Capítulo 02: Máscaras e Sombras
A fogueira estalava e soltava fagulhas enquanto flocos de neve flutuavam em direção às chamas, evaporando num instante. As árvores ao redor ainda estavam tingidas de laranja, mas a fogueira já havia baixado quase a brasas. Além dessa frágil barreira de luz, a névoa, o frio e a escuridão aguardavam pacientemente.
Deornoth aproximou as mãos das brasas e tentou ignorar a vasta presença viva da Floresta de Aldheorte ao seu redor. Os galhos entrelaçados que ocultavam as estrelas lá no alto, os troncos envoltos em neblina que oscilavam sombrios ao vento frio e constante. Josua estava sentado à sua frente, de costas para as chamas e voltado para a escuridão hostil. O rosto anguloso do Príncipe, banhado pelo tom avermelhado da luz oscilante do fogo, estava contraído numa careta silenciosa. O coração de Deornoth apertou-se pelo seu Príncipe, mas era difícil demais olhar para ele naquele momento. Seu olhar se desviou, massageando os dedos gelados como se pudesse dissipar todo o sofrimento... O seu, o de seu senhor e o do restante daquele rebanho lamentável e alquebrado.
Alguém gemeu por perto, porém Deornoth não levantou a cabeça. Muitos em seu grupo sofriam, e alguns... A jovem aia com o ferimento terrível na garganta e Helmfest, um dos homens do Lorde Condestável, ferido no ventre por aquelas criaturas profanas, tinham poucas probabilidades de sobreviverem à noite.
Seus problemas não haviam terminado quando escaparam da destruição do castelo de Josua em Naglimund. Mesmo enquanto o grupo do Príncipe descia cambaleante os últimos degraus quebrados da Escadaria, foram atacados. A poucos metros da orla da floresta de Aldheorte, o solo irrompeu ao redor deles, e a noite falsa, trazida pela tempestade, ecoou com gritos estridentes.
Havia escavadores por toda parte... Bukken, como o jovem Isorn os chamava, gritando o nome histericamente enquanto golpeava ao redor com sua espada. Mesmo em meio ao medo, o filho do Duque matara muitos, contudo Isorn também sofrera uma dúzia de ferimentos superficiais causados pelos dentes afiados e pelas facas rudimentares e irregulares dos escavadores. Havia também essa preocupação... Na floresta, até mesmo ferimentos pequenos corriam o risco de infeccionar.
Deornoth moveu-se inquieto. Aquelas pequenas formas haviam se agarrado ao seu braço como ratos. Em seu pavor sufocante, quase cortara a própria mão para se livrar daquelas criaturas que emitiam sons estridentes. Ainda agora, a lembrança o fazia estremecer. Ele esfregava os dedos, recordando-se do ocorrido.
O grupo acuado de Josua enfim conseguira escapar, abrindo caminho a golpes de espada tempo suficiente para correr em direção à floresta. Estranhamente, aquelas árvores ameaçadoras pareciam oferecer uma espécie de santuário. A horda de escavadores, numerosos demais para serem derrotados, não os seguiu.
“Haveria algum poder na floresta que os impedira?” Deornoth se perguntava. “Ou, o que era mais provável, viveria ali algo ainda mais temível do que eles?”
Na fuga, deixaram para trás cinco corpos dilacerados que um dia foram seres humanos. O grupo de sobreviventes do Príncipe contava agora com talvez uma dúzia de pessoas... E, a julgar pela respiração tortuosa e ofegante do soldado Helmfest, que jazia envolto em sua capa perto da fogueira, logo seriam menos.
A senhora Vorzheva limpava o sangue da face de Helmfest, que estava pálida como a de um fantasma. Ela tinha aquele olhar distante e alheio de um louco que Deornoth vira certa vez na praça de Naglimund, um homem que passava horas a fio despejando água de uma tigela para outra, de um lado para o outro, sem derramar uma gota sequer. Cuidar daquele homem que já parecia um morto-vivo era uma tarefa tão inútil quanto, Deornoth tinha certeza, e isto transparecia nos olhos escuros de Vorzheva.
O Príncipe Josua não dava mais atenção a Vorzheva do que a qualquer outra pessoa daquele grupo destroçado. Apesar do terror e do cansaço que ela compartilhava com os demais sobreviventes, era evidente que também estava furiosa com a sua falta de atenção. Deornoth há muito testemunhava a relação tempestuosa entre os dois, no entanto nunca tivera certeza de como se sentia a respeito. Às vezes, via a mulher dos Thrithings como uma distração, um obstáculo aos deveres de seu Príncipe. Em outros momentos, sentia pena de Vorzheva, cujas paixões sinceras muitas vezes superavam sua paciência. Josua podia ser exasperantemente cauteloso e ponderado e, mesmo nos melhores momentos, tendia à melancolia. Deornoth supôs que o Príncipe seria um homem muito difícil para uma mulher amar e com quem conviver.
O velho bobo da corte, Towser, e o harpista Sangfugol conversavam desanimados ali perto. O odre de vinho do bobo jazia vazio e achatado no chão ao lado deles, era o único vinho que qualquer um dos sobreviventes veria por algum tempo. Towser o havia esvaziado sozinho em poucos goles, provocando não poucas palavras ásperas de seus companheiros. Seu olho remelento piscava com irritação enquanto bebia, como um velho galo espantando um intruso do galinheiro.
Os únicos ocupados em alguma atividade útil naquele momento eram a Duquesa Gutrun, esposa de Isgrimnur, e o Padre Strangyeard, o arquivista de Naglimund. Gutrun havia rasgado a parte frontal e a traseira de sua pesada saia de brocado e agora costurava as partes abertas, improvisando algo semelhante a calções para si mesma, a fim de facilitar a travessia pela vegetação densa e emaranhada de Aldheorte. Strangyeard, reconhecendo a sensatez da ideia, serrava a parte frontal de sua própria túnica cinzenta com a faca cega de Deornoth.
O taciturno Einskaldir, um rimmerio, estava sentado perto do Padre Strangyeard, entre eles jazia uma forma silenciosa, um vulto escuro sob a luz tremeluzente da fogueira. Era a jovem criada cujo nome Deornoth não conseguia recordar. Ela havia os acompanhado durante a fuga da residência e chorado baixinho durante todo o longo trajeto de subida e descida da Escadaria.
Chorado, isto é, até que os escavadores a alcançaram. Eles haviam se agarrado à sua garganta como terriers a um javali, mesmo depois de seus corpos terem sido decepados pelas lâminas daqueles que tentavam resgatá-la. Agora, ela não chorava mais. Estava imóvel, absolutamente imóvel, agarrando-se precariamente à vida.
