quarta-feira, 24 de junho de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 23

Primeira Temporada Capítulo 23: Schwartzwald

Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Vinte e três: Schwartzwald



JONATHAN SIMS

Depoimento de Albrecht von Closen, referente a uma tumba descoberta perto de sua propriedade na Floresta Negra. Depoimento original prestado como parte de uma carta a Jonah Magnus, em 31 de março de 1816. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

Meu caríssimo Jonah.

Perdoe-me por lhe escrever esta carta tão logo após a última. Você deve me achar terrível por nem sequer lhe dar a chance de responder, mas recordo-me de que, durante sua visita na primavera passada, mencionou seu fascínio pelo macabro e pelo estranho, e insistiu em saber se eu conhecia alguma lenda ou tradição desse tipo. Wolfgang me contou que você está adquirindo uma coleção e tanto, e sinto que agora tenho algo que pertence a ela... Muito mais do que qualquer conto de fadas ou histórias de velhas solteironas que lhe contei antes. Em suma, tive um encontro aterrorizante. Dois encontros, na verdade, suponho, e rezo ao Senhor para que não tenha mais nenhum. Pois acredito sinceramente que morreria, de medo, se não de violência, se fosse forçado a encontrar aquela coisa uma vez mais.

Tenho certeza de que deve me achar um chato, divagando tanto para falar do assunto, mas sinto que, para compreender tudo, devo começar meu relato algum tempo antes de a própria aparição surgir, com minhas viagens a Württemberg. Minha família possui uma pequena propriedade lá, no coração de Schwarzwald... O que vocês chamariam de Floresta Negra, perto de uma pequena cidade chamada Schramberg. Essa propriedade pertencia ao meu irmão, Henrik, e, quando este faleceu, passou para o meu sobrinho Wilhelm. Ele mal havia completado treze anos quando Henrik faleceu, e sua mãe já havia partido ao dar-lhe à luz, de modo que Clara e eu nos empenhamos, desde então, em oferecer-lhe orientação e todo o afeto que porventura tivesse perdido. Esse sentimento era ainda mais profundo pelo fato de não termos conseguido gerar filhos; assim, víamos como nosso dever ensinar a Wilhelm aquilo que teríamos transmitido a um filho nosso. A devassidão da juventude é sempre um perigo, e sentíamos ser nossa obrigação ajudá-lo a trilhar, sempre que possível, o caminho da virtude. Não precisávamos ter nos preocupado tanto, jamais conheci alma tão sensata e prudente quanto a que parece habitar o jovem Wilhelm. Ainda assim, mantivemos laços estreitos com meu sobrinho ao longo dos anos, apesar da distância. Quando este adoeceu no inverno passado, naturalmente providenciamos uma viagem até sua casa, na Floresta Negra, para oferecer todo o conforto que estivesse ao nosso alcance.

A viagem foi árdua, como suponho ser de esperar ao viajar no inverno, porém o estado de Wilhelm não permitia demoras. A princípio, vindo da Baviera, o maior obstáculo que enfrentamos foi a escassez de recursos nas estalagens onde nos hospedávamos; ouvimos repetidas vezes que hóspedes eram raros naquela época do ano. Mesmo assim, diga-se o que quiser sobre a Confederação Germânica, e sei que você certamente tem muitas opiniões a respeito, meu amigo, ela tornou as viagens muito mais rápidas, e eu sou grato por isso. Contudo ao entrarmos em Württemberg, o caminho tornou-se muito mais difícil. A neve caía com mais intensidade na Floresta Negra, obrigando-nos, por fim, a trocar a carruagem por um trenó.

