Ah, agora que mencionou, já ouvi sobre isso antes.

Se alguém se banhar em sangue de dragão, torna-se imortal; se comer carne de dragão, obtém mana ilimitada; ou se comer osso de dragão cozido, qualquer doença pode ser curada. Desde tempos imemoriais, existem inúmeras lendas semelhantes.

Na verdade, quando Valefor transformou seus braços e pernas nos de um dragão, Zagan pensou na possibilidade de ela ser uma feiticeira que recorreu a esse método.

Então é esse o motivo pelo qual está tão assustada, né?

Se um humano a capturasse, mesmo que conseguissem se comunicar, ela não se sentiria viva.

O motivo pelo qual uma garota tão jovem usava aquela armadura e máscara de papel machê para criar tal figura provavelmente se devia a esse fato. Era o mesmo que Nephy, que foi um alvo por ser uma elfa.

Embora fosse um dragão, Valefor seguia sendo um espécime muito jovem. Era classificada como um dragão juvenil. Não era alguém que pudesse enfrentar um Cavaleiro Angelical ou um feiticeiro com poder significativo. Por essa razão, havia a necessidade de esconder sua verdadeira identidade. O motivo pelo qual usava a feitiçaria humana também era para se proteger.

Pensando dessa forma, era óbvio que essa jovem insistisse em obter o poder para lutar.

Depois de refletir sobre tudo, Zagan bufou com um “hmph”.

— Não me subestime. Seja um dragão ou um humano, tudo o que eu conseguiria comendo uma pirralha como você seria um gosto ruim na boca. — enquanto a informava sobre seus pensamentos, lágrimas brotaram nos olhos de Valefor mais uma vez.

É por isso que odeio lidar com crianças... Zagan então se lembrou de que, mesmo quando revirava o lixo e cometia roubos em rodovias, havia crianças mais velhas que cuidavam dele.

Se fossem elas, o que fariam em momentos assim?

Soltando um pequeno suspiro, Zagan abriu a boca para falar.

— Nephy, sobrou comida do almoço?

— Sim. Ainda tem um pouco de pão e sopa. — respondeu Nephy, com as orelhas tremendo como se estivesse se perguntando por que estava perguntando aquilo.

E então, Zagan a informou secamente sobre seus planos.

— Traga para ela.

Após piscar uma vez, surpresa, Nephy sorriu para Zagan.

— Sim! Vou trazer depois de esquentar. — disse Nephy, saindo rapidamente do quarto com um som de passos leves.

Tudo o que restou foi Zagan, com uma expressão um tanto carrancuda, e uma Valefor atônita.

— O que... Está planejando?

— Não sabe? Isso se chama caridade. É a piedade concedida aos fracos pelos fortes.

Zagan havia pensado em uma maneira mais gentil de confortá-la, contudo apenas aquele discurso arrogante saiu de sua boca.

Quando era um órfão, um menino dividiu seu pão com ele quando Zagan começou a pensar que iria morrer de fome. Sentiu que, de certa forma, foi salvo por aquela ação. Mesmo agora, ainda consigo me lembrar do gosto daquele pão.

Valefor não estava exatamente morrendo de fome, embora Zagan acreditava que uma refeição ajudaria a aliviar sua tensão. Não se importava se aquela criança o odiava ou gostava dele, todavia não era nada engraçado vê-la com medo do impensável o tempo todo. Foi esse motivo que o levou a pensar em fazer igual o que aquele menino fizera.

Valefor fazia uma cara como se não soubesse se devia estar com raiva ou com medo, embora Nephy voltou pouco depois com um carrinho, trazendo comida.

— Aqui está.

Ao olhar para o prato que Nephy lhe apresentou, o rosto de Valefor finalmente se coloriu de humilhação.

— Só para você saber, odeio pessoas que desperdiçam comida mais do que qualquer coisa. Principalmente se desperdiçar a comida da Nephy... Eu te mato, entendeu?

Essas palavras expressavam seus verdadeiros sentimentos, e Valefor estremeceu ao receber o prato de sopa.

Depois disso, pegou a colher com cautela e serviu um pouco de sopa.

— Ah... Está... Gostosa.

— Hmph. Claro que está.

Enquanto Zagan assentia com ar de superioridade, as pontas das orelhas de Nephy coraram devido a timidez de ser elogiada.

— É uma honra.

Um tanto envergonhado, Zagan se levantou.

— Bem, agora vou voltar para os arquivos. Depois que terminar de comer, acompanhe Nephy em seu trabalho.

E, quando estava prestes a sair, Valefor soltou uma voz confusa.

— E-Espere.

— O que foi agora?

— Você não está preocupado... Que eu ataque essa mulher? Não, ainda que eu não ataque, não acha que vou fugir ou tentar outra coisa?

— Faça o que quiser! — respondeu Zagan sem demonstrar qualquer preocupação.

— Se entende o significado de fugir de mim quando sei o seu segredo, ou mesmo se não entende, então tudo bem se fizer o que quiser.

Foi algo que a própria Valefor disse. Se um jovem dragão agisse de forma precipitada, seria mais fácil atacá-la do que um elfo.

Bem, eu realmente não pretendo espalhar boatos nem nada do tipo.

Apesar disso, se a libertasse sem nenhuma punição, todo o tempo que passou atormentando aqueles intrusos teria sido em vão.

O motivo pelo qual ordenou que limpasse como punição era apenas por essa preocupação. Além do mais, Nephy seria capaz de ensiná-la sobre o certo e o errado do mundo muito melhor do que ele.

E, continuando, Zagan apontou para Nephy com o olhar.

— Além de que...

A resposta para a outra pergunta dela era extremamente clara.

— Parece que está se equivocando. Escute, Nephy é muito mais forte do que alguém como você, entendeu?

Talvez fosse diferente se fosse a mesma Nephy que havia conhecido antes, mas agora Nephy possuía uma verdadeira vontade de viver. E portanto superava até um Cavaleiro Angelical. Além de que a barreira deste castelo também estava agindo para protegê-la.

Derrotar Nephy dentro do domínio de Zagan seria um feito difícil até mesmo para alguém com uma Espada Sagrada.

Deixando Nephy e a garotinha atônita para trás, Zagan seguiu em direção aos arquivos.



***



Dito isso, não vai se tornar algo perigoso, certo?

Várias horas depois, após ter saído da sala por um momento, Zagan ficou preocupado com o bem-estar de Nephy e Valefor e as observava de longe. Em termos de pura habilidade, não acreditava que Nephy pudesse perder, porém não sabia o que aconteceria se Valefor lançasse um ataque surpresa.

Depois que começou a pensar nessas coisas, não conseguiu mais se concentrar no que estava investigando e, como resultado, acabou desaparecendo e as seguindo escondido.

No momento, parecia que elas estavam arrumando a mesa e preparando o jantar. A porção um pouco maior do que o normal se devia ao fato de que até a parte de Valefor estava sendo preparada.

Também parecia que Valefor havia julgado que não seria prudente desafiar Zagan e Nephy. Ela estava ajudando na limpeza, justo como havia ordenado.

Aliás, estava usando um manto sobre os ombros. De alguma forma, o tamanho do que usava desde o início combinava com sua altura, usando magia. Não, talvez esse fosse o tamanho original, e apenas o aumentou para combinar com a armadura.

De qualquer forma, não era uma roupa que o impedisse de olhá-la.

— Valefor, por favor, coloque este prato de volta.

— Foll está ótimo.

Parecia que não estava tão cautelosa com Nephy quanto com Zagan, já que Valefor disse isso em um tom tímido. E depois murmurou, gaguejando.

— Hmm, Nephy... Você fez... A sopa?

— Sim. Eu mesma preparo todas as refeições aqui.

— Estava... Muito boa.

Pelo visto dizer que podia ser chamada pelo apelido era sua maneira de demonstrar gratidão.

— Entendo. Fico feliz que tenha gostado.

Embora o rosto de Nephy permanecesse inexpressivo, as pontas de suas orelhas pontudas tremeram enquanto assentia.

— Então, Foll, por favor, cuide disso.

— Hmm.

Embora fosse um dragão, sua aparência era a de uma criança pequena. A imagem dela correndo aos pés de Nephy pareceu encantadora para Zagan. E enquanto estava absorto na cena, Nephy fez uma pergunta a Valefor.

— Você acha... O Mestre Zagan assustador?

— Hmm.


— O Mestre Zagan pode parecer assustador, mas na verdade é muito gentil, sabia?

Bem, quando Nephy conheceu Zagan pela primeira vez, também ficou bastante assustada. Zagan tinha consciência de sua aparência maligna, então não era de se admirar que elas tivessem medo.

Porém, Valefor balançou a cabeça energicamente. Suas tranças verdes balançavam como caudas atrás dela.

— O rosto dele não é assustador. Na verdade, o consideraria bonito se o seu rosto fosse um pouco mais aberto.

— É... Mesmo?

Na verdade, teria o rosto de um monstro se pudesse se abrir.

Entendo... Então é uma diferença de senso estético... Ainda que fosse considerado bonito para os padrões dos dragões, ser reconhecido como desumano o deixou para baixo.

E, enquanto Nephy inclinava a cabeça para o lado, Valefor continuou falando.

— O que é assustador... É o seu poder. Não consegui alcançá-lo... De jeito nenhum.

E essa também foi uma reação bastante natural. Bem, acho que é irracional não ter medo de quem te deu um soco, né?

Pelo menos foi bom que a tenha feito entender que não faria nada como agarrá-la e comê-la.

Vendo Valefor assim, Nephy falou com ela em um tom gentil.

— Está tudo bem. O Mestre Zagan não é do tipo que usa seu poder sem motivo.

Ao ouvir aquilo, até Zagan inclinou a cabeça para o lado. Hã? Não sou? Ele estava se esforçando ao máximo para não matar ninguém na frente de Nephy, contudo era indiscutível que havia reduzido a cinzas bandidos e feiticeiros desavisados.

E, no entanto, Valefor assentiu em resposta.

— Hmm. Ele nem sequer me mostrou... Uma fração de sua verdadeira força.

Não vou bater em uma criança com toda a minha força! Zagan se opôs veementemente, entretanto não podia dizer nada depois de já tê-la atingido uma vez. Se soubesse que era uma criança tão pequena, teria pensado em uma maneira melhor de lidar com a situação antes...

Valefor então murmurou algo confuso.

— Um humano estranho.

