domingo, 24 de maio de 2026

Vampire Hunter D — Volume 04: Tale of the Dead Town — Capítulo 21

Volume 04: Tale of the Dead Town Capítulo 21: Jornada Noturna








Parte 1

Na Fronteira, nada era considerado mais perigoso do que uma jornada noturna.

Alegando que a noite era o seu mundo, a Nobreza outrora povoara o globo com monstros e criaturas lendárias, como se quisesse adornar a escuridão com um toque de beleza mortal. Essas mesmas criaturas repugnantes vagavam desenfreadas pela terra das trevas até os dias de hoje. Era dessa forma que os vampiros mostravam suas presas à ideia humana de que a luz do dia era o momento da ação e a escuridão da noite, o do descanso. A escuridão da noite era a maior das verdades, afirmavam os vampiros, e a governante do mundo.

Adeus, luz branca do verão.

Por isso a noite era repleta de ameaças. Os gemidos de demônios oníricos pairavam no ar, e a escuridão sussurrava as ameaças de bestas capazes de rasgar dimensões. Logo além da orla da floresta, brilhavam olhos da cor de jaspe. Tantos olhos. Mesmo as tropas bem armadas enviadas para as áreas devastadas da Capital sentiam-se tão aliviadas após escaparem pelos quarteirões de prédios de apartamentos dilapidados que se jogavam ali mesmo na estrada.

Na Fronteira, era ainda pior. Nas estradas principais, postos de parada rudimentares haviam sido construídos em intervalos entre uma hospedagem e outra. Porém, quando o sol se punha em uma das estradas secundárias que ligavam as aldeias esquecidas por Deus, os viajantes eram forçados a se defender apenas com as próprias mãos e quaisquer armas que pudessem carregar. Havia apenas dois seres que optavam por viajar à noite. A Nobreza. E os dampiros. Principalmente se o dampiro fosse um Caçador de Vampiros.

Espalhando uma chuva de luar por toda parte, a forma sombria de um cavalo e seu cavaleiro subia uma colina desolada. A montaria era apenas um cavalo ciborgue comum, contudo os traços do cavaleiro eram tão puros e nítidos quanto uma joia, como se a estranha beleza da escuridão e da lua se cristalizasse. Cada vez que o vento insistente o tocava, tremia de incerteza, girava e seguia em frente, carregando um ar completamente novo. Uma aura inquietante. Seu chapéu de viajante de abas largas, a capa e o cachecol pretos como tinta, mais escuros que a própria escuridão, e a bainha da elegante espada longa que adornava suas costas estavam desbotados e gastos o suficiente para evocar lembranças dos tempos árduos que aquele viajante havia vivenciado.

O jovem viajante estava com os olhos fechados, talvez para evitar a poeira levada pelo vento. Seu perfil era tão gracioso que parecia que o Mestre Artesão lá no céu o havia transformado em Sua obra mais requintada. O cavaleiro parecia exausto e imerso em um sono solitário. Sono... Para ele, era apenas uma pausa na batalha, contudo muito longe da paz de espírito.

Algo mais se misturou ao gemido do vento. Os olhos do viajante se abriram. Uma luz lúgubre refletiu-se neles e logo se dissipou. Seu cavalo não diminuiu o passo. Pouco mais de dez segundos foi tudo o que precisaram para chegar ao topo da colina. Agora os outros sons estavam claros. O estalo de uma arma e uivos de animais selvagens.

O viajante olhou para a planície abaixo, avistando um caravana de tamanho médio que estava sendo atacada. Vários dragões menores rondavam ao redor... Mais “filhos da noite” semeados pela Nobreza. Sua espécie costuma habitar pântanos mais ao sul, entretanto as vezes problemas com os controladores climáticos enviavam bandos de dragões para o norte. A migração de espécies perigosas era um problema sério na Fronteira.

A caravana já estava meio destruída. Buracos haviam sido rasgados nos tetos da cabine e dos aposentos, e os dragões menores continuavam enfiando a cabeça para dentro. A situação era clara apenas pelos pedaços de madeira fumegantes, os sacos de dormir e um par de corpos humanos parcialmente devorados e mal reconhecíveis estendidos em frente a caravana. Devido a circunstâncias fora de seu controle, talvez algo relacionado ao sistema de propulsão, a família fora forçada a acampar em vez de dormir no veículo, como deveriam. Todavia palavras não conseguiam descrever a imprudência deles ao esperar que uma pequena fogueira mantivesse as criaturas que rondavam a noite afastadas. Havia três sacos de dormir. Mas não havia cadáveres suficientes para todos.

Mais uma vez, um tiro ecoou, um clarão laranja vindo de uma janela da sala de estar rasgou a escuridão, e um dos dragões cambaleou para trás quando o ponto entre seus olhos explodiu. Para alguém tolo o suficiente para acampar à noite, o atirador parecia bem informado e bastante habilidoso com uma arma. Pessoas que viviam no norte geralmente nunca tinham ouvido falar onde mirar para matar criaturas do sul como esses dragões menores. Porém uma solução para esse enigma logo se apresentou. Havia uma grande moto magnética estacionada ao lado do veículo. Alguém havia se juntando para resgatá-los.

O cavaleiro puxou as rédeas de seu cavalo ciborgue. Sacudindo o luar que incrustava seu corpo como poeira, o cavalo começou a descer. Galopando pela encosta íngreme com a velocidade que costumava se reservada para terrenos planos, a montaria deixou um rastro de vento enquanto se aproximava dos dragões menores.

Percebendo a investida impetuosa desse novo inimigo, um dragão na retaguarda do grupo se virou, e o cavalo e o cavaleiro deslizaram ao seu lado como um vento negro. Sangue brilhante só jorrou entre os olhos da criatura depois que o cavalo parou de repente e o viajante desmontou com um floreio de sua capa. A maneira como caminhava em direção às criaturas, com suas bocas colossais escancaradas e fileiras de dentes ensanguentados à mostra, parecia tranquila à primeira vista, contudo com o tempo mostrou a rapidez de uma andorinha em voo. Ao redor do jovem de preto, ouvia-se o som de aço encontrando aço repetidas vezes. Incapazes de separar os dentes irregulares que acabavam de juntar, todos os dragões menores ao seu redor desabaram em uma chuva de sangue, com rasgos se abrindo entre seus olhos. E o dragão que saltava em sua direção do teto do trailer não foi exceção.

O belo semblante do jovem parecia cansado dos gritos das criaturas moribundas, no entanto sua expressão não mudou nem um pouco e, sem sequer olhar para os dois corpos mutilados, ele embainhou sua espada longa e voltou para seu cavalo ciborgue. Como se quisesse dizer que fizera aquilo por puro capricho, como se quisesse sugerir que não se importava com o bem-estar de nenhum sobrevivente, virou as costas para aquele mundo envolto em morte e apertou as rédeas com mais força.

— Ei, espere um minuto! — gritou uma voz masculina de maneira um tanto agitada. O jovem parou e se virou. A porta do veículo se abriu e um homem barbudo com um colete de couro apareceu. Na mão direita, segurava um rifle perfurante de tiro único. Um facão estava preso ao cinto. Com a expressão sombria que ostentava, teria parecido mais natural segurar o facão em vez de uma arma. — Não que eu não aprecie sua ajuda, camarada, mas não há razão para você só virar as costas e fugir assim agora. Venha aqui um minuto.

— Só tem um sobrevivente... — disse o jovem. — E é uma criança, então suponho que seja capaz de lidar por conta própria com a situação.

Uma pontada de surpresa inundou o rosto peludo do outro homem.

— Como você...? Ah, viu os sacos de dormir. Agora espere um minuto, camarada. O reator atômico tem um trocador de calor rachado e todo a caravana está cheia de radiação nesse momento. Foi por esse motivo que a família saiu em primeiro lugar. A criança levou uma boa dose.

