sexta-feira, 5 de junho de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 21

Primeira Temporada Capítulo 21: Queda Livre

Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Vinte e Um: Queda Livre



JONATHAN SIMS

Depoimento de Moira Kelly, referente ao desaparecimento de seu filho Robert. Depoimento original prestado em 20 de outubro de 2002. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Peço desculpas se demorar um pouco para colocar tudo isso no papel. Não escrevo rápido e o que eu vi é... É muito fácil dizer “escreva o que você viu”, mas e se não tiver as palavras? O que eu vi não faz nenhum sentido, e me dá uma dor de cabeça terrível quando tento me lembrar o suficiente para descrever.

Estou louca? O que aconteceu é uma loucura. Não pode ter acontecido. Porém aconteceu. Levou meu Robert, e... Agora sequer consigo pensar em como colocar isso no papel de uma forma que explique. Talvez em algum lugar da sua biblioteca estejam as palavras que explicam o que aconteceu, o que vi, contudo não li seus livros, e saber não o traria de volta. Acho que terei que tentar.

Meu filho, Robert, sempre foi um menino aventureiro. Mesmo quando criança, ele saía correndo e se metia em confusões sempre que tinha oportunidade. Naquela época, morávamos no interior, em Althorpe, uma pequena vila em Lincolnshire, e sempre que podia, Robert ia para a floresta com os amigos, subindo em árvores e explorando as profundezas da mata. Havia algumas outras crianças que se juntavam, no entanto ele sempre subia mais alto do que elas, sempre se aventurava mais longe. Nem consigo me lembrar de todas as vezes em que quase se perdeu lá quando era criança.

À medida que foi crescendo, seus interesses mudaram, entretanto aquele senso de perigo nunca o abandonou. Tinha que levá-lo de carro por meia hora todas as quartas-feiras, porque aquele era o centro de lazer mais próximo com uma parede de escalada, e ele era obcecado em chegar ao topo. Depois que foi para a universidade, voltava para casa em todas as férias com algum novo esporte perigoso que havia começado a praticar: wakeboard, ciclismo de montanha. Quase perdeu o funeral do pai porque estava em uma viagem de mergulho para o Chipre e só conseguiu reservar um voo de última hora para casa. Não foi sua culpa, é claro, a morte de Stephen foi um choque para todos nós; o que quero dizer é... Não fiquei nada surpresa quando me contou, há alguns anos, que estava muito envolvido com o paraquedismo.

Tudo começou como uma ação beneficente. No seu último ano em Yarmouth, havia decidido fazer um salto de paraquedas para uma instituição de caridade com a qual trabalhava como voluntário. Fui acompanhá-lo e, quando pousou, pude ver nos seus olhos, mesmo antes de tirar o paraquedas, que estava apaixonado. Desde então, era raro passar um mês sem que se jogasse de um avião, a ponto de eu me perguntar de onde tirava o dinheiro, já que, pelo que ouço, não é um passatempo barato, e ele certamente não estava ganhando muito de mim.

Pouco depois de Robert se formar, ele veio me visitar. Não o vira tão feliz desde que seu pai falecera, e quando lhe perguntei a respeito, me disse que tinha conseguido um emprego em uma empresa que organizava saltos de paraquedas por todo o país. Chamava-se Open Skydiving e, com o rosto radiante ao me contar, agora era um instrutor de paraquedismo totalmente qualificado. Fiquei feliz, é claro, embora toda vez que descrevia o salto, me parecesse bastante terrível. Sempre deixei claro que nunca me convenceria a ir para lá, despencar pelo céu.

Depois daquilo, não o vi muito. Estava em casa no Natal e no Dia das Mães, se eu tivesse sorte, mas fora isso, eram telefonemas ocasionais ou até mesmo cartões-postais se estivesse organizando um salto em algum lugar distante. Tenho uma pequena pilha deles em casa, é tudo o que tenho para me lembrar dele. Lembro de que me enviou um de Aberystwyth, de todos os lugares, não faz muito tempo, e assinou “com amor do seu filho em queda livre”. Eu costumava gostar muito disso, porém agora a frase me dá arrepios.

Contudo estava feliz. Estava fazendo o que amava. Tento me agarrar a isto. Não havia como saber que algo estava errado. Quer dizer, nada estava errado. Tenho certeza. Não até aquela última vez.

Ele veio me ver há três meses. Fiquei surpresa, já que junho é o auge da temporada e sua última ligação telefônica parecia indicar que esperava estar ocupado até a chegada do inverno. Ainda assim, lá estava, parado na porta, e parecia estar em péssimo estado. Tinha olheiras profundas e parecia que não se lavava há algum tempo. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, levei-o para dentro, fiz com que se sentasse e comecei a preparar um banho quente. Disse-lhe que o que quer que tivesse acontecido poderia esperar até que se recompusesse. Acredito que foi a decisão certa, pois depois de se limpar e comer algo quente, pareceu muito mais com seu eu de sempre. Ainda assim, passou uns bons dez minutos sentado ali, olhando para o nada.