— Você está certa, sem dúvida é um cavalheiro misterioso.

Como era de se esperar, Nephy sabia escolher suas palavras.

E enquanto Zagan sentia que aquilo o estava curando, Nephy lançou uma pergunta mais uma vez.

— Foll, o que planeja fazer daqui para frente?

— Não sei. Sou muito impotente... Para atacar os outros Arquidemônios.

— No fim das contas, você precisa de poder?

— Hmm.

Era como se fosse uma criança perdida... Não, era de fato uma criança. De qualquer forma, ouvir aquela voz fez Zagan fazer uma careta desconfortável.

Pensei que os dragões lendários... Fossem criaturas mais pacientes.

Eles eram uma raça lendária que diziam viver centenas, milhares e, se as circunstâncias permitissem, até dezenas de milhares de anos. E, todavia, parecia que Valefor estava sentindo uma impaciência na escala de um humano.

Em primeiro lugar, por que uma jovem dragão estaria fingindo ser uma feiticeira em terras humanas? Era uma história desconcertante, não importava como se contasse. E enquanto pensava profundamente a respeito, Valefor fez uma pergunta a Nephy.

— Nephy, por que você segue aquele homem?

— Eu fui... Comprada pelo Mestre Zagan e trazida para cá. Ainda assim, o Mestre Zagan não me tratou como uma escrava, mas como uma pessoa normal. Foi assim que entendi... Que este é o meu lugar.

— Entendo.

Por algum motivo, aquela voz soou solitária e invejosa para Zagan.

Nephy provavelmente pensou o mesmo. Parando o que estava fazendo, ela se agachou na frente de Valefor e a encarou.

— Foll, você não tem um lugar assim?

— Não! — ela respondeu, com a voz trêmula de solidão.

É por isso que eu odeio pirralhos...

Zagan só conseguiu fazer uma careta ao saber mais sobre uma situação da qual não queria fazer parte.



***



Vários dias se passaram. Valefor seguia um pouco assustada, porém parecia ter relaxado a guarda a ponto de Zagan conseguir manter uma conversa normal com ela. E assim, obedeceu às ordens de Zagan sem reclamar, da mesma forma como fizera antes com Nephy.

Como o próprio Zagan nunca lhe deu ordens extremas, seguiu obediente em seu papel como assistente de Nephy na maior parte do tempo. Parecia que, quando ficava sozinha com Nephy, ela falava bastante.

Bem, talvez seja melhor para Nephy ter outra garota para passar o tempo. Foi por esse motivo que Zagan as deixou sozinhas em silêncio.

E hoje, estava mais uma vez lendo um grande número de tomos nos arquivos, contudo...

— Então este é o último dos livros que trouxe do castelo de Marchosias, hein?

Zagan estava quase terminando de ler todos os novos livros que havia conseguido.

No entanto não havia nenhuma informação sobre demônios ou o Sigilo do Arquidemônio. Como suspeitou, parecia haver uma necessidade de vasculhar o legado de Marchosias mais uma vez.

Entretanto, quando o examinou da última vez, não conseguiu encontrar nada mais notável do que já tinha. Se apenas o revisasse sem pensar em nada novo era provável que obteria os mesmos resultados.

— Se eu tivesse... Outro feiticeiro...

O Zagan de antes jamais teria pensado em tal coisa. Um feiticeiro que possuísse conhecimento diferente do seu e pensasse de maneira diferente. Era um problema que sua discípula pessoal, Nephy, não conseguia resolver.

Quando pensou em outros feiticeiros além dele próprio, o primeiro nome que lhe veio à mente foi o de seu indesejável amigo, Barbatos, todavia nada de bom resultaria de lhe mostrar o legado de um Arquidemônio.

Em seguida, outro nome lhe veio à mente, embora até que ponto poderia confiar nele? Isso tornava a decisão difícil.

Então, Zagan pensou em outra abordagem para o problema. Talvez devesse explorar uma área diferente da feitiçaria? A primeira coisa que lhe veio à mente como uma possível via foi a igreja.

Era uma organização que reverenciava um suposto “único e verdadeiro deus” e vestia seus membros com Armaduras Ungidas que concediam poder suficiente para se opor a um feiticeiro. Claro, também era uma existência que poderia ser considerada seu inimigo natural. Entre eles, havia apenas doze Arcanjos que empunhavam Espadas Sagradas. E dizia-se que esse grupo era capaz até mesmo de rivalizar com Arquidemônios se unissem forças.

Não seria estranho se possuíssem conhecimento que os feiticeiros não tinham, mas mesmo sendo um Arquidemônio, não era prudente para Zagan pisar em seu domínio.

De repente, se lembrou do rosto de uma certa garota desajeitada. Agora que penso, será que ela conseguiu se manter segura depois daquilo? Chastille, a Donzela da Espada Sagrada, já havia lutado contra Zagan, porém por algum motivo também era amiga de Nephy. Ele acabou salvando-a depois que foi capturada por Barbatos, contudo não sabia o que havia acontecido com a garota depois do ocorrido.

Bem, não é como se algo de bom pudesse resultar do encontro entre um Cavaleiro Angelical e um feiticeiro.

Chastille era uma garota séria demais, de uma forma estranha. E pensou que fosse melhor para ambos não se encontrarem mais, no entanto também não conseguia deixar de se lembrar de que a garota esteve fazendo o possível para permitir que Zagan escapasse quando lutaram pela última vez.

Se eles se encontrassem de novo, era possível que voltasse a hesitar mais uma vez em matar Zagan, ou poderia tentar encobri-lo de forma estranha de novo e acabar se encurralando.

Não era como se Zagan tivesse pedido por isso, entretanto ver alguém se arruinar por sua causa deixaria um gosto amargo em sua boca.

Acho que vou tentar perguntar para Nephy mais tarde, então.

Dada a sua posição, seria mais conveniente se ela estivesse morta. Todavia, como pessoa, não lhe desejava mal algum. A ideia de que pudesse morrer sem que soubesse o deixava bastante triste.

Embora Zagan só se preocupava com isso até certo ponto.

— Há uma montanha de problemas, hein...? — e enquanto dizia essas palavras e se espreguiçava, a porta dos arquivos se abriu sem fazer barulho.

Valefor, não é?

Em uma rara reviravolta, a garota estava sozinha. Zagan se virou para encarar a jovem, que permanecia parada em silêncio na entrada dos arquivos.

— Precisa de alguma coisa?

— O jantar... Está pronto. — ela estava cautelosa como sempre, mas sua voz não demonstrava nenhuma hostilidade.

Ao ouvi-la, Zagan fechou o livro aberto em suas mãos e assentiu.

— Entendo. Vou indo agora.

Valefor continuou olhando para Zagan enquanto este colocava o livro de lado e começava a caminhar em direção a sala de jantar.

— Parece que você tem algo a dizer, Valefor.

— Por que... Não me matou?

Parecia que havia se aberto um pouco para Nephy, porém seguia suspeitando de Zagan.

E Zagan apenas deu de ombros e proferiu uma resposta simples e curta.

— Já expliquei muitas vezes, não é? Nephy gosta de você. É por essa razão que a deixei viver.

— Então... Só está presumindo que nunca vou tentar te pegar de surpresa?

Zagan revelou um sorriso amargo ao ouvir essas palavras. Há poucos dias, teve uma conversa semelhante com seu amigo indesejável, Barbatos.

Embora pareça uma criança, ela é uma verdadeira feiticeira quando se trata de coisas assim.

Pensou que havia algo de errado em um dragão agir como um humano, contudo Zagan simplesmente respondeu com um resmungo.

— Há um cara que eu conheço que disse algo parecido uma vez. Naquela época, respondi que viesse me enfrentar a qualquer momento. Ele entende muito de bebidas boas, sabe? E então, cada vez que eu o derroto, acaba me trazendo um licor de qualidade como compensação. — disse Zagan, e enfim se virou.

— É por isso que direi a mesma coisa para você. Venha me enfrentar quando quiser. Cada derrota adicionará mais tempo à sua sentença, então terá que continuar trabalhando para Nephy.

Se Nephy está se apegando a você, então seria ótimo se pudesse ficar para sempre! Suas ações sem dúvida não foram motivadas pela voz solitária da garota no outro dia.

E a expressão de Foll tornou-se perigosa em resposta àquela resposta arrogante.

— Não teme... Que eu roube todo o seu maldito conhecimento?

Havia mais de dez mil livros em seu arquivo. Depois de obter acesso ao legado de Marchosias, esse número só aumentou, de modo que nem o próprio Zagan tinha mais noção da contagem exata.

O conhecimento de um feiticeiro... Era um estoque de cada um dos livros que possuía.

Fundamentalmente, a feitiçaria crescia em poder tornando um círculo mágico mais complexo. Embora também fosse possível não usar um círculo mágico e substituí-lo por um cântico ou aparato, a estrutura básica nunca mudava.

E as coisas que faziam uso desses desenhos complexos... Eram os detalhes minuciosos do desenho de um brasão, conhecidos como “circuitos”.

Cada um desses livros explicava um desses circuitos, e poderia até ser dito que entender um livro seria semelhante a dominar um novo circuito. Claro, a palavra “entender” aqui não significava apenas saber como adicionar um circuito a um círculo mágico. Não, era algo que indicava que alguém seria capaz de manipulá-lo de qualquer forma.

Era por esse motivo que a feitiçaria podia ser “roubada”.

Se Valefor tivesse um poder comparável ao de Zagan, então seria capaz de compreender uma quantidade equivalente de livros.

Por essa lógica, o critério para ser um candidato a Arquidemônio é acumular mais de dez mil desses livros. O número de circuitos não era necessariamente algo que criasse uma diferença de qualidade, contudo seguia sendo um critério.

Se Valefor roubasse todos os “circuitos” daqui, poderia até mesmo ser capaz de sobrepujar Zagan.

No entanto, Zagan só deu de ombros como se não estivesse nada preocupado.

— Não mesmo. Vá em frente.

— O quê... — Valefor arregalou os olhos em choque com a sua resposta, que soou como se estivesse ridicularizando-a por constatar o óbvio.

— O quê, acha isso surpreendente?

— Você... Espera que eu não fique? — Foll por acaso tinha uma expressão de choque no rosto ao responder.

Não tenho nenhum interesse no que acontece com os grimorios que já estudei.

Zagan nunca relia um livro depois de dominar um novo circuito.

