Capítulo 05: A Casa do Homem Cantor
Simon bateu com a mão na parede de pedra fria da caverna e sentiu uma estranha satisfação com a dor.
— Sangue de Jesuris! — praguejou. — Sangue de Jesuris, sangue de Jesuris na Árvore! — ergueu o braço para golpear a parede outra vez, mas, em vez disso, deixou-o cair ao lado do corpo e arranhou com raiva a perna de suas calças com as unhas.
— Acalme-se, rapaz. — disse Haestan. — Não havia nada que pudéssemos fazer.
— Não vou deixar que o matem! — ele se voltou para Haestan, suplicante. — E Geloë disse que temos de ir para a Rocha da Despedida. Sequer sei onde fica!
Haestan balançou a cabeça, desanimado.
— Seja lá o que for essa pedra... Não tenho entendido você direito desde que caiu e bateu a cabeça hoje à tarde. Você tem falado coisas de louco. Porém quanto ao gnomo e ao rimmerio... O que podemos fazer?
— Não sei! — disparou Simon. Sua mão dolorida se estendeu para se apoiar na parede. O vento noturno uivava lá fora, além da cortina de couro da entrada. — Libertá-los! — disse, por fim. — Libertar os dois... Binabik e Sludig.
As lágrimas que sentia que estava segurando haviam desaparecido. De repente, sentiu-se com a mente fria e cheio de força.
Haestan começou a responder, contudo se conteve. Olhou para os punhos trêmulos do jovem e para a cicatriz lívida que lhe marcava a bochecha.
— Como, então? — perguntou em voz baixa. — Dois contra uma montanha?
Simon encarou-o com fúria.
— Tem de haver um jeito!
— A única corda que tínhamos estava na bolsa de Binabik. Eles estão lá embaixo, num buraco profundo, rapaz. Com guardas em volta.
Após um longo momento, Simon virou-se e deslizou até sentar-se no chão da caverna, afastando o tapete de pele de carneiro para ficar o mais próximo possível da rocha implacável.
— Não podemos só deixá-los morrer, Haestan. Não podemos. Binabik disse que o seu povo os jogaria dos penhascos. Como podem ser tão... Tão demoníacos?
Haestan agachou-se e cutucou as brasas com a faca.
— Não entendo nada de pagãos e gente dessa laia. — disse o guarda barbudo. — É um povo traiçoeiro. Por que prenderiam os nossos e nos deixariam livres... E ainda por cima com nossas armas?
— Porque não temos corda. — disse Simon com amargura, e estremeceu. Enfim começava a sentir o frio. — Além do mais, mesmo que matássemos os guardas, de que adiantaria? Eles nos jogariam montanha abaixo também, e ninguém levaria Espinho de volta para Josua. — refletiu. — Talvez pudéssemos roubar um pouco de corda?
Haestan pareceu cético.
— Na escuridão, num lugar estranho? O mais provável é que apenas acordássemos os guardas e levássemos uma lançada.
— Maldição! Temos de fazer alguma coisa, Haestan! Somos covardes? Não podemos ficar de braços cruzados. — um vento cortante penetrou pela cortina da entrada. Simon abraçou o próprio peito com força. — No mínimo, vou arrancar a cabeça podre daquele Pastor. Depois eles podem me matar também, e não vou me importar.
O guarda sorriu com tristeza.
— Ah, rapaz, está falando besteira. Você mesmo disse que alguém precisa levar aquela espada negra ao Príncipe Josua. — o guarda apontou para Espinho, embrulhada em pano, junto à parede da caverna. — Se a espada não for levada ao Príncipe, Ethelbearn e Grimmric terão morrido em vão. Seria uma pena terrível. Muitas esperanças, por mais tênues que sejam, repousam sobre aquela lâmina. — Haestan riu baixinho. — Além de que, rapaz, acha que eles poupariam um de nós se o outro matasse o seu Rei? Vai acabar fazendo com que me matem também. — Haestan cutucou o fogo outra vez. — Não, não, você ainda é inexperiente e não entende o mundo. Não esteve na guerra, rapaz, como eu... Não viu o que eu vi. Por acaso não vi dois dos meus companheiros morrerem desde que deixamos Naglimund? O Bom Deus reserva Sua justiça e coisas do gênero para o Dia do Julgamento. Até lá, temos de cuidar de nós mesmos. — seu corpo se inclinou para a frente, empolgando-se com o assunto. — Cada um deve fazer o melhor que pode, todavia nem sempre as coisas podem ser consertadas, Simon...
Sua voz de deteve de repente, fixando o olhar na entrada. Ao ver a expressão de surpresa no rosto redondo do soldado, Simon virou-se também. Uma figura havia passado pela cortina de couro.
— A garota gnoma. — sussurrou Haestan, como se temesse assustá-la e fazê-la fugir como um filhote de cervo.
Os olhos de Sisqinanamook estavam arregalados de apreensão, mas Simon também viu determinação na firmeza de seu maxilar. Pensou que parecia mais pronta para lutar do que para fugir.
— Veio para zombar de nós? — perguntou, irritado.
Sisqinanamook sustentou o seu olhar com firmeza.
— Ajude-me! — disse a gnoma, por fim.
— Elysia, Mãe de Deus! — ofegou Haestan. — Ela sabe falar nossa língua!
A jovem recuou diante da exclamação do guarda, porém manteve sua posição. Simon ergueu-se sobre os joelhos diante da pequena. Mesmo ajoelhado, ainda era mais alto do que a antiga noiva de Binabik.
— Você fala a nossa língua?
Sisqinanamook o encarou por um momento, como se estivesse confusa, e então fez um gesto com os dedos cruzados.
— Pouco. — respondeu. — Pouco falar. Binabik ensinar.
— Deveria ter imaginado. — disse Simon. — Binabik tenta enfiar coisas na minha cabeça desde que o conheço.
Haestan bufou. Simon fez um gesto para que Sisqinanamook entrasse. A gnoma deslizou para longe da cortina da entrada, agachando-se perto da abertura da caverna com as costas apoiadas na parede. Uma serpente da neve, esculpida em relevo na pedra, enrolava-se em torno de sua cabeça como a auréola de um santo.
— Por que deveríamos ajudá-la? — perguntou Simon. — E ajudar você a fazer o quê?
Ela o encarou sem entender. Simon repetiu, mais devagar.
— Ajudar Binbiniqegabenik. — respondeu, por fim. — Ajudar-me, ajudar Binabik.
— Ajudar Binabik? — Haestan sibilou, surpreso. — Ora, foi você quem o meteu nessa enrascada!
— Como? — perguntou Simon. — Ajudar Binabik como?
— Vão embora. — respondeu Sisqinanamook. — Binabik vai embora de Mintahoq. — sua mão se moveu por baixo de sua grossa jaqueta de couro. Por um momento, Simon temeu algum tipo de truque... Será que havia entendido o suficiente da conversa para saber que planejavam um resgate? Contudo quando sua mão pequena reapareceu, trazia um rolo de corda fina e cinzenta. — Ajudar Binabik. — repetiu ela. — Você ajuda, eu ajudo.
— Misericordioso Aedon! — disse Simon.
