Volume 02: Yugao — Capítulo 09: Já é preocupante quando você desmaia
— Flores encharcadas pela chuva são verdadeiramente encantadoras e fascinantes. Elas transmitem uma gama vibrante de emoções.
Hikaru falou ao lado de
Koremitsu, com voz suave.
Se aquela voz suspirante
tivesse um aroma, sua fragrância elegante se espalharia pelo ar úmido daquele
dia chuvoso.
— As flores azul claras
carregam um orvalho tão doce, e a grama Commelina se esforça tanto para impedir
que elas caiam. A Íris continua com um aspecto majestoso, com seu corpo
delicado erguido com orgulho. A hortênsia, coberta de cristais de água, parece
tão pura e delicada, emitindo uma luz multicolorida... Essas flores ficam muito
atraentes durante toda a estação chuvosa.
A estação chuvosa chegou
mais cedo, nuvens escuras pairavam no céu mesmo no final de maio.
Naquela manhã, Koremitsu
foi caminhando para a escola pela calçada.
Em sua mão levava um
guarda-chuva azul-escuro sem brilho e caminhava para a frente com as costas
arqueadas. Hikaru flutuava ao seu lado, sem guarda-chuva.
O uniforme escolar era
composto por um blazer e calças brancas. Esse design opulento e elegante
contrastava com a personalidade rude de Koremitsu. Dava a impressão de ser uma
peça de alta costura quando usado por Hikaru.
— Koremitsu, não acha que
as flores e as garotas ficam mais misteriosas e atraentes em dias chuvosos?
Sejam os lábios macios sob o guarda-chuva ou o pescoço delicado, os membros
brancos e os quadris perfeitos, tudo é tão encantador. As blusas do uniforme
encharcadas pela chuva ficam transparentes, revelando as linhas da roupa
íntima, fazendo os corações dispararem. O perfume do xampu em seus cabelos
molhados também é de se admirar, e faz com que a gente feche os olhos sem
querer para apreciar, sabe?
— De jeito nenhum.
Koremitsu retrucou com um
tom amargo.
— Por que você cheiraria
o cabelo de uma garota sem um bom motivo? É algum pervertido por acaso?
Para Koremitsu, ser
considerado um excêntrico pelos colegas por falar sozinho era uma preocupação constante,
então se abstinha de responder a Hikaru. Porém, não conseguiu se conter e
retrucou à tagarelice de Hikaru sobre a relação entre flores e garotas em dias
chuvosos.
— Seu pervertido,
príncipe mulherengo, idiota florido, demônio da pegação, cara que se entrega
aos prazeres da própria vida, sonhador pervertido e iludido, grande mentiroso,
vigarista.
Mesmo enquanto Koremitsu
repreendia Hikaru, este tentava manter a voz baixa o suficiente para não ser
ouvido pelos outros durante o trajeto para a escola.
Hikaru reclamou com uma
expressão de dor.
— Isso é maldade,
Koremitsu! Por que está tão infeliz?
Ainda tem coragem de me
perguntar por que estou tão infeliz?
Koremitsu lançou um olhar
fulminante para Hikaru, seus olhos eram tão penetrantes que poderiam
aterrorizar outros alunos, mesmo sem o olhar penetrante.
— Precisa que eu lhe diga
porquê, seu fantasma mentiroso?
Certo, Hikaru Mikado era
um fantasma.
Foi por esse motivo que
podia andar sem guarda-chuva em dias de chuva sem ser afetado.
Sua camisa estava seca e
limpa, e seu blazer, sempre de um branco impecável, seus cabelos
castanho-claros ondulavam suavemente sobre seu rosto delicado e feminino.
A morte de Hikaru, o
garoto aclamado pelos alunos da escola como um príncipe, ocorreu há um mês.
Koremitsu havia
comparecido ao seu funeral.
Isso foi um erro.
Foi naquele funeral que
se viu assombrado pela presença persistente de Hikaru, seu fantasma.
