domingo, 7 de junho de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 02 — Capítulo 08

Capítulo 08: Nem mesmo um Arquidemônio deveria bater em uma criança

— Sigilo do Arquidemônio, hein?

Zagan murmurou esse nome para si mesmo nos arquivos de seu castelo, onde sua coleção de livros continuava a crescer constantemente.

Sim, tudo ali pertencia a Zagan. Ele já possuía uma coleção considerável de livros, mas agora havia pilhas de livros no chão que não cabiam nas estantes.

Há cerca de quinze dias, Zagan herdou o legado de seu antecessor, o Arquidemônio Marchosias. E as pilhas de livros no chão eram apenas uma pequena parte disso. Ele só trouxe consigo coisas relacionadas ao que desejava pesquisar, porém mesmo isso parecia demais.

Zagan, que ajeitava a franja como se estivesse cansado, tinha a jovem idade de dezoito anos. Seus longos cabelos negros, que não penteava, estavam presos atrás das costas, e vestia um manto forrado com tecido vermelho. Além disso, seus olhos prateados, tal qual as expressões eternamente sinistras em seu rosto, aumentavam ainda mais a sensação opressora que emanava.

Zagan era um feiticeiro que detinha o título de Arquidemônio. E agora, tinha algo a fazer.

— Não consigo encontrar nenhuma pista...

Existia uma certa “coisa” chamada demônios que outrora existiram neste mundo. Não, agora eles apenas se escondiam e talvez existissem em algum lugar. Há poucos dias, Zagan encontrou um destes.

Não havia uma grande diferença entre eles, contudo ainda assim não era um oponente que pudesse derrotar. Ou pelo menos, era assim que deveria ser, no entanto Zagan sobreviveu por um golpe de sorte.

Ao estender a mão direita, um sigilo flutuou em sua direção, parecendo algo com uma letra. Este era o Sigilo do Arquidemônio. E um demônio curvou a cabeça e obedeceu ao seu portador.

Preciso entender a verdadeira natureza dessa coisa. Era um poder capaz até mesmo de repelir um demônio. Entretanto, era diferente de qualquer brasão de feitiçaria que Zagan conhecesse.

Suspeitava que pudesse haver alguma pista no legado do arquidemônio anterior, todavia os resultados não pareciam favoráveis.

— Phew!

Depois de debruçar-se sobre eles a manhã toda, Zagan devolveu os livros que havia tirado das estantes aos seus devidos lugares. Coisas como o apetite e o sono podiam ser manipulados por feiticeiros, então o conceito de fadiga essencialmente não existia.

Apesar disso, a força de vontade não era algo que qualquer feitiçaria pudesse controlar. Depressão e exaustão mental eram inevitáveis. Portanto, no momento que Zagan soltou um suspiro, pensando em fazer uma pequena pausa por causa disso... De repente sentiu que a porta atrás havia se aberto.

Nephy, hein?

Era o nome da garota que era discípula, serva e... A pessoa que ele amava de todo o coração. Sua única companheira de casa.

Nephy era uma elfa. Nos tempos antigos, sua raça era chamada de fadas de Norden, uma raça cuja característica principal eram suas orelhas pontudas. E entre elas, Nephy possuía cabelos brancos como a neve, o que significava que possuía mana especialmente forte.

Esses longos cabelos eram adornados com uma fita carmesim escura, e seus pequenos traços faciais eram realçados por seus grandes olhos azuis. Envolvendo seu corpo delicado, havia um avental branco e um vestido de uma peça, o uniforme de uma criada, e também usava botas que tinham feitiços para reduzir a fadiga, porém essa era apenas sua vestimenta comum.

Enquanto Zagan voltava sua atenção para o céu através da janela, viu que o sol já havia passado do seu ponto mais alto. Parecia que Nephy tinha vindo chamá-lo para o almoço.

Contudo, como Zagan estava de frente para uma estante, Nephy devia ter optando em ficar em silêncio para não o atrapalhar. Mesmo assim, sua presença se aproximava lenta e silenciosamente.

Será que... Está tentando me surpreender? Depois de um certo incidente, Nephy passou a chamá-lo de Mestre Zagan em vez de apenas Mestre.

Isto o fez sentir que agora eles eram mais íntimos, apesar que apenas um pouco mais.

