quinta-feira, 28 de maio de 2026

The Dragonbone Chair — Volume 03 — Capítulo 38

Capítulo 38: Canções do Primogênito


Deornoth acordou na escuridão gélida, suando. O vento sibilava e uivava lá fora, arranhando as janelas fechadas como uma revoada de mortos solitários. Seu coração disparou ao ver a forma escura pairando sobre ele, silhuetada pelas brasas da lareira.

— Capitão! — era um dos seus homens, a voz um sussurro de pânico. — Tem alguém vindo pelo portão! Homens armados!

— Pela Árvore de Deus! — praguejou, calçando as botas com dificuldade. Vestindo a cota de malha, pegou a bainha e o capacete e seguiu o soldado para fora.

Mais quatro homens estavam amontoados na plataforma superior da guarita, encolhidos atrás da muralha. O vento o empurrou, fazendo-o cambalear, e logo depois se agachou.

— Ali, Capitão! — indicou o soldado que o havia acordado. — Subindo a estrada que atravessa a cidade.

Ele se inclinou para além de Deornoth para apontar.

O luar, brilhando através das nuvens densas, prateava a palha desgastada dos telhados amontoados da cidade de Naglimund. Havia, de fato, movimento na estrada, um pequeno grupo de cavaleiros, talvez uma dúzia.

Os homens no portão observavam a lenta aproximação dos cavaleiros. Um dos soldados gemeu baixinho. Deornoth também sentia a angústia da espera. Era melhor quando as trompas soavam estridentes e o campo estava cheio de gritos.

“É essa espera que nos deixa todos desarmados...” pensou Deornoth. “Assim que formos testados novamente, nossos habitantes de Naglimund saberão como responder.”

— Deve haver mais, escondidos! — sussurrou um dos soldados. — O que devemos fazer?

Mesmo com o uivo do vento, sua voz parecia alta. Como os cavaleiros que se aproximavam não podiam ouvi-lo?

— Nada! — disse Deornoth em um tom firme. — Esperem.

A espera pareceu durar dias. À medida que os cavaleiros se aproximavam, a lua destacava as pontas brilhantes das lanças e o brilho dos capacetes. Os cavaleiros silenciosos recuaram diante do portão maciço e sentaram-se como se estivessem ouvindo.

Um dos guardas do portão se levantou, puxando o arco e mirando no peito do cavaleiro da frente, quando Deornoth saltou em sua direção, vendo as linhas de tensão no rosto do guarda, seu olhar desesperado, ouviu-se um forte estrondo vindo de baixo. Deornoth agarrou o braço do arco e o forçou para cima; a flecha foi lançada para fora, na escuridão ventosa sobre a cidade.

— Pelo bom Deus, abram a porta! — gritou um homem, e mais uma vez a ponta de uma lança foi golpeada contra as vigas. Era a voz de um rimmerio, com um toque quase de loucura, pensou Deornoth. — Vocês estão todos dormindo? Deixem-nos entrar! Eu sou Isorn, filho de Isgrimnur, escapei das mãos de nossos inimigos!



***



— Olha! Veja como as nuvens se dissipam! Não acha que é um sinal de esperança, Velligis?

Enquanto falava, o Duque Leobardis moveu a mão apontando em um amplo arco em direção à janela aberta da cabine, quase acertando a cabeça de seu escudeiro suado com o braço enluvado. O escudeiro se abaixou, engolindo um palavrão silencioso enquanto equilibrava as caneleiras do Duque, e se virou para dar um tapa em um jovem pajem que não havia saído de seu caminho rápido o suficiente. O pajem, que vinha tentando se tornar o mais discreto possível na cabine lotada do navio, renovou seus esforços desesperados para desaparecer de vista.

— Talvez sejamos, de alguma forma, a ponta do iceberg que porá fim a esta loucura.

Leobardis dirigiu-se à janela com passos pesados, seu escudeiro correndo pelo chão atrás, lutando para segurar uma caneleira meio presa. O céu carregado de fato mostrava longas faixas onduladas de azul, como se os penhascos escuros e volumosos de Crannhyr, pairando sobre a baía onde o navio-almirante de Leobardis, a Joia de Emettin, balançava ancorado perto da costa, prendessem e rasgassem as nuvens carregadas.

Velligis, um homem grande e corpulento em vestes douradas de eclesiástico, caminhou com passos pesados até a janela para ficar ao lado do Duque.

— Como, meu senhor, jogar óleo no fogo pode ajudar a extingui-lo? É, se me permite a ousadia, tolice pensar assim.

O rufar do tambor de alarme ecoou sobre a água. Leobardis afastou os cabelos brancos e finos dos olhos.

— Sei como o Leitor se sente. — disse ele. — E sei que o instruiu, meu querido Escritor, a tentar me dissuadir. O amor de Sua Santidade pela paz... Bem, é admirável, contudo não se conseguirá apenas com palavras.

Velligis abriu um pequeno relicário de latão e despejou um doce de açúcar, que delicadamente colocou na língua.

— Isso está perigosamente perto do sacrilégio, Duque Leobardis. Orar é ‘falar’? A intercessão de Sua Santidade o Leitor Ranessin tem de alguma forma menos validade do que a força de seus exércitos? Se for assim, então nossa fé na palavra de Jesuris e de seu primeiro acólito, Sutrines, é uma zombaria. — o Escritor suspirou e chupou o doce.

As bochechas do Duque coraram; dispensou o escudeiro com um gesto, curvando-se com dificuldade para fechar a última fivela, e então acenou para que lhe pedissem seu sobreveste azul-escuro com o martim-pescador de Benidrivine bordado em ouro no peito.

