Capítulo 10: Envolver-se com os negócios dos Cavaleiros Angelicais é uma grande dor de cabeça!
— É uma honra conhecê-lo, Arcanjo Rafael Hyurandell. Sou Chastille Lillqvist da catedral da filial Kianoides da igreja.
Enquanto Zagan e os outros exploravam o Palácio do Arquidemônio, Chastille curvou a cabeça ao se apresentar.
Com sua autoridade como Cavaleira Angelical suspensa, Chastille não tinha permissão para portar sua Espada Sagrada ou vestir sua Armadura Ungida. Depois de esbarrar em Zagan e os outros, ela trocou de roupa e vestiu um traje cerimonial, tornando-se apenas uma garota humana comum. Atrás dela, seus três subordinados estavam enfileirados, como sempre.
E o Cavaleiro Angelical à sua frente era um homem com uma aura intimidadora e aterradora que deixava claro que ainda não havia passado do auge.
O que chamava a atenção logo em um primeiro olhar era a profunda cicatriz que atravessava seu rosto, da testa à bochecha. Seus cabelos loiros grisalhos estavam curtos, e seus olhos azuis profundos brilhavam com uma luz intensa que dava a impressão de que seu olhar por si só poderia matar. E então, havia sua Armadura Ungida, que parecia justa em seu corpo robusto. Com seu maxilar grosso e nariz finamente esculpido, ele tinha uma aparência diabólica que faria até os mais fracos de coração engasgarem ao vê-lo.
E em suas costas, carregava uma grande espada. Uma Espada Sagrada.
Todas as doze Espadas Sagradas tinham o mesmo formato. Em outras palavras, deveria ser igual à Espada Sagrada concedida a Chastille, porém a sua parecia que podia ser usada com uma só mão.
Orgulhando-se de deter o recorde de maior número de feiticeiros subjugados na história, com 499, este homem era o símbolo do poder da igreja. Arcanjo Rafael.
Os três Cavaleiros Angelicais que aguardavam atrás de Chastille não podiam fazer nada além observá-lo, rígidos.
Contudo, não havia outros Cavaleiros Angelicais à vista ao redor de Rafael.
Um Arcanjo... Veio aqui sem uma única escolta...? Já que eram a maior força de combate da igreja, os Arcanjos precisavam de proteção. Chastille e os outros Arcanjos lutavam na vanguarda durante a subjugação de feiticeiros, no entanto sempre tinham subordinados que os protegiam. E, entretanto, o único a vir aqui foi Rafael.
Era certo que era poderoso, todavia ela ainda achava sua conduta bastante imprudente.
Depois de Rafael olhar para Chastille da ponta dos pés à cabeça, esboçou um sorriso que parecia uma fenda atravessando uma rocha.
— Então você é a maldita “Donzela da Espada Sagrada” de quem ouvi falar em todos os relatórios, hein? Dizem que está em penitência por ir contra as ordens da igreja, mas, ao contrário do que eu esperava, você está com uma expressão muito positiva.
Desobedecendo às ordens da igreja... Parecia que o fato de ter acobertado Zagan não havia sido comunicado a outros. Talvez, essa era a consideração do Cardeal Clavwell.
— Essas palavras são mais do que mereço. — respondeu Chastille em voz baixa, e Rafael bufou com um “hmph”.
— Quantos daqueles malditos feiticeiros você já eliminou?
Chastille mordeu o lábio como se perguntasse, “Sério, é isso que pergunta primeiro?”.
— Não creio que seja um número do qual valha a pena se gabar.
— Oh...? — Rafael estreitou os olhos de forma arrogante.
(S-Senhorita Chastille, por favor, preste atenção em como fala!)
(Por mais diminutos que sejamos, nem mesmo usar nossas vidas como escudo será suficiente para protegê-la!)
(Argh, que coisa horrível. Não juramos entre nós que daríamos nossas vidas pela senhorita Chastille?)
Os três cavaleiros murmuravam em voz baixa, porém quando Rafael olhou para eles, os três começaram a tremer e se calaram.
Isso arruinou o humor dele? Este era o Cavaleiro Angelical que havia matado o maior número de feiticeiros no mundo. Chastille não achava que tal pessoa hesitaria em matar uma aliada apóstata, dado o seu histórico de mortes. Em sua honesta opinião, já havia decidido que sua cabeça seria separada do corpo hoje.
Pensando bem, o motivo de estar andando pela cidade quando teve que encontrar esse homem pode ter sido porque queria conversar com alguém uma última vez.
Encontrar Zagan e Nephy ali... Foi uma coincidência boa demais.
Bem, acabou em choque e em lágrimas pelo fato de ele nem se lembrar.
E, contudo, Rafael assumiu uma postura desafiadora e soltou uma gargalhada sonora como se estivesse se divertindo com Chastille.
— Hahaha! Faz muito tempo que alguém não fala assim na minha frente. Pode ser, inclusive, a primeira vez para uma mulher também. Que prazer. Pode se gabar disso no inferno.
Com um estalo, o ar congelou.
Como pensei, chegamos a esse ponto... Tch! Com uma espada usada apenas para exibição pendurada na cintura, Chastille estava basicamente desarmada. Para Rafael, aquilo não mudaria o fato de que poderia esmagá-la como um inseto.
— U-UWAAAH, por favor, fuja, senhorita Chastille! — os três Cavaleiros Angelicais saltaram para frente. No entanto, eram impotentes demais para enfrentar aquele gigante. E naquele exato momento...
— Lorde Rafael, o que está fazendo com meus Cavaleiros Angelicais?
Quem rugiu para o cavaleiro gigante foi um cardeal idoso.
Passos pesados ecoaram do interior da catedral, onde ficava o escritório do cardeal.
— Hmph. Clavwell, hein? Não tenho negócios com um homem que não consegue pensar em nada que não esteja escrito em um papel.
— Mesmo que não tenha negócios comigo, tenho o dever jurado de proteger os Cavaleiros Angelicais sob meus cuidados. Saiba que não lhe será permitido fazer o que bem entender aqui.
Ouvir palavras tão firmes fez Chastille sentir que lágrimas estavam prestes a brotar de seus olhos.
Quanto a Rafael, encarou o cardeal sem demonstrar qualquer sinal de respeito.
— Mais importante, seu desgraçado... Parece que você revogou o acesso desta aqui à sua Espada Sagrada?
— Não foi revogada, só está sob custódia temporária.
— Não é a mesma coisa? Onde está?
E em resposta, Clavwell lançou-lhe um olhar incrédulo.
— E o que pretende fazer ao descobrir onde está?
— Você sabe muito bem. Uma espada só tem valor quando é empunhada. Que sentido faz guardá-la na bainha e usá-la como um enfeite vistoso?
Clavwell então o questionou em tom baixo, como se buscasse o significado de suas palavras.
— Por acaso, está me pedindo para devolvê-la a Chastille?
— Isso nem precisa ser dito. A Espada Sagrada escolhe seu portador por vontade própria. Enquanto o portador estiver vivo, ninguém mais poderá empunhá-la. — Rafael fez uma pausa por um momento, depois olhou para Chastille e continuou. — No entanto, isso só se aplica enquanto Chastille ainda respirar. Ela perderia a posse da espada se fosse estrangulada, por exemplo. — explicou, esboçando um sorriso macabro como se dissesse que aceitaria de bom grado tal papel.
— Que resposta repugnante! — exclamou Clavwell, recuando em choque. E, enquanto fazia o sinal da cruz em frente ao peito e o encarava, Rafael se pronunciou sem qualquer sinal de timidez.
— Do que vocês têm tanto medo? Não estou apenas constatando fatos? Em primeiro lugar, vocês, seus bastardos, não têm o direito de se intrometer em como um portador de uma Espada Sagrada brande sua lâmina. Tudo o que precisam fazer é pensar em como lidar com as consequências. — afirmou. O jeito como falava dava a entender que, contanto que alguém fosse reconhecido por uma Espada Sagrada, até mesmo um massacre seria permitido.
Este é... O Arcanjo mais terrível...
Repreendendo as partes fracas de si mesma que queriam vacilar, Chastille forçou sua passagem para a frente de Rafael.
— Você foi longe demais, Lorde Rafael. Se empunhássemos nossas espadas apenas para satisfazer nossos desejos mais vis, isso por si só seria heresia! — rugiu Chastille, com as mãos tremendo de medo o tempo todo. E enquanto as apertava com força, lançou um olhar furioso para Rafael.
— Ah, então vai falar comigo de forma tão ríspida não apenas uma, mas duas vezes, é? — Rafael resmungou como se estivesse se divertindo, depois voltou sua atenção para o cardeal.
— De qualquer forma, está tudo bem, Clavwell? Um desses malditos Cavaleiros Angelicais que você deveria estar protegendo está prestes a perder a vida aqui.
— Ugh... — Clavwell sabia que havia uma grande possibilidade de Chastille ser executada ali mesmo, então não pôde fazer nada além de soltar um gemido.
Porém por que ele está tentando me fazer empunhar a Espada Sagrada? Se o seu objetivo é apenas uma execução, então teria sido suficiente abatê-la agora. Afinal, já tinha motivos de sobra para fazê-lo.
Então, ele está apenas tentando se divertir com a minha resistência? Ela não queria pensar que um homem assim tivesse sido escolhido por uma Espada Sagrada, entretanto não conseguia pensar em outra coisa.
— Entendido. Chastille, siga-me! — disse Clavwell. E, como se tivesse sido vencido pela persistência de Rafael, ele convidou Chastille para as profundezas da catedral.
Do outro lado da porta, havia um tapete vermelho estendido no chão, e várias portas enfileiradas levavam aos escritórios do cardeal e dos Cavaleiros Angelicais. No final, havia um portão com bustos modelados como anjos protegendo-o de cada lado, juntamente com dois Cavaleiros Angelicais servindo de guarda.
Como era de se esperar, Rafael e os três Cavaleiros Angelicais não os seguiram. E depois de verificar isso, o Cardeal Clavwell sussurrou para Chastille.
