sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 04 — Capítulo 24

Capítulo 24: Epílogo

— Bem, vou indo antes que a Nephelia acorde.

— Ei, espere um pouco! — disse Zagan, fazendo com que Orias parasse enquanto recolocava o capuz e se virava para sair.

— Precisa de mais alguma coisa? — perguntou Orias, com uma expressão confusa no rosto.

— Você acabou de ser derrotada por outro Arquidemônio. Acha mesmo que pode apenas ir embora? — respondeu Zagan, surpreso.

Ao ouvirem tais palavras, que anularam completamente toda a sinceridade demonstrada momentos antes, todos ficaram tensos.

— Z-Zagan, ela é a mãe da Nephy. Tratá-la ainda pior seria...

— Não que eu tenha muita moral para falar, mas minha mestra não é exatamente uma vilã, sabe? Pode ser um pouco excêntrica, contudo jamais causaria qualquer mal a vocês, ou melhor, como posso dizer...

Surpreendentemente, Chastille e Gremory concordaram uma com a outra ao tentarem impedi-lo. No entanto, Zagan as silenciou com um único olhar.

— Quem é derrotado sofre sanções. Não há exceções, seja a pessoa um Arquidemônio ou o pai ou mãe de alguém.

Para proteger Nephy e Foll, era preciso continuar deixando claro que torná-lo um inimigo era uma péssima ideia. Barbatos, Rafael e até o Arquidemônio Bifrons não escaparam sem algum tipo de punição... Bifrons, inclusive, já havia morrido várias vezes. Por isso, não podia abrir mão desse ponto. Nem todos acreditariam que o que Zagan fazia era o correto... Entretanto, mesmo que estivesse errado, ninguém conseguia refutar seu argumento. Naquele momento, ninguém mais tentou impedi-lo.

O único que reagiu foi Barbatos, que soltou um bufo, como se estivesse assistindo a uma espécie de farsa. Diante daquilo, Zagan decidiu que, mais tarde, daria um soco na cara dele.

— É um raciocínio óbvio para uma feiticeira, não é? Bem, também já estou cansada desta longa vida. Se está disposto a garantir a segurança da Nephelia, então não tenho objeções.

Orias não demonstrou qualquer resistência e, ao expor seus sentimentos, posicionou-se diante de Zagan.

— Que generosidade. Sendo assim, receberá sua punição. — declarou Zagan. Em seguida, olhou para Barbatos e disse. — Ei, Barbatos. Passe isso para cá.

— Você tem uma tremenda cara de pau, hein? — Barbatos pareceu entender o que ele queria dizer e, ao responder, enfiou a mão em uma sombra. O que trouxe de lá... Foi uma garrafa de bebida alcoólica. Pegando a garrafa, Zagan falou com Orias mais uma vez.

— Você é desta vila, não é? A bebida daqui não é nada mal... Todavia aquele seu acesso de fúria acabou destruindo a destilaria.

— E daí? — perguntou Orias, franzindo as sobrancelhas como se não entendesse aonde Zagan queria chegar.

— Consiga mais dessa bebida e traga-a como tributo ao meu castelo. Essa é a sua punição.

— Quer que eu... Vá ao seu castelo? — Orias repetiu o pedido, como se tentasse decifrar as suas verdadeiras intenções, e seu olhar acabou se voltando para Nephy.

— Não me diga que... Quer que eu me encontre com a Nephelia?

— Quem sabe? Mas, se por acaso vocês acabarem se encontrando no meu castelo, eu não teria nada contra.

— E quanto tempo tenho para cumprir essa tarefa? — indagou Orias, com um sorriso amargo no rosto.

— Não tenho muito tempo de sobra, então não pretendo esperar por muito tempo.

— Que rigoroso.

— É a sua punição, afinal.

— O derrotado deve obedecer ao vencedor. Essa é a ordem natural do mundo. — afirmou Orias, inclinando a cabeça de maneira exagerada.

Ele não sabia quanto tempo levaria para Orias colocar seus sentimentos em ordem, depois de já ter abandonado sua filha uma vez. Além do mais, ainda que Nephy voltasse a encontrá-la, isso poderia acabar em tragédia.

Apesar de tal possibilidade, se ela rezava pela felicidade de Nephy, então tem o direito de vê-la... Foi por esse motivo que lhe proporcionou essa oportunidade.