Você nunca conheceu o inverno na Floresta Negra, não é? Sei que dirá que há neve e florestas na Inglaterra, no entanto já vi o que vocês chamam de florestas e posso afirmar que não há comparação possível com a Floresta Negra e suas árvores cobertas por um manto denso de neve intocada. Reina ali um silêncio como jamais encontrei em qualquer outro lugar da Terra; qualquer som parece morrer no instante em que toca aquele tapete branco e macio de neve virgem. Durante o dia, é uma serenidade belíssima, uma quietude absoluta. Todavia à noite... Ah, meu amigo, à noite o cenário transforma-se por completo. O silêncio da floresta ganha um ar de suspense, como se o mundo prendesse a respiração à espera de um bote; e, nos trechos onde a copa das árvores se abre o suficiente para deixar passar o luar, tudo assume tonalidades fantasmagóricas. Perdi a conta de quantas vezes jurei ver vultos nas sombras, iluminados por breves instantes pelo brilho do luar sobre aquela terra gelada. Certa vez, cheguei a exigir que parassem o trenó para examinar a área, armado com um par de pistolas, entretanto, como esperado, não encontrei nada. Foi nesse estado de espírito que chegamos à propriedade de Wilhelm, perto de Schramberg.

Fomos recebidos pelos criados de Wilhelm, que nos informaram sobre o estado de seu mestre. O médico, ao que parece, havia enfrentado as estradas a partir de Schramberg alguns dias antes e administrado a medicação possível. Desde então, segundo os criados, ele vinha apresentando uma melhora constante, embora ainda estivesse muito debilitado. Confesso que, ao receber a notícia, senti-me um tanto dispensável; mas, ao entrarmos no aposento de Wilhelm, a felicidade estampada em seu rosto ao ver a mim e a Clara dissipou qualquer pensamento desse tipo.

Wilhelm estava em fase de recuperação, porém eu não tinha a menor intenção de refazer o caminho de volta por aquela quietude silenciosa e gélida, a menos que fosse absolutamente necessário... E Clara concordou comigo. Decidimos passar o inverno ali, na companhia de Wilhelm. Havia espaço suficiente para nós, embora nosso quarto fosse mais modesto do que aquele a que estávamos acostumados. Admito que a ideia de permanecer na Floresta Negra até o degelo da primavera não me agradava; mesmo assim, dentre as opções à nossa disposição, era a que considerava mais aprazível.

Assim teve início uma longa estadia nas proximidades de Schramberg; jamais desejei tanto ter trazido comigo a minha biblioteca. Dispunha de poucos livros e Wilhelm, a despeito de sua inteligência nada desprezível, possuía ainda menos. Acabávamos passando muito tempo jogando cribbage e ouvindo Clara tocar diversas melodias no piano. Minha esposa nunca teve uma voz excepcional, porém sua habilidade ao teclado o compensava isso folga. Eu mesmo costumava fazer longas caminhadas pelos bosques ao redor no início da tarde, quando o frio era suportável. Às vezes, percorria as duas milhas até a cidade vizinha de Schramberg, contudo, na maioria das vezes, apenas escolhia uma direção e caminhava entre as árvores pelo tempo que me aprouvesse, para depois seguir o rastro das minhas próprias pegadas de volta àquele que era, por ora, o meu lar.

Foi numa dessas caminhadas, alguns meses após nossa chegada, que me deparei com aquele antigo cemitério. Devia estar ligeiramente afundado no solo, pois tudo o que conseguia ver das lápides eram apenas as pontas de granito gasto e esfarelado despontando na neve. Era impossível estimar o tamanho do local, já que, a cada poucos segundos e em qualquer direção que caminhasse, avistava outra pequena ponta de pedra tumular surgindo da terra coberta de geada. Afastei a neve da frente de uma das lápides... Que trazia um anjo quebrado no topo, com ambas as asas partidas e caídas... Entretanto a inscrição estava desgastada demais para que se pudesse distinguir qualquer palavra. Já estava quase decidindo ir embora, pois sabia que tinha pouco mais de uma hora antes que a luz começasse a desvanecer. Todavia, ao me virar para partir, avistei algo não muito distante, entre as árvores... Uma estrutura muito maior e mais intrigante do que os túmulos que encontrara até então.