— Se é correto ou não devolver isso a você agora, é algo que nem eu sei. Por algum acaso, isto pode dar àquele homem um pretexto para matá-la, inclusive.
— Estou plenamente ciente. — afirmou Chastille. Não sabia quais eram os verdadeiros motivos de Rafael, contudo talvez não terminaria numa situação em que Chastille sequer pudesse empunhar uma espada, no mínimo.
Fazer Clavwell devolver sua Espada Sagrada parecia mais uma manobra para protegê-la do que uma tentativa de dar um exemplo aos outros.
Ao chegarem ao portão do anjo, os Cavaleiros Angelicais que serviam de guardiões bloquearam seu caminho.
— Vossa Eminência Clavwell, o que o traz aqui?
— Chegou a hora de devolver a Espada Sagrada a Chastille. Por favor, abra o caminho.
Os dois guardiões trocaram olhares, no entanto se afastaram em seguida para os lados. O cardeal era o chefe executivo da igreja em que estavam, então nada podiam fazer para obstruir seu caminho.
E, enquanto prosseguia, os dois guardiões pararam diante de Chastille.
— Quanto a você, por favor, espere aqui.
Por todos os direitos, era uma atitude desrespeitosa para com ela, no entanto Chastille esperou onde estava. E logo, Clavwell retornou com sua espada em mãos.
— Tenho fé de que superará qualquer obstáculo com suas próprias mãos. — disse, e então colocou a Espada Sagrada nas mãos de Chastille.
***
Anoitecer. Um bar em Kianoides.
— Hyahyahyahyahyahya! Você adotou uma criança, sério?
Quem soltou uma risada vulgar foi Barbatos, o amigo indesejável de Zagan.
Depois de terminar de pegar novos livros no Palácio do Arquidemônio, Zagan foi chamado por seu amigo indesejável e voltou para a cidade sozinho assim que chegou em casa.
Nephy e Foll devem estar terminando o jantar agora, certo...?
Como foi chamado a um bar, ele disse a Nephy que não precisaria jantar. E agora, Zagan se perguntava se fazia algum sentido ter vindo para cá, já que perderia o tempo com elas. Enquanto se questionava sobre sua escolha, a risada idiota de Barbatos continuava a ecoar.
Como era de se esperar, Zagan respondeu em tom cortante.
— Por que você sabe disso?
— Gerageragera. Sabe, Zagan, por que não tenta falar depois de olhar para a sua própria cara no espelho? Se as pessoas ouvissem que um idiota com uma cara de vilão como a sua está andando por aí com uma pirralha de cara inocente, viraria um escândalo e suspeita de um sequestro, não é?
Zagan não sabia o quão longe os rumores haviam se espalhado, entretanto parecia que o fato de estar andando com Foll tinha se tornado o assunto da cidade.
Bem, o número de pessoas que se meteriam com Foll deveria diminuir proporcionalmente a isso, pelo menos...
Não havia nenhum humano por aí que ousasse incorrer em seu desagrado sabendo seu nome. Se houvesse algum, no máximo seriam os Cavaleiros Angelicais da igreja, todavia mesmo estes não eram tolos o suficiente para desafiá-lo sem os meios para fazê-lo.
Já era mais do que suficiente que se espalhasse a notícia de que Foll estava sob seu patrocínio. E parecia que Barbatos havia convocado Zagan para verificar a veracidade desses rumores.
— Posso voltar agora?
— Ah, qual é, não seja tão frio. Não acabei de deixar você beber toda essa bebida de qualidade? Pelo menos vamos fofocar um pouco. Não custa nada, né?
Parecia que ele já estava completamente bêbado antes mesmo de Zagan chegar. E enquanto seu rosto, com aparência doentia, ficava ainda mais vermelho por causa da bebida, Barbatos passou o braço em volta de Zagan, em tom de brincadeira.
Dito isso, a bebida era de fato deliciosa. Era a primeira vez que Zagan experimentava um destilado servido sobre um bloco de gelo, e a leve doçura misturada à sensação de queimação na garganta era tão agradável que o fez soltar um suspiro involuntário.
Será que Nephy beberia esse tipo de coisa? Se fosse beber de qualquer jeito, em vez de dividir com aquele homem irritante, preferiria compartilhar com aquela moça adorável. E agora queria trazer uma garrafa de volta como presente.
Ao recobrar os sentidos, Zagan empurrou Barbatos para trás, que o abraçava de forma excessivamente familiar.
— Você está imundo. Além do mais, se é bebida alcoólica, então traga para o castelo. Estou ocupado cuidando da minha discípula.
— Haaa, aposto que só quer ficar todo meloso com aquela sua escrava élfica.
— N-Não estou fazendo nada meloso, ouviu?
— Que diabos? — disse Barbatos, cutucando o nariz e revirando os olhos para Zagan.
Será que eu posso... Dar um soco nesse cara e jogá-lo longe? Sem se importar com o olhar frio que lhe foi retribuído, Barbatos começou a dar repetidos tapas no ombro de Zagan.
— Então, afinal, o que é essa pirralha que está levando junto? Não é seu passatempo usar sacrifícios, né? Então é um animal de estimação? Não vai me dizer que é outra discípula, vai?
— Olha, ela é alguém que você conhece, sabia?
— O quê? Então é uma feiticeira? Ela é uma mulher, certo? — Barbatos perguntou, cruzou os braços e refletiu profundamente sobre o assunto.
— Se for uma feiticeira, por aqui seria a Encantadora Gremory? Mas todo mundo sabe que ela odeia homens. Além do mais, não é criança. Porém tirando essa...
Observar Barbatos gemer diante da situação fez Zagan se sentir secretamente aliviado.
Se esse cara não percebeu, então o fato de Foll ser um dragão não deve ter vazado por enquanto, né?
Talvez fosse só uma questão de tempo até que os outros percebessem que Foll era um dragão. Ao ver sua feitiçaria... Ou melhor, sua transformação parcial em dragão, ficaria claro que era Valefor.
Era um resultado inevitável, contudo era cedo demais para isso. Afinal, Zagan seguia tendo inimigos.
O nome de Zagan, como Arquidemônio, já era bem conhecido, e aqueles que considerariam isso inaceitável e o atacariam já haviam desaparecido. Tal como planejado, tanto feiticeiros quanto Cavaleiros Angelicais deveriam ter percebido que não valia a pena conspirar contra a sua pessoa.
Mesmo assim, não era perfeito. Com certeza havia feiticeiros por aí esperando que o novíssimo Arquidemônio tropeçasse para que aproveitassem a brecha. Feiticeiros com poder suficiente para tentá-lo existiam. E, portanto, ainda levaria um pouco mais de tempo para fazê-los desistir também.
Em contrapartida, havia o nome, o legado e a mana do “Arquidemônio”.
É por essa razão que... Talvez eu ainda precise de mais uma carta na manga.
Zagan precisava de algo que incutisse medo nos corações de todos os outros feiticeiros. Com Nephy, e agora Foll, havia duas coisas que precisava proteger a todo custo.
E enquanto pensava nessas coisas, Barbatos, que até então apenas resmungava, de repente suspirou e disse.
— Ah, é mesmo, Valefor!
O corpo de Zagan enrijeceu de repente.
Esse cara... Descobriu a identidade de Foll? E então, fingindo compostura, Zagan inclinou a cabeça para o lado.
— Do que está falando?
— Não, há pouco tempo, Valefor deve ter atacado seu covil, certo? Aquele grandalhão com a máscara e a armadura.
— Ah. É, ele atacou, agora que mencionou.
Depois de se acostumar com Foll como ela era agora, Zagan se esqueceu completamente de que ela e o Valefor que o atacou eram a mesma pessoa.
— E daí?
Enquanto Zagan inclinava a cabeça para o lado, Barbatos fez uma careta de descontentamento.
— Então nem vale a pena lembrar? Corre um boato de que Valefor está desaparecido, entretanto o que aconteceu no final? Você o matou?
— Quem sabe? Como elimino intrusos é algo que acredito que já saiba muito bem, não é?
E enquanto Zagan respondia como se estivesse desviando da pergunta, Barbatos olhou para o teto.
— Cara, que desperdício. Tinha um boato correndo solto de que ele é, na verdade, um dragão. Seu cadáver teria servido como um bom catalisador, sabia?
Justamente porque essas pessoas existiam, a identidade de Foll precisava ser mantida em segredo. Ao ouvir suas palavras, Zagan apenas assentiu como se não tivesse o menor interesse nelas.
— Oh, agora que mencionou, acho que já ouvi isso antes.
— O quê? Sabia e mesmo assim se desfez do cara? Deixa eu te perguntar só por precaução, mas ele está morto?
— Se tiver sorte, não deveria estar vivo? — Zagan respondeu com a expressão mais fria que conseguiu, e Barbatos estalou a língua enquanto se afastava.
Por fim, depois de virar outra caneca de cerveja, Barbatos respondeu.
— Então é como sempre? Bom, tanto faz. Esquece o Valefor, vamos falar daquela pirralha que está arrastando por aí. Quem é?
Esse cara não está falando essas besteiras sabendo de tudo, né...? Como a resposta certa já havia sido adivinhada, Zagan deu de ombros, reprimindo o impulso de fazer uma cara de poucos amigos.
— Quem sabe? Pense nela como uma criança adotada ou algo assim.
— Gehyahyahyahyahyaa! Uma criança adotada... Adotada... Buhyahyahyahaha!
Esse cara é um caso perdido.
E justo quando Zagan estava pensando em dar um soco em seu amigo indesejável, que ria a ponto de ter lágrimas nos olhos... Barbatos fez uma expressão grave.
— Bom, vamos parar com as piadas, certo?
— Então resolveu ir direto ao ponto principal?
Nem mesmo esse homem tinha tempo livre suficiente para só confrontar Zagan por fofoca.
— Parece que um sujeito problemático chegou à igreja. Achei que deveria te avisar.
— Um sujeito problemático?
