Capítulo 23: Dizem que nenhuma criança sabe o quanto é querida pelos pais, mas os pais também não compreendem os sentimentos de seus filhos
— Titânia... Hã? — Zagan murmurou enquanto erguia o pingente que Nephteros abrira pouco antes.
Já era noite, eles haviam terminado o jantar, e Nephy e Foll conversavam diante da lareira, com bolotas espalhadas à sua frente. As bolotas que Zagan assara naquela noite, por impulso, fizeram um sucesso inesperado. Ele usara mel para disfarçar a falta de tempero, porém parecia que a curiosidade das meninas as fizera esquecer o sabor insosso.
Barbatos se afogava em bebida numa mesa próxima, enquanto Chastille tentava contê-lo. Nephteros estava em outra cadeira, absorta em pensamentos enquanto contemplava a lareira. Estava um tanto ansiosa devido ao que haviam discutido à tarde, contudo parecia já ter se recuperado quase por completo. Se a situação se prolongasse, Zagan teria sido forçado a cuidar dela em seu castelo por algum tempo.
Kimaris e Gremory não estavam por perto. Após uma partida séria de pedra, papel e tesoura, ficou decidido que a limpeza pós-jantar caberia a eles. Assim, lá estavam os dois, lavando a louça e reclamando de como a cozinha era apertada.
Depois de verificar a situação de seus companheiros, Zagan soltou um suspiro.
O que eu faço?
Não restava muita coisa que valesse a pena mencionar em termos de construções na vila. E, como Barbatos e os outros haviam revistado tudo durante o dia, todos os livros e itens de valor já estavam reunidos à sua frente. Tudo o que restava, de fato, era encontrar uma maneira de escapar e fazer Nephy voltar ao normal.
No entanto, Zagan estava preocupado com duas coisas. A primeira era o nome gravado no pingente... Titânia. Dizia-se que essa feiticeira havia falecido há várias centenas de anos, entretanto o pingente indicava que Nephy era sua filha. Em outras palavras, Nephy era filha de Titânia, a discrepância temporal não fazia sentido. Afinal, ela havia lutado contra um Arquidemônio. As chances de Titânia sobreviver por tanto tempo depois daquilo, sem que ninguém soubesse, eram bem pequenas.
Arquidemônios não costumavam se interessar pelos outros, todavia não demonstravam misericórdia ou compaixão por seus inimigos.
Sempre havia a possibilidade de que Orias a tivesse capturado, porém nesse caso teria sido usada como sacrifício ou cobaia. Zagan tinha certeza de que ela jamais teria a oportunidade de ser abençoada com um filho, ou a resistência física para dar à luz, sob tais circunstâncias.
Ainda assim, existia a possibilidade de que Orias fosse como Zagan e tivesse se apaixonado por Titânia à primeira vista. Infelizmente, nenhum dos Arquidemônios parecia ser lá muito bondoso. E, descartada essa hipótese, restava apenas uma possibilidade, mas...
Se eu estiver certo, matar Orias pode ser uma má ideia... Havia oitenta ou noventa por cento de chance de que o culpado, desta vez, fosse Orias. Sua conexão com Titânia o teria levado a descobrir a existência daquele vilarejo. Ele deve ter transformado Nephy em criança para que pudesse aprender a dominar seu poder desde cedo. Segundo Chastille, a aura daquele vilarejo era poderosa. Além do mais, conferia poder a Nephy com pouco esforço da parte dela. Mesmo vários candidatos a Arquidemônio reunidos teriam dificuldade em amaldiçoá-la naquele momento.
Zagan refletiu sobre sua situação difícil, percebendo que seria complicado derrotar alguém do seu nível sem recorrer à força letal.
Sem considerar que, será que derrotar Orias seria suficiente para fazer Nephy voltar ao normal? Muitas questões atormentavam seus pensamentos ao considerar esse primeiro problema. Quanto ao outro problema...
Zagan voltou o olhar para Foll e Nephy, que sorriam uma para a outra. As emoções de Nephy costumavam ficar evidentes pelos movimentos de suas orelhas, mas era muito raro que algo transparecesse em seu rosto. Talvez não conseguisse expressar emoções devido à sua criação, porém Zagan sentia que a sua musculatura facial estava se soltando aos poucos com o passar do tempo.
Ainda assim, aquela era a primeira vez que a via sorrindo de forma radiante. A causa direta de Nephy ter se tornado inexpressiva era, como bem sabia, o trauma de ter sido abandonada naquela vila. Portanto, a maneira como os elfos a maltratavam também desempenhava um papel claro. Depois de folhear o diário do ancião, conseguiu entender por que Nephy havia perdido o sorriso.
Ora, entre essa Nephy e a Nephy verdadeira, qual das duas é mais feliz? Aquela jovem ainda era Nephy. Mantinha o desejo de consolar aqueles que sofriam, da mesma forma como quando era adulta. E não é como se tivesse perdido todas as memórias do tempo que passou com Zagan e os outros.
Acima de tudo, Zagan queria proteger o seu sorriso, e sabia que fazê-la voltar ao normal faria com que ele desaparecesse. Feiticeiros viviam vidas longas. Com mais uns dez anos, Nephy voltaria ao seu estado anterior... Portanto, havia também a opção de só esperar. Dez anos não eram quase nada para ele e, dessa forma, seu sorriso poderia ser preservado.
Depois de ver o conteúdo doloroso daquele diário, não conseguia evitar o desejo de esperar. E, enquanto quebrava a cabeça com essa questão, Gremory e Kimaris retornaram da cozinha. Parecia que reverter a idade dela era complicado, pois Gremory seguia na forma de uma garotinha. Além do mais, Kimaris assumiu sua forma de leão para entreter as garotas.
— Terminamos a limpeza. — informou Gremory.
— Ah, bom trabalho.
— Hã...? O que foi? Você está com uma cara de muita preocupação. É tão difícil romper a barreira ao redor da vila? — perguntou Gremory.
Zagan percebeu que devia estar fazendo uma expressão bem reveladora para que Gremory notasse e se preocupasse.
— Você conhece o Arquidemônio Orias? — indagou Zagan, dando de ombros enquanto erguia o pingente.
— B-Bem, pelo menos conheço o nome... Será que é...? — o rosto de Gremory teve um espasmo enquanto respondia.
— Sim, é provável que tenha sido Orias quem causou toda essa confusão. Por isso, estou em dúvida se devo matá-lo.
— Ah... Como imaginei... — Gremory levou a mão ao rosto, perdida em pensamentos ao ouvir a resposta de Zagan.
— O quê? É um conhecido seu?
— Ah... Hmm... — Gremory gaguejou enquanto buscava desesperadamente uma resposta.
— O Arquidemônio Orias é o mestre da Srta. Gremory. — interveio Kimaris, respondendo no seu lugar.
— Sério? — exclamou Zagan, quase deixando o pingente cair ao ouvir aquilo.
— Hmm, é... — murmurou Gremory nervosamente.
— Você... Já tinha percebido que era o Orias, não é? — afirmou Zagan, observando o suor escorrer pela testa dela.
— Só pensei... Que poderia ser o caso.
Bem, a feitiçaria de Gremory e a maldição lançada sobre Nephy tinham muito em comum. Perceber essa conexão deveria ter sido simples, contudo Zagan estava distraído com o fato de Nephy ter se transformado em criança, o que o fez deixar esse detalhe passar despercebido.
— Deixe-me dizer logo uma coisa, eu não sabia de nada, está bem? Faz quase cem anos desde a última vez que encontrei Orias. Ah, e também não vazei nenhuma informação! — afirmou Gremory, agitando as mãos de forma agitada.