Deornoth sentiu um arrepio de horror contido surgir em seu íntimo.
“Misericordioso Jesuris, o que fizemos para merecer tamanha retribuição terrível? De que pecado abominável somos culpados para sermos punidos com a devastação de Naglimund?”
Contendo o pânico que sabia estar estampado em seu rosto, olhou ao redor. Ninguém o observava, graças a Jesuris... Ninguém vira seu medo vergonhoso. Afinal, tal comportamento não era adequado. Deornoth era um cavaleiro. Estava orgulhoso de ter sentido a manopla de seu Príncipe sobre a cabeça e de ter ouvido a proclamação de seu serviço. Desejava apenas o terror límpido da batalha contra inimigos humanos, não aquelas criaturas escavadoras, minúsculas e estridentes, nem as nornas de rosto impassível e pele branca como a barriga de um peixe, que haviam destruído o castelo de Josua. Como se podia combater criaturas saídas de contos de terror da infância?
Devia ser, enfim, o Dia da Pesagem Final. Essa era a única explicação. Podiam até ser seres vivos que combatiam... Sangravam e morriam... E será que se poderia dizer o mesmo de demônios? Entretanto eram, ainda assim, forças das Trevas. Os dias finais haviam chegado, de fato.
Curiosamente, essa ideia fez Deornoth sentir-se um pouco mais forte. Afinal, não seria essa a verdadeira vocação de um cavaleiro... Defender seu senhor e suas terras contra inimigos tanto espirituais quanto carnais? O sacerdote não dissera isso antes da vigília de investidura de Deornoth? Ele forçou seus pensamentos temerosos a voltarem ao rumo certo. Há muito se orgulhava de sua expressão serena e de sua ira lenta e comedida, justamente por isso, sempre se sentira muito à vontade com a postura reservada de seu Príncipe. Como Josua poderia liderar, senão pelo domínio de si mesmo?
Ao pensar em Josua, Deornoth lançou-lhe outro olhar furtivo e sentiu a preocupação retornar com força. Parecia que a armadura de paciência do Príncipe estava enfim se despedaçando, corroída por forças que nenhum homem deveria suportar. Enquanto seu vassalo observava, Josua fitava a escuridão varrida pelo vento, os lábios se moviam enquanto falava consigo mesmo em silêncio, a testa franzida em uma concentração dolorosa.
Continuar observando tornou-se difícil demais.
— Príncipe Josua! — chamou Deornoth em voz baixa.
O Príncipe terminou seu discurso silencioso, todavia não voltou os olhos para o jovem cavaleiro. Deornoth tentou outra vez.
— Josua?
— Sim, Deornoth? — respondeu ele, por fim.
— Meu senhor... — começou o cavaleiro, mas então percebeu que não tinha nada a dizer. — Meu senhor, meu bom senhor...
Enquanto Deornoth mordia o lábio inferior, na esperança de que a inspiração surgisse em meio aos seus pensamentos exaustos, Josua de repente inclinou-se para a frente. Seus olhos, que momentos antes vagavam sem rumo, agora estavam fixos na escuridão além da orla da floresta, tingida de vermelho pelo fogo.
— O que foi? — perguntou Deornoth, alarmado.
Isorn, que cochilava pouco atrás, despertou com um grito desconexo ao ouvir a voz do amigo. Deornoth tateou em busca da espada e desembainhou-a, erguendo-se parcialmente enquanto o fazia.
— Silêncio. — Josua ergueu o braço.
Um calafrio de pavor percorreu o acampamento. Por alguns segundos intermináveis houve silêncio, e então os outros também ouviram... Algo avançava desajeitado pela mata, logo além do círculo de luz.
— Aquelas criaturas! — a voz de Vorzheva elevou-se de um sussurro para um grito trêmulo. Josua virou-se e agarrou o braço dela com força. Deu-lhe um único sacudão brusco.
— Silêncio, pelo amor de Deus!
O som de galhos quebrando aproximou-se. Agora, Isorn e os soldados também estavam de pé, as mãos agarrando com medo as empunhaduras das espadas. Alguns membros do grupo choravam e rezavam em silêncio.
Josua sibilou.
— Nenhum habitante da floresta andaria de forma tão barulhenta... — sua ansiedade mal podia ser disfarçada. Ele desembainhou Naidel. — Anda sobre duas pernas...
— Socorro... — chamou uma voz vinda da escuridão. A noite parecia tornar-se cada vez mais profunda, como se a escuridão pudesse rolar sobre eles e extinguir a fraca fogueira.
Um instante depois, algo irrompeu no círculo de árvores. A figura ergueu os braços diante dos olhos quando a luz do fogo incidiu sobre ela.
— Que Deus nos salve! — gritou Towser com a voz rouca.
— Olhem, é um homem! — ofegou Isorn. — Por Aedon, está coberto de sangue!
O homem ferido cambaleou mais dois passos em direção ao fogo e então caiu de joelhos aos solavancos, projetando para a frente um rosto quase negro de sangue seco, exceto pelos olhos que encaravam o círculo de pessoas assustadas sem realmente enxergar.
— Socorro! — tornou a gemer. Sua voz era lenta e pastosa, quase irreconhecível como a de um homem falando a língua westerling.
— Que loucura é esta, senhora? — gemeu Towser. O velho bobo da corte puxava a manga da Duquesa Gutrun como uma criança faria. — Diga-me, que maldição é esta que lançaram sobre nós?
— Acho que conheço este homem! — ofegou Deornoth, sentindo, um instante depois, o medo gelado se dissipar. Ele avançou para segurar o cotovelo do homem trêmulo e trazê-lo para mais perto do fogo. O recém-chegado estava envolto em trapos esfarrapados. Uma franja de anéis entrelaçados, tudo o que restara de uma cota de malha, pendia de seu pescoço presa a uma coleira de couro escurecido. — É o piqueiro que veio conosco como guarda. — disse Deornoth a Josua. — Aquele que estava lá quando você encontrou seu irmão na tenda, diante das muralhas.
O Príncipe fez um lento aceno de concordância. Seu olhar era fixo, sua expressão, indecifrável.
— Ostrael... — murmurou Josua. — Não era esse o nome?
O Príncipe fitou o jovem piqueiro salpicado de sangue por um longo instante, então seus olhos se encheram de lágrimas e desviou o rosto.
