domingo, 11 de outubro de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 04 — Capítulo 22

Capítulo 22: O dilema de um Arquidemônio: Como amar sua noiva elfa que virou criança

— Wow, ela voltou como criança, hein? — disse Barbatos, tentando cutucar as bochechas da pequena Nephy.

Ainda era tarde da noite. Zagan havia corrido para fora no instante em que percebeu que Nephy tinha desaparecido, mas a encontrou do outro lado da porta, em uma versão rejuvenescida. Sem saber como lidar com a situação, reuniu todos na sala de estar. Conseguiu juntar Foll, Chastille, Nephteros e Barbatos.

Gremory e Kimaris não estavam lá. Os dois haviam ido investigar a casa que Nephy visitara. Isso porque a feitiçaria que manipulava a idade era a especialidade de Gremory, e Kimaris conseguia rastrear pessoas pelo cheiro. Eles deixaram a janela aberta para que pudessem avisar assim que encontrassem algo.

Zagan olhou para o próprio colo... Onde a agora pequenina Nephy dormia profundamente. Seu uniforme de empregada habitual estava largo demais para ser usado, então havia sido trocado por roupas infantis encontradas na mansão. Eram peças bem antigas, porém adoráveis, com babados de renda decorando a gola e a saia. Pareciam mais roupas de gala do que qualquer outra coisa, contudo, na falta de opção, serviam perfeitamente.

Foll acariciava a cabeça de Nephy com carinho. Pela aparência, parecia ter cerca de cinco ou seis anos. Era difícil precisar a idade de uma criança, no entanto era certo que tinha menos de dez anos, o que a deixava com uma aparência mais jovem que a de Foll.


Nephy tentou ao máximo explicar a situação, só que caminhar no frio a deixara sem fôlego, então acabou pegando no sono antes que conseguissem qualquer informação relevante. Por sorte, havia deixado uma pista antes...

— Este bilhete foi deixado no quarto da Nephy. Diz: “Vi uma luz na minha casa, então vou investigar”.

— Por que raios foi sozinha? Não é já um costume seu sempre pedir a opinião do Zagan antes de fazer alguma coisa? — perguntou Barbatos, com uma expressão intrigada. Até Barbatos, de todas as pessoas, parecia entender Nephy muito bem. Em seguida, Chastille avançou e pegou o bilhete de suas mãos.

— Você não entende, não é? Era a sua antiga casa, um lugar cheio de lembranças horríveis. Será que não compreende a sensação de vergonha e constrangimento que deve ter sentido? — perguntou Chastille, arrancando o bilhete das mãos de Barbatos.

— Não tem a menor chance de eu entender uma porcaria dessas.

Chastille lançou um olhar furioso para Barbatos em resposta, entretanto aquilo não surtiu muito efeito.

A culpa é toda minha. Eu deveria tê-la mantido ao meu lado o tempo todo... É claro que Zagan sabia que Nephy devia ter pensado bem antes de agir, todavia não o fazia se sentir melhor. Queria elogiar a sua determinação, mas desejava que eles tivessem conversado e trabalhado juntos desde o início. Assim, as coisas não teriam terminado tão mal.

— Zagan, você consegue fazer a Nephy voltar ao normal? — perguntou Foll.

— Vou provar que consigo. — respondeu Zagan imediatamente. Porém não estava tão seguro disso. E parecia que não havia conseguido esconder bem essa insegurança, já que Barbatos ergueu uma sobrancelha.

— Espera aí. Se pudesse consertar as coisas, ela já teria voltado ao normal... Você não consegue desfazer essa feitiçaria, consegue?

— Não é feitiçaria.

— Como é?

Era por isso que Zagan estava com uma expressão tão sombria.

— A Nephy não foi transformada em criança por feitiçaria. É misticismo ou, se não for, algo ainda mais antigo, como uma maldição de dragão ou de deus.

Em outras palavras, era um poder que nem Zagan, o Matador de Feiticeiros, conseguia superar.

— Não é... Uma maldição de dragão. É outra coisa. Talvez até mais poderoso... — afirmou Foll, colocando a mão na testa de Nephy, que dormia. Ela podia ser jovem, contudo Foll seguia sendo um dragão, portanto era provável que estivesse certa.

— Acho que é misticismo. — declarou Nephteros.

— Tem certeza?

— Não posso afirmar com certeza, no entanto a sensação é bastante parecida... Ainda assim, é estranho. As únicas alta-elfas vivas no mundo, quem dirá nesta vila, somos eu e a Nephelia.

— Acha que consegue desfazer?

— Seria bem difícil. O Mestre Bifrons nunca me ensinou nada parecido. Talvez possa pedir a sua ajuda, entretanto... — Nephteros foi um tanto vaga, embora sua expressão deixava claro que achava melhor não consultar Bifrons.

Para mim, está ótimo. Não quero nem um pouco ficar em dívida com aquele sujeito... Mesmo que fossem até Bifrons, não dava para confiar naquele Arquidemônio suspeito. Era até possível que sequestrasse Nephy sob o pretexto de examiná-la.

— Vai levar algum tempo, todavia vou tentar investigar... Odeio ter de dizer, mas aquela velha... A Gremory, deve ser a sua melhor aposta. — declarou Nephteros, reconhecendo a contragosto o mérito da mulher que a havia importunado pouco antes. Era verdade que Gremory podia alterar sua idade com feitiçaria, o que a tornava o recurso mais valioso deles neste caso. A resposta de Nephteros foi sensata, o que surpreendeu Zagan e fez com que voltasse um olhar afetuoso para ela.

— Hm? O que foi?

— Hmm... É que nunca imaginei que você realmente quisesse ajudar a Nephy.

— N-Não me leve a mal! Estou em dívida com você, então essa é apenas a minha maneira de retribuir! Além do mais, não posso só ir embora depois de ter te deixado de mau humor mais cedo, né? — disse Nephteros, com as orelhas ficando vermelhas enquanto continuava a falar sem parar.

— Caramba, essa garota é bem irritante... — murmurou Barbatos em tom exasperado.

— O que está querendo dizer? — perguntou Nephteros, lançando um olhar fulminante, mas Barbatos apenas deu de ombros como resposta.

— Eu te entendo perfeitamente! — afirmou Chastille, segurando o ombro de Nephteros com um olhar ardente. Parecia acreditar ter encontrado uma alma gêmea.

— Sobre eu achar esse homem irritante e querer matá-lo?

— Isto também, só que estou falando de como é uma pessoa verdadeiramente bondosa lá no fundo!

— O qu... O q-q-que?

As orelhas de Nephteros ficaram coradas como brasa e começaram a agitar-se sem parar. Parecia que havia ficado desestabilizada, já que não conseguia nem sequer dar uma resposta fria e cortante como costumava fazer.

— Ah, fala sério, por que vocês me odeiam tanto? Salvei a pele de vocês um monte de vezes, lembram...? — Barbatos resmungava, parecendo deprimido, porém aquilo não importava muito.

Entendo. Se a Nephteros vacilasse nem que fosse um pouco, acabaria igual à Chastille, hein? Claro, não estava desabando em choro como uma chorona, contudo a sua expressão quando Gremory a provocou lembrou Zagan do rosto banhado em lágrimas de Chastille.

A pessoa em questão parecia consciente desse detalhe, pois recuou com o rosto pálido e depois balançou a cabeça, agitada.

— Eu não gosto de ser provocada como você!

— Isso não é um pouco de grosseiro? — Chastille parecia deprimida ao ouvi-la. Pelo visto ser rejeitada por uma possível companheira era demais para suportar.

Naquele exato momento, Gremory e Kimaris retornaram da casa de Nephy.

— Retornamos, meu Arquidemônio. — disse Gremory.

— Como foi? — Zagan perguntou. Para sua infelicidade, os dois balançaram a cabeça negando qualquer esperança.

— Há vestígios de que algum poder foi usado, no entanto quem o lançou já foi embora há muito tempo.

— O cheiro também foi apagado, então não consegui rastreá-los. Sinto muito.

Eles estavam enfrentando um oponente capaz de transformar Nephy em criança antes mesmo que esta se desse conta, então não ficou surpreso por terem apagado todos os rastros.

— Bom trabalho. Há algo em que gostaria da ajuda de vocês a partir de amanhã, então descansem. — Zagan agradeceu à dupla enquanto soltava um suspiro.

— Hm... — Gremory assentiu com as palavras dele enquanto ajustava a foice no ombro, entretanto estava claro para Zagan que algo estava errado.

— Tem alguma coisa há incomodando, Gremory?

— Só um pouco. É que os vestígios de poder que vi pareciam muito familiares.

— Sério?

— É apenas um palpite. Na verdade, não sei qual é a sua verdadeira natureza, talvez... — Gremory deixou a frase no ar antes de balançar a cabeça e dizer. — Bem, irei avisá-lo na mesma hora se me lembrar de alguma coisa. Embora digo para não criar muitas expectativas.

— Não, estou contando com sua ajuda! — disse Zagan, reafirmando sua confiança. Ainda que não conseguissem quebrar a maldição em si, a feitiçaria de Gremory tinha o potencial de ajudar a curar Nephy.

Tanto Gremory quanto Kimaris ficaram surpresos com a resposta de Zagan. Eles apenas o encararam com admiração por um momento antes de responder.

— Keeheehee, você sabe mesmo como falar o que agrada, não é? Bem, se o meu Arquidemônio está contando comigo, não posso me dar ao luxo de fazer corpo mole.

— Eu também farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo. — declarou Kimaris.

— Você está contando com eles...? — Nephteros observava os dois atentamente enquanto falava. Sua voz soava quase invejosa. E, no fundo, Zagan conseguia entender esse sentimento. Afinal, só havia descoberto há pouco tempo a alegria de contar com os outros e de ter pessoas contando com ele. Por sorte, essa lição também o fez perceber que precisava demonstrar sua sinceridade aos outros, foi por esse motivo que Zagan repetiu as mesmas palavras para Nephteros.