— Prometi à minha noiva
que lhe daria presentes de aniversário. Se eu conseguir cumprir esse desejo,
poderei ascender ao Céu sem arrependimentos. Por favor, me ajude!
Esse pedido incomodou
Koremitsu, pois implicava que seria acompanhado por Hikaru constantemente, seria
seguido até ao banho e ao banheiro, e por isso, embora relutante, concordou. Apesar
da missão ser problemática e bastante irritante, ele a completou como um
intermediário.
Contudo, Hikaru ainda
permanecia por perto.
Ele chegou mesmo a
continuar dizendo de forma leviana...
— Na verdade, ainda há
outras 4 ou 5 meninas com as quais estou muito preocupado. Não, talvez 40, 50
delas?
Koremitsu nunca concordou
em ajudá-lo com isso.
Quarenta ou cinquenta
delas não são demais? Você realmente gosta de fazer tantas promessas para
mulheres? Para pessoas que não são a Aoi? Seu príncipe mulherengo! Casanova!
Vá morrer cem vezes!
Só o pensamento o
enfurecia.
— Ok, já deve ter se
acalmado, não é? Não tentei te enganar de propósito, também quero subir logo
para o Céu. É deprimente não conseguir me ver no espelho. Não importa o quão
bem vestido eu esteja, ou o quão bonito eu arrume meu cabelo, continuo sem
conseguir me ver. Acho que minha pele está ótima hoje, tão macia. Meu cabelo
está sedoso e elegante, e a cutícula deve estar brilhando... Ah, quero ver.
Você só se preocupa com
coisas assim?
— Koremitsu, você não
queria que eu desaparecesse, você não estava chorando até não aguentar mais?
Sim! Devolva minhas
lágrimas! E não estava chorando até não aguentar mais!
— Ei, por favor, aceite o
meu pedido? Por favor, Koremitsu! Me ajude um pouco mais! Me empreste sua
força!
Quarenta, cinquenta
pessoas não é um pouco mais!
Não, se contasse as
mulheres que lotavam a funerária de Hikaru...
“Na verdade, existem outras
400, 500 delas.” Essa poderia ser a próxima frase de
Hikaru.
O semblante de Hikaru era
sem dúvida inocente e afeminado, no entanto era um verdadeiro Casanova.
Koremitsu não queria mais nenhum envolvimento com ele.
— Eu me recuso. Não quero
me aproximar de mulheres para resolver seus problemas.
Koremitsu resmungou,
franzindo a testa, e Hikaru arregalou os olhos em choque.
— Oh? Ainda não entende
os encantos de uma mulher? Te ouvi dizer que a senhorita Aoi é muito fofa.
— Eh...
O rosto de Koremitsu
ficou ainda mais vermelho com suas palavras.
Era verdade que achava as
diversas expressões de Aoi adoráveis. Ele a acompanhara ao parque temático no
lugar de Hikaru, e quando a abraçou, sentindo seu corpo delicado e esguio, seu
coração acelerou involuntariamente.
Após enfim aceitar
Koremitsu como amigo de Hikaru, ela abriu seu coração e até mesmo lhe dedicou um
sorriso tímido.
Sempre que se encontravam
no portão da escola, ela corava e o cumprimentava educadamente com uma
expressão bem-intencionada.
— Bom dia, Sr. Akagi.
Assim, depois da aula, ia
para a sala de arte todos os dias e trabalhava em suas pinturas de Hikaru. Ela
e os outros membros do clube tinham um relacionamento melhor agora do que
antes.
Era verdade que Aoi era
fofa.
O problema, todavia, era
sua colega de classe...
Ao pensar naquela garota
impetuosa de olhos penetrantes, seus lábios torceram em desagrado.
— Ah, senhorita Shikibu!
Ao avistá-la, Hikaru
chamou uma garota que segurava um guarda-chuva xadrez vermelho e roxo.
As veias na testa de
Koremitsu saltaram.
— Está vendo, Koremitsu?
É a senhorita Shikibu. Vá cumprimentá-la!