— Aqui, pobre coitado, aqui... — o Padre Strangyeard estendeu um odre de água. Eles mal tinham mais água do que vinho, porém ninguém disse uma palavra. A água encheu a boca aberta de Ostrael e transbordou, escorrendo pelo seu queixo. Parecia incapaz de engolir.
— Os... Escavadores o pegaram. — disse Deornoth. — Tenho certeza de que o vi sendo capturado por eles, lá em Naglimund. — sentiu o ombro do piqueiro tremer sob seu toque e ouviu a respiração sibilante do homem. — Aedon, não ouso imaginar o sofrimento que teve de suportar.
Os olhos de Ostrael se voltaram para os seus, amarelados e vidrados mesmo na penumbra. A boca se abriu outra vez no rosto coberto de crostas escuras.
— Socorro... — a voz era dolorosamente lenta, como se cada palavra pesada tivesse de ser içada da garganta até a boca antes de cair no ar. — Dói... — sibilou. — Eu...
— Pela Árvore de Deus, o que podemos fazer para ajudá-lo? — gemeu Isorn. — Todos nós estamos sofrendo.
A boca de Ostrael se escancarou. Olhava para cima com olhos cegos.
— Podemos enfaixar os seus ferimentos. — Gutrun, mãe de Isorn, estava recuperando sua notável compostura. — Podemos arranjar uma capa para ele. Se sobreviver até a manhã, poderemos fazer mais então.
Josua havia se virado para olhar de novo para o jovem piqueiro.
— A Duquesa tem razão, como sempre. Padre Strangyeard, veja se consegue encontrar uma capa. Talvez um dos menos feridos possa ceder a sua...
— Não! — rosnou Einskaldir. — Não gosto disso!
Um silêncio confuso caiu sobre o grupo.
— Não acredito que te incomod... — Deornoth começou, mas ofegou quando Einskaldir saltou por cima e agarrou Ostrael, que ofegava, pelos ombros, derrubando-o com força no chão. Einskaldir agachou-se sobre o peito do jovem lanceiro. A faca longa do rimmerio barbudo surgiu do nada e pousou contra o pescoço manchado de sangue de Ostrael como um sorriso cintilante.
— Einskaldir! — o rosto de Josua estava pálido. — Que loucura é essa?
O rimmerio olhou por cima do ombro, um sorriso estranho rasgando seu rosto barbudo.
— Este não é um homem de verdade! Não me importa onde você acha que o viu antes!
Deornoth estendeu a mão para Einskaldir, porém a recolheu em seguida quando a faca do rimmerio passou zunindo rente aos seus dedos estendidos.
— Tolos! Olhem! — Einskaldir apontou com o punho da arma para a fogueira.
O pé descalço de Ostrael estava entre as brasas, na borda da fogueira. A carne estava sendo consumida, escurecendo e soltando fumaça, no entanto o próprio lanceiro jazia quase plácido sob Einskaldir, seus pulmões emitindo um som sibilante enquanto forçava a entrada e a saída do ar.
Houve um momento de silêncio. Uma névoa sufocante e gelada parecia se instalar sobre a clareira. O momento tornara-se tão horrivelmente estranho, embora inalterável, quanto um pesadelo. Fugindo das ruínas de Naglimund, talvez tivessem vagado para as terras sem caminho da loucura.
— Talvez os seus ferimentos... — Isorn começou.
— Idiota! Ele não sente o fogo! — rosnou Einskaldir. — E tem um corte na garganta que mataria qualquer homem. Olhem! Vejam! — sua mão forçou a cabeça de Ostrael para trás até que os presentes pudessem ver as bordas irregulares e tremulantes do ferimento, que se estendia de um ângulo da mandíbula ao outro. O Padre Strangyeard, que estava inclinado para perto, fez um som de engasgo e virou o rosto.
— Agora me diga que não é algum tipo de fantasma... — continuou o rimmerio, sendo então quase derrubado no chão quando o corpo do lanceiro começou a se debater sob ele. — Segurem-no! — Einskaldir gritou, tentando manter o rosto afastado da cabeça de Ostrael, que se agitava violentamente de um lado para o outro, com os dentes batendo no vazio.
Deornoth lançou-se à frente e agarrou um dos braços esguios, era frio e duro como pedra, entretanto ainda assim possuía uma horrível flexibilidade. Isorn, Strangyeard e Josua também lutavam para encontrar onde se segurar naquela forma que se contorcia e investia contra eles. A penumbra estava repleta de imprecações desesperadas. Quando Sangfugol avançou e se agarrou à última perna livre, pendurando-se com ambos os braços, o corpo aquietou-se por um instante. Deornoth ainda conseguia sentir os músculos movendo-se sob a pele, contraindo-se e relaxando, reunindo forças para uma nova tentativa. O ar entrava e saía sibilando da boca escancarada e inexpressiva do piqueiro.
A cabeça de Ostrael projetou-se para fora sobre o pescoço erguido, o rosto enegrecido girando para encarar cada um deles, um por um. Então, com uma súbita e aterrorizante rapidez, os olhos fixos pareceram escurecer e afundar para dentro das órbitas. Um momento depois, uma chama carmesim vacilante floresceu nas cavidades vazias, e a respiração ofegante cessou. Alguém soltou um grito agudo, um clamor fino que logo se desfez em um silêncio sufocante.
Como o aperto úmido e esmagador da mão de um titã, a aversão e o pavor visceral estenderam-se e envolveram todo o acampamento quando o prisioneiro falou.
— Então... — disse. Não restava nada de humano em seu tom, apenas a inflexão terrível e gélida dos espaços vazios. A voz zumbia e soprava como um vento negro e indomável. — Este teria sido o caminho mais fácil... Mas uma morte rápida, que chega durante o sono, agora lhes é negada.
Deornoth sentiu o próprio coração disparar como o de um coelho preso numa armadilha, acelerando a ponto de pensar que o órgão saltaria do peito. Sentiu as forças esvaírem-se de seus dedos, mesmo enquanto agarrava o corpo que um dia fora Ostrael, o filho de Firsfram. Através da camisa em farrapos, podia sentir a carne fria como uma lápide, porém, mesmo assim, tremendo com uma vitalidade pavorosa.
— O que é você? — perguntou Josua, esforçando-se para manter a voz firme. — E o que fez com este pobre homem?
A coisa soltou uma risadinha, quase agradável, não fosse o vazio pavoroso de sua voz.
— Não fiz nada a esta criatura. Ela já estava morta, é claro, ou quase isso... Não foi difícil encontrar mortais mortos nas ruínas do seu domínio, Príncipe dos Escombros.
