terça-feira, 6 de outubro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 02 — Capítulo 11

Volume 02: Yugao — Capítulo 10: A efêmera flor branca ao pé do muro (2)

 

(É estranho, sem dúvida é estranho. O que há de errado comigo?)

 

Devido à mudança de estação, Koremitsu estava usando uma camisa de mangas curtas como uniforme. Tornou-se um dever para ele ir à casa de Yu, e em um certo dia depois da aula...

 

Estava parado em frente à prateleira de alimentos de uma loja de conveniência, resmungando.

 

De vez em quando, seu coração palpitava, sua cabeça esquentava como um bule de chá e seus lábios gaguejavam. Talvez tivesse pegado um resfriado com a mudança de estação?

 

Os sintomas se intensificavam sempre que estava com Yu. Sempre que Yu parecia se abrir para Koremitsu e lhe dirigia um leve sorriso, esses sintomas pioravam. Sempre que pensava na garota, os sintomas reapareciam, tanto na escola quanto em casa.

 

— O que é isso?

 

— Este é o “Kimchi com três vezes mais pimenta”.

 

Hikaru então apontou.

 

— Vai comprar seis desses?

 

Ao ouvir a menção de Hikaru, Koremitsu percebeu que a cesta estava cheia de potes de kimchi.

 

Seu rosto ficou vermelho. Ele os devolveu ao suporte.

 

— Se está comprando para a Yu, aconselho que não compre as mais apimentadas. Você não pode considerar apenas suas próprias preferências, Koremitsu, precisa pensar e escolher o que a Yu quer.

 

— Não vou comprar kimchi para ela. Vou comprar para mim.

 

Koremitsu se apressou em se explicar.

 

— Do que a Yu gosta?

 

E então, sussurrou com uma expressão de desagrado no rosto. Hikaru assobiou.

 

— Maldito seja você, por que está sorrindo? Aliás, não foi você quem me pediu para cuidar dela?

 

Koremitsu esqueceu-se da presença de outras pessoas enquanto repreendia Hikaru. O atendente do caixa ficou surpreso.

 

(Argh!)

 

Ao ver Koremitsu franzir a cabeça, sentindo-se culpado, Hikaru, com o rosto prestes a cair na gargalhada, respondeu.

 

— Isso mesmo, obrigado. Yu gosta de comida doce e translúcida.

 

Após refletir um pouco, comprou alguns doces cristalizados e foi até o apartamento.

 

Depois que bateu na porta, a garota de olhar sonhador e a gata de olhos azuis espiaram para fora.

 

— Y-Yoo.

 

Koremitsu fez um cumprimento rígido. Lapis ronronou com um “miau”, enquanto Yu acenou para ele com uma expressão gentil.

 

No primeiro encontro, ela estava coberta da cabeça aos pés com um cobertor azul. Porém, nos últimos dias, o cobertor estava apenas sobre seus ombros.

 

Normalmente, sob o cobertor, usava um vestido sem mangas. Seus pés estavam descalços, sem meias, e seu pescoço e braços apareciam de vez em quando. Sempre que Koremitsu, sem querer, notava suas panturrilhas e tornozelos brancos e esbeltos, seu coração disparava sem aviso prévio.

 

— Um presente.

 

Ele entregou uma sacola da loja de conveniência.

 

Yu recebeu o presente, deu uma olhada dentro e logo depois exibiu um sorriso radiante.

 

— Obrigada... Gostei muito.

 

Koremitsu não esperava que algo como balas de goma pudesse causar-lhe uma expressão tão feliz. Seu coração disparou e seu rosto ficou mais quente.

 

Yu abriu o pacote e usou os dedos para pegar um pedaço de doce de pedra translúcido. Ela estreitou os olhos, aparentemente irritados pela luz, colocou o doce na boca e deu uma mordidinha.

 

Ouviu-se um estalo quando ela mordeu, e revelou um sorriso mais feliz e satisfeito.

 

Ao ver essa expressão, o coração de Koremitsu quase explodiu devido às batidas aceleradas.

 

O quarto era pequeno e as paredes finas. De vez em quando, ouviam-se os sons da porta do vizinho abrindo e fechando, passos pesados ​​e rosnados de uma mulher.

 

— QUE DIABOS! ESSES HOMENS SÃO TÃO MESQUINHOS QUANDO HÁ UMA CRISE ECONÔMICA! NÃO TEM COMO EU SOBREVIVER! HAAAH, MEU FUTURO É SOMBRIO E GELADO! QUE TODOS, EXCETO OS HOMENS QUE ME APOIAM, MORRAM!!

 

Ao ouvir a voz alta, Koremitsu estremeceu.

 

No entanto, mesmo nesse ponto, Yu continuou apenas divagando.

 

— Esse é... O som das ondas quebrando nas rochas.

 

— As baleias estão espirrando.

 

Ela dizia essas coisas com uma expressão vazia.

 

Ele sabia, depois de todos esses dias juntos, que embora fosse tímida e introvertida, era serena, determinada e capaz de enfrentar as dificuldades diárias com normalidade.