Hikaru a chamou,
incentivando Koremitsu energicamente a fazer o mesmo. Ele ignorou a carranca de
Koremitsu, seja porque não a viu ou porque essa era a expressão que sempre
tinha no rosto.
— Uwahh, as pernas da
senhorita Shikibu são lindas, afinal! São pernas muito bonitas, esbeltas e
retas. Parece cheia de vida quando caminha. Realmente me alegra.
O estômago de Koremitsu
se contraiu com os aplausos efusivos de Hikaru e os músculos ao redor de sua
boca enrijeceram.
— Koremitsu? Por que está
olhando para a senhorita Shikibu desse jeito?
Hikaru, ao perceber que
algo estava errado, ficou perplexo.
Ao mesmo tempo, Honoka,
que estava prestes a atravessar o portão para entrar no terreno da escola,
notou Koremitsu.
Koremitsu se tensionou
instintivamente.
Eles se encararam.
As sobrancelhas de Honoka
estavam levemente arqueadas em um gesto de orgulho, seus olhos semicerrados
revelando uma expressão geral de infelicidade. Os cantos de sua boca se
curvaram para baixo.
Os lábios de Koremitsu se
contraíram em resposta.
Mas mesmo assim...
— O-Olá.
Ele a cumprimentou.
— ...
Hmph. Honoka bufou,
virou-se e saiu.
Ei! Está fingindo que não
viu um colega te cumprimentando aqui?
Mais uma vez suas veias
saltaram, e saiu trotando atrás dela.
Quando alguém te
cumprimenta, você tem que retribuir o cumprimento! Não deveria saber uma
cortesia tão básica? O que eu fiz de errado? Por que está tão brava comigo?
Ele cerrou os dentes e
caminhou até ficar ao lado dela.
Honoka ergueu ainda mais
as sobrancelhas, apressando o passo. Ela respondeu à perseguição veemente de
Koremitsu fugindo mais rápido. Quando a alcançou de novo, Honoka disparou na
frente.
Os dois competiram em uma
corrida, cada um tentando ultrapassar o outro.
— ...
— Kuuu!
Caramba, como é que estou
perdendo para uma mulher?
Ele caminhou para a
frente, esquecendo-se do seu objetivo nesse processo.
— Koremitsu, por que está
ofegante e suando tanto tão cedo de manhã... Vai ter muita gente olhando para
você, sabia?
Hikaru o lembrou em um
tom gentil.
Seu semblante selvagem
herdado e sua aura nefasta renderam a Koremitsu apelidos aterrorizantes durante
seus anos no Ensino Fundamental. Esses apelidos foram levados para a Academia
Heian, onde era chamado de “Cão do Inferno” e “Rei dos Delinquentes”, e era
alvo de fofocas.
Se alguém o visse como estava,
é provável que dissesse algo como...
— O calouro Akagi está
perseguindo uma garota com um olhar carnívoro no rosto, como uma fera selvagem!
— Não me siga, seu
delinquente!
Honoka parou em frente à
escada, apontando o guarda-chuva para Koremitsu e sacudindo a água restante em
sua direção.
— O QUE VOCÊ ESTÁ
DIZENDO? ACHA QUE ESTOU DISPOSTO? É PORQUE ESTOU NA MESMA SALA, SENTADO BEM AO
SEU LADO! E NÃO SOU UM DELINQUENTE!
— Você tem a aparência
perfeita para o papel de delinquente, com esse seu rosto!
Honoka terminou sua frase
de forma cruel e sacudiu seus cabelos bege-claros... A cor lembrou Koremitsu de
um rato morto, antes de caminhar até seu armário de sapatos.
Que tipo de atitude é
essa? Depois de tudo não existem mulheres boas!
Quando ela conversou
seriamente com ele sobre Aoi, Koremitsu sentiu, pela primeira vez, que existiam
mulheres boas e pretendia deixar de usar bordão de seu avô misógino: “É por
isso que eu digo, mulheres...!”
