Capítulo 37: A Caçada de Jiriki
Simon encarou, impotente, a ponta de flecha negra, o trio de rostos magros. Seu maxilar tremia.
— Ske’i! Ske’i! — gritou uma voz. — Pare!
Dois dos sitha se viraram para olhar para a colina à direita, mas aquele que segurava friamente o arco curvado não hesitou.
— Ske’i, ras-Zida’ya! — gritou a pequena figura e então, saltando para a frente, rolou na neve, parando finalmente em uma nuvem de pó brilhante a poucos passos de Simon.
Binabik se ajoelhou aos poucos, coberto de neve como se tivesse sido enfarinhado por um padeiro apressado.
— O-O quê? — Simon forçou seus lábios dormentes a formar palavras, porém o gnomo o silenciou com um movimento urgente de seus dedos curtos.
— Shhh. Abaixe o arco que está segurando devagar... Devagar!
Enquanto o garoto seguia sua instrução, Binabik proferiu outra enxurrada de palavras na língua desconhecida, acenando com as mãos em súplica para o sitha, que não piscava.
— O quê... Onde estão os outros... — Simon sussurrou, contudo Binabik voltou a silenciá-lo, desta vez com um pequeno, embora violento, balanço de cabeça.
— Não há tempo pra isso... Estamos lutando pela sua vida. — o gnomo ergueu as próprias mãos no ar, e Simon, tendo largado o arco, fez o mesmo, esticando as palmas das mãos para frente. — Você não perdeu a Flecha Branca, certo?
— Eu... Não sei.
— Filha das Montanhas, espero que não. Deixe sua aljava cair devagar. Pronto.
Ele tornou a balbuciar um pouco mais do que Simon interpretou como a língua sitha, e então chutou a aljava, fazendo com que as flechas se espalhassem pela neve como palitos escuros... Todas menos uma. Apenas sua ponta triangular, azul-pérola como uma gota líquida do céu, se destacava contra a brancura ao redor.
— Oh, graças aos Lugares Elevados! — suspirou Binabik. — Staja Ame ine! — disse aos sitha, que observavam como gatos cuja presa aviária escolheu se virar e cantar em vez de voar para longe. — A Flecha Branca! Vocês não podem ignorar isso! Im sheyis t’si keo’su d’a Yana o Lingit!
— Isto é... Estranho! — disse o sitha com o arco, abaixando-o ligeiramente. Seu sotaque é estranho, contudo seu domínio da Língua Ocidental é muito bom. — ele piscou. — Ser ensinado as Regras da Canção por um gnomo. — seu sorriso frio retornou por um instante. — Podem nos poupar de suas exortações... E de suas traduções grosseiras. Peguem a flecha e tragam-na aqui para mim.
O sitha sibilou algumas palavras para os outros dois enquanto Binabik se inclinava para a aljava. Eles olharam para trás mais uma vez para Simon e o gnomo, e então dispararam morro acima com uma velocidade surpreendente, parecendo mal fazer ondulações na neve enquanto subiam, tão rápidos e leves eram seus passos. O que ficou para trás manteve sua flecha apontada na direção de Simon enquanto Binabik avançava com dificuldade.
— Entregue-a para mim! — ordenou o sitha. — Penas primeiro, gnomo. Agora, de um passo para trás em direção ao seu companheiro.
Sua mão aliviou a tensão no arco para examinar o objeto branco e fino, permitindo que a flecha deslizasse para a frente até que a corda estivesse quase frouxa e pudesse segurar a flecha engatilhada e o cabo do arco em uma mão.
Simon percebeu pela primeira vez o som áspero e superficial de sua própria respiração acelerada. Abaixou um pouco as mãos trêmulas quando Binabik parou bruscamente perto.
— Foi dado a este jovem por um serviço que prestou. — disse Binabik em tom desafiador.
O sitha o encarou e ergueu uma sobrancelha.
À primeira vista, Simon se lembrou muito do primeiro de seus semelhantes que vira... As mesmas maçãs do rosto proeminentes e os mesmos movimentos estranhos, semelhantes aos de um pássaro. Vestia calças e jaqueta de tecido branco brilhante, salpicadas nos ombros, mangas e cintura com finas escamas verde-escuras. Seus cabelos, quase negros, embora também com um estranho tom esverdeado, estavam presos em duas tranças elaboradas, uma caindo sobre cada orelha. Botas, cinto e aljava eram de couro macio cor de leite. Simon percebeu que era apenas a posição do sitha na encosta, e sua silhueta contra o céu cinzento, que permitia que este fosse visto claramente. Se o ser mágico estivesse de pé contra a neve, em um bosque, seria tão invisível quanto o vento.
— Isi-isi’ye! — murmurou o sitha com emoção, e virou-se para apontar a flecha para o sol encoberto. Abaixando-a, olhou para Simon com espanto por um momento, depois estreitou os olhos.
— Onde você encontrou isso, Sudhoda’ya? — perguntou, irritado. — Como alguém como você conseguiu uma coisa dessas?
— Me foi dado! — disse Simon, com a cor voltando às suas bochechas e a força à sua voz. — Salvei um dos seus. Ele atirou a flecha em uma árvore e fugiu.
O sitha o examinou com atenção outra vez e pareceu prestes a dizer algo mais. Em vez disso, voltou sua atenção para a encosta. Um pássaro assobiou um chamado longo e complexo, ou assim Simon pensou a princípio, até ver os pequenos movimentos dos lábios do sitha vestido de branco. Esperou, imóvel como uma estátua, até ouvir um trinado em resposta.
— Vão agora, à minha frente! — disse, virando-se para gesticular com o arco na direção do gnomo e do garoto. Ambos subiram com dificuldade a encosta íngreme, com seu captor movendo-se com leveza atrás deles, girando a Flecha Branca repetidamente em seus dedos finos.
Em questão de algumas centenas de batimentos cardíacos, alcançaram o topo arredondado da colina e começaram a descer o outro lado. Lá, quatro sitha estavam agachados ao redor de uma ravina coberta de neve e cercada por árvores: os dois que Simon já havia visto, reconhecíveis apenas pelo tom azulado de seus cabelos trançados, e outro par cujos cabelos eram cinza-escuros... Embora, como os outros, seus rostos dourados não tivessem rugas.
No fundo da ravina, sob o ameaçador quadrilátero de flechas sitha, estavam Haestan, Grimmric e Sludig. Cada um deles estava ensanguentado e ostentava as expressões de desafio desesperado de animais encurralados.
