domingo, 21 de junho de 2026

Vampire Hunter D — Volume 04: Tale of the Dead Town — Capítulo 23

Volume 04: Tale of the Dead Town Capítulo 23: Os Moradores da Cidade

Parte 1

A noite caiu e as nuvens apareceram, formas rodopiantes levadas pelo vento. A luz da lua se apagou.

Este dia... Ou, para ser mais preciso, esta noite... Era totalmente sem precedentes para a cidade. Em quaisquer outros dias as ruas estariam cheias de foliões. Relaxando após um árduo dia de trabalho, homens com rostos ruborizados estariam discutindo em bares onde as luzes brilhavam a noite toda e o zumbido do órgão elétrico nunca cessava. Mulheres estariam reclamando de suas tarefas diárias enquanto crianças corriam pelas ruas com fogos de artifício recém-adquiridos nas mãos. Mas esta noite, as persianas estavam fechadas diante das portas dos bares, e apenas o vento dançava pelas ruas. De vez em quando, alguém passava, porém eram policiais voluntários com rostos sombrios. As janelas de todas as casas estavam bem fechadas, e homens se alinhavam com armas e estacas afiadas. Talvez, pela primeira vez, esta cidade teve que lidar com o tipo de demônio descontrolado tão familiar para aqueles no mundo de baixo.

Assim que Laura adormeceu, o prefeito chamou D.

— Agora depende de você. — e dizendo apenas isso, saiu.

Encostando na poltrona que lhe haviam fornecido na parede, D sentou-se para esperar. Eram onze horas da noite. Um dos horários mais comuns para a nobreza fazer uma visita. A jovem na cama respirava tranquilamente enquanto dormia. Contudo, embora sua respiração parecesse serena o suficiente, D ouviu outro som por cima. Sua respiração era um pouco mais longa e profunda do que a de pessoas comuns. Quando expirava, sua respiração soava mais como um suspiro.

Se o nobre que atacara a garota vivia apenas à noite, então as chances eram bastante altas de que não soubesse que D estava ali. Não importava quem estivesse guardando a jovem, com certeza não seriam páreo para o poder de um nobre. Era justo esse tipo de autoconfiança que levava a erros. E todos os Caçadores de Vampiros consideravam essa sensação de segurança a chave para destruir a Nobreza.

Uma hora se passou, e depois duas, sem nada fora do comum. Tanto D quanto a garota pareciam estátuas, imóveis. D estava com os olhos abertos.

À uma da manhã, ouviu-se um som de batidas do lado de fora da janela. Os olhos de Laura se abriram de repente. Um sorriso malicioso de prazer surgiu em seus lábios, e uma luz vermelha brilhou de seus olhos recém-abertos. Como se estivesse verificando como a haviam deixado, ela olhou para cima, depois para os lados. Quando seus olhos encontraram D, pararam de repente.

Maldito intruso, pareciam dizer.

Aqueles que conheceram o êxtase em seu sangue não fugiram dele... Pelo contrário, estavam condenados a se afogar neste. Independente do que pensasse do Caçador de Vampiros sentado ali com os olhos fechados, depois de observá-lo por um tempo, Laura voltou seu olhar para além da janela.

— Quem está aí? — perguntou a garota, com um tom de deboche. Dirigiu a pergunta ao espaço completamente escuro.

Uma risada fraca veio da escuridão. Uma voz que apenas os ouvidos humanos mais próximos poderiam ouvir disse.

— Estou entrando.

— Você não pode! — sussurrou em resposta. — Há um Caçador aqui dentro.

— Não preciso temer alguém como ele. Nem mesmo seu pai pode me tocar agora.

— No entanto ele não é como as outras pessoas. — disse Laura com voz suave. — Há algo diferente neste.

— Não seja ridícula.

Algo que parecia uma mancha preta começou a fluir pela janela enquanto a garota observava. Diante dos olhos de Laura, a mancha se acumulou no chão, tomou forma humana e se tornou uma pessoa de carne e osso. Este vampiro era dotado de um dos poderes lendários... O de entrar em cômodos como uma névoa. Sua visão ali, com uma camiseta laranja e jeans amassados, teria feito a maior parte da Nobreza estremecer. Ainda jovem, era um homem de porte atlético. Todavia, todo o seu corpo estava sutilmente distorcido, parecendo uma figura humana moldada pelas mãos de uma criança...

Olhando primeiro para Laura, o vampiro voltou seu olhar para D.

Dormindo, talvez, D manteve o rosto abaixado e não se moveu. Os olhos do vampiro começaram a brilhar com intensidade. Uma luz vermelha tingiu a forma de D com um tom carmesim. Logo, a luz se dissipou de novo.

— Isso vai mantê-lo dormindo. — disse o intruso. — Assim como aconteceu com os outros. Ele nem vai se lembrar de mim.

— Oh, por favor, se apresse. Venha até mim... — Laura se contorceu sob os cobertores. — Eu quero o seu beijo. Eu... Preciso...

— Eu sei. — os lábios do vampiro se curvaram em um sorriso. Embora seus dentes fossem sujos e tortos, seus caninos eram particularmente impressionantes. Eles se inclinavam para a frente. Quando se inclinou aos poucos sobre a garota, cujos olhos estavam fechados em êxtase, o ar no quarto ficou indizivelmente frio. E o frio emanava de um ponto em particular. O intruso olhou por cima do ombro, incrédulo. — Seu desgraçado! — rosnou. — Quer dizer que meu olhar não o afetou nem um pouco?

D se levantou sem dizer uma palavra.

Assim que estava prestes a se lançar sobre o Caçador, o intruso se enrijeceu. Seu rosto, já pálido, perdeu ainda mais a cor. A aura de D o atingira.

Se me mexer, estarei morto, foi o que pensou.

— Há mais alguém da sua espécie por perto? Antes de responder, é melhor me dizer seu nome. — ordenou D em um tom de voz suave. Apesar da calma em sua voz, havia um tom de aço que indicava que nenhuma resistência seria tolerada. — Responda. Qual é o seu nome? E é o único aqui?

— Não, não sou... — respondeu o intruso.

— Quantos outros existem?

— Um.

— Qual é o seu nome e qual é o dele?

O intruso começou a tremer. Cada centímetro do seu corpo tremia, como se estivesse lutando contra a ameaça que o aprisionava.

— Não precisa me dizer. — disse D. — Se verificar seu nome nas listas de moradores, descobrirei quem é. Saia.

O homem assentiu. Com lentos passos, caminhou até a porta de entrada. D o seguiu. Algo prendeu de leve o casaco do Caçador. A mão pálida de Laura. Muito provavelmente, a ação foi apenas um reflexo, e não uma tentativa de salvar o intruso. Porém, a atenção de D foi desviada por uma fração de segundo, e o feitiço que tinha sobre o outro homem se quebrou. O corpo do intruso perdeu a forma. Sem perder tempo, a névoa correu para o buraco da fechadura da porta como uma nuvem negra e a atravessou em um único fluxo.

A mão direita de D entrou em ação. Um clarão tão brilhante quanto a lua passou por cima de seu ombro direito, e o intruso, que supostamente estava em segurança do outro lado da porta, soltou um grito de agonia mortal. A expressão de D sequer mudou. Abrindo a porta, espiou além dela, para a sala de estar do prefeito.