Contudo, devido ao
sofrimento que Honoka lhe causou na semana anterior, essa ideia foi rejeitada.
— VIU, HIKARU? TODAS AS
MULHERES SÃO ASSIM! NÃO QUERO ME ENVOLVER COM ANIMAIS TÃO IRREVERSÍVEIS, NEM
QUE ISSO ME IMPORTE!
Koremitsu estava tão
exasperado que reagiu com agressividade, sem se importar com os olhares que lhe
eram dirigidos.
— Ah... Bem, no entanto
tem que assumir um pouco de responsabilidade pelo fato da senhorita Shikibu
estar sendo tão antipática com você. Hmm, acho que já falei demais, não é?
Ele falou com hesitação.
— O quê? Por que está
sendo tão indeciso sendo homem?
— Sim, é melhor ficar
quieto, senão seria ofensivo para a senhorita Shikibu. Tudo bem, sei que vai
entender depois, antes do seu aniversário de 18 anos... Talvez.
Hikaru esboçou um sorriso
enigmático.
Honoka ainda estava perto
de seu armário de sapatos e cumprimentava suas amigas com tanta alegria que
Koremitsu suspeitou que tivesse transtorno de personalidade múltipla.
— Bom dia, Michiru.
— Ah, bom dia, Hono...!
— Trouxe o DVD que disse
que queria assistir da última vez!
— Wah, obrigada, Hono.
A garota de aparência
responsável, com tranças curtas e óculos de armação grande, era a representante
de classe. Todos a chamavam de “representante”, exceto Honoka, que a chamava
pelo nome.
Ei, ela é tão fria comigo
e totalmente diferente com as outras!
A queixa de Koremitsu
resultou em um olhar fulminante e, quando a representante de classe de cabelos
trançados percebeu, deu um pulo de medo.
— Ah... B-B-B-B-B-B-B-Bom
dia, Sr. Akagi.
A garota balbuciou uma
saudação.
— Olá.
Foi impressionante que
conseguisse cumprimentá-lo, o delinquente odiado e temido, de forma adequada. Era
uma representante de classe exemplar e fazia jus ao título, não desviando o
olhar e tremendo de medo de Koremitsu.
— Michiru, por que está
cumprimentando alguém como o Koremitsu?
Honoka disse, infeliz.
Essa mulher me irrita
profundamente! As veias de Koremitsu saltaram mais uma
vez.
— Hã? Lorde Hikaru foi
assassinado?
A pergunta repentina
chocou Koremitsu.
Hikaru estava ao seu lado,
imóvel e sombrio, com os olhos semicerrados.
Várias garotas
conversavam no corredor, parecendo bastante agitadas.
— Esta mensagem diz que
não foi um acidente, e sim um assassinato!
— Impossível! Será
mensagens maliciosas?
— Parece suspeito!
— É estranho que tenha
caído no rio num dia chuvoso. Por que alguém em sã consciência iria para a
beira do rio quando estava chovendo tanto?
— Sim!
— Será que Lorde Hikaru
foi realmente morto por alguém?
— Ei...
Assim que Koremitsu
começou a se aproximar delas...
A melodia do maior
sucesso de uma banda famosa soou.
O som vinha do celular de
Honoka.
Com uma expressão de
desagrado, ela tirou o celular do bolso da saia e olhou para a tela.
Após pressionar alguns
botões...
— O que é isso...
O desânimo era palpável
em sua voz.
— Qual é o problema,
Hono?
Michiru olhou para o celular de Honoka e seus olhos se arregalaram em surpresa.
— Ho-Ho-Ho-Hono! Erm...
I-Isso está falando sobre o Lorde Hikaru...
— Deixe-me ver!
Koremitsu caminhou até o
lado de Michiru e olhou para o celular de Honoka.
A pequena tela exibia
palavras chocantes.
“A morte de Lorde Hikaru
não foi um acidente, foi um assassinato.
O assassino está na
Academia Heian.”
— ...!