— Que Deus me abençoe, Velligis! — disse irritado. — No entanto não estou com ânimo para discutir com você hoje. Fui levado ao limite pelo Supremo Rei Elias, e agora preciso fazer o que for necessário.

— Entretanto não irá para a batalha sozinho. — disse o homem grande, falando com alguma veemência pela primeira vez. — Está liderando centenas, não, milhares de homens... De almas... E o bem-estar deles está sob seus cuidados. As sementes da catástrofe estão voando ao vento, e a Mãe Igreja tem a responsabilidade de garantir que elas não encontrem solo fértil.

Leobardis balançou a cabeça com tristeza enquanto o pequeno pajem, um tanto sem jeito, levantava seu capacete dourado, com sua crista de crina de cavalo tingida de azul.

— Solo fértil está por toda parte hoje em dia, Velligis, e a catástrofe já está crescendo, se me permite o roubo de suas palavras poéticas. A questão é que devemos tentar cortá-la enquanto ainda está brotando. Venha. — ele deu um tapinha no braço carnudo do Escritor. — É hora de descer até o bote de desembarque. Caminhe comigo.

— É claro, meu bom Duque, claro. — Velligis virou-se um pouco para o lado para passar pela porta estreita. — Você me perdoará se eu não o acompanhar até a costa agora. Tenho estado um pouco instável nas pernas esses últimos dias. Estou ficando velho, receio.

— Ah, mas sua retórica não perdeu o vigor. — respondeu Leobardis enquanto caminhavam devagar pelo convés.

Uma pequena figura envolta em um manto escuro cruzou seu caminho, parando para acenar brevemente com a cabeça, com as mãos cruzadas sobre o peito. O Escritor franziu a testa, porém o Duque Leobardis retribuiu o aceno com um sorriso.

— Nin Reisu está com a Joia de Emettin há muito tempo. — comentou. — E ela é a melhor observadora marítima. Eu a perdoo pelas formalidades, os niskis são um povo estranho, Velligis, como você saberia se fosse um marinheiro. Venha, meu barco está por aqui.

O vento do porto fez da capa de Leobardis uma vela, ondulando azul contra o céu incerto.



***



Leobardis viu seu filho mais novo, Varellan, esperando na costa, parecendo pequeno demais para preencher sua armadura brilhante. Seu rosto magro espreitava ansiosamente da cavidade de seu capacete enquanto observava as forças nabbanas reunidas, como se seu pai pudesse responsabilizá-lo por qualquer formação desleixada entre os soldados que se aglomeravam e praguejavam. Vários deles passaram por ele com a mesma despreocupação como se fosse o garoto tamborileiro, amaldiçoando alegremente um par de cavalos que, assustados com a confusão, saltaram da prancha para a água rasa, levando seu tratador junto. Varellan recuou do caos estridente e relinchante, com a testa franzida numa carranca que não desapareceu nem mesmo quando viu o Duque descer do barco encalhado e caminhar os últimos passos até a costa rochosa do sul de Hernystir.

— Meu senhor... — disse, e hesitou; Leobardis imaginou que estivesse pensando se deveria desmontar do cavalo e se ajoelhar. O Duque teve que conter uma carranca. Culpava Nessalanta pela timidez do rapaz, já que ela se agarrava a ele como um bêbado à sua caneca, relutante em admitir que o último de seus filhos havia crescido. Claro, talvez ele próprio tivesse alguma responsabilidade. Nunca deveria ter permitido o interesse incipiente do rapaz pelo sacerdócio. Ainda assim, isso havia acontecido anos atrás, e não havia como mudar o caminho do rapaz agora; seria um soldado, mesmo que isso o matasse.

— Então, Varellan... — disse o Duque, e olhou ao redor. — Bem, meu filho, parece que tudo está em ordem.

Embora a evidência de seu olhar lhe dizia que ou seu pai estava louco ou mostrando uma bondade excessiva, o jovem esboçou um sorriso de gratidão.

— Desembarcaremos em duas horas. Marcharemos esta noite?

— Depois de uma semana no mar? Os homens nos matariam a ambos e encontrariam uma nova família ducal. Embora suponho que também teriam que se livrar de Benigaris, se quisessem acabar com a linhagem. Falando em seu irmão, por que não está aqui?

Apesar do tom de leveza que sua pergunta levava, a ausência de seu filho mais velho o irritava. Depois de semanas de discussões acaloradas sobre se Nabban deveria manter a neutralidade e uma reação tempestuosa à decisão do Duque de apoiar Josua, Benigaris mudou de lado e anunciou seu desejo de cavalgar com seu pai e os exércitos. O jovem não podia perder a oportunidade de liderar as Legiões do Martim Pescador em batalha, o Duque tinha certeza, mesmo que significasse abrir mão da chance de descansar por um curto período no trono do Sancellan Mahistrevis.

Leobardis percebeu que estava divagando

— Não, não, Varellan, precisamos dar aos homens uma noite em Crannhyr, embora as festividades possam ser escassas com a guerra de Lluth indo tão mal no norte. Onde você disse que Benigaris estava?

Varellan corou.

— Não disse, meu senhor. Sinto muito. Ele cavalgou até a cidade com seu amigo, o Conde Aspitis Preves.

Leobardis ignorou o desconforto do filho.

— Pela Árvore, eu não teria achado demais esperar que meu filho e herdeiro me encontrasse. Bem, então, vamos ver como estão as coisas com nossos outros comandantes. — seus dedos estalaram e o escudeiro trouxe o cavalo do Duque, com os guizos da arreata tilintando.



***



Eles encontraram Mylin-sá-Ingadaris sob o estandarte branco e vermelho de sua linhagem. O ancião, que fora um inimigo declarado de Leobardis por anos, chamou o Duque. Ele e Varellan ficaram sentados observando Mylin supervisionar o descarregamento final de seus dois navios mercantes, depois se juntaram ao velho Conde em sua tenda listrada para um jarro de vinho doce de Ingadarina.

