domingo, 6 de setembro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 02 — Capítulo 09

Volume 02: Yugao — Capítulo 09: Já é preocupante quando você desmaia

 

Flores encharcadas pela chuva são verdadeiramente encantadoras e fascinantes. Elas transmitem uma gama vibrante de emoções.

 

Hikaru falou ao lado de Koremitsu, com voz suave.

 

Se aquela voz suspirante tivesse um aroma, sua fragrância elegante se espalharia pelo ar úmido daquele dia chuvoso.

 

— As flores azul claras carregam um orvalho tão doce, e a grama Commelina se esforça tanto para impedir que elas caiam. A Íris continua com um aspecto majestoso, com seu corpo delicado erguido com orgulho. A hortênsia, coberta de cristais de água, parece tão pura e delicada, emitindo uma luz multicolorida... Essas flores ficam muito atraentes durante toda a estação chuvosa.

 

A estação chuvosa chegou mais cedo, nuvens escuras pairavam no céu mesmo no final de maio.

 

Naquela manhã, Koremitsu foi caminhando para a escola pela calçada.

 

Em sua mão levava um guarda-chuva azul-escuro sem brilho e caminhava para a frente com as costas arqueadas. Hikaru flutuava ao seu lado, sem guarda-chuva.

 

O uniforme escolar era composto por um blazer e calças brancas. Esse design opulento e elegante contrastava com a personalidade rude de Koremitsu. Dava a impressão de ser uma peça de alta costura quando usado por Hikaru.

 

— Koremitsu, não acha que as flores e as garotas ficam mais misteriosas e atraentes em dias chuvosos? Sejam os lábios macios sob o guarda-chuva ou o pescoço delicado, os membros brancos e os quadris perfeitos, tudo é tão encantador. As blusas do uniforme encharcadas pela chuva ficam transparentes, revelando as linhas da roupa íntima, fazendo os corações dispararem. O perfume do xampu em seus cabelos molhados também é de se admirar, e faz com que a gente feche os olhos sem querer para apreciar, sabe?

 

— De jeito nenhum.

 

Koremitsu retrucou com um tom amargo.

 

— Por que você cheiraria o cabelo de uma garota sem um bom motivo? É algum pervertido por acaso?

 

Para Koremitsu, ser considerado um excêntrico pelos colegas por falar sozinho era uma preocupação constante, então se abstinha de responder a Hikaru. Porém, não conseguiu se conter e retrucou à tagarelice de Hikaru sobre a relação entre flores e garotas em dias chuvosos.

 

— Seu pervertido, príncipe mulherengo, idiota florido, demônio da pegação, cara que se entrega aos prazeres da própria vida, sonhador pervertido e iludido, grande mentiroso, vigarista.

 

Mesmo enquanto Koremitsu repreendia Hikaru, este tentava manter a voz baixa o suficiente para não ser ouvido pelos outros durante o trajeto para a escola.

 

Hikaru reclamou com uma expressão de dor.

 

— Isso é maldade, Koremitsu! Por que está tão infeliz?

 

Ainda tem coragem de me perguntar por que estou tão infeliz?

 

Koremitsu lançou um olhar fulminante para Hikaru, seus olhos eram tão penetrantes que poderiam aterrorizar outros alunos, mesmo sem o olhar penetrante.

 

— Precisa que eu lhe diga porquê, seu fantasma mentiroso?

 

Certo, Hikaru Mikado era um fantasma.

 

Foi por esse motivo que podia andar sem guarda-chuva em dias de chuva sem ser afetado.

 

Sua camisa estava seca e limpa, e seu blazer, sempre de um branco impecável, seus cabelos castanho-claros ondulavam suavemente sobre seu rosto delicado e feminino.

 

A morte de Hikaru, o garoto aclamado pelos alunos da escola como um príncipe, ocorreu há um mês.

 

Koremitsu havia comparecido ao seu funeral.

 

Isso foi um erro.

 

Foi naquele funeral que se viu assombrado pela presença persistente de Hikaru, seu fantasma.