As unhas de alguém cortavam a pele do braço de Deornoth, contudo o rosto arruinado prendia seu olhar como uma vela brilhando no fim de um longo túnel escuro.
— Quem é você? — exigiu Josua.
— Sou um dos mestres do seu castelo... E da sua morte definitiva! — respondeu a criatura com uma gravidade venenosa. — Não lhes devo respostas, mortais. Se não fosse pelo olhar perspicaz do barbudo, suas gargantas já teriam sido cortadas silenciosamente esta noite, poupando-nos muito tempo e esforço. Quando seus espíritos fugitivos enfim guincharem para o infinito, o espaço de onde nós mesmos escapamos, será por nossa culpa. Somos a Mão Vermelha, cavaleiros do Rei da Tormenta... E Ele é o mestre de todos!
Com um sibilo da garganta rompida, o corpo se dobrou de repente como uma dobradiça, lutando com a força horripilante de uma cobra chamuscada. Deornoth sentiu seu aperto escapar. Enquanto o fogo se alastrava em faíscas tremeluzentes, ouviu Vorzheva soluçando em algum lugar próximo. Outros enchiam a noite com gritos de medo. Estava escorregando, o peso de Isorn estava sendo empurrado em sua direção. Deornoth ouviu os gritos aterrorizados de seus companheiros se entrelaçarem com sua própria súplica histérica por força...
Por fim, os movimentos bruscos diminuíram. O corpo abaixo continuou a se debater de um lado para o outro por longos momentos, como uma enguia moribunda, até finalmente parar.
— O quê...? — ele conseguiu articular por fim.
Einskaldir, ofegante, apontou para o chão com o cotovelo, ainda segurando com firmeza o corpo imóvel. Cortada pela faca afiada de Einskaldir, a cabeça de Ostrael rolou a um braço de distância, quase para fora da luz do fogo. Mesmo enquanto todos olhavam, os lábios mortos se retraíram em um rosnado. A luz carmesim se extinguiu, as órbitas eram apenas poços vazios. Um sussurro tênue passou pela boca dilacerada, expelido em um último suspiro.
— Sem escapatória... As nornas os encontrarão... Não...
E o silêncio reinou.
— Pelo Arcanjo... — rouco de terror, Towser, o bobo da corte, quebrou o silêncio.
Josua respirou fundo, com a voz trêmula.
— Precisamos dar à vítima do demônio um enterro aedonita. — a voz do Príncipe era firme, no entanto era evidente o esforço heroico que exigira. Ao se virar para Vorzheva, que estava com os olhos arregalados e a boca entreaberta de choque, prosseguiu. — E então precisamos fugir. Eles estão nos perseguindo. — Josua se virou e cruzou o olhar com Deornoth, encarando-o. — Um enterro aedonita! — repetiu.
— Primeiro... — ofegou Einskaldir, com sangue escorrendo de um longo arranhão no rosto. — Vou cortar os braços, e as pernas também. — ele se dedicou à tarefa, erguendo seu machado de mão. Os outros se afastaram.
A noite da floresta se aproximava ainda mais.
***
O velho Gealsgiath caminhou devagar pelo convés molhado e instável de seu navio em direção às duas figuras encapuzadas e cobertas por mantos, encolhidas junto ao parapeito de estibordo. Elas se viraram quando se aproximou, entretanto não tiraram as mãos do parapeito.
— Que tempo horrível! — gritou o capitão, acima do gemido do vento. As figuras encapuzadas não disseram nada. — Os homens vão dormir em camas de kilpa na Imensidão Verde esta noite. — acrescentou o velho Gealsgiath em um rugido conversacional. Seu forte sotaque hernystiro se fez ouvir mesmo acima do bater e ranger das velas. — Este tempo é de afogamento, com certeza.
A figura mais pesada das duas puxou o capuz para trás, os olhos semicerrados em seu rosto rosado enquanto a chuva o açoitava.
— Estamos em perigo? — gritou o Irmão Cadrach.
Gealsgiath riu, seu rosto moreno se enrugando. O som de sua alegria foi levado pelo vento.
— Só se você pretende nadar um pouco. Já estamos perto do abrigo de Ansis Pelippé e da entrada do porto.
Cadrach se virou para contemplar o crepúsculo rodopiante, denso de chuva e neblina.
— Já estamos quase lá? — gritou, virando-se de volta.
O capitão ergueu um dedo em gancho para apontar uma mancha de escuridão mais densa, a boreste da proa.
— Aquela grande mancha negra ali é a montanha de Perdruin... A ‘Agulha de Streáwe’, como alguns a chamam. Passaremos pela entrada do porto antes de escurecer de vez. A menos que os ventos preguem peças. Um tempo estranho, amaldiçoado por Brynioch, para o mês de juven.
O pequeno companheiro de Cadrach espiou furtivamente a sombra de Perdruin na névoa cinzenta e, em seguida, baixou a cabeça de novo.
— De qualquer forma, padre... — Gealsgiath elevou a voz, sobrepondo-se ao barulho do tempo. — Atracamos hoje à noite e ficaremos dois dias. Imagino que o senhor vá nos deixar, já que pagou a passagem apenas até aqui. Talvez queira descer ao cais e tomar uma bebida comigo, a menos que sua fé o proíba.
O capitão deu um sorriso de canto. Qualquer um que passasse tempo em tavernas sabia que os monges aedonitas não eram estranhos aos prazeres de uma bebida forte.
O Irmão Cadrach observou por um momento as velas que se agitavam ao vento e, então, voltou seu olhar peculiar e algo frio para o marinheiro. Um sorriso marcou seu rosto arredondado.
— Obrigado, capitão, mas não. O rapaz e eu ficaremos a bordo por um tempo depois de atracarmos. Ele não está se sentindo bem e não tenho pressa em fazê-lo sair. Teremos um longo caminho a pé até a abadia, grande parte em subida.
A pequena figura esticou o braço e puxou significativamente o cotovelo de Cadrach, porém o monge não lhe deu atenção.
Gealsgiath deu de ombros e puxou mais para baixo, sobre a cabeça, seu chapéu de pano disforme.
— O senhor é quem sabe, padre. Pagou sua passagem e trabalhou a bordo... Embora eu diria que seu rapaz tenha feito a maior parte do serviço pesado. Pode ir embora a qualquer momento, antes de içarmos as velas para Crannhyr. — ele se virou, fazendo um gesto com a mão de nós dos dedos nodosos, e começou a caminhar de volta pelo convés escorregadio, gritando. — Contudo, se o rapaz não está se sentindo bem, eu o levaria para baixo o quanto antes!