Koremitsu engoliu em seco
enquanto o som de toques de celular preenchia o ar.
***
“Hikaru Mikado foi
assassinado por alguém da escola!”
Esta mensagem foi enviada
pela primeira vez na noite passada, entretanto na manhã seguinte, o boato já
havia chegado aos ouvidos de todos os alunos da Academia Heian. Durante os
intervalos, os corredores se encheram de teorias sobre a identidade do culpado.
— Talvez um garoto tenha
feito isso por vingança porque sua namorada foi levada pelo Lorde Hikaru?
— Não, deve ter sido uma
garota dispensada por aquele príncipe mulherengo.
— O assassino está na
unidade do Ensino Médio, certo?
— Talvez o culpado esteja
no Ensino Fundamental II, ou até mesmo na faculdade.
— Pode até ser um professor.
Koremitsu caminhava
cabisbaixo, e essas especulações não melhoravam seu humor. Ele foi até o
telhado, ignorando o fato de que a entrada era proibida.
O céu que o recebeu
estava tenebroso, e dele caía uma cascata constante de chuva.
Estava no telhado, não
muito longe da porta, e encostou-se na parede para se proteger da chuva. Logo,
interrogou Hikaru em voz baixa.
— Você não caiu em um rio
e se afogou? Alguém te matou?
Hiina Oumi, do clube de
notícias, já havia mencionado isso antes.
— É só... Um pequeno
boato... No entanto Lorde Hikaru não morreu em um acidente, e na verdade foi
assassinado.
Ela chegou a dizer que
estava investigando esses rumores.
Hikaru apenas ignorou os
rumores.
— Sou um príncipe mulherengo
que sai por aí se envolvendo com garotas... Sendo assim, acho que deve haver
muitas garotas que querem me matar.
Sua resposta veio
acompanhada de um tom incomumente maduro.
Seus olhos estavam
opacos, e não havia sinal de confirmação nem de negação.
Depois disso, Koremitsu
não encontrou oportunidade para questioná-lo adequadamente, então não deu
importância ao assunto, considerando-o apenas um rumor infundado.
Não esperava que tais
mensagens causassem tanta repercussão.
Quem enviou essas
mensagens e por qual motivo?
Havia algum fundo de
verdade nesses rumores?
A reação de Koremitsu à
mensagem, uma rigidez desagradável em sua expressão facial, contrastava com a
expressão impassível de Hikaru.
Ele permaneceu em
silêncio, apenas sorrindo, o que era estranho para um sujeito tão falante. Após
um momento de silêncio, murmurou para si mesmo.
— Quem enviou isso?
E então retomou o
silêncio.
Koremitsu não sabia como
reagir ao estado de transe de Hikaru... Não sabia se devia perguntar o que
havia acontecido ou não. Sentia um enjoo terrível no estômago, e uma dor tão
intensa que lhe dava náuseas.
Se o Hikaru não quer
falar, é melhor não perguntar...
Foi então que Koremitsu
chegou ao telhado, poderia perguntar agora, sem se preocupar que outros o
ouvissem, mas ainda assim estava hesitante.
Talvez isso explique por
que ele não consegue ascender ao Céu e continua se agarrando a mim. Algumas
coisas são melhor ditas por outra pessoa, então só posso exercer um pouco de
pressão...
Koremitsu tinha a
aparência de um delinquente desde que nasceu. Era por essa razão, e talvez por
nenhuma outra, que seus colegas de classe se mantinham distantes. Hikaru era
seu único amigo, e o único amigo que já tivera.
Era inexperiente em
relacionamentos interpessoais e não tinha certeza de quanta informação poderia
legitimamente solicitar a Hikaru sem magoá-lo.
Havia muitas coisas que
Koremitsu não entendia.
Ele abandonou qualquer
esperança de abordar o assunto com delicadeza e decidiu ir direto ao ponto.
Queria ouvir a resposta
desse suposto cavalheiro, desse encrenqueiro insondável. Queria saber o que seu
amigo estava pensando.