— Um portador de uma Espada Sagrada. Não é como aquela garota da última vez, entendeu? Este é muito mais perigoso.
Parecia que um Arcanjo diferente de Chastille havia chegado. O pensamento fez Zagan soltar um suspiro profundo com um “Hooo!”.
— Eles moverem as Espadas Sagradas... A igreja está vindo em peso, hein? Estão pensando em atacar o novo Arquidemônio ou o quê?
A discórdia entre a igreja e os feiticeiros durou mil anos. É claro que, ao longo dessa longa história, ocorreram muitos confrontos entre Arquidemônios e Arcanjos.
Porém, embora existam registros de Arcanjos repelindo Arquidemônios, não há registros de nenhum que tenha derrotado um.
Foi por essa razão que, embora os Arcanjos fossem capazes de deter os Arquidemônios, não conseguiam matá-los. Esse era um entendimento comum entre os feiticeiros e a igreja. Era natural, no entanto, que a igreja pensasse em reverter esse fato.
Barbatos então fez uma expressão preocupada.
— Eu me pergunto... Esse novo Arcanjo que chegou é bem estranho. De qualquer forma, é o monstro com o maior número de feiticeiros mortos na história.
— Pelo visto não é nada gentil.
— Com certeza. O número de feiticeiros que matou é 499, e não sei o que o deixou tão irritado, contudo existem cálculos que dizem que ele mata um feiticeiro a cada três dias. E então, você foi escolhido como o comemorativo número 500!
Ouvir esse número extraordinário fez Zagan franzir a testa. Afinal, se fosse um número divulgado por alguém da igreja, provavelmente seria um tanto exagerado, entretanto Barbatos não era o tipo de homem que falava tais bobagens.
Zagan então baixou a cabeça, pensativo.
— Que estranho. Ainda que seja um portador de uma Espada Sagrada, será que de fato conseguiria matar 500 feiticeiros sozinho?
Entre os feiticeiros, a diferença entre aqueles que possuíam apenas o mínimo de poder e os candidatos a Arquidemônio era como a diferença entre o céu e a terra.
Se um candidato a Arquidemônio possuísse 10.000 circuitos, os circuitos de um feiticeiro novato seriam, no máximo, meros 100. Mesmo que um matasse 100 novatos, um candidato a Arquidemônio poderia facilmente derrotá-los se desafiado. Todavia se havia um total de 499 pessoas, então sem dúvida teria enfrentado mais do que apenas um ou dois candidatos a Arquidemônio.
Indo além, até entre os candidatos a Arquidemônio, alguém como Barbatos teria mais de 20.000 circuitos. Quando se tratava de habilidade normal como feiticeiro, o homem sem esperança diante dos olhos de Zagan era muito melhor do que ele.
Não era como se Chastille tivesse revelado todas as suas cartas quando enfrentou Barbatos outro dia, mas mesmo assim, se ela lutasse contra um candidato a Arquidemônio, não achava que conseguiria sair ilesa.
Será que tem algum ás na manga além da Espada Sagrada? E enquanto Zagan estava perplexo com esse pensamento, Barbatos largou sua caneca e esboçou um sorriso.
— A propósito, dizem que matou um dragão e o comeu.
— Hã? — disse Zagan, confuso, e quase instintivamente se levantou da cadeira.
— Isso... É verdade?
— É. Afinal, a igreja não reconhece a predação de dragões. É informação não oficial, mas parece ser verdade que matou um dragão. Se obteve o poder de um dragão, então não é tão impossível que tenha matado tantos feiticeiros, certo?
Droga, então é isto... Zagan praguejou em pensamento com grande amargura.
“O que há de estranho... Em um feiticeiro odiar Cavaleiros Angelicais?” Foll tinha algum tipo de rancor contra os Cavaleiros Angelicais. Além do mais, desde o momento em que a conheceu, ela desejava uma quantidade sobrenatural de poder, apesar de ser uma feiticeira e de ser um dragão. E então surge um Cavaleiro Angelical que matou um dragão.
Não era como se fosse uma garantia que fosse caso. Porém, esperar pela sorte de que esses fatos não tivessem nenhuma relação era bastante irracional.
Depois de considerar, Zagan lançou um olhar e franziu a testa para Barbatos.
— Está sendo muito generoso com suas informações hoje...
— Bem, considere como um pedido de desculpas pela última vez. Ou até mesmo um tributo. Em vez de criar um inimigo, poderei saborear um néctar mais doce te acompanhando nessa aventura.
— Vejo que sabe como adular, hein?
Fingindo estar desconcertado, Zagan então serviu um pouco de bebida em seu copo.
— Sou bastante habilidoso, sabia? Duvido que esta seja uma oferta tão ruim.
— Se fosse uma pessoa tão admirável, eu poderia até confiar um pouco em você... Então, o que quer? — Zagan virou o copo e perguntou, contudo Barbatos apenas soltou uma risada com um “Hehehe”.
— O legado do Ancião, poderia deixar a administração para mim? Afinal, é um feiticeiro que viveu por mil anos. Mesmo que chamemos apenas de legado, não deveria ser uma quantia qualquer. É demais para que o administre sozinho, não é?
O fato de Barbatos ter acertado em cheio num ponto tão desagradável fez com que Zagan não conseguisse esconder sua expressão carrancuda. No entanto não hesitou em responder.
— Rejeitado.
— Que diabos é essa resposta?
— Você só vai esconder tudo que for inconveniente para eu ver.
— Não é óbvio? Qual o problema? — Barbatos encarou Zagan, perplexo, como se não houvesse necessidade de dizer tal coisa depois de tanto tempo.
Por que ele consegue ser tão estúpido mesmo sabendo tanto...? Pelo contrário, foi Zagan quem chegou a uma compreensão preocupante.
— Haaa. Vou dividir alguns escritos sobre feitiçaria do legado com você. Se satisfaça com isso.
— Bem, acho que está bom o suficiente. Cara, ter um amigo generoso é realmente a melhor coisa. — disse Barbatos, batendo sua caneca no copo de Zagan e fazendo um brinde sozinho.
Depois disso, a atmosfera na loja congelou. A porta do bar se abriu e um certo cliente entrou. Como Barbatos estava de costas para a porta, não percebeu e continuou a conversar, animado.
— Entretanto eu que vou decidir qual vou levar, entendeu? Se me entregar um manuscrito qualquer sobre feitiçaria só porque é do legado do Ancião, nem vou me dar ao trabalho de olhar!
— A propósito, Barbatos.
— O quê?
Levantando seu copo de bebida, Zagan questionou Barbatos enquanto olhava para o cliente que entrara através do vidro.
— Aquele Cavaleiro Angelical de quem falou agora há pouco, como é a sua aparência?
— Ah, vejamos... Ouvi dizer que é um homem enorme que não imaginaria ser um velho gagá. Também tem uma cicatriz enorme no rosto. Ouvi dizer que foi o dragão que matou.
— Sério...?
Enquanto observava o cliente que entrara no bar, Zagan respondeu com concordância. Em seguida, dando mais um gole em sua bebida, fez uma expressão de incômodo ao fazer mais uma pergunta a Barbatos.
— Então, sobre aquela cicatriz, ela corta profundamente da bochecha esquerda até a sobrancelha direita?
— Hã? Bem, sim, ouvi dizer que era algo parecido. Você está muito bem informado, hein?
— É uma completa coincidência, mas já vi um homem com características muito semelhantes.
— Caramba, cara, estou surpreso que tenha saído vivo. Ele parece só pensar em matar feiticeiros, sabe? Se tivesse te visto, é provável que tivesse atacado na mesma hora.
Zagan continuou olhando para trás de Barbatos, que soltava sua risada estridente.
— Parece que... Essa parte vem a seguir.
— Hã...?
Nesse momento, Barbatos enfim pareceu notar o olhar de Zagan.
E ao olhar por cima do ombro, seu rosto empalideceu.
Porque ali estava... Um homem grande com o rosto marcado por cicatrizes, carregando uma Espada Sagrada.
***
— Rafael Hyurandell...!
Derrubando a cadeira, Barbatos se levantou num pulo. E sem lhe dirigir um único olhar, o Cavaleiro Angelical de rosto marcado encarou Zagan.
Ele veio de repente para me decapitar? O poder da Espada Sagrada era problemático, porém era presunçoso pensar que uma única espada sozinha pudesse derrotar um Arquidemônio. Se fosse tão tolo, não teria vivido tanto tempo.
Enquanto Zagan franzia a testa, incapaz de decifrar o olhar do Cavaleiro Angelical, Barbatos ergueu a voz trêmula.
— S-Seu filho da puta, por que está aqui?
O Cavaleiro Angelical de rosto marcado por cicatrizes por fim voltou sua atenção para Barbatos. E, ao fazê-lo, um sorriso se formou em seu rosto brusco, que parecia uma superfície rochosa. Diante daquela expressão diabólica, a azarada filha do dono do bar, que estava atrás de Barbatos, soltou um grito tão alto que quase desmaiou.
Mesmo sem olhar diretamente para ela, seu olhar emanava um poder imenso. E, encarando aquele sorriso, que já causava uma sensação de pressão física, Barbatos se resolveu e rugiu.
— U-UOOOOOOH, eu vou acabar com você!
A luz da mana brilhou em ambas as mãos de Barbatos, e o Cavaleiro Angelical de rosto marcado por cicatrizes também colocou a mão no cabo da Espada Sagrada em suas costas.
— Pare com essa gritaria, Barbatos. — disse Zagan, colocando seu copo sobre a mesa com um baque. E, no instante em que o fez, a mana que jorrava das mãos de Barbatos desapareceu. Não que Barbatos tivesse parado. Não, Zagan tinha a “devorado”.
Depois daquilo, Zagan fez um pequeno aceno com o dedo no ar, e a cadeira que Barbatos havia derrubado voltou à sua posição original.
— Certo, sente-se. A bebida vai perder o gosto.
— Por que está tão despreocupado? Está planejando morrer em silêncio?