 

Koremitsu sentia que, nesse sentido, Yu era muito semelhante a Hikaru.

 

Nesse momento, Hikaru seguia agachado no chão, apoiado em um joelho, brincando com Lapis.

 

Parecia que Lapis conseguia de fato ver Hikaru, e até estendeu as patas dianteiras para tocá-lo. Depois de errar algumas vezes, o observou com surpresa.

 

Lapis era originalmente uma gata de rua, que apareceu por aqui logo depois que Yu se trancou no apartamento. Suas orelhas não eram muito sensíveis, então tinha o estranho hábito de encarar pessoas e objetos, talvez fosse por causa dessa característica que conseguia detectar com precisão o que pessoas normais não conseguiam perceber.

 

Hikaru também olhava para Lapis com ternura e, às vezes, usava os dedos para cutucar suas patas dianteiras e fingia coçar seu queixo.

 

Realmente não consigo entender esse cara. Por que não quer me contar qual promessa fez com a Yu? A única coisa que faz aqui é brincar com a gata. Afinal, o que quer que eu faça?

 

Koremitsu lançou um olhar fulminante para Hikaru, e ao perceber, Yu perguntou preocupada.

 

— O que foi...?

 

— Ah, não é nada. Bem... Como... Como você e Hikaru se conheceram?

 

Koremitsu perguntou, visivelmente atrapalhado. Nesse instante, os olhos de Yu brilharam e ela sussurrou.

 

— Hikaru... Apareceu pela primeira vez uma semana depois de Lapis...

 

Era o verão anterior, numa noite de garoa.

 

Havia um menino vestido com o uniforme da Academia Heian, segurando um guarda-chuva, parado em frente ao apartamento.

 

Ao ver aquele rosto bonito e afeminado aparecer sob os postes de luz, ela o reconheceu no mesmo instante como “Lorde Hikaru”.

 

Naquela época, Hikaru estava em seu terceiro e último ano do Ensino Fundamental II, e Yu estava em seu primeiro ano do Ensino Médio, embora não houvesse uma única garota na escola que não reconhecesse o príncipe da escola, “Lorde Hikaru”.

 

(O que... Ele está fazendo aqui?)

 

Hikaru segurava um guarda-chuva lilás claro, encarando a cerca ao lado do apartamento. Essa atitude despertou a curiosidade de Yu.

 

Por que está parado ali esse tempo todo? Está tão frio, tão escuro lá fora e está chovendo. O que está olhando?

 

Sua expressão era tão terna, repleta de afeto.

 

Yu olhou fixamente para Hikaru através da fresta da cortina e, nesse instante, ergueu de repente a cabeça.

 

!

 

Seus olhares se cruzaram, e seu coração ficou petrificado.

 

Seu primeiro pensamento foi fechar as cortinas às pressas, no entanto Hikaru sorriu em resposta.

 

Aquele sorriso era muito amigável, terno e parecia derreter em seu coração.

 

Depois disso, Hikaru colocou seu guarda-chuva na cerca por algum motivo e caminhou até o apartamento na chuva.

 

Cética, Yu não sabia o que havia acontecido lá fora, entretanto para sua surpresa, alguns segundos depois...

 

Toc, Toc... O som de batidas ecoou em seus ouvidos.

 

Envolta num cobertor, ela se aproximou com timidez da porta, encostou o ouvido na maçaneta e ouviu uma voz doce falar com ela.

 

— Desculpe incomodá-la a esta hora, mas você se importaria de me deixar abrigar da chuva aqui? Emprestei meu guarda-chuva para as lindas flores encharcadas e não sei o que fazer agora.

 

Não havia qualquer sinal de fingimento no tom de Hikaru, e a voz clara e calorosa atraiu Yu. Ela abriu a porta e encontrou Hikaru encharcado, com água transparente escorrendo pelo corpo, os cabelos e a camisa molhados, e com um sorriso radiante.

 

— Esse foi... O nosso primeiro encontro.

 

A voz de Yu era suave e lenta enquanto seguia murmurando...

 

— Hikaru disse... Que notou as flores de cabaça crescendo aos pés do muro... Aquelas flores são frágeis, porém corajosas... Tão belas quanto um sonho fugaz... Então ele ficou estupefato...

 

— Você ve as flores brancas desabrochando aos pés do muro? As flores, trêmulas e delicadas, estão encharcadas pela chuva.

 

Koremitsu lembrou-se do tom e da expressão de Hikaru enquanto este encarava a base da parede em frente ao apartamento.

 

Ele disse que aquelas flores eram delicadas e bonitas.

 

Assim como Yu.

 

— Elas florescem ao entardecer e irradiam silenciosamente sob o luar durante a noite. Quando o amanhecer surge, começam a murchar.

 

Nesse momento, Hikaru tinha uma expressão nostálgica enquanto acariciava a cabeça de Lapis, semelhante ao momento em que encarava a base da parede.

 

Seus dedos já não conseguiam tocar Lapis, contudo sempre que sua mão branca se movia com elegância, os bigodes de Lapis tremiam de leve.