— Pelos ossos de São Eahlstan! — Haestan praguejou ao ver os recém-chegados. — Ah, Deus, rapaz, pensei que tivesse escapado. — sua cabeça balançou. — Ainda assim, melhor do que estar morto, acredito.
— Você ve, gnomo? — disse Sludig amargamente, com o rosto barbudo manchado de vermelho. — Ve o que atraímos para nós mesmos? Demônios! Nunca deveríamos ter zombado... Daquele ser sombrio.
O sitha que empunhava a Flecha, aparentando ser o líder, disse algumas palavras em sua língua para os outros e gesticulou para que os companheiros de Simon saíssem do fosso.
— Não são demônios. — disse Binabik enquanto ele e Simon firmavam as pernas para ajudar os outros a subir, uma tarefa difícil na neve movediça. — São sitha, e não nos farão mal. Afinal, é a própria Flecha Branca deles que os está compelindo.
O líder dos sitha lançou um olhar azedo para o gnomo, no entanto não disse nada. Grimmric emergiu ofegante em terreno plano.
— Sith... Sitha? — falou, lutando para respirar. Um corte logo abaixo do couro cabeludo havia pintado sua testa com uma sólida faixa carmesim. — Agora nos metemos em histórias muito, muito antigas, disso não há dúvida. Povo Sitha! Que Jesuris Aedon nos proteja a todos.
Ele fez o sinal da Árvore e, cansado, se virou para ajudar o cambaleante Sludig.
— O que aconteceu? — perguntou Simon. — Como você... O que aconteceu com...?
— Aqueles que nos perseguiam estão mortos! — disse Sludig, encostando-se em um tronco de árvore. Suas roupas estavam rasgadas em vários lugares, e seu capacete, que pendia de sua mão, estava arranhado e amassado como uma panela velha. — Nós mesmos matamos alguns. O resto... — sua mão acenou para os guardas sitha. — Caiu com os corpos cheios de flechas.
— Com certeza teriam atirado em nós também, se o gnomo não tivesse falado na língua deles. — disse Haestan e sorriu para Binabik. — Não pensamos mal de você quando fugiu. Estávamos rezando pelo seu sucesso.
— Fui procurar Simon. Ele está sob minha responsabilidade! — se limitou a dizer Binabik.
— Mas... — Simon olhou em volta, nutrindo uma pequena esperança, entretanto não viu nenhum outro prisioneiro. — Então... Então foi Ethelbearn quem caiu. Antes de chegarmos à primeira colina.
Haestan assentiu lentamente.
— Foi!
— Que suas almas sejam amaldiçoadas! — Grimmric praguejou. — Eram rimmerios, aqueles bastardos assassinos!
— De Skali! — adicionou Sludig, com um olhar pétreo.
O sitha começou a gesticular para que se levantassem.
— Dois deles usavam o corvo Kaldskryke. — continuou o rimmerio, levantando-se. — Ah, como rezo para encontrá-lo sem nada entre nós além de nossos machados.
— Você está esperando com um exército de muitos outros. — disse Binabik.
— Espere! — exclamou Simon, sentindo-se terrivelmente vazio, isso não estava certo. Ele se virou para o líder da companhia sitha. — Você viu minha flecha. Sabe que minha história é verdadeira. Não pode nos levar a lugar nenhum, nem fazer nada, até vermos o que aconteceu com nosso companheiro.
O sitha o encarou de forma avaliativa.
— Não sei se sua história é verdadeira, pirralho, porém descobriremos em breve. Mais cedo do que gostaria. Quanto ao outro... — parou um instante para observar o grupo maltrapilho de Simon. — Muito bem. Deixaremos que cuidem do seu outro homem.
Ele falou com seus camaradas sitha, e seguiram os homens colina abaixo. O grupo silencioso passou pelos cadáveres de dois de seus atacantes, cobertos de flechas, com os olhos arregalados e as bocas abertas. A neve já caía sobre seus corpos imóveis, cobrindo as manchas escarlates.
Encontraram Ethelbearn a cem côvados da estrada do lago. A haste quebrada de uma flecha de freixo sobressaía do lado de seu pescoço, abaixo da barba, e sua postura retorcida indicava que seu cavalo havia rolado sobre ele em seus estertores de morte.
— Sua morte ocorreu em instantes. — disse Haestan, com lágrimas nos olhos. — Graças a Aedon, foi rápido.
Cavaram uma cova da melhor maneira possível, golpeando o chão duro com espadas e machados; os sitha observavam, indiferentes. Os companheiros envolveram Ethelbearn em seu grosso manto e o depositaram na cova rasa. Quando foi coberto, Simon fincou a espada do morto na terra como um marcador.
— Pegue o seu elmo. — disse Haestan a Sludig, e Grimmric assentiu.
— Ele não queria que fosse deixado em desuso. — concordou o outro erkyno.
Sludig pendurou seu próprio elmo arruinado no pomo da espada de Ethelbearn antes de pegar o que lhe foi oferecido.
— Nós o vingaremos, companheiro. — disse o rimmerio. — Sangue por sangue.
Um silêncio se apoderou dos arredores. A neve caía por entre as árvores enquanto observavam o pedaço de terra nua. Logo tudo estaria branco novamente.
— Venham! — disse o chefe sitha por fim. — Esperamos por vocês tempo suficiente. Há alguém que vai querer ver esta flecha.
Simon foi o último a se mover.
“Mal tive tempo de conhecê-lo, Ethelbearn.” pensou. “Contudo você tinha um sorriso reconfortante. Vou recordá-lo.”
Eles se viraram e voltaram para as colinas frias.
***
A aranha permanecia imóvel, como uma gema marrom opaca em um colar intrincado. A teia estava completa agora, os últimos fios delicadamente dispostos; ela se estendia de um lado do canto do teto ao outro, tremendo de leve no ar ascendente como se dedilhada por mãos invisíveis.
Por um momento, Isgrimnur perdeu o fio da meada, por mais importante que fosse. Seus olhos se desviaram dos rostos preocupados reunidos perto da lareira no grande salão, percorrendo o canto escuro até a pequena construtora em repouso.
“Faz sentido.” disse a si mesmo. “Você constrói algo e então fica lá. É assim que deve ser. Não essa correria de um lado para o outro, sem nunca ver sua família de sangue ou o telhado de sua casa por um ano inteiro.”