— Também estou contando com a sua ajuda, Nephteros. Você é a única de nós que entende alguma coisa de misticismo.

— E-Eu já concordei em cooperar, não foi? — Nephteros desviou o rosto ao responder, mas Zagan percebeu que suas orelhas tremulavam de felicidade.

Não sei quem seria estúpido o suficiente para mexer com a Nephy, porém vou garantir que se arrependam da maneira mais amarga possível.

De modo geral, a raiva era um grande motivador, e Zagan estava fervendo de fúria. Mal conseguia conter a ira ardente que corria por suas veias e aguardava ansioso a chance de direcioná-la direto para a fonte de todas as suas frustrações.

Contudo, para o azar de Zagan, as coisas não saíram nada como o planejado.



***



— Mestre Zagan! O que é isto? — perguntou Nephy enquanto desenterrava um sapo que estava hibernando na floresta.

— Essa criatura... É conhecida como sapo. É comestível, então podemos pelo menos usá-lo como ração de emergência.

— E-Eu jamais conseguiria!

— Só se você estivesse morrendo de fome. Parece que ainda está hibernando, nesse caso coloque-o de volta onde o encontrou por enquanto.

— Hibernando...?

— Esse tipo de criatura não consegue encontrar muita comida no inverno, o que a obriga a passar a maior parte da estação dormindo.

— O Mestre Zagan é incrível! Você sabe de tudo, não é?

— Nem tanto.

Na manhã seguinte, a mente de Nephy havia regredido para condizer com sua aparência física. Quando o dia amanheceu, já havia esquecido por completo o que acontecera na noite anterior. Dito isso, não é como se tivesse esquecido de Zagan e dos outros... Na verdade, estava bastante apegada a eles.

— Nephy, vamos enterrá-lo. — disse Foll, bem ao lado de Nephy.

— Sim, irmãzona! — respondeu Nephy, caminhando de forma trôpega atrás de Foll.

Parecia que a mudança de Nephy havia feito com que elas se aproximassem. Foll também parecia gostar bastante de ser chamada de irmã mais velha, e continuava guiando Nephy pela mão por toda parte.

Zagan lia um livro à sombra de uma árvore enquanto vigiava as duas. Apesar da gravidade da situação, a cena que se desenrolava diante do seu olhar lembrava um piquenique em família.

Por enquanto, acho bom que Nephy não esteja tão deprimida... Felizmente, ela não havia se esquecido de Zagan e dos outros, caso contrário, isso poderia não ser verdade.

Seu olhar se dirigiu para trás. Agora que havia luz do dia, os outros começaram a investigar. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido com o corpo de Nephy, então Zagan e Foll acabaram ficando ao lado dela.

Havia Barbatos, com olheiras profundas e cuja fala e comportamento estavam irremediavelmente comprometidos. Gremory, que voltara à forma de uma velha e não inspirava confiança alguma. Kimaris, com seu rosto de leão capaz de matar uma fera apenas com o olhar. Nephteros, que, desde o primeiro encontro, só sabia franzir a testa para as pessoas. E Zagan, que... Nem é preciso dizer... Não tinha uma aparência que atraísse crianças. Na melhor das hipóteses, a única pessoa ali em quem uma criança confiaria logo de cara era a chorona Chastille. Nenhuma criança sobreviveria em um ambiente tão hostil.

Zagan olhou para ver como seus companheiros estavam. Talvez por ter notado sua atenção, Chastille caminhou em sua direção com uma expressão de tédio.

— Como vão as coisas por aqui, Zagan?

— Foll está se dando muito bem com a Nephy. Só que não consegui encontrar nada de útil.

É claro que Zagan não estava apenas cuidando de uma criança. Ao seu lado, havia uma pilha de diários que encontrara na mansão. Eram registros dos anciãos da vila, abrangendo várias gerações.

— Você sabe ler a escrita élfica? — Chastille murmurou, admirada.

— O idioma Celestian é outra história, no entanto consigo entender a língua comum deles até certo ponto, sim. — disse Zagan. Então, devolveu a pergunta a Chastille. — Está tudo bem?

— Desculpe, meu conhecimento sobre elfos e feitiçaria não se compara ao de vocês. É provável que eu seja mais útil como guarda-costas da Nephy... — Chastille respondeu com uma dignidade que fazia sua habitual postura de chorona parecer um delírio. Em seguida, baixou o olhar e perguntou. — Acha que há alguma pista nesses diários élficos?

— Bem, no momento estou procurando registros de quem deixou a vila ou descrições de hereges que idolatravam a feitiçaria. Eles não devem ser muito comuns em uma vila élfica. E, já que se deram ao trabalho de vir atrás de nós aqui fora, é natural acreditar que tenham alguma ligação com este lugar.

Com base no que Nephteros e Gremory haviam dito, o culpado era sem dúvida um elfo.

— Entendo isso, só que de que adianta encontrar uma descrição sua? — perguntou Chastille, com uma expressão confusa.

— A maioria dos elfos não consegue sobreviver no mundo lá fora. Se deixassem a vila, precisariam criar algum tipo de barreira usando feitiçaria. E, nesse caso, posso rastrear a feitiçaria, desde que descubra qual é.

Elfos eram caçados tanto por pessoas comuns quanto por feiticeiros. O fato de Nephy ter sido leiloada era um exemplo dessa realidade. A única maneira de se protegerem era dominar a feitiçaria e utilizar suas vastas reservas de mana. E, se estivessem recorrendo à feitiçaria, o Arquidemônio Zagan com certeza conseguiria encurralá-los.

Em outras palavras, os documentos que examinava eram suas melhores pistas. Entretanto...

— Por que essa cara de preocupação?

— Hmm... — Zagan soltou um resmungo intrigado enquanto folheava um dos livros.

— Nenhum desses diários menciona a Nephy.

— Não seriam apenas diários de antes de a Nephy nascer? — perguntou Chastille, olhando com curiosidade.

— Não são. Os diários terminam com a descrição de como os humanos invadiram o seu território. Imagino que tenham registrado pouco antes da vila ser destruída. E sei, com certeza, que a Nephy estava lá quando isto aconteceu.

— Ouvi dizer que a Nephy era, hmm, chamada de criança amaldiçoada aqui, não é? Então, não dá para concluir que estava sendo ignorada? — murmurou Chastille, pensativa.

— Se eu estivesse no lugar deles, teria ficado de olho o tempo todo em uma pirralha tão perigosa. O fato de não o terem feito deixa claro que compreendiam o poder da Nephy. Quer dizer, até imploraram pela sua ajuda no final, não foi?

— Tem razão... Se de fato a considerassem perigosa, teriam prestado mais atenção... — murmurou Chastille, organizando os pensamentos. Sendo esse o caso, uma expressão de compreensão surgiu em seu rosto e disse. — Espere, não haveria um diário dedicado inteiramente ao monitoramento da Nephy? Tenho certeza de que os elfos a odiavam, todavia causar confusão em público talvez fosse malvisto, não? Não é possível que tenham escondido qualquer informação a seu respeito dos outros aldeões?

A boca de Zagan se abriu em surpresa. Jamais esperava ouvir palavras tão sensatas vindas dela.

— Hã? O que houve?

— Não, é só que... Estou surpreso por você ter tido uma ideia tão boa.

— Quem acha que eu sou? — exclamou Chastille, com o rosto contraído pelo choque e pela raiva.

— Tente dizer isso depois que deixar de ser uma chorona.

— Só tento manter separadas as minhas facetas pública e privada, é só isso. E avaliei que a situação atual faz parte do meu dever público.

Em outras palavras, apesar de ser uma Cavaleira Angelical bastante competente, essa garota é um desastre total na vida pessoal? Zagan ficou sem saber o que pensar com a sua resposta. Parando para pensar, ela parecia bastante digna e sensata quando lutaram pela primeira vez. Naquela ocasião, havia desafiado Zagan devido à sua missão como Cavaleira Angelical. Depois, quando Nephy a reencontrou na cidade, acabou se mostrando uma chorona de primeira. Foi nessa época que foi dispensada de suas funções como Cavaleira Angelical... O que fazia todo o sentido, dadas as novas informações que acabara de fornecer. Depois disso, só encontrava Zagan quando estava fora de serviço, consolidando sua fama de chorona.

A capacidade de Chastille de separar tão claramente essas duas facetas de si mesma era digna de elogios, entretanto fazia com quem se perguntassem por que não conseguia manter pelo menos um pouco da compostura na vida privada. Embora, no fim das contas, não importasse. Na verdade, essa dualidade de personalidade acabou sendo bem útil neste caso.

— Tenho um pedido. Traga todos os livros élficos que encontrar na mansão do ancião. Basta procurar qualquer coisa escrita em élfico e trazer para cá! — Zagan levantou os olhos do livro ao pedir esse favor.

— Então está dizendo que pode estar escondido bem à vista de todos, é?

— Correto. Que esperta, Chastille.

— A-Ah, obrigada... Ehehe... — a expressão de Chastille relaxou por um instante, todavia logo recuperou a compostura e correu em direção à mansão do ancião.

Não acredito que ela está agindo assim e sendo de grande ajuda... Tem algo errado com este vilarejo.

Fenômenos desconhecidos e anormais aconteciam por toda parte. Porém, se Chastille estava deixando de lado, por vontade própria, sua postura de chorona para levar a situação a sério, Zagan não podia se dar ao luxo de brincar. Portanto continuou a examinar a pilha de diários ao seu lado.

Infelizmente, não encontrou o nome de Nephy em lugar algum, mesmo após vasculhar registros de cinquenta anos. Enquanto estava ali, intrigado com aquele desenrolar, sentiu algo pesar sobre sua cabeça.

— Hehehe...

Zagan ergueu o olhar e viu uma Nephy minúscula, com um sorriso enorme no rosto.

