Primeira Temporada — Capítulo 31: Primeira Caçada
Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Trinta e Um: Primeira Caçada.
JONATHAN SIMS
Depoimento de Lawrence Mortimer, referente à sua viagem de caça a Blue Ridge, na Virgínia. Depoimento original prestado em 9 de dezembro de 2010. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, em Londres.
Início do depoimento.
JONATHAN SIMS (Depoimento)
Sempre quis ir caçar. Parecia uma atividade tão... Masculina. Digo, matar um cervo, um alce ou qualquer outra coisa nunca foi o ponto principal, era a ideia de partir rumo à natureza selvagem, sobreviver por lá, cozinhar e comer o que você mesmo caçou... Tudo isso parecia uma grande aventura. Pensei em tentar aqui no país, mas atirar em faisões com espingardas ou perseguir raposas a cavalo parecia algo restrito a... Hmm, uns sujeitos idiotas vestidos com casacos de lã. Então, se quisesse caçar, teria que ir para outro país. Algum lugar que tivesse animais que valessem a pena perseguir. Pensando bem, acho que foi o que aconteceu no final, de uma forma um tanto perversa. E acabou custando a vida do pobre Arden.
Bom, meu desejo de caçar sempre foi um daqueles projetos para “algum dia”. Sabe como é, né? Aquelas ideias que a gente tem, férias que planejamos tirar “em algum momento no futuro”, porém que não têm data marcada e que acabamos sempre adiando por causa de coisas mais urgentes. Então, quando fiz cinquenta anos, em fevereiro, pensei, “Quer saber? Vou caçar antes de bater as botas!” Quando contei aos meus amigos, todos acharam que eu tinha enlouquecido, contudo lembrei a eles que não são só os jovens que podem ser impulsivos e tolos.
Enfim, nos últimos anos, tornei-me muito amigo de um americano. Arden Neeli, esse era o seu nome. Nos conhecemos em um fórum online para céticos e nos demos muito bem logo de cara. Quando comentei que estava pensando em fazer algumas viagens de caça, Arden me perguntou se tinha algum problema com trilhas. Respondi que não, que sempre fui uma pessoa bem ativa. Então me contou que, na Virgínia, seu estado natal, havia ótimos lugares para caçar, desde que não me importasse em esperar até outubro ou novembro. Como não esperava que a própria Morte viesse bater à minha porta durante esse meio tempo, achei a ideia excelente.
Conversamos bastante sobre o assunto e, por fim, decidimos fazer uma caminhada de três dias pela região de Blue Ridge, na Trilha dos Apalaches, para ver se encontrávamos um cervo ou um alce para eu caçar. Natureza, isolamento e armas... Para mim, soava simplesmente perfeito.
Então, no início do mês passado, fiz as malas e peguei um avião para a Virgínia. O tempo estava frio, no entanto, fora isso, agradável. Para ser sincero, me surpreendeu o quanto a sensação era parecida com a de Torquay em novembro. Normalmente, moro em Torquay. Acho que mencionei no formulário que preenchi. Se mencionei, não faz mal ter a informação registrada duas vezes. Entretanto, não estava preparado para conhecer Arden em pessoa. Nunca tinha encontrado um amigo da internet na vida real, e ele era muito mais barulhento e extrovertido do que imaginei, considerando as conversas ponderadas e atenciosas que havíamos trocado antes. Sempre rindo de tudo o que eu dizia, como se fosse uma piada, mesmo quando não era, e não parava de comentar sobre o meu sotaque.
Ainda assim, tudo foi perdoado quando me mostrou seu armário de armas. Eram lindas. Apesar de eu fazer parte de alguns clubes de tiro por aqui, lá é preciso manter os rifles sempre trancados e bem escondidos. Ver uma dúzia de armas, muito bem cuidadas e exibidas com orgulho... Foi simplesmente fantástico.
No dia seguinte, partimos da sua casa, em Richmond, rumo a Blue Ridge. Levamos um bom tempo para chegar... Nos Estados Unidos, as distâncias são muito maiores... Mas estacionamos em Crabtree Falls pouco depois do meio-dia. Levávamos nossas barracas e suprimentos. Estava muito empolgado para vestir meu traje laranja de caçador e pegar meu rifle. Estava com um Winchester M70, li que é um modelo excelente para iniciantes, enquanto Arden levava um Remington Modelo 673, sua arma favorita, sobre a qual falou por um bom tempo comigo. E lá fomos nós, subindo a trilha.