— Não é como se eu estivesse te questionando sobre alguma irregularidade. — disse Zagan. Ele entendia por que Gremory havia guardado aquela informação para si. Se soubessem que alguém ligado ao culpado estava dentro do espaço selado, essa pessoa seria rotulada como inimiga. Por essa razão, não tinha intenção de criticá-la por suas ações. Em vez disso, lhe fez uma pergunta.
— Que tipo de feiticeiro é Orias?
— Vejamos... A feitiçaria que uso para manipular minha idade é algo que aprendi com meu mestre, então Orias também consegue usá-la. Além do mais... Ah, é verdade, meu mestre deve ser um elfo.
— Tem certeza?
— Sim. Orias sempre usava um capuz, então nunca cheguei a ver seu rosto, no entanto consegui vislumbrar o que havia por baixo apenas uma vez. As orelhas eram sem dúvidas as de um elfo.
— Entendo... — respondeu Zagan.
— Embora dizem que o Senhor Orias matou a Rainha das Fadas, Titânia, não é? Será que outro elfo faria tal coisa? — perguntou Kimaris, em tom intrigado.
— Não é natural que elfos discriminem os da sua própria espécie? — Zagan sabia que aquilo soava duro, entretanto ler sobre como Nephy fora tratada pelos aldeões o havia deixado irritado.
Kimaris resmungou em resposta, como se não estivesse nem um pouco convencido, todavia Zagan apenas assentiu.
— Tudo faz sentido agora. Devo agradecê-la! — disse Zagan, expressando sua gratidão.
— Como é? Não vai ficar bravo e dizer que eu deveria ter lhe contado antes? — Gremory perguntou, retribuindo o olhar com espanto.
— O idiota aqui fui eu, por não ter percebido antes. Não é como se a culpa fosse sua nem nada do tipo.
— Essa minha forma parece ser bem conveniente diante do meu Arquidemônio, hein? — Gremory comentou, olhando para sua própria figura infantil.
— Só para constar, estou mais do que disposto a matar crianças se elas se tornarem minhas inimigas.
— Keeheehee, então vou ter cuidado. — Gremory riu de forma agradável enquanto se afastava para se juntar a Foll e Nephy diante da lareira. E, mesmo lançando um olhar irritado para ela, ele fez um pequeno aceno.
Com isso, já sei como lidar com Orias... O único problema restante é a Nephy. Enquanto Zagan começava a resmungar, observando o pingente, alguém puxou a barra de sua túnica. Ao se virar, percebeu que Nephy havia se aproximado de repente, com uma expressão preocupada no rosto.
— Nephy? Você não deveria estar brincando com a Gremory e a Foll?
— Mestre Zagan, aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara de quem está muito preocupado... — Nephy perguntou, balançando a cabeça energicamente para negar a pergunta dele. No fim das contas, aquela criança era a mesma de sempre. Parecia não haver como esconder segredos dela. E assim, Zagan assentiu, resignando-se ao seu destino.
— Vejamos... Nephy, se alguma coisa ruim acontecesse e tivesse a chance de refazer tudo, o que você faria?
Não é que estivesse deixando a solução do problema nas mãos da própria Nephy, mas queria, pelo menos, ouvir suas considerações.
— Refazer... Significa que nunca aconteceu, certo? — perguntou Nephy.
— Correto. Fazer com que nunca tenha acontecido e começar tudo de novo.
Diante dessa explicação, Nephy começou a refletir, soltando um gemido fofo, como se estivesse diante de um problema difícil.
Entendo. Ver alguém preocupado com algo pode ser bem adorável, não é? Zagan duvidava muito que parecesse tão fofo assim, porém achava que Nephy tinha razão. E, pouco depois, a pequena começou a colocar seus pensamentos em palavras.
— Hoje, quando eu estava procurando bolotas com a irmãzona Foll, levei um susto enorme ao ver uns bichos.
Ao recordar o momento, Zagan lembrou-se de ter ouvido Nephy gritar enquanto colhia bolotas. Parecia que havia entrado em pânico ao pegar uma que estava sendo comida por insetos. Zagan decidiu mentalmente que queimaria aquela bolota até virar cinzas mais tarde.
— Não gostei daquilo, mas se fizesse com que nunca tivesse acontecido, isso não significaria que não fui colher bolotas com a irmãzona Foll? Acho que... Gostaria ainda menos disso.
— Mesmo que ainda pudesse ir colher bolotas com a Foll?
— É... Quer dizer, quando eu ia chorar, a irmãzona Foll pegou a bolota e a jogou bem longe para me animar. Aquilo não é algo que só vi porque passei por uma situação ruim?
Ao ver Nephy se esforçando para responder, Zagan a levantou e a colocou em seu colo. E, ao fazê-lo, Nephy sorriu cheia de alegria, soltando um “Ehehe”.
— Entendo. É justo como você disse. Até as memórias dolorosas são experiências que nos moldam.
— Sim! — Nephy respondeu com um sorriso enorme no rosto.
— Lembra quando disse que me amava, Nephy? Pois é, sinto o mesmo por você. No entanto, no fim das contas, acho que isso engloba tudo... Desde as memórias dolorosas que compartilhamos até a jornada que percorremos juntos... — Zagan declarou em tom sério.
Não se tratava apenas dos acontecimentos na vila escondida. Também envolvia as vezes em que Zagan a magoou e até quando ela foi ferida por Nephteros. Apesar de todos os problemas, aqueles momentos que passaram juntos eram memórias preciosas para Zagan. E assim, enquanto acariciava com carinho a cabeça de sua amada enquanto falava, Nephy o encarou com curiosidade.
— Nephy, eu te amo. É por isso que vou trazer de volta a Nephy que amo! — declarou Zagan. Por fim havia encontrado a resposta, então continuou dizendo. — Daqui para frente, você certamente vivenciará memórias mais dolorosas. Entretanto sempre terá um lugar ao meu lado. Por isso... Hmm, como posso dizer...
Nephy ouvia atenta, com toda a sua atenção voltada para Zagan enquanto este lutava para encontrar as palavras certas para expressar seus sentimentos. E, ao perceber sua atenção, Zagan teve mais dificuldade em se expressar. Ainda assim, acabou terminando o que dizia sem vacilar.
— Poderia ficar com... Não, não está bem certo. Fique comigo, Nephy. Você é minha. Por isto... De agora em diante, não permitirei que ninguém a intimide, nem deixarei que perca nada.
Era sem dúvida um assunto difícil de compreender para a Nephy naquele momento. A pequena Nephy o encarou com admiração por um instante, todavia assentiu logo em seguida.
— Sim! Seguirei o Mestre Zagan aonde quer que ele vá!
— Boa garota.
Depois de acariciar a cabeça dela mais uma vez, Nephy desceu do seu colo. Então, após se espreguiçar um pouco, Zagan chamou os outros que estavam na sala.
— Pessoal, já está na hora de cair fora daqui. Preparem-se para voltar para casa.
— HÃ?
Todos soltaram exclamações de espanto.
— Quer dizer agora? Já está escuro lá fora! — Barbatos reclamou, como se ainda quisesse beber mais um pouco, mas Zagan não lhe deu atenção.
— Se gosta tanto da bebida, é só trazê-la junto. Vou esperar trinta minutos, então sejam rápidos.
— Zagan, estou com sono... — Foll aproximou-se enquanto esfregava os olhos.
— Então vá dormir. Kimaris, deixo a Foll e a Nephy aos seus cuidados.
— Como quiser. — respondeu Kimaris, enquanto colocava Foll nas costas com um sorriso forçado no rosto.
— Meu Deus, para onde foi aquela sua expressão de preocupação? — Gremory perguntou a Zagan em tom exasperado.