— Estávamos apenas tomando um ar! — Cadrach gritou em resposta. — Desembarcaremos amanhã de manhã, muito provavelmente! Agradeço-lhe, bom capitão!
Enquanto o velho Gealsgiath se afastava com passos pesados, sumindo na chuva e na neblina, a companheira de Cadrach virou-se e confrontou o monge.
— Por que vamos ficar a bordo? — Miriamele exigiu saber, a raiva evidente em seu rosto bonito de traços marcantes. — Quero sair deste navio! Cada hora é importante!
A chuva havia atravessado até mesmo seu capuz grosso, colando seus cabelos tingidos de preto à testa em mechas encharcadas.
— Calma, minha senhora, calma. — desta vez, o sorriso do Irmão Cadrach pareceu um pouco mais genuíno. — É claro que vamos sair, quase assim que encostarmos no cais, não se preocupe.
Miriamele estava irritada.
— Então, por que você disse aquilo...?
— Porque marinheiros falam, e aposto que nenhum deles fala mais alto ou por mais tempo do que o nosso capitão. Não havia como fazê-lo ficar quieto, São Muirfath é quem sabe. Se lhe déssemos dinheiro para manter segredo, apenas ficaria bêbado mais rápido e começaria a falar mais cedo. Assim, se alguém estiver à espreita de notícias nossas, pelo menos pensará que ainda estamos a bordo do navio. Talvez fiquem esperando nosso desembarque até que o navio volte a partir, de volta a Hernystir. Nesse meio tempo, estaremos discretamente em terra firme, em Ansis Pelippé. — Cadrach estalou a língua em sinal de satisfação.
— Oh. — Miriamele refletiu em silêncio por um momento. Havia subestimado o monge outra vez. Cadrach estava sóbrio desde que embarcaram no navio de Gealsgiath em Abaingeat. Não era de se admirar, já que a viagem o deixara bastante enjoado várias vezes. No entanto havia uma mente astuta por trás daquele rosto rechonchudo. Ela se perguntou uma vez mais, e tinha certeza de que não seria a última vez, o que Cadrach estava realmente pensando.
— Sinto muito! — disse ela, por fim. — Foi uma boa ideia. Você acha que alguém está nos procurando?
— Seríamos tolos se pensássemos o contrário, minha senhora.
O monge segurou-a pelo cotovelo e conduziu-a de volta ao abrigo limitado do convés inferior.
***
Quando enfim avistaram Perdruin, foi como se um grande navio tivesse emergido do oceano revolto, surgindo de repente diante de sua embarcação pequena e frágil. Num instante, era apenas uma mancha de negrume mais profundo à proa, no momento seguinte, como se uma última cortina de névoa tivesse sido afastada, a ilha erguia-se imponente sobre eles, como a proa de uma embarcação colossal.
Milhares de luzes cintilavam através da neblina, pequenas como vaga-lumes, fazendo a grande rocha brilhar na noite. Enquanto a barcaça de carga de Gealsgiath deslizava pelos canais do porto, a ilha continuava a erguer-se acima deles, seu dorso montanhoso formava uma cunha de escuridão que avançava para o alto, ocultando até mesmo o céu envolto em névoa.
Cadrach decidira permanecer no convés inferior. Miriamele estava bastante satisfeita com o arranjo. Ela estava parada junto à amurada, ouvindo os marinheiros gritarem e rirem na escuridão pontilhada pelas luzes das lanternas enquanto recolhiam as velas. Vozes se erguiam em uma canção descompassada, apenas para terminar abruptamente em xingamentos e mais risadas.
O vento estava mais brando ali, protegido pelas construções do porto. Miriamele sentiu um calor estranho subir pelas costas até o pescoço e soube, sem precisar pensar, o que aquilo significava... Estava feliz. Estava livre e indo para onde escolhera ir, algo que não acontecia há muito tempo, desde que se entendia por gente.
Não pisava em Perdruin desde que era uma menina pequena, todavia ainda sentia, de certa forma, que estava voltando para casa. Sua mãe, Hylissa, a levara ali quando era muito jovem, como parte de uma visita à irmã de Hylissa, a Duquesa Nessalanta, em Nabban. Elas haviam parado em Ansis Pelippé para uma visita de cortesia ao Conde Streáwe. Pouco se lembrava da visita, era muito pequena na época, exceto de um velho gentil que lhe dera uma tangerina e de um jardim de muros altos com uma alameda pavimentada. Miriamele perseguira um pássaro lindo de cauda longa enquanto a mãe bebia vinho, ria e conversava com outros adultos.
O velho gentil devia ser o Conde, concluiu. Certamente era o jardim de um homem rico o que haviam visitado, um paraíso bem cuidado escondido no pátio de um castelo. Havia árvores em flor e belos peixes prateados e dourados nadando em um lago que ficava bem no meio do caminho...
O vento do porto ganhou força, puxando sua capa. A amurada estava fria sob seus dedos, então enfiou as mãos sob os braços.
Não muito tempo depois da visita a Ansis Pelippé, sua mãe partira para outra viagem, desta vez sem Miriamele. O tio Josua levara Hylissa para se juntar ao pai de Miriamele, Elias, que estava em campanha com seu exército. Aquela fora a viagem que deixara Josua inválido e da qual Hylissa jamais retornara. Elias, quase mudo de pesar e tomado por uma raiva que o impedia de falar sobre a morte, limitava-se a dizer à filha pequena que a mãe jamais poderia voltar. Na mente infantil, Miriamele imaginava a mãe prisioneira em um jardim murado em algum lugar... Um jardim encantador como aquele que haviam visitado em Perdruin, um belo recanto de onde Hylissa jamais poderia sair, nem mesmo para visitar a filha que tanto sentia sua falta...
Por muitas noites, a menina ficara acordada, muito depois de suas aias a terem acomodado na cama, fitando a escuridão e planejando resgatar a mãe perdida de uma prisão florida, entrecortada por intermináveis caminhos de azulejos...
Nada mais fora o mesmo desde então. Era como se o pai tivesse bebido um veneno de ação lenta quando a mãe morrera... Um veneno terrível que fermentara em seu interior, transformando-o em pedra.
Onde estaria agora? O que estaria fazendo o Grande Rei Elias naquele momento?
Miriamele ergueu o olhar para a ilha montanhosa e sombria, sentindo sua alegria ser arrebatada como um lenço arrancado da mão pelo vento. Naquele exato instante, seu pai sitiava Naglimund, descarregando sua fúria terrível contra as muralhas da fortaleza de Josua. Isgrimnur, o velho Towser... Todos eles lutavam pela vida enquanto ela deslizava pelas luzes do porto, navegando sobre o dorso escuro e sereno do oceano.