 

Yu não percebeu que seu falecido amado estava naquele quarto, ainda assim continuou olhando para onde Hikaru estava com aquela expressão sonhadora.

 

Esse devia ser o lugar onde Hikaru costumava ficar.

 

Sua expressão amorosa, embora solitária, era de partir o coração de qualquer um que a visse.

 

Hikaru também demonstrava um olhar terno para Yu de vez em quando.

 

Ao vê-los se entreolhando daquela forma, Koremitsu começou a se sentir inquieto e teve a súbita noção de que estava atrapalhando.

 

No entanto, Hikaru não revelou que tipo de promessa fez a Yu, nem falou com ela. Apenas se importava em brincar com Lapis, parecendo não se preocupar com a promessa...

 

— Então, Yu... Você e Hikaru se tornaram amantes assim?

 

O tom de Koremitsu era sombrio e distante, a ponto de surpreendê-lo.

 

Sua barriga começou a doer por causa das cólicas. Será que não quero que a Yu saia com Hikaru? Ou será que só não consigo aceitar o fato de que Hikaru só se preocupa em brincar com a gata e deixar a namorada com outro homem?

 

Droga, por que estou tão irritado?

 

Yu percebeu que Koremitsu estava com uma expressão sombria... Então, permaneceu em silêncio, olhando para ele com preocupação. Enquanto Koremitsu se esforçava para parecer calmo, ela moveu a boca impacientemente e falou com uma voz bem baixinha.

 

— Você parece... Estar enganado... Hikaru e eu... Não éramos amantes...

 

— O que quer dizer?

 

Assustado, Koremitsu inclinou o corpo para a frente.

 

— O Hikaru não costumava te procurar? A vizinha até comentou, irritada, que ele voltava para casa de manhã antes de...

 

Ao ver o rosto de Yu ficar vermelho, o rosto de Koremitsu também começou a corar.

 

— Desculpe, estou sendo muito intrometido.

 

Yu balançou a cabeça, olhando para baixo, e seu rosto corou. Juntando as mãos, hesitou por um instante e sussurrou.

 

— Nós dois... Realmente não tínhamos esse tipo de relacionamento... Sei... Que o Hikaru teve relacionamentos com muitas garotas... Uma vez... Até perguntei por que... Não fazia nada comigo... Achei estranho...

 

O pescoço de Yu também ficou vermelho.

 

Ela agarrou com força um canto do cobertor azul, encolheu o pescoço e gaguejou.

 

— E então, ao ouvir isso, Hikaru... Sorriu com gentileza para mim e disse que eu... Não me apaixonei por ele...

 

O rosto de Koremitsu ainda ardia, entretanto seguia ouvindo Yu com a respiração suspensa.

 

Hikaru, por sua vez, desviou o olhar com indiferença enquanto coçava o pescoço de Lapis.

 

— Miau...

 

Lapis ronronou baixinho.

 

Yu olhou para Koremitsu com uma expressão inquieta.

 

— Hikaru disse... Olhando nos meus olhos, que sabia se a outra pessoa estava apaixonada... Aqueles que estão apaixonados, seus olhos mostram um desejo de ter a outra pessoa só para si. Assim que via essa expressão, ele se apaixona por aquela pessoa, incapaz de se afastar, e naquele momento, quer praticamente oferecer todo o seu ser...

 

Sua voz foi ficando mais suave, mais fraca, e quando terminou, baixou a cabeça e permaneceu em silêncio.

 

Não parecia se preocupar com o fato de Koremitsu não acreditar em suas palavras, mas estava relembrando Hikaru com o coração apertado.

 

Koremitsu também teve dificuldades para se recuperar mentalmente. Uma solidão inexplicável começava a surgir em seu peito.

 

Talvez fosse porque Yu parecia muito deprimida.

 

Além do mais, Yu não descreveu apenas o lado radiante de Hikaru, como também seu lado solitário.

 

Ela baixou a cabeça e murmurou.

 

— Hikaru disse que... Havia apenas uma exceção... Que, embora estivessem profundamente apaixonados um pelo outro, não podiam se abraçar... Quando me contou isso, seu rosto parecia angustiado...

 

Hikaru aparentando não ouvir as palavras de Yu continuou coçando o queixo de Lapis imutável e com uma expressão profunda.

 

Lapis também encarou Hikaru com seus olhos azul-púrpura.

 

Yu continuou com a cabeça baixa, permanecendo em silêncio.

 

Nesse momento, Koremitsu não sabia como reagir.

 

Ei, Hikaru, pare de fingir que está morto e diga alguma coisa. O clima está estranho por sua causa! Agora não é hora de brincar com a gata!

 

Koremitsu lançou um olhar fulminante para o amigo, repreendendo-o enquanto suas veias saltavam.

 

Contudo, Hikaru continuou fingindo-se de morto.

 

Não, na verdade, Hikaru estava morto, um fantasma, aliás. Ainda que falasse, Yu não conseguiria ouvir nada.

 

— Queria abraçar o Hikaru para dissipar a solidão que levava consigo...