Nosso primeiro dia não foi bem-sucedido. Me sentia um tanto desajeitado, embora Arden tenha insistido que o fracasso se devia apenas ao fato de estarmos muito próximos de uma estrada, tinha certeza de que eram os meus passos pesados que estavam espantando os animais. Quer dizer, não tínhamos avançado muito em relação à rota planejada, contudo já estávamos a vários quilômetros da estrada mais próxima.
Com o passar do dia, começamos a procurar um lugar para montar acampamento. Estávamos tentando seguir o princípio de “não deixar rastros”, como dizem os americanos, então provavelmente montaríamos as barracas na própria trilha. No entanto, no momento em que começamos a tirá-las, ouvi algo muito estranho. Parecia alguém assobiando, uma versão lenta de uma melodia que lembrava “The Farmer in the Dell” ou, como é mais conhecida, “A-Hunting We Shall Go”.
Olhei para o lado e, pela expressão de perplexidade no rosto de Arden, ficou claro que também tinha ouvido. Estive prestes a chamar quem quer que estivesse assobiando, quando uma figura surgiu, de forma bem casual, por entre as árvores e entrou na trilha. Saiu da mata fechada como se estivesse apenas passeando por um calçadão. Era baixo e magro, com cabelos pretos, longos e desalinhados, e um cavanhaque um tanto desleixado. Suas roupas eram do tipo resistente e durável que se esperaria ver em um trilheiro, entretanto não usava jaqueta nem casaco. Não carregava mochila, nem qualquer tipo de equipamento. Na verdade, parecia que estava apenas perambulando pela floresta, vestindo apenas a roupa que trazia no corpo.
Arden percebeu isso antes de mim e perguntou ao homem se precisava de ajuda. O sujeito ficou encarando-o por longos segundos, como se tentasse deduzir algo, depois sorriu e disse.
— Não.
Não gostei nem um pouco daquele sorriso. Tinha dentes demais, eu diria. Ele nos perguntou para onde estávamos indo e há quanto tempo estávamos na trilha. Havia algo sutilmente estranho na sua entonação. Ele arrastava os “R” ao falar. Respondemos da forma mais vaga possível, sem sermos rudes, já que nenhum de nós se sentia à vontade perto daquele homem.
O trilheiro deu de ombros e começou a atravessar a trilha, passando entre nós. No caminho, parou por um segundo e respirou fundo, deu a nítida impressão de que estava nos cheirando. Depois, disse alguma coisa, não me lembro exatamente o quê. “Amanhã será um bom dia para uma corrida”, ou coisa do tipo. Em seguida, voltou a assobiar e seguiu floresta adentro, atrás de nós. Acho que tanto eu quanto Arden queríamos detê-lo, era evidente que algo não estava certo ali, todavia ficamos tão atônitos com o seu comportamento que nenhum de nós soube como reagir. E, de repente, ele sumiu.
Nem preciso dizer que foi difícil dormir. Os sons da floresta à noite eram muito mais intensos do que qualquer coisa a que estivesse acostumado em casa. Cada galho estalando, cada farfalhar de folhas, deixava meus nervos à flor da pele. A noite estava nublada e, do lado de fora da barraca, a escuridão era quase total. Por volta das duas da manhã, juro que ouvi alguém rir, uma risada lenta e suave, do lado de fora da minha barraca. Parecia vir de bem perto da minha cabeça, logo do outro lado da fina parede de náilon. Quando enfim criei coragem para verificar, é claro, não havia ninguém ali.
No dia seguinte, desmontamos o acampamento e voltamos à caçada, vestindo nossos coletes laranja-berrante e empunhando nossos rifles. Devo admitir que me senti muito mais seguro com o peso da arma nos braços, e decidi deixar para trás os acontecimentos da noite anterior. Na verdade, passamos a manhã caminhando, brincando e, por duas vezes, quase conseguindo abater um alce. Parecia que estávamos nos divertindo muito. Eram umas quatro da tarde, com o sol começando a descer em direção ao crepúsculo de um início de outono, quando avistei o meu alce. Não sei explicar por quê, mas ao vê-lo por entre as árvores, tive a certeza de que seria meu. Avisei Arden, e começamos a nos aproximar, bem devagar. Ele vinha me orientando desde ontem, não demorou muito para que assumisse minha posição e levantasse a arma. Mirei logo abaixo da orelha e, por um instante, o animal virou a cabeça direto para mim. Juro que olhou nos meus olhos bem no momento em que me preparava para apertar o gatilho.
Um disparo ecoou, porém não veio da minha arma. O alce assustou-se e fugiu. Girei o corpo, contudo Arden não estava em lugar nenhum. O som do tiro seguia ressoando entre as árvores, no entanto Arden parecia ter desaparecido. Comecei a procurá-lo desesperado. Será que... Será que foi atraído para longe por outro alce? Teria sido atingido acidentalmente por outros caçadores? Chamei o seu nome, entretanto não tive resposta.