Perguntei qual era o problema, se tinha sofrido um acidente, perdido o emprego ou algo semelhante. Quando perguntei, ele deu uma risada estranha e disse que tinha perdido o emprego. Tinha se demitido, foi o que disse. Perguntei por quê, afinal sempre adorou toda aquela coisa de paraquedismo, contudo quando falei a palavra “céu”, o vi recuar como se tivesse lhe dado um tapa. Então, fiquei quieta e pedi que me contasse o que tinha acontecido.

Eles iam saltar perto de Doncaster, explicou. Um senhor de 85 anos faria um salto duplo para caridade em memória de sua esposa. Não era quem ele ia saltar com o idoso, no entanto era um evento tão importante que sua colega o convidou para ir também, para dar apoio. Teria de descer sozinho, com um paraquedas individual. Tudo começou bem, o voo de subida foi tranquilo e o velho, que disse se chamar Simon, parecia estar se divertindo muito, fazendo piadas e, francamente, muito mais ansioso para se jogar de um avião do que quase qualquer pessoa que Robert já tivesse conhecido.

Por fim, a subida terminou e a porta se abriu para o fluxo de ar. Harriet Fairchild, a instrutora, se preparou para saltar, com Simon preso ao seu peito. Foi nesse momento, disse Robert, que o velho se virou para ele, gritando algo. Não tinha conseguido ouvir direito, entretanto achou que tinha sido “aproveite o céu azul”. Em seguida sentiu uma tontura repentina, quase caindo no chão quando Harriet se atirou para fora do avião com seu passageiro. Todavia passou em um instante, e se impulsionou para fora da porta, sendo recebido por aquela sensação familiar de mergulho em seu estômago ao iniciar sua queda livre.

Logo percebeu que havia alguma coisa de errado. Disse que estava saltando de uma altura de cerca de três mil metros, então deveria ter caído por quase trinta segundos antes de abrir o paraquedas, mas estava com dificuldade para contar. O céu azul claro estava tão brilhante que parecia cegá-lo, e os números estavam todos embaralhados em sua cabeça. Seu equilíbrio parecia estar todo comprometido e disse que teve que fechar os olhos com força por causa do brilho, concentrando-se para continuar a contagem. Enfim, chegou ao que achou que eram trinta segundos e foi puxar o cordão de abertura, embora, ao fazê-lo, disse que abriu os olhos novamente e congelou. O chão havia sumido.

Perguntei o que queria dizer, se havia se desorientado, talvez. Ele apenas balançou a cabeça e insistiu que o chão havia sumido. Tudo o que havia, segundo me contava, era aquele vasto céu azul vazio, estendendo-se à sua frente, mas ainda assim estava caindo nele. Era brilhante, continuava dizendo, estava tão brilhante, embora não houvesse sol naquele céu e nenhuma nuvem para escondê-lo. Apenas o céu azul e vazio em todas as direções enquanto caía. Tentou puxar o cordão de abertura, abrir o paraquedas, contudo sua mão não fechava sobre a trava. Então apenas caiu.

Robert estava tremendo muito naquele momento, então lhe entreguei um cobertor e fiz outra xícara de chá. Não tinha certeza se acreditava em tudo o que estava ouvindo, no entanto estava certa de que havia passado por alguma situação terrível; podia ver isso. Perguntei quanto tempo havia caído daquele jeito, e me respondeu que não sabia. Seu relógio havia parado, no entanto parecia que tinham sido horas. Dias, até. Estava com tanta fome, falou, entretanto continuou caindo. Não sabia em que direção; havia apenas aquele céu vazio ao redor, então era impossível dizer.

No fim, disse que voltou a ver o chão. Não pareceu uma mudança ou uma diferença repentina, apenas fechou os olhos como tantas vezes fizera naquele lugar, e quando os abriu, lá estava, verde, extenso e correndo em sua direção. Ficou tão aliviado que quase se esqueceu de acionar o paraquedas. Todavia o acionou e pousou em segurança perto da área-alvo.

Ele foi recebido por Harriet, que ficou surpresa com o tempo que levou para descer. Ela lhe disse que já haviam se passado quase quinze minutos do horário previsto para o pouso, e Simon, aquele senhor, e seus apoiadores já tinham ido embora. Era óbvio que havia algo de errado, e Harriet perguntou a Robert se estava bem. Ele repetiu: “Quinze minutos, apenas quinze”, e ela disse: “Sim, qual foi o problema?”. Robert pediu demissão ali mesmo, e foi pouco depois que veio me ver.

Claro, fiquei um pouco sem palavras com a história do meu filho. É difícil dizer o quanto daquilo achei que fosse verdade. Não achava que mentiria para mim sobre algo assim, mas ao mesmo tempo, o tipo de coisa que descreveu... Bom, não achei que soasse como algo vindo de uma mente sã. Digamos que estive considerando a mesma coisa que você vai pensar daqui a pouco. A questão é que tentei conversar sobre seus problemas e sentimentos, porém quanto mais falava, mais agitado ficava, até que por fim decidi que não chegaríamos a lugar nenhum e preparei seu antigo quarto. Ele dormiu profundamente naquela noite, pelo que me lembro.