 

Yu falou com uma voz suave que poderia se dissipar no ar.

 

— Porém ele disse... Que isso não é amor.

 

Havia uma sensação de instabilidade em seu tom de voz.

 

Se até Hikaru, que tinha bastante experiência em relacionamentos amorosos, disse aquilo, então os sentimentos de Yu por Hikaru não deviam ser amor.

 

Embora uma sensação doce e aconchegante estivesse se infiltrando em seu coração, uma sensação semelhante à ansiedade também se espalhava aos poucos.

 

Yu desejava de coração ajudar Hikaru, a ponto de querer absorver toda a sua dor.

 

Se tivesse pedido, ela talvez tivesse aceitado o pedido sem hesitar. Ela era tão gentil, porém tão vazia por dentro.

 

A noiva de Hikaru, Aoi, era uma garota pura. Uma flor branca e pura, jamais manchada.

 

Yu também era como uma flor branca, no entanto uma flor que podia ser tingida com outras cores sem aviso prévio. Parecia que se alguém a tocasse, danificaria e sujaria suas pétalas.

 

Talvez fosse por esse motivo que Hikaru nunca a viu como namorada, pois queria que mantivesse sua pureza.

 

Poderia haver outros motivos? Koremitsu lançou um olhar fulminante para o rosto afeminado de Hikaru, que continuava olhando para o lado.

 

— Você já se apaixonou antes?

 

Yu perguntou de repente, assustando-o.

 

Ela ergueu a cabeça e encarou Koremitsu com uma expressão impassível.

 

Koremitsu respirou fundo e respondeu.

 

— N-Não.

 

Suas palmas estavam encharcadas de suor.

 

(Qual a diferença entre o amor e outros sentimentos? Como posso diferenciá-los?)

 

Também não entendia o que era aquele sentimento que fervilhava no fundo do seu coração.

 

Os olhos de Yu mostravam uma expressão de compreensão, semelhante à tristeza.

 

Koremitsu sentiu o coração se apertar ao ver aquilo, e ela murmurou com um tom melancólico que ninguém jamais esqueceria.

 

— Então, no fim das contas, somos iguais.

 

***

 

— Amor... O que é isso?

 

No caminho de volta...

 

Tinha chovido antes, então as estrelas cintilantes espalhadas pela tela noturna cor de tinta estavam mais brilhantes do que o normal.

 

Com as costas curvadas, Koremitsu murmurou enquanto caminhava de cabeça baixa. Hikaru, que o seguia na mesma velocidade, respondeu com uma voz suave.

 

— É uma saudade de uma pessoa específica. Essa saudade é tão forte que pode mudar o estado mental de uma pessoa, e... É fugaz.

 

— Fugaz...

 

O coração de Koremitsu começou a doer outra vez ao se lembrar da expressão vazia de Yu.

 

Hikaru prosseguiu com uma expressão madura...

 

— Sim... Mesmo sabendo que chegará o momento em que nossos sentimentos desaparecerão, ainda sentimos uma alegria imensa ao falar de amor... Por mais doloroso que esse amor seja.

 

Havia uma única pessoa que Hikaru não conseguia abraçar.

 

(Ele está se referindo à Aoi?)

 

Aquela garota representava a esperança de Hikaru.

 

Ele disse certa vez, em tom autodepreciativo, que não ousava cortejá-la de forma imprudente, pois temia ser odiado por Aoi.

 

Entretanto Koremitsu não pôde perguntar.

 

Diferentemente de Yu, ele podia ver e ouvir Hikaru, este último estava sempre ao seu lado.

 

Somos amigos... Hikaru disse isso certa vez.

 

Mesmo assim, Hikaru ocasionalmente demonstrava uma expressão de profunda reflexão, a expressão de um adulto que não permitia que Koremitsu perguntasse, o que fazia com que este último não o questionasse por medo.

 

Em momentos como esse, Koremitsu não conseguia discernir o que estava pensando ou para onde estava olhando. Embora tivessem idades semelhantes, pareciam tão distantes, e não sabia o que fazer.

 

(Se eu me apaixonar... Entenderei o que o Hikaru está pensando...?)

 

(Se for esse o caso, verei o que Hikaru está vendo?)

 

Ao se lembrar do rosto de Yu, Koremitsu foi atormentado por uma dor como se seu coração estivesse sendo apertado.

 

***

 

No dia seguinte, depois da aula.

 

Koremitsu estava na papelaria, encarando os quebra-cabeças de vidro. As peças transparentes e brilhantes de um azul intenso se encaixavam, formando um misterioso cenário subaquático.

 

Seu olhar se manteve fixo na imagem final impressa na caixa.

 

— Ahh, Yu vai gostar disso.

 

Koremitsu ouviu uma voz de repente.

 

— !

 

Assustado, desviou o olhar, corando. Koremitsu franziu a testa, erguendo os olhos, mas não disse uma palavra. Nesse instante, Hikaru sorriu para o amigo e disse.

 

— Então você entendeu o que a Yu gosta.

 

— ...