À sua frente estava o intruso, agora inclinado para trás. Uma ponta de madeira afiada saía do lado esquerdo de suas costas. Da cintura para baixo, o homem permanecia em sua condição nebulosa. Com um gemido profundo, o intruso caiu no chão, ambas as mãos agarrando a própria garganta. Parecia que a névoa era sua verdadeira forma. Seu corpo caído logo se cobriu de uma tonalidade negra e se enrolou no chão com um som farfalhante.

— O que pensa que está fazendo? — o tom calmo de D carregava um ar sobrenatural.

— Nada, só estava... — gaguejou o Dr. Tsurugi, balançando a cabeça. — Ouvi um som estranho e congelei no lugar, tentando descobrir o que deveria fazer, quando de repente... Nossos olhares se encontraram, e então acabei entrando em pânico e o atravessei com a espada.

Sem dizer uma palavra, D apenas olhou para os pedaços de névoa se espalhando pelo chão e para a estaca pingando sangue negro.

— Como entrou aqui? — perguntou o Caçador. Sua voz era muito mais aterrorizante do que qualquer tom exaltado poderia ter sido.

— Entrei sorrateiramente. — disse o Dr. Tsurugi, dando um tapinha no saco que carregava no ombro. Houve um estrondo alto que sugeria que ele continha um martelo e estacas. — Mas agora está tudo resolvido, certo?

— Parece que temos dois inimigos. — alheio às mudanças que aquelas palavras causaram na expressão do médico, o Caçador continuou. — Um pode ter ido embora agora, contudo não sabemos o paradeiro do outro. Tem certeza de que não houve outras vítimas? Nenhuma?

O Dr. Tsurugi assentiu.

— A garota já deve ter voltado ao normal. — disse D. — Vá ver como está.

— Claro! — respondeu o jovem médico, e estava prestes a acenar com a cabeça. Então, seus olhos pararam nas pernas do cadáver que havia sido reduzido a pó. Havia um espaço de uma fração de polegada logo abaixo dos joelhos. — Parece que... Você o cortou, não foi?

Sem responder, D agachou-se junto aos restos empoeirados. No momento em que teve certeza de que o Dr. Tsurugi havia passado pela porta, o Caçador estendeu a mão esquerda sobre a poeira.

— E então? — perguntou.

— Ah, essa é difícil. — respondeu uma voz rouca. — A memória foi completamente apagada das células. No entanto, bem, acho que você já sabe que esse cara não foi feito para servir a nenhum nobre. — a voz estava sugerindo, então, que esse vampiro havia surgido espontaneamente?

Sem nenhuma surpresa, D assentiu.

— Entretanto aqueles que não são da nobreza não se transformam em nobres por conta própria.

— O que significaria que alguém teve que transformá-lo assim. — sugeriu a voz. — O que temos aqui é uma imitação de vampiro. A questão é: quem o criou?

D não respondeu.

— Pensando bem, eles mencionaram algo sobre deixar alguém entrar na cidade dois séculos atrás. Poderia ser ele de novo... — ponderou a voz rouca. — Mesmo assim, tudo é muito estranho. Pelo que o prefeito disse e pela forma como os moradores têm agido, não parece que tenha havido qualquer alvoroço por causa de vampiros antes. Então, esses carinhas aparecem de repente duzentos anos depois? Não tem como o visitante misterioso ainda estar na cidade depois de todo esse tempo. O que acha?

Endireitando-se, D dirigiu-se ao quarto do prefeito.

— Há outro lá fora. — falou. — É tudo o que sei.

Quando o Caçador bateu à porta, o prefeito colocou a cabeça para fora como se estivesse esperando pela sua chamada.

— O que foi? — perguntou.

— Já foi neutralizado.

— Minha filha foi salva?

— Pergunte ao médico sobre isso.

Assim que o rosto atordoado do prefeito se voltou para o quarto da filha, o Dr. Tsurugi apareceu. Ao ver o prefeito, deu um sorriso satisfeito. Os ombros do prefeito caíram e um suspiro profundo escapou de seus lábios.

— Posso vê-la?

Sem dizer uma palavra, D deu um passo para o lado. O prefeito desapareceu no quarto da filha.

— Incrível, não é? — enquanto D se dirigia para a porta da frente, o comentário estranho o seguiu. Não era elogioso nem sarcástico, mas o tom era quase de desafio. — Essa coisa deixou todo mundo tremendo de medo, porém você vem aqui e tudo se resolve num instante... Embora tenha sido eu quem cravou a fatídica estaca no seu coração.

— Sim, foi.

D se virou.

Uma determinação estranhamente firme, ou algo parecido, adornava o rosto do jovem médico. Era uma emoção incomum, uma que ninguém jamais havia demonstrado a D.

O prefeito saiu logo depois do quarto da filha. Um sorriso se espalhou por seu rosto e declarou.

— Os ferimentos na garganta dela desapareceram e está dormindo em paz. E tudo graças a você, D!

— Com licença, fui eu quem acabou com o vampiro.

Com um olhar atônito, o prefeito se virou de D para o Dr. Tsurugi e vice-versa.

— O doutor tem razão. — disse D. — Não servi para nada.

— Não seja ridículo! — retrucou o Dr. Tsurugi veementemente. — Prefeito, este cavalheiro não só impediu que o vampiro sorrateiro encostasse um dedo em sua filha, como também conseguiu expulsá-lo do quarto. Eu apenas estava no lugar certo na hora certa. Se houver alguma recompensa a ser paga, nós a dividiremos.

— Fique à vontade. — disse D, parecendo um tanto surpreso.

Seu tom era estranhamente amigável. Talvez estivesse perplexo com os acontecimentos.

— Gostaria que viesse ao meu quarto... — disse o prefeito com um sorriso. — Você receberá sua remuneração. Nós o acomodaremos onde quiser na cidade. E se decidir ficar conosco permanentemente, também não haverá problema.

— Ainda não podemos fazer isso. — no clima de confiança jubilosa do momento, as palavras do Caçador pairaram como gelo. — Há outro por aí.

— O quê? — o prefeito começou a dizer, contudo sua boca ficou apenas aberta. — Impossível!

— Não. Ele disse que havia dois. Acredito que não estava mentindo.

— Mas... — o prefeito balbuciou. — Veja bem, até agora não houve nenhuma vítima além da minha Laura.

D se virou para o médico. Compreendendo o tom da pergunta apenas com aquele olhar, o médico balançou a cabeça.

— Ninguém veio escondido ao meu hospital para tratamento.

— Quando foi o último exame médico de rotina da cidade?

— Há uma semana. Houve alguns resfriados e problemas crônicos leves, no entanto nada fora do comum. Ninguém faltou aos exames médicos. Posso garantir.

— A última vez que a filha dele foi atacada foi há três dias. E depois disso?

— Não posso garantir por ninguém depois disso.

Soltando um suspiro profundo, o prefeito levou o punho à testa.

— Que bela confusão temos aqui. Um problema resolvido e outro surge para ocupar o seu lugar. Agora ficamos sabendo que nossa cidade... Uma cidade onde nossos inimigos do mundo exterior nem conseguem entrar... Foi invadida não por um, e sim por duas aberrações imundas.