— Nunca pensei que chegaria o dia em que minha coragem seria posta à prova. — a figura de Orias desapareceu como uma sombra, deixando para trás essas palavras de despedida. E, assim que sua presença se dissipou por completo, Barbatos falou em um tom exasperado.

— Você nunca muda, porra?

— Cala a boca. Por que não pensa em outra forma de resolver essa situação?

— Não seria mais fácil só matá-los?

— Nesse caso, começarei te matando! — respondeu Zagan, com um olhar fulminante.

— Hehehe, não tenho a menor intenção de desagradá-lo, Mestre. — disse Barbatos, soltando uma risada zombeteira.

— Barbatos, você sabia? Que o Zagan faria isso, quero dizer... — perguntou Chastille, com uma expressão de choque.

— Ora, por que acha que sigo vivo? — Barbatos também teve sua vida poupada, sob a condição de trazer bebidas alcoólicas como tributo. Ele não era tolo a ponto de não perceber o que estava acontecendo, já que as coisas seguiam o mesmo padrão. Porém, a única pessoa ali que demonstrava surpresa era Chastille.

— Como pode ser tão tapada, Cabeça de Cavalo? Como não percebeu, se conhece o Zagan há mais tempo do que eu? — disse Foll, abafando um bocejo.

— Hã?

Foll também havia acompanhado parte daquela farsa enquanto relaxava sobre as costas de Kimaris. Bem, considerando que já era noite, horário em que estaria na cama, isso fazia todo o sentido.

— E-Então, e você, Kimaris? Não sabia, né?

— Não. Considerando a personalidade do Sir Zagan, achei que seria um tanto improvável que matasse a Srta. Orias. — afirmou Kimaris, voltando-se para Chastille com uma expressão de desapontamento.

Chastille estava, aos poucos, começando a chorar. Então, chamou por Gremory, como se estivesse se apegando à sua última esperança.

— Ah, Gremory, diga algo também! Você não estava em pânico também?

Numa reação incomum, as bochechas de Gremory ficaram coradas, e suas mãos cobriram o rosto diante da pergunta.

Então, até ela ainda tem noção do que é sentir vergonha, hein...? De certa forma, foi um alívio. Gremory, então, falou com a voz embargada pelo choro.

— E-Esqueça! Só perdi a compostura porque se tratava da minha mestra. Se eu acabar tendo uma reação dessas repetidas vezes... Então... Eu... Eu teria que morrer.

— Isso é mesmo motivo para morrer? — exclamou Chastille, caindo no choro naquele momento.

Ah, parece que o “horário de expediente” acabou... A galante Arcanja era, sem dúvida, alguém em quem se podia confiar, contudo, no fim das contas, Zagan não conseguia relaxar de verdade se ela não agisse como de costume. E, por causa do seu choro, Nephy começou a se mexer nos braços de Zagan.

— Hm... Hm...?

— Nephy! — chamou Zagan, fazendo com que todos os outros se aproximassem.

— Mestre Zagan... Hã...? Hmm, o que... Aconteceu comigo...? — Nephy falou em um tom confuso, suas memórias estavam uma bagunça.

— Nephy, será que não se lembra do que aconteceu? — perguntou Zagan, embora as orelhas de Nephy apenas tremularam em sinal de confusão. Ao observar sua reação, teve a certeza de que havia voltado ao normal. Ela baixou o olhar, como se estivesse vasculhando suas próprias lembranças, e então ficou surpresa.

— É verdade, Mestre Zagan! Há um feiticeiro rondando por aqui. A julgar pelo seu poder... É bem provável que seja um Arquidemônio...

Diante de sua reação, Zagan sentiu-se aliviado, entretanto, de certa forma, também desapontado.

Acho que não se lembra de quando era pequena... A garotinha que conseguia rir inocentemente e dizer que o amava já não existia mais. Será que aquilo estava mesmo certo? Tais dúvidas surgiram em sua mente, todavia balançou a cabeça, como se quisesse afastar todos esses pensamentos.

— Aquele não era um inimigo, então não precisa mais se preocupar. — disse Zagan, acariciando a cabeça de Nephy.