 

— Prometi à minha noiva que lhe daria presentes de aniversário. Se eu conseguir cumprir esse desejo, poderei ascender ao Céu sem arrependimentos. Por favor, me ajude!

 

Esse pedido incomodou Koremitsu, pois implicava que seria acompanhado por Hikaru constantemente, seria seguido até ao banho e ao banheiro, e por isso, embora relutante, concordou. Apesar da missão ser problemática e bastante irritante, ele a completou como um intermediário.

 

Contudo, Hikaru ainda permanecia por perto.

 

Ele chegou mesmo a continuar dizendo de forma leviana...

 

— Na verdade, ainda há outras 4 ou 5 meninas com as quais estou muito preocupado. Não, talvez 40, 50 delas?

 

Koremitsu nunca concordou em ajudá-lo com isso.

 

Quarenta ou cinquenta delas não são demais? Você realmente gosta de fazer tantas promessas para mulheres? Para pessoas que não são a Aoi? ​​Seu príncipe mulherengo! Casanova! Vá morrer cem vezes!

 

Só o pensamento o enfurecia.

 

— Ok, já deve ter se acalmado, não é? Não tentei te enganar de propósito, também quero subir logo para o Céu. É deprimente não conseguir me ver no espelho. Não importa o quão bem vestido eu esteja, ou o quão bonito eu arrume meu cabelo, continuo sem conseguir me ver. Acho que minha pele está ótima hoje, tão macia. Meu cabelo está sedoso e elegante, e a cutícula deve estar brilhando... Ah, quero ver.

 

Você só se preocupa com coisas assim?

 

— Koremitsu, você não queria que eu desaparecesse, você não estava chorando até não aguentar mais?

 

Sim! Devolva minhas lágrimas! E não estava chorando até não aguentar mais!

 

— Ei, por favor, aceite o meu pedido? Por favor, Koremitsu! Me ajude um pouco mais! Me empreste sua força!

 

Quarenta, cinquenta pessoas não é um pouco mais!

 

Não, se contasse as mulheres que lotavam a funerária de Hikaru...

 

“Na verdade, existem outras 400, 500 delas.” Essa poderia ser a próxima frase de Hikaru.

 

O semblante de Hikaru era sem dúvida inocente e afeminado, no entanto era um verdadeiro Casanova. Koremitsu não queria mais nenhum envolvimento com ele.

 

— Eu me recuso. Não quero me aproximar de mulheres para resolver seus problemas.

 

Koremitsu resmungou, franzindo a testa, e Hikaru arregalou os olhos em choque.

 

— Oh? Ainda não entende os encantos de uma mulher? Te ouvi dizer que a senhorita Aoi é muito fofa.

 

— Eh...

 

O rosto de Koremitsu ficou ainda mais vermelho com suas palavras.

 

Era verdade que achava as diversas expressões de Aoi adoráveis. Ele a acompanhara ao parque temático no lugar de Hikaru, e quando a abraçou, sentindo seu corpo delicado e esguio, seu coração acelerou involuntariamente.

 

Após enfim aceitar Koremitsu como amigo de Hikaru, ela abriu seu coração e até mesmo lhe dedicou um sorriso tímido.

 

Sempre que se encontravam no portão da escola, ela corava e o cumprimentava educadamente com uma expressão bem-intencionada.

 

— Bom dia, Sr. Akagi.

 

Assim, depois da aula, ia para a sala de arte todos os dias e trabalhava em suas pinturas de Hikaru. Ela e os outros membros do clube tinham um relacionamento melhor agora do que antes.

 

Era verdade que Aoi era fofa.

 

O problema, todavia, era sua colega de classe...

 

Ao pensar naquela garota impetuosa de olhos penetrantes, seus lábios torceram em desagrado.

 

— Ah, senhorita Shikibu!

 

Ao avistá-la, Hikaru chamou uma garota que segurava um guarda-chuva xadrez vermelho e roxo.

 

As veias na testa de Koremitsu saltaram.

 

— Está vendo, Koremitsu? É a senhorita Shikibu. Vá cumprimentá-la!