Por que você é tão incrivelmente fofa? O sorriso de Nephy iluminou seu coração, antes sombrio. Zagan mal conseguia se conter, o desejo de protegê-la transbordava de seu interior. Por isso, seu corpo agiu à revelia de sua mente, e acabou colocando-a sobre os ombros.

— Wooow, tããããaão alto!

— Zagan, eu também! — exclamou Foll.

— Gaaah, tá bom! — disse Zagan, enquanto movia Nephy para o ombro esquerdo para abrir espaço no direito para Foll. E então, deu uma volta na praça com as duas montadas em cima.


Kimaris, que estava investigando as outras casas da vila, parecia querer se juntar a elas, porém acabou se contendo.

— Foi divertido.

— Foi mesmo, irmãzona!

Foll soltou um suspiro de satisfação, enquanto Nephy saltitava ao seu lado. Após um momento de silêncio, Nephy começou a falar com um sorriso estampado no rosto.

— Mestre Zagan, eu fiz uma coroa de flores com a irmãzona Foll! É para você!

— É... Obrigado... — respondeu Zagan, confuso. Aquele era o primeiro presente que recebia de Nephy, o que significava que precisava protegê-lo. Então, usou feitiçaria para impedir que as flores murchassem. Contudo, enquanto o fazia, a pequena Nephy olhou para cima, com uma expressão preocupada.

— Você se sente melhor agora, Mestre Zagan?

— Eu... Não pareço bem?

— Sim. Agora parece estar se divertindo, só que estava muito triste mais cedo.

Isso acontecia, obviamente, porque era difícil manter a alegria quando a garota que amava estava sofrendo sob algum tipo de maldição.

— Então, aqui está um amuleto da sorte para te animar. — disse Nephy, esticando seus bracinhos para segurar as bochechas de Zagan. Depois de agarrá-las com firmeza, encostou a testa na dele. A sensação era muito familiar. Bem, é claro que era, afinal havia feito algo semelhante no passado, quando tentava ajudar Nephy.

Essa garota realmente continua a mesma no fundo, não é? Mesmo depois de encolher, perder suas memórias mais recentes e ter sua personalidade reduzida à de uma criança inocente, Nephy continuava sendo Nephy. E aquilo o deixava transbordando de felicidade.

— Que amuleto útil. Entendo. De fato me sinto melhor agora.

— Sério? Ehehe... — disse Nephy, sorrindo.

Essa Nephy sorri muito, não é?

Era como se ela não soubesse nada sobre rejeição ou perda. Era a própria definição de uma garotinha pura. Talvez aquela fosse a sua verdadeira natureza o tempo todo, tendo ficado adormecida devido aos anos de maus-tratos que sofrera na vila. Zagan se sentia feliz por vê-la recuperar o sorriso, embora o fato de isso só ter acontecido porque fora transformada em criança o deixava com um certo amargor.

Na tentativa de afastar tais pensamentos, Zagan tocou a coroa de flores que Nephy fizera para ele. Ao fazê-lo, percebeu que era feita de lindas flores violetas.

— Fico surpreso que flores tão delicadas desabrochem neste clima.

As estações estavam começando a mudar para o inverno até em Kianoides, o que significava que Norden, um país tipicamente frio, já estava em pleno inverno. Era por esse motivo que Zagan se surpreendia tanto ao ver flores desabrochadas.

— São violetas. Não é a época delas agora. — disse Foll, inclinando a cabeça para o lado, confusa.

— Como assim? — perguntou Zagan, num tom que deixava claro que estava tão intrigado quanto Foll. Em resposta, Foll apenas apontou para o céu. E, ao olhar para cima, ele viu... Um enxame de borboletas voejando.

— Hã? — Zagan levantou-se com uma expressão de choque e disse. — Borboletas... Neste frio?

As borboletas eram uma raça intimamente ligada às fadas, o que tornava suas asas catalisadores ideais para a feitiçaria. Foi por essa razão que Zagan sabia sobre elas. Ao contrário da maioria das criaturas, elas não conseguiam sobreviver a um inverno rigoroso. Se fosse apenas uma, era possível que tivesse despertado por engano, no entanto um enxame inteiro era uma possibilidade surreal. Afinal, as borboletas eram tão sensíveis ao frio que nem sequer saíam do casulo a menos que estivessem em um clima quente.

Foll olhou ao redor, confusa. E, enquanto Zagan seguia o seu olhar, notou algo bastante estranho. Na noite anterior, as casas não tinham pessoas dentro e não mostravam sinais de deterioração real. Entretanto, agora estavam tomadas por hera e musgo. Além do mais, flores de todas as cores desabrochavam no chão, borboletas esvoaçavam em busca de néctar e uma brisa quente de primavera tocava suas bochechas. Aquilo não fazia o menor sentido. Uma mudança tão grande não poderia ter ocorrido no tempo que levou para ler todos aqueles diários.

— O clima aqui enlouqueceu... Não, o próprio fluxo do tempo está estranho. Deveríamos sair rápido... — Foll informou-o disso com uma voz cheia de pavor.



***



Após notar a irregularidade, Zagan reuniu a todos. Nephteros, Barbatos, Kimaris e Gremory estavam presentes. Procurar por ali na forma de uma velha parecia insuportável para as costas dela, por isso, no atual momento estava em uma forma mais jovem e bela.

Chastille, que havia ficado encarregada de revistar a mansão, não tinha retornado. Mal havia começado as buscas, o que justificava sua ausência, todavia Barbatos disse que ela havia encontrado algo interessante. Por enquanto, a sombra dele estava conectada à Chastille, então não havia problema ainda que não a chamassem de volta à força.

O sangue de alta-elfa de Nephy deveria tê-la protegido contra a feitiçaria, mas ela ainda assim foi transformada em criança. Eu deveria ter percebido que uma força maior estava em jogo... Zagan recriminou-se por não ter visto o óbvio. De alguma forma, nem sequer percebeu que havia algo de errado até que Foll chamasse sua atenção para esses detalhes.

Zagan tentou tocar o chão. Naquele momento, a terra estava sendo empurrada para os lados enquanto novos brotos despontavam aqui e ali. Ao cair da noite, a área onde estavam estaria, sem dúvida, coberta de vegetação. Conseguia sentir o fluxo de mana, e isto lhe dizia que aquele fenômeno não era “criado”, como quando alguém utilizava feitiçaria. Era sem dúvida antinatural, porém, ao mesmo tempo, natural, da mesma forma que a terra se transformava ao longo de meses e anos. Era como observar um mar de árvores crescendo em ritmo acelerado.

— Então seria também misticismo? Que incômodo. Por enquanto, será que deveríamos sair daqui? — disse Zagan. Como era um especialista em desfazer feitiçarias, significava que estava fora de sua zona de conforto. Sem contar que, se a barreira ao redor daquelas terras fosse a responsável por transformar Nephy em um bebê, havia a chance de que se afastar desta a fizesse voltar ao normal. E, honestamente, mesmo que não funcionasse, talvez fosse melhor fazer com que seus subordinados buscassem refúgio em outro lugar.

— Não, provavelmente é inútil. Parece que a barreira já cobre toda a vila. Embora alguém como o Purgatório talvez conseguisse passar por ela... — Gremory ajustou a posição da grande foice em seu ombro e balançou a cabeça, rejeitando a sugestão de Zagan.

— É verdade? — perguntou Zagan.

— Talvez, se for apenas eu. Porém levar um monte de gente junto torna as coisas bem difíceis... — respondeu Barbatos, dando de ombros enquanto falava. O jeito como disse aquilo dava a entender que já havia tentado e falhado.

Sem chance, então?

— Meu olfato está limitado. É provável que acabemos sendo trazidos de volta, mesmo que tentemos fugir. Quem quer que esteja fazendo isso tem controle total... — Kimaris franziu o rosto ao expressar seus pensamentos.

— Até o meu Olho Maligno de Balor está selado. É provável que também seja o caso com o sopro de Valefor... — Gremory possuía um olho maligno capaz de reduzir a cinzas qualquer coisa sobre a qual ela lançasse seu olhar. Era uma habilidade que alguns fomorianos possuíam, de natureza distinta da feitiçaria e, em certos aspectos, ainda mais poderosa que o misticismo.

— Entendo. Resumindo, fomos aprisionados nesta vila, não é?

Todos ficaram em silêncio quando Zagan verbalizou o que todos pensavam sobre a situação. Nephy foi a única que não compreendeu bem e inclinou a cabeça para o lado, curiosa.

— O que vamos fazer, Zagan? — perguntou Barbatos. Contudo, em vez de responder à pergunta, Zagan apenas colocou a mão no chão e examinou o fluxo de mana mais uma vez.

É bem complexo, no entanto não é como se eu não conseguisse lê-lo... Com base em suas descobertas, talvez houvesse uma “brecha” em algum lugar. E o fato de Barbatos conseguir escapar reforçava sua teoria.

— Aliás, Barbatos, você se lembra do que comemos no café da manhã? — Zagan perguntou a Barbatos para confirmar os detalhes.

— Hã? Que diabos está... — Barbatos elevou a voz, irritado, entretanto se calou ao ver a expressão séria no rosto de Zagan. Então, refletiu um pouco e disse. — Sopa e pão que sobraram de ontem, e uma salada de plantas silvestres, certo? Por que a pergunta?

— Hm... Então, Kimaris, poderia contar o que aconteceu desde que a Nephy ficou assim?

— Sir Zagan, você pediu a mim e à Srta. Gremory que investigássemos a antiga casa da senhorita Nephy porque meu faro é útil para rastrear criaturas, e a Srta. Gremory domina a feitiçaria que manipula a idade. E, caso encontrássemos alguma coisa estranha, deveríamos retornar sem nos envolver em hostilidades... — Kimaris respondeu com uma expressão intrigada.

— Foll. Antes de vir para cá, você cuidou de um canteiro de flores com o Kimaris, certo? O que desenterrou naquela ocasião? — Zagan encerrou o assunto perguntando a Foll.