— Então se apresse e cuide disso.

— Os suprimentos que estou levando não serão suficientes. Um médico da cidade precisa cuidar da situação. Para onde está indo? Para o ponto de encontro do Zemeckis?

— Sim, estou. — respondeu o jovem de preto.

— Calma. Só um momento. Conheço as estradas por aqui como a palma da minha mão.

— Eu também. — o jovem se afastou do homem mais uma vez. Então parou. Ao se virar, seus olhos eram gélidos e escuros.

A criança estava atrás do homem. Seus cabelos negros chegariam até a cintura se não estivessem presos por uma fita colorida. A blusa de algodão rústico e a saia longa pouco escondiam sua idade, ou o volume de seus seios fartos. A garota era bonita, com cerca de dezessete ou dezoito anos. Enquanto olhava para o jovem, uma curiosa tonalidade de emoção preencheu seus olhos. Havia algo nos traços belos do jovem que a fazia esquecer a perda dolorosa de sua família, bem como o perigo muito real de perder a própria vida. Estendendo a mão, ela estava prestes a dizer algo quando desabou no chão de bruços.

— Eu não disse? Ela está muito machucada! Não vai aguentar até o amanhecer. É por isso que preciso da sua ajuda.

O jovem virou o cavalo sem dizer uma palavra.

— Qual de nós vai carregá-la? — perguntou.

— Eu, é claro. Te convencer a ajudar até aqui foi uma luta, então que me condenem se te deixar fazer a parte divertida.

O homem tirou um cinto de couro da moto e voltou, colocou a jovem nas costas e a prendeu habilmente a si mesmo.

— Tudo pronto. — disse o homem, encarando o jovem de preto enquanto montava em sua moto com ignição por magneto. A garota se encaixou perfeitamente no banco de trás. Parecia um arranjo bem aconchegante. — Ok, lá vou eu. Me siga. — o homem agarrou o guidão, entretanto antes de acionar a ignição, virou-se e disse. — É verdade, eu não me apresentei, né? Sou John M. Brasselli Plutão VIII.

— D.

— É um bom nome que tem aí. Só não tente abreviar o meu para algo mais fácil de pronunciar. Quando me chamar, por favor, use meu nome completo. John M. Brasselli Plutão VIII, ok?

Enquanto o homem reforçava seu ponto, D olhava para o céu.

— O que foi? — perguntou o outro.

— As coisas lá fora sentiram o cheiro de sangue e estão a caminho.

As criaturas negras emolduradas contra a lua estavam se aproximando. Um bando de predadores aviários. E uivos lupinos podiam ser ouvidos no vento.



Contrariando as expectativas, nenhuma ameaça se materializou para atrapalhar o progresso do grupo. Cavalgavam há cerca de três horas. Quando as montanhas enevoadas, ao longe, do outro lado da planície, começaram a preencher seu campo de visão e a ganhar um toque de realidade, John M. Brasselli Plutão VIII voltou seu olhar penetrante para D, que cavalgava ao seu lado.

— Se formos até o sopé daquela montanha, a cidade deve estar por perto. Que negócios você tem com eles, amigão? — perguntou. Como D não respondeu, acrescentou. — Droga, bancando o durão de novo, hein? Aposto que está acostumado a ficar aí parado, fazendo o seu papel de forte e silencioso e conquistando todas as mulheres. Vejo que é bom no que faz, admito, só não conte com isso sempre. Cedo ou tarde, sempre é algum cara direto como eu que acaba virando o centro das atenções.

D olhou para frente sem dizer uma palavra.

— Ah, que sem graça. — disse o motoqueiro. — Vou acelerar o resto do caminho.

— Pare.

Plutão VIII empalideceu por um instante com a ordem brusca, porém, talvez numa demonstração de falsa coragem, girou o botão de partida com força. O combustível de urânio lançou chamas pálidas dos propulsores, e a moto disparou numa nuvem de poeira... E parou quase tão rápido quanto disparou. O motor ainda tremia, contudo as rodas só levantavam areia. Sob o brilho ofuscante do luar, sua moto movida a energia atômica não só se recusava a se mover um centímetro, apesar de seus cinco mil cavalos de potência, como estava afundando no chão.

— Maldição! — sibilou. — Uma víbora da areia!

A criatura em questão era uma serpente colossal que vivia nas profundezas da terra e, embora ninguém jamais tivesse visto o corpo inteiro de uma, dizia-se que elas podiam chegar a medir mais de trinta quilômetros de comprimento. Assustadoramente, embora se dissesse que essas criaturas viviam suas vidas inteiras sem se mover um milímetro sequer, alguns acreditavam que usavam vibrações de alta frequência para criar frágeis camadas de terra e areia em milhares de lugares na superfície, para que pudessem se alimentar daqueles que tivessem o azar de cair em uma de suas armadilhas. Essas camadas se moviam de forma implacável para baixo, tornando-se uma espécie de areia movediça. Devido ao movimento surpreendente que a areia apresentava, aqueles que a afundassem jamais conseguiriam sair. Para ter uma ideia de quão tenazes eram as mandíbulas dessa armadilha de areia e lama, bastava observar como os cinco mil cavalos daquele motor atômico se esforçavam em vão. Apesar de toda a luta da moto, suas rodas já haviam afundado até a metade na areia.

— Ei, não fique aí parado olhando, cara de pedra. Se tem uma gota de sangue humano nas veias, me ajude aqui! — Plutão VIII gritou com fervor. Suas palavras devem ter surtido efeito, porque D pegou um fino rolo de corda da parte de trás da sela e desmontou. — Se você estragar tudo, a corda vai afundar também. Então, faça valer a pena o seu arremesso. — grasnou o homem, e então seus olhos se arregalaram. O belo jovem não jogou a corda para ele. Mantendo-a na mão, começou a caminhar sem se alterar para dentro da areia movediça. Plutão VIII abriu a boca para uivar alguma nova maldição para o jovem, no entanto ela apenas permaneceu aberta... E por um bom motivo.

O jovem de preto começara a caminhar com elegância sobre mandíbulas mortais que devorariam qualquer criatura que encontrassem. Suas vestes negras dançavam ao vento, o luar ricocheteando nelas como reflexos prateados. Quase parecia a própria Morte, disfarçada de auxílio, pronta para envolver o pescoço daqueles que lhe estendessem a mão em busca de socorro.

A corda voou pelo ar. Agarrando a ponta com entusiasmo, Plutão VIII a amarrou no guidão de sua moto. Com o resto da corda enrolada ainda na mão, D voltou para o chão firme e montou em seu cavalo ciborgue sem dizer uma palavra.

— Muito bem! Agora, na contagem de... — Plutão não conseguiu terminar o que estava dizendo, pois sua moto foi puxada para frente. — Ei! Me de um segundo. Deixe-me acelerar um pouco também. — ele começou a dizer, entretanto teve apenas um momento para apertar o acelerador antes que a moto e seus dois ocupantes se libertassem das areias vivas e seus pneus estivessem de volta em solo firme.

— Cara, o que diabos você é, afinal? — Plutão VIII perguntou ao jovem montado, com uma expressão de choque no rosto. — Talvez não teríamos sorte de escapar de uma víbora da areia com um trator nos puxando, quanto mais de um cavalo ciborgue. E você vem e nos tira de lá sem nem suar... Te achei um pouco bonito demais, mas você não é humano, né? — batendo palmas, exclamou. — Já sei! É um dampiro!

D não se moveu. Seu olhar eternamente frio estava fixo nas profundezas da escuridão iluminadas pela lua, como se buscasse um caminho seguro.