Em resposta ao uivo de Barbatos, como se seu medo tivesse sido substituído por raiva, Zagan balançou a cabeça como se tudo fosse um incômodo.
— Aquele cara ali... Não parece querer lutar, sabe?
— De que porra está falando? Sua mão está bem na empunhadura da espada, não está?
— Não é porque você provocou a briga?
Depois que Barbatos começou a conjurar magia, o Cavaleiro Angelical de rosto marcado pegou a espada. E Zagan não ignorou esse fato.
Além disso, também não sinto nenhuma sede de sangue ou hostilidade.
Nem Nephy nem Foll eram exatamente especialistas em expressar emoções. Não, no caso de Foll, em vez de não expressar emoções, apenas não falava o suficiente. Era por esse motivo que conhecia esse método de perceber intenções. De qualquer forma, havia muitas coisas que não podiam ser conhecidas apenas olhando para seus rostos.
Era por esse motivo que, quando se tratava do que elas estavam pensando e do que queriam que fizesse, Zagan acabou desenvolvendo o hábito de observar as sutilezas das emoções, absorvendo-as.
O Cavaleiro Angelical com a cicatriz no rosto então deu um sorriso que parecia capaz de partir a terra.
— O Arquidemônio desta vez... É bem tranquilo, pelo que vejo.
— Um Arquidemônio não faz escândalo por qualquer coisinha.
Embora não sentir hostilidade alguma vinda de tamanha atrocidade fosse bastante estranho por si só, Zagan não conseguiu esconder seu espanto.
Por fim, olhou para a cadeira que havia erguido com magia. Parecia que, em tal situação, Barbatos não tinha intenção de voltar a beber, e mesmo depois que o Cavaleiro Angelical largou sua espada, Barbatos não se sentou.
— Parece que temos um lugar vago. Gostaria de se juntar a nós?
— Hmm... Que homem divertido.
Com uma expressão diabólica, o Cavaleiro Angelical fez uma careta em seu rosto marcado por cicatrizes e sentou-se na cadeira em frente a Zagan. Barbatos se fastou um pouco, como se quisesse evitá-lo.
Na verdade, você é quem deveria falar aqui. Não tenho nada para conversar com esse homem de rosto impassível, sabe? Zagan acabou convidando o homem a se sentar, simplesmente deixando a situação fluir, mas na verdade não tinha nenhum objetivo em mente.
Ou melhor, já que seu tempo com Nephy já havia sido perdido, só queria pelo menos aproveitar um pouco de bebida. Porém, apesar disso, Barbatos estava se afastando como se quisesse ser dispensado de se envolver em qualquer coisa. Pelo contrário...
— Droga, por que um feiticeiro como eu tem que passar por esse tipo de coisa?
— Sr. F-Feiticeiro, o senhor poderia salvar minha filha?
— Como se eu pudesse. Magia de cura está fora da minha área de especialização, contudo farei o que puder.
— Oooh... Eu deveria ter esperado isso do assistente do Mestre Zagan.
— Não sou um maldito assistente!
Enquanto xingava o homem que parecia ser o dono do bar, ele começou a cuidar da garota que havia desmaiado. Como ela apenas havia perdido a consciência, Zagan não achou necessário usar magia.
Eu também quero ir para lá, contudo... A mulher por quem Zagan havia se apaixonado era ninguém menos que Nephy, mas quando se tratava de decidir entre aquele homem de rosto impassível e a filha do dono, nem era preciso dizer com quem preferiria ficar.
Dito isso, nada seria resolvido apenas encarando Barbatos sem parar. E então, Zagan enfim se virou para encarar o Cavaleiro Angelical.
— Então, o que quer comigo, matador de dragões?
— É Rafael! — respondeu ele, servindo um pouco de bebida em um copo. Sua mão era tão enorme que a garrafa parecia uma miniatura.
— Ouvi dizer que meus companheiros lhe devem muito, então vim dar uma olhada em seu rosto.
Ele provavelmente estava falando de Chastille, o que fez Zagan dar de ombros como se não fosse nada demais.
— Meu rosto não é nada comparado ao seu, não é?
— Fuhaha, até você tem uma cara bem malvada, exatamente como diziam aqueles malditos boatos, não é?
Zagan estava constrangido com suas feições vilanescas, então se sentiu um pouco para baixo. Ainda assim, como se quisesse disfarçar, virou o copo.
— Ouvi dizer que matar feiticeiros é seu passatempo, então tudo bem se você adiar isso por hoje? Há dois feiticeiros aqui diante dos seus olhos.
A garota parecia bem agora, então Zagan fez essa pergunta a Rafael para evitar a saída rápida de seu amigo indesejável. Barbatos, que estava prestes a colocar a mão na maçaneta, o encarou com uma expressão sombria.
Depois que Rafael terminou a bebida em seu copo com um único gole, soltou uma risada sonora.
— Inútil. Tudo o que fiz foi espantar as faíscas que caíram na minha frente, mas aqueles ao meu redor acharam por bem fazer um escândalo.
Zagan então inclinou a cabeça para o lado, curioso.
De alguma forma, é diferente do que Barbatos estava dizendo. Ele é um maníaco homicida que havia matado quase 500 feiticeiros, ou pelo menos era o que diziam os rumores. Por esse motivo, Zagan estava preparado para que viesse com tudo, porém, para sua surpresa, eles estavam tendo uma conversa normal.
Talvez tivesse vindo para avaliar as capacidades de Zagan? E quando Zagan chegou a essa conclusão e tomou mais um gole de sua bebida, foi Rafael quem abriu a boca para falar.
— Parece que você teve uma discussão com Chastille, certo? Por que não a matou?
Percebendo um certo desconforto nas palavras do Cavaleiro Angelical, Zagan franziu a testa.
— Está perguntando como se ela não tivesse nenhuma chance de vencer, hein?
Chastille pode não ter sido páreo para ele, contudo mesmo assim, o orgulho deles como portadores de Espadas Sagradas não deveria permitir que falassem como se não pudessem vencer um feiticeiro. Zagan, na época, também ainda não era um Arquidemônio.
No entanto, Rafael apenas bufou e murmurou um “hmph” em resposta.
— Então, deixe-me perguntar em troca: ela era forte o suficiente para rivalizar com um bastardo como você?
— Quem sabe... Entretanto era a mais forte entre os humanos que enfrentei até agora. Disso tenho certeza, pelo menos.
Claro, até mesmo Barbatos conseguiu capturá-la, todavia Zagan não tinha visto Chastille brandir sua espada com todo seu poder. Zagan já havia enfrentado os dois antes, então achava improvável que Barbatos vencesse se lutassem frente a frente.
Após receber essa resposta, Rafael estreitou os olhos como uma lâmina.
— Entendo. Então isso significa que ela se tornou uma ameaça suficiente para a Igreja, não é?
— Hã...? Não entendi onde quer chegar... Do que está falando?
Para Zagan, soou como se ele estivesse dizendo que Chastille era uma inimiga da Igreja. E ouvir a confusão de Zagan fez o rosto impassível de Rafael se contorcer em um sorriso mais uma vez.
— Ela se opôs à subjugação de um Arquidemônio. Isto é mais do que motivo suficiente para a igreja decidir por sua execução. Eles chegaram ao ponto de revogar sua Espada Sagrada por um tempo... Uma decisão tola, devo dizer. Enquanto o portador de uma Espada Sagrada permanecer vivo, o próximo Cavaleiro Angelical não poderá sucedê-lo.
Ao ouvir aquilo, Zagan arregalou os olhos.
Essa garota é honesta demais! Teria sido ótimo se apenas seguisse o exemplo dos outros, todavia, ao mesmo tempo, parece que se rebelou de uma maneira tola e descarada. E não só isso, como até acobertou Zagan.
Com a cabeça entre as mãos, Zagan soltou um suspiro profundo.
— Eu realmente achei que ela não parecia ser do tipo que viveria muito tempo.
— Sim, de fato. Até fui avisá-la, mas acho que não me deu ouvidos.
Rafael falou como se tivesse alguma pena. E, em resposta, Zagan arregalou os olhos enquanto um pensamento inesperado lhe passava pela cabeça.
Será que esse cara planeja matar Chastille? Se disseram que seu passatempo era matar feiticeiros, então era lógico que também executaria com prazer Cavaleiros Angelicais que acobertassem feiticeiros.
Zagan sentiu como se por fim entendesse o motivo de não ter sentido nenhuma sede de sangue nele.
Então veio aqui para verificar a ligação entre mim e Chastille? Em outras palavras, estava procurando justificativa para matá-la.
A pessoa ligada a ela não era Zagan, e sim Nephy. Porém, não seria estranho interpretar a declaração de agora como se fosse ele.
Parece que fui pego aqui. Zagan soltou um gemido ao perceber que havia sido enganado. E naquele exato momento, Rafael se levantou.
— Bom, não tenho mais nada a ver com você. Vou me retirar.
— Espere! — murmurou Zagan, ciente de que sua voz havia se tornado fria.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou Rafael, virando-se com um olhar que deixava claro que aniquilaria Zagan se cometesse um único erro em sua fala.
— Chastille parece ser bastante querida nesta cidade. Também tem muitos amigos aqui. Não faltariam pessoas que lamentariam sua morte, garanto.
Nephy e Manuela sem dúvidas seriam lançadas em um profundo desespero. Foi por essa razão que Zagan o informou desse fato de maneira autoritária.
— Esta cidade é meu domínio. Se for longe demais fazendo o que bem entender, vou esmagá-lo e reduzi-lo a pó, entendeu?
Não importava se fazia parte da igreja ou se era uma Cavaleira Angelical. Enquanto Chastille vivesse em Kianoides, era propriedade de Zagan. E se este homem estava dizendo que a mataria de propósito, então Zagan o esmagaria. Simples assim. Era isso que significava estar sob a proteção de Zagan.
Os dois motivos pelos quais não o fez naquele instante foram porque havia uma montanha de “cidadãos que poderiam ser usados como escudos” ao redor deles, e também porque ainda estava tomando um drinque. Se o bar fosse destruído, poderia consertá-lo com feitiçaria, contudo sabia que era difícil consertar pessoas.