 

Koremitsu guardou o quebra-cabeça, virou-se e foi embora.

 

— Hã? Não vai comprá-lo?

 

Hikaru perguntou.

 

Ao ouvir isso...

 

— Estou só dando uma olhada.

 

Koremitsu respondeu.

 

— Hmph!

 

Todavia se virou para outra direção, pegou um quebra-cabeça e caminhou até o balcão.

 

Hikaru achou graça da atitude desajeitada dele e riu em segredo.

 

***

 

Ao ver o quebra-cabeça sendo retirado da embalagem azul, os olhos de Yu brilharam imediatamente.

 

Ela olhou fixamente para o quebra-cabeça azul na caixa e disse, encantada.

 

— É lindo.

 

Ela colocou cuidadosamente uma peça do quebra-cabeça na palma da mão, maravilhou-se com o brilho que refletia as luzes, pareceu absorta em seus pensamentos enquanto observava, e sorriu.

 

Essas ações e essa atitude fizeram o coração de Koremitsu disparar.

 

Parecia que tinha acabado de tomar banho, pois seus cabelos ainda estavam encharcados. Sua pele branca exalava um leve cheiro de sabonete, fazendo Koremitsu engasgar, com a cabeça quente.

 

(Por que meu coração anda tão acelerado sem motivo? Eu odeio garotas... Só estou cuidando dela a pedido do Hikaru...)

 

As provas de meio de semestre começariam no dia seguinte.

 

Deveria estar incentivando Yu a se lembrar da “promessa importante”, a resolvê-la o mais rápido possível e a terminar esse relacionamento.

 

Porém, sem saber, seu objetivo havia mudado para o desejo de conhecer Yu.

 

Estava bastante frustrado consigo mesmo.

 

(O que diabos estou fazendo aqui?)

 

Yu espalhou as peças do quebra-cabeça pelo chão.

 

Ela se ajoelhou, curvou a cintura para a frente e começou a brincar com as peças do quebra-cabeça. O cobertor se desenrolou e seu vestido sem mangas revelou a pele branca do seu pescoço na altura da gola. O aroma de xampu e sabonete invadiu o nariz de Koremitsu.

 

— Seu cabelo...

 

— ?

 

Yu levantou a cabeça.

 

— Seque logo o cabelo!

 

Sem querer, ele falou num tom ríspido, suas bochechas estavam rígidas, suas sobrancelhas arqueadas, e sua expressão talvez fosse tão selvagem quanto a de um cão vadio.

 

Ao perceber o quão aterrorizada Yu parecia, se deu conta de que não deveria ter feito aquilo.

 

(Que idiotices estou fazendo aqui?)

 

— E-E-Eu não estou bravo! Não estou te repreendendo, só acho seu cabelo muito comprido. Se você não o secar logo, pode pegar um resfriado...

 

Nervoso, Koremitsu tentou se explicar.

 

— Desculpe, não tenho secador de cabelo... Só posso deixar secar naturalmente...

 

Yu disse com um tom hesitante, com os ombros encolhidos enquanto demonstrava desânimo.

 

— Na verdade, também não uso o secador com frequência! Só deixo meu cabelo como está depois de lavá-lo! Não estou bravo de verdade! Posso não parecer feliz, e minha expressão pode parecer selvagem, no entanto é tudo hereditário... Sempre fui assim, ok? Então não sei sorrir, e raramente o faço. Hikaru disse que queria apresentar uma garota que gosta de rir, contudo acho que ela se assustaria imediatamente ao me ver... Não faz sentido... Não é o que quero dizer...

 

Koremitsu fez o possível para explicar, entretanto quanto mais tentava, mais desanimada ela ficava.

 

Se eu conseguir sorrir gentilmente como a Hikaru agora, posso acalmar a Yu, em vez de gastar tanto tempo explicando.

 

Por que meu rosto não pode expressar o que quero?

 

Por que não posso rir sempre que quero?

 

Acho que essa cara de constrangimento agora parece tão distorcida quanto uma cara de choro, né?

 

Isso só vai aterrorizá-la ainda mais!

 

Nesse instante, Yu disse em silêncio...

 

— Eu não... Odeio sua aparência...

 

Koremitsu engasgou.

 

Yu olhou para ele com os olhos cheios de inquietação. Todavia, parecia que não estava apavorada com sua expressão, mas sim queria encorajá-lo.

 

Koremitsu estava imóvel, com os olhos fixos em Yu. Ela disse com uma voz suave e delicada.

 

— Você é uma pessoa gentil... E muito carinhosa... Comigo.

 

Seu peito tremia silenciosamente.

 

Parte do calor retornou às pontas de seus dedos gelados.

 

— Um dia desses, vai conseguir rir.

 

Ela disse isso em tom de oração.

 

— Também... Acho angustiante sair de casa...

 

A tristeza transparecia em seus olhos transparentes. Sua cabeça abaixou, permaneceu em silêncio por um instante e se virou, com um olhar suplicante, na direção do ventilador e das bolsas de golfe.