— Porém não precisa se preocupar... — acrescentou. — Meu lema é “Mantenha a mente aberta”. Não importa se as pessoas ao meu redor têm pele vermelha ou verde, não discrimino ninguém. Contanto que não me façam mal, é claro. O que, é óbvio, também inclui dampiros. — a voz de Plutão VIII tinha um tom de sinceridade inquestionável.

De repente, sem sequer olhar para o homem ao seu lado, que parecia prestes a explodir de tanta bondade, D perguntou em voz baixa

— Está pronto?

— Para quê? — Plutão VIII deve ter captado algo no tom desinteressado do Caçador, porque seus olhos se voltaram para D e, no instante seguinte, percorreram a área ao redor, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás. Além do pedaço de terra onde os três estavam, pequenos buracos negros se formavam por toda parte. Conforme a areia escorria para dentro deles, como acontece em um covil de formigas-leão, os buracos em forma de funil cresciam rapidamente até que um tocava o outro, cercando o trio como as pegadas de um gigante invisível.



Parte 2

Filho da puta...

— Parece que essa víbora da areia não vai nos deixar sair daqui vivos. — disse Plutão VIII, com uma risada forte na voz. Às vezes, um pouco de alegria o invadia em meio ao desespero absoluto, contudo isso não tinha nada a ver com a risada de Plutão VIII, que seguia transbordando confiança e esperança.

No entanto como diabos sairiam dessa enrascada? Não parecia que D, com toda a sua incrível habilidade, conseguiria sair desses gigantescos fossos de formigas-leão. Ainda mais porque não estava sozinho. Seu companheiro de viagem carregava uma jovem amarrada às costas e, como a jovem estava sofrendo devido a envenenamento extremo por radiação, o tempo era essencial.

— Ei, o que fazemos? — perguntou Plutão VIII, parecendo bastante interessado na resposta.

— Feche os olhos e abaixe-se!

Veio a resposta áspera.

Plutão VIII não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, entretanto no instante em que obedeceu, o mundo inteiro se encheu de luz branca. Sob a coluna de luz que se estendia até o fundo do funil colossal, grãos de areia ficaram superaquecidos, borbulharam e esfriaram quase instantaneamente, transformando-se em uma planície vítrea que refletia a lua. A coluna de luz se estendia silenciosa até o céu repetidas vezes e, enquanto D semicerrava os olhos para essa mistura de luz e escuridão, seu rosto às vezes estava iluminado, outras vezes mergulhado em profunda sombra. Parecia durar uma eternidade, todavia não poderia ter durado mais do que alguns segundos. Além das depressões brancas e tênues que brilhavam como água, a planície iluminada pela lua estava tal como antes... Mortalmente imóvel.

— Parece que uma explosão atômica destruiu os buracos das víboras da areia, derreteu-os e os transformou em vidro. Quem diabos poderia ter feito algo assim? — Plutão VIII perguntou, e então dirigiu o olhar para D. Podia estar bem informado, mas um suspiro de admiração escapou-lhe mesmo assim.

Uma sombra negra que parecia circular e oblonga ao mesmo tempo se agarrava à parte central da cordilheira distante. Não estava nas paredes rochosas da montanha. A forma sombria cruzava os picos. Não só isso, à medida que avançava, também se tornava evidente que descia. Levando em consideração a distância, devia estar se movendo a uma velocidade de pelo menos 19 ou 20 quilômetros por hora. Era arredondada e tinha cerca de três quilômetros de diâmetro.

— Então, devemos agradecê-los? — perguntou Plutão VIII.

D fez um pequeno acenou com a cabeça.

— Que bom que existe uma cidade móvel por perto equipada com um canhão Prometheus. E a pontaria é incrível. Nossos salvadores chegaram na hora certa.

— Bem, graças a Deus. Só espero que o prefeito não seja do tipo que espera que a gente retribua o favor. Vamos lá. — disse o motoqueiro. — Não estou com vontade de ficar esperando a cidade chegar!

Os propulsores da moto rugiram e o baque de cascos ferrados na terra ecoou pela planície. Depois de correrem a toda velocidade por uns bons dez minutos, a enorme forma negra flutuou sobre o topo de uma colina à frente deles como uma nuvem. A parte inferior era coberta por esferas construídas de ferro e madeira, além de canos. A fumaça branca que saía destes indicava que ar comprimido era um dos tipos de energia que impulsionava a nuvem. E, no entanto, quanta força seria necessária para mover essa coisa apenas alguns centímetros? Afinal, essa estrutura gigantesca que fazia a terra tremer ao subir a encosta e deslizar devagar por ela era uma cidade inteira. Ainda sabendo disso, mesmo vendo-a de perto, não era fácil compreender algo tão impressionante. A cidade devia cobrir mais de cinco quilômetros quadrados. Sobre uma enorme base circular de cerca de nove metros de altura, edifícios de madeira, plástico e ferro se agrupavam. Entre eles, corriam ruas, algumas retas e ordenadas, outras sinuosas e caprichosas. Na borda dos edifícios densamente compactados, havia um pequeno parque e um conjunto de lápides que marcavam o cemitério. É claro que, além da área residencial, havia tudo o que se encontraria em uma vila ou cidade comum: um hospital, uma delegacia, uma cadeia e um quartel de bombeiros. No parque, árvores vivas balançavam com o vento.


A base que sustentava esse estabelecimento colossal e era indispensável para seu movimento suave pairava a cerca de um metro do chão. Aquilo não era algo que apenas jatos de ar comprimido ou motores de foguete pudessem fazer. Sem dúvida, a energia produzida pelo reator atômico dentro da base passava por um conversor de partículas subatômicas e era transformada em energia antigravitacional. Ainda assim, para manter a estrutura a quase um metro do chão, devia haver algum segredo na potência do reator atômico ou na capacidade dos conversores.

A base se erguia escura diante dos dois homens, e o ruído mecânico se aproximava cada vez mais. Uma luz ofuscante iluminou o trio de viajantes de uma plataforma próxima à estrutura de ferro na borda superior da base. Uma voz trovejou pelos alto-falantes.

— O que vocês querem?

Plutão VIII puxou o microfone de sua motocicleta até a boca e respondeu.

— Somos viajantes. E temos uma pessoa ferida aqui. Gostaríamos que um médico a examinasse. Vocês nos deixariam entrar?

Houve silêncio. O holofote continuou a brilhar sobre a dupla. Era de se esperar que armas bem escondidas os tivessem na mira. Depois de um tempo, houve uma resposta.

— Não dá. Não vamos aceitar sangue novo. A população da cidade já está trinta por cento acima do que nossos recursos podem suportar. Encontrem outra cidade ou vila. A mais próxima fica a vinte quilômetros daqui, um lugar chamado Hahiko.

— Só pode estar de sacanagem! — Plutão VIII rosnou, socando o guidão com o punho. — Quem diabos está falando de vinte quilômetros? Olha, essa garota que estou carregando nas costas foi atingida por uma radiação terrível. Não vai conseguir andar nem cem metros, quanto mais vinte quilômetros. Quem você pensa que é, a nobreza?

— Nada do que diga fará diferença. — disse a voz em um tom frio. — Essas ordens vêm do prefeito. Além do mais, a garota faz parte da família Knight, seu nome é Lori. Eles deixaram a cidade há dois meses e meio, então não vamos deixar nenhum deles voltar agora.

— Não me importo nem um pouco com isso. Temos uma garota no auge da vida prestes a morrer. Que porra, nenhum de vocês tem filhos?

A voz silenciou outra vez. Quando outro anúncio soou, era a voz de outra pessoa.

— Estamos prontos para seguir. — disse o novo locutor. — Então abram caminho!

E logo depois, parecendo um tanto agitado, acrescentou.

— Ei, jovem... Por acaso você se chama D?

O jovem fez um pequeno aceno.