***
Rapidamente, reuniram todos os seus pertences, jogando-os em duas bolsas sem muita preocupação com a organização. Quando terminaram e vestiram suas capas forradas de pele, Simon foi até o canto do quarto onde repousava Espinho, a espada negra... O objeto, como Haestan dissera, de muitas esperanças, infrutíferas ou não. À luz fraca da fogueira, ela não passava de um vazio em forma de espada no meio das peles que a acolhiam. Simon pressionou a superfície fria com os dedos, lembrando-se da sensação de quando a erguera diante da investida de Igjarjuk. Por um momento, pareceu que se aquecia sob sua mão.
Alguém tocou seu ombro.
— Não, não matar. — disse Sisqinanamook apontando para a espada, franzindo a testa, e depois puxou gentilmente o seu braço. Simon envolveu com a mão o punho de Espinho, revestido de corda, e tentou levantá-la. Era pesada demais para ser erguida com um braço só. Enquanto se punha de pé com esforço, voltou-se para a jovem gnoma.
— Não vou levá-la para matar ninguém. É por isso que fomos à montanha do dragão. Nada de matar.
Ela o encarou e depois assentiu.
— Deixe que eu a carregue, rapaz. — disse Haestan. — Estou descansado.
Simon conteve uma resposta mal-humorada e deixou que o erkyno pegasse a espada. Não parecia mais leve nas mãos do guarda robusto, no entanto também não parecia mais pesada. Haestan passou o braço por cima da cabeça e, com cuidado, deslizou a longa lâmina negra de Espinho por duas alças grossas na parte de trás de sua bolsa.
“Não é a minha espada.” Simon lembrou a si mesmo. “Eu já sabia disso. E Haestan tem o direito de levá-la... Estou fraco demais.” sentiu seus pensamentos divagarem. “Ela não pertence a ninguém. Um dia pertenceu a Sir Camaris, mas este está morto. Parece quase ter um espírito próprio...”
Bem, se Espinho quisesse sair daquela montanha maldita, teria de descer com eles.
Apagaram a fogueira e saíram em silêncio, passando pela aba da porta. O ar frio da noite fez a cabeça de Simon latejar. Ele parou na entrada.
— Haestan. — sussurrou. — Você precisa me prometer uma coisa.
— O que é, rapaz?
— Não me sinto muito... Forte. Vai ser uma longa caminhada até onde quer que estejamos indo. E na neve, ainda por cima. Então, se algo acontecer comigo... — o rapaz hesitou por um momento. — Se algo acontecer comigo, por favor, me enterre em algum lugar quente. — seu corpo estremeceu. — Estou cansado de sentir frio.
Por um instante, Simon teve a ideia embaraçosa de que Haestan poderia chorar. O rosto barbudo do guarda contraiu-se numa careta estranha enquanto se inclinava para observá-lo mais de perto. Um momento depois, abriu um sorriso... Embora parecesse um tanto forçado, e envolveu os ombros trêmulos de Simon com um de seus braços enormes, como o de um urso.
— Calma lá, rapaz, não é jeito de falar. — sussurrou. — Vai ser uma marcha longa, e fria também, isso é certo... Entretanto não tão ruim quanto está pensando. Todos nós vamos conseguir.
Haestan lançou um olhar furtivo para Sisqinanamook, que os observava com impaciência da plataforma do lado de fora da caverna.
— Jiriki nos deixou cavalos. — sibilou no ouvido de Simon. — Lá embaixo na montanha, numa caverna que servia de estábulo. Disse-me onde. Então não tema, rapaz, não tema. Se ao menos soubéssemos para onde estamos indo... Ora, já estaríamos na metade do caminho!
Eles saíram para a trilha de pedra, apertando os olhos contra um vento feroz que raspava a face de Mintahoq como uma navalha. A neblina havia se dissipado. Uma lasca de lua amarela, fina como um olho de gato, brilhava sobre a montanha e o vale coberto de sombras. Cambaleando sob o peso de suas cargas, se voltaram para seguir a única sombra pequena que era Sisqinanamook.
Foi uma jornada longa e silenciosa ao redor da encosta de Mintahoq, avançando aos tropeços em meio às rajadas de vento. Após algumas centenas de passos, Simon já sentia seus movimentos ficarem mais lentos. Como conseguiria descer a montanha inteira? E por que não conseguia se livrar daquela fraqueza maldita? Por fim, a donzela gnoma fez um gesto para que parassem e os conduziu a uma fenda, saindo da trilha e voltando para as sombras. O espaço era apertado devido às suas bolsas volumosas, todavia, com a ajuda das mãos pequenas de Sisqinanamook, conseguiram deslizar para dentro. Um instante depois, ela havia desaparecido. Os dois permaneceram ali, imobilizados, observando a própria respiração preencher a entrada da fenda e cintilar ao luar.
— O que será que ela está tramando? — sussurrou Haestan, por fim.
— Não sei. — Simon estava feliz apenas por poder se apoiar na pedra. Protegido do vento, de repente sentiu o rosto quente e uma leve tontura. A Flecha Branca que Jiriki lhe dera pressionava suas costas através do tecido grosso da bolsa.
— Caímos numa armadilha, não há dúvida... — começou Haestan, porém o som de vozes na trilha o calou. À medida que as vozes se aproximavam, Simon prendeu a respiração.
Um trio de gnomos descia pesadamente pela trilha, passando pela fenda, arrastavam as pontas de suas lanças afiadas descuidadamente pela pedra enquanto conversavam em sua língua grave e resmungona. Os três carregavam escudos feitos de couro esticado. Um deles trazia um chifre de carneiro pendurado no cinto. Simon não tinha dúvidas de que um chamado daquele instrumento faria gnomos bem armados saírem aos borbotões das cavernas ao redor, como formigas de um formigueiro agitado.
O portador do chifre disse algo, e o grupo parou logo antes do esconderijo. Simon esforçou-se para não respirar e sentiu a cabeça girar. Um instante depois, os gnomos caíram numa risada contida ao final da história e prosseguiram a marcha, contornando a encosta da montanha. Em pouco tempo, sua conversa havia desaparecido na distância.
Simon e Haestan esperaram bastante antes de espiar pela abertura na rocha. A trilha, banhada pelo luar, estendia-se vazia para ambos os lados. Haestan esgueirou-se para fora da entrada estreita e depois ajudou Simon a sair.
***
A lua havia passado da boca do fosso, mergulhando os prisioneiros outra vez numa escuridão quase total. Sludig respirava calmamente, contudo não dormia. Binabik estava deitado de costas, com as pernas curtas esticadas, observando as estrelas que giravam no céu enquanto o vento soprava ruidoso pela abertura de sua prisão.
Uma cabeça surgiu na borda do fosso. Um instante depois, uma corda enrolada desceu sibilando do alto e bateu contra a pedra. Binabik enrijeceu-se, embora não se moveu, fixando o olhar na silhueta sombria lá no alto.
— O quê? — rosnou Sludig na escuridão. — Será que não esperam nem o amanhecer neste lugar bárbaro? Têm de nos matar à meia-noite para esconder o ato do sol? Mesmo assim, Deus saberá. — ele estendeu a mão e deu um puxão na corda. — Por que deveríamos subir? Vamos ficar sentados aqui. Talvez enviem alguns guardas para nos buscar. — o rimmerio soltou uma risada desagradável. — Então eu quebrarei alguns pescoços. No mínimo, terão de nos atravessar com lanças no nosso buraco, como ursos.
— Pelos Olhos de Qinkipa! — uma voz sibilou na língua dos gnomos. Binabik endireitou-se. — Agarre a corda, seu tolo!