Para ela, tudo não passava de um sonho. Porém, Nephy piscou, surpresa, ao olhar para o peito de Zagan. Lá, avistou a guirlanda que ele havia recebido da pequena Nephy.

— Isso... Foi o que eu fiz junto com a Irmã Foll... — disse Nephy, estendendo a mão timidamente em direção à guirlanda. Parecia haver partes suas que seguia mantendo uma vaga lembrança.

— Mestre Zagan, será que nós... Conversamos sobre um tema muito importante? — perguntou Nephy, parecendo um tanto perplexa.

— Um tema muito importante...? Não, creio que não... — respondeu Zagan, inclinando a cabeça. Mas Nephy balançou a cabeça, fazendo seus cabelos brancos balançarem junto.

— Não, deve ter havido uma conversa. Se não me engano, estávamos diante de uma lareira, e você disse algo...

— Hã?

Diante de uma lareira... Algo muito importante... Essas palavras fizeram Zagan se lembrar do que havia acontecido pouco antes.

Nephy, eu te amo. É por isso que vou trazer de volta a Nephy que amo. Esse foi o momento em que Zagan... Ele, que jamais conseguia dizer as palavras “eu te amo”... Expressou, pela primeira vez, seus sentimentos a Nephy. E, enquanto começava a entrar em pânico, o primeiro a tomar uma atitude foi Kimaris.

— Senhorita Gremory, que tal conversarmos ali?

— Me solta, Kimaris! Não me deixe perder uma demonstração de poder do amor que só acontece uma vez na vida! Estou mandando você me soltaaaaaaaaaaaaaaaaaar!

Kimaris afastou Gremory, que choramingava de um jeito nada elegante. Em seguida, Chastille cobriu a visão de Foll com as duas mãos.

— Cabeça de Cavalo. Não consigo ver nada.

— Desculpe, só que ainda é cedo demais para você. O Lorde Rafael com certeza faria o mesmo! — declarou Chastille, agindo, na prática, no lugar do mordomo, que aguardava lá no castelo, ao impedir a visão de Foll. Dito e feito, ela levou Foll embora também. O único que restou, Barbatos, parecia não ter o menor interesse desde o início. Ele estava encostado em uma árvore, virando uma garrafa de bebida.

Com todas as suas rotas de fuga bloqueadas antes mesmo que percebesse, Zagan soltou um gemido.

— Ah, hum, Nephy. Sobre aquele momento...

— Sim? — os olhos azul-celeste de Nephy encontraram os seus enquanto respondia.

Se eu fugir agora, sinto que nunca serei capaz de revelar meus sentimentos a ela... Seria patético demais fugir, especialmente depois de ter encarregado Orias de uma tarefa tão difícil. Então, Zagan reuniu toda a sua determinação.

— Nephy.

— Sim?

— Por favor, espere... Uns dez segundos.

— Tudo bem. — Nephy assentiu, esboçando um sorriso quase amargo. Se Zagan fosse capaz de dizer a Nephy que a amava, não a teria feito esperar tanto tempo. Portanto, aquela hesitação era, no fundo, uma resposta natural.

Zagan respirou fundo para se acalmar, no entanto dez segundos era um tempo curto demais. Quando deu a terceira respiração, o tempo já tinha acabado. Então, abrindo os olhos de repente, falou...

— Nephy!

— S-Sim.

— Só vou dizer isso uma vez, entendeu? — Zagan declarou enquanto a abraçava. Em seguida, sussurrou em suas orelhas pontudas.

— Eu te amo, Nephy. Estou apaixonado por você há muito, muito tempo... — Zagan proclamou, percebendo logo em seguida que deveria ter se expressado de uma forma mais eloquente. Entretanto, Nephy usou toda a sua força para abraçá-lo, apertando as costas de Zagan com firmeza.

Um aroma suave emanou de sua amada. Ela era delicada e esguia, embora, ainda assim, a intensidade com que o abraçava fez o seu coração bater como um tambor. Além disso, Zagan pôde notar que o coração de Nephy também batia acelerado.

— Sim. Eu me lembro! — respondeu Nephy, radiante. Zagan sentiu seu rosto corar diante daquelas palavras.

Droga, será que a Nephy realmente se lembra de tudo? Se for esse o caso, teria sido melhor não ter dito nada. Todavia, ao ver as suas orelhas saltitando de alegria, não conseguiu ficar bravo.