— Só dois, se tivermos sorte. — disse o Dr. Tsurugi, com a expressão visivelmente alterada. — Você acabou de descobrir sobre sua filha, todavia pode haver outras vítimas que foram mordidas sem que ninguém percebesse. Elas podem ainda não ter se transformado em vampiros. Em alguns casos, suas famílias também podem mantê-las escondidas.

— É uma possibilidade. — disse D, assentindo com a cabeça.

Embora os humanos temessem a Nobreza até a medula, o amor que sentiam por sua própria carne e sangue às vezes prevalecia sobre o terror quando um membro da família se tornava um morto-vivo. Muitas eram as famílias que viam seus filhos emagrecerem e ficarem mais pálidos a cada noite e achavam melhor escondê-los em algum cômodo nos fundos da casa do que deixá-los fugir da vila. Isto costumava acontecer quando uma família inteira se tornava discípula das trevas dos vampiros. O amor não hesita em flertar com a morte. Quando as presas da própria criança que eles arriscaram a vida para defender pressionaram friamente sua artéria carótida, foi um sentimento de remorso que passou pelo coração da mãe ou do pai? Ou foi satisfação?

— Suponho que seria melhor não informarmos a ninguém que um vampiro foi eliminado? — perguntou o prefeito.

Tanto D quanto o Dr. Tsurugi assentiram.

— Pode soar um pouco estranho... — começou o médico. — Entretanto vocês terão que impedir Laura de sair de casa. Queremos que as pessoas da cidade acreditem que este incidente não foi resolvido... Porque, de fato, não foi. O Sr. D e eu podemos cuidar da busca.

D assumiu uma expressão incomum. O homem de jaleco branco parecia determinado a comandar a situação. O problema era que ele realmente não parecia ser do tipo autoritário. Era quase como se a presença de D despertasse essa característica em seu comportamento.

— Na verdade... — começou o prefeito, esticando o pescoço desconfortavelmente. — Esse é um trabalho para a polícia. Terei que informá-los a respeito.

— Como eles não conseguiram realizar nada até agora... — respondeu D. — Não imagino que serão de muita utilidade no futuro. Deixe tudo comigo. E tente convencer o bom doutor a se acalmar também.

— Entendido. Dr. Tsurugi, gostaria que o senhor permanecesse em silêncio sobre este incidente e se mantivesse fora da investigação. Essas são as minhas ordens como prefeito.

— Porém... — começou o Dr. Tsurugi, indignado, antes de se conter. — Muito bem, senhor. Por mais decepcionante que seja, me absterei de participar do trabalho do Sr. D. E agora, se me dão licença. — despedindo-se dos dois em voz alta, o jovem médico endireitou os ombros robustos e desapareceu na escuridão lá fora.

— Mais um? — murmurou o prefeito, com a voz muito cansada.

— Mais um... E temos que esperar até que faça outra vítima. — murmurou D. — O médico deve ter visto o rosto do vampiro. Embora não disse nada em particular a respeito.

— Quer dizer se era alguém da cidade?

Ignorando a pergunta, D disse.

— Quando foi a última vez que vocês tiveram uma morte ou um desaparecimento?

Com os olhos semicerrados, o prefeito respondeu.

— A última morte foi há dois anos, o desaparecimento foi há três ou quatro meses. A causa exata não é conhecida, contudo o mais provável é que a pessoa se embriagou e caiu da cidade. Vou fazer uma lista com nomes e endereços.

D assentiu.



Parte 2

Na manhã seguinte, bateram com força na porta do alojamento designado a D, causando um alvoroço considerável.

— Está aberto. — respondeu uma voz baixa, contudo quem quer que tivesse batido não fez qualquer tentativa de abrir a porta. — O que foi? — perguntou o Caçador.

— Hmm, são o prefeito e o Dr. Tsurugi. Eles querem que você venha agora. Alguém está doente. Venha para o Bloco A do setor industrial.

Após essas palavras carregadas de medo, o som de passos furtivos foi se afastando.

Levantando-se de sua cama simples de palha sem dizer uma palavra, D fez os preparativos necessários. Claro, esses preparativos consistiam simplesmente em amarrar sua espada longa às costas.



O sol já estava alto. As pessoas na rua observavam aterrorizadas enquanto D passava, seu passo suave como o vento. O setor industrial ficava nos arredores da cidade. Consistia em três blocos colossais de edifícios enfileirados. Além da energia propriamente dita usada para manter a cidade funcionando, tudo o que precisavam para o seu dia a dia era produzido nos blocos industriais. Era a linha de vida da cidade, por assim dizer.

Sem precisar ver as marcações do Bloco A nas portas, D foi guiado até lá pela atmosfera sobrenatural. Algumas pessoas estavam paradas na entrada de uma cúpula semicilíndrica. O prefeito e o médico estavam entre elas. E, claro, o xerife, com o lançador de foguetes prateado debaixo do braço. Alguns homens, talvez policiais, estavam empurrando uma multidão para impedir que se aproximassem mais. Conforme D se aproximava, a massa de pessoas se abriu, criando um caminho para ele. Olhares repletos de fadiga, espanto e ódio saudaram o Caçador.

Aos pés do prefeito jazia um homem. Um lençol branco impermeável o envolvia. Mantendo-se em silêncio, D se ajoelhou e levantou o lençol. Debaixo deste estava um homem de meia-idade, por volta dos quarenta anos. Com os olhos arregalados e os lábios cerrados, suas feições eram um testemunho detalhado de um momento tão horrível que sequer conseguiu gritar.

— Qual é a história? — perguntou D em voz baixa.

— Como se eu precisasse te contar. — respondeu o xerife com desdém. — Não sobrou uma gota de sangue no corpo. Um dos seus amigos deve tê-lo sugado até a última gota.

— Não parece ser o caso. — disse D, virando-se para o Dr. Tsurugi.

O médico assentiu.

— De fato, todo o sangue sumiu do corpo. No entanto, não há sinais de mordida.

— Examine-o bem e encontrará uma mordida, com certeza. — disse o xerife. — De qualquer forma, agora temos mais uma vítima. Se vocês continuarem confiando em algum palhaço desconhecido que só aparece debaixo da terra, vamos ter mais alguns problemas por aqui também. Prefeito, acho que já passou da hora de deixar meu gabinete cuidar desse assunto. Deixe conosco. Em setenta e duas horas, vamos expulsar esse maluco e nos livrar de todos que foram mordidos.

O rosto do Prefeito Ming estava contorcido de angústia.

— Embora os sinais sejam os mesmos. — disse D. — Isso não é obra da Nobreza, nem mesmo de uma de suas vítimas. Vocês não encontrarão nenhuma marca nele. Meu palpite é...

O Dr. Tsurugi já estava concordando com a cabeça.

— Isto pode muito bem ser algum tipo de doença nova.

— O quê? Agora eu sei que vocês dois bastardos estão em conluio! — berrou o xerife.

— Gostaria de mais três dias. — disse D. — Se eu não tiver encontrado seu inimigo até lá, irei embora da cidade.

— Você deve estar fora de si...