— Sisqi? — Binabik ofegou. — O que está fazendo?
— Algo que jamais me perdoarei por fazer, assim como não me perdoaria se deixasse de fazer. Agora, fique em silêncio e suba!
Binabik puxou a corda com cautela.
— Como você consegue segurá-la? Não há onde amarrá-la e a borda está escorregadia.
— Com quem está falando? — perguntou Sludig, desconcertado com a fala em qanuc.
— Trouxe aliados! — explicou Sisqinanamook em voz baixa. — Suba! Os guardas voltarão quando Sedda tocar o pico de Sikkihoq!
Binabik, após uma breve explicação, fez Sludig subir pela corda. O rimmerio, enfraquecido pelo encarceramento, fez o caminho lento até o topo e desapareceu pela borda na escuridão, entretanto Binabik não o seguiu.
Sisqi apareceu mais uma vez na borda.
— Depressa, antes que eu me arrependa da minha estupidez! Suba!
— Não posso. Não vou fugir da justiça do meu povo. — Binabik sentou-se.
— Será que enlouqueceu? O que quer dizer com isso? Os guardas voltarão muito em breve! — Sisqi não conseguiu esconder o medo na voz. — Vai levar seus amigos das terras baixas à morte com essa tolice.
— Não, Sisqi, leve-os. Ajude-os a escapar. Você terá minha gratidão. Já a tem.
Ela saltitava, tremendo de ansiedade.
— Ah, Binabik, você é uma maldição para mim! Primeiro me humilha diante do nosso povo, agora fala loucuras do fundo de um buraco! Saia! Saia!
— Não vou quebrar outro juramento.
Sisqinanamook olhou para a lua.
— Qinkipa das Neve que me salve. Binbiniqegabenik, por que é tão teimoso? Está disposto a morrer para provar que tem razão?
Para a surpresa de todos, Binabik começou a rir.
— Você salvaria minha vida só para provar que estou errado?
Mais duas cabeças surgiram na borda do buraco.
— Droga, gnomo! — rosnou Sludig. — Por que está demorando? Está ferido? — o rimmerio ajoelhou-se, como se fosse descer de volta pela corda.
— Não! — gritou Binabik na língua dos ocidentais. — Não fiquem me esperando. Sisqinanamook pode levá-los a um lugar seguro, de onde poderão começar a descida da montanha. Poderão estar além das fronteiras de Yiqanuc antes do nascer do sol.
— O que o mantém aí? — perguntou Sludig, espantado.
— Fui condenado pelo meu povo. — disse Binabik. — Quebrei meu juramento. Não vou quebrá-lo uma segunda vez.
Sludig resmungou, confuso e irritado.
A figura escura ao seu lado inclinou-se para a frente.
— Binabik... — disse a figura. — Sou eu, Simon. Temos de ir. Temos de encontrar a Rocha da Despedida. Geloë disse para o fazermos. Temos de levar Espinho até lá.
O gnomo tornou a rir, todavia com um som vazio.
— E sem mim, nada de partida, nada de Rocha da Despedida?
— Sim! — o desespero de Simon era evidente. O tempo estava acabando. — Não sabemos onde fica! Geloë disse que você deve nos levar lá! Naglimund caiu. Podemos ser a única esperança de Josua... E a única esperança do seu povo!
Binabik permaneceu em silêncio no fundo do poço, pensativo. Por fim, estendeu a mão para agarrar a corda pendente e começou a subir pela parede íngreme. Ao chegar ao topo, cambaleou e caiu no abraço vigoroso de Simon. Sludig deu um tapa no ombro do homenzinho... Um gesto de camaradagem que quase derrubou Binabik de volta para o fosso. Haestan observava por perto, com a respiração formando nuvens de vapor em sua barba e as mãos grossas enrolando apressadamente a corda que vinha de baixo.
Binabik afastou-se de Simon.
— Você não parece nada bem, amigo. Seus ferimentos estão lhe causando sofrimento. — ele suspirou. — Ah, isso é cruel. Não posso deixá-lo à mercê do meu povo, mas também não quero quebrar outro juramento. Não sei o que fazer. — seu olhar se voltou para a quarta figura. — Então... — disse na língua dos gnomos. — Agora me resgatou... Ou, pelo menos, aos meus companheiros. Por que mudou de ideia?
Sisqinanamook o observava, com os braços cruzados firmes sobre o corpo.
— Não tenho certeza se mudei. — respondeu. — Ouvi o que aquele estranho com a mecha branca disse. — ela apontou para Simon, que assistia a tudo em silêncio atônito. — Soava como a verdade, quero dizer, acreditei que realmente havia algo que você considerava mais importante até mesmo do que o nosso compromisso. — seus olhos o encararam com severidade. — Não sou uma tola apaixonada disposta a perdoar qualquer coisa, porém também não sou um demônio vingativo. Está livre. Agora vá.
Binabik moveu-se inquieto.
— Aquilo que me manteve longe de você... — disse o homenzinho. — Não é importante apenas para mim, e sim para todos. Um perigo terrível se aproxima. Há pouca esperança de resistência, no entanto mesmo essa esperança precisa ser cultivada. — seus olhos se fixaram no solo por um momento, depois os ergueu e sustentou o olhar dela com firmeza. — Meu amor por você é tão forte quanto a ossatura rochosa da montanha. É assim desde que a vi pela primeira vez em sua Jornada para a Vida Adulta, linda e graciosa como uma lontra-das-neves sob as estrelas do Monte Chugik. Entretanto, mesmo por esse amor, não posso ficar de braços cruzados e ver o mundo inteiro assolado por um inverno negro sem fim. — sua mão segurou o braço dela, protegido pela jaqueta. — Agora me diga, o que vai fazer, Sisqi? Foi sua ordem que dispensou os guardas e, então, os prisioneiros escaparam. É como se tivesse gravado sua própria runa de nome na neve.
— Isso diz respeito apenas a mim, ao meu pai e à minha mãe... — respondeu, irritada, livrando-se do seu aperto. — Fiz o que queria. Já está livre. Por que desperdiça essa liberdade tentando me convencer de sua inocência? Por que joga Chugik na minha cara? Vá!
Sludig não falava o idioma, todavia compreendeu os gestos de Sisqi.
— Se ela quer que partamos, Binabik, então tem razão! Aedon! Precisamos ser rápidos.
Binabik fez um gesto com a mão.
— Vão, logo alcançarei vocês.
Seus amigos não se moveram enquanto ele se voltava outra vez para aquela que um dia fora sua prometida.
— Eu ficarei! — respondeu. — Sludig é inocente, e foi uma grande bondade você tê-lo ajudado, mas ficarei e honrarei a vontade do meu povo. Já fiz a minha parte na luta contra o Rei da Tormenta... — seu olhar se dirigiu para o oeste, onde a lua havia entrado em uma massa de nuvens escuras como tinta. — E outros podem carregar meu fardo agora. Venha, vamos nós dois atrair os guardas para uma perseguição, para que meus amigos possam escapar.
Um olhar de medo animou o rosto redondo de Sisqi.
— Maldito seja, Binbiniqegabenik, vá de uma maldita vez! Não quero vê-lo morto!
Lágrimas de raiva surgiram em seus olhos.
— Pronto, está satisfeito? Ainda sinto algo por você, embora tenha despedaçado meu coração!