— Oh, deveria ter dito desde o início. Fui eu quem mandou chamá-lo. Meu nome é Prefeito Ming. Só um segundo e já poderão embarcar.

As máquinas rangeram, a porta de ferro se ergueu e uma rampa de embarque começou a deslizar para fora.

D disse baixinho.

— Tenho alguns companheiros.

— Companheiros? — a voz do Prefeito Ming vacilou. — Sempre ouvi dizer que você era o Caçador mais reservado e independente da Terra. Quando conseguiu esses companheiros?

— Há pouco tempo.

— Há pouco tempo? Quer dizer esses dois?

— Está vendo mais alguém? — perguntou o Caçador.

— Não... É que...

— Lutei lado a lado com eles. Essa é a única razão pela qual os tenho aqui. Entretanto se não tem nada a tratar comigo, vou indo.

— E-Espere um minuto. — o tom do prefeito mudou de hesitante para determinado. — Não podemos nos dar ao luxo de perdê-lo. Vou abrir uma exceção especial para eles. Embarquem.

A terra tremeu quando a ampla rampa de embarque tocou o chão. Assim que os viajantes embarcaram, junto com a moto e o cavalo ciborgue, a rampa começou a subir de volta.

— Que audácia dessas pessoas e sua escada rolante exagerada. — resmungou Plutão VIII.

Assim que a rampa se retraiu para a base da cidade, uma porta de ferro se fechou atrás deles e os dois homens se viram em uma vasta câmara que cheirava a óleo. Vários homens armados, em plena forma, e um velho de cabelos grisalhos estavam lá. Este último era mais musculoso do que os homens que o cercavam. O prefeito Ming, sem dúvida. Talvez tivesse dificuldade para andar, pois carregava uma bengala de aço na mão direita.

— Que bom que vocês puderam vir. — disse ele. — Sou Ming.

— As apresentações podem esperar. — bradou Plutão VIII. — Onde está o médico?

O prefeito acenou com a cabeça, e dois homens se aproximaram e desamarraram a garota, Lori, das costas do motoqueiro.

— Imagino que seu acompanhante esteja mais interessado em comer do que em nos ouvir falar de negócios. — disse o prefeito, sinalizando para os outros homens com os olhos.

— Com certeza, você leu meus pensamentos. Bom, então vou indo, D. Até mais.

Quando Plutão VIII desapareceu por uma porta lateral, seguindo seus guias em seu próprio ritmo tranquilo, o prefeito conduziu D a uma passagem que continuava até o nível seguinte. O assobio do vento parecia não ter fim. Ao redor, uma paisagem acinzentada se desenrolava. Florestas e montanhas. A cidade estava se movendo pela Pradaria Inocente, a segunda das grandes planícies da Fronteira. Chicoteando a capa preta do Caçador e balançando seus longos cabelos negros, o vento desfocava a natureza selvagem a sua volta como uma distante pintura em aquarela.

— Gostou da vista? — o prefeito Ming fez um gesto com um dos braços, como se estivesse cortando a planície ao longe. — Majestoso, não é? — disse. Talvez tivesse interpretado a inexpressividade do jovem que olhava para a escuridão como uma expressão de admiração. — A cidade mantém uma velocidade de cruzeiro de 19 quilômetros por hora. Ela pode escalar qualquer cordilheira ou penhasco, desde que a inclinação seja inferior a sessenta graus. Claro, só quando damos aos motores uma infusão completa de energia antigravitacional. É assim que sempre garantimos aos nossos quinhentos habitantes uma viagem segura e confortável.

— Uma viagem confortável, você diz? — murmurou D, mas suas palavras talvez não tenham chegado aos ouvidos do prefeito. — Tudo bem, contanto que o seu destino também seja seguro e confortável. O que quer comigo?

Os cabelos do Caçador voavam ao vento que uivava pelo céu escuro. Eles estavam em uma plataforma de observação situada bem na entrada da cidade. Se fosse um navio, seria a proa... Ou talvez a popa. Projetando-se como estava do topo da base da cidade, parecia o lugar perfeito para sentir o vento, a chuva e todos os aspectos variados da mudança das estações.

— Não se importa com o que aconteceu com aquela garota, Lori? — perguntou o prefeito, ignorando a pergunta de D.

— Concentre-se nos negócios.

— Hmm. Um homem que consegue cortar um raio laser ao meio, que descartou toda emoção humana... Você é justo como as histórias o descrevem. Não me importa o quão forte seja o sangue nobre que corre em suas veias, dampiro, poderia agir um pouco mais como um ser humano.

D se virou para sair.

— Vamos lá. Não vá ainda. Pra que tanta pressa? — disse o prefeito, sem parecer particularmente ansioso. — Só existe um motivo para alguém chamar um Caçador de Vampiros... Matar nobres.

D se virou de volta.

— Quando deixei aquele homem entrar, duzentos anos atrás, jamais imaginei que tal coisa pudesse acontecer. — murmurou o prefeito. — Esse foi o maior erro da minha vida.

D passou a mão esquerda pelos cabelos esvoaçantes.

— Ele estava parado ao pé das Grandes Montanhas do Norte, sozinho. Quando o colocamos sob os holofotes, parecia a própria escuridão condensada. Sob condições normais, esta cidade não acolhe pessoas que encontramos pelo caminho, contudo talvez tenha sido a sua aparência que nos fez parar abruptamente. Havia um olhar profundo e sombrio em seus olhos. Pensando bem, se parecia muito com você.

O vento preencheu a repentina lacuna na conversa. Após uma pausa, o prefeito continuou.

— Assim que embarcou, subiu até o convés e ficou contemplando a natureza selvagem noturna e a cadeia de montanhas acidentadas por um longo tempo. Então, em um tom calmo, virou-se para mim e disse, “Escolha entre os moradores da cidade cinco homens e cinco mulheres de força e intelecto excepcionais para que me acompanhem em minhas viagens.” Claro, não pude deixar de rir. Nesse momento, ele gargalhou como um trovão e me disse, “Aceite minha oferta e seu povo conhecerá mil anos de glória. Recuse e esta cidade será amaldiçoada por toda a eternidade a vagar pelas terras selvagens e mortais.”. — disse o prefeito, interrompendo a frase.

Uma profunda fadiga se estampava em seu rosto poderoso e estranhamente sereno.

— Então o homem se foi. Uma pontada de ansiedade tomou conta do meu coração, no entanto nada aconteceu com a cidade depois disso. Os duzentos anos seguintes não foram lá nenhum período contínuo de paz e prosperidade, entretanto agora acho que posso dizer com segurança que foram tempos de pura felicidade. Agora que os dias sombrios chegaram, se esta cidade estiver de fato sob uma maldição, como decretou antes, jamais seremos agraciados com glória ou prosperidade de novo.

Talvez a razão pela qual o prefeito convidou o Caçador de Vampiros para subir ao convés fosse para lhe mostrar as terras selvagens e mortais de seu destino.

— Venha comigo! — disse o prefeito Ming. — Vou lhe mostrar o verdadeiro problema.

Uma garota jazia em uma cama simples. Mesmo sem ver sua pele pálida como parafina ou os ferimentos na base de sua garganta, era claro que era uma vítima da Nobreza. O mais perturbador eram seus olhos... Ela os mantinha fixos no teto, todavia ainda havia neles um brilho de vida.

— Esta é minha filha Laura. Ela tem quase dezoito anos. — disse o prefeito.

D não se mexeu, mas continuou olhando para a garganta pálida contra o travesseiro.

— Há três semanas, ela começou a agir de forma estranha. — disse o prefeito Ming. — Percebi quando disse que achava que estava ficando resfriada e começou a usar um cachecol. Eu jamais imaginaria que tal coisa pudesse ter acontecido. É simplesmente impossível que tivéssemos um nobre em nossa cidade, de todos os lugares.