Depois de conversarem sobre marchas em formação e treinamentos, e de tolerarem as tentativas meio malsucedidas de Varellan de participar, Leobardis agradeceu ao Conde Mylin por sua hospitalidade e saiu, com o filho mais novo atrás. Tomando as rédeas de volta de seus escudeiros, continuaram pelo acampamento movimentado, fazendo breves visitas de cortesia aos acampamentos de alguns dos outros nobres.

A dupla tinha acabado de se virar para voltar cavalgando pela praia quando o Duque avistou uma figura familiar em um cavalo rufião de peito largo, caminhando pela estrada vindo da cidade com outro cavaleiro ao seu lado.

A armadura prateada de Benigaris, sua posse mais preciosa, era tão espessa de gravuras e traçados caros de incrustações de ilenita que a luz não se refletia nela adequadamente, fazendo-a parecer quase cinza. Com a armadura apertada por sua couraça, que corrigia o excesso de curvas de sua figura, Benigaris parecia um cavaleiro bravo e destemido em todos os sentidos. O jovem Aspitis, ao seu lado, também usava uma armadura de belo acabamento: o brasão da família, uma águia-pesqueira, havia sido incrustado em sua couraça com madrepérola. Não usava sobreveste que pudesse escondê-lo, mas, como Benigaris, seguia todo revestido de placas como um caranguejo reluzente.

Benigaris disse algo ao seu companheiro; Aspitis Preves riu e então partiu a cavalo. Benigaris desceu a estrada, atravessando a praia de cascalho em direção ao seu pai e irmão mais novo.

— Aquele era o Conde Aspitis, não era? — perguntou Leobardis, tentando disfarçar a amargura que sentia na garganta. — A Casa Prevan tornou-se nossa inimiga agora, a ponto de não poder vir saudar seu Duque?

Benigaris inclinou-se na sela e deu um tapinha no pescoço do cavalo. Leobardis não conseguia ver se olhava para cima por causa de suas sobrancelhas grossas e escuras.

— Eu disse a Aspitis que conversaríamos em particular, pai. Ele teria vindo, porém o mandei embora. Ele foi por respeito a você.

Ele se virou para Varellan, que parecia perdido em sua armadura brilhante, e fez um singelo acenou com a cabeça para o rapaz.

Sentindo-se um pouco incomodado, o Duque mudou de assunto.

— O que o trouxe à cidade, meu filho?

— Notícias, senhor. Pensei que Aspitis, já que esteve aqui antes, poderia me ajudar a obter informações úteis.

— Você ficou fora por muito tempo. — Leobardis não conseguiu reunir forças para ficar com raiva. — O que descobriu, Benigaris? Alguma coisa?

— Nada que já não tivéssemos ouvido dos barcos de Abaingeat. Lluth está ferido e recuou para as montanhas. Skali controla Hernysadharc, todavia não tem exércitos suficientes para avançar mais, não até que os hernystiros em Grianspog sejam subjugados. Portanto, a costa ainda está livre, e toda a terra deste lado do Ach Samrath, Nad Mullach, Cuihmne, todas as terras ribeirinhas até Inniscrich.

Leobardis esfregou a cabeça, semicerrando os olhos para o brilho intenso que o sol projetava na superfície do oceano.

— Talvez pudéssemos servir melhor ao Príncipe Josua se rompêssemos este cerco mais próximo. Se enviássemos nossos dois mil homens contra as costas de Skali Nariz Afiado, os exércitos de Lluth ficariam livres, o que restasse deles, e Elias ficaria desprotegido enquanto sitia Naglimund.

Ponderou o plano e gostou. Parecia-lhe algo que seu irmão Camaris poderia ter feito: rápido, vigoroso, um golpe certeiro como um chicote. Camaris sempre encarara a guerra como a arma pura que era, tão direto e sem hesitação quanto um martelo reluzente.

Benigaris balançava a cabeça, com algo como alarme genuíno no rosto.

— Oh, não, senhor! Não! Ora, se fizéssemos isso, tudo o que Skali precisaria fazer seria desaparecer em Circoille, ou subir até as mesmas montanhas de Grianspog. Então, ficaríamos presos como uma pele esticada, esperando que os rimmerios saíssem. Nesse meio tempo, Elias reduziria Naglimund e ficaria livre para se voltar contra nós. Seríamos esmagados como uma noz entre o Supremo Rei e o Corvo. — sua cabeça balançou enfaticamente, como se a ideia o assustasse.

Leobardis se afastou do sol ofuscante.

— Suponho que tenha razão, Benigaris... Embora me lembro de ouvi-lo argumentar de forma diferente não faz muito tempo.

— Isso foi até você tomar a decisão de colocar o exército em campo, meu senhor. — Benigaris ergueu o capacete e o girou nas mãos por um momento antes de pendurá-lo de volta no pomo. — Agora que estamos comprometidos, eu sou um leão de Nascadu.

Leobardis exalou um profundo suspiro. O cheiro da guerra pairava no ar, um aroma que o enchia de inquietação e pesar. Ainda assim, a divisão de Osten Ard após os longos anos de paz de John... A Tutela do Supremo Rei... Parecia ter trazido seu filho obstinado de volta para o seu lado. Era algo pelo qual ser grato, por mais insignificante que fosse diante da maré de eventos maiores. O Duque de Nabban ofereceu uma oração silenciosa de agradecimento ao seu Deus confuso, mas, em última análise, benevolente.