No entanto, esse era apenas um motivo para não querer lutar, e não um motivo para não lutar.
Entretanto é um saco ter que desviar dos escudos enquanto se ataca...
E talvez tendo entendido o que Zagan queria dizer, Rafael arregalou os olhos como se achasse suas ações bastante inesperadas.
— Isto não parece algo que um Arquidemônio diria, não é?
— Precisamente porque sou um Arquidemônio, sou arrogante.
E enquanto respondia com tanta altivez, Rafael caiu na gargalhada.
— Hahaha, como eu imaginava, você é justo o tipo de homem que esperei. Exatamente. O “mal” que a igreja deve exterminar.
O que ele percebeu em Rafael não foi sede de sangue, mas exaltação.
O que significa que não considera feiticeiros como pessoas, né?
Era como caçar aos seus olhos. Afinal, ao caçar feras, não se nutria sede de sangue nem hostilidade. Apenas se excitava com a própria morte.
E, enquanto Rafael esboçava um sorriso que parecia desafiar Zagan, este saiu do bar.
Aliviados da tensão, os clientes do bar soltaram um suspiro de alívio. Por fim, lançando um olhar de soslaio para Barbatos, que se deixou cair de volta em seu assento, Zagan murmurou algumas palavras.
— Não gosto disso.
— Não tem como um feiticeiro querer ter algo a ver com um Cavaleiro Angelical, certo? Não seria melhor ir lá e matá-lo agora?
Zagan soltou um pequeno suspiro enquanto observava Barbatos resmungar.
— Acho que sim. Então vá, Barbatos.
Barbatos abriu a boca em choque ao ouvir aquelas palavras.
— Ei, você acabou de me dizer para ir morrer, não foi?
— De forma alguma. É verdade que eu gostaria que você morresse, todavia não me entenda mal.
— Então quer que eu morra?
Achando seu amigo indesejável e de olhos lacrimejantes irritante enquanto o observava, Zagan balançou a cabeça.
— Já disse para não me entender mal, não disse? Quero que vá verificar como está Chastille.
O segundo nome de Barbatos era Purgatório.
Purgatório se referia ao plano que existia entre o céu e o inferno, porém, da mesma forma, também era algo semelhante a um vale entre dimensões que tinha uma presença controladora sobre o estranho espaço gerado pela feitiçaria.
E seu segundo nome vinha do fato de que podia entrar e sair livremente desse espaço.
Seja a habilidade que usou quando sequestrou Nephy e Chastille, ou o poder que usou para controlar com facilidade o círculo de teletransporte de Zagan, esse homem era um feiticeiro que se destacava em teletransporte e invocação. Seria fácil para ele apenas se esconder e proteger Chastille.
É provavelmente por isso que conseguiu realizar algo como invocar um demônio, não é?
Não foi por uma grande margem, contudo, como Zagan estava agora, seria difícil imitar Barbatos. Talvez pudesse se virar usando o poder do Sigilo do Arquidemônio, no entanto não era suficiente.
Então, Zagan fez seu pedido, embora Barbatos fez uma careta como se não quisesse participar.
— O quê? Por que deveria?
— Vou adicionar um extra à sua gorjeta. Tanto faz, só vá embora.
Barbatos então fez uma careta como se achasse essa reviravolta inesperada.
— Está mesmo planejando salvar uma Cavaleira Angelical?
— O inimigo do meu inimigo é meu amigo... É um ditado comum. Além do mais, não acha que seria divertido colocar um portador de uma Espada Sagrada em dívida comigo?
— Cara, acho que vai se arrepender disso, ouviu? — ainda xingando Zagan, Barbatos não recusou sua oferta.
E assim, Barbatos desapareceu em sua própria sombra. O mais provável é que tivesse se movido para o Purgatório que levava seu nome. E dali, seria capaz de investigar as circunstâncias de Chastille.
Zagan, no entanto, ficou surpreso.
— Aquele idiota simplesmente sumiu sem pagar a conta.
Zagan havia sido quem o mandou embora, entretanto de alguma forma sentia que tinha sido enganado.
***
Quando Zagan retornou ao castelo, já era quase hora de o dia seguinte começar.
Será que Nephy e Foll já estão dormindo? Nephy costumava acordar cedo. Se ainda estivesse acordada a essa hora, isso a afetaria no dia seguinte, todavia mesmo assim, era um pouco solitário para Zagan voltar e não ouvir sua voz.
Se quisesse apenas ver o seu rosto, tudo bem dar uma espiada no quarto, mas o quarto de Nephy ficava no último andar. Se ela ouvisse o barulho dele subindo as escadas, acabaria acordando-a. Por esse motivo optou em voltar para a sala do trono fazendo o mínimo de barulho possível, porém...
(Bem-vindo de volta, Mestre Zagan.) Nephy o esperava em frente à sala do trono, de camisola.
— Nephy, você ainda estava acordada?
Enquanto Zagan a encarava, curioso, Nephy colocou o dedo nos lábios e fez “Shhh”.
Olhando com atenção, percebeu que Nephy estava sentada com Foll dormindo profundamente em seu colo. Parecia que as duas estavam esperando sua volta.
(Eu não disse para ir dormir sem esperar?) Ao ouvir seu comentário, Nephy esboçou um sorriso irônico.
(Só estou aqui porque Foll insistiu em esperar o senhor voltar, Mestre Zagan.) A pessoa em questão pareceu ter adormecido no meio do caminho.
Ao ver tal cena, o rosto de Zagan relaxou.
(Ela era uma intrusa que me atacou porque queria o poder do Arquidemônio, não era?)
(E não foi o senhor quem acolheu essa criança, Mestre Zagan?) Enquanto dizia essas palavras, Nephy acariciou com carinho a cabeça de Foll, o que fez com que a criança se mexesse um pouco, como se estivesse com cócegas.
Zagan então se aproximou das duas de forma relaxada e sentou-se.
(Ah... Aliás, o que vocês jantaram hoje?) Zagan sentiu vontade de cobrir o rosto, se perguntando por que essa era a primeira coisa que perguntava ao voltar, contudo Nephy apenas assentiu em silêncio.
(Tivemos uma refeição simples de sopa de cordeiro e salada.)
(Ah, aquela sopa, hein? Que pena.)
(Ainda sobrou um pouco. Quer que eu esquente um pouco para você?)
(Hmm... Não, estou bem por agora. Afinal, Foll já está dormindo.) Depois de observar o rosto sereno de Foll enquanto dormia, percebeu que não queria acordá-la só para que ela lhe servisse um pouco de sopa. Então, Zagan decidiu esquentá-la e comer um pouco mais tarde.
Nephy então cobriu a boca como se a decisão lhe parecesse estranha. A mudança em sua expressão foi mínima como sempre, no entanto o jeito como suas orelhas tremeram de leve demonstrava que estava bastante alegre.
(Depois disso, Foll também fez o seu melhor. Ela carregou todos os livros que trouxemos de volta para os arquivos.)
(Havia um número considerável deles, não é?)
(Sim. Como queria lê-los o quanto antes, tentou deixá-los prontos para você ler assim que retornasse, Mestre Zagan.)
Zagan tentou imaginar a figura daquela garotinha entrando e saindo dos arquivos por sua causa. E enquanto imaginava, um suspiro encantado escapou de sua boca.
Será que... Ter uma família é algo parecido com esse sentimento...? Parecia que se esqueceria de que era um feiticeiro vilão se as coisas continuassem nesse ritmo.
Depois de um tempo, Nephy voltou seus olhos azuis para ele.
(Mestre Zagan, será que aconteceu alguma coisa com a Foll?)
(Hã? Não, acho que não aconteceu nada em particular.) Foll também não era boa em expressar suas emoções, todavia não achava que a tivesse deixado com raiva ou triste.
Enquanto Zagan inclinava a cabeça para o lado, Nephy olhava com carinho para o rosto adormecido de Foll.
(Hoje, Foll parecia muito feliz. Mestre Zagan, talvez não tenha percebido, mas é provável que tenha feito alguma coisa que a tenha alegrado.)
Algo que fez Foll feliz... Sem conseguir se lembrar do que era, Zagan tentou repassar a conversa que tiveram antes. E, enquanto mantinha a cabeça inclinada por um tempo, lembrou-se do momento em que Foll fez uma expressão estranhamente feliz.
(Ah, será que foi aquilo?)
(Tem alguma ideia?)
(Não foi nada demais, na verdade. Tudo o que lhe disse foi que, se passássemos mil anos juntos, não seríamos capazes de sentir o que o outro precisa apenas olhando para o rosto um do outro?)
Nephy, com os olhos bem abertos, piscou e soltou uma risadinha abafada.
(Se disser uma coisa dessas, qualquer um ficaria de bom humor.)
(Por quê?) Zagan não conseguia entender o significado das palavras de Nephy enquanto ela se apoiava em seu ombro.
(Acredito que o motivo da felicidade de Foll foi você ter dito “se passássemos mil anos juntos”. Quer dizer, os dragões não deveriam viver muito mais do que os humanos? E não é tudo, dizer que vocês se entenderiam...)
Ao ouvir Nephy explicando, fez com que a verdade por fim se revelasse para Zagan.
Os dragões míticos eram uma raça que, dizia-se, viviam mais de dez mil anos. Com a expectativa de vida original de um humano, era provavelmente impossível passar o tempo juntos. Afinal, não viviam o suficiente nem para sobreviver à infância de um jovem dragão. Sendo assim, era difícil encontrar uma existência com a qual pudessem conviver durante sua eternidade.
Talvez seja exatamente por isto que o rancor que ela guarda pela morte de seu dragão ancestral seja tão profundo.
Talvez a história fosse diferente se fosse um dragão adulto que já tivesse passado da infância. Porém, para um dragão jovem que ainda precisava dos pais, a angústia de ter sido roubada dessa companhia deveria ser a mesma que a dos humanos, ou talvez até muito maior.