— Ótimo! — disse o prefeito, interrompendo o xerife. — Nos próximos três dias, a busca pelo vampiro estará inteiramente nas mãos do Sr. D, xerife, o senhor não deve interferir seu trabalho de forma alguma.

Apesar de seu rosto inteiro estar vermelho como um pimentão, o xerife se conteve.

— Uma decisão sábia. — disse o Dr. Tsurugi, de costas para o gigantesco policial.

— Seu pequeno bastardo... — rosnou o xerife, agarrando o ombro do médico com seus dedos carnudos. E então algo se enrolou no pulso do policial. O braço do prefeito.

— Xerife! — disse o prefeito para o rosto de ferocidade desmedida que o saudou. Apenas uma palavra. O rubor de excitação sumiu do rosto do xerife em questão de segundos.

— Certo. Você é o prefeito. O que diz, é lei. Entretanto ele só tem três dias. E durante esse tempo, não vai receber nenhuma ajuda nossa. Terá que fazer todos os interrogatórios e todas as investigações sozinho. E vou te dizer uma coisa... Esta cidade é bem grande.

E então ele saiu, com seus homens logo atrás.

— Bem, então, sobre este corpo... — disse o Dr. Tsurugi, esfregando a pálpebra. — Devemos levá-lo para o necrotério ou de volta para o hospital? De minha parte, adoraria ter a chance de dissecá-lo. Ele não tinha família, correto?

O prefeito assentiu.

— Certo, vamos levá-lo de volta para o hospital por enquanto. Não podemos descartar a possibilidade de ser algum tipo de doença.

Por ordem do prefeito, dois moradores foram escolhidos e, um em cada extremidade de uma maca, carregaram o corpo na garupa da motocicleta do hospital estacionada ali perto.

— Bem, então, vou indo na frente.

O jovem médico partiu, deixando apenas o ronco de um motor em seu rastro. Isso deixou apenas D e o prefeito. Uma rajada de vento forte os envolveu. Talvez fosse um vendaval que soprava da luz para a escuridão. Ou talvez fosse outra coisa.

— E então? — perguntou o prefeito sucintamente. — Acha que pode ser alguma doença?

D não respondeu. Provavelmente, era a primeira vez que encontrava um cadáver sem sangue, todavia sem nenhuma marca.

— Não sei ao certo. Precisamos que o Dr. Tsurugi se apresse com essa análise. Dependendo de como a situação se desenrolar, pode ser necessário que desenvolva uma vacina. Se for esse o caso, precisará fazê-lo o quanto antes.

— Quer dizer que acha que é uma doença, afinal...

Gotas de suor oleoso brotaram na testa do prefeito.



Sentada abaixo de um raio de sol que entrava pela janela, a garota ponderava sobre o destino que a aguardava. Não conseguia falar nem ouvir. O Dr. Tsurugi havia lhe dito a verdade sem rodeios. E se sentia como se tivesse mergulhado direto no inferno. Seria forçada a viver em um mundo desprovido de qualquer som, onde não poderia expressar um único pensamento a menos que tivesse uma caneta na mão. O médico tentara consolá-la dizendo que não ficaria com nenhuma cicatriz da contaminação por radiação, mas que diferença faria?

Quantos anos eu tenho, mesmo? A garota tentou fazer as contas mais uma vez. Dezessete anos. Nessa idade, toda a sua vida ainda estava pela frente. E tudo tinha sido apagado. Quando descobriu o que havia acontecido, não conseguia pensar em nada. Só queria morrer. E então ele apareceu. O belo rosto do homem que disseram tê-la salvado estava gravado em sua mente. Absolutamente lindo demais e indiferente. Ele me salvou, pensou a garota, obcecada com a ideia. Ah, espero que venha me ver de novo. Só mais uma vez.

Vários sons passaram pela garota. Os passos do médico e da enfermeira enquanto desciam o corredor. O rangido da maca que carregava o que parecia ser um cadáver. Uma voz cheia de repulsa. Sons de coisas como o gerador e uma serra elétrica atravessavam as paredes finas, bagunçando o cabelo da garota. Talvez se pudesse dizer que ela teve sorte de não ter que ouvir nada daquilo.

Então, o que acontece agora? Esse pensamento continuava a ocupar a mente da garota. Antes que percebesse, a luz do lado de fora da janela havia adquirido um tom azulado. Não fazia ideia se o médico e a enfermeira estavam no quarto ao lado ou não. Assim que a luz se apagasse, estaria separada deles por um abismo eterno.

Nesse instante, viu uma figura refletida na porta em frente à sua. Enquanto observava, algo como uma mancha preta apareceu em uma parte do vidro, logo se espalhando por toda a sua extensão como uma flor abrindo suas pétalas em um filme em time-lapse. Diante dos olhos da garota, a mancha logo se tornou uma espécie de massa negra, seus contornos mudando levemente à medida que se aproximava de sua cama. A garota recuou involuntariamente. Estava prestes a apertar o botão de chamada de emergência quando uma mão negra se estendeu e o arrancou de suas mãos.

Bem, você consegue entender o que estou dizendo?

Pensamentos penetrantes invadiram sua mente. Os olhos da garota se arregalaram em espanto.

Não se surpreenda. Chama-se telepatia. Ao utilizá-la, uma pessoa pode fazer com que seus pensamentos sejam compreendidos sem nunca falar. Até uma jovem sem voz. Gostaria de tentar?

A garota assentiu. Ela moveu a cabeça com tanta força que quase parecia algum tipo de exercício.

Certo, vou lhe mostrar como fazer. Porém, em troca, há algo que quero lhe perguntar. Você me responderá?

A garota assentiu. Enquanto seus olhos fitavam a perturbadora massa negra, pareciam se agarrar a ela com todas as forças.

Entendo que certos experimentos foram conduzidos em sua casa. A voz ecoou em sua mente, acompanhada por uma deliciosa sensação de excitação. O segredo dessa pesquisa está escondido em algum lugar da sua casa. Diga-me onde. Não, não precisa dizer. Pense.

A garota fechou os olhos. Reunindo todas as suas lembranças da vida que haviam vivido, começou a procurar algum exemplo concreto dos experimentos que seu pai havia realizado. Sem encontrar nada, a garota relatou o resultado.

Não é possível! Os pensamentos da figura sombria eram como chamas. Seu pai estava envolvido em experimentos proibidos. E só ele era capaz de fazê-los ter sucesso. Responda-me. Sei que deve se lembrar!

A pergunta queimava no cérebro da garota como aço derretido. Tremendo pelo corpo todo, a jovem desabou na cama. Nesse momento, a porta se abriu. A figura sombria parecia olhar naquela direção.

— Que diabos é você? — gritou o Dr. Tsurugi, suas palavras se espalhando pelo quarto como um incêndio.

A sombra se virou para encarar o médico sem fazer barulho. Talvez fosse sua juventude, ou talvez fosse apenas imprudente, contudo o médico abriu os braços e tentou agarrar a figura sombria. Suas mãos afundaram no corpo do intruso. Não só isso... A sombra na verdade atravessou o corpo do médico. A intangibilidade molecular estava em ação.

— Ei! — gritou o Dr. Tsurugi enquanto corria para o lado de Lori, embora não tivesse ideia do que estava acontecendo. — Você está bem? — perguntou.