***



— Louvado seja Jesuris Aedon por trazê-lo de volta para nós! — disse Isgrimnur, sentindo as lágrimas voltarem a brotar. Ele se inclinou sobre a cama e deu um aperto de mão brusco e alegre no ombro de Isorn, atraindo um olhar penetrante de Gutrun, que não havia se afastado do filho desde que este chegara na noite anterior.

Isorn, familiarizado com os modos severos da mãe, esboçou um frágil sorriso para Isgrimnur. Seus olhos eram azuis e os traços largos do Duque podiam ser reconhecidos, porém muito do brilho da juventude parecia ter desaparecido desde a última vez que seu pai o vira... Estava abatido, sombrio. Algo lhe parecia ter sido roubado, apesar de sua compleição robusta.

“São apenas as dificuldades e preocupações que o têm atormentado.” concluiu o Duque. “É um rapaz forte. Veja só, como aguenta as reclamações da mãe. Será um homem excelente... Não. Já é um homem excelente. Quando for Duque depois de mim... Depois que mandarmos Skali gritando para o inferno...”

— Isorn!

Uma nova voz dissipou o pensamento disperso.

— É um milagre tê-lo de volta entre nós. — o Príncipe Josua inclinou-se para a frente e apertou a mão de Isorn com a sua própria mão esquerda.

Gutrun assentiu em aprovação. Ela não se levantou para fazer uma reverência ao Príncipe, a maternidade aparentemente sobrepondo-se às boas maneiras nesta ocasião. Josua não pareceu se importar.

— Que diabos é um milagre! — disse Isgrimnur com aspereza, e franziu a testa para impedir que seu coração acelerado lhe causasse qualquer constrangimento. — Ele os tirou de lá com inteligência e coragem, e essa é a verdade de Deus.

— Isgrimnur... — Gutrun o advertiu.

Josua riu.

— Claro. Deixe-me dizer então, Isorn, que sua coragem e inteligência foram milagrosas.

Isorn sentou-se mais ereto na cama, reajustando a perna enfaixada que repousava sobre a colcha como a relíquia de um santo.

— Isso é muita bondade, Alteza. Se alguns dos homens de Skali não tivessem sido tão cruéis a ponto de torturar seus companheiros, ainda estaríamos lá... Como cadáveres congelados.

— Isorn! — repreendeu sua mãe, irritada. — Não fale dessas coisas. É uma afronta à misericórdia de Deus.

— Contudo é a verdade, mãe. Os próprios Corvos de Skali nos deram as facas que nos permitiram escapar. — ele se virou para Josua. — Há coisas sombrias acontecendo em Elvritshalla... Em toda Rimmersgardia, Príncipe Josua! Precisa acreditar em mim! Skali não está sozinho nessa. A cidade estava cheia de rimmerios negros, vindos das terras ao redor do Pico das Tormentas. Foram eles que Nariz Afiado deixou para nos vigiar. Foram aqueles monstros amaldiçoados pelos deuses que torturaram nossos homens... Por nada! Não tínhamos nada a esconder! Eles faziam isso por prazer, se é que tal coisa pode ser imaginada. À noite, adormecíamos ouvindo os gritos de nossos companheiros, nos perguntando quem levariam em seguida.

Um gemido baixo lhe escapou e tirou a mão do aperto de Gutrun para esfregar as têmporas, como se quisesse afastar a lembrança.

— Até mesmo os homens de Skali acharam aquilo repugnante. Creio que estejam começando a se perguntar em que seu senhor os meteu.

— Acreditamos em você. — disse Josua com uma gentil voz; o olhar que ergueu para Isgrimnur, que estava de pé, estava marcado pela preocupação.

— No entanto havia outros também, aqueles que vinham à noite, encapuzados de preto. Nem mesmo nossos guardas viram seus rostos! — embora a voz de Isorn permanecesse calma, seus olhos estavam arregalados pela lembrança. — Sequer se moviam como homens... Que Aedon seja minha testemunha! Vieram dos ermos frios além das montanhas. Podíamos sentir o frio deles quando passavam por nossa prisão! Estávamos mais assustados por estarmos perto deles do que por todos os ferros em brasa dos rimmerios negros. — Isorn balançou a cabeça e recostou-se no travesseiro. — Sinto muito, pai... Príncipe Josua. Estou muito cansado.



***



— Ele é um homem forte, Isgrimnur. — disse o Príncipe enquanto caminhavam pelo corredor alagado.

O teto ali estava gotejando, como tantos outros em Naglimund depois de um inverno rigoroso, e uma primavera e verão igualmente rigorosos.

— Só queria não o ter deixado sozinho para enfrentar aquele filho da puta do Skali. Maldito!

Escorregando na pedra molhada, Isgrimnur amaldiçoou sua idade e desajeitamento.

— Ele fez tudo o que podia ser feito, tio. Deveria se orgulhar dele.

— Eu me orgulho!

Ambos seguiram caminhando por um tempo antes de Josua falar.

— Devo confessar, ter Isorn aqui torna mais fácil para mim lhe pedir... O que preciso pedir.

Isgrimnur coçou a barba.

— E o que seria?

— Um favor. Um que não imploraria se... — ele hesitou. — Não. Vamos para os meus aposentos. Isto é algo que deve ser discutido em particular.

Passando o braço direito pelo cotovelo do Duque, o toco com a ponta de couro no pulso uma repreensão silenciosa antes de qualquer rejeição.

Isgrimnur puxou a barba até doer. Tinha a sensação de que não gostaria do que estava prestes a ouvir.

— Pela Árvore Sagrada, vamos pegar uma jarra de vinho para levarmos, Josua. Eu preciso muito.



***



— Pelo amor de Jesuris! Pelo martelo carmesim de Dror! Pelos ossos de São Eahlstan e São Skendi! Você está louco? Por que devo deixar Naglimund? — Isgrimnur tremia de surpresa e raiva.