E o ajudante de cozinha Simon, com seus cabelos ruivos e seu jeito desajeitado, porém bem-intencionado, com suas preocupações e confusões evidentes... Sentiu um aperto no coração ao pensar no garoto. O rapaz e o pequeno gnomo haviam partido para o norte inexplorado, talvez tivessem partido para sempre.
Ela endireitou o corpo. Pensar em seus antigos companheiros trouxera à mente o seu dever. Estava fingindo ser um acólito, e um acólito doente, ainda por cima. Deveria estar no convés inferior. O navio logo atracaria.
Miriamele sorriu com amargura. Tantas farsas. Estava livre da corte do pai, contudo continuava a fingir. Quando criança, triste em Nabban e Meremund, muitas vezes fingira felicidade. A mentira era preferível a ter de responder a perguntas bem-intencionadas, no entanto impossíveis de responder. À medida que o pai se afastava, fingia não se importar, embora sentisse como se estivesse sendo corroída por dentro.
Onde estava Deus? Perguntava-se a Miriamele de outrora, onde Ele estava quando o amor se transformava aos poucos em indiferença e o afeto, em dever? Onde estava Deus quando seu pai, Elias, implorava respostas aos Céus, enquanto a filha escutava, sem fôlego, nas sombras do lado de fora de seus aposentos?
“Talvez Ele tenha acreditado nas minhas mentiras.” pensou ela com amargura enquanto descia os degraus de madeira escorregadios pela chuva em direção ao convés inferior. “Talvez Ele quisesse acreditar nelas, para poder seguir em frente com coisas mais importantes.”
***
A cidade na encosta estava toda iluminada, e a noite chuvosa fervilhava de foliões mascarados. Era o Festival do Solstício de Verão em Ansis Pelippé. Apesar do clima atípico, as ruas estreitas e sinuosas estavam repletas de gente em festa.
Miriamele recuou quando meia dúzia de homens fantasiados de macacos acorrentados passaram por ela, cambaleando e fazendo barulho com as correntes. Ao vê-la parada na entrada sombria de uma das casas de janelas fechadas, um ator bêbado virou-se, com a pelagem falsa emaranhada pela água da chuva, e parou, como se fosse lhe dizer algo. Em vez disso, o homem-macaco arrotou, sorriu pedindo desculpas através da abertura da máscara torta e voltou seu olhar melancólico para o calçamento irregular à sua frente.
Enquanto os macacos se afastavam aos tropeços, Cadrach reapareceu de repente ao seu lado.
— Onde é que você estava? — exigiu saber. — Você sumiu já faz quase uma hora.
— Nem tanto tempo assim, minha senhora, tenho certeza. — Cadrach balançou a cabeça. — Estive descobrindo certas coisas que serão úteis. Muito úteis. — seu olhar percorreu os arredores. — Ah, entretanto esta é uma noite agitada, não é?
Miriamele puxou Cadrach de volta para a rua.
— Ninguém diria que há uma guerra no norte e gente morrendo. — disse ela, em tom de reprovação. — Ninguém saberia se Nabban também entrasse em guerra em breve, e Nabban fica logo ali, do outro lado da baía.
— Claro que não, minha senhora. — bufou Cadrach, ajustando seus passos mais curtos aos dela da melhor maneira possível. — É da natureza dos perdruinos não saber dessas coisas. É assim que permanecem alegremente alheios à maioria dos conflitos, conseguindo armar e abastecer tanto o eventual vencedor quanto o eventual vencido... E lucrar um bom bocado. — o monge sorriu e limpou a água dos olhos. — Eis algo pelo qual o povo de Perdruin iria à guerra, proteger seus lucros.
— Bem, estou surpresa que ninguém tenha invadido este lugar. — a Princesa não tinha certeza de por que a imprudência dos cidadãos de Ansis Pelippé a irritava tanto, contudo, ainda assim, sentia-se muito irritada.
— Invadir? E enlamear a fonte de onde todos bebem? — Cadrach parecia espantado. — Minha cara Miriamele... Perdão, meu caro Malaquias, devo me lembrar disso, já que em breve circularemos em meios onde seu verdadeiro nome não é desconhecido. Meu caro Malaquias, você tem muito a aprender sobre o mundo. — fez uma pausa por um momento enquanto outro grupo de pessoas fantasiadas passava em meio a uma discussão barulhenta e ébria sobre a letra de alguma canção. — Ali! — disse o monge, apontando para eles. — Ali está um exemplo de por que aquilo que você diz jamais acontecerá. Ouviu aquele pequeno debate?
Miriamele puxou o capuz para baixo para se proteger da chuva oblíqua.
— Uma parte. — respondeu a garota. — O que isso importa?
— Não é o assunto da discussão que importa, e sim o método. Eram todos perdruinos, a menos que meu ouvido para sotaques tenha falhado com todo aquele rugido do oceano, no entanto discutiam na língua ocidental.
— E daí?
— Ah... — Cadrach estreitou os olhos como se procurasse algo ao longo da rua lotada e iluminada por lanternas, todavia continuou falando o tempo todo. — Nós dois falamos a língua ocidental, entretanto, com exceção de seus compatriotas erkynos, e nem mesmo todos eles, ninguém mais a fala entre o seu próprio povo. Os rimmerios em Elvritshalla usam o rimmerspakk. Nós, hernystiros, falamos nossa própria língua quando estamos em Crannhyr ou Hernysadharc. Apenas os perdruinos adotaram a língua universal de seu avô, o Rei John, e para eles ela agora é sua verdadeira primeira língua.
Miriamele parou no meio da rua escorregadia, deixando a multidão de foliões rodopiar ao seu redor. Mil lamparinas a óleo criavam uma falsa alvorada acima dos telhados.
— Estou cansada e com fome, Irmão Cadrach, e não entendo aonde quer chegar.
— Simplesmente isto... O povo de Perdruin é como é porque se empenha em agradar... Ou, para ser mais claro, sabem para onde o vento sopra e correm nessa direção, de modo que o vento esteja sempre a seu favor. Se nós, o povo de Hernystir, fôssemos um povo conquistador, os mercadores e marinheiros de Perdruin estariam praticando o modo de vida hernystiro.
— Se um rei quer maçãs... — como dizem os nabbanos. — Perdruin planta pomares. Qualquer outra nação seria tola ao atacar um amigo tão dócil e um aliado tão prestativo.
— Está dizendo que as almas do povo de Perdruin estão à venda? — perguntou Miriamele. — Que não têm lealdade a ninguém além dos fortes?