Binabik deu um passo em direção a ela e segurou seus braços, puxando-a para perto.
— Então venha comigo! — disse, a voz subitamente cheia de uma possibilidade ousada. — Não voltarei a me separar de você. Fuja e venha comigo, que meu juramento seja quebrado e amaldiçoado! Poderá ver o mundo, mesmo nestes dias sombrios, há coisas além de nossas montanhas que a deixariam maravilhada!
Sisqi se afastou, virando as costas. Parecia estar chorando.
Após um longo momento, Binabik voltou-se para os outros.
— Seja o que for que aconteça... — disse na língua westerling, o rosto iluminado por um sorriso estranho e instável. — Ficar ou ir, fugir ou lutar... É para a caverna do meu mestre que devemos ir primeiro.
— Por quê? — perguntou Simon.
— Não temos meus ossos de adivinhação nem outras coisas. Talvez tenham sido jogados na caverna que eu dividia com Ookequk, meu mestre, já que meu povo não ousaria destruir coisas que pertenciam ao Homem Cantor. Porém, o que é ainda mais importante, a menos que eu consulte os pergaminhos, haverá pouca chance de eu encontrar a sua Rocha da Despedida.
— Então ande logo, gnomo. — rosnou Haestan. — Não sei como sua amiga atraiu os guardas para longe, contudo sem dúvida eles voltarão.
— Tem razão. — Binabik fez um sinal para Simon. — Venha, amigo Simon, precisamos correr. Essa, ao que parece, é a natureza da nossa companhia. — ele fez um gesto para a donzela gnoma. Ela veio sem dizer nada, liderando o caminho pela trilha.
***
O grupo seguiu a trilha principal de volta, no entanto, após apenas algumas dezenas de côvados, Sisqi saiu de repente do caminho, levando-os para uma trilha tão estreita que teria sido difícil vê-la mesmo à luz do dia... Uma passagem estreita que atravessava a encosta larga de Mintahoq em um ângulo íngreme de subida. Não passava de uma fenda entre as rochas e, embora houvesse muitos pontos de apoio para as mãos, o avanço era lento na escuridão quase total. A canela de Simon, protegida pela bota, batia com força em muitas pedras.
A trilha subia, cruzando o trajeto de mais duas espirais da trilha principal, e depois mudava bruscamente de direção, continuando a ascensão. A pálida Sedda deslizava pelo céu em direção à massa escura de uma das montanhas vizinhas de Mintahoq, fazendo Simon se perguntar como conseguiriam enxergar quando a lua desaparecesse de vez. Ele escorregou, agitando os braços até recuperar o equilíbrio, e lembrou-se em seguida de que todos estavam subindo por uma trilha estreita na encosta de uma montanha muito escura. Aferrando-se a um ponto de apoio, Simon parou e fechou os olhos, mergulhando em uma escuridão absoluta enquanto ouvia a respiração ofegante de Haestan logo atrás. Ainda sentia a fraqueza que o afligira durante toda a travessia de Yiqanuc. Seria bom deitar e dormir, entretanto era uma esperança vã. Após um momento, fez o sinal da Árvore e recomeçou a caminhar.
Por fim, chegaram a um terreno plano, uma espécie de patamar diante de uma pequena caverna situada no fundo de uma fenda profunda na encosta da montanha. Simon achou que havia algo familiar na luz do luar e nas formas das pedras. No exato momento em que percebeu que Qantaqa o havia guiado certa vez, através da escuridão, até aquele mesmo lugar, uma forma cinza-esbranquiçada saltou da entrada da caverna.
— Sosa, Qantaqa!
Binabik chamou baixinho, um segundo depois, foi derrubado por uma avalanche de pelos. Seus companheiros permaneceram ali, sem jeito por um momento, enquanto o gnomo era lambido pela língua fumegante da loba.
— Muqang, amiga! — ofegou o homenzinho por fim. — Já chega! Tenho certeza de que você guardou bravamente a casa de Ookequk. — ele se levantou com dificuldade enquanto Qantaqa recuava, o corpo todo tremendo de alegria. — Corro mais perigo com as saudações dos amigos do que com as lanças dos inimigos. — disse Binabik, sorrindo. — Precisamos nos apressar para a caverna. Sedda está avançando para o oeste.
Ele entrou de pé, com Sisqi logo atrás. Simon e os outros tiveram de se curvar para passar pela entrada baixa. Qantaqa, decidida a não ficar do lado de fora, passou correndo de forma abrupta por entre as pernas de Simon e Haestan, quase derrubando-os.
Ficaram parados por um momento numa escuridão densa, impregnada pelo cheiro almiscarado de Qantaqa e por uma infinidade de outros odores mais estranhos. Binabik fez faíscas com uma pedra de sílex até que uma pequena chama amarela surgiu e esta foi transferida para a ponta de uma tocha embebida em óleo, onde expandiu.
A caverna do Homem Cantor era um lugar singular. Em contraste com a entrada baixa, o teto curvo erguia-se bem alto, perdendo-se em sombras que a tocha não conseguia dissipar. Semelhantes a uma colmeia, as paredes estavam repletas de milhares de nichos que pareciam ter sido escavados na própria rocha da caverna. Cada nicho abrigava algo. Um continha apenas os restos secos de uma pequena flor, outros estavam abarrotados de gravetos, ossos e potes tampados. Todavia a maioria estava cheia de peles enroladas... Muitas tão abarrotadas que alguns rolos pendiam para fora do nicho, como mãos de mendigos em súplica.
A estadia de uma semana de Qantaqa deixara marcas. No meio do chão, perto da ampla fogueira, restavam vestígios do que um dia fora uma complexa imagem circular, feita de pequenas pedras coloridas. A loba aparentemente a usara para coçar as costas, pois o desenho exibia marcas claras de que alguém havia rolado sobre ele. Restavam apenas parte da borda decorada com runas e a extremidade de um objeto branco, situado sob um céu repleto de estrelas vermelhas em espiral.
Inúmeros outros objetos também mostravam sinais da atenção de Qantaqa. Ela havia arrastado uma grande pilha de mantos para o canto mais afastado da caverna e ajeitado as peças até formar uma toca adequada para uma loba. Ao lado dessa cama, jaziam vários itens muito mastigados, incluindo restos de algumas das peles enroladas, cujos fragmentos estavam cobertos de inscrições desconhecidas para Simon, e o bastão de caminhada de Binabik.
— Eu preferiria que tivesse encontrado outra coisa para roer, Qantaqa. — disse o gnomo, franzindo a testa ao pegá-lo. A loba inclinou a cabeça para o lado e gemeu inquietamente. Depois, caminhou até Sisqi, que examinava alguns dos nichos e, distraída, afastou a cabeça grande do animal. Qantaqa deitou-se pesadamente no chão e começou a se coçar, desconsolada. Binabik ergueu seu bastão contra a luz da tocha. As marcas de dentes não eram profundas.
— Mastigou mais pelo conforto do meu cheiro do que por qualquer outra coisa. — o gnomo sorriu. — Por sorte.
— O que você procura? — perguntou Sludig com urgência. — Precisamos ir enquanto a escuridão ainda dura.
— Sim, tem razão. — disse Binabik, encaixando o bastão sob o cinto. — Venha, Simon, ajude-me a fazer uma busca rápida.