— Foi só um lapso momentâneo de julgamento. Não se preocupe.
Dito isso, Gremory começou a reunir livros, arcos e todo tipo de item de interesse com seu corpo pequeno.
— Você tocou nesse assunto de repente, não foi? Há algum motivo para ter pressa agora? — murmurou Nephteros, surpresa.
— Não há um motivo real para pressa, porém também não tenho razão para continuar sob observação.
Orias devia seguir estando por perto, observando a situação do grupo de Zagan. Já que havia decidido qual rumo tomar, não havia mais necessidade de apenas seguir o fluxo.
— Parece que enfim voltou ao seu estado normal, hein? — disse Chastille, curiosa.
— Será?
— É. Então, o que devo fazer?
— Proteja Nephy e Foll. É mais do que suficiente. — declarou Zagan enquanto acariciava a cabeça de Nephy.
— Eu cuidarei de todo o resto por conta própria.
Não importava quem fosse o oponente, nem quais expectativas eles tivessem, o fato de terem se metido com Nephy era uma verdade inabalável. Portanto, cabia a Zagan dar o golpe final neles.
***
Ao saírem, o grupo percebeu que o ar estava quente. Haviam terminado de reunir tudo o que era necessário, e todos os membros estavam agora na praça em frente à mansão. Sem saber o que aconteceria a seguir, Gremory deixou as brincadeiras de lado e assumiu sua forma adulta.
— Então, qual é o plano? Achei que você não conseguisse devorar essa barreira. — perguntou Barbatos, recebendo um aceno de cabeça de Zagan.
— Seja feitiçaria ou misticismo, mana ou aura, nada muda o fato de que o fluxo de poder está sendo manipulado. Se tudo isso for reduzido a cinzas, uma simples barreira não conseguirá se manter.
— Hã...? Não entendo muito bem a teoria por trás da feitiçaria, contudo tudo bem fazer algo assim? A aura é o poder da própria natureza, sabe? — Chastille inclinou a cabeça para o lado, confusa, ao fazer a pergunta.
— É por esse motivo que vou transformar toda a área ao nosso redor em terra arrasada. Afinal, estarei matando a própria natureza! — disse Zagan, concordando consigo mesmo, pois sua escolha era óbvia.
— P-Pense bem, Zagan! Isto é Norden, uma terra sagrada onde até a Igreja teme pisar! Não seria uma blasfêmia transformá-la em terra arrasada? — Chastille, que seguia em modo de trabalho, empalideceu completamente ao perceber as suas intenções.
— Estamos rompendo uma barreira nascida do misticismo, que deriva do seu querido deus... Então, não é óbvio que é algo blasfemo?
— Gaaaaah! Feiticeiros são mesmo vilões! — Chastille começou a se debater em prantos enquanto protestava.
— Droga, que dor de cabeça! Se vai fazer, então faça logo! — gritou Barbatos, imobilizando os braços de Chastille nas costas dela para acalmá-la.
— Pode deixar! — disse Zagan, fechando o punho aos poucos, um dedo de cada vez, e erguendo a mão em direção aos céus.
— Reduza-se a cinzas... Fósforo Celestial.
Um círculo mágico negro, tecido com mana, tomou forma em sua mão direita. Era uma feitiçaria que fazia a mana, absorvida indiscriminadamente, entrar em combustão, levando a mana... Não, a própria essência da vida, a ser reduzida a cinzas. Esse era o poder que Zagan despertara para matar demônios. Se o disparasse duas vezes, até os pensamentos residuais do Lorde Demônio poderiam ser destruídos.
— Entendo. Está usando o poder que destruiu o Lorde Demônio de Lodo, não é? Se for esse o caso, nem a barreira élfica tem chance alguma. — disse Gremory, abrindo um largo sorriso ao testemunhar aquela demonstração.
Zagan golpeou o chão com o punho, provocando um tremor surdo seguido por uma explosão de chamas negras. E, após se espalharem como se fossem engolir a terra, as chamas se dissiparam. No entanto, tudo o que foi tocado por elas tornou-se negro e desfez-se em cinzas. As chamas chegaram a engolir a mansão do ancião, reduzindo-a a escombros... Ou melhor, era isso que deveriam ter feito.
— Ora, ora... Vejo que é um homem que não sabe o que é se conter.
Uma voz feminina e rouca ecoou do alto. Ao olharem para cima, avistaram uma silhueta encapuzada sobre a mansão do ancião.
O Selo do Arquidemônio na mão direita de Zagan pulsava e latejava.
O Selo do Arquidemônio está ressonando... Aquilo significava que o ser diante de seus olhos era, sem dúvida, um Arquidemônio.
Nephy agarrou-se às costas de Zagan com uma expressão de medo.
— Seu desgraçado... Há quanto tempo está aí em cima? — Barbatos perguntou enquanto ele e os outros assumiam uma postura de defesa. Entretanto, Zagan colocou a mão no ombro de Barbatos e o conteve.
— Ora, vejam só quem enfim decidiu aparecer...
A figura encapuzada flutuava no ar. Como já era noite, não projetava sombra alguma no chão, por isso, ninguém tinha certeza se estava de fato ali ou não. Ainda assim, aquela pessoa estivera à espreita, observando Zagan e os outros o tempo todo.
— Gremory, não há dúvida de que aquele é o seu mentor, certo? — Zagan perguntou a Gremory, mantendo os olhos fixos na figura.
— S-Sim... Sem dúvida. — Gremory, que costumava agir como bem entendia, sentia um suor frio escorrer pelo rosto enquanto respondia com a voz trêmula.
Nesse momento, Zagan concentrou sua atenção nos vestígios de seu Fósforo Celestial, que haviam desaparecido antes de alcançar a mansão. Não parecia ter sido bloqueado diretamente...
Será que algum tipo de feitiçaria foi usado para impedir o fluxo de mana? É como se tivesse isolado aquela área específica do restante.
O Fósforo Celestial só conseguia incinerar tudo em uma única área antes de se dissipar, o que tornava aquilo o contra-ataque perfeito. Parecia que ela havia investigado a fundo as suas habilidades e se preparado para aquele confronto com antecedência.
O que significa que estava observando o baile noturno de Bifrons... Zagan só havia usado o Fósforo Celestial em duas ocasiões no passado, uma vez ao lutar contra a quimera demoníaca e, depois, no baile de Bifrons. No baile, o disparara várias vezes para acabar com o Lorde Demônio de Lodo. Houve alguns sobreviventes que não se alistaram como seus subordinados, portanto aquela era a fonte mais provável de onde a informação havia vazado.
De qualquer forma, estava agora convencido de que aquela oponente não poderia ser destruída pelo Fósforo Celestial. E, com base nessa conclusão, começou a falar.
— Faz muito tempo... Você é a Arquidemônio Orias, suponho?
Em resposta, a sombra encapuzada retribuiu com um aceno exagerado antes de falar.
— De fato. Sou Orias, Arquidemônio Zagan.
A sombra encapuzada... Orias, respondeu-lhe com calma. Zagan então dirigiu-se a Orias como se falasse com um amigo próximo.
— Desculpe, mas eu gostaria de reduzir aquele lugar a pedaços. Poderia sair do caminho?
— Meu Deus... Você certamente adquiriu poder a uma velocidade aterrorizante, não é? O poder de um tirano é assustador. — Orias olhou para a área de terra queimada com um ar de pena ao dizer isso, ignorando a pergunta que fora feita. Parecia que Orias não tinha intenção alguma de sair do caminho. Diante de sua recusa, Zagan franziu a testa e soltou um “Hmm”.
— Você era contra eu herdar o título?