Cadrach sorriu.
— Isso soa como desprezo, minha senhora, entretanto parece um resumo preciso, sim.
— Então não são melhores do que... — ela olhou ao redor tomando cuidado, lutando contra a raiva. — Não são melhores do que prostitutas!
O rosto curtido do monge assumiu uma expressão fria e distante, seu sorriso agora era mera formalidade.
— Nem todos podem se levantar e ser heróis, Princesa. — respondeu em um tom calmo. — Alguns preferem se render ao inevitável e aliviar suas consciências com o dom da sobrevivência.
Miriamele pensou na óbvia verdade do que Cadrach havia dito enquanto caminhavam, todavia não conseguia entender por que aquilo a entristecia tanto.
***
Os caminhos de pedra de Ansis Pelippé não apenas serpenteavam tortuosamente, como em muitos lugares subiam em degraus de pedra talhados pela própria encosta da colina, para depois descerem em espiral, dobrando e redobrando, cruzando-se em ângulos estranhos como uma cesta de serpentes. De ambos os lados, as casas ficavam lado a lado, a maioria com janelas sombreadas como os olhos fechados de quem dorme, algumas resplandecendo com luz e música. Os alicerces das casas inclinavam-se para cima a partir das ruas, cada estrutura agarrando-se de forma um tanto precária à encosta, de modo que seus andares superiores pareciam debruçar-se sobre as ruas estreitas. À medida que a fome e o cansaço começavam a deixá-la tonta, Miriamele sentia, por vezes, que estava de volta sob as árvores frondosas da Floresta de Aldheorte.
Perdruin era um conjunto de colinas que circundavam Sta Mirore, a montanha central. Suas encostas irregulares erguiam-se quase diretamente das margens rochosas da ilha, com vista para a Baía de Emettin. A silhueta de Perdruin, portanto, lembrava uma porca amamentando seus filhotes. Havia pouca planície em qualquer lugar, exceto nos cumes onde altas colinas se encontravam, de modo que as vilas e cidades de Perdruin se agarravam às encostas dessas colinas como ninhos de gaivotas. Até mesmo Ansis Pellipé, o grande porto e sede da casa do Conde Streáwe, foi construída nas encostas íngremes de um promontório que os moradores chamavam de Pedra do Porto. Em muitos lugares, os cidadãos de Ansis Pellipé podiam ficar em uma das ruas que acompanhavam a colina da capital e acenar para seus vizinhos na rua principal abaixo.
***
— Preciso comer alguma coisa. — disse Miriamele por fim, respirando com dificuldade.
Eles estavam em um mirante de uma das ruas sinuosas, um lugar de onde podiam olhar, entre dois prédios, para as luzes do porto enevoado lá embaixo.
A lua opaca pairava no céu nublado como um pedaço de osso.
— Eu também estou pronto para parar, Malaquias! — ofegou Cadrach.
— A que distância fica essa abadia?
— Não há abadia, ou pelo menos não vamos para um lugar assim.
— Mas você disse ao capitão... Ah. — Miriamele balançou a cabeça, sentindo o peso úmido do capuz e da capa. — Claro. Então, para onde vamos?
Cadrach olhou para a lua e riu baixinho.
— Para onde quisermos, meu amigo. Acho que há uma taverna de certa reputação no topo desta rua. Devo confessar que estava nos guiando naquela direção. Certamente não porque gosto de escalar essas colinas de goirach.
— Uma taverna? Por que não uma hospedaria, para que possamos encontrar uma cama depois de comermos?
— Porque, com o seu perdão, não é em comida que estou pensando. Estou a bordo daquele navio abominável há mais tempo do que gostaria de admitir. Descansarei depois de saciar minha sede. — Cadrach limpou a boca com a mão e sorriu.
Miriamele não gostou muito do seu olhar.
— Porém havia uma taverna a cada côvado lá embaixo... — protestou a jovem.
— Exato. Tavernas cheias de bêbados fofoqueiros e intrometidos na vida alheia. Não posso descansar merecidamente em um lugar assim. — ele virou as costas para a lua e retomou a caminhada pela estrada. — Vamos, Malaquias. É só mais um pouquinho, tenho certeza.
***
Parecia que durante o Festival do Solstício de Verão não existia taverna vazia, contudo pelo menos os frequentadores do Golfinho Vermelho não estavam amontoados, como nas estalagens à beira do cais, apenas cotovelo a cotovelo. Miriamele, agradecida, sentou-se num banco encostado na parede oposta e deixou-se envolver pela onda de conversas e canções. Cadrach, depois de pousar seu saco e bastão, foi procurar uma caneca de cerveja. Voltou logo em seguida.
— Bom Malaquias, tinha me esquecido de como estou quase na miséria por ter pago nossa passagem marítima. Você tem uma ou duas moedas de cobre que eu possa usar para matar a sede?
Miriamele vasculhou sua bolsa e tirou um punhado de moedas de cobre.
— Traga-me pão e queijo. — disse ela, despejando as moedas na mão estendida do monge.
Enquanto desejava poder tirar o manto molhado para comemorar o fim da chuva, outro grupo de foliões fantasiados entrou pela porta, sacudindo a água de suas roupas elegantes e pedindo cerveja. Um dos mais barulhentos usava uma máscara em forma de cão de língua vermelha. Ao bater com o punho na mesa, seu olho direito se fixou em Miriamele por um instante e pareceu hesitar. Ela sentiu um arrepio de medo, lembrando-se de repente de outra máscara de cão e de flechas flamejantes cortando as sombras da floresta. Entretanto este cão em seguida voltou-se para seus companheiros, fazendo uma piada e jogando a cabeça para trás em uma gargalhada, com suas orelhas de pano balançando.
Miriamele pressionou a mão contra o peito como se quisesse acalmar seu coração acelerado.
“Preciso manter este capuz.” disse a si mesma. “É noite de festa, então quem vai olhar duas vezes? Melhor isso do que alguém reconhecer meu rosto, por mais improvável que pareça.”
Cadrach ficou fora por um tempo surpreendentemente longo. Miriamele começava a se sentir inquieta, pensando se deveria ir procurá-lo, quando este retornou com um jarro de cerveja em cada mão. Meio pão e um pedaço de queijo estavam presos entre os jarros.
— Um homem poderia morrer de sede esperando por cerveja esta noite. — disse o monge.
Miriamele comeu com avidez, depois tomou um longo gole da cerveja, que era amarga e escura em sua boca. O resto do jarro deixou para Cadrach, que não protestou.