A manhã seguinte estava linda. O sol entrava pela janela e o ar estava quente e calmo, sem estar tão quente quanto na semana anterior. Quando Robert acordou, sugeri que fizéssemos uma pequena caminhada para aproveitar o dia e, com sorte, dissipar qualquer medo que ainda o incomodasse. A princípio não confortável em ir, ficava olhando para o céu sem nuvens, contudo prometi a ele um piquenique e isso pareceu convencê-lo.

Aquela última hora foi uma das mais felizes que já passei com meu filho. Sob a luz do sol, as olheiras pareciam desaparecer e, depois de alguns minutos, até parou de olhar para o céu o tempo todo. Caminhamos, às vezes conversando, às vezes em silêncio, e o mundo parecia estar bem.

Há uma colina perto de onde moro. É uma encosta suave e gramada, no entanto sobe bastante. Dá para vê-la da janela da cozinha da minha casa. Esse é um dos motivos pelos quais estou me mudando. Foi nessa colina que estávamos subindo quando aconteceu. Tínhamos acabado de chegar ao topo, quando Robert se virou para mim com uma expressão repentina de puro terror no rosto. Perguntei o que havia de errado; ele apenas gritou e me empurrou. Caí com força no chão e não pude fazer nada além de observar meu filho correr colina acima.

E então... E então... Esta é a parte que não consigo descrever com palavras. Vou tentar, no entanto o que quer que você imagine ao ler isso não será o que aconteceu; será a descrição mais próxima que consigo descrever antes de ganhar uma enxaqueca por pensar demais nisso. O mais próximo que posso dizer é o seguinte... O céu o comeu.

Arte por kazoosnow.

Ele não caiu, nem voou, nem decolou. Não havia nada no céu que o tenha levado. Não foi uma mão que se estendeu e o agarrou, foi o próprio céu, todo o céu, até onde a vista alcançava, que se contorceu e se moveu como... Como a areia se movendo. Ele comeu Robert. Essa é a única maneira que consigo descrever. Por favor, não me faça explicar de novo.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Antes de abordar o ponto central deste depoimento, ou seja, a questão de... Se o céu pode comer pessoas, há alguns outros fatos que precisam ser abordados. Em primeiro lugar, a empresa para a qual a Sra. Kelly afirma que Robert trabalhava, Open Skydiving, não existe e, pelo que a pesquisa de Sasha pôde determinar, nunca existiu. A empresa não consta em nenhum registro comercial e não possui nenhuma inscrição em nenhum dos órgãos responsáveis ​​pela imensa quantidade de licenças que uma empresa de paraquedismo precisaria. Havia um ou dois artigos de notícias do final de 2000 que faziam referência a eventos da Open Skydiving, ou às vezes da Open Skydiving School, entretanto, seja lá o que fossem, não eram empresas oficialmente licenciadas, então ou estavam mentindo para Robert Kelly, ou ele estava mentindo para sua mãe.

Não foram fornecidos muitos detalhes sobre o salto de paraquedas em que Robert Kelly afirma ter sido transportado para um infinito céu azul, todavia Tim realmente se superou aqui e, depois de passar quase um dia vasculhando relatórios de acidentes e incidentes na área de Doncaster em junho de 2002, encontrou um que parece relevante. Em 3 de junho de 2002, Joseph Puce relatou ter ouvido um impacto no campo ao lado de sua casa. Ao investigar, descobriu que um paraquedas havia atingido o solo em alta velocidade, enterrando-se parcialmente na terra. Não havia sinal de nenhum corpo, nem de ninguém que pudesse estar usando o paraquedas, e também não tinha nenhum logotipo ou etiqueta. Na entrevista posterior de Tim, o Sr. Puce negou com veemência que houvesse aviões ou paraquedismo acontecendo perto de sua propriedade. O paraquedas estava fechado.

De acordo com os relatórios policiais, a Sra. Kelly tentou registrar o desaparecimento de Robert em 7 de junho, mas foi difícil devido à ausência de informações sobre amigos ou residências. Na verdade, nos quatro anos anteriores, é difícil encontrar qualquer evidência da existência de Robert Kelly. Pode ser apenas que tenha se mudado muito, porém parece ser algo mais do que isso. A Sra. Kelly recusou nosso pedido de entrevista posterior, dizendo que não tinha desejo de revisitar o incidente.

Outra coisa me incomoda. Se as lembranças da Sra. Kelly estiverem corretas, em relação a como Robert descreveu seu último salto de paraquedas, ele mencionou Harriet Fairchild, a instrutora, e um senhor chamado Simon. Pode ser apenas uma coincidência, contudo me lembro que o nome “Simon Fairchild” foi um dos usados ​​por...

[A porta se abre e uma cadeira cai no chão]

Jonathan Sims: Meu Deus! Martin?

[Som molhado e de algo se mexendo]

Jonathan Sims: O que... Que diabos é isso? O que são essas coisas?

[CLICK]

***

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