Havia a possibilidade de ter vindo para surpreender Zagan como uma brincadeira. E, claro, Zagan não era tolo o suficiente para estragar a sua diversão.

E agora, o que fará comigo? Enquanto se esforçava ao máximo para fingir que não a notava, ele permaneceu inquieto enquanto a presença atrás estendia as mãos.

No entanto, havia uma diferença de altura de cerca de uma cabeça entre Zagan e Nephy. Além disso, como estava vasculhando os arquivos, estava em cima de uma escada.

— Adivinha quem é... Hein? Não consigo alcançar...

Suas pequenas mãos estendidas só chegaram até os ombros de Zagan. Ao se virar, Zagan viu a figura de uma garota perplexa, pois não conseguia alcançar seu rosto.

E em volta do seu pescoço havia um colar grosseiro. Embora não tivesse mais o poder de selar mana como antes, era o precioso colar dos votos entre Zagan e Nephy.

Depois de um tempo inquieta, as orelhas de Nephy ficaram vermelhas até as pontas.

— Hmm, o que fazer...? — disse Nephy, como se estivesse perdida. Seu rosto estava tão inexpressivo como sempre, embora seus lábios tremiam e lágrimas se acumulavam no canto dos olhos. Acima de tudo, as pontas de suas orelhas tremiam como se dissessem que não conseguia suportar a vergonha.

Parecia que não conseguia suportar o constrangimento da situação.

Não, sério, o que eu faço agora? Zagan queria abraçá-la e esfregar a bochecha na dela, entretanto o espírito de Zagan não era tão forte a ponto de permitir que fizesse algo tão ousado com a garota de quem gostava.

Enquanto Nephy apertava o avental com força, murmurou algumas palavras, deixando o olhar vagar.

— Hmm, sabe... Eu estava pensando... Talvez eu pudesse te surpreender, Mestre Zagan...

— Me surpreender, e depois o quê?

— Oh, hmm, não tinha... Pensado tão longe.

Parecia que Nephy só queria tentar.

Suas orelhas se moviam repetidamente em curtos intervalos enquanto respondia gaguejando, e vê-la agindo desse jeito fez Zagan querer bater a cabeça na parede.

O que exatamente você está planejando fazer comigo sendo tão fofa? Zagan queria dizer muitas coisas, como: “Mesmo que não faça nada, estou surpreso com a sua fofura” ou “Fiquei tão surpreso que quis te abraçar”, todavia depois de respirar fundo, conseguiu se acalmar. Então, pigarreou com uma tosse.

— Entendo. Está na hora de comer, não é, Nephy?

— Sim. Os preparativos para o almoço estão concluídos, Mestre Zagan.

Eles deixaram os arquivos para trás, vermelhos de vergonha.

Isso era algo comum, do dia a dia, para os dois.



***



O salão de jantar era um grande cômodo com uma mesa enorme que podia acomodar vinte pessoas.

Um tapete vermelho-escuro cobria o chão, e um lustre extravagante pendia do teto. Havia também uma lareira instalada na parede, que certamente seria usada se estivesse um pouco mais frio.

Até um mês atrás, este cômodo estava tomado por teias de aranha, esqueletos e instrumentos de tortura, mas agora estava tão limpo que era irreconhecível. A mudança se devia toda ao esforço de Nephy.

— Aqui está irreconhecível também. — enquanto Zagan murmurava essas palavras sem querer, Nephy assentiu, tímida.

— Afinal, é o cômodo onde você faz suas refeições, Mestre Zagan.

— Entendo. Porém não foi difícil limpar tudo sozinha?

— Não... Na verdade, há muitos cômodos que ainda não limpei.

Embora, com a bagunça em que estavam, não pudessem ser de fato chamados de cômodos.

Zagan sempre se dispunha a ajudar a carregar objetos pesados, contudo, fundamentalmente, a manutenção do castelo era de responsabilidade de Nephy. Ela até cuidava de todas as refeições, então tinha bastante trabalho diário.

Se eu pudesse preparar algo como um familiar... Não era como se contratar alguém estivesse fora de questão, no entanto Zagan queria aproveitar a vida a dois. E, para sua falta de sorte, feitiçaria que escravizava algo como um familiar estava fora de sua área de especialização.

Zagan caminhou em direção ao seu lugar enquanto quebrava a cabeça em busca de uma solução.