 

Havia conchas e peças de majólica que serviam como torres de oração e túmulos de peixes, e Yu disse que elas tinham o propósito de proteger o mundo subaquático.

 

Koremitsu lembrou-se do divórcio dos pais de Yu enquanto ela permanecia trancada em seu quarto. Seu coração se apertou com a lembrança.

 

Yu também guardava uma ferida profunda.

 

— Porém quando converso aqui com Lapis e Hikaru... Me sinto tão relaxada... Então... Sei que poderá rir ficando aqui...

 

As palavras de Yu tocaram o coração de Koremitsu, assim como a garoa que caía silenciosamente, infiltrando-se na terra.

 

Yu usou o dedo indicador e o dedo médio para pegar um pedaço de doce de pedra do recipiente de vidro e o levou até a boca de Koremitsu.

 

Seu rosto corou sem jeito, e se sentiu como um cão selvagem sendo alimentado enquanto abria a boca rigidamente. O cristal doce e translúcido tocou seus lábios e língua.

 

Assim que entrou em sua boca, logo sentiu uma doçura intensa.

 

Koremitsu, que preferia comida picante, sentiu a língua ficar dormente.

 

Yu também pegou outro pedaço e o colocou na boca. Ela brincou com o doce usando a língua por um tempo. Sua boca emitiu pequenos estalos, e então um sorriso de pura felicidade se abriu em seu rosto.

 

— Enquanto alguém permanecer aqui... Poderá sentir... Felicidade.

 

O doce de pedra permaneceu na boca de Koremitsu, pois não conseguia engoli-lo nem o cuspir.

 

Foi algo tão doce que pôde ser descrito como felicidade.

 

Contudo era bom demais para ele.

 

Seu peito latejava, seu pulso acelerava, ele não se entendia e se sentia tão hesitante e impotente...

 

Yu encolheu o corpo, fechou os olhos, encostou o ouvido no chão e fingiu ouvir o som de ondas que não existiam.

 

— Dor... Tristeza... Há coisas acontecendo em um mundo distante... Neste mundo, não importa se eu não usar um guarda-chuva...

 

Ainda havia mais da metade do doce de pedra dentro de sua boca.

 

Yu não murmurou nada e não se mexeu.

 

Parecia que havia caído num sono profundo.

 

Koremitsu a chamou, contudo não houve resposta.

 

Ao curvar as costas para se aproximar do rosto dela, sentiu o cheiro de xampu e ouviu um ronco fraco.

 

Ele franziu a testa, cerrou os lábios, levantou-se e olhou para o teto.

 

Ele deixou escapar um zumbido profundo de seus lábios cerrados.

 

Arregalou os olhos, cerrou os dentes e olhou para cima como se estivesse lançando um olhar vingativo a um inimigo jurado.

 

Koremitsu disse.

 

— Ei, Hikaru.

 

Uma voz suave respondeu.

 

— O que foi? Pensei que tivesse se esquecido da minha existência aqui. Parecia que você não conseguia me ver de jeito nenhum.

 

Hikaru olhou para Koremitsu com uma expressão confusa, desceu até o chão, sentou-se de joelhos e deixou que a ponta de seus dedos delicados tocasse a cabeça de Lapis.

 

Lapis estremeceu em choque e olhou para Hikaru com uma expressão sombria.

 

— Você é quem está fingindo que não ve. Por que está grudado no teto, se fazendo de morto ou algo assim?

 

Koremitsu disse com as bochechas infladas, e Hikaru exibiu aquele sorriso maduro que Koremitsu repugnava.

 

— Estou observando vocês. Os dois são pessoas importantes que estou protegendo agora.

 

(Está falando sério?)

 

Os lábios de Koremitsu se curvaram ainda mais.

 

— Parece que está realmente incomodado, herói.

 

— Não é por sua culpa?

 

— Yu está dormindo porque consegue relaxar na sua presença. Quando estava comigo, ela costumava adormecer enquanto conversávamos. Isso mostra que o quanto confia em você, então, aconteça o que acontecer, não fique com tesão aqui.

 

— DE JEITO NENHUM! NÃO ME COLOQUE NO SEU NÍVEL, SEU PERVERTIDO!

 

Na verdade, não estava só sentindo desejo, estava se sentindo mole por todo o corpo, e seus batimentos cardíacos estavam descontrolados.

 

A mão e os delicados pés brancos que se revelaram debaixo do cobertor fizeram com que sua cabeça quase fervesse.

 

E ao mesmo tempo...

 

Havia também outro sentimento, outra dúvida, surgindo de dentro do seu peito.

 

A doçura que ainda persistia em sua língua continuava a lhe perguntar naquele momento.

 

Koremitsu murmurou...

 

— Ei... Será que eu realmente serei feliz ficando aqui?

 

No instante em que perguntou, a sensação incômoda no fundo do seu coração se intensificou.

 

— Será que poderei mesmo rir... Se continuar aqui?

 

Yu, que murmurou com um sorriso tão fugaz...

 

— Você sentirá felicidade...

