Capítulo 07: Jones
Jones cavalgara por quase doze horas e estava cansado. O traseiro doía, e sentia dores na coluna e nos quadris. Parou junto ao emaranhado de árvores mortas na base da grande formação rochosa que lembrava um molar... Era com isso que a rocha se parecia, um grande dente do fundo da boca. Amarrou o cavalo a um dos galhos mais baixos e pôs-se a juntar gravetos e galhos caídos para fazer e alimentar a fogueira de que precisaria. O estômago roncou, e respondeu com um rosnado, era uma brincadeira entre os dois. Acendeu o fogo e observou as chamas rastejarem, depois cambalearem e, num instante, ganharem força e correrem. Aqueceu as mãos e despejou o feijão na panela. Era o último pote que lhe restava. Despedaçou o último pedaço de carne defumada e o jogou lá dentro. Tirou o cartaz de procurado do colete e o examinou enquanto o feijão fervia. Gravou o rosto do homem na memória. E, sem desviar os olhos das chamas, começou a rasgar o cartaz em pedacinhos.
Depois de reduzir o cartaz de procurado a pedaços e comê-lo junto com a carne e o feijão, o homem de longos cabelos negros e olhar muito triste preparou-se para dormir. Jones tentou puxar a aba do chapéu sobre os olhos, porém não adiantou. Cada estalo da fogueira soava como um tiro perto de seu ouvido. A fumaça que a brisa soprava sobre ele parecia o fantasma de sua mãe, cutucando-o e culpando-o. Virou-se de lado, de costas para o fogo, e olhou para onde a égua estava amarrada. Observou o animal pastando na escuridão. Ouviu um ganido ao longe, seguido por um rosnado mais grave, um latido agudo, e depois o silêncio. Fechou os olhos e começou a contar. Chegou ao número quarenta e três antes de adormecer, quaisquer sonhos que tenha tido não valiam a pena ser lembrados.
Capítulo 08: Keaton e Jubal
Keaton sentou-se encostado no tronco retorcido de uma bétula e observou a fumaça no horizonte. Parecia vir de onde a cidade de Jensen se aninhava. As colunas de fumaça eram grossas como árvores ancestrais e subiam até as nuvens como o pé de feijão do João. Keaton quase sorriu, mas lembrou-se de que estava falando com o garoto.
— Um pouco de esperança é algo perigoso. — falou com a voz rouca. A fumaça escapou de sua boca e subiu, passando por seu rosto como a neblina que se ergue de um solo úmido.
— Tem certeza de que não está pensando em ódio? — retrucou o garoto, piscando o olho esquerdo enquanto olhava para Keaton. O sol, às costas do homem, transformava-o em uma silhueta escura junto à árvore.
— Às vezes, não há muita diferença. — Keaton tentou sorrir, porém seus lábios estavam rachados e o movimento doía. O garoto permaneceu ali, com um braço sustentando a trouxa onde carregava as irmãs, enquanto chutava algo morto há muito tempo que jazia a seus pés. O que quer que aquilo tivesse sido, desintegrou-se como uma promessa.
Keaton deixou o cigarro cair no chão e esmagou-o na poeira com o salto da bota. Ele se espreguiçou e olhou para o garoto.
— Pronto? —inclinou a cabeça como um cachorro, e o garoto assentiu. Eles recomeçaram a caminhar. A brisa que surgiu era agradável em suas peles quentes e suadas. Keaton olhou para o céu, as nuvens formavam uma cortina de gaze e, por trás delas, havia movimento, como as mãos trêmulas de um homem à beira da morte. Respirou fundo e sentiu a garganta arranhar. Tossiu, cuspiu e não perdeu o passo. Logo atrás vinha Jubal, com a trouxa balançando sob o peso do que carregava. De sob o pano de algodão, um murmúrio suave e gorjeante quase se deixava ouvir acima do arrastar de pés empoeirados medindo o chão empoeirado.
O sol deslizava pelo céu como uma língua lambendo o rosto de uma criança. Keaton ouviu um sussurro quase imperceptível e olhou para o garoto. Este cochilava encostado na rocha, com os braços franzinos abraçando a trouxa. Keaton achou ter visto um lampejo rosado sob o tecido. Observou por mais um instante, contudo não viu nada que confirmasse aquilo. Acendeu outro cigarro e subiu na rocha ao seu lado. O céu ganhou tons arroxeados de hematoma e depois escureceu por completo. Algumas estrelas tímidas piscavam intermitentemente. Keaton continuou olhando fixamente e fumando.