Com a ajuda de Haestan e Sludig, Simon retirou pergaminhos dos nichos que o próprio Binabik não alcançava. Eram feitos de couro batido fino, tão impregnados de gordura que pareciam viscosos ao toque, as runas que os cobriam haviam sido gravadas direto no couro, como se por um ferro em brasa. Simon entregava um por um a Binabik, que fazia uma rápida inspeção em cada um antes de lançá-lo sobre uma das várias pilhas que cresciam no chão.
Olhando em volta para aquela imensa colmeia de pedra e para todos os pergaminhos, Simon maravilhava-se com a tarefa árdua que deve ter sido criar tal biblioteca... E era exatamente isso, percebeu, tanto quanto o arquivo do Padre Strangyeard em Naglimund ou a oficina de Morgenes repleta de volumes pesados, embora aqueles livros fossem rolos de couro, escritos com fogo em vez de tinta.
Por fim, Binabik reuniu uma pilha de cerca de doze pergaminhos que pareciam interessá-lo. Ele os estendeu e enrolou-os juntos em um fardo pesado, depois colocou tudo dentro de seu saco, que encontrara perto da entrada da caverna.
— Podemos ir agora? — perguntou Sludig. Haestan esfregava as mãos, tentando aquecê-las, ele havia tirado as luvas desajeitadas para ajudar com os pergaminhos.
— Assim que devolvermos estes aos buracos. — o gnomo apontou para a grande pilha de couros descartados.
— Será que enlouqueceu? — disse Haestan, exaltado. — Por que desperdiçar um tempo precioso fazendo isso?
— Porque são coisas raras e valiosas. — disse Binabik com calma. — E, se as deixarmos aqui no chão frio, logo estarão arruinadas. ‘Quem não recolhe o rebanho à noite oferece carne de carneiro de graça’... É o que nós, qanuc, dizemos. Levará apenas um instante.
— Pelo Sangue da Árvore! — praguejou Haestan. — Ajude-me aqui, Simon... — resmungou o guarda, abaixando-se junto à pilha. — Senão, ficaremos aqui até o amanhecer.
Binabik orientou Simon a preencher alguns dos nichos vazios na parte superior. Sludig observou com impaciência por um momento antes de se juntar à tarefa. Sisqi estivera vasculhando em silêncio as reentrâncias até reunir sua própria pilha de peles enroladas, que enrolou e enfiou sob sua jaqueta de couro, todavia, de repente, virou-se e chamou por eles, falando rapidamente em qanuc. Binabik afastou um amontoado de peles emaranhadas para ficar ao seu lado.
Ela estendeu um rolo amarrado com uma tira de couro preto. O cordão não envolvia apenas o meio do rolo de pele, como também ambas as extremidades. Binabik pegou-o das mãos da gnoma, tocando a testa com dois dedos num gesto que parecia de reverência.
— Este é o nó de Ookequk. — disse baixinho a Simon. — Não há dúvida quanto a isso.
— Esta também é a caverna de Ookequk, não é? — disse Simon, intrigado. — Por que um nó seria tão surpreendente?
— Porque esse nó indica que se trata de algo importante. — explicou Binabik. — É também algo que nunca vi antes... Algo que fora oculto de mim, ou que meu mestre estava preparando pouco antes de partirmos para a jornada em que morreu. E esse nó, imagino eu, era usado apenas para coisas de grande poder... Mensagens e feitiços destinados apenas a certos olhos.
Seus olhos deslizaram outra vez sobre o nó, com a testa franzida em reflexão. Sisqi fitava o rolo com os olhos brilhantes.
— Bom, essa é a última dessas malditas coisas. — disse Haestan. — Se é isto que você quer, homenzinho, leve-o consigo. Não temos mais tempo a perder.
Binabik hesitou por um momento, acariciando o nó com delicadeza enquanto olhava mais uma vez ao redor da caverna. Depois, deslizou o pergaminho com o nó para dentro da manga.
— É hora de ir. — concordou, fazendo um gesto para que os outros seguissem em direção à entrada da caverna à sua frente e apagou a tocha numa reentrância do piso de pedra enquanto os acompanhava para fora.
Os demais companheiros do gnomo haviam parado e se aglomerado diante da caverna, como um rebanho de ovelhas açoitadas pelo vento. Sedda, a lua, por fim desaparecera no oeste, atrás de Sikkihoq, mas a noite estava subitamente repleta de luz.
Um grande grupo de gnomos avançava em sua direção. Com rostos sombrios sob os capuzes e lanças e tochas nas mãos, eles haviam se espalhado ao redor da caverna de Ookequk e agora bloqueavam o caminho de ambos os lados. Mesmo em grande número, os gnomos moviam-se em tal silêncio que Simon conseguia ouvir o sibilar das tochas em brasa antes que o som de qualquer passo chegasse aos seus ouvidos.
— Pedras de Chukku! — disse Binabik com um tom sombrio. Sisqi recuou para segurar o braço dele, seus olhos estavam arregalados à luz das tochas, e a boca, contraída numa linha severa.
***
Uammannaq, o Pastor, e Nunuuika, a Caçadora, conduziram seus carneiros à frente. Ambos vestiam túnicas com cintos e botas. Seus cabelos negros estavam soltos, como se tivessem se vestido às pressas. Enquanto Binabik avançava para encontrá-los, gnomos armados aproximaram-se pelas suas costas, cercando seus companheiros numa barreira de lanças. Sisqinanamook saiu do círculo para acompanhá-lo, permanecendo ao seu lado com o queixo erguido em desafio. Uammannaq evitou o olhar da filha, fixando-o, em vez disso, em Binabik.
— Então, Binbiniqegabenik... — disse ele. — Você não vai ficar e enfrentar a justiça do seu povo? Eu esperava mais de você, por mais humilde que fosse a sua origem.
— Meus amigos são inocentes. — respondeu Binabik. — Manterei sua filha como refém até que o rimmerio Sludig esteja em segurança com os outros.
Nunuuika avançou com sua montaria até ficar lado a lado com a de seu marido.
— Por favor, reconheça que temos alguma sabedoria, Binabik, embora nenhum de nós seja tão astuto quanto o seu mestre. Quem dispensou os guardas? — seu olhar se voltou para baixo, para Sisqi. O rosto da Caçadora estava impassível, porém revelava um traço de orgulho severo. — Filha, achei que fosse tola quando decidiu se casar com esse aprendiz de mago. Agora... Bem, direi pelo menos que é uma tola leal. — ela se voltou para Binabik. — Só porque você enfeitiçou minha filha novamente, não pense que escapará da sua sentença. A Casa de Gelo não derreteu. O inverno matou a primavera. O Rito do Despertar não foi realizado... E, em vez disso, você retorna a nós com histórias infantis. Agora está de volta, tramando artimanhas diabólicas na caverna do seu mestre, aquela que sua loba de estimação guardou.
Nunuuika estava tomada por uma fúria crescente.
— Seu julgamento foi decidido, quebrador de juramentos. Irá para os penhascos de gelo do Abismo de Ogohak e será jogado lá de cima!
— Filha, volte para a nossa casa. — rosnou Uammannaq. — O errou que cometeu foi grave!
— Não! — o grito de Sisqi causou um alvoroço entre os gnomos que observavam. — Ouvi meu coração, sim, contudo também ouvi a sabedoria que adquiri. A loba nos manteve afastados da casa de Ookequk, no entanto não foi em benefício de Binbiniqegabenik.