— Hã...? Uma mandrágora. É saborosa como lanche e também fortalece a mana, então eu estava cultivando algumas com o Kimry.

— Verdade. Da próxima vez, vamos tentar conseguir algumas de boa qualidade e um solo melhor.

— Hmm... — Foll ronronou e assentiu alegremente com as palavras de Kimaris, enquanto Zagan acariciava a cabeça de sua amada filha com carinho.

— Qual é o objetivo de todas essas perguntas? — Barbatos perguntou, agitado com a estranheza das perguntas.

— Vejamos. Por enquanto, posso afirmar que todas as nossas memórias estão intactas. Apenas Nephy é uma exceção...

As memórias recentes de Nephy estavam todas vagas. Se houvesse algum tipo de influência malévola, era provável que também tivesse alterado as memórias deles sobre os últimos dias. Zagan verificou a situação de cada um apenas para garantir, todavia parecia não haver nada de incomum nas memórias de nenhum deles. Talvez fosse devido à sua raça, já que todos no grupo eram diferentes?

Independentemente do motivo, pareciam estar com um estado mental inalterado. Além do mais, não conseguia avaliar se os seus corpos estavam resistindo bem. Porém, como feiticeiros resistiam naturalmente aos efeitos da velhice, isso não chegava a ser uma grande preocupação.

Após confirmar todos esses fatos, Zagan explicou sua conclusão como se não fosse nada demais.

— Bem, temos meios de romper essa barreira usando força bruta. Por enquanto, vamos continuar nossa investigação.

Uma distorção temporal era, sem dúvida, algo que exigia cautela, mas não havia vestígios de nenhuma outra ameaça. Sendo assim, fazer alvoroço não levaria a nada. Essa foi a conclusão a que Zagan chegou.

— Força bruta? Essa coisa não é uma barreira feita de feitiçaria, certo? Tem algo que você possa fazer?

— E daí que não é feitiçaria? Ainda podemos rompê-la usando feitiçaria, não é?

É verdade que Zagan não conseguia devorá-la, contudo essa não era sua única habilidade. Não havia passado seus dias apenas à toa em seu castelo depois de aprender sobre o misticismo celestial. Na verdade, havia desenvolvido pelo menos uma maneira de lidar com situações complicadas como aquela.

É provável que este lugar acabasse virando terra arrasada, onde nem sequer um fio de grama cresceria, no entanto não era como se alguém ainda morasse aqui... A única dúvida em sua mente era se estava tudo bem destruir a cidade natal de Nephy. Foi por esse motivo que optou em tentar reunir mais algumas pistas. Além do mais, Zagan viera investigar a conexão entre o misticismo celestial e as Espadas Sagradas, então dar uma olhada mais atenta não faria mal.

— Sabe, te ouvir fazendo essas afirmações de forma despreocupada dói um pouco. Faz parecer que não é nada demais... — disse Gremory, em um estado um tanto abatido.

— É assim que as coisas são. Sair daqui não é tão difícil. E, mesmo que fosse, tenho vocês para me ajudar, então nunca me preocupei.

Na verdade, tratava-se de uma barreira extremamente poderosa, capaz até de transformar Nephy... O que significava que havia uma chance de que Zagan e os demais viessem a sofrer o mesmo destino em algum ponto.

Entretanto, o poder daquilo apenas despertou a curiosidade de Zagan. Ele queria investigar a estrutura da barreira com calma.

Acho que vou ter que encerrar as coisas mais cedo se eles começarem a ficar nervosos...

De qualquer forma, essa situação não era nada com que precisassem se preocupar. E enquanto os subordinados de Zagan relaxavam devido à sua tranquilidade, Nephteros se manifestou para questionar a sua determinação.

— Pare aí. Sei o que pode estar pensando, todavia não posso fazer nada em relação a essa barreira. O misticismo celestial não é onipotente... Então, se planeja contar comigo aqui...

— Eu já te disse, lembra? Você é uma convidada. Uma convidada não precisa se exaltar com assuntos tão triviais! — Zagan deu leves batidinhas na cabeça de Nephteros enquanto repetia o que havia dito antes.

— Hã...? O quê? — Nephteros fez uma expressão complexa, misturando felicidade e constrangimento, embora não afastou a mão de Zagan.

— A irmãzona Nephteros é igualzinha a mim... — disse Nephy, puxando a barra da saia de Nephteros.

— O quê? Como assim?

— Você está feliz porque o Mestre Zagan está fazendo carinho na sua cabeça!

— N-Não, não é verdade! — declarou Nephteros, afastando a mão de Nephy.

— D-D-Desculpa... Eu achei... Que ficaria feliz... — Nephy soluçou, parecendo chocada com a reação de Nephteros.

— E-Espere, não é motivo para chorar! Não estou brava nem nada do tipo, juro! Olha, pode pedir para o Zagan fazer carinho na sua cabeça para se sentir melhor, não pode? — Nephteros empalideceu e entrou em pânico ao ver lágrimas surgirem no rosto de Nephy. Então, pegou Nephy no colo e estendeu a mão para Zagan, num pedido de socorro.

— Escute aqui, Nephy. A Nephteros não te odeia nem nada do tipo. Mesmo quando está feliz, ela tende a ficar sem jeito se as pessoas comentam a respeito. Seria bom você compreender o jeito dela.

— Sério?

— É... Ele tem razão... — Nephteros assentiu com relutância quando Nephy voltou seus olhos inocentes para ela.

— Eu amo muito, muito mesmo a irmãzona Nephteros! — exclamou Nephy, com um sorriso radiante e cheio de energia no rosto.

— Urgh... Isso... Uh... Err... Caramba... — Nephteros soltou um suspiro exasperado depois de hesitar por um momento. Era uma cena fofa vê-la incapaz de resistir à pequena Nephy. Ainda mais considerando a indiferença com a qual costumava a tratar.

— Parece que não sabe lidar com crianças pequenas, hein? — Zagan a provocou por causa dessa fraqueza. Em resposta, Nephteros apenas soltou um bufo... Um “hmph”, e colocou Nephy no chão antes de falar.

— Não é verdade. Só sinto pena delas. Crianças nascem livres de qualquer pecado, não é? Até você fingiu deixar cair uma maçã para ajudar uma criança abandonada na beira da estrada, não foi?

— Espere aí. Como sabe daquilo? — o rosto de Zagan ficou tenso ao ouvi-la murmurar aquilo com tanta naturalidade.

Outro dia, quando Zagan viajou para Kianoides com Nephy, ao notar uma criança sem-teto agachada na esquina de uma rua. E, ao ver aquela figura que lhe lembrava o seu próprio passado, abençoou a criança com uma maçã. Nephy havia percebido, já que estava bem ao lado, mas ela deveria ter sido a única testemunha.

Nephteros cobriu a boca de repente, como se tivesse deixado escapar algo sem querer, porém já era tarde demais. Forçada a admitir o que havia feito, respondeu à pergunta em um tom tímido.

— Hmm... O Mestre Bifrons preparou uma bola de cristal para monitorar todos vocês, e eu acabei vendo a cena acontecer quando dei uma espiadinha rápida...

— Aquele cara continua bancando um voyeur?

— I-Isso mesmo! Só vi por acaso quando o Mestre Bifrons estava espiando!

Não me diga que a Nephteros estava espiando porque queria se dar bem com a Nephy? Zagan lançou um olhar cheio de suspeita ao ouvir seu tom desconcertado.

Não importava como analisasse a situação, Zagan sentia que esse caso não envolvia Bifrons de forma alguma. Se Bifrons estivesse envolvido, não teria ficado apenas como espectador o tempo todo. Contudo, aquilo o deixava intrigado sobre o motivo de Nephteros não conseguir se dar bem com Nephy, sendo que se preocupava tanto com ela.

É melhor eu parar por aqui. Sinto que essa garota vai ficar ainda mais teimosa se continuar a provocando... Talvez essa fosse a sua principal diferença comparada a Chastille. Chastille conseguia suportar provocações por muito tempo, no entanto se recuperava num piscar de olhos.

A capacidade de Chastille de se recuperar de insultos era algo impressionante. Possuía uma resiliência semelhante à de uma erva daninha. E, por causa dessa característica sua, as pessoas que a provocavam muitas vezes esqueciam de medir as palavras e se divertiam às suas custas.

Por outro lado, Nephteros não parecia um alvo tão fácil. Embora isso tornasse provocá-la mais divertido. Apesar de tudo, foi Zagan quem a classificou como sua convidada, então sabia que precisava encerrar o assunto ali.

— Bom, não tenho nenhum interesse no que vocês estão fazendo, então diga a Bifrons para continuar espiando com moderação. Da próxima vez, não vou deixar passar tão fácil... — Zagan deu com os ombros enquanto respondia.

— V-Vou passar essa mensagem... — Nephteros assentiu. Embora, Zagan sentiu como se a tivesse ouvido murmurar “Minhas desculpas, Mestre Bifrons...” para si mesma.

— Hohoo, dar uma maçã para uma criança abandonada cujo nome você nem sabe. Entendo. Meu Arquidemônio é bastante generoso, não é? — Gremory deu um sorriso travesso ao comentar sobre a troca deles.

— Fiz apenas por um capricho. Não há comida suficiente no mundo para alimentar cada pobre pirralho que vejo.

Ele estava exagerando, e se alguém perguntasse se o faria de novo, sua resposta honesta seria sim. Entretanto, seria um mentiroso se dissesse que queria salvar todas as crianças do mundo. Zagan não era um santo que cuidava de todas as pessoas inocentes do mundo. Na verdade, não teve escrúpulos em bater em uma criança que descaradamente implorou por comida enquanto agia como se merecesse sua caridade.

— Todavia, com o tempo, você não receberá uma recompensa? — Gremory assentiu satisfeita ao fazer essa afirmação.

— Não seja estúpida. O que vou conseguir de algum pirralho que está rastejando na beira da estrada?