— Não pediria se houvesse outro jeito, Isgrimnur. — o Príncipe falou, pacientemente, mas mesmo através da névoa de sua fúria, o Duque podia ver a angústia que Josua sentia. — Passei duas noites em claro, tentando pensar em outra maneira. Não consigo. Alguém precisa encontrar a Princesa Miriamele.

Isgrimnur tomou um longo gole de vinho, sentindo um pouco escorrer por sua barba, porém sem se importar.

— Por quê? — enfim perguntou, e colocou a jarra na mesa com um baque que fez a mesa tremer. — E por que eu, droga? Por que eu?

O Príncipe estava com a paciência à flor da pele.

— Ela precisa ser encontrada porque é de vital importância... Além de ser minha única sobrinha. E se eu morrer, Isgrimnur? E se conseguirmos conter Elias, romper o cerco, contudo uma flecha atravessar meu peito? A quem o povo se unirá... Não apenas aos barões e senhores da guerra, o povo comum, aqueles que vieram em massa para dentro das minhas muralhas em busca de proteção? Já será difícil o suficiente lutar contra Elias comigo à sua frente... Por mais estranho e volúvel que eu seja considerado, no entanto e se eu morrer?

Isgrimnur olhou para o chão.

— Há Lluth. E Leobardis.

Josua balançou a cabeça com pesar.

— O Rei Lluth está ferido, talvez morrendo. Leobardis é o Duque de Nabban, em guerra com Erkynlandia, ainda na memória de alguns. O próprio Sancellan é uma lembrança de uma época em que Nabban governava tudo. Nem mesmo você, tio, um bom e muito respeitado homem como é, conseguiria manter unida uma força capaz de enfrentar Elias. Ele é filho do Preste John! Foi alçado ao Trono de Ossos do Dragão pelo próprio John. Apesar de todas as suas maldades, será preciso alguém da família para destroná-lo... E você sabe disso!

O longo silêncio de Isgrimnur foi sua resposta.

— E por que eu? — perguntou por fim.

— Porque Miriamele não voltaria com mais ninguém que enviasse para segui-la. Deornoth? É tão corajoso e leal quanto um falcão de caça, todavia teria que carregar a Princesa de volta para Naglimund em um saco. Além de mim, você é o único que pode trazê-la sem resistência, e ela precisa vir de livre e espontânea vontade, pois seria um desastre se fossem descobertos. Logo Elias poderá descobrir que ela se foi, e então incendiará o sul para encontrá-la.

Josua caminhou até sua escrivaninha e distraidamente folheou uma pilha de pergaminhos.

— Pense bem, Isgrimnur. Esqueça por um momento que estamos falando a seu respeito. Quem mais viajou tão longe e tem tantos amigos em lugares estranhos? Quem mais, se me permite, viu o lado errado de tantos becos escuros em Ansis Pelippe e Nabban?

O Duque sorriu com amargura, apesar de se tratar de si mesmo.

— Entretanto ainda assim não faz sentido, Josua. Como posso abandonar meus homens, com Elias vindo contra nós? E como posso esperar realizar algo tão secreto, sendo tão conhecido quanto sou?

— Primeiro, é por essa razão que me parece um sinal de Deus que Isorn tenha vindo. Einskaldir, ambos concordamos, não tem a contenção necessária para comandar. Isorn tem. De qualquer forma, tio, ele merece a chance de se redimir. A queda de Elvritshalla feriu seu jovem orgulho.

— É o orgulho ferido que faz um menino se tornar um homem. — rosnou o Duque. — Continue.

— Quanto ao segundo ponto, bem, você é bem conhecido, mas raramente esteve ao sul de Erkynlandia nos últimos vinte anos. De qualquer forma, nós o disfarçaremos.

— Disfarce?

Isgrimnur mexeu sem jeito nas tranças da barba enquanto Josua caminhava até a porta de seus aposentos e a chamava. O Duque sentia uma estranha e pesada sensação no coração. Temia a luta, não tanto por si mesmo, mas por seu povo, sua esposa... Agora seu filho também estava ali, dando-lhe mais uma preocupação para carregar. Porém partir, mesmo cavalgando em direção a um perigo tão grande quanto o que deixara para trás... Parecia insuportavelmente covardia, traição.

“Contudo jurei lealdade ao pai de Josua... Meu querido e velho John... Como posso não fazer o que seu filho pede? E seus argumentos fazem muito sentido.”

— Aqui! — disse o Príncipe, afastando-se da porta para deixar alguém entrar. Era o Padre Strangyeard, seu rosto rosado, com um tapa-olho, franzido num sorriso tímido, sua alta estatura curvada sobre seu fardo... Um embrulho de tecido escuro.

— Espero que sirva. — disse ele. — Raramente servem; não sei por quê, talvez seja mais um lembrete gentil, mais um dos pequenos fardos do Senhor para conosco. — o padre parou de falar, depois pareceu retomar o assunto. — Eglaf foi muito gentil em emprestá-lo. Acho que tem mais ou menos a sua altura, embora não seja tão alto.

— Eglaf? — perguntou Isgrimnur, perplexo. — Quem é Eglaf? Josua, que absurdo é esse?

— Irmão Eglaf, é claro! — explicou Strangyeard.

— Seu disfarce, Isgrimnur... — acrescentou Josua.

O arquivista do castelo sacudiu o embrulho, revelando um conjunto de vestes sacerdotais pretas de lã.

— Será o de um homem devoto, tio. — disse o Príncipe. — Tenho certeza de que conseguirá se disfarçar.

O Duque juraria que Josua estava se segurando para não sorrir.