Já havia duas porções de comida enfileiradas sobre a mesa. E ao lado da mesa, um carrinho com uma panela em cima.

Sem sequer se dar conta, Zagan soltou um profundo suspiro de admiração.

Então Nephy aprendeu ainda mais receitas, hein? Havia vários pratos ali que estava vendo pela primeira vez.

Enquanto Zagan se sentava à mesa, Nephy começou a descrever a comida em voz baixa.

— Para o pão, preparei pãezinhos de centeio. A entrada é uma salada com tomates e vegetais verdes temperada com molho Caesar e queijo ralado.

Tomates eram a comida favorita de Nephy. Talvez estivesse confiante em seu trabalho, já que suas orelhas, de alguma forma triunfantes, tremiam.

Aliás, Caesar era o nome de um feiticeiro da antiguidade. Foi um homem peculiar, singularmente obcecado pelo paladar em vez da imortalidade, então a maioria acreditava que os fundamentos da culinária eram os frutos que do trabalho que havia desenvolvido.

Em seguida, Nephy despejou sopa em um prato vazio enquanto continuava sua explicação.

— A sopa é um consomê de aveia. Para o prato principal, preparei um refogado de cordeiro, então, por favor, aproveite-os juntos. — disse Nephy enquanto colocava o prato com sopa na frente de Zagan.

Um aroma perfumado lhe fez cócegas no nariz. E então, ela colocou o prato principal de carne também à sua frente.

Normalmente, teria sido tudo, no entanto Nephy então tirou uma tigela com gelo.

— E, por último, preparei pudim para a sobremesa.

— O que é pudim?

Era a primeira vez que Zagan ouvia essa palavra.

— A Manuela me ensinou a fazer. É um doce feito com ovos cozidos no vapor e creme de leite fresco... Hmm, é bem doce e gostoso também. — disse Nephy, com as bochechas corando de leve.

Ao ver aquela expressão de alegria, até Zagan começou a corar.

— E-Entendo... Você comprou com aquela atendente, né? Ela te pediu para fazer alguma coisa estranha?

Nephy assentiu com calma, levou a mão ao peito e respondeu às perguntas.

— Está tudo bem. Ela só me fez usar umas roupas um pouco constrangedoras.

— Isso não está tudo bem!

— Hã...? Eu só mostrei para a Manuela, então não está tudo bem?

— Esse não é o problema...

A garota ainda não tinha aprendido a desconfiar dos outros.

Bom, tudo bem, contanto que seja aquela mulher.

Quando Nephy caiu numa armadilha, Manuela não deu a mínima para o perigo e o seguiu até a base de um feiticeiro inimigo. A chance de machucar Nephy era quase nula. Além do mais, se intrometer nos relacionamentos pessoais de Nephy seria constrangedor.

Como não conseguia se livrar da ansiedade, Zagan seguiu em frente e pediu para Nephy se sentar também.

— Certo, vamos comer?

Nephy assentiu com a cabeça e sentou-se ao lado de Zagan. Ela vestia roupas como as de uma serva, todavia Zagan não a considerava uma serva ou escrava. Sempre se certificava de que desfrutassem das refeições juntos.

Enquanto comia um pedaço do pão fresco, o aroma saboroso do centeio se misturava com a manteiga derretida que se espalhava por toda a sua boca. Mesmo depois de engolir, ainda sentia aquela sensação na saliva.

— Haaa... Uma refeição caseira é tão deliciosa assim, hein?

— Mestre Zagan, o senhor sempre diz a mesma coisa, não é?

A garota o observava de soslaio, inexpressiva como sempre, entretanto Zagan não deixou de notar que seus delicados lábios haviam se entreaberto.

Um mês havia se passado desde que a comprara, mas sempre que os dois faziam uma refeição, ainda tinham essa troca de palavras.

Enfim, enquanto saboreava a sopa, ele ouvia Nephy.

— Mestre Zagan, o que o senhor tem investigado ultimamente?

— Hmm...? Vejamos, outro dia, nos deparamos com algo chamado “demônio” durante o caso com Barbatos, certo? Estou investigando essa coisa.

— É algo difícil?

— Com certeza. Mesmo com o legado de Marchosias, não consegui encontrar nenhuma informação que chegue ao cerne da questão. Embora duvido que um Arquidemônio que viveu por mil anos nunca tenha investigado sobre.