Erguia-se a cerca de um metro e meio acima da neve, e a pedra era de qualidade muito superior à das que encontrara antes. Um pequeno mausoléu. A porta, que um dia fora uma grade de ferro robusta, há muito se soltara das dobradiças devido à ferrugem, deixando apenas uma abertura negra e escancarada que parecia conduzir a uma profundidade maior do que as dimensões do mausoléu permitiriam. No topo, mal legível, mas ainda assim inequivocamente presente, estava o nome “Johann von Württemberg”. Fiquei fascinado; conhecia bem a história local e de fato não tinha conhecimento de nenhum nobre da linhagem Württemberg chamado Johann. Tinha certeza de que jamais fora conde ou príncipe. Mais do que isso, que eu me lembrasse, nunca houve, nas proximidades daquele local, qualquer cidade ou povoado capaz de sustentar um cemitério daquele porte. Quem era, então, Johann von Württemberg, e por que havia construído um mausoléu ali, no meio da Floresta Negra, a quase dez quilômetros de Schramberg?

Não tive tempo para investigar mais a fundo, pois percebi que precisava partir logo se quisesse retornar para junto de minha esposa e meu sobrinho antes do pôr do sol. Dei meia-volta e refiz o caminho de volta o mais rápido que ousei. Embora normalmente me contentasse em abrir um novo caminho no dia seguinte, algo na ideia daquele mausoléu silencioso me atraía de volta; acabei marcando as árvores com meu canivete para facilitar o retorno no dia seguinte.

Naquela noite, durante o jantar, perguntei a Wilhelm se já tinha ouvido falar de Johann von Württemberg ou se sabia da existência do mausoléu, situado a algumas milhas ao norte de sua casa. Este respondeu negativamente a ambas as perguntas. Era raro que frequentasse a floresta ao redor, exceto para caçar, e a caça costumava ser escassa na região norte, pois as árvores eram muito próximas umas das outras, dificultando a locomoção a cavalo. Além do mais, jamais ouvira falar desse tal “Johann”. Tentei descobrir onde poderia pesquisar mais sobre a história da região, porém não havia nenhuma biblioteca de porte razoável nas proximidades de Schramberg e, como mencionei, Wilhelm quase não possuía livros; por isso, deixei o assunto de lado.

Nada mais de relevante aconteceu naquela noite; assim, despedi-me na manhã seguinte e parti cedo em direção ao antigo cemitério. Não escondi de ninguém para onde ia e até convidei Wilhelm e Carla para me acompanharem, contudo nenhum dos dois achou que o passeio valesse o frio que teriam de enfrentar no trajeto. Portanto, segui sozinho rumo àquele lugar esquecido. As marcas que fizera nas árvores revelaram-se desnecessárias, pois não caíra neve nova na noite anterior, e as pegadas do dia anterior permaneciam nítidas e muito fáceis de seguir.

O mausoléu parecia justo como o deixara: a porta continuava escancarada, e a luz do sol mal avançava além da soleira antes de ser engolida pela escuridão. Eu havia previsto isso e levado uma lanterna para explorar o local. Estava prestes a acendê-la quando notei uma figura observando-me da orla da floresta. Talvez aquele lugar não fosse tão esquecido, afinal. Ouvira histórias sobre bandidos que usavam locais como aquele para encontros secretos e, de repente, senti-me aliviado por ter levado também uma pistola e munição. Aproximei-me do homem, no entanto ele não tentou fugir. À medida que chegava mais perto, pude observá-lo com mais detalhes. Era baixo e atarracado, vestindo uma sobrecasaca preta de estilo antigo e calções até os joelhos, embora seu rosto estivesse na sombra sob um chapéu preto de abas largas. Pela sua vestimenta, presumi que fosse um homem idoso... Talvez o zelador do local ou apenas um eremita que vivia nas redondezas. No entanto, quando o cumprimentei, a voz que respondeu não trazia qualquer tremor típico da idade. O homem me perguntou, em um alemão rústico e de dialeto camponês, se pretendia explorar o túmulo. Respondi que sim e perguntei se ele era o guardião do lugar. Este riu, uma exclamação aguda e gutural que me surpreendeu, e disse que a cripta na qual me aventuraria era um lugar perigoso. Perguntei o que teria a temer dos mortos, e seu olhar se fixou em mim. Não conseguia ver seus olhos sob a aba do chapéu, entretanto ainda assim sentia seu olhar sobre mim. Sua risada soou de novo e disse. — Não, senhor, o senhor não tem nada a temer dos mortos.