Pensou em sua esposa: Gutrun, de olhos penetrantes e bochechas rosadas. Ela não lhe dirigira uma única palavra de repreensão, todavia sabia que a irritava o fato de ter ficado tanto tempo longe de Elvritshalla, de ter deixado seu filho mais velho, o orgulho de seu coração, para governar um grande ducado... E fracassar. Não que Isorn ou qualquer outra pessoa em Rimmersgardia pudesse ter impedido Skali e seus seguidores, não com o Supremo Rei por trás o apoiando. Ainda assim, fora o jovem Isorn quem governara enquanto seu pai estava ausente, e seria Isorn quem seria lembrado como aquele que vira o clã Kaldskryke, inimigos tradicionais dos homens de Elvritshalla, entrarem em sua casa como senhores.
“E eu estava ansioso para voltar para casa desta vez...” pensou o velho Duque tristemente. “Teria sido bom cuidar dos meus cavalos e vacas, resolver algumas disputas locais e ver meus filhos criarem seus próprios filhos. Em vez disso, toda a terra está sendo destruída como palha furada. Deus me livre, já tive lutas suficientes quando era mais jovem... Apesar de tudo que falo.”
Depois de tudo, lutar era coisa de jovens, com uma visão de vida leve e despreocupada. E para dar aos velhos algo para conversar, para se lembrarem enquanto se aconchegavam em seus salões com o inverno gemendo lá fora.
“Um velho cão maldito como eu está quase pronto para se deitar e dormir junto à lareira.”
Puxou a barba e observou a aranha correr em direção ao canto escuro do telhado, onde uma mosca desavisada havia parado para sua satisfação.
“Pensávamos que John havia forjado uma paz que duraria mil anos. Em vez disso, não sobreviveu à sua morte nem por dois verões. Você constrói e constrói mais, colocando fio sobre fio como aquela pequena ali em cima, só para um vento chegar e destruir tudo.”
— E assim quase aleijei dois cavalos para trazer estas notícias o mais rápido que pude, Senhor. — concluiu o jovem enquanto Isgrimnur voltava a atenção para a discussão urgente.
— Você se saiu magnificamente, Deornoth! — elogiou Josua. — Por favor, levante-se.
Com o rosto ainda úmido da cavalgada, o soldado de cabelos compridos se levantou, envolvendo-se mais firmemente no grosso cobertor que o Príncipe lhe dera. Parecia muito com aquela outra vez, quando, vestido com a roupa de monge sagrado para as festividades do Dia de São Tunath, trouxera ao Príncipe a notícia da morte de seu pai.
O Príncipe pousou a mão no ombro de Deornoth.
— Fico feliz em tê-lo de volta. Temi por sua segurança e me amaldiçoei por ter que enviá-lo em uma missão tão perigosa. — ele se voltou para os outros. — Então, vocês ouviram o relatório de Deornoth. Elias enfim foi para o campo de batalha. Está vindo para Naglimund com... Deornoth? O que disse...?
— Cerca de mil cavaleiros, talvez mais, e quase dez mil soldados de infantaria. — disse o soldado, infeliz. — Essa é a média dos diferentes relatos, que parece bastante confiável.
— Tenho certeza que sim. — Josua acenou com a mão. — E talvez tenhamos no máximo duas semanas até que chegue às nossas muralhas.
— Acredito que sim, senhor! — Deornoth assentiu.
— E quanto ao meu senhor? — perguntou Devasalles.
— Bem, Barão... — começou o soldado, cerrando os dentes até que um tremor passasse. — Nad Mullach estava em polvorosa... O que é compreensível, claro, com o que está acontecendo a oeste... — tomou um momento para olhar para o Príncipe Gwythinn, que estava sentado um pouco afastado dos demais, encarando o teto com ar melancólico.
— Continue! — disse Josua calmamente. — Vamos ouvir tudo.
Deornoth desviou o olhar do hernystiro.
— Então, como ia dizendo, informações confiáveis eram difíceis de obter. No entanto, segundo vários dos marinheiros do rio vindos de Abaingeat, na costa, seu Duque Leobardis partiu de Nabban e já está em alto mar, é provável que chegue à costa perto de Crannhyr.
— Com quantos homens? — Isgrimnur resmungou.
Deornoth deu de ombros.
— Dizem coisas diferentes. Trezentos cavaleiros, talvez, e uns dois mil soldados de infantaria.
— Parece correto, Príncipe Josua. — disse Devasalles, com os lábios franzidos em contemplação. — Muitos dos suseranos sem dúvida não iriam, com medo de se oporem ao Supremo Rei, e os perdruinos permanecerão neutros, como costumam fazer. O Conde Streáwe sabe que se sairá melhor ajudando ambos os lados e reservando seus navios para transportar mercadorias.
— Portanto, ainda podemos esperar pela forte ajuda de Leobardis, embora eu desejasse que fosse ainda mais forte. — Josua olhou ao redor do círculo de homens.
— Mesmo que esses nabbanos cheguem aos portões antes de Elias... — disse o Barão Ordmaer, com o medo mal disfarçado em suas feições rechonchudas. — Mesmo assim Elias terá o triplo de nós em número.
— Mas nós temos as muralhas, senhor. — respondeu Josua, com o rosto estreito e severo. — Estamos em uma posição muito, muito forte. — ele se voltou para Deornoth, e sua expressão suavizou. — Dê-nos as últimas notícias, meu fiel amigo, e então vá dormir. Temo por sua saúde e precisarei de você forte nos próximos dias.
Deornoth esboçou um leve sorriso.
— Sim, senhor. As notícias que chegaram também não são boas, receio. Os hernystiros foram expulsos do campo de batalha de Inniscrich. — ele começou a olhar para o lugar onde Gwythinn estava sentado, porém desviou o olhar. — Dizem que o Rei Lluth foi ferido e seus exércitos recuaram para as Montanhas Grianspog, para melhor atacar Skali e seus homens.
Josua encarou seriamente o Príncipe hernystiro.
— Parece que pelo menos é melhor do que você temia, Gwythinn. Seu pai segue vivo e continua lutando.
O jovem se virou. Seus olhos estavam vermelhos.
— Sim! Eles continuam lutando, enquanto eu fico aqui sentado dentro de muralhas de pedra, bebendo cerveja e comendo pão e queijo como um gordo cidadão. Meu pai pode estar morrendo! Como posso ficar aqui?
— E acha que pode derrotar Skali com seus quinhentos homens, rapaz? — perguntou Isgrimnur, sem maldade. — Ou prefere buscar uma morte rápida e gloriosa a esperar para ver qual é a melhor estratégia?