— O quê? Vestes de sacerdote? — Isgrimnur começava a perceber o contorno da coisa, e não estava nada satisfeito.

— Qual seria a melhor maneira de passar despercebido em Nabban, onde a Mãe Igreja reina e os sacerdotes de todas as denominações quase superam em número o resto dos cidadãos? — Josua sorria.

Isgrimnur estava furioso.

— Josua, eu temia por sua sanidade antes, mas agora sei que a perdeu de vez! Este é o plano mais insano que já ouvi! E, além de tudo, quem já ouviu falar de um sacerdote aedonita com barba? — ele bufou com desdém.

O Príncipe, lançando um olhar de advertência ao Padre Strangyeard, que colocou as vestes em uma cadeira e recuou em direção à porta, caminhou até sua mesa e levantou um pano, revelando... Uma bacia de água quente e uma navalha reluzente e recém-afiada.

O berro estrondoso de Isgrimnur fez tremer a louça da cozinha do castelo, lá embaixo.



***



— Falem, mortais. Vocês vieram às nossas colinas como espiões?

Um silêncio gélido se seguiu às palavras do Príncipe Jiriki. Pelo canto do olho, Simon observou Haestan estender a mão para trás, tateando a parede em busca de algo para usar como arma; Sludig e Grimmric encararam os sitha que os cercavam, certos de que a qualquer momento seriam atacados.

— Não, Príncipe Jiriki. — Binabik se apressou em interceder. — Certamente o senhor percebe que não esperávamos encontrar seu povo aqui. Viemos de Naglimund, enviados pelo Príncipe Josua, em uma missão de terrível importância. Estamos procurando...

O gnomo hesitou, como se temesse falar demais. Finalmente, dando de ombros, continuou.

— Vamos à montanha do dragão em busca da espada de Camaris-sá-Vinitta, Espinho.

Jiriki estreitou os olhos, e atrás dele, o de vestes verdes a quem chamava de tio soltou um leve assobio.

— O que vocês fariam com uma coisa dessas? — perguntou Khendraja’aro.

Binabik não respondeu, apenas encarou o chão da caverna, infeliz.

O próprio ar parecia ficar mais denso com o passar dos instantes.

— É para nos salvar de Ineluki, o Rei da Tormenta! — Simon exclamou.

Nenhum dos sitha se mexeu, exceto para piscar. Ninguém disse uma palavra.

— Explique. — disse Jiriki por fim.

— Se for preciso... — disse Binabik. — Faz parte de uma história quase tão longa quanto o seu Ua’kiza Tumet’ai nei-R’i’anis... A Canção da Queda de Tumet’ai. Tentaremos contar o que pudermos.

O gnomo explicou apressadamente os principais fatos. Pareceu a Simon que omitia muitas coisas deliberadamente; uma ou duas vezes durante a narrativa, Binabik olhou para cima e cruzou o olhar com o do amigo, que aparentava o advertir para que ficasse em silêncio.

Binabik contou aos silenciosos sitha sobre os preparativos de Naglimund e os crimes do Supremo Rei; explicou as palavras de Jarnauga e o livro de Nisses, recitando o poema que os guiou em direção a Urmsheim.

O fim da história deixou o homenzinho encarando o olhar inexpressivo de Jiriki, a expressão mais cética do tio e um silêncio tão completo que o eco estrondoso da cachoeira pareceu crescer até preencher o mundo inteiro com ruído. Que lugar de loucura e sonhos era aquele, e que história louca estavam vivendo de repente! Simon sentiu seu coração acelerar, mas não apenas de medo.

— É difícil de acreditar, filho da minha irmã. — disse Khendraja’aro por fim, abrindo as mãos com anéis em um gesto incomum.

— É mesmo, tio. Porém creio que não seja hora de falar sobre isso.

— Contudo o outro de que o menino falou... — Khendraja’aro começou, seus olhos amarelos perturbados, sua voz cheia de raiva crescente. — O negro lá embaixo Nakkiga...

— Agora não. — havia um tom cortante na voz do Príncipe sitha. Ele se virou para os cinco forasteiros. — Pedimos desculpas. Não é bom discutirmos tais coisas enquanto ainda não comeram. Vocês são nossos convidados.

Simon sentiu um alívio imenso com essas palavras e cambaleou um pouco, com os joelhos repentinamente fracos.

Percebendo isso, Jiriki acenou para que se aproximassem da fogueira.

— Sentem-se. Devemos nos desculpar por nossa suspeita. Entendam, embora eu lhe deva uma dívida de sangue, Seoman... Você é meu Hikka Staja... Sua raça fez pouca gentileza à nossa.

— Devo discordar em parte do que disse, Príncipe Jiriki... — respondeu Binabik, sentando-se em uma pedra plana perto da fogueira. — De todos os sitha, sua família deveria ser a que sabe que nós, qanuc, nunca lhes causamos nenhum mal.

Jiriki olhou para o homenzinho, e suas feições tensas relaxaram em uma expressão quase de carinho.

— Você me pegou em uma descortesia, Binbiniqegabenik. Depois dos homens ocidentais, que conhecíamos melhor, nós também amávamos muito os qanuc.

Binabik ergueu a cabeça, com uma expressão de espanto no rosto redondo.

— Como sabe meu nome completo? Não o mencionei, e meus companheiros também não.

Jiriki riu, um som sibilante, mas estranhamente alegre, sem qualquer traço de insinceridade. Naquele momento, Simon sentiu uma forte e repentina afeição pelo sitha.

— Ah, gnomo... — disse o Príncipe. — Alguém que viajou tanto não deveria se surpreender que seu nome seja conhecido. Quantos qanuc, além de você e seu mestre, são vistos ao sul das montanhas?