***
— “Inquieto?” — o homem cuspiu ao disparar a palavra. Como se ela fosse veneno de cobra sugado da perna de um inimigo ou um pedaço de cartilagem dura.
— Não consigo ficar parado. Há mais para mim do que ficar aqui no sul. — Keaton suspirou e transferiu o peso para o outro pé. Encarou com firmeza o homem junto à porta do celeiro. O homem que segurava o ferro de marcar gado em sua mão descomunal. — Você não tem direito nenhum sobre mim. — Keaton disparou as palavras, sua voz soava como capim seco e terra batendo contra a janela. Uma serenata da era da poeira. Olhou para o homem, desafiando-o a esclarecer... A dizer mais uma maldita palavra. Eles apenas se encaravam, com olhos vidrados e loucos.
— Droga, rapaz. Tudo o que sempre pedi a você foi ajuda na fazenda. Seus irmãos sempre fizeram isso, no entanto você sempre quis o caminho mais fácil. Sempre foi um vagabundo aproveitador.
Seu olhar de aço voltou-se para o metal no fogo. O ferro emitia estalos sutis enquanto começava a incandescer.
— Pai, o senhor sabe que não é verdade. — Keaton enganchou o polegar sob o novo cinturão e a arma que sustentava. Projetou os quadris para a frente numa tentativa inconsciente de exibir o equipamento. O homem mais velho apenas fixou o olhar no rapaz. O lábio superior se ergueu num esgar de desprezo.
— Vá embora. Leve sua arma e seu cinturão de fora-da-lei metido a besta e vá. Já tenho filhos. Bons filhos, dispostos a ajudar. Vá atrás dos seus sonhos, do dinheiro fácil e daquela cova sem lápide que acaba esperando por gente como você na maldita terra. — o velho cuspiu na direção dele.
Keaton limpou do rosto as poucas gotas que o vento trouxera, elas umedeceram sua palma, misturando-se às lágrimas. Prendeu a respiração, saboreando as palavras horríveis que queria dizer. Sufocou-as e engoliu-as. Apertou os dentes e travou o maxilar, aterrorizado com a ideia de se despedaçar ao som de uma simples expiração. Soltava o ar aos poucos por entre os dentes, o fôlego escapando lentamente como de um pulmão perfurado por faca. Virou-se e caminhou até o cavalo parado sob a macieira. Chamou o velho mais uma vez.
— Pai.
O homem não lhe deu atenção. O clangor do martelo contra o ferro quente dizia tudo. Keaton olhou para os pés balançando nos estribos.
— Só quero que saiba... — ele fez uma pausa e observou as costas do homem enquanto este mexia no fogo. Keaton fechou a boca e balançou a cabeça. Puxou as rédeas bruscamente, e o cavalo partiu num trote lento. — Que eu te amo. — sussurrou isso, mesmo que apenas em pensamento.
***
Keaton olhou para Jubal. O garoto estava acordado agora, com a cabeça apoiada na rocha ao lado.
— Você estava dizendo alguma coisa? — perguntou o menino.
Keaton esmagou o cigarro na terra com os dedos sujos e assentiu.
— Estava pensando no meu pai. Nas coisas que a gente disse.
O garoto não disse nada, apenas o observava, à espera. Keaton inclinou a cabeça e semicerrou os olhos para encarar a criança sob a luz crescente do dia.
— A gente teve uma discussão, por assim dizer... — fez uma pausa e decidiu abordar o assunto de outra forma. — A língua é um bicho traiçoeiro. Ela pode lamber e dar forma a palavras e promessas. Pode ser banhada em veneno ou coberta de açúcar. Pode amar e pode mentir, mas não sabe ouvir nem quer aprender. É só um músculo, às vezes o músculo é forte, e às vezes apenas definha. O pior é que, quando isso acontece, ela não leva as palavras consigo.
O menino apenas o encarava, com um ar triste e distante no olhar.
— Meu pai dizia que as palavras eram armadilhas. Se você diz muitas, elas se espalham pelo chão à sua volta e te fazem tropeçar, enroscando suas pernas e sua vida.
— Isso também é verdade. — disse Keaton enquanto acendia um fósforo e o encostava no cigarro novo que despontava de seus lábios como se tivesse brotado ali. Ele semicerrou os olhos para a lua nova e fez um esforço tremendo para não se lembrar do que havia acontecido com seu cavalo.
***
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