 

Hikaru a chamou, incentivando Koremitsu energicamente a fazer o mesmo. Ele ignorou a carranca de Koremitsu, seja porque não a viu ou porque essa era a expressão que sempre tinha no rosto.

 

— Uwahh, as pernas da senhorita Shikibu são lindas, afinal! São pernas muito bonitas, esbeltas e retas. Parece cheia de vida quando caminha. Realmente me alegra.

 

O estômago de Koremitsu se contraiu com os aplausos efusivos de Hikaru e os músculos ao redor de sua boca enrijeceram.

 

— Koremitsu? Por que está olhando para a senhorita Shikibu desse jeito?

 

Hikaru, ao perceber que algo estava errado, ficou perplexo.

 

Ao mesmo tempo, Honoka, que estava prestes a atravessar o portão para entrar no terreno da escola, notou Koremitsu.

 

Koremitsu se tensionou instintivamente.

 

Eles se encararam.

 

As sobrancelhas de Honoka estavam levemente arqueadas em um gesto de orgulho, seus olhos semicerrados revelando uma expressão geral de infelicidade. Os cantos de sua boca se curvaram para baixo.

 

Os lábios de Koremitsu se contraíram em resposta.

 

Mas mesmo assim...

 

— O-Olá.

 

Ele a cumprimentou.

 

— ...

 

Hmph. Honoka bufou, virou-se e saiu.

 

Ei! Está fingindo que não viu um colega te cumprimentando aqui?

 

Mais uma vez suas veias saltaram, e saiu trotando atrás dela.

 

Quando alguém te cumprimenta, você tem que retribuir o cumprimento! Não deveria saber uma cortesia tão básica? O que eu fiz de errado? Por que está tão brava comigo?

 

Ele cerrou os dentes e caminhou até ficar ao lado dela.

 

Honoka ergueu ainda mais as sobrancelhas, apressando o passo. Ela respondeu à perseguição veemente de Koremitsu fugindo mais rápido. Quando a alcançou de novo, Honoka disparou na frente.

 

Os dois competiram em uma corrida, cada um tentando ultrapassar o outro.

 

— ...

 

— Kuuu!

 

Caramba, como é que estou perdendo para uma mulher?

 

Ele caminhou para a frente, esquecendo-se do seu objetivo nesse processo.

 

— Koremitsu, por que está ofegante e suando tanto tão cedo de manhã... Vai ter muita gente olhando para você, sabia?

 

Hikaru o lembrou em um tom gentil.

 

Seu semblante selvagem herdado e sua aura nefasta renderam a Koremitsu apelidos aterrorizantes durante seus anos no Ensino Fundamental. Esses apelidos foram levados para a Academia Heian, onde era chamado de “Cão do Inferno” e “Rei dos Delinquentes”, e era alvo de fofocas.

 

Se alguém o visse como estava, é provável que dissesse algo como...

 

— O calouro Akagi está perseguindo uma garota com um olhar carnívoro no rosto, como uma fera selvagem!

 

— Não me siga, seu delinquente!

 

Honoka parou em frente à escada, apontando o guarda-chuva para Koremitsu e sacudindo a água restante em sua direção.

 

— O QUE VOCÊ ESTÁ DIZENDO? ACHA QUE ESTOU DISPOSTO? É PORQUE ESTOU NA MESMA SALA, SENTADO BEM AO SEU LADO! E NÃO SOU UM DELINQUENTE!

 

— Você tem a aparência perfeita para o papel de delinquente, com esse seu rosto!

 

Honoka terminou sua frase de forma cruel e sacudiu seus cabelos bege-claros... A cor lembrou Koremitsu de um rato morto, antes de caminhar até seu armário de sapatos.

 

Que tipo de atitude é essa? Depois de tudo não existem mulheres boas!

 

Quando ela conversou seriamente com ele sobre Aoi, Koremitsu sentiu, pela primeira vez, que existiam mulheres boas e pretendia deixar de usar bordão de seu avô misógino: “É por isso que eu digo, mulheres...!”