Ou talvez, justamente por ter chegado perto do cerne da questão, teria a escondido.

Talvez seja uma boa ideia reexaminar o castelo de Marchosias, então.

Junto com o Sigilo do Arquidemônio, Zagan herdou o legado de Marchosias. Isso incluía não apenas seus bens, como também seu castelo e material de pesquisa.

Porém sabia que teria que cavar fundo para encontrar quaisquer segredos reais ali.

Enquanto ponderava sobre esses pensamentos, Zagan baixou o olhar para a mão direita. Tenho a impressão de que... Já vi um brasão parecido em algum lugar... E foi recentemente. Enquanto quebrava a cabeça tentando se lembrar, Zagan inclinou a cabeça para o lado.

— Que raro você perguntar uma coisa dessas, Nephy. Está interessada?

— Não, é só que você anda com uma expressão de cansado, então estive pensando a respeito...

Zagan passou a mão no próprio rosto. Tentara parecer o mesmo de sempre, contudo parecia que tinha falhado. Espera, será que foi por isso que ela tentou me surpreender mais cedo?

Parecia que Nephy estava tentando animar Zagan à sua maneira.

Aquele simples ato de bondade fez o seu coração arder, no entanto soltou um resmungo com um “hmph”.

— Ele ainda era o antigo Arquidemônio. Seria chato se tudo caísse direto no meu colo. Ver até onde consigo chegar é a parte divertida.

— Sim.

Ele estava fazendo uma demonstração inútil de coragem em um exagerado tom forte, entretanto Nephy apenas respondeu como se entendesse tudo perfeitamente.

Por que será que nessas horas não consigo dizer um simples “obrigado”...? E enquanto se frustrava com sua inaptidão, seu último prato ficou vazio e Nephy colocou a sobremesa na frente dele.

— Por favor, fique à vontade.

— Hmm...

O pudim que Nephy trouxe tinha uma textura gelatinosa que se mexia. E havia um molho de caramelo preto como breu por cima.

Que tipo de comida é essa...? Até conhecer Nephy, Zagan só havia comido carne seca e leite, que vagamente lembravam refeições, então pudim era algo novo e desconhecido para seus padrões.

Pela textura, lembrava um ovo cozido, mas sua massa inteira se mexia de forma brincalhona com um simples chacoalhar na mesa. Também parecia instável a ponto de achar que cutucá-lo com uma colher faria tudo desmoronar. Ela disse que era cozido no vapor, embora Zagan não conseguia distinguir se era comida cozida no vapor ou crua.

Sem saber como deveria lidar com o pudim, Nephy apontou para uma colherzinha.

— Por favor, aproveite usando aquela colher ali.

— Certo. — preparando-se, Zagan tentou pegar um pouco do pudim com a colher.

Sem qualquer resistência, um pedaço marrom claro se formou em sua colher. Sentiu que iria tombar se o manuseasse com muita força, então o levou com cuidado e firmeza à boca. E então...

— Oh, é doce.

— Sim! — Nephy assentiu, como se estivesse aliviada.

O mundo é vasto. Um sabor tão doce e delicioso realmente existiu todo esse tempo?

O canto de seus olhos ficou úmido. Zagan ergueu o olhar bruscamente enquanto lágrimas começavam a se formar em seus olhos.

Ao mesmo tempo, pensou em mais uma coisa que precisava aprender. E, naquele exato momento... A barreira que protegia o castelo se quebrou.



***



— Hm? Parece que temos um visitante. — murmurou Zagan, com indiferença.

Zagan havia erguido uma barreira ao redor de todo o seu domínio, e seu castelo estava no centro dela. Esqueça chegar perto, uma pessoa normal não conseguiria nem mesmo perceber a existência do próprio castelo. E ainda quando alguém conseguia atravessá-la, tinha que enfrentar inúmeras armadilhas que Zagan havia conjurado, embora o intruso conseguiu ultrapassá-las e seguir em frente.

Isso é... Bastante impressionante...

Zagan não conseguia perceber o quanto Nephy havia entendido, pois ela inclinou a cabeça para o lado como um pequeno pássaro canoro.

— Vamos lá encontrá-los?

— Não, tudo bem. Estamos no meio de uma refeição, então eles podem esperar. Deixe-os em paz.

Ele conseguiu dar uma resposta tão tranquila porque não era a primeira vez que isso acontecia. Além do mais, esse era o outro problema que Zagan precisava resolver logo.