— O que você acha,
Hikaru?
Suas palavras saíram de
sua boca de forma desajeitada em meio à chuva silenciosa, e observou Hikaru.
Hikaru não virou a
cabeça, apenas esboçou um pequeno sorriso. Suas belas sobrancelhas se
franziram. Era um sorriso frágil e solitário.
— Isto é preocupante.
As palavras murmuradas
vieram por trás do seu sorriso.
— Por que esses rumores
precisam surgir agora? A causa da minha morte é irrelevante, o que importa é
que estou morto.
O coração de Koremitsu
batia forte.
Está tentando evitar esse
assunto outra vez?
— Porém, Koremitsu...
Hikaru aos poucos voltou
seu olhar para Koremitsu.
Hã?
Seus traços elegantes se
compunham em uma expressão séria, e falou com Koremitsu, que o ouviu
atentamente.
— Se eu dissesse que fui
assassinado, você prenderia meu assassino?
***
Este apartamento está
bastante deteriorado.
Koremitsu segurava seu
guarda-chuva, com a mochila a tiracolo, e encarava o prédio à sua frente.
Foi depois da aula.
O antigo bloco de
apartamentos de madeira onde estava ficava a vinte minutos a pé da escola. Os
prédios davam a impressão de que desabariam sob a pressão da brisa mais leve.
Os apartamentos do
quarteirão tinham todos dois andares, o quarteirão era dividido em quatro
complexos de apartamentos separados. A cerca e as sebes eram de madeira
compensada, e as paredes cinzentas estavam cheias de rachaduras. No entanto,
tudo parecia ainda mais dilapidado devido à penumbra do dia chuvoso. A
atmosfera lembrava muito a de um filme de terror.
Minha casa já é bem
velha, contudo isso é até pior...
Talvez este fosse
realmente o esconderijo do assassino de Hikaru.
— Você vai capturar meu
assassino?
Hikaru perguntou.
— Você sabe onde está o
assassino?
Os olhos de Koremitsu
estavam arregalados, no entanto não tinha certeza se Hikaru realmente havia
sido assassinado ou não.
— Hmm... Também não tenho
muita certeza. Só tenho a sensação de que o assassino está lá.
A resposta de Hikaru foi
incerta.
— Certo, vou chamar a
polícia!
Koremitsu imediatamente
pegou o celular, entretanto Hikaru o interrompeu, dizendo...
— Não tenho certeza, e se
o assassino não estiver lá, você será repreendido pela polícia. Além do mais,
por que quer chamar a polícia para revistar a residência do assassino?
— Uuh...
Era verdade que não podia
dizer que estava sendo instruído por um fantasma.
— De qualquer forma, vamos
entrar e verificar a situação.
Como pode dizer isso de
forma tão despreocupada?
Embora Koremitsu não
pudesse concordar facilmente com isso, Hikaru estava sem dúvida falando sério e
sendo fervoroso o suficiente para preocupá-lo. Não havia nada que pudesse fazer
a não ser seguir suas instruções a contragosto.
— Tem certeza de que é neste
acabado... Hmm, quero dizer, nessa relíquia, que é como um material histórico?
Koremitsu o interrogou
mais uma vez.
O humor de Hikaru era diferente
do que Koremitsu estava acostumado, e vinha sendo assim desde que passaram
pelos portões da escola na saída. Ele olhou para a cerca suja, manchada de
preto pela chuva, com uma mistura de nostalgia e serenidade no rosto.
— Sim, sem dúvida. Está
vendo as flores brancas desabrochando ao pé do muro? Elas estão tremendo,
encharcadas pela chuva.
— Essas flores robustas
estão desabrochando de novo... — disse ele, fazendo uma
expressão sonhadora e vaga.
— Não vamos falar de
flores agora.
Koremitsu ficou um pouco
horrorizado.
— Qual apartamento?
— O último do primeiro
andar.
As cortinas daquele
quarto estavam fechadas, e o quarto estava todo escuro lá dentro.