— Sua filha foi mordida novamente desde então?

Ao ouvir as palavras gélidas de D, o prefeito, perturbado, assentiu com a cabeça.

— Duas vezes. Ambas à noite. Tínhamos um de nossos guerreiros vigiando-a nas duas vezes, porém ambos adormeceram sem que percebessem. Laura continua perdendo cada vez mais sangue, e não encontramos nenhum sinal do nobre.

— Vocês fizeram verificações, não fizeram?

— Cinco vezes, e verificações minuciosas. Todos na cidade podem andar à luz do dia.

Contudo D sabia que tal teste não era prova definitiva de que um dos moradores da cidade não fosse um vampiro.

— Faremos outra verificação mais tarde. — disse D. — No entanto ficarei com ela esta noite.

Um toque de alívio surgiu na expressão séria do prefeito. Embora o homem tivesse vivido mais de dois séculos, aparentemente, no fundo, era como qualquer outro pai.

— Eu agradeceria. Posso lhe oferecer algo?

— Estou bem. — respondeu o caçador.

— Se me permite a ousadia, posso dizer algo? — o tom firme lembrou ao prefeito e ao Caçador que havia mais alguém presente. Um jovem médico estava parado perto da porta com os braços cruzados. Sem fazer nenhum esforço para esconder a raiva em seu rosto, lançou um olhar fulminante para D.

— Perdoe-me, Dr. Tsurugi. O senhor tem alguma objeção? — perguntou o prefeito, curvando-se para o jovem que os interrompera.

O médico fora apresentado a D quando o prefeito levou o Caçador ao quarto de sua filha. Era um jovem médico itinerante que viajava de vila em vila na Fronteira. Assim como D, tinha cabelos pretos e olhos escuros, e não parecia haver muita diferença em suas idades. Entretanto, é claro, como um dampiro a idade de D não se revelava em sua aparência, tornando inúteis tais comparações.

O jovem médico balançou seu rosto inteligente, todavia ainda um tanto inocente, de um lado para o outro.

— Não, não tenho objeções. Já que não há mais nada que eu possa fazer por ela como médico, confiarei o próximo passo a este Caçador. Mas...

— Sim? — disse o prefeito.

— Gostaria de ficar de olho na Srta. Laura com ele. Sei que posso parecer inadequado, porém acredito que seja parte do meu dever como seu médico.

O prefeito Ming bateu pensativamente com a bengala na testa. Embora talvez considerasse o pedido do jovem médico natural, também devia desejar que o Dr. Tsurugi nunca tivesse sugerido um arranjo tão problemático.

Antes que o prefeito pudesse se virar para o Caçador, D respondeu.

— Se meu oponente não conseguir escapar, haverá uma luta. Não poderei mantê-lo a salvo.

— Posso me proteger.

— Ainda que isso signifique que possa ser mordido por um deles? — perguntou o Caçador.

Qualquer um que vivesse na Fronteira entendia a implicação daquelas palavras, e por um instante a expressão do médico impetuoso endureceu de medo, contudo logo respondeu com firmeza.

— É um risco que estou disposto a correr.

Seus olhos pareciam brilhar com intensidade enquanto encarava D.

— Nem pensar! — disse D, impassível.

— Por que... Por que não? Fui bem claro quando disse que estava preparado para...

— Se por acaso algo acontecesse com você, a cidade inteira se voltaria contra mim.

— No entanto isso é... — o Dr. Tsurugi começou a dizer. Seu rosto estava corado de raiva carmesim, todavia mordeu o lábio e conteve qualquer outra contestação.

— Bem, agora que está resolvido, gostaria que os dois saíssem. Tenho algumas perguntas para a garota. — disse D friamente, olhando para a porta. Esse era o sinal para que saíssem. Havia algo naquele jovem que poderia destruir qualquer vontade de resistir que ainda tivessem.

Quando o prefeito e o Dr. Tsurugi se viraram para sair, a porta de madeira à sua frente rangeu ao abrir.

— E aí, como vai, valentão? — disse alguém com uma voz alegre. O rosto que apareceu pertencia a ninguém menos que John M. Brasselli Plutão VIII.

— Como chegou aqui? — perguntou o prefeito bruscamente.

— Eu, er... Sinto muito, senhor. — disse um dos moradores atrás do motoqueiro... Um guarda, ao que parecia. — O senhor não acreditaria na teimosia desse cara, e ele é forte como um touro.

— Não faça um chilique agora, velho. — disse Plutão VIII, esboçando um sorriso amigável. — Imaginei que o D devia estar na sua casa. E não é como se houvesse alguém na cidade que não soubesse onde o prefeito mora. Enfim, D, descobri como a garota está. Era isso que vim lhe contar.

— Eu já contei para ele há algum tempo. — disse o Dr. Tsurugi com desdém. — Ficou sabendo do estado dela enquanto você estava ocupado comendo.

— Que diabos? Sou o último a saber? — Plutão VIII coçou a barba, que parecia tão densa quanto a selva vista de cima. — Tudo bem, sem problemas. Vamos lá, D! Vamos visitá-la.

— Vá você.

Enquanto o belo jovem se inclinava sobre a cama, tão indiferente quanto antes, Plutão VIII perguntou.

— Qual é a sua, amigão? Arrisca a sua vida para salvar uma moça e depois nem quer ver se a garota está melhorando? O que, a filha do prefeito é tão importante assim?

— Isso é trabalho.

Plutão VIII não tinha como saber que era um verdadeiro milagre D responder a uma pergunta tão controversa. Com uma expressão indignada no rosto, igual à do médico próximo, o motoqueiro abriu caminho pela porta.

— Droga, não acredito na sua audácia! — praguejou. Cuspe voou de seus lábios. — Sabe mesmo como ela está? É um caso de envenenamento por radiação de nível três no centro da fala e danos igualmente graves na audição. E nenhum dos dois tem cura. Também tem algumas queimaduras leves na pele, entretanto o estoque de pele artificial é limitado e, como não é fatal, vão deixá-la como está. O que acha? Ela está na tenra idade em que as meninas olham para as estrelas e choram, e agora terá que carregar a lembrança de ver seus pais serem devorados vivos, seu corpo está coberto de queimaduras e, para piorar tudo, não consegue mais falar nem ouvir.

Mais do que os detalhes trágicos do que foi essencialmente a ruína completa daquela jovem, foi a justa indignação de Plutão VIII que fez o prefeito e o Dr. Tsurugi baixarem os olhos.

D respondeu com calma.

— Eu ouvi o que você tinha a dizer. Agora saia.



Parte 3

Assim que o barulhento Plutão VIII foi retirado da sala pelo prefeito e quatro guardas, D olhou para o rosto de Laura. Apesar do olhar vago, seus olhos seguiam imbuídos de uma estranha vitalidade e, de repente, ganharam foco. A vontade coesa que mantivera oculta tingiu seus olhos de vermelho. A vontade de uma Nobre. Um suspiro escapou de sua boca. Como os ventos corruptores soprando pelos portões do Inferno.

— O que veio fazer aqui? — perguntou a jovem. Seus olhos quase destilavam veneno enquanto encaravam D. Os lábios de Laura se contraíram. Algo brilhava entre seus lábios e sua língua hiperativa. Caninos. Mais uma vez, Laura perguntou. — O que está fazendo aqui?

— Quem a profanou? — perguntou D.

— Me profanou? — os lábios da garota se curvaram em um sorriso. — Para continuar sentindo o prazer que conheço, gostaria de ser profanada dia e noite. O que você é? Sei que não é um viajante comum. Não é comum encontrarmos pessoas por aqui que usem palavras como profanar.

— Que horas ele virá?