Por fim, após minutos de uma busca desesperada, cheguei a uma pequena clareira. Lá, encostado em uma das árvores, estava Arden. Estava morto. A árvore atrás dele estava manchada de carmesim, e havia um buraco irregular no centro de sua garganta, como se ela tivesse sido arrancada por completo. Seu rifle estava caído ao lado, também coberto de sangue. Parece bobagem dizer isso agora, todavia meu primeiro impulso foi verificar se ainda tinha pulso. Por isso, deixei minha arma de lado. Claro, não havia pulso, apenas não conseguia entender o que estava acontecendo. Foram menos de três minutos, ele estava ali comigo, vivo e ileso. Não fazia sentido.
Foi então que ouvi aquele assobio. Aquele assobio infernal vindo da orla da floresta. Virei-me e vi o trilheiro. Sua mão direita estava suja com o sangue de Arden, e sorriu para mim. Em seguida, começou a correr em disparada. Sua velocidade era absurda, avançava de um lado para o outro, em um movimento de zigue-zague. Corri. Sei que deveria ter pego minha arma, mas é impossível compreender o quão aterrorizante é ter algo assim... Um verdadeiro predador, correndo em sua direção com toda a velocidade. É a própria morte avançando contra você como um trem desgovernado. Não faz ideia do que significa ser uma presa. Então corri.
Dei meia-volta, deixando para trás minha mochila e minha arma, e disparei floresta adentro. Não olhei para trás, não podia. Precisava de toda a minha concentração para manter o equilíbrio e não tropeçar. De vez em quando, o ouvia logo atrás de mim, enquanto avançava por um arbusto ou raspava em alguma árvore. Acredito que o fazia de propósito, sabe? Para que soubesse que ainda estava ali. Não havia a menor chance de eu o vencer naquela corrida, porém acredito que devia estar brincando comigo. Depois de um tempo, parei de ouvi-lo logo atrás de mim, então diminuí o passo para recuperar o fôlego. Estou em boa forma, como costumo dizer, só que já não sou um homem jovem e me sentia tonto de exaustão.
Sentei-me ali, tão atento a qualquer sinal de perigo, qualquer sinal daquele homem, que mal percebi a chegada da noite. Não havia nuvens naquela noite, o que foi uma sorte, já que tinha deixado minha lanterna junto com a mochila. Se precisasse correr durante a noite, dependeria da luz da lua para enxergar. É claro que qualquer trilheiro experiente diria para nunca caminhar pela floresta à noite... E, obviamente, nunca correr por ela, contudo não tinha escolha, caso a situação exigisse. E, claro, exigiu. Não tinha passado nem meia hora desde o anoitecer quando ouvi de novo... Aquele... Assobio. Depois, as palavras vieram flutuando por entre as árvores, embora com um tom grave, profundo... “Em uma caçada nós vamos, em uma caçada nós vamos”.
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| Arte por kazoosnow. |
E, mais uma vez, saí correndo. Pela lógica, deveria ter quebrado o pescoço, disparando daquele jeito na escuridão. Deveria ter tropeçado em uma raiz ou enfiado o pé em uma toca de coelho. Deveria, no mínimo, ter torcido o tornozelo. Entretanto, de alguma forma, nada disso aconteceu. Corri, corri e, bem, continuei correndo. O que, é claro, não adiantou de nada. No escuro, continuava muito mais lento do que durante o dia, e era evidente que meu perseguidor poderia me ultrapassar com facilidade se quisesse. Por diversas vezes, ouvi aquela canção vindo à minha frente e mudei de direção bruscamente para evitá-la, até que me vi perdido.
Por fim, atravessei a linha das árvores. A princípio, pensei ter encontrado outra clareira, só que ao olhar para baixo percebi que estava ao lado do corpo mutilado de Arden. Aquela criatura maldita tinha me feito andar em círculos. Por diversão. Pelo prazer da caçada. Me sentia exausto, aterrorizado, coberto de arranhões e hematomas por todo o corpo... E tudo para quê? Continuava condenado à morte.
Me virei para encarar meu destino e, pela primeira vez naquela noite, consegui observar bem o meu caçador. A luz do luar iluminava-o por completo, e o que vi não era humano. É difícil descrever com precisão, mas tudo nele parecia mais afiado... Os dedos, os dentes, o rosto, os olhos. Até a pele.