— Não me opus, apenas avisei que seria perigoso. Embora ninguém tenha se dado ao trabalho de me ouvir. Suponho que seja natural, já que Arquidemônios são, em sua essência, fundamentalmente egoístas.
Em suma, ao contrário de Bifrons, Orias estava plenamente ciente de que Zagan representava um fator de risco. E era natural querer eliminar tais fatores.
Parecia que dois Arquidemônios iriam se enfrentar naquele solo... Um fato que não passou despercebido pelos companheiros de Zagan. O suor escorria pela testa de cada um deles devido à atmosfera tensa. Se um feiticeiro comum estivesse presente, sem dúvida teria desmaiado apenas com aquela tensão no ar.
— Poderia responder a uma pergunta? — Zagan perguntou, escolhendo com cuidado suas próximas palavras.
— Acha que tenho alguma obrigação desse tipo?
Zagan engasgou. Aquelas palavras deviam estar impregnadas de mana. E, como se impulsionadas pela tensão daquele momento, rachaduras percorreram as paredes de pedra da casa, acompanhadas pelo som de um raio atingindo o solo.
Zagan percebeu que várias das pessoas atrás dele não suportaram a pressão e caíram de joelhos. Bifrons era um Arquidemônio que transmitia uma aura de estranheza, contudo Orias era mais direta e impiedosa. Sendo assim, estar diante dela fez Zagan dar um passo à frente, com um sorriso provocador no rosto.
— Não, vou fazê-la me responder. Mesmo que diga que não quer, vou arrastá-la daí e forçar a resposta a sair dos seus lábios.
Em total desacordo, Zagan reuniu mana e a lançou direto contra Orias. Um vórtice de poder surgiu entre os dois Arquidemônios, fazendo até as árvores enraizadas no solo flutuarem no ar.
— E-Espere, Zagan! Essa é perigosa demais! Eu... Também vou lutar! — Chastille exclamou, apesar de seu rosto pálido e visivelmente assustado.
Ao olhar para trás, Zagan notou que sua mão tremia enquanto segurava o punho da espada embainhada.
— Não entre em pânico. Estamos apenas conversando aqui. Não saque sua lâmina, saiba apenas que ela não é uma bruta qualquer incapaz de dialogar. — respondeu Zagan a Chastille, em tom casual.
— Uma provocação barata. Muito bem. Tente perguntar o que quiser. Embora eu não vá necessariamente responder! — disse Orias, estreitando os olhos ao responder a Zagan.
Um estalo ecoou no ar quando as pedras e árvores que flutuavam foram despedaçadas.
Os fragmentos rasparam a bochecha de Zagan, deixando um leve corte por onde escorreu um fio de sangue. Mesmo enquanto aquilo acontecia, Zagan sorria como se estivesse gostando da situação e apontou o dedo para trás... Na direção de Gremory, que estava ajoelhada e ofegante.
— Aquela bobagem sem sentido chamada “poder do amor”, ou seja lá o que for, de que a Gremory falou... Responda, aquilo veio de você?
Gremory havia se intrometido por conta própria no que deveria ser uma viagem em família, brincado com Nephteros enquanto divagava sobre o poder do amor e se transformado em uma garotinha para perturbar Zagan o quanto quisesse. Estava curioso para saber por que ela tinha ido tão longe.
— Hã...? — Orias soltou um som de surpresa enquanto a presença avassaladora que dominava a área se dissipava.
Gremory colocou as mãos atrás da cabeça e apenas assobiou baixinho, com o rosto ainda banhado em suor frio.
— Hmm... Parece que minha discípula tem lhe causado problemas. Desculpe! — disse Orias, pedindo desculpas com uma leve inclinação de cabeça após ficar tensa por um momento.
Um pedido de desculpas? Zagan jamais esperaria que um Arquidemônio baixasse a cabeça, por isso ficou sem palavras.
— Senhorita Gremory, não importa como se olhe para essa situação, envergonhar sua estimada mestra em um lugar desses é um pouco... — Kimaris murmurou essas palavras, destruindo por completo qualquer clima de tensão.
— Guuuh, aaagh, Zagan! Não precisa contar tudo para ela!
— Cale a boca! — interrompeu Orias.
— Eeek... — Gremory calou-se em seguida ao ser repreendida pela mestra.
Bem, Zagan também não esperava que fosse um assunto tão sério e sentiu certo pesar. Esperava que Orias dissesse “Está zombando de mim?” enquanto avançava para o ataque...
— Sinto muito mesmo.
— Não, tudo bem, desde que você tenha entendido.
Zagan não pôde fazer nada além de balançar a cabeça de forma desajeitada em resposta. Então, Orias falou, como se quisesse revigorar a si mesma.
— Compensarei pelas ações da minha discípula em outra ocasião. Sinto muito, mas não posso permitir que vocês saiam daqui. Não poderia só ficar aqui e viver tranquilamente?
Em resposta à velha, que falava como se repreendesse um aluno indisciplinado, Zagan sorriu como se tivesse ouvido uma boa piada.
— Eu me recuso.
— Que pena. Não queria ter de transformar este lugar em um campo de batalha... — disse Orias, soltando um suspiro profundo. E aquele suspiro sinalizou o início da batalha.
***
— [Tu és aquele que brilha como as estrelas. Aquele que abraça o equilíbrio e arbitra entre o bem e o mal]... — Orias entoou o feitiço, fazendo Nephteros empalidecer.
— Não pode ser... Esse é o meu...
Asteri Ekrexis... Era o cântico de misticismo celestial que Nephteros tentara usar da outra vez. Era também um poder que, em teoria, só poderia ser utilizado por Nephy e Nephteros, as duas alta-elfas. Enquanto observava as luzes que flutuavam ao redor do Arquidemônio como vaga-lumes, Zagan falou como se a situação não fosse nada demais.
— Mesmo que o atavismo entre alto-elfos ocorra apenas uma vez a cada cem anos, tanto elfos quanto feiticeiros possuem juventude eterna. Não é nada estranho que um alto-elfo tenha várias centenas de anos de idade.
— Não é hora para isso! Se formos atingidos por aquilo, não sobrarão nem cinzas, droga! — gritou Barbatos enquanto liberava uma feitiçaria de fogo. Não, mais do que fogo, era um raio de calor. As pedras tocadas pelo feixe incandescente derretiam como se fossem lama, e as árvores caídas eram reduzidas a cinzas num instante. Ele ainda era um dos poucos que, em certo momento, haviam sido candidatos a Arquidemônio. Podia-se até dizer que seu poder superava o de Zagan na época em que ambos compartilhavam essa posição. Sua magia desferiu um golpe comparável ao sopro de um dragão, porém... No instante em que tocou a luz do misticismo celestial, o raio de calor foi anulado.
— Você está... Brincando, né? — Barbatos murmurou, chocado, e Zagan balançou a cabeça em resposta.
— Desista. Nem aquele Lorde Demônio de Lodo conseguiu fazer algo diante desse poder. É provável que seja impossível para uma feitiçaria comum romper essa defesa.
— Feitiçaria comum... Aquela era uma das minhas cartas na manga! — Barbatos gritou. Era uma feitiçaria poderosa, embora, ainda assim, totalmente comum. A menos que fosse uma feitiçaria focada exclusivamente em ataque e tão poderosa quanto o misticismo celestial ou a feitiçaria de Zagan, seria impossível perfurar as defesas de Orias. E, para o seu azar, aquilo significava que um feiticeiro comum não tinha meios de atacar Orias.