 

— Será que esse estilo de vida que a Yu leva é realmente felicidade? O que é a felicidade?

 

Viver esse tipo de vida, trancada sozinha em casa, encontrando-se apenas com algumas pessoas escolhidas, é mesmo felicidade?

 

Os olhos de Lapis estavam fixos em Koremitsu.

 

Seus olhos davam a impressão de que havia um globo girando naquele pequeno espaço dentro deles.

 

De repente, Hikaru exibiu uma expressão distante semelhante à de Lapis.

 

— Sou apenas um fantasma. Não posso responder a essa pergunta.

 

— Hã?

 

Koremitsu perguntou de volta, surpreso.

 

Hikaru olhou para Koremitsu em silêncio com uma expressão sábia.

 

Seu tom também se tornou distante.

 

— Afinal, essa “felicidade” é algo que apenas os vivos têm o privilégio de conceber.

 

— Espere... Por que está agindo como um mero espectador agora? Foi você quem me trouxe aqui!

 

Ao ouvir aquilo, ele ficou perplexo e, sem querer, gritou.

 

— E por que não revela a promessa que fez a Yu, aconteça o que acontecer? Quais são seus planos para ela?

 

Ele não conseguia entender por que o tom de Hikaru se tornou tão distante.

 

O belo e branco rosto de Hikaru perdeu toda a expressão, como se contemplasse os eventos de um mundo distante. Ele murmurou.

 

— Isso não vai funcionar, Koremitsu... Não posso te dar a resposta.

 

Ao ouvi-lo, Koremitsu sentiu a cabeça ferver de raiva. Em seu furor rugiu.

 

— Que tipo de piada é essa! Seu desgraçado!

 

A vizinha começou a bater na parede, não uma vez, mas várias vezes seguidas.

 

A parede tremeu e Yu abriu um pouco os olhos.

 

— As ondas estão... Muito grandes hoje... A baleia está batendo a cauda com força...

 

Ela disse isso em estado de estupor.

 

Então, encontrou Koremitsu paralisado com uma expressão severa e perguntou, preocupada.

 

— Qual é o problema?

 

Hikaru se afastou de Koremitsu e continuou a acariciar a cabeça de Lapis.

 

Sem conseguir extravasar suas frustrações em lugar nenhum, gritou de repente, exasperado.

 

— Yu, que tal irmos para a escola?

 

— Eh?

 

Yu baixou as pálpebras.

 

Koremitsu ajoelhou-se em frente a Yu, inclinando o corpo para a frente.

 

— Não é normal ficar trancada no quarto todos os dias, e também não faz bem para a saúde. A linha entre a realidade e os delírios vai ficar cada vez mais tênue. É melhor sair e dar uma volta antes que suas pernas comecem a criar nadadeiras!

 

Realmente não sabia se deveria ter dito aquelas palavras.

 

Porém, ao ver Hikaru tão distante, ficou tão irritado por dentro que, sem se dar conta, proferiu essas palavras impulsivas.

 

— Se alguém te intimidar, vou dar uma surra nele. Se for para a escola, podemos nos encontrar a qualquer hora! Podemos estar em turmas diferentes, contudo posso te fazer companhia no intervalo do almoço se estiver se sentindo sozinha... Podemos almoçar juntos...

 

O que diabos estou dizendo?

 

Koremitsu sentiu a garganta seca e o rosto arder.

 

O rosto de Yu, no entanto, empalideceu, e com uma voz bem baixinha...

 

— Não...

 

Ela respondeu.

 

Koremitsu ficou perplexo.

 

Yu puxou o cobertor com força com as mãos trêmulas e recuou devagar.

 

— Não. Por que você precisa dizer... Essas coisas? Não quero ir para a escola.

 

Normalmente, ela conseguia conversar com calma na frente de Koremitsu. Entretanto, naquele momento, estava apavorada. A ponto de todo o seu corpo sentir repulsa só de pensar nisso.

 

— Não pode só ficar escondida dentro de casa para o resto da vida, né? E precisa pensar em como ganhar dinheiro para pagar o aluguel e as despesas. O que vai acontecer se seu pai não te der dinheiro?

 

Yu arqueou os ombros. Como uma criança repreendida, fez uma careta e disse com a voz embargada pelo choro.

 

— E-Eu vou aguentar firme, mesmo que esteja com fome.

 

— O gás e a eletricidade podem não ser as únicas coisas cortadas da próxima vez. Eles podem cortar a água.

 

— Vou aguentar firme.

 

— Você vai morrer.

 

— Vou aguentar firme. É melhor do que ir para a escola. Se eu for, todos vão me olhar com desprezo e até falar mal de mim. Vou ficar sozinha na escola...

 

Ela fez mais força ao puxar o cobertor, recuou e se enfiou debaixo dele no canto. Koremitsu sentiu o coração apertar, a cabeça ferver enquanto começava a perder a confiança.

 

(Eu disse alguma coisa errada aqui?)

 

Ele não soube dizer.

 

Hikaru continuou a acariciar a cabeça de Lapis, com as pálpebras semicerradas, seus dedos delicados e afeminados deslizando suavemente... E não demonstrou nenhuma reação às palavras de Koremitsu e à timidez de Yu.