Essas crianças não tinham muita utilidade. Seu principal valor era o sacrifício, mas Zagan desprezava a feitiçaria alimentada pela vida mortal. E, sendo franco, tirar a vida deles por causa de uma única maçã parecia injusto.

Gremory caiu na gargalhada ao ouvir a resposta de Zagan.

E então, abriu o manto e girou no mesmo lugar.

Quando enfim parou, ela tinha quase a mesma altura de Foll. Isto fez Zagan pensar que ela voltou à sua forma de velha, porém...

— Keeheehee, essa é a recompensa da qual estava falando... — Gremory assumiu a forma de uma menina de dez anos. Tinha chifres de cabra retorcidos, contudo suas mãos pareciam moles e seus traços faciais eram bastante ternos. Além do mais, a maneira como piscava com os olhos brilhantes era a própria definição de pura inocência. Era difícil acreditar que a velha rebelde já tivesse sido tão charmosa.

Nephy e Foll bateram palmas com a visão.

— Dona Gremory, isso é incrível!

— É tão legal, Gremory. Me ensina a fazer também!

— Fufu. Ótimo. Elogie-me mais! Sou elogiada como um gênio mesmo entre os fomorianos, então vocês têm sorte de poder testemunhar uma demonstração de minha habilidade! — Gremory estufou o peito de orgulho enquanto era elogiada pelas duas garotas.

Como alguém tão fofa se transformou naquele morcega velha? Gremory havia confundido Zagan, e este aos poucos começou a duvidar que essa jovem e aquela velha fossem a mesma pessoa. Deixando Zagan de lado, Gremory acenou para Nephy e Foll até ela.

— Vocês duas, me emprestem seus ouvidos. Vocês estão ouvindo? Srmrmrmrmr...

— Sim! Entendido!

— Qual é o sentido de fazer isso?

Apesar dos protestos de Foll, as três deram as mãos, com Nephy no centro, e se alinharam na frente de Zagan. E então, as três meninas falaram em uníssono.

— Eu te amo tanto, papai!

— H-Hnngh...!

Tão fofo! Eu só quero abraçar todas elas com força! Zagan caiu de joelhos. Aquilo foi algo que nunca aconteceu, independentemente das provações que enfrentou. Zagan permaneceu firme quando lutou contra um Arcanjo de frente, quando ficou cara a cara com os doze Arquidemônios, quando lutou contra a quimera demoníaca e até mesmo quando teve o Lorde Demônio do Lodo bem diante de seus olhos. No entanto aqui estava ele, reduzido a tal estado a partir de uma única frase.


Parando para pensar, nunca me chamaram de “Papai” nem nada do tipo antes, não é? Fazia sentido, já que a única filha de Zagan era Foll, e ela sempre o chamava pelo nome. Infelizmente, por causa disso, jamais havia experimentado o poder avassalador dessa palavra.

Uma delas era Gremory e, apesar de saber, ainda sentia uma vontade enorme de criar as três com todo o carinho. Afinal, se viesse a se esforçar o suficiente, não seria possível criar Gremory para ser uma filha tranquila? Zagan estava tão envolvido na situação que chegava a nutrir ilusões tão irreais quanto essa.

Mesmo assim, Zagan era um Arquidemônio. Mesmo com o corpo tremendo, se levantou.

— Ei, o que está planejando... Gremory?

— Keeheehee, não se lembra do que falei? Essa é uma recompensa que se recebe das crianças. Palavras sinceras de gratidão são muito gratificantes, não são? — disse Gremory enquanto se agarrava à perna dele. Então, ela riu e sorriu de volta.

Se fosse apenas Gremory, Zagan apenas teria a afastado por estar agindo como uma boba, entretanto a presença de Nephy e Foll fazia com que quisesse abraçar a todas. Era absolutamente impossível mandá-las embora.

— Zagan, você quer que eu te chame de “Papai”? — Foll inclinou a cabeça para o lado ao fazer essa pergunta.

— Erk... Bem, não posso dizer que odeio a ideia... — Zagan respondeu com a voz embargada e tímida.

— Entendi. Vou praticar... — Foll assentiu, como se estivesse ponderando sobre o assunto ao responder.

Foll era a única criança de verdade entre as três, o que devia tê-la deixado bastante confusa com toda a situação... Embora não significasse que achasse a situação menos constrangedora. Zagan conseguia ver as suas bochechas corando.

— Ehehe, então o Mestre Zagan é meu papai, né? Eu achava que não tinha um... — Nephy esfregou inocentemente o rosto na perna de Zagan enquanto falava. E, ao ouvir aquelas palavras, Zagan ficou atônito.

— Como assim, Nephy? Você não conhece seus pais?

— Hmm, eu não sei bem... É que o Mestre Zagan foi a primeira pessoa que segurou minha mão e me tratou bem, como um pai faria...

Será que a Nephy só tinha as memórias de quando tinha cerca de cinco anos? Aquilo faria sentido, já que foi perseguida naquela época, todavia o fato de nem conhecer os pais parecia estranho. Ela claramente entendia o conceito de relações parentais e famílias, portanto não os conhecer devia significar que nunca nem os tinha encontrado. E, enquanto Zagan refletia a respeito, Nephy o encarou com ansiedade.

— Eu... Disse alguma coisa errada de novo?

— Não, de jeito nenhum. Já te dei bronca alguma vez? — Zagan se ajoelhou para ficar na altura do olhar de Nephy e falou em tom de repreensão carinhosa. E, enquanto as pontas das orelhas de Nephy tremulavam de felicidade, ela passou os braços em volta do pescoço dele e o puxou para um abraço.

— Mestre Zagan, eu te amo muito!

Zagan penteava o cabelo dela enquanto refletia sobre o que havia ouvido há poucos instantes.

“Disse algo errado de novo?” Zagan sentia que aquela não era uma frase que uma criança pequena deveria repetir com tanta frequência.

Provavelmente, era algo a que se acostumara a dizer por se culpar pela maneira como os outros elfos a tratavam... Em outras palavras, Nephy havia voltado aos seus padrões de comportamento daquela época. O motivo de conseguir sorrir de forma tão espontânea e livre era que aquilo acontecia antes de ter encarcerado seu coração.

Por que sou odiada? O que preciso fazer para que todos gostem de mim? Naquela época, sem dúvida nutria pensamentos assim. E, se tivesse crescido sob os cuidados de Zagan a partir daquele dia, talvez Nephy conseguisse viver sem o peso de suas memórias mais dolorosas. Afinal, até as lembranças de infância de Zagan haviam se tornado vagas quando chegou à adolescência.

— Pequena Nephy, crianças não fazem nada de ruim. Elas só fazem coisas erradas quando não são ensinadas corretamente. Por isso, não há nada que você precise temer aqui... — Kimaris agachou-se diante de Nephy e sorriu ao dizer isso. Talvez tivesse chegado à mesma conclusão que Zagan.

— Sério?

— Claro.

— Então... Tudo bem se eu pedir algo egoísta? — Nephy perguntou, suplicante, enquanto entrelaçava os dedos, e Kimaris retribuiu o sorriso.

— Com certeza, peça o que quiser.

O rosto de Nephy se iluminou com a resposta de Kimaris. Então, falou com um sorriso radiante.

— Posso... Bagunçar a sua juba, senhor Kimry?

— Bagunçar...? — Kimaris retribuiu o olhar, surpreso. Jamais teria imaginado, nem nos seus sonhos mais ousados, que receberia tal pedido.

— Acho que... Não posso?

— Não, não me importo. Pode ir em frente.

— Eba, obrigada! Eu também adoro o senhor Kimry! — disse Nephy, começando a bagunçar a sua juba. Ela a penteou para cima, em direção ao seu queixo, fazendo Kimaris soltar um som que misturava felicidade e constrangimento.

— Vou... Ter que ficar na minha forma de besta por um tempo, hein?

— Desculpe, Kimaris... — Zagan refletiu sobre isso e logo percebeu que Kimaris passava muito tempo no castelo em sua forma de leão. Sempre presumira que fosse porque Foll gostava, mas talvez Kimaris apenas apreciasse a companhia de crianças.

— Que diabos vocês, ex-candidatos a Arquidemônio, estão fazendo? Não é hora de ficar de brincadeira com pirralhos! Não se lembram da situação em que estamos? — Barbatos os repreendeu, bufando.

— Senhor Boboto, você está bravo? — Nephy fez uma cara de surpresa ao ouvir as reclamações dele.

— É Barbatos.

— Sim, senhor Boboto.

— Aff... Deixa pra lá, tudo bem. — disse Barbatos, desistindo de corrigi-la. Parecia que o seu nome era bem difícil de pronunciar.

Será que ele também não ficou mais brando? Talvez estivesse apenas se sentindo solitário por ninguém estar lhe dando alguma atenção. A reação de Barbatos foi tão morna que seus verdadeiros sentimentos chegaram a ser postos em dúvida. E, mesmo fazendo careta, ele se agachou na frente de Nephy.

— Tá me ouvindo, pirralha? Parece que o Zagan não consegue bancar o durão na sua frente. Agora é a hora de ser egoísta e lhe causar todo tipo de problema, entendeu?

— Não posso dar trabalho pro Mestre Zagan!

— Ah, qual é, aquele leão ali não te disse para pedir o que quisesse? Pirralhos como você existem para dar trabalho aos adultos. E olha, aposto que aquele cara vai ficar mais feliz se o fizer. Né? Você também não quer deixar o Zagan fel... Argh!

Zagan desferiu um soco impiedoso na cabeça do vilão que tentava corromper uma garota tão pura.

— Escute, Nephy. Não de ouvidos a adultos suspeitos, está bem?

— Sim, Mestre Zagan! Mas o senhor Boboto também não é uma boa pessoa?

— Não tenho tanta certeza disso... — Zagan lançou um olhar severo para Barbatos, que soltou um bufo desconfortável ao dizer aquilo. Enquanto toda essa cena se desenrolava, Nephteros enfim se recuperou de seu desconforto e soltou um suspiro.