Como sou um Arquidemônio, “convidados” vêm me visitar quase todos os dias.

Zagan tinha dezoito anos, mas essa era a marca de um mero novato para feiticeiros que viveram por várias centenas de anos. E havia sido coroado Arquidemônio, então pessoas atrás de sua morte eram como água. Não era como se enfrentasse vários oponentes por dia, porém pelo menos um parecia aparecer a cada dois dias.

Os intrusos eram em sua maioria feiticeiros e Cavaleiros Angelicais que não compreendiam a extensão de seus próprios poderes. Aliás, os principais intrusos que apareceram desde sua coroação foram aqueles três Cavaleiros Angelicais da igreja que não compreendiam não apenas o poder que possuíam, como também a identidade de seu inimigo.

Antes, não dava a mínima atenção às faíscas que caíam sobre ele. Contudo, sua vida havia mudado.

Agora tinha Nephy. Ela foi a primeira garota por quem Zagan desejou ardentemente, e aquela que lhe ensinou o verdadeiro significado da felicidade.

Até mesmo as faíscas daquela ralé podiam queimar Nephy, então precisava contê-las.

Aqueles malditos idiotas precisam ser erradicados... Este era também o primeiro passo para permitir que Nephy vivesse sob a luz do sol.

Se Zagan conseguisse demonstrar que não valia a pena desafiá-lo, então os tolos que ousassem tocar em Nephy também acabariam desaparecendo. Para esse fim, precisava pegar aqueles que o desafiavam fazendo suposições incorretas e fazê-los sofrer lenta e constantemente até que o medo e o desespero estivessem gravados em seu ser antes de mandá-los embora.

Afinal, um cadáver não conseguia espalhar o medo. Era isso que precisava fazer, no entanto Zagan apenas sentou-se ao lado de Nephy e saboreou o pudim.

As armadilhas os fariam sofrer sem que Nephy precisasse ver nada.

Zagan preferia não se comportar de maneira cruel na frente de Nephy. Essa garota compassiva se entristeceria até mesmo com a morte de gente tão desprezível, e sabia que isso também poderia traumatizá-la.

Sinto que não conseguiria me recuperar se ela me odiasse depois de me ver cometer atos horríveis.

Foi por esse motivo que Zagan não se levantou, preferindo aproveitar o almoço com ela.

Entretanto... Desta vez eles conseguiram nos alcançar... O intruso atual derrubou completamente sua barreira. Dada a situação, era possível que marchassem através do resto de suas defesas e chegassem ao seu castelo.

Enquanto pensava em seu próximo movimento, Zagan moveu a colher com cuidado, como se protegesse o pudim do qual havia provado apenas uma mordida até então. Um prato tão fino não era algo que pudesse desrespeitar devorando-o às pressas. O intruso estava se aproximando, todavia Zagan saboreava o pudim com todo o prazer, uma mordida após a outra.

— Hmm. Entendo... É delicioso.

— Estou honrada. Mas... Será que está tudo bem? Hmm, sobre o convidado, quero dizer...

Talvez preocupada com o intruso, Nephy falava inquieta.

— De qualquer forma, é como sempre. A culpa é deles por aparecerem enquanto estamos comendo. Esqueça.

— Haaa... — Nephy não disse mais nada sobre o assunto e soltou um longo suspiro.

Depois disso, ela arrancou um pedaço de pão e começou a mastigá-lo. Nephy comia devagar, talvez por causa de sua boca pequena. Mesmo enquanto Zagan a observava e desejava que comesse mais rápido devido ao perigo iminente, ele secretamente gostava de observá-la.

E então, quando estavam quase na metade da refeição... O portão do castelo foi arrombado com um estrondo explosivo.

— Que convidado impaciente.

Pelo visto havia conseguido passar por todas as armadilhas e barreiras que Zagan havia preparado. O intruso parecia ter percebido a posição de Zagan e Nephy pela presença dos dois e estava indo direto para o salão de jantar.

— Haaa... — Zagan poderia consertar o portão com magia sem nenhum problema, mesmo que estivesse quebrado, porém não conseguiu impedir que a poeira caísse sobre a sua refeição.

Enquanto acenava com seu dedo no ar, a porta do salão de jantar se abriu sozinha. E então, um membro das raças místicas usando uma máscara apareceu à frente.