Porém parecia haver
alguém se mexendo lá dentro, e Koremitsu estreitou os olhos, sendo cauteloso.
— Muito bem, vamos lá.
Eles atravessaram a cerca
e caminharam até a última porta daquele prédio.
O quarto e a residência
atrás quase se grudavam, as sombras envolviam o beco e a visibilidade era
precária. Koremitsu estava tão tenso que estava prestes a ter cãibras.
Eles pararam na última
porta.
Como não havia campainha,
só pôde bater na porta.
Não houve resposta.
Não tem ninguém lá
dentro? Não, achei que tinha visto alguém se mexendo atrás da cortina...
Kooonn...
E houve um pequeno baque vindo de dentro.
O som era baixo e suave...
Quase inaudível.
Koremitsu estava tão
tenso que sentia coceira na nuca.
— Desculpe incomodar.
Posso ter um momento?
Ele resmungou e tornou a
bater na porta.
Uma voz suave veio de
debaixo da porta.
Parece estranho por algum
motivo.
Por que ninguém abriu a
porta, mesmo havendo um barulho vindo de dentro? A localização do som também
era muito peculiar.
Parece que veio de
baixo... Será que a pessoa desmaiou?
Talvez houvesse alguém
com os membros amarrados, a boca amordaçada, agachado junto à porta, tentando
ao máximo bater na porta com o ombro e a cabeça.
Essa imagem passou pela
mente de Koremitsu, que logo se apressou em agarrar a maçaneta da porta e a
girou com força.
Seu guarda-chuva caiu de
suas mãos e foi parar no beco.
— O que houve? Aconteceu
alguma coisa?
Não houve resposta, entretanto
pareceu ouvir um gemido, e quanto mais ouvia aquilo, mais entrava em pânico.
— Maldição!
Tentou girar e forçar a
porta enquanto batia nela com força. O trinco devia estar velho demais, pois se
soltou em seguida e a porta caiu com um baque surdo. A porta estava aberta!
Ele entrou correndo logo
depois.
— Você está bem?
Havia um fogão e uma pia
de um lado do corredor, enquanto a cozinha ficava do outro.
Este quarto apertado, do
tamanho de seis tatames, estava sem luz e a visibilidade era péssima. Era quase
um lixão, com coisas espalhadas por toda parte, tanto móveis quanto lixo.
— Hã, hein...?
Não tem ninguém aqui
dentro?
Impossível...
Justo quando Koremitsu
ficou atônito...
— Miau...
De repente, ouviu um
miado a seus pés.
Ao abaixar a cabeça,
encontrou um gato branco sentado ali, despreocupado, com os olhos emitindo um
brilho estranho na escuridão.
Será que as batidas e os
gemidos foram feitos por esse gato?
Oops, estraguei a porta
de alguém.
Suor frio escorria pelas
costas de Koremitsu, e encontrou algo encolhido em forma de bola nas sombras.
— ...!
Ele engasgou novamente,
em choque.
Assim que seus olhos se
acostumaram à escuridão, aos poucos conseguiu enxergar a situação no quarto.
Havia uma cama de beliche
à esquerda.
Bem em frente a ele havia
uma janela com as cortinas fechadas.
Havia uma mesa redonda e
baixa no meio da sala, com um tablet em cima. Seriam os objetos à direita um
ventilador, uma cadeira, um guarda-roupa, um armário, uma bolsa de golfe? Além
desses objetos aleatórios, havia algumas fotos e papéis colados na parede.
Também...
Havia algo com formato de
colina no espaço vazio entre o armário e o ventilador.
Um cobertor?
Não, era alguém enrolado
num cobertor... Uma menina.
Ela estava agachada junto
à parede, e um pouco de sua pele branca e macia aparecia por baixo do tapete
enquanto olhava para Koremitsu com uma expressão preocupada... A garota
encarava o jovem ruivo que arrombou a porta e entrou sem ser convidado.
O quê?
Quem é essa pessoa?
O que estava fazendo ali?