 

Contudo, devido ao sofrimento que Honoka lhe causou na semana anterior, essa ideia foi rejeitada.

 

— VIU, HIKARU? TODAS AS MULHERES SÃO ASSIM! NÃO QUERO ME ENVOLVER COM ANIMAIS TÃO IRREVERSÍVEIS, NEM QUE ISSO ME IMPORTE!

 

Koremitsu estava tão exasperado que reagiu com agressividade, sem se importar com os olhares que lhe eram dirigidos.

 

— Ah... Bem, no entanto tem que assumir um pouco de responsabilidade pelo fato da senhorita Shikibu estar sendo tão antipática com você. Hmm, acho que já falei demais, não é?

 

Ele falou com hesitação.

 

— O quê? Por que está sendo tão indeciso sendo homem?

 

— Sim, é melhor ficar quieto, senão seria ofensivo para a senhorita Shikibu. Tudo bem, sei que vai entender depois, antes do seu aniversário de 18 anos... Talvez.

 

Hikaru esboçou um sorriso enigmático.

 

Honoka ainda estava perto de seu armário de sapatos e cumprimentava suas amigas com tanta alegria que Koremitsu suspeitou que tivesse transtorno de personalidade múltipla.

 

— Bom dia, Michiru.

 

— Ah, bom dia, Hono...!

 

— Trouxe o DVD que disse que queria assistir da última vez!

 

— Wah, obrigada, Hono.

 

A garota de aparência responsável, com tranças curtas e óculos de armação grande, era a representante de classe. Todos a chamavam de “representante”, exceto Honoka, que a chamava pelo nome.

 

Ei, ela é tão fria comigo e totalmente diferente com as outras!

 

A queixa de Koremitsu resultou em um olhar fulminante e, quando a representante de classe de cabelos trançados percebeu, deu um pulo de medo.

 

— Ah... B-B-B-B-B-B-B-Bom dia, Sr. Akagi.

 

A garota balbuciou uma saudação.

 

— Olá.

 

Foi impressionante que conseguisse cumprimentá-lo, o delinquente odiado e temido, de forma adequada. Era uma representante de classe exemplar e fazia jus ao título, não desviando o olhar e tremendo de medo de Koremitsu.

 

— Michiru, por que está cumprimentando alguém como o Koremitsu?

 

Honoka disse, infeliz.

 

Essa mulher me irrita profundamente! As veias de Koremitsu saltaram mais uma vez.

 

— Hã? Lorde Hikaru foi assassinado?

 

A pergunta repentina chocou Koremitsu.

 

Hikaru estava ao seu lado, imóvel e sombrio, com os olhos semicerrados.

 

Várias garotas conversavam no corredor, parecendo bastante agitadas.

 

— Esta mensagem diz que não foi um acidente, e sim um assassinato!

 

— Impossível! Será mensagens maliciosas?

 

— Parece suspeito!

 

— É estranho que tenha caído no rio num dia chuvoso. Por que alguém em sã consciência iria para a beira do rio quando estava chovendo tanto?

 

— Sim!

 

— Será que Lorde Hikaru foi realmente morto por alguém?

 

— Ei...

 

Assim que Koremitsu começou a se aproximar delas...

 

A melodia do maior sucesso de uma banda famosa soou.

 

O som vinha do celular de Honoka.

 

Com uma expressão de desagrado, ela tirou o celular do bolso da saia e olhou para a tela.

 

Após pressionar alguns botões...

 

— O que é isso...

 

O desânimo era palpável em sua voz.

 

— Qual é o problema, Hono?

 

Michiru olhou para o celular de Honoka e seus olhos se arregalaram em surpresa.


 

— Ho-Ho-Ho-Hono! Erm... I-Isso está falando sobre o Lorde Hikaru...

 

— Deixe-me ver!

 

Koremitsu caminhou até o lado de Michiru e olhou para o celular de Honoka.

 

A pequena tela exibia palavras chocantes.

 

“A morte de Lorde Hikaru não foi um acidente, foi um assassinato.

O assassino está na Academia Heian.”

 

— ...!