A máscara tinha a forma de algo parecido com uma cobra e dava a impressão de ser uma vestimenta nativa de algum lugar. Um manto preto como azeviche cobria todo o seu corpo, e um capuz ia até os olhos, então não era claro a que raça pertencia. Pelas bainhas do manto, pôde vislumbrar braços e pernas cobertos por uma armadura grosseira.

O intruso parecia não acreditar que seria recebido e apenas permaneceu ali parado, como se estivesse hesitante.

É alto mesmo, hein?

A altura de Zagan era mediana para um homem adulto, contudo o misterioso intruso era cerca de uma cabeça mais alto.

Por fim, o intruso murmurou, como se tivesse reunido coragem.

— Então você é... O Arquidemônio Zagan? — o intruso fez a pergunta com uma voz difícil de ouvir.

— Deveria se apresentar antes de perguntar o nome de outra pessoa... No entanto, por acaso me lembro de ter visto sua figura antes. Você é aquele chamado de “Aparição Valefor” ou coisa do tipo, certo?

Uma figura tão bizarra não era algo que poderia esquecer fácil. E se bem se lembrava, era um dos feiticeiros presentes no leilão sombrio onde conheceu Nephy. Seu amigo indesejável, Barbatos, havia lhe dito que este era um dos candidatos a Arquidemônio na época.

Naquela época, ele os ignorava, todavia agora parecia impossível.

Depois de um tempo, Valefor estendeu o dedo enluvado.

— Arquidemônio Zagan, vou derrotá-lo e então... Tomarei seu maldito poder para mim. — palavras tão honestas e desajeitadas não combinavam com um feiticeiro.

Entretanto, Zagan nem olhou para Valefor e só falou como se quisesse incutir medo.

— Estamos no meio da refeição. Espera um pouco.

— Ugh... — Valefor recuou quando Zagan deu a ordem com um vigor extraordinário.

Enquanto obedecia, Zagan segurou a pequena colher em sua mão e pegou um pouco de pudim.

Quero saborear o pudim que Nephy fez para mim, até a última colherada.

Pode ter soado como se Zagan estivesse zombando de Valefor, mas estava falando muito sério. Além do mais, havia o fato de estar irritado por ter sua refeição interrompida. E por causa daquela única frase, que parecia transbordar a dignidade de um Arquidemônio, Valefor caiu de joelhos como se não conseguisse mais suportar.

Nephy então sussurrou para Zagan, em um tom um tanto tenso.

— Mestre Zagan, se lhe aprouver, posso fazer de novo.

— Eu gostaria, porém largar a colher aqui é outra história. — e com essa resposta, o som de Valefor rangendo os dentes ecoou.

— Não... Zombe... De mim...! — o intruso ergueu o braço enquanto gritava, e a luz da feitiçaria jorrou.


Valefor compreendeu que Zagan era um Arquidemônio e mesmo assim veio desafiá-lo. Portanto, a feitiçaria que estava prestes a lançar devia ser a melhor que tinha. E, porém, absolutamente nada aconteceu.

— Uh...

Do outro lado da máscara, Zagan sentiu uma presença abalada.

— Se vai invadir o domínio de outro feiticeiro, então deveria ao menos investigar seu oponente. Meu segundo nome é Matador de Feiticeiros, entendeu? Feitiçaria não funciona comigo.

Zagan “devorava” a feitiçaria alheia. Se estivesse dentro de seu próprio domínio, então não importava onde fosse, seria capaz de suprimir a feitiçaria. Não importava o quão excepcional fosse esse misterioso intruso, contanto que fosse um feiticeiro, não tinha chance de vitória.

Enquanto comia o pudim com sua colher, Zagan soltou um suspiro e o informou dos fatos. Ele queria saborear o pudim até o fim. E assim, esperava que Valefor apenas entendesse a diferença de poder entre os dois e fosse embora.

Se um feiticeiro com um segundo nome fosse embora sem poder fazer nada, isso por si só tornaria meu poder conhecido.

Por ora, não era como se tivesse perdido de vista seu objetivo de terminar o pudim.

Contudo, Valefor elevou a voz em elogio.

— Entendo. Mesmo sendo podre, você ainda é um Arquidemônio, hein? — os braços do misterioso intruso se transformaram enquanto gritava essa frase. A armadura de aço se transformou em escamas endurecidas e as pontas dos dedos em unhas afiadas como estacas.