Conseguindo acompanhar o movimento de seus lábios, Lori assentiu em resposta.

Percebendo a fosforescência azul pálida de seus próprios membros, o médico recuou surpreso. Esse era o efeito colateral da intangibilidade molecular.

— Parece que também terei que tomar algo para radiação. — disse o médico em um tom distraído, sorrindo para Lori.

Entretanto, em sua mente, os pensamentos da sombra ainda pulsavam. Você também pode usar telepatia, a sombra havia dito.



O corpo do cidadão falecido seria enterrado no cemitério da cidade. De acordo com a autópsia, a morte resultou de uma perda maciça e rápida de sangue, era tudo o que podiam afirmar. O cadáver foi examinado da cabeça aos pés, todavia, além de algumas pequenas escoriações, não havia nenhum sinal do ferimento fatídico. Enquanto carregavam o caixão com o corpo do homem para o cemitério, todos pensavam a mesma coisa. Quando o sol se pôr, ele vai se levantar. Depois que os robôs usados ​​do agente funerário terminaram de cavar a cova, o cadáver foi sepultado. A terra foi recolocada e o agente funerário, que também era reverendo, entoou algumas palavras de oração. E com isso, o homem foi sepultado.

Logo depois, o sol se pôs. Não havia mais ninguém por perto naquele pedaço de terra desolado, mas então uma mulher de uns trinta anos apareceu com passos apressados. Era a esposa do dono da mercearia. Porém havia algo estranho em seu jeito de andar. Parecia que estava sendo chamada e não gostava nem um pouco disso. Conforme a mulher avançava, jogou a cabeça para trás, fincou os calcanhares no chão e foi puxada.

Logo, estava diante da cova recente. Esfregando a bochecha na terra amontoada, fazendo-a farfalhar contra sua pele, se levantou de volta. Curvando-se, com uma expressão assustada e um sorriso arrepiante, começou a cavar a cova. A cada movimento de suas mãos, uma grande quantidade de terra era jogada para trás. Em pouco tempo, havia formado uma pequena montanha de terra. Mesmo que o solo estivesse solto devido ao enterro recente, o volume era extraordinário.

Quando a tampa da caixa de madeira pôde ser vista no fundo do buraco, os lábios da mulher se contorceram em uma expressão de puro deleite. Que sorriso perverso e sombrio. O buraco tinha três metros de profundidade. A mulher encarou a caixa. O sol já havia se posto além da borda da planície. Nada além dos postes de luz brancos iluminava os atos da mulher.

Pouco a pouco, o caixão começou a subir. Como se impulsionado pela própria terra, ascendeu, sem o menor sinal de instabilidade ao se aproximar da borda do buraco. Ansiedade e êxtase se entrelaçavam no semblante da mulher.

Emergindo por completo da sepultura, o caixão parou na altura do queixo da mulher. A tampa da caixa se abriu por dentro, empurrada por uma mão pálida. Com a mesma cautela com que a caixa havia emergido da sepultura, o morto se incorporou. Ainda deitado no caixão, ele se virou para a mulher e deu um sorriso irônico. Caninos perolados se projetavam de sua boca. Seus olhos emitiam um brilho vermelho. Com um olhar, a mulher foi despojada de sua liberdade. Ela sorriu de volta. Com movimentos estranhamente rígidos, o homem desceu até o chão. O caixão permaneceu onde estava.

O homem se aproximou. Sem dizer nada, a mulher esperou. Pela primeira vez, percebeu que em vida aquele homem havia sido apaixonado por ela. Houve um assobio curto e suave, e nesse momento algo se cravou na nuca do homem. Uma agulha fina de madeira inacabada.

— Sinto muito dizer isso, mas é só até aí que você irá. — disse uma voz baixa. À direita do homem, ouviu-se um farfalhar de galhos de árvores. O homem ficou sem palavras. — E já que ressuscitou, presumo que saiba como é a pessoa que fez isso com você. Diga-me.

Mesmo que o homem quisesse responder, ainda estava com a garganta perfurada. Com a agulha cravada no pescoço, o homem saltou para trás uns bons dois metros, e ao mesmo tempo a mulher desabou no chão.

— Você deve ser destruído! — disse D em um tom gélido. — Porém antes de ir, deveria deixar o mundo da luz do dia. Que tal?

O homem levou a mão direita à ponta da agulha. Não teve dificuldade em puxar o cabo de madeira que D havia arremessado contra ele. Um jato de sangue jorrou da ferida. O homem franziu os lábios.

D ergueu a mão esquerda. Mantendo-a plana e reta como uma faca, avançou. O jato vermelho que saía da boca do homem foi dividido ao meio pela borda da mão do Caçador, e ambas as metades desapareceram na escuridão. Contudo D sentiu fumaça branca subindo do chão onde o sangue do homem havia caído.

— Você tem um poder bem estranho. — comentou o Caçador. — No entanto agora o fim está próximo. — sem dar ao homem uma segunda chance de franzir os lábios, D o cobriu com seu casaco. No instante em que foi aberto de novo, o homem caiu no chão inconsciente, como se tivesse sido puxado por cordas. Olhando para o homem, D disse suavemente.

— Eu cuidei dele. Saia agora.

— Muito obrigado.

Ouviu-se o som de galhos se agitando em um matagal a uns cinco ou seis metros de distância, e então uma figura bastante ágil apareceu.

— Então, tem um truque que pode nocautear um subordinado de um nobre com um só golpe? Quando tiver um tempinho livre, adoraria ver como o faz.

Pontuando seu último comentário com uma gargalhada estridente, estava ninguém menos que John M. Brasselli Plutão VIII.

— Por que está aqui? — perguntou D.

— Ah, não venha com essa de durão comigo, parceiro. — Plutão VIII sorriu para o Caçador, sua expressão insinuando que eram amigos de longa data. — Eu sabia que ia voltar à vida, então fiquei só esperando. Posso até dizer, foi um baita espetáculo o que acabou de fazer. Estou impressionado. Muito impressionado!

— O que você quer? — perguntou D.

— Nada! — respondeu Plutão VIII, balançando a cabeça com seriedade. Se ele fosse torturado a ponto de não conseguir mais falar, talvez conseguisse se safar só com esse gesto.

— Não importa. Só fique fora do caminho.

— Sim, senhor.

Era difícil dizer o que se passava na cabeça de Plutão VIII, entretanto por algum motivo este deu uma salva de palmas para o Caçador e disse.

— A propósito, por acaso está planejando levar esse verme de volta e fazê-lo cuspir as tripas?

— Do que está falando?

— É bem óbvio, não é? Quer descobrir quem criou esse carinha. Afinal, ele perdeu todo esse sangue, e não tem um arranhão sequer. Que estranho, não é mesmo? Você precisa investigar o que está causando isso.

— Tem toda a razão. — carregando com facilidade o homem com presas em um ombro e a mulher inconsciente no outro, D se virou.

— Ei, espere! Só um minuto. — gritou Plutão VIII animadamente, correndo atrás do Caçador. — Deixe-me carregar a moça. Estou te dizendo, não consigo acreditar como é difícil conquistar as garotas desta cidade. Posso falar até ficar roxo, e elas não me dão a mínima atenção. Devo aproveitar esta oportunidade para construir minha reputação.