Acho que, no fim das contas, se eu não acabar com o Rafael logo, vai acabar se tornando um problema.
Se Foll e aquele homem se encontrassem, na pior das hipóteses, era bastante provável que se transformasse em uma guerra total com a igreja. Se acontecesse, seria um grande retrocesso no objetivo de Zagan de fazer com que Nephy pudesse viver sob o sol.
E enquanto quebrava a cabeça pensando no que fazer, Nephy murmurou de forma um tanto solitária.
(Seria bom... Se eu também pudesse passar tanto tempo com você...)
E desta vez, foi Zagan quem a encarou com admiração.
(O que está dizendo? Não é óbvio que você estará conosco, Nephy?) Os elfos também eram uma raça com uma longa expectativa de vida, mesmo que não fosse tão longa quanto a dos dragões. Se alguém adicionasse o poder da feitiçaria, seria uma ninharia viver pelo menos mil anos.
Nesse sentido, quem mais precisava se esforçar para viver uma vida longa era Zagan.
Enquanto os olhos azuis de Nephy tremiam com a sua resposta, ela assentiu com um grande aceno de cabeça.
(Sim! Vou acompanhá-lo aonde quer que você vá, Mestre Zagan.)
Dessa vez, Zagan ficou surpreso e, antes que percebesse, seu rosto e o de Nephy estavam tão próximos que seus narizes quase se tocavam.
Ugh... Então os cílios da Nephy eram tão compridos assim, hein? Ou melhor, ela cheira bem!
Pensando bem, o fato de estar usando sua camisola indicava que tinha acabado de sair do banho, o que significava que Zagan estava sentindo o cheiro de sabonete. Ao perceber, ele tocou em seu cabelo, que estava solto com a mão. Ainda estava um pouco úmido, frio e macio.
Quase ao mesmo tempo, Nephy também se deu conta da distância entre eles. Seu rosto estava vermelho como um pimentão, da ponta de suas orelhas pontudas até o topo das bochechas.
(Nephy...) Ele a chamou pelo nome, e os olhos de Nephy se umedeceram. Enquanto seu olhar era atraído por seus lábios rosados, Zagan tocou suavemente sua bochecha.
(Ah...) Ela soltou um suspiro, o que apenas fez o rosto de Zagan ficar ainda mais quente.
Se fosse agora, sentiu que Nephy permitiria. Sim, tinha certeza de que não havia problema em tocar sua pele branca e pura, e prosseguir depois disso.
E então, quando seus lábios estavam prestes a se encontrar...
— Ei, Zagan! Isso é ruim!
Um círculo mágico brilhou no meio da sala, e a voz de seu amigo indesejável, que não conseguia ler a atmosfera, ecoou.
Tremendo de susto, Zagan e Nephy se distanciaram um do outro. E então, o rosto de Barbatos apareceu de repente no centro do círculo mágico.
— Ei, pelo menos me responda. O que você... Uh, hein?
Zagan se levantou devagar e parou diante de Barbatos. E em seu olhar, não se encontraria nem mesmo um resquício de compaixão.
— Venha à superfície, Barbatos. Vou te transformar em carne moída.
— Por que está tão irritado?
Zagan estava decidido a matar Barbatos, no entanto ver a “outra pessoa” que carregava dentro do círculo mágico o fez parar.
— Chastille?
— Você não me disse para ir dar uma olhada nela...?
Sim, Barbatos carregava a jovem que servia como Cavaleira Angelical. Ao contrário de quando Zagan a encontrou à tarde, Chastille levava sua Armadura Ungida. E em suas costas, uma Espada Sagrada.
Infelizmente, seu rosto estava pálido e sua respiração, ofegante. Não foi possível identificar nenhum ferimento externo, entretanto não parecia estar nada bem. Para entender melhor a situação, Zagan tocou o pescoço e a testa de Chastille e a examinou.
Seu pulso está acelerado. Todavia sua temperatura estava muito baixa. A partir dessa condição, deduziu em seguida a causa da irregularidade.
— Será que foi envenenamento?
— É provável. Deram algo para ela beber e tudo mais.
Zagan se virou para Nephy.
— Nephy, vou cuidar dela. Me ajude.
— S-Sim.
Apesar de ainda não ter assimilado toda a situação, Nephy assentiu na hora e colocou Foll no chão com cuidado enquanto se levantava.
E então, como era de se esperar, Foll acordou.
— Zagan, você está fazendo barulho.
— Desculpe. Pode ir dormir.
Enquanto Foll esfregava os olhos resmungando, Zagan respondeu com apatia. Mas então, ela começou a farejar o ar.
— Hã...? Esse cheiro...
E o que chamou a atenção de Foll foi... A Espada Sagrada nas costas de Chastille.
Ah, droga. Quando Zagan percebeu a gravidade da situação, os olhos dourados de Foll brilharam de fúria.
— Uma Cavaleira Angelical!
O braço de Foll se transformou no de um dragão. Mesmo sendo apenas uma jovem, suas garras podiam rasgar aço com facilidade. Talvez possuíssem poder destrutivo suficiente para rivalizar com o punho de Zagan quando o empunhava com seu poder de feiticeiro.
— Que diabos? E-Ei, Zagan!
Quando Barbatos elevou a voz, aflito, Foll já estava atacando com suas garras.
— Pare com isso, Foll! — Zagan conseguiu agarrar seu braço e interromper o ataque. Ele conseguiu parar a garra demoníaca bem no momento em que estava prestes a tocar a testa de Chastille.
Foll franziu a testa.
— Por que está me impedindo?
— Ela é minha convidada. Não vá matá-la por conta própria.
Ao ouvir essas palavras, os olhos de Foll se encheram de decepção.
— Entendo.
Ela fez uma careta como se tivesse sido traída.
Zagan sentiu uma dor no peito por ter feito uma jovem que o esperava em um momento como aquele fazer essa expressão.
A condição de Chastille era uma corrida contra o tempo. Contudo, não podia só deixar Foll sozinha como estava.
Zagan não cogitava salvar outras pessoas como feiticeiro.
No entanto, ainda assim, Foll era uma das pessoas que Zagan precisava proteger. E por esse motivo, Zagan a questionou em voz baixa.
— Você... Odeia os Cavaleiros Angelicais?
— Zagan, você já deveria ter percebido. Eu me tornei uma feiticeira para me vingar dos Cavaleiros Angelicais.
Foll observava Zagan pelo mesmo tempo que ele a observava.
Não posso... Apenas ignorar isso de forma irresponsável, né? Resignado, Zagan assentiu.
— Então, o alvo da sua vingança é essa garota?
— Um portador da Espada Sagrada matou meu pai.
— Entendo. Ainda assim, não pode ter sido ela.
Segurando a mão de Foll, Zagan a convenceu com sinceridade.
— Ei, Foll. Buscar vingança matando qualquer um que consiga pegar é um erro que amadores costumam cometer. Mesmo que mate essa pessoa, não afetará em nada a pessoa de quem quer se vingar. Pelo contrário, só aumentará o número de inimigos que terá pelo caminho. E esses inimigos se tornarão mais obstáculos no seu caminho de vingança.
— Zagan, o que você sabe sobre mim? — a voz de Foll tremia de raiva e irritação ao perguntar, e Zagan balançou a cabeça.
— É por essa razão que estou dizendo que é uma amadora. Vingança de verdade... É diferente, entendeu? — Zagan disse, lançando-lhe um olhar severo, embora afetuoso, como o de um pai carinhoso, e continuou. — A verdadeira vingança é pegar seu alvo, atormentá-lo intensamente, arrastá-lo para as profundezas do medo e do desespero e, por fim, fazê-lo implorar para que o deixe morrer, entendeu?
Ao ouvir aquilo, não só Barbatos, como até Foll ficaram completamente atônitos. Entretanto, Zagan apenas prosseguiu com indiferença.
— E então os mata quando estiver satisfeito, momento em que sua vingança enfim terá sido executada. Matá-los de uma só vez não lhe dará nenhuma sensação de alívio. Uma vingança tão simples... Jamais o salvará.
Suas palavras deviam ter sido levadas muito a sério por ela, pois uma linha de suor escorreu pela bochecha de Foll.
— Zagan, você também... Já se vingou antes?
— Sim. Todavia acabei os matando com um só sopro, então não senti nenhum alívio... É por isso que vou te ensinar o jeito certo de fazê-lo.
Zagan estava falando do antigo dono deste castelo, o feiticeiro que tentou usá-lo como sacrifício. Depois de ser sequestrado, Zagan foi torturado para aumentar seu frescor como sacrifício. Naquele momento, encontrou uma brecha e o tirou de lá. Porém, o que lhe restou não foi o alívio de sobreviver ou a sensação de realização pela vitória, mas um vazio.
Eu deveria ter torturado aquele cara até a morte...
Como estava agora, Zagan conhecia um método muito mais eficaz. Afinal, havia muitos instrumentos de tortura à sua disposição neste castelo. E os usaria para saciar completamente a sede de vingança de Foll.
Talvez dominada por sua determinação, Foll assentiu várias vezes enquanto balançava a cabeça.
— E-Entendi. — disse ela, e então seu braço de dragão retornou à forma humana.
— Ei, você realmente acha certo ensinar isto à sua filha adotiva? — Barbatos fez uma cara de espanto enquanto o questionava, contudo Zagan não tinha tempo para se importar.
***
— Hã...?
Ao abrir os olhos, Chastille viu um teto desconhecido à sua frente. Parecia antigo e feito de pedra. No entanto, não estava sujo. Na verdade, percebeu que havia sido cuidadosamente conservado. Além do mais, percebeu que era noite pela cor da janela, então apenas a luz fraca de velas iluminava o cômodo de forma irregular.
Onde estou...? Enquanto Chastille permanecia sentada, perplexa, de repente ouviu uma voz calma ao seu lado.
— Então acordou.
— Za... Gan...?