Ela tirou das mangas de Binabik o pergaminho amarrado com uma tira de couro e o estendeu à frente.
— Encontrei isto lá. Nenhum de nós pensou em verificar o que Ookequk havia deixado para trás.
— Apenas um tolo se apressa em revirar os pertences de um Homem Cantor. — disse Uammannaq, embora sua expressão havia mudado sutilmente.
— Sisqi... — disse Binabik, desconcertado. — Não sabemos o que o pergaminho contém! Pode ser um feitiço de grande perigo, ou...
— Tenho uma boa ideia. — disse Sisqi com expressão séria. — Reconhece de quem é este nó? — perguntou, entregando o pergaminho à mãe.
A Caçadora olhou para ele por um momento e fez um gesto de desdém ao passá-lo para o marido.
— É o nó de Ookequk, sim...
— E também sabe que tipo de nó é, Mãe. — disse Sisqi, voltando-se para o pai. — Ele foi aberto?
Uammannaq franziu a testa.
— Não...
— Bom. Pai, abra-o e leia-o, por favor.
— Agora?
— Se não for agora, quando? Depois que aquele a quem estou prometida for executado?
A respiração de Sisqi pairou no ar após sua réplica irada. Uammannaq desfez o nó com cuidado e removeu a tira de couro preta. Depois, desenrolou com cuidado a folha de couro, fazendo sinal para que um dos portadores de tocha se aproximasse.
— Binabik! — gritou Simon de trás de um círculo de pontas de lança. — O que está acontecendo?
— Fiquem onde estão, todos vocês, e não façam nada por um momento. — Binabik gritou para ele em língua ocidental. — Contarei tudo quando puder.
— Saibam disto... — leu Uammannaq. — Que eu sou Ookequk, o Homem Cantor de Mintahoq, de Chugik, Tutusik, Rinsenatuq, Sikkihoq e Namyet, e de todas as outras montanhas de Yiqanuc.
O Pastor lia lentamente, fazendo longas pausas e semicerrando os olhos enquanto tentava decifrar o sentido das runas enegrecidas.
— Empreendo uma longa jornada e, nestes tempos, não sei se retornarei. Por essa razão, deixo meu canto de morte gravado nesta pele, para que seja minha voz quando eu já não estiver aqui.
— Esperto, muito esperto, Sisqi. — disse Binabik em voz baixa, enquanto a voz do pai continuava em tom monótono. — É você quem deveria ter sido aprendiz de Ookequk, não eu! Como você sabia?
Ela fez um gesto com a mão para silenciá-lo.
— Sou filha de Chidsik ub Lingit, de onde partem todos os pedidos de julgamento vindos das montanhas. Acha que não reconheceria o nó usado em um testamento de morte?
— Devo alertar aqueles que ficarem depois de mim. — continuou Uammannaq com as palavras de Ookequk. — Que vi a chegada de uma grande e fria escuridão, como jamais o meu povo presenciou. É um inverno terrível que virá da sombra de Vihyuyaq, a montanha dos imortais Filhos das Nuvens. Açoitará as terras de Yiqanuc como um vento negro vindo das Terras dos Mortos, rachando a própria pedra de nossas montanhas com dedos cruéis...
Enquanto o Pastor lia essas palavras, vários dos gnomos que ouviam soltaram gritos, vozes roucas ecoavam pela encosta da montanha envolta na noite. Outros balançavam os corpos, fazendo a luz das tochas tremeluzir.
— Levarei comigo em minha jornada meu discípulo, Binbinaqegabenik. No tempo que resta, o instruirei nas pequenas coisas e nas longas histórias que poderão ajudar nosso povo nestes tempos sombrios. Há outros, além de Yiqanuc, que prepararam lanternas contra a escuridão que se aproxima. Vou somar minha luz à deles, por mais tênue que ela brilhe diante da tempestade que nos ameaça. Se não puder retornar, o jovem Binbinaqegabenik virá em meu lugar. Peço que o honrem como honrariam a mim, pois ele é ávido em seu aprendizado. Um dia, poderá se tornar um Homem Cantor maior do que eu.
— Agora, encerro meu canto de morte. Despeço-me da montanha e do céu. Foi bom estar vivo. Foi bom ser um dos Filhos de Lingit e viver minha vida na bela montanha Mintahoq.
Uammannaq baixou o pergaminho, piscando os olhos. Um lamento baixo surgiu entre os espectadores em resposta à canção final do Homem Cantor Ookequk.
— Ele não teve tempo suficiente. — murmurou Binabik. Lágrimas brotaram em seus olhos. — Foi levado cedo demais e não me disse nada... Ou, pelo menos, não o suficiente. Oh, Ookequk, como sentiremos sua falta! Como pôde deixar seu povo sem nenhuma muralha entre eles e o Rei da Tormenta, a não ser um jovem inexperiente como Binabik! — ele caiu de joelhos e encostou a testa na neve.
Um silêncio constrangedor se instalou, rompido apenas pelo vento que gemia.
— Tragam os habitantes das terras baixas. — disse Nunuuika aos lanceiros, voltando então um olhar rígido e doloroso para a filha. — Iremos todos para a Casa do Ancestral. Há muito em que pensar.
***
Simon despertou lentamente e ficou observando por um longo tempo as sombras oscilantes no teto irregular de Chidsik ub Lingit, enquanto tentava se lembrar de onde estava. Sentia-se um pouco melhor agora, com a mente mais lúcida, embora a cicatriz em sua bochecha ardia como fogo.
Sentou-se aos poucos. Sludig e Haestan estavam encostados na parede, a pouca distância, compartilhando um odre de bebida e conversando em voz baixa. Simon se livrou da capa e procurou por Binabik. Seu amigo estava perto do centro da sala, agachado diante do Pastor e da Caçadora, como se estivesse em súplica. Por um momento, Simon sentiu receio, mas havia outros agachados ali também, entre estes Sisqinanamook. Ao ouvir o subir e descer das vozes guturais, concluiu que aquilo parecia mais um conselho do que um julgamento. Outros pequenos grupos de gnomos podiam ser vistos aqui e ali nas sombras profundas, agachados em pequenos círculos por toda a vasta sala de pedra. Algumas poucas lamparinas espalhadas brilhavam como estrelas num céu carregado de nuvens de tempestade.
Simon se encolheu de novo, remexendo-se para encontrar um ponto liso no chão. Que sensação estranhíssima era estar naquele lugar! Será que algum dia voltaria a ter um lar, um lugar onde acordasse todas as manhãs na mesma cama, sem se surpreender por estar ali?
Mergulhou aos poucos de volta num estado de semissono, num sonho com passagens montanhosas geladas e olhos vermelhos.
***
— Amigo Simon!
Era Binabik, sacudindo-o gentilmente. O gnomo parecia abatido, com olheiras visíveis mesmo na penumbra, mas sorria.
— É hora de acordar.
— Binabik... — disse Simon, ainda grogue. — O que está acontecendo?
— Trouxe para você uma tigela de chá e algumas notícias. Parece que não estou mais condenado a uma queda fatal. — o gnomo sorriu. — Sludig e eu não seremos mais jogados no Abismo de Ogohak.