Ao ouvir essas palavras, comecei a recuar, me certificando de que minha mão estava no revólver, sem desviar o olhar daquele homem estranho até chegar à beira do mausoléu. Só então olhei para baixo para verificar se minha lanterna estava onde a havia deixado e, quando voltei meu olhar para as árvores, ele havia sumido. Para ser franco, fiquei bastante abalado com o encontro e considerei voltar e tentar a sorte outro dia, todavia algo dentro de mim se recusava a deixar todo o meu trabalho e preparação irem por água abaixo por causa de um simples fazendeiro que não sabia cuidar da própria vida. Acendi minha lanterna e...



Jonathan Sims: Martin! Meu Deus, cara, se você vai ficar nos Arquivos, pelo menos tenha a decência de vestir uma calça!



Martin: Ah, meu Deus, desculpa, desculpa! Não pensei que você chegasse tão cedo; ainda nem são sete horas.



Jonathan Sims: Tenho chegado cedo na esperança de sair daqui antes de escurecer.



Martin: Já faz uma semana e não vimos nada. Acha mesmo que ela ainda está por aí?



Jonathan Sims: Não faço ideia, mas não pretendo correr nenhum risco.



Martin: [Suspiro] Não, acho que não...



Jonathan Sims: Agora, se me der licença.



Martin: Certo.



Jonathan Sims: O depoimento continua.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

A princípio, fiquei confuso. O interior parecia vazio. Não havia monumentos nem caixões, e nenhuma placa ou brasão adornava a parede. Apenas uma única laje de mármore estava no centro, como um altar. A princípio, pensei que talvez fosse ali que o caixão deveria estar, e alguém apenas o tivesse levado, porém, ao caminhar ao redor, vi o que escondia. Atrás do bloco de ângulos agudos havia uma escadaria que descia para as profundezas de uma abóbada subterrânea desconhecida.

Sei que vai zombar de mim, Jonah, quando nos encontrarmos de novo, tenho certeza. Vai rir da minha bravata e me chamar de aventureiro imprudente, contudo a verdade é que desci aquelas escadas sem quase nenhum receio. Qualquer medo que pudesse ter sentido estava focado apenas no homem que encontrei lá fora, e não vi nenhum perigo dentro da própria abóbada. Então, ergui minha lanterna e desci as escadas.

Arte por kazoosnow.

Elas eram velhas, disso não há dúvida, contudo não estavam desgastadas, e apostaria que fui a primeira pessoa a descer ali em pelo menos um século. Desci por um bom tempo, até que tive certeza de que estava nas profundezas da terra congelada da Floresta Negra. Por fim, os degraus terminaram em um pequeno corredor, e pude ver que os tijolos que formavam as paredes e o teto arqueado haviam se desmoronado e deslocado em alguns pontos, permitindo a entrada das grossas raízes das árvores acima, que se enrolavam e se espalhavam pelas partes da passagem que mais precisavam de reparos. Depois de cerca de um minuto de caminhada, a passagem se abriu para uma grande câmara. No centro, havia outro bloco de mármore, quase idêntico ao que vi lá em cima, no entanto sobre este havia um sarcófago de pedra lacrado. O nome “Johann von Württemberg” também estava gravado ali, embora preservado com detalhes muito mais nítidos, sem a ação dos elementos para desgastá-lo.