Ela avistou um feiticeiro com uma expressão vilanesca que, de alguma forma, também tinha um olhar apático. E em sua mente, tinha certeza de que o olhar dele havia se tornado muito mais gentil do que da última vez que se viram.
Zagan baixou o olhar para um livro grosso, desviando a atenção de Chastille.
— Agradeça a Nephy. Foi ela quem providenciou o tratamento.
— Tratamento...
Sua cabeça ainda estava confusa, então não conseguia pensar direito.
Será que... Perdi para alguém...? Se sim, por que exatamente estava lutando?
Enquanto Chastille deixava seu olhar vagar, avistou uma grande espada ao lado de sua cama. Era uma Espada Sagrada. Sua Espada Sagrada. Não havia sinais de estar suja de sangue ou lascada por espadas cruzadas. E enquanto a encarava maravilhada, quase sem palavras, Zagan falou como se não conseguisse apenas observá-la.
— Parece que você ingeriu algum veneno. Eu mesmo não sei mais do que isso.
Ouvir essas palavras fez Chastille recordar memórias perdidas.
É verdade. Fui convocada por uma carta...
— A Facção de Unificação...?
O homem que chamou Chastille se apresentou como membro desse grupo. Ele espreitava nas sombras, então nunca conseguiu distinguir sua figura por completo. Este alegou que era melhor para ambos. E assim, acreditou que fosse um Cavaleiro Angelical como ela.
De qualquer forma, ouvira a voz de um homem que não parecia tão jovem assim. Era calma e, de certa forma, semelhante à de um sábio detentor de profunda sabedoria. Não soava em nada como a voz de alguém que empunhava uma espada para matar feiticeiros.
De certa forma, era parecida com a de Clavwell, entretanto este também parecia muito mais aberto a novas ideias. E aquele homem falou em voz baixa.
— Mesmo depois de mil anos, a batalha contra os feiticeiros não chegou ao fim. A igreja deveria ser um meio de manter os feiticeiros sob controle, não um grupo focado em matá-los. Então, suponho que você possa nos considerar uma reunião daqueles que compartilham dessas crenças.
Essa foi a primeira vez que Chastille ouviu falar de tal força dentro da igreja, e aquilo a deixou muito perplexa.
Afinal, em sua mente, aqueles eram os pensamentos de um herege. E enquanto expressava essas crenças, o homem revelou um sorriso tranquilo.
— E como, por favor, suas ações diferem nesse aspecto?
Como uma Arcanja, Chastille se opôs à subjugação de um Arquidemônio. Se isto não era heresia, então o que seria?
Chastille não conseguiu refutar o argumento do homem, então continuou o ouvindo.
— Está interessada em unir forças conosco? Você, que antagonizou tão abertamente a igreja, precisa de aliados poderosos. E nós nos juntaremos a essa fileira. Ao defendê-la, aquela que empunha uma Espada Sagrada, nós também poderemos caminhar sob a luz do sol. Diga-me, essa não é uma oferta razoável?
Enquanto um homem como Rafael existisse, Chastille não veria a luz do dia seguinte. E, dada a situação, não tinha o luxo de se preocupar com as aparências.
O que significa... Que ele é um subordinado de Sua Eminência Clavwell? Clavwell havia dito que resgataria Chastille de sua situação atual, então havia uma grande probabilidade de que estivesse trabalhando com uma força desse tipo.
Mas se eu aceitar a oferta deles e viver, o que farei com o resto da minha vida...?
Já não se via mais servindo à igreja. Porém, como Cavaleira Angelical, não havia mais nenhum outro caminho aberto para ela. Não tinha para onde voltar.
Chastille não conseguiu responder imediatamente, então o homem a assegurou solenemente.
— Não tem problema se não responder agora. Contudo, devo avisá-la para não adiar sua decisão por muito tempo. Vejamos... Como prova de nossa sinceridade, quando precisar de ajuda, você pode chamar este nome.
— Orobas.
A palavra que ele pronunciou pareceu pesada por algum motivo. Na verdade, só de se lembrar dela, seu corpo já se aquecia por algum motivo. E quando perguntou se aquele era o nome do homem, este deu apenas uma resposta vaga.
— Suponho que se possa dizer que está correto e incorreto ao mesmo tempo. Pode-se pensar nisso como o nome do nosso líder.
Líder... Se fosse o chefe de uma força inteira dentro da Igreja, então teria que ser um Arcanjo, um Cavaleiro Angelical de alta patente ou um cardeal. No entanto, Chastille nunca ouvira o nome Orobas dentro da Igreja.
O que significa... É muito provável que seja o nome da própria organização? De qualquer forma, podia sentir que era um nome importante para eles.
— Esse nome... Estou certo que a protegerá de qualquer mal. — e com essas últimas palavras, a presença do homem desapareceu.
Será que... Posso confiar neles...? Era um homem bastante misterioso. Claro, queria acreditar em suas palavras, entretanto se fosse uma armadilha, não apenas Chastille, como também seus subordinados estariam em perigo.
Depois de retornar ao seu quarto, refletindo sobre o assunto o tempo todo, um chá foi preparado para ela.
Pensando bem, deveria ter permanecido mais vigilante depois daquela reunião. Todavia, como Chastille estava absorta em seus pensamentos, acabou bebendo o líquido sem hesitar. E então, quando recobrou a consciência, estava sendo cuidada neste lugar.
Chastille recitou esses detalhes aos poucos.
A voz daquele homem... Sinto que já a ouvi em algum lugar... Mas não era nítida. Não, na verdade, em vez de não se lembrar, achava sua conclusão impossível.
Quanto a Zagan, não conseguia dizer se estava prestando atenção ou não, pois apenas permaneceu em silêncio enquanto folheava as páginas de seu livro.
Pouco tempo depois do fim da história de Chastille, Zagan falou em um tom desinteressado.
— Diga-me, você tem alguma ideia de quem possa tê-la envenenado?
— Hmm... Bom...
Pensando na opção mais óbvia, Rafael era a resposta. Se Clavwell não tivesse se intrometido na conversa, ele poderia até tê-la eliminado durante o primeiro encontro. Nesse momento, era óbvio que era a pessoa quem mais queria vê-la morta.
Porém, também se tornara inimiga da própria igreja. Portanto, como estava a situação, havia inúmeros suspeitos. Inimigos em potencial eram como água na praia.
Zagan balançou a cabeça como se tivesse lido os pensamentos de Chastille enquanto ponderava todas as possibilidades.
— Aquele homem... Rafael, acho era esse seu nome? Não deve ser obra sua.
— Por quê? Ou melhor, você conhece o Lorde Rafael?
Enquanto Chastille o questionava, olhando-o com espanto, Zagan soltou um suspiro, demonstrando que achava toda a situação bastante incômoda.
— Esse cara se intrometeu enquanto eu estava bebendo, então perdi a cabeça até certo ponto.
Aquele homem terrível parecia pronto até mesmo para apontar sua espada para Zagan enquanto o provocava para obter informações sobre Chastille.
— Ele já eliminou quase 500 feiticeiros. Esse tipo de pessoa prefere matar na hora a orquestrar uma tentativa de assassinato. Em vez de lhe servir veneno, a executaria sem nenhum descaro com sua espada. Parece que também conseguiu o pretexto para fazê-lo.
— Pretexto...?
Chastille não sabia do que estava falando, contudo Zagan não parecia disposto a compartilhar mais detalhes. E enquanto estava perplexa com esse fato, Zagan fechou seu livro e se levantou.
— Por ora, parece que você é amiga de Nephy, então vou cuidá-la até que recupere suas forças. Os idiotas que ousaram me desafiar já foram embora, então deverá ficar bem aqui.
— Es... Pere...
Quando Zagan lhe deu as costas, Chastille agarrou seu manto de repente.
— O que foi? — Zagan perguntou com uma voz de desagrado, no entanto Chastille apenas o chamou em um tom fraco em resposta.
— Poderia... Ficar ao meu lado... Só por um tempinho... Por favor...? — a voz de Chastille era incrivelmente suave para uma Arcanja.
Bem, a essa altura, nem sei na frente de quem devo bancar a durona.
Mesmo sabendo que esse dia chegaria, Chastille se sentia completamente impotente diante de uma tentativa de assassinato.
Zagan então soltou um suspiro exasperado.
— Peça para Nephy.
Essas palavras foram ditas a ela. E sua resposta foi óbvia, claro. É verdade que só tinham se encontrado algumas vezes, embora Chastille percebeu que ele tinha um carinho enorme por Nephy. Pedir que a confortasse, ainda sabendo de tudo isso, era extremamente irracional da sua parte.
Entretanto, por algum motivo, Zagan voltou a se sentar em sua cadeira.
— H-Hmm...?
— Não tem como acordar a Nephy a essa hora, né?
— Hmm, então... Vai ficar comigo?
— Vou ficar aqui sentado lendo. — ele se recusou a encará-la, ainda assim, Zagan não foi embora.
— Desculpa. — Chastille se sentiu patética.
O que... Eu acabei de pedir para ele fazer...? Ela queria que se virasse para encará-la? Ou talvez, quisesse escapar da igreja e ficar ao seu lado?
Não tem como... Eu me intrometer entre os dois.
Era impossível odiar Zagan e Nephy, então queria testemunhar o futuro feliz deles juntos. E talvez, só talvez, também tivesse um papel a desempenhar nisso. Porém, qual forma isso tomaria... Era algo que sequer sabia.
Por enquanto, pelo menos, ter alguém ao seu lado aliviava suas preocupações, e antes que percebesse, Chastille caiu em um sono profundo.
***
— Então, por que acabou assim?
Na manhã seguinte, Chastille parecia insatisfeita com algo e elevou a voz, irritada.
A garota estava no salão de jantar do castelo. Depois de, de alguma forma, expelir o veneno do seu organismo durante a noite, conseguiu se levantar de manhã e acabou tomando café da manhã com os outros.
Mas a troca de roupa que Nephy a obrigou a usar a deixou furiosa.
— Acho que combina muito bem com você. — Nephy tentou consolá-la de forma pouco convincente.