— Não sou tão tolo assim! — respondeu Gwythinn friamente. — E, pelo rebanho de Bagba, Isgrimnur, quem é você para me dizer isso? E aquele ‘pé de aço’ que está guardando para as entranhas de Skali?
— É diferente... — murmurou Isgrimnur, constrangido. — Não falei em invadir Elvritshalla com meus doze cavaleiros.
— E tudo o que pretendo fazer é contornar os corvos de Skali e ir até meu povo nas montanhas.
Incapaz de encarar o olhar brilhante e exigente do Príncipe Gwythinn, Isgrimnur deixou seus olhos deslizarem de volta para o canto do telhado, onde a aranha marrom estava diligentemente envolvendo algo em seda pegajosa.
— Gwythinn! — chamou Josua em um suave tom. — Peço apenas que espere até que possamos conversar mais. Um ou dois dias não farão muita diferença.
O jovem hernystiro se levantou, sua cadeira raspando nas lajes de pedra.
— Esperar! É tudo o que tem feito, Josua! Espera pela reunião local, espera por Leobardis e seu exército, espera por... Espera por Elias escalar as muralhas e incendiar Naglimund! Estou cansado de esperar! — sua mão se ergueu trêmula para interromper os protestos de Josua. — Não se esqueça, Josua, também sou um Príncipe! Atendi ao seu chamado por causa da amizade de nossos pais. E agora meu pai está ferido e atormentado por demônios do norte. Se ele morrer sem ser socorrido, e eu me tornar rei, você me dará ordens então? Ainda pensará em me deter? Brynioch! Não consigo entender tamanha covardia!
Antes de chegar à porta, ele se virou.
— Direi aos meus homens que se preparem para a nossa partida amanhã ao pôr do sol. Se pensar em algum motivo pelo qual não deva ir, algum que me tenha escapado, sabe onde me encontrar!
Assim que o Príncipe fechou a porta atrás de si, Josua levantou-se.
— Creio que há muitos que... — fez uma pausa e balançou a cabeça cansado. — Que sentem a necessidade de comer e beber algo... Você, em particular, Deornoth. Contudo peço que permaneça um instante enquanto os outros vão à frente, para que eu possa tratar de alguns assuntos particulares.
Ele acenou para Devasalles e os demais, indicando-lhes o caminho para o salão de jantar, e os observou saírem, conversando baixinho entre si.
— Isgrimnur! — chamou Josua, e o Duque parou na porta, olhando para trás com um olhar inquisitivo. — Fique também, por favor.
Quando Isgrimnur se acomodou de volta na cadeira, Josua olhou expectante para Deornoth.
— E você tem outras notícias para mim? — perguntou o Príncipe.
O soldado franziu a testa.
— Se tivesse mais alguma boa notícia, meu Príncipe, teria lhe contado primeiro, antes da chegada dos outros. Não consegui encontrar nenhum vestígio de sua sobrinha ou do monge que a acompanha, exceto por um camponês perto da bifurcação de Greenwade que viu uma dupla com essas características atravessando o rio ali há alguns dias, seguindo para o sul.
— O que não é mais do que sabíamos que fariam, como a Senhora Vorzheva nos disse. Todavia agora eles já estão bem dentro de Inniscrich, e só o Abençoado Jesuris sabe o que pode acontecer, ou para onde irão em seguida. Nossa única sorte é que tenho certeza de que meu irmão Elias marchará com seu exército pela encosta das colinas, já que nesta estação chuvosa a Estrada de Wealdhelm é o único lugar seguro para as carroças pesadas.
Seu olhar se fixou nas chamas trêmulas da fogueira.
— Bem, então... — retomou. — Meus agradecimentos, Deornoth. Se todos os meus súditos fossem como você, eu poderia rir da ameaça do Supremo Rei.
— Os homens são um bom grupo, senhor! — disse o jovem cavaleiro lealmente.
— Vamos, pode ir. — o Príncipe estendeu a mão para dar um tapinha no joelho de Deornoth. — Coma alguma coisa e descanse um pouco. Não precisará trabalhar até amanhã.
— Sim, senhor.
O jovem erkyno jogou a manta para o lado e se levantou, com as costas eretas como um poste, enquanto saía do cômodo. Depois que se foi, Josua e Isgrimnur ficaram sentados em silêncio.
— Miriamele sumiu sabe-se-lá para onde, e Leobardis está numa corrida contra Elias até nossos portões. — o Príncipe balançou a cabeça e massageou as têmporas com a mão. — Lluth ferido, os hernystiros em retirada, e a ferramenta de Elias, Skali, é agora senhor do Vestivegg até o Grianspog. E, além de tudo isso, demônios lendários vagando pela Terra mortal. — ele dedicou ao Duque um sorriso sombrio. — A rede está se fechando, tio.
Isgrimnur passou os dedos pela barba.
— A rede está balançando ao vento, Josua. Um vento forte.
Deixou o comentário sem explicação, e o silêncio voltou a reinar no salão principal.
***
O homem com a máscara de cão emitiu um fraco praguejar e cuspiu mais um pouco de sangue na neve. Qualquer homem menos corajoso, sabia, estaria agora morto, estendido na neve com as pernas esmagadas e as costelas quebradas, mas o pensamento era apenas vagamente gratificante. Todos os anos de treinamento ritual e trabalho árduo que salvaram sua vida quando o cavalo moribundo rolou por cima dele seriam em vão, a menos que conseguisse chegar a algum lugar abrigado e seco. Mais uma ou duas horas de exposição terminariam o trabalho que seu corcel moribundo havia começado.
Os malditos sitha, e seu envolvimento inesperado foi nada menos que surpreendente, haviam levado seus cativos humanos a poucos metros de onde jazia escondido, enterrado sob trinta centímetros de neve. Havia reunido todas as suas reservas de força e coragem para permanecer sobrenaturalmente imóvel enquanto o os seres mágicos examinavam a área. Devem ter concluído que havia rastejado para algum lugar para morrer... O que, é claro, esperava que fizessem, e alguns instantes depois seguiram seu caminho.
Agora se encolhia, tremendo, onde havia se desenterrado debaixo do cobertor branco que o obscurecia, reunindo forças para o próximo passo. Sua única esperança era de alguma forma voltar para Haethstad, onde dois de seus homens deveriam estar esperando. Amaldiçoou a si próprio cem vezes por ter confiado naqueles patifes de Skali... Saqueadores bêbados e agressores de mulheres que eram incapazes até de engraxar suas botas. Se ao menos não tivesse sido forçado a enviar os seus em outra missão.