Zagan podia sentir poder suficiente naqueles braços e garras grossas para pulverizar pedra sem usar feitiçaria.

Aquilo... Não é feitiçaria, certo...? O fluxo de poder correspondente a um círculo mágico não ocorreu. E não era como se tivesse sido substituído por um feitiço ou encantamento, já que não houve nenhuma alteração no fluxo de mana em si.

Neste mundo, existiam muitas raças que possuíam sabedoria além dos humanos. Como os teriantropos, que possuíam garras e presas, ou os avianos, que possuíam asas.

Como as garras e presas dessas raças não eram feitiçaria, elas não podiam ser detidas por um arranjo que selasse a feitiçaria. Isso significaria que a transformação dos braços de Valefor também se enquadrava nessa categoria. E entre as raças místicas, reconheceu o braço como o de um dragão.

Os dragões eram, assim como os elfos, seres lendários mencionados em lendas. Eram uma raça que recusava contato com o mundo e, além disso, possuía sabedoria e feitiçaria além do alcance dos humanos. Dizia-se até que se orgulhavam de possuir mana que superava a dos elfos. Conforme envelheciam, tornavam-se seres capazes de assumir o nome de deuses e demônios e se equiparar a eles.

No entanto, apesar de ser um dragão, este é bastante impotente, não é? Seria algo como um feiticeiro que obteve o poder de um dragão? De qualquer forma, parecia que possuía um poder desconectado da estrutura da feitiçaria, o que talvez explicasse por que o misterioso intruso desafiou um Arquidemônio.

Valefor saltou para o salão de jantar e, em seguida, desceu em um mergulho com as garras de um dragão.

— Avisei que estamos no meio da refeição. Serei seu oponente mais tarde, então não pode esperar um pouco?

Todavia, as garras foram detidas por uma única mão. A colher que segurava agora estava em sua boca, e sua mão esquerda protegia o pudim como se fosse precioso.

Zagan percebeu que Valefor estava arregalando os olhos por trás da máscara diante da reviravolta absurda dos acontecimentos. Mesmo assim, o intruso não desistiu.

— Ridicularizando... A mim!

A boca da máscara se abriu com um estalo, e a luz da mana começou a convergir na área.

Havia uma lenda conhecida de que os dragões queimavam mana dentro de seus corpos para disparar um sopro de luz.

Parecia que Valefor estava tentando realizar tal feito, e Zagan não possuía nenhuma técnica para impedi-lo.

Com o rosto rígido em compreensão, Zagan rugiu.

Seu maldito idiota... Eu te avisei!

— Você vai sujar a comida de poeira desse jeito, então pare com essa droga!

Parecia que havia confundido sua postura pública com seus sentimentos brutalmente honestos, entretanto Zagan soltou as garras e bateu com a palma da mão na máscara para fechar sua boca à força.

A mana da respiração se dispersou. A palma de Zagan foi forçada para trás, mas o choque ocorreu logo abaixo do cérebro e o sacudiu, fazendo com que o grande corpo do intruso fosse lançado ao ar.

Nephy cobriu o rosto assustada, e quando abriu os olhos timidamente, viu o intruso cair no chão com um baque surdo.

Os braços e pernas de dragão transfigurados retornaram à sua forma de armadura, e uma fissura percorreu a máscara com um estalo e um rangido.

Parecia que tinha perdido a consciência.

Certificando-se de que o obstáculo havia sido silenciado, Zagan soltou um resmungo com um “hmph”.

Eu também fiquei mais contido, hein?

Se fosse o antigo Zagan, o intruso já teria virado pedaços. Porém agora estava se contendo e parando ao apenas nocauteá-los, o que teria sido impensável há apenas um mês.

Tal mudança se devia inteiramente à alegria de viver com Nephy.

E como se estivesse envolvendo o quão milagrosa era sua felicidade, Zagan murmurou.

— Talvez seja melhor... Fortalecer um pouco mais a barreira. De agora em diante, intrusos como esses devem se multiplicar.

Ele o havia derrotado com facilidade, contudo Valefor não era de forma alguma um feiticeiro fraco. Zagan sabia que não teria uma vitória garantida se o tivesse enfrentado um mês atrás.

O motivo pelo qual conseguia vencer com tamanha facilidade agora era simples, na verdade.