— [Ainda assim, o equilíbrio foi rompido. A ordem perdeu-se, e a terra tingiu-se de sangue. Tal ato exige retribuição. Uma retribuição trazida pelo martelo que estilhaça todo pecado.] — Orias avançou para o próximo verso do cântico enquanto a conversa acontecia. As luzes que a protegiam mudaram de direção e caíram como chuva sobre Zagan e os outros.
— Vocês, fiquem atrás de mim! — Zagan ergueu o braço enquanto dava ordens aos seus companheiros. Então, um único círculo mágico brilhante surgiu e flutuou sobre ele.
— Escala Celestial? Como apenas esse feitiço vai fazer alguma coisa...
Como a feitiçaria equivalente ao Fósforo Celestial, ela absorvia a mana ao redor e continuava a aumentar de intensidade. Com tempo suficiente, poderia se tornar um escudo capaz de resistir a um único golpe de misticismo celestial, no entanto seu tamanho era apenas o suficiente para caber na palma da mão.
Como as luzes criadas por Orias ultrapassavam com facilidade a centena, o escudo de Zagan era frágil demais para protegê-lo, quanto mais aos seus companheiros. Entretanto, apesar da situação desesperadora, Zagan não demonstrou qualquer sinal de pânico e apenas balançou a cabeça.
— Bem, apenas observe. — disse Zagan enquanto usava o pequeno círculo mágico para repelir as luzes que caíam, uma a uma. Entretanto, acabou sendo um esforço inútil. As luzes se espalharam como se fossem envolver Zagan. Enquanto isso, Orias continuava a entoar o cântico, avançando para o último verso de sua feitiçaria celestial com uma voz retumbante.
— [As luzes dos céus são todas estrelas. Tudo o que brilha, longe e perto, despenca em uma conflagração. Sem compaixão, sem pesar, ela simplesmente julga e traz a destruição. Esta é a prece da retribuição]... Asteri Ekrexis!
As luzes que desciam sobre Zagan convergiram para um único ponto e então explodiram. Logo depois, uma luz intensa disparou para o alto, como se fosse perfurar os céus.
A feitiçaria celestial que Nephy usara havia apagado tudo solenemente, todavia a de Orias provocou uma explosão violenta.
— Hmm... Então esta é a forma completa da feitiçaria celestial que você tentou usar da última vez, hein? Que ótima oportunidade. Estude-a à vontade, Nephteros! — murmurou Zagan com grande interesse, observando a luz vívida. Sua voz havia assumido um tom casual enquanto a luz se dissipava, sem deixar sequer um arranhão ou uma mancha de fuligem neles...
— Esta é... A feitiçaria que interessou o Mestre Bifrons? — Nephteros engoliu em seco, audivelmente, ao contemplar a cena. Uma versão simplificada desse poder estava implantada no item que Nephteros carregava. Como ela mesma dissera, possuía poder suficiente para matar até um Arquidemônio.
— Absurdo... É um... Dragão? — Orias arregalou os olhos ao dizer isso. Ela viu que um dragão enorme estava protegendo Zagan e os outros. Porém, não se tratava de um dragão de carne e osso, e sim de uma criatura feita de luz entrelaçada com mana.
— Que lindo... Parece o Papai. — disse Foll, com a voz repleta de deslumbramento, enquanto estava nas costas de Kimaris.
— Escala Celestial... Forma de Dragão... Considere-o apenas como um golem formado pela Escala Celestial. — disse Zagan, sem parar de acariciar a cabeça de Foll.
A mana que compunha o corpo do dragão era atraída pela Escala Celestial, o que significava que nem o misticismo celestial era suficiente para romper aquela armadura. Mas, ainda mais impressionante do que sua resistência era o fato de que absorvia tanto mana quanto aura, utilizando-os para se fortalecer. Isto implicava que quaisquer ataques que dependessem de uma dessas fontes seriam enfraquecidos. Fossem feitiçarias ou Espadas Sagradas, seria impossível extrair sequer metade de seu poder original enquanto a defesa estivesse ativa.
— Seria essa... Uma fórmula mágica de dragão? — perguntou Barbatos, soltando um gemido.
— É sim. A Foll que me ensinou. — respondeu Zagan. Zagan não mantinha Foll ao seu lado apenas por ser fofa. Embora ainda fosse uma criança, havia muito conhecimento a ser adquirido com uma das poucas dragões vivas. Era por essa razão que Foll era a amada filha de Zagan, sua colega no estudo da feitiçaria e também sua professora.
— Afinal, a Escala Celestial era, originalmente, uma feitiçaria baseada na escama de um dragão. Esta forma é apenas uma evolução natural. — afirmou enquanto acariciava o pescoço do golem em forma de dragão. Ele não se contentava apenas em criar uma feitiçaria que fosse apenas sólida. Usando essa forma como base, desenvolveu a Escala Celestial para reforçar sua teoria. Olhando para o dragão, que resistia de forma magnífica ao Asteri Ekrexis, Zagan assentiu com satisfação.
O misticismo celestial é de fato poderoso, contudo isso não significa que supere a feitiçaria por completo... No fim das contas, trata-se apenas de estruturas diferentes. Se empregado de maneira adequada por indivíduos habilidosos, qualquer um dos dois pode se tornar o mais forte. Zagan não era capaz de utilizar o misticismo celestial, no entanto conseguiu criar uma feitiçaria capaz de resistir a ele.
— Bem, talvez não se compare ao verdadeiro Dragão Sábio Orobas, entretanto existem dragões que assumem esta forma também. — afirmou Zagan. Não sabia como aquilo soava para Foll... Que, de fato, conhecia o verdadeiro Orobas... Todavia, na mente de Zagan, aquela era a forma de um dragão poderoso.
— Papai, que incrível... — os olhos cor de âmbar de Foll brilharam e, por algum motivo, ela respirou fundo ao exclamar sua surpresa. Parecia que Foll considerava aquele o momento apropriado para chamar Zagan dessa forma.
— Hmm! — Zagan sentiu como se fosse cair de joelhos, agarrando o peito com força para resistir ao impacto daquela cena. Em seguida, retribuiu o sorriso e voltou sua atenção para Orias.
— Vou dizer mais uma vez... Quero destruir este lugar. Poderia sair da frente?
— Entendo. Pelo visto, nem eu consigo oferecer muita resistência, não é? — o rosto de Orias se contorceu em descontentamento ao constatar esse fato. Afinal, o simples ato de espantar faíscas que caem ao redor não pode ser considerado uma luta. Por esse motivo, Zagan não tinha a menor intenção de lutar. Como ele mesmo declarou, seu objetivo era destruir a mansão do ancião, estava apenas esperando que Orias saísse do caminho. Se fosse uma luta de verdade, Zagan não pouparia seus ataques até que a vida de seu oponente se esvaísse.
Bem, acho que já esperei o suficiente, não é? Com um estalar de dedos, Zagan apontou para a mansão. Em resposta, a cabeça do dragão voltou-se para o local.
— Sou do tipo que sempre cumpre o que promete. Não darei um terceiro aviso! — proclamou Zagan. E, na sequência, proferiu uma única palavra, como se estivesse proferindo uma sentença. — Fogo!
— Argh... — Orias arregalou os olhos e saltou do telhado no momento em que o dragão disparou seu sopro contra a mansão. Logo em seguida, a construção foi atravessada pela luz e desintegrou-se. Como estava protegendo o local, é provável que Orias tivesse erguido defesas ao redor, mas o sopro de luz varreu tudo com facilidade. Ao mesmo tempo, o corpo do golem-dragão dispersou-se e desapareceu.
Escala Celestial era uma feitiçaria que aumentava sua própria força ao absorver o poder ao seu redor. Manifestada na forma de um grande dragão, consumia toda a mana e a aura das redondezas, incluindo o misticismo celestial, para expandir seu poder e transformá-lo em um ataque de sopro.
Pouco tempo depois, quando a luz por fim se dissipou, restou apenas um solo vitrificado, estendendo-se onde antes ficava a mansão.
Hmm. Que revigorante... Era a casa do elfo que feriu Nephy. Sinceramente, até cogitei ressuscitá-los como mortos-vivos para torturá-los um pouco mais, só que a Nephy não gostaria de tal coisa. Por isso, decidi me contentar apenas em aniquilar qualquer vestígio da existência deles.
— Hmm... Bem, suponho que seja só isso que ele consegue fazer.
— Só isso, você diz? Quer dizer que, mesmo com todo esse poder destrutivo, ainda falta algo? — murmurou Nephteros, trêmula.
Zagan apontou para a direção em que o sopro fora disparado. Ao longe, sob a luz do luar, via-se um trecho de solo vitrificado que terminava abruptamente. Além deste ponto, estendia-se a mesma floresta serena de antes.
— O limite da barreira deve ficar por ali. O golem-dragão não consegue destruí-la. Não tenho nada a reclamar da sua capacidade defensiva, contudo é fato que ainda falta poder destrutivo.
— Que aterrorizante... — murmurou Nephteros, enquanto um fio de suor escorria por sua bochecha.
Zagan olhou para Orias, que havia conseguido escapar do sopro. Era improvável que tivesse saído ilesa a uma distância tão curta, no entanto, mesmo assim, Orias se recusava a tirar o capuz.
— Desculpe pela confusão. Já estamos de saída, então por que não desfaz a barreira? — perguntou Zagan.
— Acho que já deixei claro que não posso permitir que vocês saiam daqui. — declarou Orias, em tom solene.
— Bem, pode insistir no que quiser, entretanto tem certeza? — Zagan perguntou, como se estivesse lhe oferecendo misericórdia, o que deixou Orias encarando-o, perplexa.
— O quê?
— Com ou sem a barreira, nós vamos sair daqui. Tem certeza de que quer continuar se opondo a nós? — indagou Zagan. Até aquele momento, havia mantido apenas um escudo erguido, ou seja, nem sequer tinha começado a atacar. Era impossível que a outra Arquidemônio não tivesse percebido.
— Não me faça repetir. — disse Orias, engolindo em seco, mas mantendo-se firme no lugar. Em seguida, colocou as mãos no chão e começou a murmurar.
Misticismo celestial, de novo...? Não, não parece ser o caso... O sigilo na mão direita de Zagan começou a esquentar. Parecia que estava usando o Sigilo do Arquidemônio para realizar algo.
Posso selá-lo antes que aconteça, porém... Zagan tinha a opção de usar a ressonância para anular o poder do sigilo. Todavia, também queria aproveitar a oportunidade para ver outro Arquidemônio lutando a sério. Por esse motivo, cruzou os braços e decidiu esperar até que Orias terminasse o que estava fazendo. Ao ver aquilo, Barbatos gritou, em choque.
— Ah, qual é? Estamos em apuros aqui, Zagan! Acaba logo com essa desgraçada!
Ignorando-o, Zagan continuou esperando, o que acabou levando-o a perceber que reconhecia o círculo mágico que se expandia sob os pés de Orias.
— Entendo... O círculo mágico para invocar demônios, hein?
Barbatos havia utilizado todo o saguão de entrada de um castelo para criar um círculo mágico, levando meses para concluí-lo. Por sua vez, Orias conseguiu fazê-lo no espaço entre suas mãos, sem qualquer preparação prévia.
Na primeira vez em que ficou frente a frente com um demônio real, a única opção de Zagan fora usar o Selo do Arquidemônio para bani-lo de volta. Se tivesse tentado enfrentá-lo naquela ocasião, teria perecido. E agora, uma vez mais, um demônio surgia diante de Zagan. Um miasma emanou do círculo mágico, fazendo com que a expressão de todos os outros feiticeiros presentes mudasse para expressões tomadas de horror.
— Também vou entrar na briga, Senhor Zagan! — exclamou Kimaris, soltando um uivo enquanto a própria atmosfera se distorcia.
— Tsc, não me leve a mal por isso, mestra!
— Eu vou ajudar.
Gremory liberou seu “olhar maligno”, enquanto Foll respondeu com seu sopro de dragão. Os três desencadearam poderes inerentes às suas respectivas raças, entrelaçando-os com feitiçaria para compor um ataque. Cada um deles possuía um poder destrutivo diante do qual o raio de calor de Barbatos pareceria mera brincadeira de criança. Contudo, os três empalideceram. Antes de alcançarem Orias, todos os ataques desapareceram, como se tivessem sido bloqueados por uma barreira invisível.
— O miasma... Se tornou um baluarte?
Nem os três juntos conseguiram atravessar a espessa parede de miasma.
— Então, se for misticismo celestial... — Nephteros estendeu as mãos para ajudar. E, enquanto entoava um feitiço em língua Celestian, várias estacas de cristal surgiram do solo. Elas com certeza perfurariam a parede de miasma, no entanto...
— P-Pararam?
Pouco antes de alcançarem Orias, as estacas de cristal pararam. O suor escorria pela testa de Nephteros, e uma sensação de pânico e impotência tomou conta de seu rosto.
— Não adianta... Ugh... O controle sobre o meu misticismo... Está sendo arrancado de mim... Agh! — Nephteros se esforçava para resistir, entretanto os cristais não se moviam um milímetro sequer. No instante seguinte, os cristais mudaram de direção e caíram como uma chuva sobre o grupo de Zagan.
— Brilhe.... Espada Sagrada Azrael! — Chastille avançou para a frente e manifestou a Luz da Purificação a partir de sua Espada Sagrada. Foi a primeira vez que Zagan a viu utilizando seu poder máximo, equipada tanto com sua Armadura Ungida quanto com sua Espada Sagrada.
— HYAAA! — Chastille rugiu, desferindo mais de dez golpes que despedaçaram as estacas de cristal.
Hm... Então, quando ela está totalmente equipada, consegue até destruir o misticismo celestial, é? Zagan admirou a sua força, todavia a expressão de Chastille permanecia séria.
— Ugh, a parede já está se recompondo... — reclamou Chastille.
Observando com mais atenção, ficou claro que as aberturas feitas por Nephteros na parede de miasma estavam se fechando para proteger Orias. Do jeito que as coisas estavam, ainda que Chastille abrisse um caminho, jamais conseguiria alcançar a Arquidemônio.
— Hm... Pelo visto, não há nada a ser feito então. — disse Zagan, em um tom de rendição. Uma Arquidemônio estava bem à sua frente, tecendo um círculo mágico com total desfaçatez, algo bem condizente com alguém de seu nível. Afinal, alguém com tanto poder jamais se deixaria ficar exposto.
— Você não consegue romper essa coisa, Zagan? — Chastille retribuiu o olhar com severidade, descrente das palavras que acabara de ouvir.
— Não, é inútil. Aquilo não é feitiçaria, nesse caso não consigo devorá-lo. Além do mais, o golem-dragão é uma forma de feitiçaria defensiva, só manifesta esse poder destrutivo depois de ser atacado.
O golem-dragão era, na prática, uma espécie de barreira. Não era capaz de lançar um ataque por conta própria.
— E quanto ao Fósforo Celestial?
— Já se esqueceu que ela acabou de se defender dele? Acha mesmo que um Arquidemônio seria tolo a ponto de ser atingido por uma feitiçaria que já evitou antes?
Em suma, Zagan não tinha como impedir que Orias invocasse um demônio. Bem, afinal, é preciso mantê-la viva. Se fosse aceitável matá-la, eu teria outras opções, mas...
— Bom, é uma boa oportunidade. Vou pedir que me mostre o poder de um demônio. — disse Zagan, dando de ombros.
— P-Por favor, pare com as brincadeiras. Será que esqueceu? Aquela coisa não é um ser que mãos humanas possam enfrentar. Até mesmo o Dragão Sábio Orobas precisou sacrificar a própria vida para derrotar um!
Ao ouvir o nome de Orobas, Foll estremeceu.
— É verdade. É um inimigo que nem um dragão lendário conseguiu superar. Se pudermos escapar sem precisar lutar, então é isto que devemos fazer. — disse Zagan, acenando com a cabeça para Chastille.
— Então...
— Porém, quando um deles finalmente aparecer diante do seus olhos, o que pretende fazer?
— Ugh...
Um demônio já havia aparecido neste mundo. Orobas e Rafael lutaram contra ele e perderam algo valioso demais no processo. Dadas as forças deles, se os demônios surgissem em grupo, o mundo certamente estaria em perigo, e aquela garota teria de enfrentá-los de frente.
— É por essa razão que... Acho que esta é uma chance de aprendermos sobre os demônios. Você não é uma feiticeira, contudo ainda assim não deveria desperdiçar uma oportunidade de pesquisa como esta. — disse Zagan, pousando a mão na cabeça de Chastille com um baque surdo. Em seguida, encarou Orias e observou uma mana sombria, acompanhada por algo grotesco, emergir do círculo mágico. Chastille tentou avançar com sua Espada Sagrada a postos, no entanto suas mãos tremiam. Os outros feiticeiros reagiam da mesma forma. Até Nephteros estava incapaz de falar.
Pouco depois, uma figura estranha surgiu. Tinha um corpo frágil e fino como papel e, embora possuísse cabeça, parecia não ter rosto. Seus membros assumiam a forma de uma espécie de cata-vento retorcido, diferente de qualquer criatura viva. E, acima de tudo, era enorme. Orias estava montado em seu ombro, a uma altura suficiente para olhar de cima a linha das árvores da região.
— Ei... Comparado àquele da última vez, este é... — Barbatos ofegou e abriu a boca para falar.
— É, tem razão! — disse Zagan, assentindo.
Este é muito mais poderoso do que o demônio que o círculo mágico de Barbatos invocou... Talvez fosse devido ao poder do Selo do Arquidemônio, entretanto tudo o que qualquer um conseguia fazer diante daquilo era empalidecer e ficar de boca aberta, em choque.
— Não pense que pode deter isso com o Selo do Arquidemônio. Se não conseguir derrotá-lo, seu futuro estará perdido. — afirmou Orias, soltando uma risada.
Ela também possuía um selo, portanto ainda que Zagan de alguma forma a fizesse perder o controle do demônio, poderia apenas retomá-lo. Todavia, aquilo não significava que ele deixaria de lutar.
— Já que é um demônio, acho que não tem problema matá-lo... — disse Zagan, ansioso por uma luta.
O demônio começou a se mover. E, bem quando Zagan pensou que a criatura estava prestes a desferir um golpe com o membro que servia de braço, inúmeras estacas projetaram-se de seu corpo.
— Q-Que diabos é isso? — gritou Barbatos ao ver um ataque tão imprevisível vindo daquele corpo de forma vagamente humana. Mas, naquele momento, Zagan já havia erguido a mão esquerda.
— Escala Celestial... Forma de Dragão.
Ele conjurou o dragão de luz num instante, e o corpo da criatura ergueu-se para proteger o grupo de Zagan. As estacas do demônio foram barradas pelas escamas de luz, e nenhuma conseguiu sequer chegar perto de Zagan.
Por enquanto, parece que até o ataque de um demônio pode ser neutralizado... Foi uma descoberta agradável, pois significava que até os demônios utilizavam a mesma fonte de poder que os humanos.
— Com esse poder, ainda que consiga deter um demônio, jamais conseguirá derrotá-lo! — rugiu Orias para seu oponente. Parecia quase como se estivesse desafiando-o a provar que era capaz de vencê-lo.
— Nem precisa se dar ao trabalho de me dizer. — respondeu Zagan enquanto erguia a mão direita. Ele não fechou o punho, em vez disso, manteve os dedos estendidos, como se estivesse arranhando o ar. A mana convergiu para as pontas de seus dedos e teceu um círculo mágico. Ao verem aquilo, as expressões de Gremory e Kimaris se enrijeceram.
— Droga... Todo mundo, recuem!
— Senhorita Foll, senhorita Nephy, por favor, segurem-se firme na minha crina!
Gremory agarrou Nephteros por trás e saltou para se distanciar, carregando-a, enquanto Kimaris colocou Nephy e Foll sob seus braços, afastando-se de Zagan.
— Ei, chorona, a situação está feia. Sai daí!
— Não me chame de chorona! — gritou Chastille. Embora sem dúvida também tinha sentido o perigo, já que saltou para trás com sua Espada Sagrada a postos.
Após confirmar que todos haviam escapado de seu alcance efetivo, Zagan desferiu um golpe com a mão direita.
— Fósforo Celestial... Grande Flor Quíntupla.
Cinco filamentos negros partiram dos dedos de Zagan. Assemelhavam-se tanto a lâminas afiadas quanto a um cacho de amarílis. As cinco lâminas dispararam em todas as direções, cortando as estacas do demônio e perfurando seu corpo.
— W-W-Whoa! — gaguejou Orias.
Em seguida, uma flor negra desabrochou. A parte superior do corpo do demônio, perfurada pelas cinco lâminas, despedaçou-se. A entidade diante da qual Zagan outrora só conseguia recuar aterrorizado, foi aniquilada por um único golpe.
— Absurdo... O que você fez? — murmurou Orias, caindo no chão.
— Não é nada impressionante, na verdade. Só perfurei cinco “Fósforos Celestiais” no seu corpo de uma vez.
Diferente do fogo que se espalhava indiscriminadamente, a forma de lâmina era concentrada, conferindo ao Fósforo Celestial uma área de efeito específica. E ele a utilizou cinco vezes. Não era algo tão simples quanto fazia parecer.
Quando enfrentei o Lorde Demônio de Lodo, só consegui atingir sua superfície externa, porém isto é diferente... Naquela época, se tivesse conseguido alcançar o núcleo, não teriam passado por uma situação tão difícil. Para compensar essa fraqueza, continuou aprimorando o feitiço, chegando, por fim, à Grande Flor Quíntupla.
Gremory e Kimaris presenciaram o teste dessa técnica. E, por causa disso, sabiam que ser pego naquilo significaria a morte. Afinal, como se tratava de um feitiço que queimava o alvo de dentro para fora, qualquer coisa atingida por tal poder acabaria explodindo. A forma como acontecia lembrava uma flor desabrochando... Daí o nome “Grande Flor Quíntupla”.
— Oops, parece que houve poder demais e acabou quebrando a barreira...
Os resquícios do ataque que eliminou o demônio acabaram derrubando também a barreira da vila. Orias desabou no chão, com os ombros caídos. Como era de se esperar, não tinha mais nenhum trunfo na manga. Tudo o que conseguiu fazer foi morder os lábios, incapaz até de falar. Em outras palavras, nem uma poderosa Arquidemônio era capaz de rivalizar com Zagan.
— Apenas me mate. Você venceu... E eu perdi.
— De fato. Esse seria o desfecho apropriado, contudo tenho um assunto pendente com você.
— Um assunto... O que quer dizer?
— Bem, não é nada demais, no entanto... — Zagan retirou o capuz de Orias e continuou. — Você não é o Orias de verdade, é, Titânia?