Balançou a cabeça numa tentativa de se livrar dos pontos de luz rodopiantes e trêmulos que flutuavam contra o céu que escurecia aos poucos, e então franziu os lábios rachados. O piar de uma coruja-das-neves saiu incongruentemente do focinho do cão rosnando. Enquanto esperava, tentou mais uma vez, em vão, ficar de pé... Até mesmo rastejar. Foi inútil: havia algo de muito errado com ambas as pernas. Ignorando a dor lancinante das costelas fraturadas, usou as mãos para se arrastar um pouco mais em direção às árvores, porém teve que parar, estendido no chão e ofegante.
Um instante depois, sentiu um vento quente e ergueu a cabeça. O focinho preto de seu capacete estava duplicado, como em um estranho espelho, por um focinho branco sorridente a poucos centímetros de distância.
— Niku’a! — ofegou, em uma língua bem diferente de seu idioma nativo, o rimmerspakk negro. — Venha aqui! Que Udun te amaldiçoe! Venha!
O grande cão deu mais um passo em sua direção, até ficar de pé sobre seu mestre ferido.
— Agora... Fique firme! — disse o homem, estendendo as mãos fortes para agarrar a coleira de couro branco. — E puxe!
Um instante depois, gemeu de agonia quando o cão puxou, contudo resistiu, com os dentes cerrados e os olhos arregalados por trás das feições caninas imutáveis do capacete. A dor lancinante e dilacerante quase o levou à inconsciência enquanto o cão o arrastava, sacudindo-o pela neve, no entanto não afrouxou o aperto até alcançar a proteção das árvores. Só então enfim se soltou, deixou tudo ir. Deslizou para a escuridão, e para um breve alívio da dor.
***
Quando acordou, o cinza do céu havia ficado vários tons mais escuro, e o vento varrera uma camada fina de neve sobre ele como um cobertor. O grande cão Niku’a seguia esperando, indiferente e sem tremer apesar de sua pelagem curta, como se estivesse descansando diante de uma lareira crepitante. O homem no chão não se surpreendeu, conhecia bem os canis negros e gélidos de Sturmrspeik e sabia como essas bestas eram criadas. Ao olhar para a boca vermelha e os dentes curvados de Niku’a, e para os minúsculos olhos brancos como gotas de algum veneno leitoso, se sentiu grato outra vez por ser ele quem seguia os cães, e não o contrário.
Removeu o capacete, não sem esforço, já que a queda havia deformado seu formato, e o jogou na neve ao seu lado. Com sua faca, cortou sua capa preta em longas tiras; logo depois, começou a serrar laboriosamente algumas das árvores jovens mais finas. Era um trabalho horrível para suas costelas doloridas, todavia fez o possível para ignorar a dor lancinante e continuar. Tinha dois excelentes motivos para sobreviver: seu dever de contar a seus mestres sobre o ataque inesperado dos sitha e seu próprio desejo crescente de vingança contra esse bando desorganizado que o havia frustrado tantas vezes.
O olho azul-esbranquiçado da lua espreitava curiosa por entre as copas das árvores quando por fim terminou de cortar. Utilizou as tiras de sua capa para amarrar várias das varas mais curtas firmemente em cada perna como talas; então, sentado com as pernas rígidas à sua frente como uma criança brincando de jogo da velha na terra, prendeu pequenas travessas no topo das duas varas longas restantes. Segurando-as com cuidado, agarrou outra vez a coleira de Niku’a, deixando o longo cão branco como um cadáver puxá-lo para cima, onde cambaleou precariamente até conseguir colocar as muletas improvisadas sob os braços.
Deu alguns passos, girando sem jeito sobre as pernas rígidas. Serviria bem, decidiu, estremecendo com a dor lancinante... Não que tivesse muita escolha.
Olhou para o capacete caído na neve, pensando no esforço que seria necessário para alcançá-lo e no peso agora inútil da coisa. Então, inclinou-se, ofegante, e o pegou mesmo assim. Tinha sido lhe dado nas cavernas sagradas de Sturmrspeik, por Ela mesma, quando o nomeou Seu caçador sagrado... Ele, um mortal! Não podia deixá-lo na neve, assim como não podia deixar seu próprio coração pulsando. Recordou aquele momento impossível e inebriante, as luzes azuis tremeluzindo na Câmara da Harpa que Respira, quando se ajoelhou diante do trono, diante do brilho sereno de Sua máscara prateada.
Sua dor excruciante foi amenizada por um instante pelo vinho da memória, Niku’a seguindo em silêncio seus calcanhares. Ingen Jegger desceu hesitante a longa colina coberta de árvores e começou a elaborar sua vingança.
***
Simon e seus companheiros, agora reduzidos em um, não tinham muita disposição para conversar, e seus captores também não os incentivavam a fazê-lo. Caminhavam quietos e devagar pelas colinas cobertas de neve enquanto a tarde cinzenta dava lugar à noite.
De alguma forma, os sitha pareciam saber exatamente para onde queriam ir, embora para Simon as encostas salpicadas de pinheiros fossem monótonas, um ponto indistinguível do outro. Os olhos âmbar do líder estavam sempre se movendo em seu rosto semelhante a uma máscara, mas nunca parecia estar procurando por nada; em vez disso, dava a impressão de ler a linguagem sutil do terreno com a mesma perspicácia com que o Padre Strangyeard examinava suas estantes de livros.
A única vez que o líder sitha demonstrou alguma reação foi no início da marcha, quando Qantaqa desceu trotando uma ladeira e parou ao lado de Binabik, o nariz se contraindo enquanto cheirava sua mão, o rabo se agitando entre as pernas. O sitha ergueu uma sobrancelha meio curiosa, depois olhou ao redor para captar os olhares de seus companheiros, cujos olhos estreitos se estreitaram ainda mais. Não deu nenhum sinal de que Simon pudesse distinguir algo, porém a loba foi autorizada a seguir seu caminho sem impedimentos.
A luz do dia estava se esvaindo quando o estranho grupo enfim virou para o norte e, em pouco tempo, estavam circulando aos poucos a base de uma encosta íngreme, cujos flancos nevados eram pontilhados de pedras nuas e salientes. Simon, com o choque e a dormência já dissipados o suficiente para que percebesse seus pés dolorosamente gelados, fez um agradecimento silencioso quando o chefe de seus captores acenou para que parassem.
— Aqui! — disse, gesticulando para uma grande saliência rochosa que se erguia acima de suas cabeças. — Lá embaixo. — voltou a apontar, desta vez para uma fenda larga, na altura da cintura, na face da pedra. Antes que qualquer um deles pudesse dizer uma palavra, dois dos guardas sitha deslizaram com grande agilidade por entre eles e mergulharam de cabeça na abertura. Em um instante, haviam desaparecido.
— Você! — disse o sitha a Simon. — Vá atrás.
Houve murmúrios de raiva de Haestan e dos outros dois soldados, contudo Simon, apesar de sua situação incomum, sentia-se confiante. Ajoelhando-se, enfiou a cabeça pela abertura.
Era um túnel estreito e brilhante, um tubo revestido de gelo que subia íngreme e se afastava, aparentemente escavado na própria pedra da montanha. Concluiu que os sitha que haviam ido antes deviam ter escalado além da próxima curva. Não havia sinal deles, e ninguém poderia se esconder naquela passagem estreita e lisa como vidro, mal permitindo que levantasse os braços.
Recuou para o ar frio e aberto.
— Como faço para subir? É quase vertical e está coberto de gelo. Vou acabar deslizando de volta para baixo.
— Olhe para cima. — respondeu o chefe sitha. — Vai entender.
Simon reentrou no túnel, empurrando-se um pouco mais para dentro, de modo que seus ombros e a parte superior do corpo também estivessem lá dentro, e pudesse se virar de costas para olhar para cima. O gelo do teto do túnel, se é que se podia chamar de teto algo a meio braço de distância, estava marcado por uma série regular de cortes horizontais que se estendiam por todo o comprimento visível da passagem. Cada um tinha algumas polegadas de profundidade e largura suficiente para acomodar as duas mãos lado a lado de forma confortável. Percebeu, depois de pensar um pouco, que deveria se puxar para cima com as mãos e os pés, apoiando as costas no chão do túnel.
Encarando a perspectiva com certo desânimo, já que não tinha ideia de quão longo o túnel poderia ser, ou o que mais poderia estar o esperando, considerou sair da passagem estreita mais uma vez. Depois de um momento, mudou de ideia. Os sitha haviam seguido na frente tão rápido quanto esquilos, e por algum motivo sentiu o impulso de mostrar que, mesmo não sendo tão ágil quanto eles, ainda era ousado o suficiente para segui-los sem ser persuadido.
A escalada foi difícil, no entanto não impossível. O túnel fazia curvas com frequência suficiente para que pudesse parar várias vezes para descansar, apoiando os pés nas curvas da passagem. Enquanto se agarrava aos poucos, puxava e se apoiava, repetidamente, causando cãibras musculares. A vantagem de um túnel de entrada como aquele... Se é que aquilo era, como parecia, uma entrada... Tornou-se óbvia: era difícil subir, e seria quase impossível para qualquer animal que não fosse bípede; qualquer um que precisasse sair poderia deslizar por ele tão rápido quanto uma cobra.
Estava começando a pensar em parar para descansar outra vez quando ouviu vozes falando a fluida língua sitha logo além de sua cabeça. Um instante depois, mãos fortes o alcançaram, agarrando-o pelas correias de sua cota de malha e puxando-o para cima. Ele saiu do túnel com um suspiro de surpresa e caiu em um chão de pedra quente, coberto por água do degelo. Os dois sitha que o arrastaram para fora estavam agachados perto da entrada da passagem, com os rostos obscurecidos na quase escuridão. A única luz na sala, que na verdade não era bem uma sala, e sim uma caverna rochosa cuidadosamente limpa de detritos, vinha de uma fenda do tamanho de uma porta na parede oposta. Por essa abertura, um brilho amarelo se espalhava, pintando uma faixa brilhante no chão da caverna. Quando Simon se ergueu de joelhos, sentiu uma mão fina e contenciosa em seu ombro. O sitha de cabelos escuros ao seu lado apontou para o teto baixo, depois fez um gesto com a mão e indicou a entrada do túnel.
— Espere! — indicou com calma, ainda que sua fala não era tão fluente quanto a de seu líder. — Precisamos esperar.
Haestan foi o próximo, resmungando e praguejando. Os dois sitha tiveram que empurrar seu corpo volumoso para fora da abertura como se fosse uma rolha de uma garrafa de vinho. Binabik apareceu logo atrás, o ágil gnomo alcançou em poucos instantes o erkyno, seguido pouco depois por Sludig e Grimmric. Os três sitha restantes subiram com agilidade atrás deles.
Assim que o último saiu do túnel, o grupo prosseguiu, atravessando a porta de pedra e entrando em uma pequena passagem onde enfim puderam ficar de pé. Lâmpadas de algum tipo de cristal ou vidro dourado leitoso haviam sido embutidas em nichos na parede, e sua luz bruxuleante era suficiente para mascarar o brilho da porta no fundo até que estivessem quase em cima dela. Um dos sitha aproximou-se dessa abertura na pedra, que, ao contrário da anterior, estava coberta por um pano escuro, e chamou. Um instante depois, mais dois de seus semelhantes passaram pelo pano. Cada um empunhava uma espada curta feita do que parecia ser algum metal escuro. Permaneceram em silêncio, alertas, sem demonstrar surpresa ou curiosidade, enquanto o líder dos captores falava.
— Vamos amarrar suas mãos.
No momento que anunciaram, os outros sitha tiraram de debaixo de suas roupas pedaços de corda preta brilhante, enrolados em espiral.
Sludig deu um passo para trás, esbarrando em um dos guardas, que emitiu um sibilo baixo, mas não ofereceu violência.
— Não! — disse o rimmerio, com a voz perigosamente tensa. — Não vou deixar. Ninguém vai me amarrar contra a minha vontade.
— Nem eu! — disse Haestan.
— Não sejam tolos. — disse Simon, dando um passo à frente e oferecendo seus próprios pulsos cruzados. — É possível sairmos dessa ilesos, porém não conseguiremos se vocês começarem uma briga.
— Simon tem razão. — Binabik se manifestou. — Eu também vou deixar que me amarrem. Vocês não estão sendo sensatos ao pensar diferente. A Flecha Branca de Simon é genuína. É por causa dela que não nos mataram e o motivo pelo qual nos trouxeram aqui.
— Contudo como podemos... — começou Sludig.
— Além disso... — Binabik o interrompeu. — O que planejam fazer? Mesmo que lutem e vençam essas pessoas aqui, e as outras que devem estar esperando, o que aconteceria depois? Se deslizassem pelo túnel, sem dúvida cairiam em cima de Qantaqa, que espera lá embaixo. Acho que uma coisa tão assustadora lhe daria pouca chance de dizer a ela que você não era um inimigo.