— Vocês... Estão levando tudo numa boa, hein? — Nephteros talvez estivesse falando consigo mesma, contudo Gremory abriu um largo sorriso ao ouvi-la.

— Ei, irmãzona, brinca comigo!

— Brincar! — Foll saltou e a abraçou, seguindo o exemplo de Gremory.

— Ah, e-ei, o que vocês duas estão fazendo? Parem! — protestou Nephteros.

— Irmãzona, por favor, brinca comigo! — Nephy por fim se juntou à conversa, unindo-se às outras duas garotas.

— Argh, suas pirralhas... — Nephteros queria protestar outra vez, no entanto se lembrou de que tratar Nephy com frieza a havia levado às lágrimas poucos instantes antes. E, embora parecesse dividida quanto a isso, acabou deixando os ombros caírem, sinalizando que havia cedido.

— Tá bom, o que vocês querem fazer?

— Vamos brincar de pega-pega!

— Vamos cantar!

— Vamos colher flores!

— Escolham só uma coisa! — Nephteros retrucou com irritação, o que fez as três garotinhas rirem. Entretanto, não estava tão brava quanto fazia parecer. É verdade que havia uma expressão de desgosto em seu rosto, todavia, no fundo, queria passar um tempo com elas.

— O que está acontecendo aqui? — Chastille comentou ao sair da mansão do ancião.

Gremory havia se transformado em uma garotinha, Kimaris estava servindo de cadeira para três meninas, Barbatos havia desmaiado e Nephteros estava brincando com todas.

Do ponto de vista de Chastille, aquela era uma situação absurda. Zagan, por sua vez, apenas balançou a cabeça, como se não fosse nada demais.

— Todo mundo precisa de um tempo de descanso de vez em quando.

— Tempo de descanso? ​​Não estamos em perigo agora?

— Ah, não. Não se preocupe. Estamos totalmente seguros. Vou só reduzir esta vila a escombros quando quisermos sair desta barreira. — Zagan comentou com naturalidade.

— V-Vai explodir tudo...? Essa não é a cidade natal da Nephy?

— E daí...? Bem, pense nessa opção como nosso último recurso. Mais importante, descobriu alguma coisa? — Zagan a havia chamado antes, mas Chastille continuou investigando a mansão em vez de responder ao seu chamado. Aquilo devia significar algo.

— Sim! — disse Chastille, acenando com a cabeça. Então, continuou. — Encontrei um compartimento secreto no quarto do ancião da vila. E foi isto que encontrei guardado lá dentro... — Chastille tirou um livro de trás das costas. Era manuscrito, tal qual os diários da vila, porém, ao ver o título, Zagan estreitou os olhos.

— Você entende o significado das palavras na capa?

— Não, não sei ler a língua élfica... É importante?

— Bem, é sim... — Zagan estava empolgado com o que via. E com razão, já que era justo aquilo que procurava. Ainda assim, se perguntava se era de fato correto examinar o conteúdo. Hesitou bastante, no entanto acabou decidindo que não podia deixar passar a pista que Chastille havia encontrado. Não era hora de vacilar. E assim, Zagan aceitou o diário.

— Esse livro foi a única coisa que encontrou?

— Não, isto estava escondido junto... — Chastille ergueu um pingente enquanto falava. Embora, talvez “pingente” não fosse a palavra mais adequada. Parecia mais uma ponta de flecha que havia sido transformada em colar. Não era muito grande, embora tinha dez joias incrustadas na superfície e um emblema em forma de árvore esculpido nela.

— Não é um emblema usado em feitiçaria, entretanto já vi isso antes. Se bem me lembro, chama-se “Árvore da Vida” e é um símbolo que representa Celestian... Você encontrou isso ao lado deste diário? — Zagan assentiu com firmeza enquanto perguntava a Chastille.

— É. Parece uma antiguidade, só que não sei dizer qual é o seu valor. — respondeu Chastille, retribuindo o aceno de cabeça de Zagan.

— Por que não me entrega isso...

— Oh, ok...

Parecia ser feita de prata, mas não era o caso. O objeto estava imbuído de uma mana assustadoramente poderosa, e um simples toque com a unha bastou para convencer Zagan de que aquilo era muito mais resistente do que qualquer espada comum. Era tão resistente que dava a impressão de ter sido criado ao moldar a própria mana...

— Isto é mithril?

— Mithril? Quer dizer aquela substância que se diz estar no mesmo nível do oricalco, o metal usado pelos deuses nas lendas?

— É. É a primeira vez que vejo o material verdadeiro. Eu deveria imaginar que uma vila élfica escondida teria algo assim por perto.

— Ei, espera aí, é sério? É mithril mesmo? — Barbatos se levantou de um salto assim que os ouviu discutir sobre a substância rara.

— Cala a boca. É provável que pertença à Nephy! — declarou Zagan, porém precisava ter cuidado, alguém poderia ter preparado uma armadilha.

Acho melhor descobrir se é perigoso antes de entregar para a Nephy.

— Ah, qual é, pelo menos deixa dar uma olhada! Aliás, onde diabos achou essa coisa?

— Fui eu que achei. Pelo menos pergunte para a pessoa certa! — disse Chastille, com uma expressão de exasperação.

— E-Ei, Zagan? Ela é... Ela mesma, né? Aquela chorona, digo... — Barbatos parecia atônito com as palavras de Chastille.

— É, é a mesma pessoa.

— Cara, essa barreira deve estar reescrevendo as leis do universo! Só assim para explicar que esteja sendo útil pela primeira vez na vida.

— Como você ousa... Não acha que está passando dos limites?

— E não está chorando aos berros, mesmo depois de a ter insultado? — Barbatos caiu de joelhos, agindo como se algo além de sua compreensão tivesse acontecido.

— Estou no meio das minhas obrigações profissionais agora. Diga, não acha que já está na hora de levar as coisas a sério? Não me importo de ser provocada, contudo há hora e lugar para tudo. — afirmou Chastille.

Ela realmente gosta de ser provocada? Zagan não conseguia acreditar no que ouvia, no entanto as palavras ditas por Chastille pareciam ter chocado Barbatos ainda mais.

— N-Não acredito! Que sensação é essa? Estou... Tremendo? — Barbatos resmungava e murmurava para si uma e outra vez, em um estado de conflito interno. Parecia perturbado com a descoberta sobre os sentimentos de Chastille.

— Vou examinar este livro aqui. Deixo a Nephy e os outros aos seus cuidados. — disse Zagan, levantando-se e olhando para Chastille.

— Por mim, tudo bem, só que me diga uma coisa antes de ir. Você sabe ler a língua dos elfos, não sabe?

— Sim. E daí?

— Qual é o título deste livro? — perguntou Chastille em tom solene.

Zagan ficou surpreso com a pergunta, todavia logo recuperou a compostura, decidindo que devia dar uma explicação, já que Chastille havia se dado ao trabalho de encontrar o livro.

— “Nephilim”. Significa “aquele que caiu do céu”. Acho que... É a origem do nome da Nephy.

Em outras palavras, Chastille havia encontrado um diário sobre a Nephy.



***



O diário começava com o seguinte prefácio:

Hoje em dia, sou o único que sabe deste fato, mas houve um tempo em que um demônio habitou esta vila. O demônio partiu há muito tempo, embora retornou uma única vez, por apenas um dia. E, ao fazê-lo, deixou para trás um bebê. Essa criança pode muito bem ser o prenúncio de uma calamidade. É por isso que estou registrando todas essas informações. Se o demônio de fato retornar um dia, rezo para que isto o ajude a derrotá-lo.

Mês do Dragão, Dia da Água.

Algo terrível aconteceu. Aquele demônio retornou à vila.

A culpa é toda daquela criança maldita, repulsiva e amaldiçoada. Que tipo de desgraça se abaterá sobre esta vila agora?

Quando eu era criança, aquele demônio já era uma calamidade que corroía esta vila como um parasita. Muitos dos meus irmãos perderam a vida ao serem usados ​​como sacrifícios ou cobaias.

Sinto que ainda posso ouvi-los quando fecho os olhos. Não houve um único dia em que seus gritos cessassem. Eles ecoam em minha mente, atormentando-me incessantemente.

Como aquele demônio ousa trazer um bebê para esta vila! É verdade que me disse que eu poderia ferver ou queimar o bebê como bem entendesse antes de partir, porém tudo isso é suspeito demais.

O bebê carregava um pingente de mithril com o formato da Árvore da Vida. Parecia ser uma verdadeira obra de arte, contudo, como desconhecia sua verdadeira natureza, decidi confiscá-lo.

Sabia que o bebê não carregava pecado algum, no entanto também estava claro para mim que a criança poderia crescer e se tornar outro demônio. Hesitei enquanto ponderava sobre o que fazer, entretanto acabei decidindo matar o bebê.

Era pelo bem maior. Por mais que detestasse a ideia, precisava agir no melhor interesse da nossa vila.

Todavia, não consegui matá-lo. Aquela coisa já era um demônio. As árvores da floresta avançaram sobre mim como se tivessem vontade própria, arrancando o braço que segurava a lâmina.

Que criança aterrorizante. Pensei em tentar deixá-la morrer de fome, mas a floresta continuava a mantê-la viva, independentemente dos meus esforços.

Percebi que não tínhamos meios de matar aquela coisa, então confiei o bebê aos arqueiros mais habilidosos da vila, a família Neruel. Senti pena deles, porém, na pior das hipóteses, eram os únicos que possuíam poder suficiente para se proteger.

—omitido—

Mês do Leão, Dia do Fogo. Já se passaram cinco anos desde a chegada da criança maldita.

Aquela coisa está crescendo bem rápido. Os Neruel a mantêm confinada no porão, apesar que a deixam sair de lá de vez em quando, sempre exibindo um sorriso sinistro no rosto. É repugnante.

Os moradores da vila questionaram se aquela coisa não deveria ser acorrentada, contudo eu sabia que prendê-la seria inútil.