Zagan havia ficado muito mais forte. Além do Sigilo do Arquidemônio, havia recebido o legado de Marchosias. Em geral, a feitiçaria se tornava mais forte em proporção ao conhecimento acumulado. Dessa forma, depois de se tornar um Arquidemônio, Zagan aumentou seu poder em uma velocidade impressionante.

Nephy se levantou, um tanto pálida, enquanto Zagan soltava um suspiro. Deixando sua refeição como estava, ela correu até o intruso.

— Escute, Nephy, apenas deixe-o em paz. É bem provável que não acordará até que nossa refeição esteja completa.

— Não, esta criança... Pode ser... — enquanto Nephy falava e erguia o intrusa nos braços, seus membros se desprenderam com um estrondo.

— Hã?

A visão fez o rosto de Zagan empalidecer.

Espera, o quê? Não, tudo o que fiz foi derrubá-lo, certo? Tenho certeza que não arranquei seus braços e pernas, arranquei? Mesmo tendo jurado não massacrar ninguém na frente de Nephy, parecia que já havia quebrado seu juramento.

E enquanto estava abalado, Nephy murmurou. — Como eu pensei... — e removeu a máscara rachada.

— Mestre Zagan, ela ainda é uma criança.

O rosto de uma criança pequena estava sob a máscara. Além disso, era uma menina.

Tinha cabelos verde-claros como os brotos da primavera. Como seus olhos estavam fechados, não conseguia ver a cor, no entanto notou que tinha cílios longos. Seus lábios eram de um rosa vibrante e, talvez por estar envolta em um robe volumoso, suas bochechas estavam coradas.


Os braços e pernas blindados eram apenas para exibição, uma espécie de papel machê, por assim dizer. Parecia que a armadura oca estava sendo manipulada por algum tipo de feitiçaria.

E então, Zagan enfim entendeu exatamente o que havia feito.

Será que... Acabei de dar um soco em uma criança e a nocauteei? Por que uma criança possuía o poder de um dragão enquanto fingia ser uma feiticeira? Em primeiro lugar, esse era mesmo Aparição Valefor? Uma enxurrada de perguntas como essas surgiu em sua mente.

Parecia que não era hora de Zagan se alegrar por não a ter matado. Como se estivesse escondendo sua perda de compostura, Zagan abriu a boca para falar.

— Hmph... N-N-Não entre em pânico, Nephy. Se está preocupada, então não tem problema em ajudá-la. Bem, vamos ver, acho que ainda deve haver algum remédio para resfriado por aqui. Além do mais, ela não está morta, certo? Está viva, não é? Por enquanto, devemos levá-la para um quarto com uma cama?

— Por favor, acalme-se, Mestre Zagan. Remédio para resfriado não pode ser usado para tratar feridos. — Nephy falou como se estivesse repreendendo Zagan, que não conseguiu esconder um pingo de sua inquietação. Então, colocou a mão na testa da criança antes de assentir.

— Está tudo bem. Parece que apenas perdeu a consciência. Também parece estar ilesa.

— É mesmo? Está falando a verdade, não é? Não está morta, né?

— Sim.

Ao ouvir sua confirmação, Zagan soltou um suspiro de alívio com a mão no peito. Nephy olhou para ele enquanto fazia esse gesto, como se suas ações fossem inesperadas.

— O que foi?

— Não é nada, Mestre Zagan... O senhor é tão gentil quanto eu pensava.

— Hã...?

Enquanto Zagan a encarava maravilhado, Nephy segurava Valefor nos braços. Embora fosse apenas uma garotinha, parecia difícil para Nephy levantá-la com seus braços delicados.

Então, apesar de seguir perplexo, Zagan fez um gesto para que carregasse a criança.

— Está tudo bem assim?

— Sim.

— Sério, que intrusa problemática. — ainda resmungando, Zagan estava apavorado com a ideia de ter socado uma criança na frente de Nephy. Entretanto, como se para afastar tais medos, Nephy se aconchegou ao seu lado.

A intrusão da pequena dragão marcou a primeira de muitas mudanças na vida cotidiana que compartilhavam.

***

Link para o índice de capítulos: Madome

Para aqueles que puderem e quiserem apoiar a tradução do blog, temos agora uma conta do PIX.

Chave PIX: mylittleworldofsecrets@outlook.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário