Capítulo 18.5: Contos Extras
— Pode parecer indelicadeza da minha parte perguntar, mas essa coleira não está te sufocando, Nephy?
— Bem, no começo era doloroso, porém não machuca mais nada desde a segunda vez que a colocaram em mim... — Nephy assentiu para sua boa amiga Chastille, parecendo querer dizer que não era nada demais.
A coleira de Nephy era, originalmente, uma coleira de escrava. Contudo, como Nephy tinha um alto valor de mercado, sua coleira havia sido decorada como um belo adorno.
— Como exatamente o fato de tê-la removido uma vez mudou as coisas? — Chastille perguntou, olhando para a amiga com curiosidade.
— O Mestre Zagan alterou o seu formato para que as bordas não cavassem a minha pele. Graças a isso, não é mais algo desagradável.
Quando se conheceram, Nephy jamais imaginou que Zagan modificaria por conta própria sua coleira, por isso suas atitudes fizeram com que o objeto se tornasse um tesouro aos olhos dela.
— Que... Inesperado. Como posso dizer... Pensei que aquele homem fosse bem mais insensível do que você descreve.
— O Mestre Zagan apenas não sabe demonstrar bem suas emoções. Garanto a você que até sua feitiçaria é incrivelmente delicada. Depois que comecei a aprender feitiçaria, percebi com maior consciência o nível extraordinário que ele alcançou.
— Bem, é o Arquidemônio mais jovem da história.
Vale ressaltar que Chastille era uma das Cavaleiras Angelicais de mais alta patente da Igreja, instituição que estava em conflito aberto com os feiticeiros. Por outro lado, Nephy era discípula, empregada e membro da família de um Arquidemônio... Uma classe de seres que inclui os feiticeiros. Ainda assim, as duas eram boas amigas.
— Nesse caso, se aquele homem não tivesse seguido o caminho da feitiçaria, talvez tivesse acabado como algum tipo de artesão... — Chastille comentou, assentindo com um sorriso divertido.
— Não tenho tanta certeza disso. O Mestre Zagan adora ler, então acredito que existe a possibilidade de ele ter trabalhado como dramaturgo, romancista ou algo do gênero.
— Agora que mencionou, ouvi dizer que muitos escritores são excêntricos. Isso combinaria com ele.
— Isso não é meio indelicado? — Nephy soltou um suspiro enquanto contestava as palavras de Chastille. — Ainda assim, se o Mestre Zagan não tivesse se tornado um feiticeiro, nós nunca teríamos nos conhecido, certo?
— É, eu já estaria morta.
Além do mais, Nephy jamais teria recuperado a vontade de viver.
— No fim das contas, não consigo imaginar o Mestre Zagan sendo outra coisa senão um feiticeiro.
— Tem razão. Ser feiticeiro é, sem dúvida, o que mais combina com ele.
E assim, as duas jovens assentiram com sinceridade.
A Elfa e a Coleira
— O que é isto?
A elfa de pele escura, Nephteros, encarava seu mestre com um olhar de desprezo, como se este fosse lixo. Em resposta, o Arquidemônio Bifrons soltou uma risada, achando a pergunta dela estranha.
— É um presente. A elfa do Zagan parecia bem feliz usando uma coleira, não significa que vocês, elfos, gostam de usar uma no pescoço?
Seu mestre estendeu-lhe uma coleira de ferro fria. Estava decorado com lindos ornamentos, embora ainda fosse um objeto usado por um escravo.
— Aquilo é simplesmente uma questão do gosto da Nephelia, não meu.
— Vamos, não seja assim. Aqui, experimente.
O Arquidemônio forçou a coleira na mão de Nephteros, depois se virou e saiu. Mesmo quando ela gritou para detê-lo, Bifrons não se virou.
O que você está me dizendo para fazer com essa coisa...?
Se ela usasse uma coleira e alguém a puxasse, seria difícil respirar e machucaria o pescoço. Se uma corrente estivesse presa, também não seria capaz de resistir. E acima de tudo, era humilhante. No momento em que Nephteros estava prestes a jogar fora o objeto repulsivo que seu mestre lhe entregou, parou de repente.
Fico me perguntando, por que Nephelia usa esse tipo de coisa...?
Era difícil de entender, entretanto era verdade que a alta-elfa estava feliz por ter aquela coleira no pescoço.
Felicidade... Nephteros entendeu o significado daquela palavra, todavia não se lembrava de ter experimentado a emoção.
Nephteros olhou com nervosismo ao redor. Apenas Nephteros e seu mestre viviam neste lugar, e esse mestre tinha acabado de desaparecer em algum lugar. Ela achava impossível, mas talvez os elfos de fato sentissem alguma sensação de alívio ou euforia por terem uma coleira em volta do pescoço. Além de que, teria sido rude só jogar fora um presente de seu mestre, então apenas uma vez não deveria ser um problema.
Depois de voltar para seu quarto, Nephteros tentou colocar a coleira na frente de um espelho. Não sabia se combinava com ela ou se a estava deixando feliz. Porém, um sentimento bastante estimulante passou por ela.
— Que estúpido.
— Oh meu Deus, combina muito com você, não é?
Nephteros pulou ao ouvir a voz de seu mestre chamá-la de repente. Então, se apressou em se livrar da coleira.
— Oh querida, não há necessidade de ser tão tímida.
Isso é tudo culpa da Nephelia!
Foi assim que Nephteros teve que justificar a situação para proteger sua mente e alma.
Um Presente para o Pequeno Dragão
— Zagan, quero uma coleira como a da Nephy.
— Pff!
O chá preto escapou da boca de Zagan ao ouvir um comentário tão inesperado de sua filha. E enquanto usava feitiçaria para restaurar seu grimorio, agora molhado, ao seu estado original, Zagan se recompôs e perguntou mais.
— O que trouxe isso à tona?
— Nephy trata sua coleira com muito carinho. Ela diz que é seu tesouro. Também quero uma.
A coleira de Nephy era sem dúvida um tesouro aos seus olhos, contudo falando objetivamente era pouco mais que uma coleira de escravo. E então, Zagan hesitou em colocar uma no pescoço de sua filha. Coçando a cabeça, confuso em como lidar com a situação, foi quando se deu conta de que nunca havia dado um presente à filha.
— Não há necessidade de ser uma coleira, certo? O que é que você gostaria?
— Hm... Eu quero algo fofo.
Está me dizendo para procurar um objeto ainda mais fofo que você?
— Algo fofo... Hein? Ah, que tal isto?
Zagan ficou agoniado com o pedido terrivelmente irracional por um bom tempo. Por sorte, seu olhar errante parou quando avistou um dos livros em sua estante.
— O que é isso? Um livro ilustrado?
Zagan tirou da estante um livro ilustrado velho e gasto. Era algo que parecia totalmente deslocado dentro do castelo de um Arquidemônio. E, deixando isto de lado, estava muito desgastado para servir de presente. Ainda assim, por algum motivo, Zagan escolheu aquele livro em específico para ela.
— Foi com ele que aprendi a ler... — Zagan fora analfabeto durante grande parte de sua infância. Ele aprendeu a ler quando outro órfão lhe deu aquele livro ilustrado, por essa razão não conseguia se desfazer do livro. Zagan não era alguém que se orgulhasse de sua habilidade de ensinar, entretanto acreditava que aquele livro poderia ajudar sua filha.
Era questionável se uma jovem dragão se divertiria olhando um livro ilustrado humano, mas Foll pegou o livro mesmo assim, seus olhos brilhavam enquanto soltava um “ohhh” de admiração.
— V-Você gostou?
— Sim. As ilustrações são fofas.
— É...
Foll sentou-se no chão e começou a ler o livro, enquanto Zagan observava com um sorriso sem jeito.
— Há muito, muito tempo, existia um feiticeiro cruel. Ele dominava o vilarejo vizinho e...
Já era um pouco tarde, porém Zagan percebeu que talvez tivesse escolhido o presente errado. E, embora tivesse dúvidas, a voz de sua filha estava tão alegre que decidiu não se preocupar.
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