E assim, todos os livros que havia empilhado não lhe serviam mais para nada. Era por essa razão que não se importava se fossem roubados, queimados ou qualquer outra coisa.

Talvez sua capacidade de compreender tudo completamente após uma única leitura fosse o motivo pelo qual recebeu o título de Arquidemônio.

Entretanto, parecia que Valefor não conseguia entender sua lógica. Ela continuou olhando para Zagan, com uma expressão confusa no rosto o tempo todo.

No fim, depois de coçar a cabeça, Zagan respondeu como se achasse o seu olhar incômodo.

— Na minha opinião, técnicas e conhecimento são apenas coisas para “roubar”. Até roubei do feiticeiro que esteve aqui primeiro... O nome dele era Andras ou algo assim, acho... Bom, de qualquer forma, eu o matei e roubei seu conhecimento.

Foi um feito que realizou durante seus dias como um órfão, quando foi sequestrado para ser um sacrifício. Naquela época, Zagan virou o jogo contra Andras e se tornou um feiticeiro.

O motivo pelo qual Zagan, que era apenas um humano, conseguiu matar um feiticeiro foi porque viu a feitiçaria de Andras... E a roubou. E mesmo agora, a técnica para fazê-lo se tornou a base de seu poder.

A quantidade roubada... É proporcional à quantidade de poder que você possui.

Foi por esse motivo que pensou que não tinha o direito de impedir alguém que estava determinado a roubar sua feitiçaria.

— É claro que não vou te ensinar atentamente como faço com a Nephy. Mas, ao mesmo tempo, quer você se infiltre nos arquivos e leia todos os grimorios ou memorize minha feitiçaria observando, não tenho intenção de te atrapalhar. Porém, se for lá e roubar ou rasgar um livro que ainda não li, aí é outra história.

Dito isto, já havia examinado todos os tomos que trouxera do legado de Marchosias. Não havia mais nada que quisesse desesperadamente guardar.

Além de que não posso reclamar se ela fizer as mesmas coisas que fiz antes.

O motivo pelo qual fez questão de lhe dizer aquilo pode ter sido porque se viu refletido nela.

Zagan era um patife incorrigível, ainda assim havia um garoto que agia como um irmão mais velho e lhe dava uma mão. No mínimo, queria imitar o comportamento daquele garoto.

Valefor então balançou a cabeça.

— Não consigo entender. Você é arrogante. Deveria ser capaz de me obrigar a obedecer pela força bruta. Por que não o faz?

Quer dizer, se o fizesse só deixaria Nephy triste, não é? Apesar de que não demonstrasse, Zagan sentia que seria desprezado por ela ao fazer tal coisa. Não seria grande coisa, contudo era algo que não suportaria.

E em resposta a Valefor, que não tinha como saber de suas circunstâncias, Zagan bufou com um “hmph”.

— Não sei há quanto tempo vive como um dragão, ou quão excelente feiticeira é, mas é uma mera criança na minha presença. E crianças devem brigar e fazer birras como bem entenderem. Não há ninguém aqui que se ofenderia com isso, eu lhe asseguro.

Não era que quisesse ser querido. Não, era só que não conseguia deixá-la sozinha.

O próprio Zagan não conseguia explicar como se sentia, então esfregou a cabeça de Valefor com força para distraí-lo de seus pensamentos.

Porém, para sua surpresa, Foll não afastou sua mão. Esperava que a garota pelo menos ficasse brava e o mordesse, contudo...

Pelo contrário...

— Uma criança... — enquanto repetia essas palavras, por algum motivo, lágrimas começaram a brotar em seus olhos.

Hã? Isso é minha culpa? Estraguei tudo? Claro, era uma dragão, no entanto qualquer observador comum presumiria que acabara de fazer uma criança chorar. E até Zagan perdeu a compostura ao pensar nisso.

— G-Gaaah, não chore!

— Não estou... Chorando.

Zagan ficou perplexo ao vê-la enxugar o rosto com as duas mãos.

— Urgh, b-bem, está na hora do jantar, certo? Vamos. A comida da Nephy é boa o suficiente para estancar essas lágrimas. — disse Zagan, pegando a mão de Foll e seguindo em direção ao refeitório.

E o fato de Valefor estar apertando sua mão com força... Bem, foi algo que fingiu não perceber.



***



— Está gostoso, Foll?

— Hmm... Está delicioso. — Valefor estava chorando nos arquivos, todavia parou quando chegaram a sala de jantar. E, seguindo o fluxo dos eventos que ocorreram assim que chegaram ao destino, os três habitantes do castelo estavam jantando. A ordem dos lugares ficou com Zagan na cabeceira da mesa, Nephy à sua esquerda e Valefor à sua direita.

Estranhamente, Valefor havia se tornado amigável, agindo como se sempre tivesse sido assim.

Que garota egoísta. Zagan foi quem disse que suas lágrimas parariam se jantasse, entretanto não conseguia aceitar uma mudança tão radical.

E, quando sentiu que ia suspirar, Valefor voltou sua atenção para ele. Seus pés, que não alcançavam o chão, balançavam de forma brincalhona enquanto o observava inquisitivamente.

— O que é desta vez?

Valefor de repente baixou os olhos quando Zagan a encarou com suspeita. Como ainda estava com medo, a jovem falou como se estivesse reunindo toda a sua coragem.

— Zagan.

— O quê?

— Atrapalhar... O jantar antes... Hmm, foi minha culpa.

Ela devia estar se referindo ao primeiro dia em que se conheceram. Da vez em que invadiu o castelo. E ouvir aquele pedido de desculpas fez Zagan encará-la com espanto.

— Eu atrapalhei você de comer a comida deliciosa da Nephy. É natural que tenha ficado tão bravo.

— H-Hmph... Contanto que entenda.

Zagan nunca pensou que ela fosse se desculpar, então elevou a voz como se tentasse disfarçar sua perplexidade.

Ao mesmo tempo, um certo pensamento lhe ocorreu.

Bem, provavelmente tudo ficará bem se for ela.

Não acreditava nem por um segundo que uma relação de confiança mútua tivesse se desenvolvido em apenas alguns dias, embora sabia que a garota era alguém com quem poderia cooperar.

No mínimo, não fazia sentido que continuasse hostil com Zagan, já que agora entendia os benefícios que obteria ao obedecê-lo.

Assim que Zagan percebeu tudo, ele se virou para Nephy.

— Mais importante, Nephy, estive pensando em levar esta garota comigo e sair um pouco amanhã. Você se importa?

— De forma alguma. Tem algum assunto para tratar?

— Sim. Estava pensando em ir ao castelo de Marchosias... Gostaria de investigar o Palácio do Arquidemônio.

O verdadeiro nome do castelo de Marchosias era desconhecido, mas os feiticeiros o chamavam de “Palácio do Arquidemônio” por reverência.

Ao ouvir esse nome, Valefor se levantou de repente... Porém, devido à sua altura, seu campo de visão ficou ainda mais baixo.

— O antigo castelo do Arquidemônio... Foi o que disse?

— Sim. Já o examinei uma vez, contudo o conhecimento que desejo não estava escrito em nenhum dos livros que trouxe. É por esse motivo que estou voltando.

Zagan estava procurando por qualquer coisa sobre demônios ou o Sigilo do Arquidemônio.

Por mais que eu pense, não há como não encontrar nada depois de toda a minha busca...

Parecia que Marchosias não queria que outros soubessem nada sobre esses assuntos.

Valefor então se pronunciou, como se estivesse em guarda.

— Você está são? Isto seria o mesmo que me conceder o conhecimento do Ancião.

Ancião era o segundo nome de Marchosias. Como o ex-Arquidemônio viveu por mil anos, em algum momento, ganhou esse nome.

Naturalmente, a quantidade de conhecimento que acumulou era colossal. Se eles fossem investigar as coisas por lá, ela seria capaz de pelo menos se esconder e dar uma olhada nos livros o quanto quisesse. Se a dragão Valefor adquirisse mais conhecimento, talvez até conseguisse derrotar Zagan e os outros Arquidemônios.

E, no entanto, Zagan assentiu como se não importasse.

— Acredito que já lhe disse, contudo não tenho problema nenhum com você roubando conhecimento.

O rosto de Valefor ficou cada vez mais contorcido, como se refletisse sua confusão.

— Sou... Sua inimiga, sabia?

— É, agora que mencionou, tem razão. Entretanto dá pra dizer que estou com falta de pessoal. Contanto que me ajude a procurar o que quero, permitirei que faça o que quiser.

Ele a observava nos últimos dias e notou que Valefor não demonstrava nenhuma hostilidade real em relação a Zagan ou Nephy. Portanto, talvez não fosse um problema tê-la como ajudante na busca pelo legado de Marchosias.

Sendo sincero, preferiria ir apenas junto com a Nephy, entretanto... Valefor era uma feiticeira. Além do mais, era uma dragão que poderia possuir conhecimentos que apenas dragões possuíam. Como tal, com certeza seria útil na busca pelo legado de Marchosias.

Além disso, sendo franco, queria que participasse da administração do castelo de Marchosias.

Não achava que seu amigo indesejável, Barbatos, lhe forneceria relatórios adequados, e a amiga de Nephy, Manuela, não era uma feiticeira. Até mesmo sua outra amiga, Chastille, era uma Cavaleira Angelical da igreja.

Foi por isso que queria deixar a administração do castelo para Foll, caso se mostrasse capaz.

Era assim que Zagan valorizava a verdade por trás dos demônios e do Sigilo do Arquidemônio.

Depois de pensar um pouco, Zagan pigarreou com uma tosse e murmurou.

— Para não mencionar que, ser subordinada de um Arquidemônio deve atender bem às suas necessidades. Já está na hora daqueles caras lá fora entenderem que não vale a pena se opor a mim também. É por essa razão que, bem, hmm, como posso dizer...

— Hã...? O que está tentando dizer?

Zagan desviou o olhar e continuou seu discurso enquanto Valefor inclinava a cabeça, intrigada.

— Não importa sua identidade, não deve haver muitos tolos que ousariam te atacar depois de saberem que isto me ofenderia.

Aquilo significava que, assim como Nephy, Valefor ficaria sob o patrocínio de um Arquidemônio.

Na prática, Valefor foi a última a atacá-lo, e nenhum outro intruso apareceu no domínio de Zagan desde então. Pode ter havido pessoas perdidas ou Cavaleiros Angelicais invadindo, mas era provável que não houvesse mais feiticeiros abertamente hostis a sua pessoa.