— Você conhecia meu mestre? Ele está morto agora. — Binabik tirou as luvas e flexionou os dedos. Simon e os outros estavam procurando lugares para sentar.

— Ele nos conhecia. — disse Jiriki. — Afinal, não te ensinou a falar nossa língua? An’nai contou que falou nossa língua.

— Sim, meu Príncipe. E quase de forma perfeita.

Binabik corou, satisfeito, embora envergonhado.

— Ookequk estava me ensinando um pouco, porém nunca me disse onde tinha aprendido. Pensei que talvez seu mestre o tivesse ensinado.

— Sentem-se, sentem-se! — disse Jiriki, gesticulando para que Haestan, Sludig e Grimmric seguissem o exemplo de Simon e Binabik.

Eles vieram como cães que temem uma surra e encontraram lugares perto da fogueira. Vários outros sitha se aproximaram carregando bandejas de madeira intrincadamente esculpidas e polidas, repletas de todo tipo de coisa: manteiga e pão integral escuro, uma rodela de queijo aromático e salgado, pequenas frutas vermelhas e amarelas que Simon nunca tinha visto antes. Havia também várias tigelas de frutas silvestres bastante reconhecíveis e até mesmo uma pilha de favos de mel pingando. Quando Simon estendeu a mão e pegou dois dos favos pegajosos, Jiriki voltou a rir, um assovio suave como a de um gaio em uma árvore distante.

— Em todo lugar é inverno... — comentou. — Contudo nos refúgios protegidos de Jao é-Tinukai’i, as abelhas não sabem disso. Levem o quanto quiserem.

Os captores, agora anfitriões, serviram aos companheiros um vinho desconhecido, todavia potente, enchendo seus cálices de madeira com jarras de pedra. Simon se perguntou se alguma oração deveria ser feita antes de começar, entretanto os sitha já haviam começado a comer. Haestan, Sludig e Grimmric olhavam ao redor, desolados, querendo começar, mas ainda cheios de medo e desconfiança. Os três observaram atentos enquanto Binabik partia o pão e dava uma mordida na crosta amanteigada. Alguns momentos depois, quando ele não só estava vivo, como comendo muito satisfeito, os homens se sentiram seguros para atacar a refeição, o que fizeram com o vigor de prisioneiros perdoados.

Limpando o mel do queixo, Simon parou para observar os sitha. O Povo Encantado comia devagar, às vezes encarando uma baga entre os dedos por longos instantes antes de levá-la à boca. Havia pouca conversa, porém quando um deles fazia algum comentário em sua língua fluida, ou emitia um breve trinado de canção, todos os outros escutavam. Na maioria das vezes não havia resposta, contudo se um deles tinha alguma resposta, todos a escutavam também. Havia muitas risadas silenciosas, sem gritos nem discussões, e Simon nunca ouviu ninguém interromper enquanto outro falava.

An’nai havia se movido para sentar perto de Simon e Binabik. Um dos sitha fez uma declaração solene que arrancou risos dos outros. Simon pediu a An’nai que explicasse a piada.

O sitha de jaqueta branca parecia um pouco desconfortável.

— Ki’ushapo disse que seus amigos comem como se temessem que a comida pudesse fugir.

Ele gesticulou para Haestan, que estava enfiando comida na boca com as duas mãos.

Simon não tinha certeza do que An’nai queria dizer, certamente eles já tinham visto pessoas famintas antes, no entanto sorriu mesmo assim.

Conforme a refeição prosseguia, e um aparente rio inesgotável de vinho reabastecia os cálices de madeira, o rimmerio e os dois guardas erkynos começaram a se divertir. Em certo momento, Sludig se levantou, com o copo chacoalhando na mão, e propôs um brinde caloroso aos seus novos amigos sitha. Jiriki sorriu e acenou com a cabeça, embora Khendraja’aro ficou rígido; quando Sludig começou a cantar uma antiga canção de bêbados, o tio do Príncipe escapuliu em silêncio para o canto da ampla caverna para contemplar o lago ondulante iluminado por lampiões.

Os outros sitha à mesa riram enquanto Sludig cantava os refrões com sua voz estridente e balançavam ao seu ritmo embriagado, por vezes cochichando entre si. Sludig, Haestan e Grimmric pareciam bastante felizes agora, e até Binabik sorria enquanto chupava uma casca de pera.... Todavia Simon, lembrando-se da música fascinante que ouvira os sitha tocarem, sentiu uma pontada de vergonha por seu companheiro, como se o rimmerio fosse um urso de festival dançando por migalhas na Avenida Principal.

Depois de observar por um tempo, se levantou, enxugando as mãos na frente da camisa. Binabik também se levantou e, depois de pedir permissão a Jiriki, desceu pelo corredor coberto para dar uma olhada em Qantaqa. Os três soldados gargalhavam entre si, contando, Simon não tinha dúvida, piadas de soldados bêbados. Ele caminhou até um dos nichos na parede para examinar as estranhas lâmpadas. De repente, lembrou-se do cristal brilhante que Morgenes lhe dera... Poderia ter sido obra dos sitha? E sentiu um puxão frio e solitário em seu coração. Ergueu uma das lâmpadas e viu uma tênue sombra dos ossos em sua mão, como se a carne fosse apenas água turva. Por mais que tentasse, não conseguia entender como a luz havia sido introduzida no interior do cristal translúcido.

Sentindo que era observado, virou-se. Jiriki o encarava, com seus olhos felinos brilhando do outro lado do círculo de fogo. Simon sobressaltou-se, surpreso; o Príncipe assentiu.