Chastille usava um vestido e um avental semelhantes aos de Nephy. Como era um conjunto de roupas extras de Nephy, mesmo sendo o uniforme de empregada comum, parecia um pouco deselegante em comparação.
— Grrr... Sou a Donzela da Espada Sagrada, sabia? Por que tenho que imitar uma mera serva!
— Ei, cuidado com a sua língua. Não perdoarei ninguém que fale mal da Nephy.
Sua raiva fazia todo o sentido, já que chamar aquelas roupas de mera serva era o mesmo que chamar Nephy de mera serva.
Não havia como Zagan perdoar tal coisa, ainda que Chastille fosse amiga de Nephy.
E ao informá-la disso com um estalo, Chastille enfim desabou de joelhos com lágrimas nos olhos.
— Neste momento, meu coração não aguenta mais, então não poderia ao menos tentar ser gentil comigo?
— Não se faça de mimada.
Havia olhos frios observando Chastille o tempo todo. Os olhos de Foll. Ela encarava Chastille fixamente por trás de Zagan, contudo o olhar não era nada amigável. Já havia parado de pensar em vingança, no entanto não significava que estava pronta para aceitar Chastille de braços abertos.
Infelizmente, Zagan não estava com vontade de avisá-la da situação. E, sem perceber os verdadeiros sentimentos de Foll, Chastille esboçou um sorriso gentil para a criança à sua frente.
— Ah, você é... A filha adotiva do Zagan...?
— Não fale comigo com tanta intimidade, cabeça de pônei!
— C-Cabeça de pônei...?
Foll saiu correndo da sala depois de gritar para ela. E, por ter sido rejeitada de forma tão terrível, Chastille se curvou no chão, segurando o peito.
— O-O que eu fiz de errado...?
— Desculpe, Chastille. Falarei com aquela criança mais tarde.
— Hic... Nephy, você é tão gentil.
Nephy, sem expressão, disse palavras reconfortantes para a garota de aparência lamentável, e Chastille ergueu a cabeça como se estivesse sendo curada por elas. No entanto, Zagan balançou a cabeça.
— Não, deixe a Foll em paz com isso. Mesmo que te perturbe um pouco, não é como se fosse te matar.
— Então, acha que está tudo bem, contanto que não me mate?
E, em resposta ao espanto de Chastille, Zagan inesperadamente assumiu uma expressão séria.
— Parece que o pai dela... Foi morto por um portador de uma Espada Sagrada.
— ...
E com isso, Chastille ficou sem palavras.
Zagan fez uma pausa por um momento e então continuou em um calmo tom.
— Não é como se fosse sua culpa ou algo assim, todavia não posso dizer a uma pirralha para fazer uma distinção tão clara. Vou te abrigar aqui, mas entenda as circunstâncias dela.
Por enquanto, fazer Chastille realizar algum trabalho de serva também era em parte por consideração a Foll. Como já havia sido colocada para ajudar com as tarefas uma vez, se Chastille fosse tratada com a hospitalidade esperada de uma convidada bem-vinda, sua raiva sem dúvida ressurgiria. Talvez sentindo um senso de responsabilidade, Chastille baixou os olhos.
— Então, não seria melhor... Se eu fosse embora?
Sua reação foi natural, contudo Zagan balançou a cabeça.
— Já não te disse? Vai ficar tudo bem se apenas deixar a Foll em paz. Apesar das aparências, ela é de uma raça muito orgulhosa. Seu orgulho deveria impedi-la de agir sem motivo.
Ou pelo menos foi o que pensou.
***
Um momento depois...
— Agh...! — o grito de Chastille ecoou por todo o castelo.
— O que foi agora?
Zagan chamou Chastille sem um pingo de compaixão enquanto a observava cair de cara no chão.
— E-Enquanto eu limpava, um sapo... De repente pousou na minha cabeça...
Ao olhar mais de perto, ficou óbvio que ainda havia um pequeno sapo em cima da sua cabeça. Parecia que, enquanto esfregava o chão, um sapo foi jogado na sua direção. E já era a terceira em tão pouco tempo.
Zagan caiu na gargalhada instintivamente ao ver sua expressão, acompanhada de seus olhos marejados.
— N-Não ria! Isso não é diferente do que me disse antes?
Parecia que tudo aquilo era obra de Foll.
— Ah, parece que esse é o resultado dela tentando te perturbar sem usar nenhum poder, hein?
— Você não disse que o seu orgulho a impediria de recorrer ao assédio?
— É só uma criança, então é compreensível.
No mínimo, era muito mais inocente do que as ações de Zagan na infância, e não queria recriminá-la por cada coisinha.
Chastille então o encarou fixamente.
— Você está sendo muito condescendente com ela, não é? Duvido que encostaria um dedo em uma criança, entretanto é inesperado que seja tão leniente.
— Estou sendo leniente?
— Está sim!
Chastille assentiu enquanto Zagan inclinava a cabeça, confuso. E percebendo seu próprio erro, Zagan desviou o olhar enquanto coçava a cabeça.
— Quando a conheci, não percebi que era uma criança e acabei lhe dando um soco com toda a minha força. Acho que ainda me sinto culpado por aquilo...
— Um soco... Espere aí. Se a golpeou, quer dizer que era uma inimiga, certo?
— Bem, sim. — respondeu Zagan como se não fosse nada demais, o que deixou Chastille em choque.
— Então por que trata aquela criança muito melhor do que a mim? Nós duas começamos como suas inimigas, não é?
— Não te machuquei nem nada. Na verdade, não sou do tipo que sente prazer em bater em uma dama.
— D-Dama...?
Por algum motivo, a resposta de Zagan fez o rosto de Chastille ficar vermelho como um tomate.
— Err, e-então, nesse caso, me de um soco também. Odeio ser machucada, mas vou aguentar só desta vez!
— De que diabos está falando? Não me diga que gosta de apanhar...
— V-Você está enganado! Só quis dizer que também quero ser...
Todavia o que exatamente queria ser? Chastille ficou vermelha como um pimentão e hesitou em continuar falando.
E enquanto olhava para aquela garota, Zagan sentiu muita pena dela. A vida privada dessa garota está mesmo um caos, hein...?
Isto também poderia ser atribuído às travessuras de Foll, contudo agora estava abrindo a boca, cerrando os dentes, gaguejando e prestes a chorar.
Zagan não podia realmente criticar sua incapacidade de formar palavras, dada a situação. Além do mais, como um balde havia sido derrubado perto de Chastille, havia água suja por toda parte. E como essas coisas estavam acontecendo uma vez atrás da outra, o lugar estava agora mais sujo do que antes da sua chegada para começar a limpar.
Na época em que enfrentou Zagan como uma Cavaleira Angelical, ela tinha muito mais dignidade. Contudo, ao mesmo tempo, seu estado deplorável também era um alívio.
Se for assim, então é provável que Foll não pensará em matá-la de verdade.
Nesse momento, depois de tantas brincadeiras desse tipo, Zagan suspeitou que Foll pudesse ter começado a ter dúvidas sobre seu ódio. Na verdade, parecia até estar se afeiçoando a um portador de uma Espada Sagrada.
Por uma incrível coincidência, parecia que Foll havia encontrado a única pessoa capaz de fazê-la desistir de sua busca por vingança. E enquanto considerava tudo, Zagan soltou um resmungo.
— Realmente não entendo, entretanto você recuperou um pouco da sua energia?
— Eh, ah... Você estava... Preocupado comigo?
Se não estivesse, não teria se dado ao trabalho de fazer Barbatos monitorá-la. Todavia, Zagan não tinha a personalidade para apenas dizer isso em voz alta, e sentiu que também não havia necessidade, então apenas deu de ombros.
— Quem sabe? — disse Zagan, desviando do assunto da pergunta. Então, lançou um olhar severo para Chastille e continuou. — Mais importante, pense em como vai lidar com quem a envenenou. Tem pelo menos uma ideia de algum suspeito, não é?
— Er, isto é... — o rosto de Chastille ficou tenso instantaneamente. E, como se sua mão direita estivesse procurando por algo, ela a fechava e abria sem parar.
Esse gesto fez Zagan voltar o olhar para as costas de Chastille. Não está carregando sua Espada Sagrada, hein?
Zagan não pretendia fazer mal a ela de forma alguma, mas, para uma Cavaleira Angelical como Chastille, aquele era um território hostil. Havia até enfrentado a hostilidade aberta de Foll; portanto, separar-se de seu melhor meio de defesa não era uma boa ideia. O fato de ter deixado a Espada Sagrada de lado, apesar disso, era um mau presságio...
Ao contrário do que esperei, sua frustração pode estar profundamente enraizada, não é?
Uma portadora de Espada Sagrada que se separa de sua arma... Só seria possível se não tivesse mais vontade de empunhá-la. Afinal, mesmo que alguém tomasse posse de uma Espada Sagrada, não haveria como derrotar feiticeiros ou Cavaleiros Angelicais com ideais frágeis ou malformados.
Zagan desviou a atenção para o fim do corredor. Lá, Foll observava a situação atentamente.
Acho que vou ter que pedir para que pegue um pouco leve, hein? Não planejava deixar Chastille ficar para sempre, contudo também não iria apenas expulsá-la no estado em que se encontrava. Se precisasse de mais tempo para se recuperar, pretendia, pelo menos, aguardar.
Depois disso, as travessuras de Foll, que haviam diminuído em gravidade, tornaram-se mais frequentes.
Antes que percebessem, os gritos de Chastille ecoando pelo castelo haviam se tornado algo cotidiano.
À sua própria maneira, isto pode até provar que elas estão se entendendo.
Deixando de lado os meios, parecia que algum tipo de comunicação havia surgido entre Foll e Chastille. E, como essa situação continuou por vários dias, certa noite...
— Mestre Zagan, é algo sério. Foll desapareceu!
Os gritos desesperados de Nephy ecoaram por todo o castelo, dissipando qualquer sensação de tranquilidade entre os seus habitantes.
***
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