Sludig olhou para o gnomo por um momento, considerando as possibilidades de ter de encontrar uma Qantaqa assustada e confusa. Por fim, esboçou um sorriso fraco.
— Você venceu de novo, gnomo. — ele estendeu as mãos.
As cordas pretas eram frias e escamosas como pele de cobra, embora flexíveis como tiras de couro oleado. Simon descobriu que um par de laços prendiam suas mãos como se tivessem sido agarradas pelo punho de um ogro. Quando os sitha terminaram com os outros, o grupo foi conduzido para frente mais uma vez, através da porta coberta de tecido e para dentro de um brilho ofuscante.
Parecia, quando Simon tentou se lembrar mais tarde, que haviam atravessado as nuvens e entrado em uma terra brilhante e reluzente... Algum vizinho mais próximo do sol. Depois das neves desoladoras e dos túneis sem características, a diferença era como a farra selvagem do festival do Nono Dia após os oito dias cinzentos que o precederam.
A luz, e sua cor serva, estava por toda parte. O cômodo era uma câmara de pedra com menos do que o dobro da altura de um homem, no entanto era muito larga. Raízes de árvores se entrelaçavam pelas paredes. Em um canto, a trinta passos de distância, um riacho cintilante corria por uma pedra sulcada para formar um arco, respingando, em um lago encaixado em uma bacia natural de pedra. O delicado tilintar de sua queda d’água se misturava à música estranha e sutil que preenchia o ar.
Lâmpadas como as que alinhavam no corredor de pedra estavam por toda parte, projetando, de acordo com sua fabricação, feixes de luz amarelos, marfim, azul-claro ou rosa, pintando a gruta de pedra com uma centena de tonalidades diferentes onde se encontravam. No centro do chão, não muito longe da borda da piscina ondulante, uma fogueira ardia, a fumaça desaparecendo em uma fenda acima.
— Elysia, Mãe do Sagrado Aedon! — exclamou Sludig, maravilhado.
— Nunca imaginei que houvesse uma toca de coelho aqui. — Grimmric balançou a cabeça. — E eles têm um palácio.
Talvez uma dúzia de sitha, todos homens, pelo que Simon pôde perceber em uma breve inspeção, estavam espalhados pela câmara. Vários permaneceram sentados calmamente diante de outro par sentado em uma pedra alta. Um segurava um longo instrumento semelhante a uma flauta e o outro cantava; a música era tão estranha para Simon que levou alguns instantes para que conseguisse distinguir o som da flauta, e a melodia contínua da cachoeira. Ainda assim, a canção requintada e trêmula que tocavam tocava seu coração dolorosamente, ao mesmo tempo que lhe causava arrepios. Apesar da estranheza, havia algo naquilo que o fazia querer se sentar ali mesmo, sem se mexer mais enquanto aquela música suave durasse.
Aqueles que não estavam reunidos em volta dos músicos conversavam baixinho ou apenas deitavam de costas, olhando para cima, como se pudessem contemplar através da pedra sólida da encosta e o céu noturno além. A maioria se virou por um breve instante para observar os cativos na entrada da câmara, mas da maneira, Simon sentiu, como um homem que ouve uma boa história poderia levantar a cabeça para ver um gato passar.
O garoto e seus companheiros, que não estavam nada preparados para aquilo, ficaram boquiabertos. O líder da guarda atravessou a sala em direção à parede oposta, onde mais duas figuras estavam sentadas frente a frente sobre uma mesa que era um alto nódulo achatado de pedra branca brilhante. Ambos olhavam fixamente para algo sobre a mesa, iluminado por outra das estranhas lâmpadas embutidas em um nicho na rocha próxima. O guarda parou e ficou em silêncio a uma curta distância, como se esperasse ser reconhecido.
O sitha que estava sentado de costas para os companheiros vestia uma bela jaqueta de gola alta verde-folha, com calças e botas altas da mesma tonalidade. Seus longos cabelos trançados eram de um vermelho mais vibrante que o de Simon, e suas mãos, enquanto movia algo sobre a mesa, brilhavam com anéis. Do outro lado, observando atento os movimentos de sua mão, estava sentado um homem envolto em um robe branco solto, arregaçado em torno de seus antebraços adornados com pulseiras, com os cabelos em um tom pálido de urze ou azul. Uma pena de corvo, preta e brilhante, pendia diante de uma das orelhas. Enquanto Simon observava, o sitha de vestes brancas mostrou os dentes e falou com seu companheiro, estendendo a mão para deslizar algum objeto para a frente. O olhar de Simon se intensificou; ele piscou.
Era o próprio sitha que havia resgatado da armadilha do lenhador. Tinha certeza.
— É ele! — sussurrou animado para Binabik. — Aquele que me deu a flecha!
Enquanto falava, o carcereiro se aproximou da mesa, e aquele que Simon reconheceu ergueu os olhos. O carcereiro disse algo rapidamente, todavia o de vestes brancas apenas lançou um olhar rápido para os prisioneiros e acenou com a mão em sinal de desdém, voltando sua atenção para o que Simon enfim decidira ser algum tipo de mapa ou tabuleiro de jogo. Seu companheiro ruivo não se virou, e um instante depois o captor retornou.
— Vocês devem esperar até que Lorde Jiriki termine. — seu olhar inexpressivo se fixou em Simon. — Já que a flecha é sua, você pode ser solto. Os outros não podem.
Simon, a poucos passos daquele que fizera o juramento de dívida, porém ainda sendo ignorado, sentiu-se tentado a avançar e confrontar o sitha de vestes brancas... Jereekee, se esse fosse seu nome. Binabik, que sentiu sua tensão, deu-lhe um empurrãozinho de aviso.
— Se os outros devem permanecer amarrados, então eu também permanecerei. — disse Simon. Pela primeira vez, achou ter visto algo inesperado cruzar o rosto de seu captor, uma expressão de desconforto.
— É uma Flecha Branca. — disse o líder da guarda. — Você não deveria ser preso a menos que se prove que a obteve por meios ilícitos, contudo não posso libertar seus companheiros.
— Então permanecerei amarrado. — insistiu Simon, com firmeza.
O outro o encarou por um momento, depois fechou os olhos num piscar lento e reptiliano, reabrindo-os para sorrir infeliz.
— Assim seja! — respondeu. — Não gosto de obrigar um portador da Staja Ame, contudo não vejo muita escolha. Será assim no meu coração, certo ou errado. — então, estranhamente, ele inclinou a cabeça de maneira quase respeitosa, fixando seus olhos luminosos nos de Simon. — Minha mãe me deu o nome de An’nai. — apresentou-se
Pego de surpresa, Simon deixou passar um longo momento até sentir a bota de Binabik raspando em seu dedo do pé.