A mente de Koremitsu
estava repleta de perguntas.
Vim aqui para pegar o
assassino de Hikaru, certo? Essa garota é a assassina? Ela parece um pouco
frágil demais.
Atônito, seu olhar se
voltou para Hikaru.
Hikaru, no entanto,
passou por Koremitsu com uma expressão relaxada e aproximou-se da garota.
Somente Koremitsu
conseguia ver a alma de Hikaru.
A menina usou suas
pequenas mãos para puxar delicadamente o cobertor enquanto espiava Koremitsu.
Os longos fios de cabelo que escapavam do cobriam seu rosto e testa.
Hikaru agachou-se em
frente à menina e, com uma expressão carinhosa e gentil, disse.
— Não tenha medo, Yu.
Koremitsu é meu amigo de confiança aqui. Ele cumprirá a “promessa” em meu
lugar.
Ao ouvir aquilo,
Koremitsu percebeu que havia sido enganado.
Seu vigarista! Príncipe
mentiroso de merda! O que quis dizer com “vai pegar meu assassino”? Estava agindo
todo sério só pra me enganar, não é? Vá para o inferno agora e deixe o rei do
inferno cortar sua língua!
Koremitsu praguejou com
rancor em seu coração.
Mas, por mais enfurecido
que estivesse, não conseguia mudar a situação atual.
Mesmo que tentasse dar um
soco em Hikaru, o soco só atravessaria seu corpo, não causaria coceira nem dor,
um ato que apenas o faria parecer ainda mais tolo.
Além disso, a garota, que
não conseguia ver Hikaru, olhava para Koremitsu com cautela.
Até mesmo o gato branco
levantou a cabeça, parecendo avaliar Koremitsu enquanto o encarava com olhos
frios.
Ei, o que faço agora?
Koremitsu estava tenso,
suando profusamente enquanto rangia os dentes.
Hikaru ajoelhou-se ao
lado da garota e sorriu com a intenção de dizer “Deixo o resto com você”.
Droga, por que está
sorrindo?
Koremitsu fez o possível
para conter o rugido que quase escapou de sua boca e ficou parado no corredor
para explicar a situação à garota.
— Ah, bem... Não sou uma
pessoa má, sou amigo do Hikaru, e ele me pediu para te procurar.
— Chuva...
A voz suave, que quase se
fundia com a escuridão, escapou dos lábios da garota.
— Hã? Chuva?
A garota olhava para a
porta que ainda não estava fechada atrás de Koremitsu. Seus olhos mostravam um
medo mais nítido e intenso do que antes.
Koremitsu olhou para onde
ela estava olhando.
A chuva parecia ter
aumentado de intensidade, e o som das gotas entrando em seus ouvidos ficava
mais forte. As gotas que caíam de lado respingavam no guarda-chuva no beco e
escorriam dele.
— Desculpe, vou consertar
a porta.
Koremitsu carregou a
porta que estava bamba e se virou para olhar para a garota.
E nesse instante, a
garota desabou de repente, aparentemente caindo depois que as cordas que a
sustentavam se romperam.
— Ei, está tudo bem?
Koremitsu tirou os
sapatos às pressas e correu até lá. O chão tremeu e o lixo encostado na parede
também se mexeu.
— Ei! Recomponha-se!
Ele encarou o rosto da
garota enquanto gritava.
— Droga, está muito
escuro. Não consigo ver nada!
Ele pretendia acender as
luzes e puxou o fio que pendia do teto, porém parecia que a lâmpada estava com
defeito.
— Está tudo bem. Yu é
muito tímida. Ela apenas desmaiou.
Hikaru ficou ao lado de
Koremitsu, encorajando-o.
— VOCÊ CHAMA ISSO DE TUDO
BEM? NÃO FALE COMO SE NÃO TIVESSE NADA A VER COM VOCÊ!
Koremitsu rugiu. O gato de olhos azuis deu de ombros com uma expressão irritada e lambeu as patas dianteiras.
Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...
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