— Bem, então... Que tal perguntar a ela mesma? — sua expressão de prazer se tornou rígida de repente. Toda a maldade e o êxtase desapareceram como uma fina camada e, por um breve momento, uma expressão inocente, própria de uma jovem de dezoito anos adormecida, cruzou seu rosto. Então, mais uma vez, suas feições se tornaram tão inexpressivas quanto parafina. O amanhecer finalmente chegara às Grandes Planícies do Norte.

D ergueu a mão esquerda e a colocou na testa da jovem.

— Exatamente quem ou o que a atacou?

A consciência retornou ao seu rosto cadavérico.

— Eu não... Sei. Olhos, dois olhos vermelhos... Se aproximando... Mas é...

— É alguém da cidade? — perguntou D.

— Eu não sei...

— Quando te atacaram?

— Há três semanas... No parque... — Laura respondeu em um tom arrastado.

— Estava tudo escuro... Só aqueles olhos ardentes...

— Quando virá de novo?

— Ah... Hoje à noite... Hoje à noite...

O corpo de Laura se contraiu bruscamente, como se uma mola de aço gigante tivesse se formado dentro dela. Os cobertores voaram com a força do movimento. A garota soltou o que soou como um estertor, a língua pendeu para fora da boca e, então, seu corpo começou a se erguer de uma maneira fascinante. Esse fenômeno paranormal ocorria com frequência quando a dependência de uma vítima em relação à Nobreza era colocada em conflito com algum poder empenhado em destruir esse vínculo. Era recorrente que os Caçadores tivessem a oportunidade de observar esse comportamento, então a expressão de D não mudou nem um pouco. Porém, pensando bem, a expressão desse jovem não demonstraria choque nem em um milhão de anos.

— Parece que é tudo o que vamos conseguir. — disse uma voz rouca que vinha de entre a testa da jovem e a mão que repousava sobre ela. — A garota não sabe nada além do que nos contou. Acho que teremos que perguntar para a sua amiguinha, afinal.

Quando a mão do Caçador foi retirada, Laura caiu de volta na cama. Esperando até que uma luz azul como a água invadisse o quarto pela janela, D saiu. O prefeito o esperava do lado de fora.

— Descobriu alguma coisa aí dentro, não é? — perguntou o prefeito Ming. O homem demonstrou a mentalidade daqueles que viviam na Fronteira ao não perguntar ao Caçador se poderia salvá-la ou não.

A verdade era que, quando um vampiro com uma vítima em vista descobria que um Caçador o perseguia, este se escondia, a menos que a vítima fosse especialmente querida para ele. Depois, era apenas uma questão de tempo. O futuro daquela vítima podia variar dependendo de quantas vezes tinha sido mordida e quanto sangue havia sido retirado. Havia alguns que conseguiam continuar a viver uma vida normal mesmo depois de cinco visitas fatídicas ao seu quarto... Embora na grande maioria das vezes se tornassem párias sociais. Contudo também havia algumas jovens cuja pele se transformava em parafina pálida por causa de um único beijo amaldiçoado, e elas ficavam deitadas na cama para sempre esperando que seu senhor voltasse, sem nunca envelhecer um dia sequer. E então, um dia, os netos e bisnetos de cabelos grisalhos da vítima veriam seus membros encolherem como os de uma velha múmia e saberiam que, em algum lugar do vasto mundo, o maldito Nobre encontrara seu destino. A questão era: quanto tempo levaria? Quantos mortos-vivos ainda estariam por aí, sustentados apenas pela luz da lua, escondidos no canto de alguma ruína empoeirada e apodrecida, seus parentes e amigos mortos há muito tempo? O tempo não estava a favor daqueles que caminhavam à luz do dia.

— Esta noite, teremos uma visita. — disse D ao prefeito.

— Ah, bem, isso é...

— Sua filha é a única vítima?

O prefeito assentiu.

— Até agora. No entanto enquanto quem fez isso estiver por aí, esse número pode aumentar até incluir todos nós.

— Gostaria que preparasse algo para mim. — disse D, olhando para o céu azul além da janela.

— Basta dizer o que precisa. Se for um quarto, já preparamos sua acomodação.

— Não, gostaria de um mapa da sua cidade e informações sobre todos os moradores. — disse D. — Também preciso saber por onde a cidade passou desde o início de sua jornada e quais são os destinos futuros.

— Pode deixar! — disse o prefeito.

— Onde ficará minha acomodação?

— Eu lhe mostrarei o caminho.

— Não precisa! — respondeu o Caçador.

— É uma casa unifamiliar perto do parque. Um pouco antiga, talvez, mas é de madeira. Fica localizada...

Depois de terminar de explicar as instruções, o prefeito apertou o cabo de sua bengala com as duas mãos e murmurou.

— Seria bom se pudéssemos resolver tudo hoje à noite.

— Onde sua filha foi atacada? — perguntou D.

— Numa casa vazia perto do parque. Apesar de que não encontramos nada lá quando fomos verificar. Também não fica longe da casa que preparamos para você.

D perguntou a localização, e o prefeito lhe deu.

Então D saiu. O vento havia diminuído. Só restava o seu assobio. Devia haver algum dispositivo na cidade para projetar um escudo sobre toda a estrutura. As defesas da cidade contra as forças implacáveis ​​da natureza eram perfeitas. A luz azul fazia o Caçador se destacar enquanto caminhava pela rua. A sombra que projetava no chão era tênue. Esse era o destino de um dampiro. Não havia sinal de vida no setor residencial. Durante as horas tranquilas da noite, as pessoas se tornavam como cadáveres ambulantes.

Adiante, o Caçador podia ver um pequeno ponto de luz. Um pouco de calor anunciando a primeira luz da aurora. Um hospital. D passou por ele sem dizer uma palavra. Não parecia estar olhando para as placas que marcavam cada rua. Seu passo era como o vento.

Após cerca de vinte minutos, saiu da área residencial e parou assim que as árvores do parque surgiram à vista. À sua direita, havia uma fileira de prédios semicilíndricos... Um deles era seu destino. Foi lá que a jovem Laura havia sido atacada. O prefeito lhe dissera que todos os prédios estavam vazios. A princípio, só era verdade para o prédio em questão, todavia, após o incidente envolvendo Laura, as famílias que moravam nas proximidades solicitaram outras acomodações e se mudaram. A deterioração já começava a tomar conta das estruturas.

A casa na ponta era a única trancada com postes e cadeados. O fato de ter sido selada com postes pesados ​​em vez de tábuas comuns deixava claro o pânico das pessoas. E havia cinco fechaduras na porta... Todas eletrônicas.

D estendeu a mão para as fechaduras. O pingente em seu peito emitiu uma luz azul e, ao simples toque de seus dedos pálidos, as fechaduras caíram a seus pés. Seus dedos se fecharam nos postes, que haviam sido fixados em um X gigantesco. Os postes de madeira bruta tinham mais de 20 centímetros de diâmetro e haviam sido rebitados no lugar. A mão de D não conseguia envolver nem a metade de um deles. Não parecia haver nenhuma maneira de conseguir segurá-los bem. Entretanto as pontas de seus dedos afundaram na casca. Sua mão esquerda arrancou os dois postes com um puxão.

Empurrando uma porta que havia perdido a tinta no mesmo formato entrecruzado, D entrou. Um fedor impregnava o lugar. Era o tipo de fedor que evocava cores... Cores incontáveis. E cada uma delas pintava sua própria imagem repulsiva. Como se algo sinistro indescritível estivesse pairando pela casa dilapidada. Embora todas as janelas estivessem tapadas com tábuas, D avançou casualmente pelo corredor escuro, chegando à sala onde haviam encontrado Laura. Como o prefeito havia dito, eles realizaram uma busca exaustiva e tudo o que não estava pregado no chão foi retirado da sala. Não havia mesas, cadeiras ou portas ali. Os olhos despreocupados de D se moveram enquanto permanecia no centro da sala.