 

Koremitsu engoliu em seco enquanto o som de toques de celular preenchia o ar.

 

***

 

“Hikaru Mikado foi assassinado por alguém da escola!”

 

Esta mensagem foi enviada pela primeira vez na noite passada, entretanto na manhã seguinte, o boato já havia chegado aos ouvidos de todos os alunos da Academia Heian. Durante os intervalos, os corredores se encheram de teorias sobre a identidade do culpado.

 

— Talvez um garoto tenha feito isso por vingança porque sua namorada foi levada pelo Lorde Hikaru?

 

— Não, deve ter sido uma garota dispensada por aquele príncipe mulherengo.

 

— O assassino está na unidade do Ensino Médio, certo?

 

— Talvez o culpado esteja no Ensino Fundamental II, ou até mesmo na faculdade.

 

— Pode até ser um professor.

 

Koremitsu caminhava cabisbaixo, e essas especulações não melhoravam seu humor. Ele foi até o telhado, ignorando o fato de que a entrada era proibida.

 

O céu que o recebeu estava tenebroso, e dele caía uma cascata constante de chuva.

 

Estava no telhado, não muito longe da porta, e encostou-se na parede para se proteger da chuva. Logo, interrogou Hikaru em voz baixa.

 

— Você não caiu em um rio e se afogou? Alguém te matou?

 

Hiina Oumi, do clube de notícias, já havia mencionado isso antes.

 

— É só... Um pequeno boato... No entanto Lorde Hikaru não morreu em um acidente, e na verdade foi assassinado.

 

Ela chegou a dizer que estava investigando esses rumores.

 

Hikaru apenas ignorou os rumores.

 

— Sou um príncipe mulherengo que sai por aí se envolvendo com garotas... Sendo assim, acho que deve haver muitas garotas que querem me matar.

 

Sua resposta veio acompanhada de um tom incomumente maduro.

 

Seus olhos estavam opacos, e não havia sinal de confirmação nem de negação.

 

Depois disso, Koremitsu não encontrou oportunidade para questioná-lo adequadamente, então não deu importância ao assunto, considerando-o apenas um rumor infundado.

 

Não esperava que tais mensagens causassem tanta repercussão.

 

Quem enviou essas mensagens e por qual motivo?

 

Havia algum fundo de verdade nesses rumores?

 

A reação de Koremitsu à mensagem, uma rigidez desagradável em sua expressão facial, contrastava com a expressão impassível de Hikaru.

 

Ele permaneceu em silêncio, apenas sorrindo, o que era estranho para um sujeito tão falante. Após um momento de silêncio, murmurou para si mesmo.

 

— Quem enviou isso?

 

E então retomou o silêncio.

 

Koremitsu não sabia como reagir ao estado de transe de Hikaru... Não sabia se devia perguntar o que havia acontecido ou não. Sentia um enjoo terrível no estômago, e uma dor tão intensa que lhe dava náuseas.

 

Se o Hikaru não quer falar, é melhor não perguntar...

 

Foi então que Koremitsu chegou ao telhado, poderia perguntar agora, sem se preocupar que outros o ouvissem, mas ainda assim estava hesitante.

 

Talvez isso explique por que ele não consegue ascender ao Céu e continua se agarrando a mim. Algumas coisas são melhor ditas por outra pessoa, então só posso exercer um pouco de pressão...

 

Koremitsu tinha a aparência de um delinquente desde que nasceu. Era por essa razão, e talvez por nenhuma outra, que seus colegas de classe se mantinham distantes. Hikaru era seu único amigo, e o único amigo que já tivera.

 

Era inexperiente em relacionamentos interpessoais e não tinha certeza de quanta informação poderia legitimamente solicitar a Hikaru sem magoá-lo.

 

Havia muitas coisas que Koremitsu não entendia.

 

Ele abandonou qualquer esperança de abordar o assunto com delicadeza e decidiu ir direto ao ponto.

 

Queria ouvir a resposta desse suposto cavalheiro, desse encrenqueiro insondável. Queria saber o que seu amigo estava pensando.

 

— O que você acha, Hikaru?