Embora não estivesse muito claro se o Caçador estava perplexo ou não, enquanto D permanecia ali, Plutão VIII quase arrancou a mulher de seus braços e a aconchegou.

— Cara, acha mesmo que esse sujeito vai te contar tudo? É um vampiro afinal de contas!

D não disse nada.

— Vou te contar um segredinho. Consigo fazer esse cara abrir o bico. Deixo você perguntar o que quiser, é só me deixar fazer algumas perguntas também.

D parou de repente. Ao se virar, Plutão VIII deve ter percebido algo na expressão do Caçador e, soltando um grito de surpresa, o motoqueiro deu um pulo para trás uns três metros.

— Não te disse para não me olhar tão sério assim? Só de pensar nessa sua cara já me dá uma vontade enorme de me masturbar, sabia? Nesse ritmo, posso acabar me apaixonando se não tomar cuidado.

— O que está planejando?

— Nada de mais.

— Devo falar com o prefeito e pedir para te expulsar da cidade?

— Não vai adiantar nada. — debochou Plutão VIII. — Imaginei que tentaria algo assim, então encontrei um novo esconderijo. Além do mais, você nem consegue encontrar onde o vampiro está escondido. Sabe, não ficaria nem um pouco surpreso se acabasse com outro nas suas mãos.

O que Plutão VIII disse foi certeiro.

— Então, como vai ser? Pare de parecer tão sombrio e se decida logo.

— Certo! — disse D suavemente, assentindo com a cabeça.



Plutão VIII levou D até uma pensão abandonada ao lado do Bloco C, no setor industrial.

— O que acha? Muito bom, não é? Tenho três quartos aqui. Posso cozinhar minha comida onde quiser. Está olhando para o senhor da mansão. — disse Plutão VIII, cheio de pompa. — Não me importo se contar a alguém onde me encontrar. Em cinco minutos, posso me mudar para outro esconderijo, sabia? Sou mais escorregadio que qualquer vampiro.

— O que você realmente quer?

— Com quem pensa que está lidando aqui? — disse Plutão VIII, acomodando-se em uma cadeira de plástico. Ele convidou D a fazer o mesmo, mas o Caçador não se sentou. A mulher havia sido deixada caída ao lado de uma rua movimentada, em um lugar onde alguém a encontraria logo. Qualquer pessoa invocada pelo poder de um vampiro, como ela, não se lembraria de nada do que aconteceu enquanto estava sob o feitiço. Plutão VIII colocou o vampiro inconsciente em uma cama grande de gosto bastante simples. Apalpando os caninos alongados do demônio com curiosidade mórbida, falou. — Bom, vamos ver se conseguimos que ele responda a duas ou três perguntas. Certo, agora observe com atenção.

Com essas palavras, ele subiu na cama e foi até onde havia colocado o vampiro, deitando-se de costas ao lado do outro homem. D o viu apertar a mão do vampiro. Plutão VIII fechou os olhos. Ao fazer isso, toda a expressão desapareceu de seu rosto. Ao mesmo tempo, o vampiro começou a tremer por inteiro e seus olhos se arregalaram.

— Bem esperto, hein? — disse o vampiro com a voz de Plutão VIII. Embora o rosto ainda fosse claramente o de um trabalhador rural, a expressão havia adquirido uma plenitude indefinível e, através dos olhos e da boca, apresentava uma nítida semelhança com Plutão VIII. Esse homenzinho franzino tinha, na verdade, a capacidade de possuir outros corpos. — Droga, está frio! — gemeu. — Dentro da cabeça desse cara e por todo o seu corpo é um grande paraíso invernal. Por outro lado, estando aqui dentro, sei tudo o que está pensando. Agora, segundo o que entendo, ele foi transformado em vampiro por... Wow, por ninguém. De repente, sentiu frio e caiu no chão em frente àquela fábrica. E é mais ou menos isso, pelo que parece. Não é a coisa mais estranha do mundo?

— A doença é contagiosa?

À pergunta de D, Plutão VIII respondeu.

— Não sei. O que posso dizer é que tem uma sede poderosa de sangue. É isto.

De repente, a voz de Plutão VIII ficou confusa. A malevolência inundou sua expressão amável. Com o rosto agora de um demônio, se levantou de um salto. O humano que possuía este vampiro foi derrubado com notável facilidade. Imitação de vampiro ou não, os poderes mentais que aquela condição dotava a vítima eram sem dúvida formidáveis. Aos poucos, o demônio dirigiu-se para D... E então sorriu de orelha a orelha, assim como Plutão VIII.

— Desculpe por isso! — riu na voz do motoqueiro. — Não tive a intenção de te alarmar, não que você tenha sequer se mexido um centímetro. Bem, acho que é tudo. Então, essa é a única pergunta que queria fazer?

— Não, tenho outra. O que diabos eles estavam pesquisando naquela casa?

— Não posso dizer! — respondeu Plutão VIII com indiferença. — É provável que tenha a informação, porém tudo relacionado a ela está confuso. Acho que significa que não há resposta.

— Parece que nosso plano deu errado.

D deu um leve aceno de cabeça.

Um dos fenômenos paranormais que frequentemente ligava o sugador de sangue à sua presa era a transferência de memórias. Muitas vezes as memórias de um vampiro eram copiadas no cérebro de sua vítima. Na maioria dos casos, o que foi transferido foi apenas uma pequena parte das lembranças dos vampiros, contudo houve algumas vítimas que acabaram com todas as memórias de um Nobre. Ao enviar sua consciência para o corpo do outro homem, Plutão VIII esperava acessar quaisquer memórias que pudessem ter pertencido a quem o criou.

Sem dizer uma palavra, D jogou o corpo morto-vivo por cima do ombro.

— Ei, o que está fazendo? — o cadáver... Ou melhor, Plutão VIII, gritou.

— Se já acabamos, tenho que levá-lo de volta ao túmulo. Se quiser sair dele, é melhor ser rápido.

— Que ingrato egoísta você é! — zombou o homem, e então toda a rigidez deixou seu corpo. No mesmo instante, o corpo de Plutão VIII levantou-se de onde estava deitado na cama. — Para que saiba, é preciso muita preparação mental para pular de um corpo para outro. Ah, acho que vou passar mal...

D saiu da sala do motoqueiro sem fazer barulho.



À medida que avançava, a cidade parecia estar olhando para as planícies marrons. Um grupo de pastores e mercadores olhou para ela com inveja e acenou. Não lhes oferecendo nada em troca, a cidade continuou seu avanço implacável. Entretanto era preciso perguntar se estava de fato fazendo algum progresso. A cidade prosseguiu diligente, indo direto para o sol que brilhava com um tom estranhamente rancoroso.



No dia seguinte, D visitou cerca de vinte homens listados na folha do prefeito como envolvidos no fechamento da casa da família Knight. Todos eles lhe deram a mesma resposta. Ninguém tinha visto ou ouvido nada de estranho enquanto retiravam coisas de casa. Os mistérios daquela morada permaneceram envoltos em névoa. Enquanto D se preparava para visitar a última pessoa da lista, o xerife Hutton, alguém atrás dele chamou seu nome. Era o Dr. Tsurugi. Virando-se, D perguntou.

— Como foi?

— Sua condição permanece inalterada. Não consegui descobrir nada do cadáver. — ele estava se referindo ao homem que havia ressuscitado do túmulo na noite anterior. D levou o corpo que Plutão VIII ocupava para o Dr. Tsurugi e o submeteu a um segundo exame médico. — Na minha opinião, foi causado por algum tipo de infecção viral, embora no momento não consigo identificar o culpado.

— Haverá problemas se não puder. — foi tudo que D disse.

Percebendo de que tipo de problema o Caçador estava falando, o Dr. Tsurugi usou as costas da mão para enxugar o suor que acabara de perceber que estava escorrendo em sua testa. Suor frio.

— Te vejo mais tarde. — disse D, virando as costas.

— Espere um minuto. — o médico gritou.

— O que foi?

O jovem médico coçou a cabeça, o que parecia ser um hábito seu.

— Se não se importa, acha que poderia me visitar? Para Lori Knight, quero dizer. Ela está agindo de forma um pouco estranha.

— Estranha?

— Sim. Desde que foi atacada por aquele sujeito estranho e misterioso ontem, o seu comportamento tem sido bastante incomum.

— Minha ida até ela não mudaria nada.

— Bem, não indo você certamente não vai ajudá-la em nada.

— Então terá que esperar até que eu resolva um assunto pendente. — disse D, e começou a se afastar. Percorrendo ruas e vielas sinuosas, chegou à delegacia. Empurrando uma porta de vidro rachada, remendada com pedaços de fita adesiva grossa, ele entrou.

Sentado atrás de sua mesa com os pés para cima, enquanto conversava animadamente com alguns de seus subordinados, o gigante teve uma súbita contração no rosto assim que viu D.

— O que o traz aqui? — perguntou. — Ainda tem dois dias de prazo. Não me diga que já quer ir embora?

— Tenho assuntos a tratar com você. — se limitou a dizer D. — Podemos falar particular?

Talvez atingidos pela aura gélida do Caçador, os dois policiais se levantaram em seguida, mas o xerife os empurrou de volta para baixo com mãos do tamanho de luvas de beisebol.

— Esperem um minuto, rapazes. Aqui é a delegacia. Não recebemos ordens de ninguém de fora. Muito menos de um Caçador de Vampiros imundo. Vocês não vão a lugar nenhum. Vão sentar aqui comigo e ouvir o que ele tem a dizer, entenderam? E aí, o que acham?

O último comentário foi dirigido a D.

D assentiu.

— Para mim, tanto faz. Só tenho uma pergunta. Quando estava fechando a casa dos Knight com tábuas, viu alguma coisa?

— O que quer dizer com “alguma coisa”? — o xerife riu, mostrando muitos dentes amarelados.

— Havia algum item incomum? Drogas estranhas, papéis com fórmulas ou equações? Criaturas especiais? Coisas assim?

O xerife bufou alto.

— Claro que não havia nada disso.

— Nesse caso, tenho outra pergunta para lhe fazer. Por que a família Knight deixou a cidade?

— Talvez queira perguntar isso ao prefeito.

— A cidade inteira os expulsou, ou...

— Ou o quê?

— Ou eles ficaram felizes em ir embora? Qual foi a explicação?

— Veio aqui querendo arrumar confusão, rapaz? — rosnou o xerife Hutton.

Os dois auxiliares se prepararam para a ação. O xerife começou a se levantar de sua cadeira enorme. Seu traseiro estava a apenas alguns centímetros para fora da cadeira quando parou de repente. D estava parado bem na sua frente. Estava ali parado, uma aura sobrenatural irradiando de cada centímetro do seu corpo. Só aquilo já impedia não só o xerife, como também seus dois auxiliares, de se mexerem.

— Responda-me diretamente! — disse D.

— Só... Só pode estar brincando comigo. — o xerife vociferou, porém sua voz tremia mesmo assim.

— Nesse caso, não me deixa escolha.

Levantando a mão esquerda, D pressionou-a contra a testa do xerife. A mesma expressão vazia vista em um deficiente mental se espalhou pelo rosto do xerife. Com os olhos cobertos por uma película semitransparente e baba escorrendo do canto da boca, o policial encarava o vazio.

— Por que a família deixou a cidade?

Uma resposta não veio logo. Sem dúvida, uma batalha se travava na mente do xerife, uma batalha entre seu próprio ego e as palavras de D.

A única questão era como tudo terminaria.

— Aquela família... Estava fazendo experimentos bizarros... Não sei todos os detalhes...

As palavras estavam sendo arrancadas do xerife. E era óbvio que o poder da mão esquerda de D era o responsável.

— Você sabia disso e mesmo assim não fez nada? — perguntou o Caçador.

— Queria... Contudo... O prefeito me impediu.

— O prefeito? — os olhos de D brilharam. — Por que o impediria?

— Não sei... No entanto eu tinha ordens oficiais... Não podia fazer nada... Sobre aquela família... Nunca... Parece que o xerife anterior a mim... Tinha as mesmas ordens.

— Há quanto tempo isto vinha acontecendo?

— Desde muito tempo atrás... Cerca de duzentos anos...

De acordo com o que o prefeito havia dito, foi mais ou menos nessa época que o estranho sinistro chegou a bordo.

— E aqueles experimentos estranhos deles estavam acontecendo o tempo todo?

— Eu... Não sei...

— A família Knight foi expulsa da cidade ou saiu por vontade própria?

— Eles... Fugiram...

— Fugiram?

— Na noite anterior à fuga... O prefeito me deu ordens... Fui até a sua casa... Os Knights estavam lá... Os prendi na hora... Como o prefeito mandou... Os joguei... Na cadeia... A filha estava junto, claro... O prefeito nunca me disse... Por que tivemos que fazer aquilo... Só disse que eles tinham cometido um crime grave... Contra toda a cidade... E foi só isso.

— Entendo.

A “ofensa”, então, eram os experimentos que a família Knight vinha realizando há gerações. Entretanto que motivo teria o prefeito, que sempre apoiou os Knights, para ordenar a sua prisão? E o que poderiam ter dito ao prefeito?

— Como o Sr. e a Sra. Knight pareciam?

— Não sei... Eles não estavam com medo... De jeito nenhum... Os dois... Pareciam estar pensando seriamente em alguma coisa... O quê... Eu não sei.

— Como escaparam?

— No dia seguinte... Fui dar uma olhada... E a parede da cela... Tinha derretido. O Sr. Knight era químico... Imagino que estivesse escondendo alguma coisa... Ácido ou coisa do tipo...

— Nos veremos outra vez.

A mão de D se soltou da do xerife.

Só quando a barra do casaco preto do Caçador já estava bem para fora da porta é que o xerife e seus dois homens desabaram em suas cadeiras, como se estivessem completamente exaustos.



O Dr. Tsurugi estava esperando por D.

— Sei que deve estar ocupado, mas realmente gostaria que viesse comigo. — disse ele. D assentiu.

— Eu disse que viria. Vamos.

Os dois partiram para o hospital.

— Cidade tranquila. — disse D.

— Acho que sim. O xerife e o prefeito têm bastante facilidade em manter a paz. Não recebem estranhos causando problemas. E os moradores são todos pessoas bem-comportadas que seguem as regras. De vez em quando alguém fica um pouco agressivo, porém ninguém é mais agressivo do que o xerife.

Um sorriso se formou nos lábios de D.

— Exceto você! — disse ele.

O Dr. Tsurugi não disse nada, contudo deu um largo sorriso. Olhando rapidamente para D de novo, perguntou.

— Quanto tempo ficará na cidade?

— Se terminasse agora, poderia ir embora amanhã. — e então, num gesto raro para o Caçador, perguntou em resposta. — E você?

— Bom, meu contrato é de um ano inteiro. No entanto acho que vou embora antes disso.

— Não causaria problemas se o médico deles deixasse a cidade?

— Nada que não pudessem resolver encontrando outro médico. — respondeu o Dr. Tsurugi.

— Está entediado?

— Não seja ridículo. Você não diria olhando para mim, no entanto estudei um pouco de psicologia. E do ponto de vista psicológico, não encontraria um lugar mais intrigante. Por sua própria natureza, as cidades da Fronteira precisam exercer controles bastante rígidos para se protegerem de inimigos externos, entretanto aqui levaram isto ao extremo. Para onde acha que esta cidade está indo?

D não respondeu.

— Na verdade, eles vagam pela Terra sem rumo algum.

— As pessoas comuns também não têm um objetivo. Humanos, nobreza... Toda a criação é assim. — disse D.

— Sim, mas em uma vila, as pessoas entram. Nas cidades, as pessoas vão embora. Aqui, não há nenhuma das duas coisas. Tem ideia de quanto tempo e energia as pessoas desta cidade investem para desenvolver drogas que combatam os problemas causados ​​pela consanguinidade? Na minha humilde opinião, as únicas pessoas sãs nesta cidade eram os Knights.

— Sabe alguma coisa sobre eles? — perguntou o Caçador.

— Não, por infelicidade não sei.

— Suponho que este lugar pode não lhe ser adequado. Você gosta de viajar, não é?

O jovem médico assentiu. Foi um aceno profundo e sincero. Seus olhos escuros brilharam.

— Sim. Conheci todos os tipos de pessoas. Pode-se dizer que me tornei médico porque gosto de viajar. A Fronteira não é completamente desesperadora. Não importa o que tenham lidado lá, todos estão dando à vida tudo o que têm. Aposto que o mesmo se aplica à Nobreza restante. E só quero ajudar as pessoas a fazerem isso.

Sem dizer nada, D continuou andando. Mas em seus olhos havia algo que parecia incrivelmente com um pouco de calor. O jovem médico não percebeu como suas palavras provocaram um pequeno milagre.

— Você é um dampiro, certo? Está viajando há muito tempo?

— Um pouco mais do que você. — D respondeu

— Em breve serei como você. — disse o médico em tom fervoroso. — Suponho que ficarei tão experiente quanto. Ao longo do caminho, aprenderei a cavalgar e a usar uma espada.

Embora as palavras do jovem médico soassem quase como um desafio, D permaneceu em silêncio.

A dupla chegou ao hospital. A enfermeira caminhou logo à frente deles, acompanhando-os até a enfermaria. Ao longo dos cerca de três metros que tiveram que percorrer, a enfermeira quase bateu em uma mesa, quase enfiou a mão na vidraça e teve que ser pega pelo médico depois de tropeçar na soleira... Tudo porque não podia fazer nada além de olhar para D.

Alguma descoloração rosa permaneceu na pele de Lori. Essa foi a extensão de seus ferimentos. Ao que parecia, os curativos para retirar os radioisótopos de seu corpo não eram mais necessários, pois todas as bandagens haviam sido removidas. Agora a garota estava de pijama azul e sentada na cama.


Depois de um tempo, o Dr. Tsurugi pegou o bloco de notas e escreveu: Como você está se sentindo? Ele entregou a ela. Tomou a iniciativa porque D não se preocupou em dizer nada.

Examinando a nota, Lori assentiu. Inquieta, ajustou a gola do pijama e puxou as mangas para baixo. Parecia estar envergonhada de que alguém visse as marcas que seu envenenamento por radiação havia deixado.

O Sr. D veio te ver, o médico rabiscou no bloco de notas. Ele quer que você fique boa logo.

D pegou a caneta. Ao ver o que escreveu no memorando, os olhos do Dr. Tsurugi se arregalaram: Por que seus pais deixaram a cidade?

— Espere só um minuto! — rosnou o médico. — Esta jovem ainda é uma paciente em tratamento. Não o trouxe aqui para isso. Queria que ajudasse a trazer um pouco de vida de volta para ela. A maioria dos pacientes precisa de animação mais do que qualquer coisa. Especialmente uma garota da sua idade.

— E vim aqui porque tenho dúvidas. — respondeu D.

— Não posso acreditar na sua coragem. Nunca deveria tê-lo trazido aqui.

— Pode animá-la a qualquer momento. Contudo meu trabalho não vai esperar.

O médico segurou a língua.

D continuou.

— Um membro da Nobreza foi criado por meios que ainda não são claros. Se esse número aumentar para cem, seremos impotentes para detê-los. É meu trabalho me livrar dele. No entanto, se eu tiver que eliminar todas as pessoas da cidade, será uma carga de trabalho excessiva.

— Isto é uma loucura! — disse o médico com um suspiro triste.

D virou-se para Lori. Em silêncio, esperou a resposta da jovem.

Memórias cintilaram na mente de Lori. Esta era a mesma pergunta que a figura sombria lhe fizera na noite anterior. Ninguém se importava com ela. Os experimentos de seus pais eram a única coisa que passava pela cabeça de alguém. Sufocando a raiva que subiu à sua garganta outra vez, Lori ergueu o rosto. O rosto do Caçador a cumprimentou. Frio e velado por uma aura sobrenatural, seu semblante arrojado parecia triste mesmo assim. A raiva desapareceu do coração de Lori. Colocando a mão esquerda sobre a direita para que as cicatrizes nas costas não pudessem ser vistas, Lori rabiscou devagar com a caneta.

Não sei. Na nossa última noite na cidade, enquanto passava pelo laboratório, ouvi meu pai dizer à minha mãe: “Isso vai mudar o mundo”. Logo depois, os dois foram para algum lugar e, enquanto eu dormia, a lei veio e nos levou para a cadeia.

— Mudar como? — Dr. Tsurugi refletiu.

Sem dizer uma palavra, D olhou por cima do ombro. Para a próxima sala. A sala de cirurgia. A sala que tinha um cadáver amarrado à mesa. A tez do médico ficou da cor de barro.

— Você não poderia estar insinuando que...

— Não sei. — disse D. — Entretanto é melhor você ir embora.

— O que quer dizer com isso?

— É melhor você não saber.

— Só pode estar brincando, depois de tudo que passei. — o Dr. Tsurugi acrescentou, irritado. — Preciso lembrá-lo de que fui eu quem destruiu o vampiro ontem à noite?

— Te vejo depois.

— Mas, eu...

O médico estava prestes a dizer algo, todavia mordeu o lábio. Indignado, saiu do quarto de Lori.

A mão direita de D entrou em ação. Além da sua família, quem mais frequentava o laboratório?

Após uma pausa, Lori escreveu: Prefeito Ming.

***

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