Quando as últimas migalhas foram lambidas de seus dedos e ponderava se estava com fome o suficiente para comer uma torta de pombo, uma sombra se projetou sobre o banco que ela e o monge compartilhavam.
A ossuda face da Morte os encarava de um capuz preto.
Miriamele engasgou e Cadrach cuspiu cerveja em sua túnica cinza, todavia o estranho com a máscara de caveira não se moveu.
— Uma piada muito original, amigo. — disse Cadrach com raiva. — E um feliz solstício de verão para você também.
Ele deu um tapa na frente de suas vestes.
A boca não se moveu. A voz plana e sem emoção saiu de trás dos dentes à mostra.
— Venham comigo!
Miriamele sentiu a pele da nuca arrepiar. Sua refeição recente parecia muito pesada em seu estômago.
Cadrach cerrou os olhos. Ela podia ver tensão em seu pescoço e dedos.
— E quem seria você, farsante? Se fosse realmente a Irmã Morte, eu esperaria que estivesse vestido com roupas mais finas. — o monge apontou um dedo levemente trêmulo para o manto preto esfarrapado que a figura usava.
— Levantem-se e venham comigo! — disse a aparição. — Eu tenho uma faca. Se gritarem, as coisas ficarão muito ruins para vocês.
Irmão Cadrach olhou para Miriamele e fez uma careta. Eles se levantaram, a Princesa com os joelhos trêmulos. A Morte fez um gesto para que caminhassem à frente, através da multidão de frequentadores da taverna. Miriamele estava absorta em pensamentos desconexos sobre fugir quando duas outras figuras surgiram discretamente da multidão perto da porta. Uma usava uma máscara azul e as vestes estilizadas de um marinheiro, a outra estava vestida como um camponês rústico com um chapéu enorme. Os olhos sombrios dos recém-chegados desmentiam suas roupas vistosas.
Com o marinheiro e o camponês de cada lado, Cadrach e Miriamele seguiram a Morte, envolta em um manto negro, para a rua. Antes de darem três dúzias de passos, a pequena caravana entrou em um beco e desceu uma escadaria para a rua seguinte. Miriamele escorregou por um instante em um dos degraus de pedra lavados pela chuva e sentiu um arrepio de horror quando seu captor de rosto esquelético estendeu a mão para ampará-la. O toque foi fugaz e não conseguiu se afastar sem cair, então o suportou em silêncio. Um instante depois, eles desceram a escadaria, entraram em outro beco, subiram uma rampa e viraram uma esquina.
Mesmo com a lua pálida no alto e os gritos de foliões tardios ecoando da taverna acima e do bairro portuário abaixo, Miriamele logo perdeu a noção de onde estava. Eles percorriam ruelas estreitas como uma fila de gatos furtivos, entrando e saindo de pátios escondidos e passagens cobertas por trepadeiras. De tempos em tempos, ouviam o murmúrio de vozes vindo de uma casa às escuras e, certa vez, o som de uma mulher chorando.
Por fim, chegaram a um portal em arco numa alta muralha de pedra. Morte tirou uma chave do bolso e abriu a fechadura. Entraram num pátio tomado pela vegetação e coberto por salgueiros inclinados, cujos galhos pendentes deixavam a água da chuva pingar pacientemente sobre o calçamento de pedra rachada. O líder virou-se para os outros, fez um gesto rápido com a chave e indicou que Miriamele e Cadrach deveriam caminhar à frente dele, em direção a uma entrada na penumbra.
— Viemos com você até aqui, homem... — disse o monge, sussurrando como se também fosse um conspirador. — Mas não ganhamos nada ao cair numa emboscada. Por que não lutar contra vocês aqui e morrer sob o céu aberto, se é para morrer?
Morte inclinou-se para a frente sem dizer nada. Cadrach recuou, porém o homem de máscara de caveira apenas passou por ele, bateu na porta com as juntas dos dedos enluvadas de preto e empurrou-a para dentro. Esta se abriu sem fazer nenhum som sobre dobradiças bem lubrificadas.
Uma luz fraca e quente brilhava no interior. Miriamele passou pelo monge e atravessou a porta. Cadrach seguiu logo atrás, resmungando consigo mesmo. O homem de máscara de caveira veio por último e fechou a porta atrás de si.
Era uma pequena sala de estar, iluminada apenas por uma lareira e por uma vela que queimava num recipiente ao lado de uma garrafa de vinho, sobre a mesa. As paredes estavam cobertas por pesadas tapeçarias de veludo, cujos desenhos, à luz do fogo, mal se distinguiam como redemoinhos de cor. Atrás da mesa, numa cadeira de espaldar alto, estava sentada uma figura tão estranha quanto qualquer um de seus acompanhantes... Um homem alto, vestindo uma capa marrom-avermelhada e uma máscara de raposa de traços aguçados.
A raposa inclinou-se para a frente, apontando para duas cadeiras com um movimento gracioso dos dedos enluvados de veludo.
— Sentem-se. — sua voz era fina, embora melodiosa. — Sente-se, Princesa Miriamele. Eu me levantaria, contudo minhas pernas aleijadas não o permitem.
— Isso é loucura! — protestou Cadrach, embora mantivesse os olhos no espectro de rosto de caveira ao seu lado. — O senhor se enganou. A quem se dirige é um rapaz, meu acólito...
— Por favor. — a raposa fez um gesto amigável pedindo silêncio. — É hora de tirar as máscaras. Não é assim que sempre termina a Noite de Verão?
Ele afastou a máscara de raposa, revelando uma cabeleira branca e um rosto sulcado pela idade. Enquanto seus olhos descobertos brilhavam à luz do fogo, um sorriso curvou seus lábios enrugados.
— Agora que sabem quem sou... — começou ele, entretanto Cadrach o interrompeu.
— Não o conhecemos, senhor, e o senhor nos confundiu com outros!
O velho riu secamente.
— Ora, vamos. Eu e você talvez não tenhamos nos encontrado antes, meu caro, todavia a Princesa e eu somos velhos amigos. Na verdade, ela já foi minha hóspede há muito, muito tempo atrás.
— O senhor é... O Conde Streáwe? — sussurrou Miriamele.
— De fato! — assentiu o Conde. Sua sombra projetava-se imponente na parede atrás. Ele se inclinou para a frente, segurando a mão molhada dela com sua garra envolta em veludo. — O senhor de Perdruin. E, desde o momento em que vocês dois puseram os pés na rocha sobre a qual governo, o senhor de vocês também.
***
Link para o índice de capítulos: Stone of Farewell
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