Na época, recusei a ideia, alegando que tal atitude seria injusta, embora fosse evidente que minha decisão geraria insatisfação.

Talvez a única sorte seja o fato de a floresta ter permanecido silenciosa desde que perdi meu braço. Graças a isso, o medo que paira sobre a vila é tênue.

Sem dúvida é o resultado da ordem rigorosa que emiti, proibindo que qualquer mal lhe fosse feito. Todos estão satisfeitos, pois acreditam que a criança não possui poder algum.

Sim, nem sequer contei aos Neruel como perdi meu braço. Ninguém mais precisa saber daquele pesadelo.

Embora os moradores da vila a detestem, não parecem temê-la. É melhor que não saibam que é um demônio com poder suficiente para aniquilar nossa vila num único sopro. Serão mais felizes assim. Minha única preocupação agora é por quanto tempo aquela coisa continuará dócil...

—omitido—

Mês de Sylph, Dia da Terra.

Já se passaram dez anos desde a chegada da criança amaldiçoada.

Ela não sai mais de casa, e aquele sorriso inquietante desapareceu. Os habitantes da vila pararam de se importar com a sua existência, e o fardo da família Neruel parece ter diminuído de maneira considerável.

É bom que haja paz, no entanto não consigo relaxar. Recentemente, encontrei a carcaça de um pássaro estranho bem perto da vila.

É provável que seja o familiar de um feiticeiro. E esse é o terceiro que aparece durante o Mês de Sylph.

Algo de fora pode estar tentando invadir nossa vila. E, ao pensar nisso, o demônio me vem à mente.

Será que, agora que a criança amaldiçoada cresceu, está vindo buscá-la de volta? Bem, posso especular o quanto quiser, entretanto não tenho como saber quais são suas verdadeiras intenções.

Será esse o resultado que o demônio desejava? Ou as coisas não saíram como queria? Não sei. Todavia, sei que uma calamidade terrível cairá sobre nós em um futuro próximo.

Não posso permitir que isto aconteça. Mas também acredito... Que existe a opção de fazer a criança amaldiçoada confrontar o demônio...



***



— Não consigo nem suportar olhar para isso... — Zagan fechou o diário, que chegava a lhe causar náuseas, após terminar a leitura. Estava no quarto do ancião da vila. O diário não era muito extenso, e terminou de ler tudo em apenas alguns minutos.

O autor era claramente o ancião, e o texto detalhava como Nephy havia se tornado a garota desanimada que conhecera a primeira vez. Tudo aquilo porque ninguém jamais percebeu que a menina exibia seu sorriso puro na esperança de se dar bem com as pessoas.

Parece que aquele sorriso adorável lhes parecia inquietante devido à paranoia deles.

Bem, isto pode ter sido razoável, considerando que o primeiro encontro deles terminou com a perda de um braço, porém o ancião estava só recebendo o que merecia por ter tentado matar Nephy.

Zagan soltou um suspiro e lançou o diário para o alto. Sem fazer ruído, o objeto transformou-se em cinzas e desintegrou-se antes de sequer tocar o chão. Sentia pena de Chastille, que havia se esforçado tanto para encontrá-lo, contudo não queria que Nephy jamais o visse. Além do mais, conseguia memorizar todo o conteúdo de um livro lendo-o apenas uma vez, portanto não havia necessidade de deixar algo tão desagradável por ali.

Devo reduzir esta vila a cinzas depois de terminarmos a investigação? A princípio, Zagan pensou em esperar até que Nephy conseguisse organizar seus sentimentos, no entanto já não achava que essa fosse uma boa ideia. No fim, não tinha a menor intenção de dizer que faria isso pelo bem dela ou algo do gênero. Se usasse tal desculpa, não seria diferente daquele que escreveu o diário. Feiticeiros como ele detestavam pessoas que alegavam agir em prol de um bem maior.

Zagan não gostava nada daquilo e não conseguia perdoá-los. Assim, a única opção restante era eliminá-los. Ainda que já estivessem mortos, apagaria até o último vestígio de sua existência.

Ao sair da mansão do ancião, Zagan encontrou Chastille e Barbatos à sua espera. Parecia que estavam curiosos sobre o conteúdo do diário. E, ao olharem para o rosto de Zagan, recuaram, sobressaltados.

— E-Ei... Já terminou de ler? Então, qual era a daquele livro? — Barbatos perguntou.

— Agora são cinzas.

— Hã? — Barbatos ficou sem palavras, e Chastille exibia uma expressão preocupada.

— Provavelmente é melhor... Não perguntar o que estava escrito, né?

— Bom, pelo menos consegui encontrar várias pistas. — respondeu Zagan, dando de ombros como se não fosse nada demais.

— Pistas? — Chastille inclinou a cabeça para o lado, recebendo um aceno de confirmação de Zagan.

— Parece que a Nephy não nasceu nesta vila. Uma criança abandonada... Não, não é bem isso, parece que foi trazida para cá quando era um bebê. E a pessoa quem a deixou aqui era considerado um demônio pelos moradores, foi por essa razão que todos a maltratavam.

Curiosamente, Chastille sorriu aliviada ao ouvir aquelas palavras.

— Entendo. Então é uma boa notícia.

— Como assim? — Zagan respondeu involuntariamente em tom crítico, fazendo Chastille concordar com a cabeça.

— Significa que a família de verdade da Nephy não pertencia a esta vila, certo? Não sei se vai fazê-la se sentir melhor, entretanto o fato de a sua família ainda poder estar viva é uma boa notícia, não é?

— Fico surpreso que pense assim. Quer dizer, mesmo que estejam vivos, só significa que eles a abandonaram, não é? — Zagan retribuiu o olhar, surpreso, enquanto respondia.

Em resposta, Chastille piscou, atônita, como se dissesse... “Hã, logo você falando isso?”

— Até você tentou manter a Nephy afastada uma vez, não foi? Por que fez aquilo? — Chastille respondeu com naturalidade.

Zagan já havia magoado Nephy e a mantido afastada. Esse evento foi fruto do medo que sentia encontrar os doze Arquidemônios. Naquela época, sabia que acabaria se tornando um aliado daqueles monstros. Todavia, queria poupar Nephy de tal destino. Sua intenção era que Nephy vivesse sob a luz do dia. Era um pensamento tolo, fruto de sua própria fraqueza. Afinal, um homem de verdade protegeria absolutamente tudo o que lhe fosse querido, incluindo a própria mulher que ama.

Em outras palavras, está tentando dizer que os pais da Nephy também podem ter cometido um erro semelhante...? Zagan deixou escapar um sorriso amargo sem sequer notar.

— Essa é uma visão bastante otimista.

— Vendo como vocês são, quero acreditar que seja esse o caso... — a opinião sensata de Chastille era algo incomum. Aquilo deixou todos os presentes desconcertados.

— Hã? Não vai rastreá-los e se vingar? — perguntou Barbatos, franzindo a testa.

— Por que todas as suas ideias são tão detestáveis?

— O que diabos você acha que feiticeiros são?

Zagan sentiu um estranho alívio ao vê-los discutir.

Esses dois se complementam, não é? Sendo honesto, parecia que mantinham um equilíbrio perfeito com grande habilidade. Ao mesmo tempo, Zagan percebeu que a raiva que guardava desde que lera o diário estava diminuindo.

— Bem, acho que vou me limitar a explodir a mansão do ancião, então.

— Por que se dar ao trabalho? — indagou Barbatos.

— Para me distrair, eu acho? — Zagan respondeu com firmeza. Barbatos ficou pasmo. E Chastille soltou uma risada divertida, bem ao lado.

— Já fazendo piadas, hein? Isto deve significar que você voltou ao normal.

— Hã...? Não estava fazendo piada.

— O quê? Não... Foi uma piada? — Chastille ficou chocada por algum motivo, porém Zagan sentiu que entendia o que ela queria dizer.

Eu a deixei preocupada comigo? Bem, Zagan sabia que devia ter parecido tenso, então talvez a vontade de Chastille de confortá-lo fizesse sentido.

Embora costume agir como uma chorona inútil, sabe quando levar as coisas a sério. Afinal, já lutou contra Zagan em pé de igualdade.

— Havia outra pista no diário. É provável que o “demônio”, ou seja lá o que foi mencionado no diário, seja quem atacou Nephy.

— Hã...? Espera aí. Se for verdade, então esse “demônio” ou o que quer que seja não seria parente da Nephy?

— Essa possibilidade existe, contudo não tenho provas. Pelo que sabemos, ela pode ter sido sequestrada quando era bebê, certo?

— Isso é... Verdade... — Chastille assentiu, sem contestar a afirmação em momento algum.

— Nesse caso, por que aquele sujeito seria o culpado? — Barbatos inclinou a cabeça para o lado enquanto questionava Zagan.

— Por eliminação. Quase não há outros suspeitos quando se trata de pessoas capazes de entrar e sair de uma vila escondida cuja existência nem os Arquidemônios conheciam. Além do mais, precisa ser um elfo. O “demônio” mencionado no diário era, sem dúvida, um nativo.

— Hm... O único feiticeiro élfico famoso que me vem à mente é a “Rainha das Fadas”, Titânia. — disse Barbatos enquanto acariciava o queixo, parecendo profundamente pensativo.

Zagan também já tinha ouvido esse nome antes.

— Quer dizer a elfa que desafiou o Arquidemônio Orias e perdeu?

O Arquidemônio Orias ainda estava vivo. Na verdade, aquele Arquidemônio em particular deveria estar presente na reunião em que Zagan se juntou às fileiras ao grupo.

— Sim. Titânia estava determinada a criar uma nação élfica... Então, ela liderou um exército de familiares usando feitiçaria élfica e desafiou Orias para uma batalha. Esse confronto é considerado a maior batalha contra Arquidemônios da história.

Definitivamente, não teria sido difícil para uma elfa tão habilidosa transformar Nephy em criança ou criar a barreira que envolvia a vila. No entanto, Zagan balançou a cabeça.