— Oh! — exclamou. — Eu sou... Minha mãe me deu o nome de Simon... Seoman, na verdade. — então, vendo o sitha assentir, satisfeito, se apressou em acrescentar. — E estes são meus companheiros... Binabik de Yiqanuc, Haestan e Grimmric de Erkynlandia, e Sludig de Rimmersgardia.
“Talvez...” pensou Simon. “Já que o sitha parece dar tanta importância ao compartilhamento de seu nome, essa apresentação forçada ajudasse a proteger seus companheiros.”
An’nai tornou a acenar com a cabeça e deslizou para longe, posicionando-se mais uma vez perto da mesa de pedra. Seus companheiros guardas, depois de prestarem uma ajuda surpreendentemente gentil aos companheiros amarrados para que pudessem se sentar, dispersaram-se pela caverna.
Simon e os outros conversaram em voz baixa por um longo tempo, mais silenciados pela estranha música sinuosa do que pela situação em si.
— Bom... — disse Sludig por fim, depois de reclamar amargamente do tratamento que receberam. — Pelo menos estamos vivos. Poucos que encontram demônios têm tanta sorte.
— Você é inacreditável, Simon! — Haestan riu. — Quem imaginaria! Deixou o Povo Mágico se curvando e se humilhando. Vamos pedir um saco de ouro antes de irmos embora.
— Se curvando e se humilhando! — Simon sorriu com um autodepreciativo desgosto. — Estou livre? Estou desamarrado? Vou jantar?
— Verdade. — Haestan balançou a cabeça, impotente. — Um pouco de comida cairia bem. E uma jarra ou duas.
— Acho que não receberemos nada até Jiriki nos ver. — disse Binabik. — Mas se ele for mesmo a pessoa que Simon resgatou, talvez ainda possamos comer bem.
— Acha que ele é alguém importante? — perguntou Simon. — An’nai o chamou de ‘Lorde Jiriki’.
— Se não houver mais de um vivo com esse nome... — Binabik começou, porém foi interrompido pelo retorno de An’nai. Este estava acompanhado pelo próprio Jiriki, que segurava a Flecha Branca na mão.
— Por favor! — Jiriki chamou dois dos outros sitha. — Desamarrem-nos agora.
Jiriki se virou e disse algo rápido em sua língua fluida. As palavras musicais tinham, de alguma forma, um tom de repreensão. An’nai aceitou a admoestação de Jiriki sem expressão, se é que se podia chamar assim, apenas baixando os olhos.
Simon, que o observava com grande atenção, tinha certeza de que, tirando os efeitos de ter ficado pendurado em uma armadilha e os hematomas e cortes do ataque do lenhador, aquele era o mesmo sitha.
Jiriki acenou com a mão e An’nai se afastou. Devido aos seus movimentos confiantes e à deferência que aqueles ao seu redor demonstravam, Simon a princípio o considerou mais velho, ou pelo menos da mesma idade que os outros sitha. Agora, apesar da estranha atemporalidade de seus rostos dourados, Simon de repente sentiu que o Lorde Jiriki era, pelo menos para os padrões sitha, ainda jovem.
Enquanto os prisioneiros recém-libertados recuperavam a sensibilidade nos pulsos, Jiriki ergueu a flecha.
— Perdoem a demora. An’nai se enganou, pois sabe o quanto levo a sério o jogo de shent. — seus olhos se moveram dos companheiros para a flecha e vice-versa. — Nunca pensei que voltaríamos a nos encontrar, Seoman. — disse ele com o queixo inclinado como um pássaro e um sorriso que nunca chegou aos olhos. — Contudo uma dívida é uma dívida... E a Staja Ame é ainda mais que isso. Você mudou desde o nosso primeiro encontro. Naquela época, se parecia mais com um dos animais da floresta do que com seus parentes humanos. Parecia perdido, de muitas maneiras.
Seu olhar brilhava intensamente.
— Você também mudou. — disse Simon.
Uma sombra de dor cruzou o rosto anguloso de Jiriki.
— Passei três noites e dois dias pendurado naquela armadilha mortal. Logo teria morrido, mesmo que o lenhador não tivesse aparecido... De vergonha, quero dizer. — sua expressão mudou, como se tivesse escondido sua dor sob uma pálpebra. — Venham... — chamou. — Precisamos lhes dar comida. É uma pena, no entanto não podemos alimentá-los tão bem quanto eu gostaria. Trouxemos pouco conosco para nossa... — gesticulou ao redor da câmara enquanto procurava a palavra certa. — Cabana de caça.
Embora fosse muito mais fluente na língua westerling do que Simon jamais sonhara em seu primeiro encontro, ainda havia algo hesitante, embora preciso, em seu jeito que indicava o quão estranha aquela língua lhe era.
— Vocês estão aqui para... Caçar? — perguntou Simon enquanto eram conduzidos para se sentarem diante da lareira. — O que vocês caçam? As colinas parecem tão áridas agora.
— Ah, mas a caça que buscamos é mais abundante do que nunca. — disse Jiriki, passando por eles e caminhando em direção a uma fileira de objetos cobertos com um pano brilhante, dispostos ao longo de uma parede da caverna.
O ruivo de vestes verdes levantou-se da mesa de jogo, onde o lugar de Jiriki havia sido ocupado por An’nai, e falou em tons interrogativos e talvez raivosos, tudo em língua sitha.
— Apenas mostrando aos nossos visitantes os frutos da nossa caçada, tio Khendraja’aro. — disse Jiriki, jocoso, todavia Simon voltou a sentir que algo faltava no sorriso do sitha.
Jiriki agachou-se graciosamente ao lado da fileira de objetos cobertos, pousando como uma ave marinha. Com um floreio, puxou o sudário, revelando uma fileira de meia dúzia de cabeças grandes de cabelos brancos, com feições mortas congeladas em expressões de ódio feroz.
— Pelas Pedras de Chukku! — Binabik praguejou enquanto os outros ofegavam.
Simon levou um instante de choque para reconhecer os rostos de pele curtida pelo que eram.
— Gigantes! — conseguiu por fim dizer. — Hunën!
— Sim! — disse o Príncipe Jiriki, virando-se em seguida. Havia um lampejo de perigo em sua voz. — E vocês, mortais invasores... O que caçam nas colinas de meu pai?
***
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