 

Suas palavras saíram de sua boca de forma desajeitada em meio à chuva silenciosa, e observou Hikaru.

 

Hikaru não virou a cabeça, apenas esboçou um pequeno sorriso. Suas belas sobrancelhas se franziram. Era um sorriso frágil e solitário.

 

— Isto é preocupante.

 

As palavras murmuradas vieram por trás do seu sorriso.

 

— Por que esses rumores precisam surgir agora? A causa da minha morte é irrelevante, o que importa é que estou morto.

 

O coração de Koremitsu batia forte.

 

Está tentando evitar esse assunto outra vez?

 

— Porém, Koremitsu...

 

Hikaru aos poucos voltou seu olhar para Koremitsu.

 

Hã?

 

Seus traços elegantes se compunham em uma expressão séria, e falou com Koremitsu, que o ouviu atentamente.

 

— Se eu dissesse que fui assassinado, você prenderia meu assassino?

 

***

 

Este apartamento está bastante deteriorado.

 

Koremitsu segurava seu guarda-chuva, com a mochila a tiracolo, e encarava o prédio à sua frente.

 

Foi depois da aula.

 

O antigo bloco de apartamentos de madeira onde estava ficava a vinte minutos a pé da escola. Os prédios davam a impressão de que desabariam sob a pressão da brisa mais leve.

 

Os apartamentos do quarteirão tinham todos dois andares, o quarteirão era dividido em quatro complexos de apartamentos separados. A cerca e as sebes eram de madeira compensada, e as paredes cinzentas estavam cheias de rachaduras. No entanto, tudo parecia ainda mais dilapidado devido à penumbra do dia chuvoso. A atmosfera lembrava muito a de um filme de terror.

 

Minha casa já é bem velha, contudo isso é até pior...

 

Talvez este fosse realmente o esconderijo do assassino de Hikaru.

 

— Você vai capturar meu assassino?

 

Hikaru perguntou.

 

— Você sabe onde está o assassino?

 

Os olhos de Koremitsu estavam arregalados, no entanto não tinha certeza se Hikaru realmente havia sido assassinado ou não.

 

— Hmm... Também não tenho muita certeza. Só tenho a sensação de que o assassino está lá.

 

A resposta de Hikaru foi incerta.

 

— Certo, vou chamar a polícia!

 

Koremitsu imediatamente pegou o celular, entretanto Hikaru o interrompeu, dizendo...

 

— Não tenho certeza, e se o assassino não estiver lá, você será repreendido pela polícia. Além do mais, por que quer chamar a polícia para revistar a residência do assassino?

 

— Uuh...

 

Era verdade que não podia dizer que estava sendo instruído por um fantasma.

 

— De qualquer forma, vamos entrar e verificar a situação.

 

Como pode dizer isso de forma tão despreocupada?

 

Embora Koremitsu não pudesse concordar facilmente com isso, Hikaru estava sem dúvida falando sério e sendo fervoroso o suficiente para preocupá-lo. Não havia nada que pudesse fazer a não ser seguir suas instruções a contragosto.

 

— Tem certeza de que é neste acabado... Hmm, quero dizer, nessa relíquia, que é como um material histórico?

 

Koremitsu o interrogou mais uma vez.

 

O humor de Hikaru era diferente do que Koremitsu estava acostumado, e vinha sendo assim desde que passaram pelos portões da escola na saída. Ele olhou para a cerca suja, manchada de preto pela chuva, com uma mistura de nostalgia e serenidade no rosto.

 

— Sim, sem dúvida. Está vendo as flores brancas desabrochando ao pé do muro? Elas estão tremendo, encharcadas pela chuva.

 

— Essas flores robustas estão desabrochando de novo... — disse ele, fazendo uma expressão sonhadora e vaga.

 

— Não vamos falar de flores agora.

 

Koremitsu ficou um pouco horrorizado.

 

— Qual apartamento?

 

— O último do primeiro andar.

 

As cortinas daquele quarto estavam fechadas, e o quarto estava todo escuro lá dentro.