Ele saiu para o corredor sem fazer barulho. No final de outro corredor perpendicular ao primeiro, podia ver a porta da próxima sala. Uma sombra passou cambaleando pela porta. Era como uma mancha de forma indeterminada. Seus contornos se moviam como algas marinhas debaixo d’água, e seu centro girava. Então, ela se levantou. Um par de pernas era visível. Uma cabeça e um torso eram discerníveis em partes. Era um humano envolto em algum tipo de membrana protetora. O que diabos estava fazendo ali?

D avançou devagar.

A mancha não se moveu. Suas mãos e pés mudavam de forma de um momento para o outro, todavia suas respectivas funções permaneciam claras.

— O que você é? — perguntou D. Apesar de seu tom ser baixo, havia um toque que deixava claro que suas perguntas não deveriam ficar sem resposta, muito menos serem ignoradas. — O que está fazendo aqui? Responda.

Cambaleando, a mancha avançou em sua direção. Era um corredor estreito. D não tinha como evitá-la. Sua mão direita foi em direção à espada longa em suas costas... E bem à sua frente, seu inimigo acenou com o braço. Um disco preto passou zunindo em direção ao rosto de D.

Abaixando a cabeça por pouco, D desembainhou sua espada longa. Parecendo ter alguma percepção especial da situação, o Caçador não usou sua arma desembainhada para aparar o disco, mas cortou com a lâmina do chão ao céu. Seu inimigo já havia interrompido o avanço, e agora uma luz branca terrível brilhou em sua virilha. De baixo para cima, seu inimigo foi cortado ao meio. E, no entanto, além de uma leve ondulação que percorria todo o seu corpo, a sombra em movimento permanecia inalterada. Um som indescritível ecoou atrás dela.

De qualquer forma, D avançou.

Sem fazer barulho, a sombra recuou contra a parede. De fato parecia uma sombra real, pois sua forma claramente tridimensional perdeu de repente a profundidade e tornou-se plana antes de ser absorvida por completo pela parede. D ficou diante da parede sem dizer uma palavra. A superfície cinza do plástico tensionado emitia um leve brilho. Esse era o efeito colateral da intangibilidade molecular, a capacidade de atravessar paredes sem resistência. O processo de alteração da estrutura celular e a passagem pelas moléculas de alguma barreira causavam mudanças sutis nos isótopos radioativos. Essa mesma capacidade deve ter permitido que a sombra se esquivasse do golpe da espada de D.

Dando meia-volta, os olhos de D percorreram os dois lados do corredor. O disco havia desaparecido. Também não havia sinais de que tivesse atingido alguma coisa.

D empurrou a mesma porta de onde a sombra viera. Parecia ser um laboratório que havia sido selado em uma penumbra. As paredes estavam cobertas com todos os tipos de medicamentos, e a mesa de laboratório parafusada ao chão estava coberta de marcas de queimadura e bastante descolorida por manchas. Notou sinais de que algum tipo de dispositivo mecânico havia sido removido.

D parou no centro da sala. Havia proteções sobre as janelas. Que tipos de experimentos teriam sido realizados ali, na escuridão, isolados da luz?

Havia algo extremamente trágico naquele lugar.

Era dali que o intruso viera. Será que estava morando ali? Ou teria entrado escondido antes da chegada de D, procurando por algo? Provavelmente a segunda opção. Nesse caso, seria mais fácil descobrir quem era. Quinhentas pessoas viviam naquela cidade. Encontrar o intruso em meio a tanta gente não seria impossível.

D saiu. Havia algo naquela casa. Contudo não conseguia identificar ao certo o que era. A luz do sol que banhava o mundo ficava mais branca. D parou na porta. Uma nuvem negra se movia pela rua. Uma massa de pessoas. Uma turba. Quase parecia que todos os habitantes da cidade estavam lá. A intensa hostilidade e o medo em seus olhos deixavam claro que estavam plenamente cientes da verdadeira natureza de D.

D caminhou inalterado até a rua. Um homem negro e imponente surgiu de repente à sua frente. Ele devia ter cerca de dois metros de altura e pesar uns cento e cinquenta quilos. O gigante tinha peitorais tão largos e grossos que pareciam escamas de um grande dragão de fogo. Mantendo uma distância de cerca de um metro entre os dois, D olhou para o homem.

— Ei, você é um dampiro, não é? — a voz grave do gigante estava impregnada de uma ameaça.

D não respondeu.

Algo transpareceu no rosto do homem como água. Um tom de medo. Havia olhado nos olhos de D. Cerca de dez segundos se passaram antes que conseguisse articular outra palavra.

— Já que o prefeito o chamou à sua casa, não há muito que possamos fazer a seu respeito. No entanto esta é uma cidade para pessoas de boa índole. Não queremos nenhum mestiço nobre por aqui, entendeu?

As cabeças daqueles ao redor se moveram em uníssono, assentindo em concordância. Havia homens e mulheres ali, e até crianças.

— Há nobres aqui. Ou alguém que os serve. — disse D com seu tom inalterado de voz. — A próxima família atacada pode ser a sua.

— Se chegarmos a esse ponto, nós mesmos cuidaremos disso. — disse o gigante. — Não precisamos da ajuda da Nobreza.

Acenando levemente com a cabeça, D deu um passo. Só isso foi suficiente para abrir caminho na multidão amedrontada. O gigante e os outros recuaram como a maré que recua.

— Espere só um minuto! — talvez envergonhado por estar com medo, o gigante soltou um tom que tinha uma ferocidade nascida da histeria. — Vou te dar uma surra agora, seu idiota.

Enquanto ameaçava, o gigante calçou um par de luvas de couro preto. O dorso delas parecia couro liso, todavia as palmas eram cobertas com fibras metálicas finas e flexíveis. Quando o gigante bateu as mãos, faíscas roxas se espalharam como galhos de coral. As pessoas recuaram sem palavras. Luvas eletromagnéticas como essas eram usadas por caçadores. A configuração mais alta delas era de cinquenta mil volts. Capazes de matar um dragão de fogo de tamanho médio, eram armas letais, sem dúvida.

— O que você é, seu verme? Meio humano? Ou um terço? — zombou o gigante. — Seja lá o que for, tem sorte de ser parecido com a gente. Agora reze para que a única parte sua que eu reduza a cinzas seja seu sangue nobre imundo.

Faíscas roxas tingiram sua autoconfiança desenfreada com um tom grotesco.

D começou a se afastar, alheio às ameaças do gigante, este correu em sua direção, com a mão direita erguida e pronta para a ação. Os movimentos e a expressão de D permaneceram os mesmos. Como sombras que nunca conheceram a luz.

Um brilho intenso cortou o ar. O gigante sacudiu a mão de dor. Faíscas saltaram descontroladamente de sua palma, e então um bisturi fino caiu no chão.

— O que diabos você está fazendo? — o grito furioso do gigante passou por D e seguiu rua abaixo. Aproximando-se com passos firmes, seu jaleco branco impecável, estava ninguém menos que o Dr. Tsurugi. — Ah, é você, doutor! — disse o grandalhão. — Que diabos está tentando fazer?

Embora se esforçasse para soar ameaçador, não havia dúvida de que o gigante devia o leve tremor em sua voz à ameaça inconfundível do médico arremessando o bisturi.

Parando diante da multidão, o Dr. Tsurugi disse em tom brusco.

— Poderia parar com essa tolice? Este homem é um convidado do prefeito. Em vez de tentar expulsá-lo, deveria estar o ajudando a encontrar a Nobreza. Sr. Berg!

Um senhor idoso, mais velho do que qualquer outro ali, pareceu abalado pelo chamado do médico.