Haestan, com o vinho subindo à cabeça, desafiara um dos sitha... Aquele que An’nai chamara de Ki’ushapo, para uma queda de braço. Ki’ushapo, de tranças amarelas, vestido de preto e cinza, recebia conselhos embriagados de Grimmric. Ficou claro por que o guarda magro achava sua ajuda era necessária: o sitha era uma cabeça mais baixo que Haestan e parecia ter pouco mais da metade de seu peso. Enquanto o sitha, com uma expressão perplexa, se inclinava sobre a pedra lisa para apertar a mão larga de Haestan, Jiriki se levantou e passou por eles, caminhando graciosamente pela câmara em direção a Simon.

Ainda era difícil, pensou Simon, conciliar aquele ser confiante e inteligente com a criatura enlouquecida que encontrara pendurado na floresta. Mesmo assim, quando Jiriki virava a cabeça de um certo jeito, ou flexionava os dedos de juntas longas, era possível ter um vislumbre da selvageria que o assustara e fascinara. E sempre que a luz da fogueira atingia seus olhos âmbares com reflexos dourados do Príncipe, estes brilhavam como joias antigas vindas do solo negro da floresta.

— Venha, Seoman. — disse o sitha. — Vou lhe mostrar algo.

Sua mão passou sob o cotovelo do jovem e o conduziu até a piscina onde Khendraja’aro estava sentado, deslizando os dedos na água. Ao passarem pelo fogo, Simon viu que a disputa de queda de braço estava a todo vapor. Os oponentes estavam travando uma luta, nenhum deles com vantagem ainda, mas o rosto barbudo de Haestan estava contraído em um sorriso tenso, mostrando os dentes cerrados. O esguio sitha, em contraste, demonstrava pouco efeito do impasse, exceto pelo braço vestido de cinza que tremia com a tensão da disputa. Simon não achou que aquilo fosse um bom presságio para as chances de Haestan. Sludig, observando o pequeno frustrar o grande, ficou boquiaberto.

Jiriki sussurrou algo para o tio enquanto se aproximavam, porém Khendraja’aro não respondeu, seu rosto atemporal parecia fechado, trancado como uma porta. Simon seguiu o Príncipe ao longo da parede da caverna. Um instante depois, diante de seus olhos atônitos, Jiriki desapareceu.

Apenas havia entrado em outro túnel, um que contornava a comporta de pedra da pequena cachoeira. Simon entrou logo depois; o túnel subia em degraus de pedra irregulares, iluminados por uma fileira de lâmpadas.

— Siga-me, por favor. — disse Jiriki, e começou a subir.

Parecia que subiram a colina bem alto, girando em espiral por um bom tempo. Por fim, passaram pela última lâmpada e seguiram com cuidado na quase escuridão, até que Simon enfim percebeu o brilho das estrelas à sua frente. Um instante depois, a passagem se alargou em uma pequena caverna, com uma das extremidades aberta para o céu noturno.

Seguiu Jiriki até a borda da caverna, que era uma saliência de pedra na altura da cintura. A face rochosa da colina despencava lá embaixo: dez côvados até o topo dos altos pinheiros, mais cinquenta até o chão coberto de neve. A noite estava clara, as estrelas brilhando intensamente contra a escuridão, e a floresta estava ao redor, como um vasto segredo.

Depois de ficarem ali por um tempo, Jiriki disse.

— Eu te devo uma vida, garoto. Não temas que me esqueça.

Simon não disse nada, com medo de falar e quebrar o feitiço que lhe permitia ficar no meio da noite da floresta, um espião no jardim escuro de Deus. Uma coruja piou.

Houve outro intervalo de silêncio, então o sitha tocou de leve o braço de Simon e apontou para o oceano silencioso de árvores.

— Ali. Ao norte, abaixo do Cajado de Lu’yasa... — ele indicou uma linha de três estrelas na parte mais baixa do céu aveludado. — Consegue ver o contorno das montanhas?

Simon olhou fixamente. Pensou que talvez houvesse uma leve luminescência no horizonte escuro, um mero indício de alguma grande forma branca tão distante que parecia fora do alcance do mesmo luar que brilhava nas árvores e na neve abaixo delas.

— Acho que sim. — respondeu baixinho.

— É para lá que irá. O pico que os homens chamam de Urmsheim fica naquela cordilheira, embora precise de uma noite mais clara para vê-lo bem. — ele suspirou. — Seu amigo Binabik falou esta noite sobre a perdida Tumet’ai. Antigamente, ela podia ser vista daqui, lá longe, no leste. — apontou para a escuridão. — Deste mesmo ponto, no entanto isso foi na época do meu bisavô. Durante o dia, a Seni Anzi’in... A Torre da Aurora Andante... Captava o sol nascente em seus telhados de cristal e ouro. Dizem que era como uma bela tocha queimando no horizonte da manhã...

O sitha parou de falar, voltando seus olhos para Simon, o resto do rosto obscurecido pela sombra da noite.

— Tumet’ai está enterrada há muito tempo... — prosseguiu, dando de ombros. — Nada dura para sempre, nem mesmo os sitha... Nem mesmo o próprio tempo.

— Quantos... Quantos anos você tem?

Jiriki sorriu, os dentes brilhando ao luar.

— Sou mais velho que você, Seoman. Vamos descer agora. Você viu e sobreviveu a muitas coisas hoje, e sem dúvida precisa dormir.

Quando voltaram para a caverna iluminada pela fogueira, os três guardas estavam envoltos em seus mantos, roncando ruidosamente. Binabik havia retornado e estava sentado, ouvindo vários sitha cantarem uma canção lenta e melancólica que zumbia como uma colmeia e corria como um rio, parecendo preencher a caverna como o aroma denso de alguma flor rara e moribunda.

Enrolado em seu próprio manto, observando a luz da fogueira tremeluzir nas pedras acima, Simon foi embalado para dormir pela estranha música da tribo de Jiriki.

***

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