Bem, se não posso proteger esta garota sozinha, então não há chance de eu proteger Nephy pelo resto da vida dela. Essa era a única razão para sua decisão. Absolutamente não era porque uma jovem que não tinha para onde voltar pesava em sua mente. Se dissesse que essa era sua verdadeira razão, então era só isso.

Mesmo assim, enquanto lançava um olhar fugaz para Valefor, ele notou que ela deixava seu olhar vagar entre Zagan e Nephy como se não pudesse acreditar.

Em pouco tempo, talvez finalmente sentindo que podia confiar nele, Valefor assentiu com timidez.

— Entendido.

— Ótimo.

Enquanto Zagan assentia, Valefor o encarou com descontentamento.

— Porém não sou só “você”, ok?

— Hm? Ah, sobre o seu nome, hein? Entendi, não se preocupe. Venha comigo, Valefor.

Contudo, a boca de Valefor ainda se movia como se tivesse algo difícil a dizer. E, por fim, abriu a boca timidamente para falar.

— Foll... Está ótimo.

Essa foi a primeira vez que Valefor... Não, Foll, chegou a um acordo com Zagan.

Coçando a bochecha, Zagan se corrigiu enquanto falava.

— Ah, ok... Nesse caso, conto com você amanhã... Foll.

— Entendido.

E com isso, Zagan e Nephy foram diminuindo a distância entre eles e seu novo aproveitador aos poucos.



***



— Sério, pensar que ela dormiria assim que terminasse de comer. Uma pirralha dragão não é diferente de uma humana, né?

Zagan colocou Foll na cama do quarto de hóspedes enquanto a insultava.

Foll desmaiou com a colher na mão durante o jantar, enquanto Zagan e Nephy conversavam animadamente. E como não havia outra opção, Zagan acabou tendo que carregar Foll.

Nephy tirou o robe de Foll com habilidade, alisou-o e o colocou em um cabide para garantir que não amassasse.

— Acho que esta criança está bastante cansada. Tenho certeza de que tudo desde que chegou aqui tem sido uma série de primeiras vezes para ela.

Zagan fez uma expressão sombria ao ouvir o comentário de Nephy.

— Entretanto, este é o território inimigo aos olhos dela, certo? Você normalmente dormiria sem essa cautela?

Ele estava apenas repetindo as palavras que a própria Foll usava. Todavia, Nephy balançou a cabeça, com um sorriso cúmplice no rosto.

— Mestre Zagan, não foi você quem a ensinou que não somos inimigos?

— Hã?

As orelhas pontudas de Nephy então tremeram de uma forma um tanto encantadora.

— No começo, é verdade que estava sendo muito cautelosa, e acho que se sentia bastante assustada. Mas agora... Acredito que consiga dormir em paz assim porque sabe que está em um lugar seguro.

Nephy olhou para o rosto de Zagan com um certo constrangimento ao dizer isso.

— Eu também sou... Igual, afinal.

Zagan lembrou-se do primeiro dia em que trouxe Nephy para perto. Deixou o dia passar sem conseguir descobrir como falar direito com a garota que amava. Daquela vez, não conseguiu lhe preparar um quarto a tempo, então os dois dormiram na sala do trono.

Isto significava que Foll enfim havia ficado à vontade em relação a Zagan.

— I-Isto é, hum, bem... Você me pertence. Eu trato o que é meu... Como algo precioso... É só isso.

— Sim. Muito obrigada.

Mesmo que estivesse a tratando como um objeto outra vez, Nephy respondeu com alegria.

Zagan desviou o olhar ao começar a se lembrar do constrangimento que sentira na época, que foi agravado pelo constrangimento dela com o olhar cheio de desejo.

— Nephy, e você? Está tudo bem?

— Como assim?

— Quero dizer, sobre a Foll ficar neste castelo. Não te consultei em momento algum...

E, assim que perguntou, Nephy o encarou com espanto, como se estivesse surpresa com a pergunta. Suas orelhas se enrijeceram, e percebeu que ela estava bastante confusa.

E, por fim, os lábios de Nephy se abriram em um leve sorriso.

— Sim. Tudo como seu coração desejar, Mestre Zagan.

— E-Entendo.

Incapaz de se acalmar, Zagan voltou sua atenção para Foll.

— Meu Deus. Essa garota... Ainda está segurando aquela colher?

Enquanto Foll dormia profundamente, sua mão seguia segurando uma colher. Então, Zagan tentou tirá-la de sua mão. E, naquele exato momento...

— E-Ei...

No que ela estava pensando? Foll apertou o dedo de Zagan com força.

É macio, né?

Era uma sensação diferente da mão fina e quente de Nephy. Uma mão infantil, com uma elasticidade macia.

Depois disso, Foll murmurou algo de forma um tanto solitária.

— Pai...

Devia estar sonhando com seus pais. Foll falou com uma voz delicada, o que tornava impensável que fosse um dragão que pretendia tirar a vida de Zagan.

Zagan não sabia como eram as relações parentais de um dragão, porém parecia que a garota estava se lembrando de seu dragão progenitor. E observando-a falar dormindo daquele jeito, percebeu que era realmente a cópia de uma garotinha.

Eu sou péssimo... Com pirralhas, no entanto...

O próprio Zagan não sabia nada sobre pais. Ou melhor, mesmo tentando agir como um irmão mais velho, a garota acabou se lembrando de seu pai, então ser visto como alguém tão velho o deixou triste.

Contudo, ainda assim, não conseguiu se livrar da pequena mão frágil que segurava seu dedo. E então, em um evento raro, uma risada escapou de Nephy.

— O que foi?

— Não, hmm... É quase como... Se nós tivéssemos uma filha, não é?

Um-um-um-um-uma filha? Provavelmente era diferente da forma como Zagan chamava Foll de pirralha. Não, Nephy queria dizer que era a filha deles, como se Zagan e Nephy fossem os pais.

Mesmo sem termos nos beijado ainda... Uma filha? Esqueça fazer bebês, fico nervoso só de dar as mãos!

Um olhar para os olhos arregalados de Zagan fez Nephy perceber como suas palavras soaram. Num instante, não só seu rosto, como até as pontas de suas orelhas ficaram vermelhas como um pimentão.

— N-Não foi o que eu quis dizer! Hmm, Mestre Zagan, parece que o senhor pretende tomar Foll sob sua proteção, e isso naturalmente me fez pensar nesse tipo de relacionamento, então...

— Ah, hmm... E-Entendi. Compreendo, está bem? Não se preocupe.

Os dois não conseguiam mais se olhar diretamente, e o suor começou a escorrer por seus rostos.

Depois de refletir sobre seus pensamentos por um tempo, Nephy segurou com força a manga de Zagan. E, enquanto Zagan envolvia sua mão com o dedo, Nephy também segurou o dedo dele com timidez.

O que é isso? De alguma forma, é caloroso...

Foll apertando sua mão direita e Nephy apertando a esquerda... A situação parecia estranhamente confortável para ele.

Família... Talvez essa fosse a palavra que Nephy queria dizer. Zagan sabia o que era, mesmo que seu conhecimento fosse apenas algo que havia adquirido através de livros. Era uma palavra que significava o relacionamento entre irmãos, casais e aqueles que os apoiavam.

Entretanto, Zagan e Nephy não sabiam como funcionava na prática. Era por esse motivo que não conseguiam mencionar essa palavra de repente.

A primeira imagem que lhe veio à mente quando a palavra família foi mencionada... Foi a imagem de uma criança de mãos dadas com seus pais. Era algo que não tinha nada a ver com Zagan, mas pelo menos já tinha visto na cidade.

Um dia, também seremos assim?

A palavra feiticeiro era como um sinônimo para vilão. Sendo assim, talvez fosse cômico para alguém que estava no auge de sua posição como um Arquidemônio desejar uma felicidade comum, porém Zagan jurou que isso aconteceria. E então, prometeu que protegeria a todos.

Talvez esse fosse um desejo muito modesto para um Arquidemônio, contudo Zagan sentia afeição pela simples ideia de uma família feliz.



***



Na manhã seguinte, Zagan visitou a cidade de Kianoides com Nephy e Foll a reboque. O Palácio do Arquidemônio estava escondido perto da cidade. Pois o castelo do Ancião era um labirinto subterrâneo.

Contudo, Zagan não se dirigiu de imediato ao Palácio do Arquidemônio e estava caminhando pela cidade.

— Zagan, para onde estamos indo?

— Uma loja de roupas.

— Por quê?

— Pretende andar pela cidade com essa roupa?

Nephy estava vestida com seu uniforme de empregada habitual, o que era ótimo, no entanto Foll usava o mesmo robe de sempre. Ou seja, por baixo, só tinha uma camiseta lisa. E talvez por isso, Foll olhava ao redor inquieta.

Além de que seria melhor esconder seus chifres.

No momento, usava o capuz cobrindo os olhos, de forma que não fossem visíveis, entretanto até o vento poderia levá-lo embora. Teria sido muito melhor dar a ela um gorro ou algo parecido. Ou pelo menos era esse o plano, todavia Foll cerrou os olhos como se estivesse descontente.

— Foi você quem me disse para deixar minha armadura para trás, Zagan.

— Claro que disse. Mesmo com Nephy de uniforme de empregada, qualquer um que passasse por nós fugiria se te visse com aquela armadura!

Nephy tinha um bom relacionamento com os moradores da cidade. Na verdade, havia um bom número de pessoas que conversavam com ela regularmente, então Zagan queria ter certeza de que não as assustaria.

Porém, quem deixou escapar palavras ansiosas foi Nephy.

— Quando diz loja de roupas, quer dizer...?

— Sim, a sua loja é familiar para nós, então não tem problema.

— Acho que Manuela é uma boa pessoa, mas, hmm, quando se trata de roupas... Tem certeza de que vai ficar tudo bem?

Como sempre, a expressão de Nephy não mudou, embora suas orelhas caídas não conseguissem esconder sua ansiedade. E vendo as reações deles, Foll inclinou a cabeça para o lado.

— Uma feiticeira?

— Não, uma pessoa normal. Também é bem gentil.

— Sério...?

Como era de se esperar, as palavras de Nephy minaram seu poder de persuasão. Por causa disso, Foll agarrou a túnica de Zagan como se estivesse com medo. Nephy era muito amiga da vendedora daquela loja de roupas, contudo Manuela era um tanto excêntrica e era recorrente que fizesse Nephy usar roupas como boneca para se entreter. Zagan também se sentia um tanto incomodado com suas ações lascivas, no entanto Manuela era alguém em quem podia confiar quando se tratava da qualidade das roupas.

Sem falar que, conhecendo-a, ela não contaria a ninguém, mesmo que descobrisse que Foll é um dragão. Zagan tinha certeza já que, pelo que observara, Manuela considerava Nephy uma verdadeira amiga.

Zagan se pronunciou, tentando tranquilizar Foll.

— Nem ela faria uma pirralha como essa usar roupas estranhas, certo?

— Eu... Fico me perguntando...

Qual é o sentido se até você está ficando nervosa, Nephy! Vamos, pare! Sua preocupação constante fez até Zagan reconsiderar sua crença na amizade delas.

E com o coração pesado, o grupo em questão chegou à loja de roupas de Manuela.

— Bem-vindos! — uma voz enérgica os cumprimentou assim que abriram a porta. O que os aguardava do outro lado era uma garota-pássaro com lindas asas verdes. Parecia que estava mais uma vez passeando pela loja com um sorriso alegre no rosto.

Sim, eles avistaram a jovem atendente, Manuela. E Nephy curvou a cabeça em sinal de respeito.

— Bom dia, Manuela.

— Então vocês vieram aqui de novo hoje, Nephy?

— Sim... Hmm, viemos aqui para comprar algumas roupas...

— Claro... Er, então o mestre também está aqui, é? — Manuela enfim voltou sua atenção para Zagan, tratando-o como um completo estorvo o tempo todo.

Entretanto, Zagan apenas fez uma careta e começou a interrogá-la.

— Ei, você não andou fazendo a Nephy experimentar nada estranho enquanto não estive por perto, né?

— Nossa, o que te deu essa ideia? Só escolho roupas entre as mercadorias da loja, sabia?

— Esta loja... Tem uma montanha de roupas indecentes espalhadas por aí. — disse Zagan. Então, a encarou enquanto Manuela assobiava e fingia ignorância.

— Pelo amor. Bem, de qualquer forma, não estamos aqui por causa da Nephy desta vez. Gostaria que escolhesse algo adequado para esta garota. — disse Zagan enquanto empurrava Foll para frente.

— Hmm, contratou uma nova empregada na sua casa, Zagan? Deixa eu dar uma olhada... — Manuela murmurou enquanto tirava o capuz de Foll.

Os olhos de Manuela começaram a brilhar transbordando energia quando o cabelo verde e os olhos dourados de Foll foram revelados.

— Oh, minha nossa...! Que fofa.

— Er... — talvez por achar que ela era difícil de lidar, Foll se escondeu atrás de Zagan. Todavia, Manuela segurou seu braço com firmeza.

— Hmm... Sim, esta é mais um diamante bruto... Mas, de um jeito diferente da Nephy! Pode deixar comigo. Vou deixá-la extremamente fofa para você!

— Não a faça usar nada muito estranho, ok?

— Vai ficar tudo bem, confie em mim.

Foll lançou um olhar de angústia para Zagan, porém foi impiedosamente puxada para longe por Manuela.

— Será que... Vai mesmo ficar tudo bem?

— Bem, deve ficar tudo bem, né?

Os dois deixaram seus olhares vagarem enquanto mexiam inquietos nas mangas de suas roupas. Era como se estivessem se despedindo da filha enquanto saia para fazer seu primeiro recado.

E alguns minutos depois, as cortinas do camarim se abriram.

Zagan e Nephy suspiraram de admiração ao verem Foll sair cambaleando. Parecia que estava usando uma roupa que lembrava o traje típico de um país estrangeiro.

Manuela devia ter combinado a cor com o cabelo verde de Foll. Era um conjunto esplêndido que misturava cores suaves com branco e vermelho, e de alguma forma até conseguiu incorporar seus chifres à roupa. E sobre os ombros, levava seu robe.

— Que tal? O robe combina muito bem com essa roupa, não é? Além do mais, realça até seus traços mais fofos.

— Você consegue fazer isso quando se esforça, então por que não se esforça sempre?

Sua escolha de roupas era sem dúvida esplêndida, mas fez Zagan suspirar.

Porém, Manuela balançou a cabeça como se dissesse que ele não entendia.

— Ajudar nossos queridos clientes a descobrir uma nova faceta de si mesmos faz parte do nosso trabalho, sabia?

— Suas escolhas padrão são muito extremas. — dito isto, Zagan voltou sua atenção para Foll.

— Então, acha que combina? Você gostou, Foll?

— Não sei. Roupas humanas... São todas iguais pra mim.

Mesmo com seu comentário, a expressão que fazia enquanto puxava a barra da saia não parecia tão insatisfeita.

— Isso não... Chama muita atenção?

— Não me importo.

Pelo contrário, ele achava que seria melhor se a notícia de que ela acompanhava Zagan se espalhasse por toda parte. Se acontecesse, o número de pessoas dispostas a fazer mal a Foll iria diminuir de forma inevitável.

No mínimo, não havia ninguém que ousasse tocar em Nephy quando estava andando sozinha.

Ainda assim, apesar de tudo, Zagan encontrou algo que o incomodava.

— Não combinaria mais se colocasse um capuz?

Se os seus chifres ficassem expostos, indivíduos que soubessem que Foll era um dragão apareceriam.

Claro, Zagan queria exibir com orgulho que a garota estava sob sua proteção, contudo sabia que seria difícil fazê-lo se sua verdadeira identidade fosse revelada.

O motivo pelo qual Nephy estava bem, apesar de ser uma elfa de cabelos brancos, era porque era amada até mesmo pelos moradores da cidade. Não era necessariamente verdade que Foll se encaixaria na mesma categoria.

E enquanto Zagan fervilhava os nervos com esses pensamentos, Manuela bateu palmas.

— Se está preocupada com isso, que tal este tipo de manto? — depois de dizer isso, ela colocou outro manto nos ombros de Foll. Havia ornamentos escarlates aqui e ali, no entanto era um manto com detalhes em branco neve, e o capuz tinha o formato de uma espécie de caricatura de gato. Por coincidência, os chifres de Foll se encaixaram perfeitamente nas orelhas ocas.


— Entendo. Nada mal. O que acha, Nephy?

— Sim. É bem bonitinha, acho que está ótimo! — disse Nephy, com as pontas das orelhas tremendo de alegria.

— Então está decidido. Vou levar esta.

— Muito obrigada pela sua preferência!

Enquanto removia a etiqueta de preço e outras coisas da roupa de Foll, Manuela fez uma pergunta como se quisesse provocá-los.

— Então, esta criança... Foll, não é? Vocês a adotaram ou o quê?

— Não é bem o caso, mas...

Agora que havia sido mencionado, como Zagan explicaria a situação?

Seria um exagero dizer que era uma feiticeira que atacou seu castelo e que ele decidiu acolhê-la. Embora, Manuela chamar Foll de filha adotiva fosse um tanto estranho à sua maneira.

E enquanto se preocupava com esses pensamentos, Zagan reformulou a pergunta.

— Ah... Hm, é... O que parece para você?

— Bem, sim. Mais do que irmãos, vocês passam a impressão de uma relação de pai e filho... Pronto, terminamos.

Manuela terminou de retirar as etiquetas de preço, ajeitou as partes desarrumadas da saia e se levantou.

Foll então correu até Zagan e se escondeu atrás dele, como se quisesse insinuar que estava com medo.

— Bom, não quero me intrometer muito... Para mim está tudo bem, contanto que não deixe a Nephy infeliz.

— Hmph. Uma decisão sábia.

Na verdade, queria agradecê-la, já que de fato o ajudou, entretanto apenas essas palavras de repreensão saíram da boca de Zagan.

Porém, Manuela também já estava acostumada com seu jeito, então tudo o que fez foi dar um sorriso amargo que não pareceu afetar seu humor.

— Enfim, volte sempre.

— Sim. Muito obrigada, Manuela. — disse Nephy. Logo, curvou a cabeça mais uma vez, o que Foll imitou.

— Obrigada... Eu realmente gostei... Das roupas.

Observar aquela reação fez Manuela abrir um largo sorriso.

— Meu Deus! O que há com essa garota? É super fofa! Posso levá-la para casa? Ah, espera, aqui seria o contrário, né? Poderia deixá-la aqui?

— Gaaah, acalme-se! Ela não é um objeto! Caramba, como se eu fosse entregá-la para você, de todas as pessoas!

Zagan gritou com Manuela, agarrou a mão de Foll e saiu atrapalhado da loja.



***



— Sério, é por isso que ir à sua loja é tão cansativo.

Enquanto Zagan endireitava os ombros e seguia em frente, Nephy falou em um tom um tanto alegre.

— Mesmo assim, acredito que foi a escolha certa escolher a loja da Manuela.

Ao dizer aquilo, Zagan olhou para trás, para Foll, a quem seguia guiando pela mão. Foll ainda caminhava com certa dificuldade, contudo parecia satisfeita com as roupas. No mínimo, não demonstrava nenhum sinal de desgosto, e até parecia sutilmente feliz.

E talvez tendo notado o olhar de Zagan, Foll inclinou a cabeça para o lado.

— O quê?

— Não... Essas roupas... Você gostou?

— Hmm.

Contrariando suas expectativas, a garota acenou em resposta.

— Entendo. Que bom, então.

— Hmm... Obrigada, Zagan.

Ela provavelmente se referia ao preço das roupas. Foll não estava sorrindo, mas falou sem demonstrar qualquer sinal de estar irritada.

Depois disso, Nephy segurou a mão vazia de Foll. E Zagan ficou surpreso ao ver os três alinhados, caminhando com Foll no meio.

Que sentimento é esse...? Talvez pudesse ser descrito como estranhamente caloroso, ou talvez como felicidade. De qualquer forma, sem dúvida não era uma sensação ruim, porém era uma emoção que nunca havia sentido antes.

Seria correto chamá-la de afeição?

Contudo, era um sentimento diferente de quando sentia que Nephy era querida para ele... Era diferente de amor.

Zagan então se lembrou das palavras que Manuela havia usado pouco antes.

Mais do que irmãos, vocês passam a impressão de uma relação de pai e filho... Em outras palavras, esse sentimento seria algo como o “desejo de proteger”. E agora que estava consciente da verdade por trás daquela emoção que crescia em seu coração, Zagan perdeu a compostura.

Ridículo... Eu, de todas as pessoas... Quero proteger uma pirralha como essa? Se alguém como Barbatos ouvisse que tal emoção ainda existia dentro dele, sem dúvida se preocuparia se seguia estando são.

Entretanto, também era verdade que Zagan, que era um vilão na superfície, nunca teve oportunidades de se envolver com crianças.

E enquanto quebrava a cabeça tentando entender aquela sensação vaga que não conseguia descrever com uma palavra, avistou uma garota sozinha caminhando bem à sua frente.

Ela vestia uma blusa de seda e uma saia decorada com renda. Sua figura, enquanto caminhava, exalava elegância. Era uma bela jovem de cabelos ruivos que lhe cobriam as costas até a cintura.

Parecia estar absorta em seus pensamentos, com os olhos baixos e uma expressão melancólica.

Zagan sentiu que seu rosto lhe era familiar, todavia não conseguia se lembrar de quem era de imediato. Nesses últimos dias, suas oportunidades de trocar algumas palavras com as pessoas da cidade haviam aumentado.

Então, apenas presumiu que fosse uma dessas “conhecidas” ao tentar passar por ela, mas a garota pareceu surpresa ao vê-lo.

— Z-Zagan?

Parecia que, de fato, o conhecia.

Até mesmo sua voz é familiar... De quem ela era? Ao inclinar a cabeça para o lado, a garota olhou para Nephy e fez uma expressão de alívio, porém logo se assustou ao avistar Foll entre Zagan e Nephy.

— N-Não acredito... Vocês dois... Já estão próximos a ponto de terem um filho...?

— N-N-N-N-N-Não diga coisas tão vergonhosas! Nephy e eu ainda não, hmm... — ao lançar um olhar fugaz para Nephy, notou que até as orelhas dela estavam vermelhas. E quando seus olhares se encontraram, ambos desviaram o olhar em pânico.

Fico pensando... O que a Nephy acha da ideia?

Até Zagan tinha uma vaga ideia de como as crianças vinham ao mundo. Contudo, quando ela o perguntou “podemos dormir juntos?” antes, não parecia que entendesse o que estava insinuando. Então, será que era certo colocar as mãos na pele macia e clara de uma garota que nem sequer sabia o significado de um encontro noturno?

Enquanto se angustiava com tais pensamentos, Foll, que não conseguia acompanhar a situação, inclinou a cabeça para o lado.

— Zagan, quem é essa?

— Ah, certo, quem é você?

Não importava como olhasse, era uma conhecida, entretanto não conseguia se lembrar quem era. E quando perguntou em um tom suspeito, tanto a garota quanto Nephy ficaram completamente chocadas.

— N-Não acredito... Você nem se lembra de mim?

— Mestre Zagan, é a Chastille!

Lágrimas começaram a se formar nos olhos da garota, e Nephy, meio sem jeito, disse quem era. Ao ver o rosto da garota prestes a chorar, Zagan enfim conseguiu associá-la à “Chastille” de sua memória.

Ele não a reconheceu porque não estava usando sua Armadura Ungida, não tinha sua Espada Sagrada e seu cabelo ruivo estava solto.

Bom, ela parece estar bem. Que ótimo. Era preocupante que não estivesse usando a roupa de uma Cavaleira Angelical, embora pelo menos estava segura.

— Ah, então é você? Escute, Foll, esta garota é... Deixa eu pensar, posso dizer que é uma amiga da Nephy?

— Sim. — observando Nephy retribuir com um único aceno rápido de cabeça, a garota, Chastille, levou a mão ao peito, aliviada.

Chastille havia conquistado os títulos de Arcanja e Donzela da Espada Sagrada. E, como esses dois títulos implicavam, sua aparência habitual era a de uma figura galante, vestida com a Armadura Ungida da igreja, que carregava o fardo de empunhar uma das doze Espadas Sagradas do mundo.

Todavia, parecia que, após remover a camada superficial, ela se reduzia a um estado tão comum.

— Então, hmm, o que há com essa roupa? — quando Zagan perguntou, Chastille hesitou em responder.

— É que... Agora mesmo, estou... De folga.

— O quê? Foi demitida ou algo assim?

— É-É um engano, ouviu? — Chastille ficou sem jeito, como se Zagan tivesse razão.

Feiticeiros e Cavaleiros Angelicais eram inimigos mortais, mas Zagan ainda assim a salvara. E em troca, Chastille havia prometido protegê-lo de dentro da igreja.

Essa simples ideia já era uma falha em seus deveres como Cavaleira Angelical. Portanto, o exílio da igreja não era um cenário tão improvável.

Depois de pensar um pouco, Chastille cruzou os braços e virou o rosto, bufando.

— M-Meus assuntos não lhe dizem respeito, dizem? Mais importante, o que há com essa criança? Eu não o considerava um sequestrador, porém...

Depois de Zagan desviar o olhar, sua mão afagou a cabeça de Foll. O capuz com orelhas de gato balançou, contudo estava bem preso aos seus chifres e não mostrava sinais de que ia se soltar.

— Esta também é uma feiticeira. Quanto ao nosso parentesco, pode imaginar o que quiser.

— H-Hã...? — Chastille fez uma cara de extrema confusão enquanto imaginava algo, no entanto Zagan não se importou. Afinal, enquanto isso acontecia, podia ouvir outra voz vindo de mais longe.

— Senhorita Chastille! É perigoso dar um passeio sozinha!

— Se lhe aprouver, permita-nos ser seus acompanhantes!

Os três Cavaleiros Angelicais sisudos de antes vieram correndo. E quando perceberam a presença de Zagan, bloquearam seu caminho como se estivessem protegendo Chastille.

— Grrr, seu desgraçado, Zagan! O que está fazendo com a senhorita Chastille?

Era difícil até mesmo esquecer essa corja imunda, então Zagan assentiu.

— Ah, são vocês... Os Três... Idiotas do Céu Azul, não é?

— Os Três Cavaleiros do Céu Azul!

— Tanto faz. Não tenho nada a ver com ela... Hm?

Quando estava prestes a expulsá-los, bem ao seu lado, os olhos de Foll brilharam com sede de sangue. E em seu braço... Estavam as garras transformadas de um dragão.

— Pare com isso! — disse Zagan em voz baixa, o que fez o corpo de Foll estremecer de susto.

— Por quê?

— Nephy tem muitos amigos nesta cidade. Se fizermos alguma bagunça aqui, pessoas vão morrer.

Foll fez uma careta de extrema insatisfação com as suas palavras, ainda assim se retirou.

Será que esses três idiotas também têm algum tipo de desentendimento com a Foll?

Observando como eles se tornaram hostis logo ao vê-lo, era fácil imaginar que também poderiam ter se envolvido com outros feiticeiros.

No entanto, os três Cavaleiros Angelicais nem perceberam a sede de sangue de Foll e, como resultado, estavam apenas encarando Zagan. Pensando em sua roupa usual como Aparição Valefor, era compreensível que não conseguissem associá-la à figura atual de Foll.

Percebendo que a situação se complicaria, Zagan acenou com a mão como se quisesse afastar os Cavaleiros Angelicais.

— Se vocês não têm nada para tratar comigo, então sumam daqui. Estou ocupado hoje.

E mesmo que não estivesse, não era nada bom para o feiticeiro Zagan e um bando de Cavaleiros Angelicais conversarem em um lugar tão aberto. Isso não o incomodava muito, entretanto havia uma grande probabilidade de que algo ruim acontecesse com Chastille.

Parece que ela está com algum problema... Ele estava pensando em Chastille. Todavia, mesmo que o Arquidemônio Zagan ajudasse Chastille, a portadora de uma Espada Sagrada, acabaria a prejudicando, não ajudando.

Os três Cavaleiros Angelicais então resmungaram com um “hmph”.

— Não temos palavras para falar com gente como você!

— Vamos, senhorita Chastille. Por favor, pense na sua segurança agora.

— Uh, ah, espere...

Logo após interromperem a conversa, os Cavaleiros Angelicais levaram Chastille embora. Todavia, Zagan não deixou de ouvir as palavras que eles disseram no final.

“Por favor, pense na sua segurança agora.” Parecia que havia se metido em algum tipo de problema mais uma vez.

Nephy devia ter percebido a verdade. Seus olhos estavam cheios de ansiedade enquanto se despedia de Chastille.

— Será que Chastille está bem?

— Quem sabe. Ainda assim, ela parece ser popular. Tem outras pessoas em quem pode confiar.

Se o Arquidemônio Zagan se envolvesse, só pioraria a situação para a garota. Se dissesse que não estava preocupado, estaria mentindo, mas agora estava mais preocupado com a atitude de Foll enquanto encarava as costas dos Cavaleiros Angelicais.

— Deixando isso de lado, Foll. Aqueles caras fizeram alguma coisa com você?

— O que há de estranho... Em uma feiticeira odiar Cavaleiros Angelicais?

— Nada? É totalmente natural.

Pelo visto era algo sobre o qual Foll não queria falar. O braço que transformou havia voltado ao normal, porém ficou evidente que havia se desviado da pergunta.

Aquilo agora... Foi ódio claro e preciso, não foi...?

Era fundamentalmente diferente da hostilidade que demonstrou outro dia, quando atacou o castelo de Zagan. Se tivesse direcionado esse tipo de ódio para Zagan na época, era impossível que tivesse considerado mantê-la por perto.

E, enquanto Zagan dava de ombros, olhou na direção para onde Chastille e os outros foram. Seria bom se isso não se tornasse nada problemático...

Contudo, enquanto Zagan soltava um suspiro, não percebeu que Chastille já estava tentando protegê-lo de “algo problemático”.



***



— Chegamos. Este é o Palácio do Arquidemônio.

O castelo de Marchosias foi construído sobre uma ruína antiga. Pode-se dizer que estavam em um espaço semelhante ao palco do leilão sombrio onde ele conheceu Nephy pela primeira vez.

A maior parte estava enterrada sob a terra, no entanto mesmo essa cavidade subterrânea era vasta o suficiente para eclipsar completamente uma pequena loja, e a superfície da muralha do castelo, que a preenchia por completo, era bastante imponente. E no centro da muralha de pedra havia um portão que dava acesso ao interior do castelo.

Zagan e Nephy já tinham passado por ali antes, entretanto esta foi a primeira vez que Foll presenciava aquilo com seus próprios olhos, então se curvou para trás como se estivesse impressionada.

Por enquanto, não havia sinais de que prolongaria sua discussão sobre os Cavaleiros Angelicais.

— Existe uma estrutura dessas... No subterrâneo?

— Sim. Talvez fosse uma construção que estivesse originalmente na superfície e afundou. Não sei se foi devido a movimentos tectônicos ou à feitiçaria de Marchosias.

O próprio castelo tinha várias centenas de anos, então era difícil procurar vestígios de feitiçaria. Embora, se um castelo inteiro afundasse no solo devido a movimentos tectônicos, deveria haver algum tipo de registro disso em algum lugar. Nesse caso, era provável que fosse fruto da feitiçaria de Marchosias.

Do jeito que Zagan estava agora, não seria capaz de imitá-la. Era um poder aterrorizante.

Se eu insistir em fazer do meu jeito, terei que enfrentar doze desses monstros, não é? Todavia, sabia que eles eram um obstáculo que teria que superar algum dia para permitir que Nephy vivesse em um lugar onde o sol brilhasse. E enquanto refletia sobre esses pensamentos sombrios mais uma vez, Foll murmurou algumas palavras.

— De alguma forma, me dá uma sensação nostálgica.

Zagan a encarou maravilhado.

— Você já esteve aqui antes?

— Não. É que a atmosfera aqui... É de alguma forma familiar ao lugar onde eu costumava morar.

— Tem certeza? — Zagan agachou-se e alinhou-se com o olhar de Foll enquanto lhe fazia a pergunta.

A jovem dragão retribuiu o olhar surpresa, mas assentiu em resposta.

— Sim... Não era um castelo, mas a construção da cavidade é semelhante. Além do mais, o cheiro é o mesmo...

— Por cheiro... Quer dizer...

— O cheiro de mana. Isto é... Provavelmente um lugar onde dragões viveram.

Essas palavras inesperadas chocaram Zagan.

Isso significaria... Que estas são ruínas de dragões?

Se fosse verdade, então aliar-se a Foll tinha sido uma ótima ideia, afinal. Depois de tudo, mesmo sendo jovem, Foll era um dragão.

— Certo. Se encontrar algo relacionado a dragões dentro do castelo, me avise. Não me importo com o quão trivial seja.

— Entendido. Porém... Se encontrar um livro que eu goste, posso lê-lo?

— Não me importo se você os trouxer junto, então deixe a leitura para depois.

— Tudo bem...

Será que ela realmente entendeu?

As bochechas de Foll estavam coradas, e ela parecia feliz de alguma forma. Será que o aroma persistente de seus iguais a havia estimulado?

Ah, então é por isso que deixou de lado o sentimento por aqueles Cavaleiros Angelicais estúpidos, hein? Parecia que esse era o tal curto período de atenção que a maioria das crianças supostamente tem.

Atônito com sua descoberta, Zagan abriu o portão do castelo. E, assim que o fez, uma onda de ar frio, junto com o cheiro de mofo e poeira, os envolveu.

Não havia luzes lá dentro, e uma escuridão pairava no ar, como se conduzisse ao reino dos mortos. E, de alguma forma, mesmo agora, havia uma aura intimidadora no ar, como se a mana do Arquidemônio seguisse estando presente.

Dizia-se que Marchosias não permitia que humanos se aproximassem dele. Os cuidados com sua vida diária eram deixados a cargo de familiares e golens que criava.

Porém, ou eles haviam partido com a morte de Marchosias, ou talvez tivessem desaparecido e retornado aos pedaços de terra de que eram feitos. Como estava, não havia ninguém que conhecesse todos os detalhes deste castelo.

Nephy agarrou-se firmemente ao punho da túnica de Zagan. E Zagan apertou sua mão de forma reconfortante, e então caminhou para dentro do castelo.

Com aquele único passo, um círculo mágico sentiu o retorno de seu mestre e os castiçais ao longo da parede se iluminaram. E como uma ondulação na superfície da água, a escuridão se dissipou. Em contrapartida, o ar intimidador que pairava sobre eles tornou-se mais denso.

— Zagan, o que é aquilo? — Foll apontava para uma grande escultura que parecia observá-los de cima. O outro lado do portão dava para um grande salão, contudo uma estátua que parecia ter sido modelada à imagem de um demônio, imponente sobre todos que entravam, ocupava aquele espaço.

— Hmm... Deve ser um golem ou uma quimera. Algum tipo de ser vivo gerado por feitiçaria, resumindo.

Poderia-se dizer que era um sobrevivente daqueles que administravam este lugar. Embora estivesse petrificado, e Zagan não conseguisse sentir nem sequer um traço de mana nele.

Ao ouvir essa resposta, Foll arregalou os olhos.

— Ser vivo... Então está vivo?

— Parece que sim. Infelizmente, não sei como libertá-lo ou colocá-lo para funcionar.

Como havia uma barreira ao redor da escultura, Zagan percebeu que se tratava de algum tipo de aparato, no entanto ainda não havia identificado sua verdadeira natureza.

— Será que é... O guardião deste lugar? — Nephy inclinou a cabeça para o lado enquanto falava.

— É provável que seja. Parece que suas funções originais se perderam junto com a vida de seu mestre. Seria problemático se enlouquecesse, então não toque.

— O-Ok...

Seguindo Nephy, até mesmo Foll agarrou a manga da túnica de Zagan.

Zagan examinou o salão enquanto sentimentos complexos o faziam suspirar. Avistou a escadaria que levava ao segundo andar, onde uma joia misteriosa estava incrustada. À esquerda e à direita, havia passagens com vários ornamentos alinhados, todos envoltos em feitiços. Até mesmo no chão, havia um círculo mágico com um circuito que Zagan nunca vira antes.

Bastava dizer que ainda não havia compreendido por completo a dimensão daquele castelo. Quantos anos seriam necessários para investigar a verdadeira natureza de todos aqueles dispositivos e compreender todos os detalhes dos livros e aparelhos de feitiçaria?

Como eu imaginava, alguns subordinados seriam bons...

Poderia usar alguns humanos para administrar este lugar e coletar informações em seu nome.

Entretanto, encontrar aqueles que não o trairiam... Ou melhor, feiticeiros que atendessem às suas exigências, era uma tarefa difícil. Foll, de fato, atendia a essas condições, todavia se ela aceitaria tal trabalho era uma questão completamente diferente.

Sem saber o que fazer diante da dificuldade desse problema, Zagan seguiu caminhando em direção aos arquivos. E enquanto caminhava, ouviu Foll o chamar.

— Zagan, e este círculo mágico? — disse a garota, apontando para o círculo mágico desenhado no chão. Era tão grande que, mesmo com passos largos, seriam necessários três ou quatro passos para atravessá-lo. Além disso, era construído com cristais delicadamente incrustados. Era fascinante pensar como a feitiçaria levada ao extremo podia ser tão bela.

— O que tem? — Zagan inclinou a cabeça para o lado, e Foll respondeu como se fosse óbvio.

— Esta é uma fórmula mágica de dragões.

— O quê... Tem certeza?

— Sim.

Ao que parecia, existiam circuitos que eram transmitidos apenas entre dragões. A estrutura desse círculo mágico, como feitiçaria, não era diferente do que ele conhecia, então essa devia ser a diferença.

Tendo sido um Arquidemônio que viveu por mil anos, não era tão estranho que conhecesse as fórmulas mágicas dos dragões. Embora não fosse um poder que pudesse compreender com apenas dezoito anos.

E enquanto Zagan se comovia com aquela nova verdade, Foll o encarou com um olhar de certa forma orgulhoso.

— Relatei tudo direitinho, como você pediu.

Sua postura, ao fazer isso, jamais faria alguém pensar que ela era um dragão imponente. Não, pelo contrário, fez Zagan começar a acariciar sua cabeça sem sequer se dar conta.

— De fato. Que admirável, Foll.

— Heh...

Depois de semicerrar os olhos como se estivesse sentindo cócegas, Foll correu até Nephy.

— Nephy, Zagan me elogiou.

— Que bom para você, Foll.

Depois de ter sua cabeça acariciada com carinho por Nephy também, Foll soltou um suspiro de plena satisfação.

Vendo-a daquele jeito, Zagan sentiu um sentimento semelhante ao seu desejo de proteger Nephy crescer dentro de si.

Não quero admitir, mas será que também me importo com ela...? Ele queria negar a princípio, porém agora que as coisas tinham chegado a esse ponto, não tinha escolha a não ser encarar a realidade. E enquanto estava perplexo com a mudança dentro de si, fez uma pergunta a Foll.

— Escute, Foll. Você sabe que tipo de dispositivo é este?

— Provavelmente... Esconde uma porta ou algo parecido.

Isso significava que era um selo que utilizava a fórmula mágica de um dragão.

E além desse dispositivo... Está a parte principal do castelo, não é? Com ​​essa nova possibilidade, não era de se admirar que não tivesse conseguido encontrar nenhuma informação significativa da última vez.

— Consegue abri-lo?

— Posso tentar... — Foll tocou o círculo mágico e começou a examinar sua estrutura.

E enquanto Zagan a observava atentamente, Nephy se aconchegou ao seu lado.

— O que foi?

— Não, hmm...

Enquanto Zagan inclinava a cabeça, num movimento incomum, Nephy hesitou em falar enquanto sua boca se mexia inquieta. E, como se estivesse tímida com alguma coisa, as pontas de suas orelhas pontudas ficaram tingidas de vermelho vivo.

Depois de um tempo, ela olhou para Zagan com os olhos voltados para cima, como se dissesse para ele descobrir de alguma forma.

Será que eu, um Arquidemônio, estou sendo testado...? Nunca pensou que receberia um teste como esse de Nephy, então ficou estupefato. Atordoado, Zagan começou a pensar freneticamente.

Será que ela... Está me persuadindo ou algo assim? Para Nephy insistir em algo assim por conta própria era muito incomum. Seu desejo era que descobrisse sozinho de alguma forma...

Depois de um curto período, Zagan de repente se lembrou da expressão de plena satisfação de Foll. Quando Zagan e Nephy a elogiaram, a jovem deu um sorriso largo e fácil de entender.

Contudo, eu também tento elogiar Nephy o máximo que posso...

Claro, era difícil para Zagan expressar palavras sinceras de gratidão ou elogio. No entanto, ainda assim estava determinado a expressar seus sentimentos sempre que possível, e também achava que Nephy já tinha percebido isto até certo ponto.

Então, será que é outra coisa? Ele não achou que fosse algo muito diferente da conversa que tivera com Foll.

Pensando um pouco mais, Zagan se lembrou de como Foll semicerrava os olhos, como se estivesse extremamente à vontade.

Entendo... É isto, então!

Por fim, sentiu que havia encontrado a resposta. E com uma expressão tensa, Zagan retribuiu o olhar de Nephy.

— Nephy.

— S-Sim...

— Não... Se mexa, entendeu?

— Hã?

Enquanto Zagan fazia uma careta de tormento, como se tivesse encontrado um inimigo que não tinha esperança de derrotar, Nephy olhou para ele com os olhos bem abertos.

Por fim, Zagan estendeu timidamente a mão em direção ao rosto de Nephy, que engoliu em seco, e tocou seus cabelos macios.

Nephy estava tentando convencê-lo a fazer algo que não conseguia expressar em palavras. E a resposta que Zagan encontrou foi... Acariciar a cabeça de Nephy!

E, de fato, Nephy cerrou os olhos com uma expressão confortável, soltando um suspiro de alívio ao fazê-lo.

Eu também já tive minha cabeça acariciada antes, não é?

Zagan também teve a cabeça acariciada quando usou o colo de Nephy como travesseiro. Entre todas as suas experiências na vida, aquele foi um momento de extrema felicidade. E, entretanto, Zagan nunca retribuiu o gesto. Ver Foll ter a cabeça acariciada com carinho bem diante de seus olhos deve ter deixado Nephy com ciúmes.

Enquanto as pontas das orelhas de Nephy tremiam de satisfação, ela de repente se encostou no corpo de Zagan.

Sabe, esse tipo de coisa... Não é nada ruim.

Esses eram seus pensamentos verdadeiros e honestos naquele momento.

Também notou que Nephy nunca havia demonstrado tais emoções quando estavam a sós. Parecia que algum tipo de desejo havia nascido em Nephy depois que Foll se juntou à família.

Foi uma mudança drástica em comparação com a forma como havia desistido da vida quando se conheceram.

— ...

E enquanto as bochechas de Zagan relaxavam com essa constatação, notou que Foll o encarava com muita atenção, o que os fez se separarem rapidamente.

— O-O que foi, Foll?

— Está aberto...

Havia agora uma abertura ampla que levava a uma escada mais abaixo, à frente da garotinha.

— Hmm, bom trabalho! — disse Zagan, enquanto descia a escada em passos rápidos.



***



Um enorme arquivo surgiu à vista quando chegaram ao pé da escadaria. O teto se estendia até o andar de cima, e estantes e outros objetos se alinhavam até onde a vista alcançava.

Em uma estimativa aproximada, era provável que houvesse dezenas de milhares de livros. Era certo que levaria mais de uma década para ler todos. E entre os tomos empoeirados, havia muitos que pareciam bastante antigos, e até mesmo alguns que pareciam feitos à mão.

Eram os livros que Marchosias havia passado mil anos colecionando.

Depois de absorver tudo, Zagan voltou sua atenção para Foll.

— Muito bem, Foll. Parece que este é o verdadeiro núcleo do castelo.

Se eles procurassem ao redor, poderiam ter encontrado outras passagens secretas, mas uma fórmula mágica de dragão era usada como selo no salão de entrada. Além disso, estava colocada de uma maneira que chamava a atenção. Sua frequência de uso era alta, e junto a isso a probabilidade de ser um lugar extremamente importante também era alta.

Após refletir sobre esses assuntos, Zagan se virou para encarar Nephy e Foll.

— Coletem todos os livros que descrevem qualquer coisa relacionada a demônios ou ao Sigilo do Arquidemônio.

Mesmo que não chegassem ao cerne da questão, contanto que reunisse circuitos relacionados a eles, em algum ponto conseguiria ter uma visão completa. Afinal, um feiticeiro sempre podia chegar ao âmago de uma questão por meio de pesquisa adequada.

Nephy então levantou a barra da saia e se curvou.

— Certamente, como quiser.

Zagan havia lhe ensinado tudo o que era necessário na última visita. Como esta era a segunda vez, ela já estava acostumada a avaliar um livro com base no título e no sumário. E ao seu lado, Foll olhou para Zagan como se estivesse antecipando algo.

— Bem, não me importo se você trouxer de volta qualquer livro que encontrar e que lhe interesse.

— Entendido! — depois que Foll disse isso e assentiu, cada um seguiu em direções opostas.

Por ora, Zagan começou examinando as prateleiras que estavam agrupadas.

Com um arquivo dessa magnitude, parece possível que haja ainda mais escadas escondidas ou algo do tipo...

Por exemplo, manipular um livro em uma prateleira poderia revelar uma área oculta. Esse tipo de configuração era bastante comum em esconderijos de feiticeiros.

O arquivo de Marchosias era vasto em circunstâncias normais, então Zagan não tinha certeza nem por onde começar.

Enquanto caminhava pelas prateleiras, examinando os títulos nas lombadas, se deparou com Foll. Parecia que estava procurando na mesma estante, do outro lado.

Olhando para o rosto de Zagan, Foll inclinou a cabeça para o lado.

— Zagan, você parece feliz.

— É tão óbvio assim?

— É sim.

Zagan tocou o próprio rosto ao ouvir as palavras dela. Não sabia se estava de fato sorrindo ou não, porém o comentário o fez perceber que talvez estivesse de bom humor.

— Bem, quero dizer, tenho tantos livros à minha disposição agora. Por que não estaria feliz?

— Eu entendo. — inesperadamente, Foll concordou. — Eu não odeio... Ler livros.

— Entendo... — Zagan tentou imaginar a cena daquela garotinha carregando um livro pesado enquanto cambaleava. Ele não era Manuela, contudo seu rosto se iluminou instintivamente com o pensamento. E em resposta a isso, Foll o questionou mais uma vez em um tom curioso.

— Zagan, você consegue ler os corações dos outros?

— Hmm...? Quem sabe... Talvez...

Sem entender o significado da pergunta, Zagan respondeu como se estivesse se esquivando, e, do outro lado, Foll voltou a encará-lo com seriedade.

— Zagan, você conseguiu perceber o que a Nephy queria... Sem que nenhum de vocês precisasse falar nada.

Ela estava se referindo à quando Zagan acariciou a cabeça de Nephy mais cedo. No entanto, ouvir aquilo dito de forma tão direta fez Zagan querer morrer de vergonha. Então, coçou a ponta do nariz, como se estivesse tentando se distrair.

— Nephy sempre parece saber tudo o que eu quero e preciso. Se não a entendesse ao menos um pouco, perderia a minha reputação.

Mesmo tendo-a magoado e expulsado de casa uma vez, Nephy percebeu seus verdadeiros sentimentos e decidiu voltar para o seu lado. Era por essa razão que queria retribuir o gesto.

E depois de deixar suas intenções claras, Foll baixou o olhar, com um ar um tanto solitário.

— Estou com um pouco... De ciúmes.

Ao ouvir aquilo, Zagan franziu as sobrancelhas, desconfiado.

— Por que está falando como se fosse problema de outra pessoa?

— Hã, o quê...?

— Não sei quanto tempo os dragões vivem, entretanto Marchosias sobreviveu por mil anos.

Foll olhou para Zagan sem expressão, como se não entendesse suas palavras. Então, ele disse o seguinte, desviando o olhar.

— Com mil anos, podemos pelo menos chegar ao ponto de sentir essas coisas sem trocar palavras, certo?

Claro, ele também tinha Nephy ao seu lado, então estava com pressa para reunir conhecimento a fim de permitir que ela vivesse o máximo possível desses anos com a maior liberdade possível.

Em resposta, Foll fez uma careta como se não pudesse acreditar em suas palavras.

— Você... Vai ficar... Comigo...?

— Não pretendo interferir nas suas escolhas, então depende de você.

— Vou ficar aqui! — respondeu Foll, agarrando-se ao braço de Zagan.

Esse tipo de afeto... Não é da minha natureza... Mesmo assim, ele, a contragosto, acariciou a cabeça de Foll.

Isso continuou por um tempo, até que Zagan percebeu que não podia ficar assim para sempre. E enquanto continuava a vasculhar o arquivo com Foll agarrada ao seu braço, ela de repente ergueu o rosto.

— Isso é...? — ela puxou um único livro da estante enquanto pronunciava essa palavra. E seu rosto tornou agressivo.

O título era “As Doze Espadas Sagradas”. As Espadas Sagradas eram as inimigas naturais dos feiticeiros. Parecia ser um livro que compilava informações sobre elas, mas... Enquanto Foll começava a folhear as páginas do livro, Zagan exclamou um “Ah”.

— Me empreste esse livro por um instante.

— Grrr... — embora Foll resmungasse e o encarasse com raiva, Zagan não tinha tempo para se preocupar com tais assuntos.

Reproduções das letras gravadas nas Espadas Sagradas cobriam as páginas. E enquanto as observava, Zagan baixou os olhos para a sua mão direita.

Eu estava certo! Comparando visualmente, o Sigilo do Arquidemônio apresentava características semelhantes aos brasões gravados nas Espadas Sagradas.

Não bastava dizer que se assemelhavam. Porém, se fossem letras, então havia muitas partes em comum entre elas. Em resumo, parecia que advinham da mesma origem cultural.

Como as semelhanças eram tão pequenas, nem sequer lhe chamou a atenção quando reencontrou Chastille. Contudo também houvesse o fato de que ela não estava carregando sua Espada Sagrada antes.

No entanto, ao comparar com um registro como este, estava confiante em sua observação.

Em outras palavras, se eu investigar as Espadas Sagradas, também descobrirei mais sobre o Sigilo do Arquidemônio.

Se fossem brasões do mesmo sistema, então conhecer um lhe permitiria entender o outro.

Ao concluir suas hipóteses, Zagan fechou o livro com um estalo e o devolveu a Foll.

— Muito bem, Foll. Agora, vá reunir todos os livros relacionados às Espadas Sagradas. Também vou dar uma olhada.

— Hum, ok...!

Foll provavelmente estava interessada nas Espadas Sagradas por causa de seu desprezo pelos Cavaleiros Angelicais. Ainda assim, sua voz estava carregada de expectativa e alegria.

Depois de passar essa ordem para Nephy, os três saíram em busca de livros e conseguiram encontrar vários tomos relacionados às Espadas Sagradas.

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