 

Porém parecia haver alguém se mexendo lá dentro, e Koremitsu estreitou os olhos, sendo cauteloso.

 

— Muito bem, vamos lá.

 

Eles atravessaram a cerca e caminharam até a última porta daquele prédio.

 

O quarto e a residência atrás quase se grudavam, as sombras envolviam o beco e a visibilidade era precária. Koremitsu estava tão tenso que estava prestes a ter cãibras.

 

Eles pararam na última porta.

 

Como não havia campainha, só pôde bater na porta.

 

Não houve resposta.

 

Não tem ninguém lá dentro? Não, achei que tinha visto alguém se mexendo atrás da cortina...

 

Kooonn... E houve um pequeno baque vindo de dentro.

 

O som era baixo e suave... Quase inaudível.

 

Koremitsu estava tão tenso que sentia coceira na nuca.

 

— Desculpe incomodar. Posso ter um momento?

 

Ele resmungou e tornou a bater na porta.

 

Uma voz suave veio de debaixo da porta.

 

Parece estranho por algum motivo.

 

Por que ninguém abriu a porta, mesmo havendo um barulho vindo de dentro? A localização do som também era muito peculiar.

 

Parece que veio de baixo... Será que a pessoa desmaiou?

 

Talvez houvesse alguém com os membros amarrados, a boca amordaçada, agachado junto à porta, tentando ao máximo bater na porta com o ombro e a cabeça.

 

Essa imagem passou pela mente de Koremitsu, que logo se apressou em agarrar a maçaneta da porta e a girou com força.

 

Seu guarda-chuva caiu de suas mãos e foi parar no beco.

 

— O que houve? Aconteceu alguma coisa?

 

Não houve resposta, entretanto pareceu ouvir um gemido, e quanto mais ouvia aquilo, mais entrava em pânico.

 

— Maldição!

 

Tentou girar e forçar a porta enquanto batia nela com força. O trinco devia estar velho demais, pois se soltou em seguida e a porta caiu com um baque surdo. A porta estava aberta!

 

Ele entrou correndo logo depois.

 

— Você está bem?

 

Havia um fogão e uma pia de um lado do corredor, enquanto a cozinha ficava do outro.

 

Este quarto apertado, do tamanho de seis tatames, estava sem luz e a visibilidade era péssima. Era quase um lixão, com coisas espalhadas por toda parte, tanto móveis quanto lixo.

 

— Hã, hein...?

 

Não tem ninguém aqui dentro?

 

Impossível...

 

Justo quando Koremitsu ficou atônito...

 

— Miau...

 

De repente, ouviu um miado a seus pés.

 

Ao abaixar a cabeça, encontrou um gato branco sentado ali, despreocupado, com os olhos emitindo um brilho estranho na escuridão.

 

Será que as batidas e os gemidos foram feitos por esse gato?

 

Oops, estraguei a porta de alguém.

 

Suor frio escorria pelas costas de Koremitsu, e encontrou algo encolhido em forma de bola nas sombras.

 

— ...!

 

Ele engasgou novamente, em choque.

 

Assim que seus olhos se acostumaram à escuridão, aos poucos conseguiu enxergar a situação no quarto.

 

Havia uma cama de beliche à esquerda.

 

Bem em frente a ele havia uma janela com as cortinas fechadas.

 

Havia uma mesa redonda e baixa no meio da sala, com um tablet em cima. Seriam os objetos à direita um ventilador, uma cadeira, um guarda-roupa, um armário, uma bolsa de golfe? Além desses objetos aleatórios, havia algumas fotos e papéis colados na parede.

 

Também...

 

Havia algo com formato de colina no espaço vazio entre o armário e o ventilador.

 

Um cobertor?

 

Não, era alguém enrolado num cobertor... Uma menina.

 

Ela estava agachada junto à parede, e um pouco de sua pele branca e macia aparecia por baixo do tapete enquanto olhava para Koremitsu com uma expressão preocupada... A garota encarava o jovem ruivo que arrombou a porta e entrou sem ser convidado.

 

O quê?

 

Quem é essa pessoa?

 

O que estava fazendo ali?

 

A mente de Koremitsu estava repleta de perguntas.

 

Vim aqui para pegar o assassino de Hikaru, certo? Essa garota é a assassina? Ela parece um pouco frágil demais.

 

Atônito, seu olhar se voltou para Hikaru.

 

Hikaru, no entanto, passou por Koremitsu com uma expressão relaxada e aproximou-se da garota.

 

Somente Koremitsu conseguia ver a alma de Hikaru.

 

A menina usou suas pequenas mãos para puxar delicadamente o cobertor enquanto espiava Koremitsu. Os longos fios de cabelo que escapavam do cobriam seu rosto e testa.

 

Hikaru agachou-se em frente à menina e, com uma expressão carinhosa e gentil, disse.

 

— Não tenha medo, Yu. Koremitsu é meu amigo de confiança aqui. Ele cumprirá a “promessa” em meu lugar.

 

Ao ouvir aquilo, Koremitsu percebeu que havia sido enganado.

 

Seu vigarista! Príncipe mentiroso de merda! O que quis dizer com “vai pegar meu assassino”? Estava agindo todo sério só pra me enganar, não é? Vá para o inferno agora e deixe o rei do inferno cortar sua língua!

 

Koremitsu praguejou com rancor em seu coração.

 

Mas, por mais enfurecido que estivesse, não conseguia mudar a situação atual.

 

Mesmo que tentasse dar um soco em Hikaru, o soco só atravessaria seu corpo, não causaria coceira nem dor, um ato que apenas o faria parecer ainda mais tolo.

 

Além disso, a garota, que não conseguia ver Hikaru, olhava para Koremitsu com cautela.

 

Até mesmo o gato branco levantou a cabeça, parecendo avaliar Koremitsu enquanto o encarava com olhos frios.

 

Ei, o que faço agora?

 

Koremitsu estava tenso, suando profusamente enquanto rangia os dentes.

 

Hikaru ajoelhou-se ao lado da garota e sorriu com a intenção de dizer “Deixo o resto com você”.

 

Droga, por que está sorrindo?

 

Koremitsu fez o possível para conter o rugido que quase escapou de sua boca e ficou parado no corredor para explicar a situação à garota.

 

— Ah, bem... Não sou uma pessoa má, sou amigo do Hikaru, e ele me pediu para te procurar.

 

— Chuva...

 

A voz suave, que quase se fundia com a escuridão, escapou dos lábios da garota.

 

— Hã? Chuva?

 

A garota olhava para a porta que ainda não estava fechada atrás de Koremitsu. Seus olhos mostravam um medo mais nítido e intenso do que antes.

 

Koremitsu olhou para onde ela estava olhando.

 

A chuva parecia ter aumentado de intensidade, e o som das gotas entrando em seus ouvidos ficava mais forte. As gotas que caíam de lado respingavam no guarda-chuva no beco e escorriam dele.

 

— Desculpe, vou consertar a porta.

 

Koremitsu carregou a porta que estava bamba e se virou para olhar para a garota.

 

E nesse instante, a garota desabou de repente, aparentemente caindo depois que as cordas que a sustentavam se romperam.

 

— Ei, está tudo bem?

 

Koremitsu tirou os sapatos às pressas e correu até lá. O chão tremeu e o lixo encostado na parede também se mexeu.

 

— Ei! Recomponha-se!

 

Ele encarou o rosto da garota enquanto gritava.

 

— Droga, está muito escuro. Não consigo ver nada!

 

Ele pretendia acender as luzes e puxou o fio que pendia do teto, porém parecia que a lâmpada estava com defeito.

 

— Está tudo bem. Yu é muito tímida. Ela apenas desmaiou.

 

Hikaru ficou ao lado de Koremitsu, encorajando-o.

 

— VOCÊ CHAMA ISSO DE TUDO BEM? NÃO FALE COMO SE NÃO TIVESSE NADA A VER COM VOCÊ!

 

Koremitsu rugiu. O gato de olhos azuis deu de ombros com uma expressão irritada e lambeu as patas dianteiras.


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