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| Arte por u/Kinderstreichkaese. |
Enquanto o observava, uma ideia estranha surgiu na minha mente. Você já leu “A Duquesa de Malfi”? Tive que estudá-la para os exames escolares, muitos anos atrás. Uma peça terrível, pelo que me lembro, o pior tipo de tragédia clássica de vingança, repleta de incesto, assassinato e loucura. Porém há um trecho que não me sai da cabeça, um médico diagnostica o irmão da Duquesa com licantropia. Se não me engano, diz algo como: “Encontrei o duque, por volta da meia-noite, em um beco atrás da igreja de São Marcos, carregando a perna de um homem sobre o ombro. Ele dizia ser um lobo. A única diferença é que, em um lobo, o pelo fica do lado de fora. Nele, ficava do lado de dentro”. Ao olhar para aquela coisa que queria me matar, essa é a única descrição que me pareceu fazer sentido.
Desta vez, não avançou de supetão, veio caminhando lentamente em minha direção. Eu estava... Plenamente consciente das armas carregadas aos meus pés, no entanto, como já tinha visto a velocidade com que se movia, não achei que tivesse muitas chances. Pouco a pouco se aproximou. Perto o suficiente para que pudesse sentir o seu hálito fétido. Perto o suficiente para que pudesse ver, sob a luz do luar, o detalhe mais perturbador, a baba escorregadia em seus lábios, enquanto salivava na expectativa de uma presa. Então, me atacou. De certa forma, sinto muito orgulho de como agi durante aquele confronto. Veja bem, enquanto a criatura não me considerasse uma ameaça, esperava que ela se descuidasse e deixasse claro o momento do ataque. Eu estava certo, ela recuou o braço e desferiu um golpe desajeitado, porém triunfante. Já mencionei meu passado militar? Pois bem, fui oficial da Força Aérea. Faz muito tempo desde a Guerra do Golfo e, mesmo naquela época, não tive muita experiência em combate corpo a corpo, entretanto o treinamento é algo que fica gravado. Tenho total confiança que me foi útil naquele movimento desesperado. Agarrei o braço da criatura e redirecionei o ímpeto do golpe. Suas garras cravaram-se em meu ombro, todavia não atingiram meu pescoço. Seu corpo caiu no chão, desequilibrado pela própria inércia. Ele começou a se levantar no instante seguinte, mas aquilo me deu os segundos preciosos de que precisava para pegar minha arma e encostá-lo em seu peito. Não hesitei.
O disparo o atravessou, e ele se contorceu de dor. Sem querer correr riscos, atirei de novo, de novo e de novo, até que minha arma ficasse vazia. Depois, peguei o rifle de Arden e também o esvaziei.
Mesmo depois de tudo aquilo, ele ainda não estava morto. Havia três balas em seu coração, duas em sua cabeça e muitas outras espalhadas pelo resto do corpo... E ainda assim se contorcia ali, emitindo sons fracos. Não sabia por quanto tempo aquilo o atrasaria, mas esperava que me desse tempo suficiente para escapar de vez. Ao sair da clareira, olhei para trás e o vi, lenta e dolorosamente, enterrando as garras no próprio peito, tentando extrair as balas.
No fim, foi a sorte que me salvou. Alguns guardas florestais passavam de carro por uma estrada a cerca de três quilômetros de distância da nossa trilha. Eles vinham investigar os disparos e, por pura sorte, acabei saindo bem na estrada onde estavam. Nunca mais vi aquela coisa, nem Arden, infelizmente, embora tenham conseguido encontrar e recuperar o seu corpo cerca de uma semana depois. Acho que não vou tentar caçar nunca mais. Conheço a sensação de poder que vem com a capacidade de tirar a vida de algo mais fraco que você, contudo... Não consigo esquecer como é ser caçado.
JONATHAN SIMS
Depoimento encerrado.
Caçado. É, acho que estou começando a entender a sensação.
Arden Neeli foi encontrado morto a cerca de 800 metros da Trilha dos Apalaches, na Virgínia, no dia 1º de dezembro de 2010. A causa da morte foi definida como ataque de animal selvagem. O Sr. Mortimer recebeu tratamento para traumas físicos e psicológicos, porém não foi responsabilizado pela morte. Para ser sincero, essa é toda a investigação que pretendo fazer sobre o caso. Essa história de “homens-lobo na América” é absurda demais, e distante demais, para que eu me importe.
Já... Se passaram dois meses desde que Martin voltou e nós nos tornamos aqueles que estão sendo... Caçados. Será que estamos sendo caçados? Martin continua morando aqui, e eu saio cada vez menos. Os vermes continuam aparecendo. Nós os matamos, no entanto a cada semana surgem mais. O que ela está esperando?
Fim da gravação.
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