— Isso é maravilhoso! — Simon ofegou. Sentiu o coração apertar no peito, uma forte onda de alívio após a tensão acumulada. Ele saltou para abraçar o homenzinho, e o ímpeto repentino derrubou o gnomo. O chá se espalhou em poças sobre a pedra.
— Você passou tempo demais na companhia de Qantaqa. — riu Binabik, soltando-se, embora em clara satisfação. — Vejo que herdou o gosto dela por saudações efusivas.
Outras cabeças na sala se viraram para observar aquele espetáculo estranho. Muitas vozes qanuc murmuravam, espantadas com o habitante das terras baixas, alto e desengonçado, que abraçava gnomos como se fosse um membro do clã. Simon percebeu os olhares e abaixou a cabeça, envergonhado.
— O que eles disseram? — perguntou. — Podemos ir?
— Em termos simples, sim, podemos ir. — Binabik sentou-se ao lado dele. Carregava junto seu bastão, recuperado da caverna de Ookequk. Começou a examiná-lo enquanto falava, franzindo a testa para as inúmeras marcas de dentes deixadas por Qantaqa. — Contudo há muito a decidir. O pergaminho de Ookequk convenceu o Pastor e a Caçadora da veracidade do que contei.
— O que há para decidir?
— Muitas coisas. Se eu for com vocês para levar Espinho de volta a Josua, meu povo ficará outra vez sem um Homem Cantor. No entanto acho que devo acompanhá-lo. Se Naglimund de fato caiu, então devemos seguir as palavras de Geloë. Ela pode ser a última pessoa de grande sabedoria que resta. Além do mais, parece cada vez mais certo que nossa única esperança reside em obter as outras duas espadas, Minneyar e Dor. Sua bravura na montanha do dragão não deve ser em vão.
Binabik apontou para Espinho, que estava apoiada na parede, perto de onde Haestan e Sludig estavam sentados.
— Se a ascensão do Rei da Tormenta não for contida... — continuou Binabik. — Então não haverá utilidade em eu permanecer em Mintahoq, pois nenhuma das artes que Ookequk me ensinou afastará o inverno que tememos. — o homenzinho fez um gesto amplo. — Portanto, ‘quando a avalanche levar sua casa’, como nós, o povo gnomo, dizemos, ‘não fique para procurar cacos de cerâmica’. Disse ao meu povo que deveriam descer a montanha, rumo aos campos de caça da primavera, embora não vá haver primavera lá, e a caça será escassa.
Ele se levantou, puxando para baixo a barra de seu grosso casaco.
— Eu queria que soubesse que não há mais perigo para Sludig e para mim. — seu rosto delineou um sorriso irônico. — Uma piada ruim. Todos nós estamos, é óbvio, em perigo terrível. Entretanto o perigo não vem mais do meu próprio povo. — pousou uma mão pequena no ombro de Simon. — Volte a dormir, se puder. É provável que partiremos ao amanhecer. Vou falar com Haestan e Sludig. Ainda há muito planejamento pela frente nesta noite.
O homenzinho se virou e atravessou a caverna. Simon observou sua pequena figura entrar e sair das sombras.
“Já houve muito planejamento.” pensou, mal-humorado. “E não fui convidado para a maior parte deste. Alguém sempre tem um plano, e sempre acabo indo atrás enquanto outra pessoa decide para onde ir. Sinto-me como uma carroça... E uma carroça velha e caindo aos pedaços, ainda por cima. Quando poderei decidir as coisas por mim mesmo?”
Refletiu sobre isso enquanto esperava o sono chegar.
***
No fim das contas, o sol já estava alto no céu cinzento quando os preparativos finais foram concluídos. Um intervalo de tempo que Simon ficou mais do que feliz em passar dormindo.
Simon, seus companheiros e um grande número de gnomos saíram em marcha pelas vias de Mintahoq, seguindo o Pastor e a Caçadora no cortejo mais estranho que Simon já vira. Enquanto serpenteavam pelas áreas mais povoadas de Mintahoq, centenas de gnomos paravam nas pontes suspensas ou saíam correndo de suas cavernas para observar a comitiva passar, parados e maravilhados sob a fumaça rodopiante de suas fogueiras. Muitos desceram pelas escadas de tiras de couro e juntaram-se à procissão.
Grande parte do trajeto era de subida, e a enorme multidão, estendendo-se ao longo da trilha estreita, tornava o avanço lento. Pareceu levar bastante tempo até que contornassem o caminho em direção à face norte. Enquanto caminhavam com esforço, Simon sentiu-se envolto em um estado de torpor onírico. A neve esvoaçava no vazio cinzento além da trilha, os outros picos de Yiqanuc erguiam-se do outro lado do vale como dentes.
A marcha por fim parou em um longo alpendre de pedra, no topo de um promontório que se erguia acima da parte norte do vale de Yiqanuc. Outra trilha contornava a encosta da montanha logo abaixo deles. Em seguida, as paredes rochosas de Mintahoq despencavam abruptamente em direção a uma brancura indistinta, pontilhada por clarões de luz solar intensa. Ao olhar para baixo, Simon foi tomado pela lembrança de um sonho... Uma torre branca e sombria banhada por chamas. Desviou o olhar daquela visão inquietante e viu que a plataforma rochosa onde estava era dominada pela alta construção de neve em forma de ovo, a mesma que vira no seu primeiro dia fora da caverna. Mais perto agora, podia notar o cuidado admirável com que os blocos triangulares de neve haviam sido cortados e encaixados, bem como as esculturas ousadas que pareciam sulcar a própria superfície dos blocos. Assim, a Casa de Gelo apresentava múltiplas facetas como um diamante lapidado, com paredes repletas de ângulos internos ocultos e prismas que refletiam tons de ciano e rosa.
A fileira de gnomos armados que guardava a Casa de Gelo afastou-se respeitosamente para o lado enquanto Nunuuika e Uammannaq passavam por eles, posicionando-se entre os pilares de neve compacta que emolduravam a entrada. Simon não conseguia ver nada do interior da Casa de Gelo, exceto uma abertura azul-acinzentada além da porta. Binabik e Sisqi ocuparam seus lugares no degrau de gelo logo abaixo, com as mãos enluvadas entrelaçadas. Qangolik, o Invocador de Espíritos, subiu e posicionou-se ao lado dos dois.
Embora o rosto de Qangolik estivesse oculto pela máscara de crânio de carneiro, Simon achou que o gnomo musculoso parecia bastante abatido. O Invocador de Espíritos, que antes saltitara como uma ave em ritual de acasalamento durante o julgamento em Chidsik ub Lingit, agora estava curvado como um trabalhador rural exausto após a colheita.
Quando o Pastor ergueu sua lança com ponta em gancho e começou a falar, Binabik traduziu para seus companheiros das terras baixas.
— Dias estranhos chegaram até nós.
Os olhos de Uammannaq estavam mergulhados em sombras profundas.
— Sabíamos que algo estava errado. Vivemos em tamanha proximidade com a montanha, que é feita dos ossos da terra, que não há como não sentir a inquietação nas terras ao nosso redor. A Casa de Gelo segue aqui. Ela não derreteu.
O vento aumentou de intensidade, assobiando como se quisesse enfatizar suas palavras.
— O inverno não vai embora. A princípio, culpamos Binabik. O Homem Cantor, ou seu aprendiz, sempre entoou o Rito do Despertar... O Verão sempre chegou. Todavia agora nos dizem que não é a falha em realizar o Rito que mantém o Verão oculto. Dias estranhos. As coisas estão diferentes. — ele balançou a cabeça pesadamente, com a barba oscilando.