Será que ela só... Queria ouvir aquilo mais uma vez? Independente da resposta, agora tinha certeza de que era amada. Então, Nephy aproximou a boca da orelha de Zagan e sussurrou.

— Eu também... Amo você, Mestre Zagan. Amo muito. Estou, de verdade, profundamente apaixonada por você.

Aquele ataque surpresa fez com que Zagan encostasse sua bochecha na de Nephy. Chastille, por sua vez, observava a cena, com o rosto todo corado, até suas orelhas estavam vermelhas. Gremory estava superanimada, falando alguma coisa em voz alta. Barbatos soltava um arroto estrondoso. E Foll chutava as canelas de Chastille.

Para ser sincero, todos eles estavam estragando o clima. Mas, apesar de tudo, Zagan sentiu vontade de perdoar tudo aquilo.

Infelizmente, naquele momento, Zagan não percebeu um detalhe importante. Nephteros não estava em lugar nenhum...



***



— Hmm. Você tem algum assunto a tratar comigo? — perguntou Orias.

Dentro da floresta densa.

Nephteros ocultou sua presença e seguiu Orias. Não demorou muito para que sua perseguição fosse notada, Orias parou de caminhar e a chamou. Quando Nephteros se revelou, Orias assentiu, compreendendo a situação.

— Você é... Entendo. Não é uma subordinada de Zagan, e sim do Bifrons, correto? — respondeu Orias, sem qualquer traço de hostilidade na voz. Mesmo assim, ao cruzarem os olhares, Nephteros sentiu como se fosse desabar de joelhos.

Zagan conseguiu derrotar esse monstro com tanta facilidade...? Todos os outros habitantes da vila, juntos, não foram capazes sequer de tocar em Orias, porém ele a derrotou sozinho. Que aterrorizante. Um engolir em seco audível fez o medo de Nephteros ecoar em sua garganta. Passou a odiar a si mesma por ter criada uma situação em que se encontrava sozinha diante de um Arquidemônio. Nephteros não estava sob a proteção de Zagan, se desagradasse alguém que não tinha motivo algum para mantê-la viva, sem dúvida morreria.

Era dessa forma que os Arquidemônios agiam, e Orias era um deles. Apesar de sua hesitação, Nephteros reuniu toda a sua força de vontade e abriu a boca para falar.

— Por favor, perdoe minha falta de cortesia. Vim até aqui... Porque há algo que gostaria de lhe perguntar.

— Estou de bom humor agora. Não há necessidade de se humilhar. — disse Orias, dando de ombros.

— Entendo. — respondeu Nephteros, ficando pálida e tremendo de forma lastimável, apesar do tom gentil de Orias. Aquele Arquidemônio era, sem dúvida, assustador. Por outro lado, a possibilidade de obter a resposta para o que desejava perguntar também era algo bastante aterrorizante.

— Prossiga. Fale. Parece que Zagan tomou um certo apreço por você, então não lhe farei mal algum! — afirmou Orias em um tom tranquilizador. De certa forma, suas palavras pareciam carregadas de uma espécie de piedade.

— Você é... A mãe de Nephelia, não é? — perguntou Nephteros, ao conseguir enfim reunir coragem necessária.

— Sou, sim. Embora, se possível, preferisse que não tocasse nesse assunto.

— Peço perdão. Contudo, trata-se de uma questão importante. — respondeu Nephteros, fazendo uma breve reverência. Em seguida, indagou. — Você... Tem outros filhos?

— Hmm...? Não compreendo bem o sentido da sua pergunta. O que quer dizer com isso?

— Eu... Tenho o mesmo rosto que a Nephelia. Tenho os mesmos cabelos brancos e também domino o idioma Celestian. — respondeu Nephteros, engolindo em seco, visivelmente nervosa. Então, tocando o próprio rosto, continuou. — No entanto não tenho lembrança alguma... Não me recordo de nada da minha infância... Nem da minha família...

Acima de tudo, a aterrorizava o fato de nunca ter sequer questionado isso antes. Sua voz tremia de um jeito angustiante, e seu rosto se contorcia, prestes a desabar em lágrimas a qualquer instante.

— Afinal... O que eu sou?

E, em resposta, Orias disse...

Continua...

***

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