Enquanto o observava, notei que as paredes do recinto não pareciam ser de pedra, como as da passagem ou do mausoléu. Aproximei-me com cautela, até que a luz da minha lanterna as iluminasse claramente. As paredes estavam cobertas por estantes de livros. Estes estavam tão densamente compactados que era impossível dizer se havia uma parede real por trás deles ou se os próprios livros formavam a única barreira contra a terra. Por infelicidade, estavam em estado de decomposição avançada. Os séculos não haviam sido gentis com eles e, ao tentar mover um dos tomos, percebi que a umidade, com o passar do tempo, fizera com que se fundissem em uma massa única de papel e tecido de encadernação. Por mais previsível que fosse, senti uma pontada aguda de perda. Ver tamanho volume de conhecimento... Talvez único em todo o mundo... Ser todo destruído foi bastante doloroso para mim. As estantes em si eram feitas do mesmo mármore dos dois blocos e pareciam ter resistido melhor ao tempo. Ao observá-las, notei uma pequena gravura esculpida em intervalos regulares ao longo da borda de cada uma. Era um olho pequeno, aberto e fixo.

Por alguma razão, foi apenas naquele momento que comecei a sentir medo. Não saberia dizer de quê, embora aqueles olhos pequenos despertaram em mim um pavor que tenho dificuldade em descrever agora. Afastei-me das estantes e estava pronto para partir quando a luz da minha lanterna incidiu sobre algo no canto do recinto. Ou, sendo mais preciso, duas coisas. A primeira era uma pequena moeda de ouro que brilhava no chão; a segunda, um livro que talvez tivesse caído das estantes há muito tempo. Estava em condições muito melhores que os outros, talvez devido ao local onde estivera depositado, e consegui abri-lo com extremo cuidado. Decepcionei-me ao ver que não estava escrito em alemão, nem mesmo em francês ou latim, parecia estar em árabe. Parecia ser uma espécie de manuscrito iluminado, feito à mão e de beleza absoluta, embora eu não soubesse dizer, de forma alguma, sobre o que tratava.

Peguei o livro e a moeda para examiná-los mais tarde e me apressei em sair da câmara; o medo persistente dava-me a sensação de que algum perseguidor invisível poderia me alcançar se hesitasse. Saquei minha pistola ao sair do mausoléu, por precaução, caso aquele homem baixo e estranho de mais cedo estivesse à minha espera para me abordar, entretanto não havia sinal de ninguém lá fora, sob a luz clara do dia.

Corri de volta, apesar de ainda restarem muitas horas até o anoitecer. No caminho, notei que a neve sobre as árvores começava a derreter e senti um certo alívio ao pensar que Clara e eu logo poderíamos retornar a Closen. Wilhelm estava totalmente recuperado da febre e, quando cheguei para o jantar, todos os vestígios do meu medo anterior haviam desaparecido, e eu estava de excelente humor.

Depois, retirei-me para fumar um ou dois cachimbos e examinar com mais calma o que havia encontrado. O livro, apesar de belo, recusava-se obstinadamente a revelar qualquer pista sobre o seu conteúdo. Com sua permissão, o trarei para que seus olhos especializados o analisem na próxima vez que tiver o prazer de sua companhia. A moeda, por outro lado, era mais interessante. De um lado, trazia gravado o perfil de um jovem de traços marcantes e cabelos longos e esvoaçantes. Na parte superior, liam-se as letras JW e, na inferior, o número 1279. Se essa era a data de cunhagem da moeda, não preciso nem dizer quão fascinante tal descoberta poderia ser. O outro lado estava liso, exceto por três palavras muito pequenas e gastas, todavia que consegui decifrar com esforço. Elas diziam: “Für die Stille”.

Arte por Eye Love TMA.

Estava prestes a ir dormir quando uma das criadas, Hilda... Ou seria Helga? Não me recordo bem, pediu um momento da minha atenção. Atendi ao pedido, e ela perguntou se eu havia feito perguntas sobre o antigo cemitério na floresta. Confirmei que sim, e sua face empalideceu levemente. Disse-me que jamais se aproximava daquele lugar e que ninguém na cidade o fazia.