— Você estava bem aqui, por que não os impediu? Se perdermos nosso Caçador, é lógico que a Nobreza continuará à solta. Como deve se lembrar, todas as nossas buscas terminaram em fracasso.

— Eu, er... É, também pensei isso. É que... — Berg gaguejou, envergonhado. — Bem, se fosse um Caçador comum, seria uma coisa. Contudo, sendo um dampiro e tudo mais, sabia que eles não iam aceitar. Sabe, as mulheres e as crianças estão apavoradas desde que ouviram os rumores de que ele estava aqui.

— E eles podem se safar com um bom susto... Um Nobre fará muito pior, posso garantir! — disse o Dr. Tsurugi, sombriamente.

— No... No entanto, doutor... — gaguejou uma mulher de meia-idade que embalava um bebê. — Dizem que os dampiros também fazem isso. Ouvi dizer que, quando estão com sede, bebem o sangue das pessoas para quem trabalham...

— É a mais pura verdade! — bradou o gigante. — Vejam bem, não é como se não tivéssemos motivos para reclamar. A cidade inteira pode estar em movimento, todavia as informações ainda chegam. Vocês se lembram do que aconteceu em Peamond, não é?

Esse era o nome de uma vila onde metade dos moradores morreu de hemorragia em uma única noite. Descendentes da Nobreza, os dampiros tinham uma vontade de ferro, entretanto, por vezes, seu espírito podia sucumbir ao doce chamado do sangue. O homem que fora contratado em Peamond viu os laços negros de sangue que tentara tanto controlar reacenderem-se com a beleza da filha do prefeito, e então o próprio Caçador tornou-se uma de suas vítimas. Antes que os habitantes da vila se unissem e o imobilizassem por tempo suficiente para cravar uma estaca em seu coração, o número de vítimas já havia chegado a vinte e quatro.

— Esse é o avô de todas as exceções. — não havia qualquer hesitação no tom do Dr. Tsurugi. — Por acaso, tenho as estatísticas mais recentes. A proporção de dampiros que causaram esse tipo de tragédia em serviço não passa de um vigésimo milésimo de um por cento.

— E que provas temos de que este não será um desses casos? — gritou o gigante. — Com certeza não queremos acabar nesse maldito vigésimo milésimo de um por cento. Não é mesmo, pessoal?

Várias vozes se ergueram em concordância.

— Pensando bem, doutor, você também não é daqui. Qual é a história? Está o acobertando porque vocês, forasteiros, têm que se unir ou alguma bobagem desse tipo? Aposto que é esse o motivo, vocês dois, seus safados, estão em conluio o tempo todo, não é?

Toda a expressão sumiu do rosto do Dr. Tsurugi. Este deu um passo à frente, dizendo.

— Quer resolver com essas luvas? Ou vai tirá-las?

O rosto do gigante se contorceu. E um sorriso se formou.

— Ah, isso vai ser bom. — disse ele, tirando as luvas e as puxando das mãos. Pela expressão no rosto, você diria que era o homem mais sortudo da Terra. A maneira como o médico o havia atingido com um bisturi mais cedo foi impressionante, mas além disso, tinha apenas cerca de 1,73m de altura e pesava cerca de 61 kg. O gigante já havia estrangulado um urso antes, então, quando se tratava de briga de rua, estava extremamente confiante em seus braços poderosos.

— Tem certeza de que quer ir em frente, Conroy? — perguntou Berg, se colocando na frente do gigante para impedi-lo. — O que acha que vão fazer com você se acabar com o nosso médico? Não vai levar só uma bronca, pode ter certeza!

— E daí? Vão me dar umas chicotadas e uns choques? Ora, já estou acostumado. Quer saber? Vou deixar a cabeça e as mãos do doutor inteiras quando eu acabar com ele.

Empurrando Berg bruscamente para o lado, o gigante deu um passo à frente.

Por sua vez, o jovem médico também dava um passo à frente, D gritou de trás.

— Por que não desiste? Afinal, essa luta começou por minha causa.

— Bom, agora é minha, então agradeço se ficar aí parado assistindo.

O ar assobiou. Podia ser Conroy soltando o ar, ou o zumbido do seu soco rasgando o vento. O Dr. Tsurugi saltou para o lado para se esquivar de um gancho de direita tão forte e duro quanto uma pedra. Como se a brisa do soco o tivesse levado embora. O jovem médico tinha as duas mãos erguidas à frente do peito, com os punhos levemente cerrados. Porém quantas pessoas ali presentes notaram os calos que cobriam seus nós dos dedos? Esquivando-se por pouco do gancho que o gigante desferiu em seu segundo soco, o Dr. Tsurugi deixou sua mão esquerda entrar em ação. A trajetória do golpe foi uma linha reta.

Para Conroy, parecia que tudo além do pulso do médico havia desaparecido. Ele sentiu três impactos rápidos em seu plexo solar. Os dois primeiros socos absorveu sem problemas, contudo o terceiro foi fatal. Tentou expirar, no entanto o ar ficou preso em sua garganta. Os golpes do médico tinham uma força que ninguém imaginaria, considerando sua compleição física modesta.

Um raio bege disparou em direção às pernas trêmulas do gigante. Ninguém ali jamais vira um jogo de pés como aquele. A perna do médico descreveu um arco elegante que atingiu a parte de trás do joelho de Conroy, e o gigante caiu no chão com um baque estrondoso. Socos retos e penetrantes da cintura e chutes circulares... Não houve hesitação na sequência de ataques misteriosos, e o quão poderosos eles eram logo ficou evidente quando Conroy começou a se levantar rapidamente. Assim que o gigante tentou colocar qualquer peso sobre o joelho esquerdo, uivou de dor e caiu de lado.

— Não vai conseguir ficar de pé pelo resto do dia. — disse o jovem médico, olhando para os rostos pálidos das pessoas como se nada tivesse acontecido. — Isso só mostra que não vale a pena ficar incitando multidões. Agora, vão todos embora. Voltem para suas casas.

— Sim, mas, doutor... — disse um homem com um rosto comprido e achatado, apontando para Conroy. — Quem vai cuidar dos seus ferimentos?

— Vou dar uma olhada nele. — disse o Dr. Tsurugi com resignação. — Tragam-no ao hospital qualquer dia desses. Só não o façam por uns três dias. Parece que vai levar esse tempo para esse idiota se acalmar. Entretanto, daqui para frente, há uma grande chance de eu me recusar a tratar qualquer um que levante a mão para o Caçador aqui, então lembrem-se disso. Certo, podem ir embora.

Depois de se certificar de que as pessoas se dispersassem e Conroy fosse levado junto, o Dr. Tsurugi se virou para D.

— Você tem uma habilidade notável. — disse o Caçador. — Lembro-me de tê-la visto no Oriente há muito tempo. O que é?

— Chama-se caratê. Meu avô me ensinou. Mas estou surpreso que tenha tolerado tanta provocação.

— Não precisei. Você pôs um fim a ela. Talvez o tenha feito para me impedir de ferir algum dos moradores locais... Seja qual for o motivo, você me ajudou.

— Não, não ajudei.

Havia um brilho misterioso nos olhos do médico enquanto balançava a cabeça. Embora não se pudesse exatamente chamar de amizade, também não era hostilidade ou inimizade. Poderia ser chamado de uma espécie de tenacidade.

E então D perguntou.

— Já nos encontramos antes?

— Não, nunca! — disse o médico, balançando a cabeça. — Como falei, sou um médico itinerante. Nas minhas rondas pela Fronteira, ouvi muitas histórias a seu respeito.

O médico parecia que tinha mais a dizer, porém D o interrompeu, perguntando.

— Quem morava naquela casa abandonada?

Os olhos do médico se arregalaram.

— Quer dizer que não sabia antes de entrar? A casa pertence a Lori Knight... A garota que ajudou a resgatar.

***

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