— Devemos romper com a tradição. — acrescentou Nunuuika, a Caçadora. — A palavra dos sábios deve ser lei para aqueles de menor sabedoria. Ookequk falou como se estivesse aqui entre nós. Agora sabemos mais sobre aquilo que temíamos, mas não conseguíamos nomear. Meu marido diz a verdade, vivemos dias estranhos. A tradição nos serviu, porém agora nos acorrenta. Assim, a Caçadora e o Pastor declaram que Binbinaqegabenik está livre de sua punição. Seríamos tolos se matássemos alguém que tem se esforçado para nos proteger da tempestade de que Ookequk falou. Seríamos piores que tolos, está claro agora, se matássemos o único que conhecia o coração de Ookequk.
Nunuuika fez uma pausa, aguardando que Binabik completasse sua reinterpretação, e então continuou, passando a mão pela testa em um gesto ritual.
— O rimmerio Sludig representa um problema ainda mais estranho. Não é um qanuc, portanto não foi culpado de quebrar juramentos, como declaramos que Binabik fora. Porém pertence a um povo inimigo e, se as histórias de nossos caçadores que viajam mais longe forem verdadeiras, os rimmerios do leste tornaram-se ainda mais selvagens do que antes. Contudo, Binabik nos garante que esse Sludig é diferente, que luta a mesma luta de Ookequk. Não temos certeza, no entanto nestes tempos de loucura, não podemos afirmar que não seja assim. Sendo assim, Sludig também é declarado livre de punição e pode deixar Yiqanuc como desejar... O primeiro Croohok a receber tal perdão desde a Batalha do Vale de Huhinka, nos tempos de minha bisavó, quando a neve se tingiu de vermelho com o sangue. Invocamos os espíritos das alturas, a pálida Sedda e Qinkipa das Neves, Morag Sem-Olhos, o ousado Chukku e todos os outros para proteger o povo caso nosso julgamento esteja equivocado.
Quando a Caçadora terminou, Uammannaq postou-se ao lado dela e fez um gesto amplo, como se fosse partir algo ao meio e lançá-lo para longe. Os gnomos que observavam entoaram uma sílaba seca e, em seguida, caíram em um sussurro excitado.
Simon virou-se e apertou a mão de Sludig. O nortista deu um sorriso contido, com o maxilar cerrado por trás da barba amarelada.
— O povo pequeno tem razão. — disse ele. — Tempos estranhos, de fato.
Uammannaq ergueu a mão para silenciar o murmúrio da conversa.
— Os habitantes das terras baixas partirão agora. Binbinaqegabenik que, se retornar, será o nosso próximo Homem Cantor, pode ir com eles para levar este objeto estranho e mágico... — seu dedo apontou para Espinho, que Haestan segurava apoiada no chão à sua frente — Aos habitantes das terras baixas que, segundo ele, podem usá-lo para afugentar o inverno.
— Enviaremos com eles um grupo de caçadores, liderado por nossa filha Sisqinanamook, que servirá de escolta até que deixem as terras dos qanuc. Depois, os caçadores seguirão para a cidade da primavera, junto ao Lago da Lama Azul, e se prepararão para a chegada do restante de nossos clãs. — Uammannaq fez um gesto e um dos outros gnomos adiantou-se com uma bolsa de couro quase toda coberta por delicados desenhos de bordado colorido. — Temos presentes que gostaríamos de lhes oferecer.
Binabik trouxe seus amigos à frente. A Caçadora presenteou Simon com uma bainha de couro flexível, trabalhado com sutileza e cravejado de contas de pedra da cor da lua de primavera. O Pastor então lhe entregou uma faca para guardar nela... Uma bela lâmina clara, feita de uma única peça de osso. O cabo apresentava entalhes polidos em forma de pássaros.
— Uma espada mágica dos habitantes das terras baixas é muito boa para combater vermes-da-neve... — disse-lhe Nunuuika. — Mas uma humilde faca qanuc é mais fácil de esconder e de usar em espaços apertados.
Simon agradeceu-lhes educadamente e afastou-se. Haestan recebeu um odre espaçoso, decorado com fitas e bordados, cheio até a boca com licor qanuc. O guarda que, na noite anterior, bebera o suficiente daquela bebida azeda para acabar tomando gosto por ela, fez uma reverência, murmurou algumas palavras de gratidão e retirou-se.
Sludig, que chegara a Yiqanuc como prisioneiro, agora partia mais ou menos como convidado, recebeu uma lança com uma ponta extremamente afiada, talhada em pedra negra brilhante. A haste não apresentava entalhes, pois fora confeccionada às pressas. Os gnomos não costumavam usar lanças daquele comprimento, porém esta era bem equilibrada e podia servir também como cajado de caminhada.
— Esperamos que você também aprecie o presente de sua vida. — disse Uammannaq. — E que se lembre de que a justiça dos qanuc é severa, contudo não cruel.
Sludig surpreendeu-os ao ajoelhar-se rapidamente.
— Eu me lembrarei! — foi tudo o que disse.
— Binbinaqegabenik... — começou Nunuuika. — Você já recebeu a maior dádiva que está ao nosso alcance conceder. Se ela ainda o quiser, renovamos nossa permissão para que se case com nossa filha mais nova. Quando o Rito do Despertar puder ser realizado, no próximo ano, vocês serão unidos. Binabik e Sisqi deram as mãos e fizeram uma reverência no degrau diante do Pastor e da Caçadora, enquanto palavras de bênção eram proferidas. O Invocador de Espíritos, de rosto semelhante ao de um carneiro, aproximou-se. Entoava cânticos enquanto ungia as testas deles com óleo, no entanto com um ar que, na opinião de Simon, demonstrava grande insatisfação. Quando Qangolik terminou e desceu, mal-humorado, os degraus da Casa de Gelo, o noivado havia sido restabelecido.
A Caçadora e o Pastor despediram-se brevemente e de forma pessoal do grupo, com Binabik servindo de intérprete. Embora ela sorrisse e tocasse a sua mão com seus dedos pequenos e fortes, Nunuuika ainda parecia fria e dura como pedra para Simon... Afiada e perigosa como a ponta de sua própria lança. Ele teve de se forçar a retribuir o sorriso e a recuar lentamente quando ela terminou.
***
Qantaqa os aguardava, enroscada em um ninho de neve do lado de fora de Chidsik ub Lingit. O sol do meio-dia havia desaparecido atrás de uma neblina que se espalhava. O vento fazia os dentes de Simon baterem.
— Agora precisamos descer a montanha, amigo. — disse Binabik ao rapaz. — Gostaria que você, Haestan e Sludig não fossem tão grandes, entretanto não há carneiros fortes o suficiente para vocês montarem. Isto tornará nossa descida mais lenta do que eu gostaria.
— Mas para onde estamos indo? — perguntou Simon. — Onde fica essa Rocha da Despedida?
— Tudo a seu tempo... — respondeu o gnomo. — Consultarei meus pergaminhos quando pararmos hoje à noite, todavia devemos partir o mais rápido possível. As passagens da montanha serão traiçoeiras. Sinto cheiro de mais neve no vento.
— Mais neve. — repetiu Simon, colocando a bolsa no ombro. — Mais neve.
***
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