Veja, Jonah, pelo que consta, havia um velho em Schramberg chamado Tobias Kohler. Ele viveu quase oitenta anos e contava histórias de quando era criança e brincava com os amigos de um jogo chamado “Os Degraus de Johann”. Era um jogo de coragem, no qual você tinha de descer, na ponta dos pés, o maior número possível de degraus em direção ao túmulo de Johann von Württemberg até ser visto, e então correr de volta para fora o mais rápido que pudesse. Tobias nunca dizia por quem ou pelo que você era visto, e sempre ignorava a pergunta. Pois bem, parece que os pais dessas crianças descobriram a brincadeira e uma delas, a mãe de Hans Winkler, amigo de Tobias, decidiu acabar com aquilo. Ela invadiu o cemitério e, ao ver Hans entrando no mausoléu para a sua vez, correu para dentro atrás do filho, descendo os degraus. Nenhuma das crianças viu o que aconteceu, mas todas ouviram o grito. Elas fugiram de volta para a cidade e, quando contaram o ocorrido, o padre local... Cujo nome Tobias não recorda... Este apenas assentiu e, reunindo seis homens fortes, porém profundamente amedrontados, dirigiu-se ao cemitério. Ninguém daquele grupo jamais falou sobre o que viu ou encontrou lá, contudo Hans foi morar com a família Becker, em sua pequena fazenda. Ninguém mais brincou de “Os Degraus de Johann”, e o cemitério voltou a ficar deserto.

A única outra coisa de que Tobias se lembrava era de ter ouvido, certa vez, um tio-avô referir-se a Johann von Württemberg como “o bastardo de Ulrich”... O que, se a data na moeda estiver correta, poderia referir-se a Ulrich I ou Ulrich II; de qualquer modo, a história daquele lugar deve remontar a quase seiscentos anos.

No entanto agora, sinto que já rodeei o assunto o suficiente. Poderia preencher mais uma dúzia de páginas com preâmbulos e pesquisas, entretanto nada disso é o motivo pelo qual lhe escrevo desta forma. Não; escrevo para descrever o que vi na última noite em que fiquei na casa de Wilhelm... O evento que levou Carla e eu a partirmos uma semana antes do planejado.

Foi três dias depois de ter ouvido a história de Tobias que aquilo aconteceu. Havia guardado a moeda e o livro, tomado por um impulso de superstição, e decidi dar uma breve caminhada enquanto o sol se punha. A cena era linda; os tons de carmesim do céu que escurecia dançavam sobre a neve restante, tingindo-a de um vermelho profundo. Caminhei ao redor da casa, fumando meu cachimbo, até encontrar as marcas que deixara ao seguir em direção ao antigo cemitério. À medida que a neve derretia, minhas pegadas haviam se transformado em sulcos de terra batida e gelo que pareciam quase brilhar na luz crepuscular. Contemplei-as e congelei. Eu havia ido ao mausoléu duas vezes naquele inverno e, de fato, havia dois conjuntos nítidos de pegadas seguindo para o norte. Todavia, no caminho de volta para a casa, havia três conjuntos de pegadas. Senti uma presença atrás de mim e me virei.

Era o homem do cemitério. Ele havia tirado o chapéu de abas largas e fitava-me. Sua cabeça era completamente calva e lhe faltavam os olhos. Eram apenas órbitas vazias, mas que me encaravam. Elas me viam. Acredite ou descarte qualquer outra coisa nesta carta como quiser, Jonah, porém juro que fiquei cara a cara com um homem sem olhos, e que este me viu.

Recuei rápido demais e escorreguei, caindo com força no chão. Num instante, ele estava sobre mim e sorriu. Disse algo, embora minha mente estava tomada pelas chamas do pânico e não ouvi o que era. Sua mão se estendeu em minha direção, lenta e insolente, como se quisesse saborear aquele momento sem pressa. Então, sem aviso algum, parou. Ergueu a cabeça de maneira brusca para encarar algo, como um cão de caça que ouve um tiro. Permaneceu ali, com a mão suspensa como se estivesse indeciso. E então... E então, desapareceu, como se nunca tivesse estado ali, e fiquei simplesmente deitado no chão, sem fôlego e aterrorizado.

Já havia anoitecido quando enfim me recompus o suficiente para correr de volta para casa e começar a fazer as malas. Disse a Carla que precisávamos ir embora o mais rápido possível, embora tenha sido vago quanto aos motivos. Até hoje não lhe contei a razão. Como você diz à sua esposa que algo assim aconteceu com você?

Pegamos a primeira carruagem na manhã seguinte e não paramos mais. Nem percebi que a moeda havia sumido até verificar minha bagagem mais tarde. Seja por culpa de um criado de dedos ágeis ou apenas por descuido meu, ela desapareceu; portanto, peço desculpas por não poder compartilhar essa peça específica da história com você. Também peço desculpas pela caligrafia; tenho passado isso para o papel da melhor maneira possível durante uma longa viagem de carruagem Ainda assim, estou ansioso para lhe mostrar o livro que adquiri e as revelações que, sem dúvida, sei que extrairá dele.

Com confiança,

Albrecht.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

É sempre um prazer encontrar um pedaço da história escondido na seção errada do arquivo. Ainda assim, não posso dizer que sei muito sobre Jonah Magnus ou as origens do Instituto, então essa é uma descoberta bastante agradável sob alguns aspectos. É claro, não há muito o que investigar aqui, contudo, para satisfazer meu próprio interesse, fiz algumas pesquisas por conta própria, as quais incluo aqui para fins de completude.

Encontrei apenas uma referência a um tal “Johann von Württemberg” em todo o material de referência histórica alemã que temos disponível. O livro “O Berço da Alemanha — Württemberg Através dos Séculos”, de Jan Moira, menciona rumores de que Ulrich I, Conde de Württemberg, teve um segundo filho fora do casamento em 1255. Nenhum nome é citado, no entanto sabe-se que certos inimigos do conde espalhavam boatos de que esse filho exilado “andava na companhia de bruxas”. O ano de 1279 também marcou a morte do sucessor de Ulrich I, Ulrich II. Entretanto, isso pode ter sido mera coincidência, visto que foi sucedido por seu meio-irmão, Eberhard I.

Outra coisa que descobri por acaso durante minha pesquisa estava em “Contos de Grim”, obra de H.T. Moncreef que explora mortes inexplicáveis ​​e macabras na Europa do início do século XIX. O livro menciona uma morte ocorrida em Schramberg, em 1816. O homem, chamado Rudolph Ziegler, foi encontrado morto em sua casa, nos arredores da cidade. O detalhe interessante é que ele trabalhava em uma propriedade rural próxima. Pouco depois de sua morte, um certo Wilhelm von Closen foi investigado pelo crime, pois se descobriu que o falecido vinha roubando joias da propriedade. A investigação acabou sendo arquivada, entretanto, depois que quatro médicos atestaram que a ferocidade dos ferimentos infligidos ao Sr. Ziegler estava, e aqui cito as palavras deles, “além da capacidade da violência humana”. O caso foi classificado como ataque de animal.

Tentei descobrir o que aconteceu com Albrecht von Closen e seu livro, todavia não encontrei qualquer menção a ele em volumes de história ou na internet. Talvez eu descobrisse mais se passasse meses examinando os registros históricos nos depósitos dos Arquivos, mas não tenho tempo para satisfazer minha curiosidade dessa maneira.

Porém, encontrei a genealogia de Wilhelm von Closen. Ele se casou e teve filhos, e a família permaneceu na região de Schramberg por quase mais um século, até que um dos ramos emigrou para a Inglaterra em 1908. Eles tiveram uma filha, Elsa, que se casou com um homem chamado Michael Keay em 1920. Em 1924, nasceu a filha do casal, Mary Keay. Pode ser apenas coincidência, contudo... Isso me preocupa.

Fim da gravação.

***

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