O rosto sob o capuz era o de uma mulher idosa, todavia guardava uma semelhança inconfundível com Nephy.
***
— Ela é... A Titânia? Espere, ela não tinha sido morta pelo Orias?
Com o fim da batalha, Barbatos e os outros retornaram para perto de Zagan, sem conseguir acreditar no que ouviram.
— Você não foi derrotada por Orias. Acabou vencendo-o e tomou o Selo do Arquidemônio dele, não foi?
É claro que os Arquidemônios que conheciam pessoalmente o verdadeiro Orias teriam percebido essa troca, mas a maioria dos feiticeiros tinha pouco interesse nos assuntos alheios. Os outros Arquidemônios, como esperado, não deram a mínima para o fato de um deles ter sido derrotado por um feiticeiro de nível inferior.
— Então, por que não criou um país para os elfos, ou algo do tipo? Não foi essa a razão pela qual comprou briga com um Arquidemônio? — Barbatos expressou suas dúvidas.
— O mais provável... É que tenha perdido a chance de fazê-lo. Ou melhor, talvez seja mais correto dizer que o propósito de criar tal lugar deixou de existir, não é?
Titânia pode até ter derrotado Orias, porém isso lhe custou tudo o que tinha. Seus companheiros, sua razão de viver... Tudo. Esse era o preço de se tornar inimiga de um Arquidemônio.
É provável que tenha acolhido Gremory como discípula porque ambas pertenciam a uma raça em extinção... Os fomorianos eram quase tão raros quanto os elfos. Se alguém buscasse por todo o continente, não encontraria nem uma centena deles. Zagan supôs que, talvez, a solidão tenha despertado em Orias um certo sentimento de empatia.
— Tudo o que direi agora é apenas uma suposição minha, contudo é provável que você tenha nascido nesta vila. Não sei como era tratada aqui, no entanto, após lutar contra Orias, concluiu que, ainda assim, era melhor ficar nesta vila do que no mundo lá fora. Foi por esse motivo que decidiu confiar Nephy a eles. Estou enganado?
— ... — Orias não respondeu, embora seu silêncio deixou a resposta evidente.
— No entanto, nesse caso, por que transformou a Nephy em uma criança? E por que nos selou aqui dentro? — perguntou Chastille, inclinando a cabeça para o lado.
— Ainda não entendeu? — Zagan fez uma expressão de exasperação ao responder.
— Ah, vamos! Não seja tão malvado! — reclamou Chastille. Parecia que seu lado chorão havia retornado agora que o conflito entre eles tinha sido resolvido.
— Nephy é filha desta mulher... — declarou Zagan.
Essa afirmação fez com que Orias soltasse um suspiro de resignação.
— Meu Deus. É a primeira vez que sinto que blefar é inútil. — disse Orias, olhando para Nephy. Em seguida, continuou. — Pequena, você gosta da sua vida com essas pessoas aqui?
— Sim. O Mestre Zagan, a irmãzona Foll e todos os outros são muito gentis comigo.
Certamente, era uma conversa difícil de acompanhar para Nephy, dado o seu estado atual, já que não tinha como saber qual era a sua relação com a senhora idosa à sua frente.
Na verdade, talvez tenha assumido a forma de uma idosa justamente para ocultar esse fato... O retrato no pingente mostrava uma mulher jovem e, como mentora de Gremory, era bastante provável que possuísse a habilidade de manipular sua própria idade conforme desejasse.
— Entendo, isto é bom. Sabe, esta vovozinha aqui achou que seria maravilhoso se momentos tão divertidos pudessem durar para sempre. — respondeu Orias, acenando com a cabeça.
— Isso... Me deixa muito feliz, só que não pode ser assim. O Mestre Zagan tem muito trabalho. Além do mais, quero crescer logo para poder ajudá-lo... — disse Nephy, com uma expressão preocupada no rosto.
— Eu tinha certeza de que seria assim, entretanto quis te proporcionar esses momentos divertidos, independente de qual fosse sua opinião. — afirmou Orias, chamando Nephy para perto. Em seguida, disse. — Venha cá. Já está na hora de ir para casa, não é? Vou remover a maldição da princesa.
No momento em que Orias tocou sua testa, Nephy desabou suavemente no local. Logo depois, Orias colocou uma túnica sobre os ombros dela.
— Ela voltará à sua forma original em cerca de trinta minutos. — declarou Orias, encarando Zagan. Então, acrescentou. — É como você diz. Eu derrotei Orias, mas perdi tudo no processo. Embora tenha deixado esta vila com o desejo de criar um paraíso para os oprimidos, todos acabaram morrendo por minha causa.
Ninguém no mundo seria capaz de compreender o desespero que ela sentiu naquele momento.
— “Orias” foi um nome conveniente que me permitiu romper meus laços com os elfos. Depois disso... Bem, pode imaginar o que quiser. — disse Orias, erguendo o Selo do Arquidemônio em sua mão direita. Em seguida, soltando um suspiro cansado, perguntou. — Então, você manteve esta velha decrépita viva apenas para ouvir esse tipo de bobagem?
— De jeito nenhum. Bem, ouvir suas histórias antigas também não é de todo ruim...
Sim. A verdadeira questão ainda estava por vir. Zagan parou diante de Orias. Ao levantar sua mão direita, capaz de abater até mesmo um demônio, Chastille e os outros empalideceram.
— E-Espere, Zagan! Essa pessoa não é, hmm... A mãe da Nephy? Matá-la significaria... — começou Chastille, lamentando-se, porém Zagan não lhe deu atenção e desceu o braço.
— Urk... — o corpo de Orias enrijeceu, contudo, no instante seguinte, seu rosto estampou total perplexidade. Zagan levou a mão ao peito e ajoelhou-se diante de Orias.
— Titânia. Estou apaixonado pela sua filha. Por favor, entregue a Nephy a mim.
— Hã, hmm, hein...? — a boca de Orias... Não, de Titânia, abriu-se de repente. Ela emitiu um som de perplexidade, algo pouco condizente com um Arquidemônio, embora, por fim, murmurou, como se não conseguisse acreditar. Esse era o verdadeiro motivo pelo qual Zagan não lutou contra ela. No fim das contas, a única coisa que Zagan atacou foi o demônio, não causou um único ferimento na própria Orias.
A única pessoa com permissão para tirar a vida de alguém que compartilha o sangue de Nephy é a própria Nephy... Bem, matar os próprios parentes já seria um problema por si só, no entanto, infelizmente, Zagan não possuía uma sensibilidade moral tão rígida.
A questão principal era se Zagan teria poder suficiente para forçar uma Arquidemônio a ceder sem precisar lutar... Entretanto, no fim, isso não se mostrou tão difícil assim.
— Entregar minha filha, você diz...? Quer dizer que pretende tomar Nephy como sua esposa...? — perguntou Orias, em tom de dúvida.
— Correto!
— Será que... Isto é algo para o qual você precisa da minha permissão?
— Você está viva e deseja a felicidade da Nephy. Preciso de mais algum motivo? — indagou Zagan. Não compreendia muito bem a dinâmica das relações entre pais e filhos. Todavia, se Foll encontrasse um pretendente um dia, Zagan jamais permitiria o relacionamento a menos que ele mesmo aprovasse a pessoa. Sendo assim, considerou que deveria prestar o devido respeito à mãe de Nephy.
— Aquela criança... Já lhe pertence, não é? Ainda assim, permita-me dizer uma coisa... — falou Orias, soltando uma risada. Em seguida, inclinou a cabeça.
— Por favor, cuide bem da minha filha.
E, com isso, encerrou-se a visita de Nephy ao seu antigo lar.
***
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