— Titânia não morreu há várias centenas de anos?

— Sim, embora nunca ouvi falar de outros feiticeiros élficos. A maioria mantém a identidade em segredo, já que são mortos se descobertos.

Era a mesma situação de Foll escondendo o fato de ser um dragão. Elfos eram usados ​​como sacrifícios e catalisadores, e até um único fio de cabelo ou uma gota de sangue tinha um valor extraordinário. Um valor alto o suficiente para fazer alguém encarar a morte de frente apenas para obter uma quantidade ínfima. Sendo feiticeiro ou não, havia inúmeras pessoas querendo colocar as mãos neles. E, por causa disso, um feiticeiro élfico jamais revelaria sua identidade.

Acho que vou tentar entrar em contato com Orias assim que sairmos daqui... Zagan não queria muito recorrer a essa abordagem, entretanto aquele Arquidemônio parecia conhecer bem os feiticeiros élficos. E, se estivessem de alguma forma envolvidos na situação atual, não haveria problema em matá-lo como retaliação. Afinal, nada mudava o fato de que Zagan estava furioso.

— Bem, posso ir atrás do culpado quando quiser. Mais importante, como estão Nephy e as outras? — Zagan perguntou, afastando os pensamentos assassinos que lhe passavam pela cabeça.

— Se você procura a Nephy, está ali! — disse Chastille, apontando para a praça no centro da vila. Ao olhar naquela direção, Zagan viu três meninas apoiadas em Kimaris, que estava em sua forma de leão.



***



— Hmm. Então ela está dormindo.

Chastille e Barbatos voltaram à mansão para recolher itens de valor antes que Zagan a reduzisse a pedaços. Ele não planejava destruí-la agora, todavia ficou satisfeito por eles estarem adiantando o serviço, então não os impediu.

Kimaris estava enroscado sob uma grande árvore no centro da vila, e as três meninas ao seu lado dormiam profundamente. Nephteros estava sentada ao lado delas, abraçando os joelhos. Parecia que estava muito desgastada, pois demonstrava um cansaço extremo.

— Ei, essa é a sua família, não é? Por que tenho que bancar a babá delas? — Nephteros questionou Zagan, lançando um olhar incisivo. Se sabia que tinha ficado presa com a tarefa de cuidar das crianças, poderia só ter ido embora, mas permaneceu ali mesmo assim.

— Bom, sinto muito por isso. Agradeço a você. — respondeu Zagan, fazendo com que Nephteros o encarasse com surpresa.

— Já venho pensando nisso há algum tempo, você é realmente um Arquidemônio atípico, hein?

— Porém tenho tentado agir de forma mais arrogante e audaciosa...

— Uma pessoa verdadeiramente arrogante não agradeceria às pessoas.

Zagan apenas deu de ombros ao perceber que Nephteros tinha razão. Em seguida, olhou para as meninas, que pareciam dormir em paz.

Todas parecem tão fofas quando estão dormindo... Nephy e Foll já eram como anjinhos, contudo até Gremory parecia adorável, o que o surpreendeu. E, enquanto as observava com um olhar encantado, Nephteros ergueu os olhos para Zagan, como se tivesse algo a dizer.

— O quê? Quer me dizer alguma coisa?

— Na verdade, não. Não é como se estivesse reclamando nem nada do tipo, só que...

— Se há algo na sua cabeça, tente falar a respeito Vai que acaba sendo útil nesta situação. — disse Zagan, tentando aliviar a tensão de Nephteros. Ele pretendia usar um tom o mais gentil possível, no entanto, como não era qualquer um, além de Nephy, que conseguia interpretar bem suas palavras, só lhe restava torcer pelo melhor.

— Não tem nada a ver com esta vila... — Nephteros abriu a boca para falar, parecendo ainda um tanto inquieta.

— Não me importo. Pode falar. — incentivou Zagan em uma tentativa de ser gentil.

Encorajada pelas suas palavras, Nephteros começou a falar com um pouco de timidez.

— Você... Se lembra de quando tinha mais ou menos a idade dessas crianças?

Era uma pergunta aleatória, por isso, fazia sentido Nephteros ter tentado evitar fazê-la.

— Deixe-me ver. Tudo de que me lembro é bem irrelevante, entretanto me lembro sim. — respondeu Zagan, acenando com a cabeça para Nephteros, apesar de sua confusão.

— Por exemplo?

— Tipo quando eu não consegui fugir depois de roubar comida e quase fui espancado até a morte, ou quando passei uma semana inteira sem comer nada e consegui achar um pão mofado, todavia fiquei à beira da morte por causa de doença, ou quando fui atraído pela comida de um feiticeiro, sequestrado e quase usado como sacrifício. Coisas assim, resumindo... — Zagan tentou falar sobre várias lembranças, mas todas acabavam remetendo à comida no final. Que vergonha.

— É normal ter apenas lembranças de experiências de quase morte?

— Hm... Bem, tive tantas dessas experiências que só restou a opção de me tornar um feiticeiro. Acho que isso provavelmente não é nada normal, né? — Zagan percebeu que nada daquilo era normal, porém não havia ninguém por perto para apontar esse fato.

— Posso... Falar sobre algo meio estranho? — Nephteros perguntou enquanto continuava abraçando os joelhos de forma desanimada.

— Pode falar! — Zagan respondeu. Ele percebeu que ela estava preocupada com alguma coisa. Deixando de lado se poderia dar algum conselho que ajudasse, Zagan sabia que pelo menos poderia ouvi-la. E, ao receber permissão para falar, Nephteros começou a dizer com uma voz assustada.

— Eu não... Me lembro de nada de quando tinha a idade delas.

— Quer dizer que perdeu a memória? — Zagan perguntou, arqueando a sobrancelha.

— Não sei. Para ser sincera, nunca nem tinha considerado meu passado até agora.

Servir a um Arquidemônio não proporcionava oportunidades de conviver com crianças, então talvez aquilo fosse natural.

— E também, por que a Nephy tem o mesmo rosto que eu...?

Na verdade, era Zagan quem queria fazer essa pergunta, contudo parecia que nem ela mesma sabia a resposta.

— Quem sou eu...? — Nephteros disse com a voz trêmula, prestes a cair no choro a qualquer momento.


Pergunte a alguém como a Chastille, não a mim... Zagan nem sequer levava jeito para consolar Nephy. Não fazia ideia do que dizer em momentos assim. Por esse motivo, depois de refletir um pouco sobre o assunto, apenas bufou com um tom de desinteresse.

— Que bobagem.

— ... — Nephteros deixou os ombros caírem em silêncio enquanto Zagan continuava a falar.

— Que tipo de resposta está esperando? Sendo franco, nem eu sei quem sou ou onde nasci. No entanto, apesar dessa situação, não sou simplesmente eu? Quer dizer, como uma pessoa poderia ser qualquer outra coisa além de quem é naquele exato momento?

Nephteros encarou Zagan com uma expressão vazia. Ficou confusa, sem saber se estava zombando dela ou dando uma bronca. Pouco depois, abriu a boca tentando entender o que estava acontecendo.

— Será que... Você está tentando me consolar?

— Entenda como quiser. — respondeu Zagan com indiferença. Entretanto, no instante seguinte, arregalou os olhos, surpreso. Ficou atônito ao ver a expressão de Nephteros se suavizar e dar lugar a um sorriso gentil.

— Entendo. Sinto que enfim compreendo por que a Nephelia disse que a maneira como você se preocupa com as coisas é fofa.

— Acha que não vou te matar só porque é uma convidada? — Zagan fez uma careta e respondeu com um tom claramente irritado.

— Por enquanto, acho que devo agradecer. Me sinto... Um pouco melhor agora. — disse Nephteros, levantando-se com um sorriso amargo.

Zagan achou aquela demonstração de gratidão bastante constrangedora, então limitou-se a dar de ombros.

— A propósito, o que é isso? — Nephteros franziu a testa ao perguntar a Zagan.

— Como assim...? Ah, isto aqui? — Zagan exclamou ao perceber que Nephteros apontava para o pingente de mithril. Era aquele que fora encontrado junto com o diário sobre Nephy. Sem que percebesse, a corrente havia escapado do bolso e estava balançando solta.

Pensando bem, ainda não examinei essa coisa... Zagan tirou o pingente do bolso ao se dar conta de seu descuido.

— Estava escondido na mansão do ancião. Ainda não investiguei a fundo, todavia parece haver algum mecanismo travando-o.

— Sério? Posso dar uma olhada?

— Não me importo, mas não vá quebrá-lo, está bem?

— Não vou! — respondeu Nephteros em tom exasperado. Ela pegou o pingente e começou a examiná-lo, depois de algum tempo, ergueu uma sobrancelha.

— Parece que abre aqui. Tem certeza de que está trancado?

— O quê, sério? — Zagan examinou o pingente mais de perto ao ouvir aquilo. Foi então que notou uma pequena fenda na peça.

— Consegue abrir?

— Vou tentar... — disse Nephteros, enquanto tentava forçar a abertura com as unhas algumas vezes. Por fim, pareceu encontrar uma trava e a pressionou, fazendo o pingente abrir com um clique. Lá dentro, havia um único retrato e uma breve inscrição.

— Será que são... Nephy e a mãe dela?

O retrato mostrava uma pintura de um bebê de cabelos brancos sendo abraçado por uma jovem elfa. A mulher mais velha devia ser a mãe de Nephy, pois as duas se pareciam. A mulher também tinha cabelos brancos e olhos cor de azul-celeste... O que só podia significar que era uma alta-elfa.

Aquilo não era tão surpreendente, porém a inscrição representava um grande problema. Atônito com o que via, Zagan leu o texto em voz alta, na esperança de ser corrigido.

— À minha amada filha, Nephelia... Titânia.

Esse era o nome da elfa que havia desafiado o Arquidemônio Orias centenas de anos atrás e perecido como resultado.




***

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