 

Quanto mais Koremitsu observava aquilo, mais se enfurecia. Sou diferente do Hikaru, eu realmente me importo com a Yu aqui, pensou.

 

Não conseguindo se controlar depois que perdeu a cabeça, prosseguiu.

 

— Eu já disse antes! Se alguém te intimidar, vou dar uma surra nessa pessoa! Eu sou igual a você! Todo mundo na escola fica me olhando com desconfiança, espalhando todo tipo de boato sem fundamento, dizendo que sou um delinquente, suspeito de assassinato, e por causa disso nem consigo ter um amigo! Ainda assim, continuo indo para a escola todos os dias e vou terminar minha lição de casa direitinho!

 

Quanto mais sério falava, mais o coração de Yu parecia se distanciar.

 

Ela não queria mais olhar para o seu rosto.

 

Uma voz fraca veio de debaixo do cobertor azul.

 

— Porque... Você é muito forte... Eu definitivamente não consigo fazer isso... Se formos para a escola juntos, vou morrer. Já que vou morrer de qualquer jeito, prefiro morrer de fome aqui.

 

— NÃO FALE BOBAGEM!

 

Em um ato de desespero, Koremitsu inclinou-se para a frente, entretanto seu braço acabou se prendendo na bolsa de golfe por acidente.

 

Desestabilizada pelo seu braço, a bolsa tombou em seguida. O ventilador e o fogão também viraram, enquanto as conchas e as bolinhas de gude caíram por todo o chão.

 

Yu revelou o rosto por baixo do coberto e olhou fixamente para o nada. Ela arrastou o cobertor enquanto corria em direção à bolsa de golfe caída e ao ventilador.

 

— Ah, de-desculpa, foi um erro meu...

 

Hikaru permaneceu imóvel.

 

Aquele esplêndido perfil lateral permaneceu tão imóvel quanto uma escultura de mármore.

 

— Vai embora...

 

O rosto delicado de Yu estava tomado pelo medo enquanto sussurrava.

 

Ela se ajoelhou, com as mãos tremendo enquanto recolhia as conchas espalhadas.

 

— Vai, vai! Nunca mais volte!

 

Yu continuou, e se esparramou no chão, com o rosto colado nele. Era óbvio que estava chorando, pelos ombros trêmulos e pela voz embargada.

 

Então, com voz magoada, falou com o surpreso Koremitsu.

 

— Depois de tudo, você é diferente do Hikaru.

 

(Droga, eu já sabia disso!)

 

O céu estava escuro enquanto seguia pelo caminho que levava para casa, e Koremitsu cerrou os dentes, apertou os punhos e rugiu do fundo do seu coração.

 

(Eu e o Hikaru já somos diferentes, não sou tão bom quanto ele com garotas. O Hikaru não faria nada, então pensei que deveria fazer algo por ela...)

 

Não esperava que Yu se mostrasse tão relutante em ir à escola.

 

— HIKARU! PARE DE SE FINGIR DE MORTO E DIGA ALGUMA COISA! NÃO ME VENHA COM ESSA DE “NÃO POSSO TE DAR A RESPOSTA”! YU NÃO É SUA MULHER TAMBÉM?

 

Ele gritou, com o peito em chamas e a garganta seca.

 

Hikaru continuou encarando Koremitsu, de pé, na escuridão azulada.

 

Os cabelos e a pele despigmentados pareciam desvanecer-se na escuridão, transmitindo uma sensação de distanciamento e ilusão. A tonalidade dos seus olhos estava mais clara do que antes, e embora o tornasse excepcionalmente bonito, também o fazia parecer mais desconectado do mundo, dificultando a compreensão dos seus sentimentos.

 

Koremitsu o encarou com uma expressão furiosa e suplicante, e Hikaru enfim mostrou uma expressão um pouco mais angustiada.

 

— No passado, alguém importante... Certa vez me repreendeu... Por eu ter tomado certa decisão. Naquele momento, senti que minha decisão poderia não ter sido a correta...

 

Koremitsu não entendeu o que Hikaru estava dizendo.

 

Apenas sentiu uma porta se fechando silenciosamente à sua frente.

 

Logo atrás dessa porta transparente estava um rapaz bonito de pele branca... O rapaz que considerava um amigo.

 

— E por causa disso... Você quer me pedir para tomar uma decisão?

 

Hikaru não respondeu.

 

Suas pálidas pálpebras se fecharam com força, estreitando os olhos e sorrindo de forma solitária.

 

(Por que está sorrindo num momento como esse? Vai deixar a Yu sozinha desse jeito? A Yu ainda está perseguindo sua ilusão no quarto, mesmo agora! Ela precisa de você, não de mim!)

 

Koremitsu lançou um olhar furioso para Hikaru, com as pupilas quase saltando das órbitas, e então gritou com uma expressão contorcida.

 

— TUDO BEM! NÃO VOU DEPENDER DE VOCÊ!!


***


Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...

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