Volume 02: Yugao — Capítulo 12: O quê, preocupada? Não estou nem um pouco preocupada com você!
(O que houve com o Akagi...)
No primeiro dia das
provas de meio de semestre.
Honoka não conseguia
parar de pensar em Koremitsu Akagi, que estava sentado ao seu lado.
Durante os testes, ele
suspirava e gemia sem aviso prévio, chegando até a coçar os cabelos ruivos de
vez em quando.
A princípio, Honoka
pensou que estivesse irritado por não conseguir pensar nas respostas, mas
depois de observá-lo mais algumas vezes, percebeu que, durante as provas, suas
costas estavam arqueadas, seu olhar era tão feroz quanto o de uma fera
selvagem, havia veias saltando em sua testa e rabiscava respostas nos papéis.
Porém, mesmo naquele
momento, seguia suspirando e coçando a cabeça.
Assim que chegou a hora
do intervalo, ele pegou o celular e começou a digitar, apagando, digitando de
novo e apagando mais uma vez. Depois de enviar a mensagem, verificava se havia
alguma resposta. Em vários momentos, gemia, fazia caretas, erguia as
sobrancelhas ou ofegava furiosamente.
Ao que parecia, não
estava preocupado com os exames.
(Será que discutiu com
a pessoa para quem estava enviando as mensagens...?)
Desde o final do mês
passado, Koremitsu vinha usando seu celular durante os intervalos das aulas.
Todos tinham pavor de
Koremitsu, pensando que era um delinquente selvagem. Pelo que Honoka sabia, ele
não tinha nenhum amigo próximo na escola. Durante os intervalos das aulas, era
comum vê-lo arquear as costas e revisar a matéria para a próxima aula.
Contudo, em certo dia, ficou
digitando em seu celular com os dedos rígidos, o rosto tenso e o corpo todo
suado.
Depois de enviar alguns
e-mails, continuou franzindo a testa e resmungando, talvez porque a outra
pessoa não respondia. Assim que recebeu uma resposta, ficou olhando fixamente
para o celular, sem expressão.
No dia seguinte, digitava
mensagens com muita atenção, como uma criança que acabara de comprar um
celular.
Dessa vez, pareceu ter
recebido uma resposta imediata e começou a encarar o celular sem expressão.
Seus comportamentos eram
excêntricos, se remexia inquieto, desviava o olhar para uma direção onde não
havia ninguém sem aviso prévio, fazia beicinho enquanto corava, batia no
próprio rosto com uma das mãos ou ficava olhando para o nada, parecendo estar
em profunda reflexão.
(Está enviando mensagens
para uma garota?)
Está namorando alguém de
fora da escola?
Ela entrou em pânico logo
ao considerar a ideia.
(Não, por que estou
tão chocada?)
Essa reação inexplicável
a deixou ainda mais perturbada, e seu coração disparou. Ao chegar em casa,
continuou abraçada ao seu bichinho de pelúcia enquanto girava na cadeira
giratória.
Honoka também estava
frustrada por ter ignorado Koremitsu Akagi nos últimos dias.
Na verdade, sabia que,
embora Koremitsu tivesse a aparência de um delinquente, era um jovem íntegro por
dentro.
— Eu vou te proteger.
Essa frase, dita por
Koremitsu com uma expressão séria, fez o coração de Honoka palpitar.
A garota que ele gostava
era Aoi.
Continuou perseguindo Aoi
sem desistir.
Honoka sabia bem, contudo
não conseguia desviar o olhar de Koremitsu.
Ela percebeu isso sobre
si mesma depois que descobriu que ele havia sido rejeitado por Aoi.
No fim, apenas não queria
admitir. Aquele sujeito de aparência cruel, sem nenhuma etiqueta verbal, que
não sabia que restaurantes da moda escolher para um encontro, era muito
diferente das suas preferências.
No entanto, não conseguia
deixar de se preocupar com Koremitsu. Pensava no garoto o tempo todo, portanto
mantinha-se ocupada sempre que estava sentada, desviando o olhar para o lado
oposto ou mexendo no celular.
O motivo pelo qual não
respondeu aos cumprimentos de Koremitsu e lhe disse coisas tão maldosas foi
porque não queria admitir que sua mente ficava em branco sempre que o
encontrava, e que não conseguia dizer nada.
Honoka não queria mostrar
a Koremitsu os sentimentos dos quais até ela mesma estava confusa, e se manteve
inflexível quanto a isso.
Então, se esforçou ao
máximo para demonstrar uma atitude distante, entretanto seu temperamento se
exaltou involuntariamente quando pareceu que Koremitsu havia arranjado uma nova
namorada, que se mostrou hesitante ao trocar mensagens.
Não, é impossível para
ele arranjar uma namorada. Provavelmente é só uma alucinação sua, só pode ser.
Falando nisso, não foi
muito leviano da sua parte correr atrás de outra garota tão pouco tempo depois
de levar um fora da Aoi? Ele é o pior, podre até a medula. Tomara que a Akagi
leve um fora logo.
Honoka às vezes tinha
esses pensamentos.
Todavia...
Percebeu a frustração de
Koremitsu ao vê-lo sentado ao seu lado, e sua preocupação logo superou todas as
outras emoções.
(O Akagi parece muito
cansado...)
Talvez não estivesse se
dando bem com a garota, afinal, e estivesse frustrado a ponto de não conseguir
dormir bem à noite?
(O que exatamente
aconteceu? Devo perguntar a ele primeiro? Mas eu disse tantas coisas ruins
sobre o Akagi antes. A impressão que tem de mim deve ter piorado. Além do mais,
não somos amigos...)
Talvez devesse ter sido
honesta da última vez que Koremitsu a agradeceu, se soubesse... Se fosse esse o
caso, talvez poderia ter perguntado sem parecer estranha.
(Por que estou sendo
tão infantil? Até disse para ele não falar comigo...)
Haverá uma prova de
História Mundial no próximo período, que depende muito da memorização. Seria
melhor memorizar alguns números de anos.
Koremitsu cobriu o
celular, deixou os ombros caírem e suspirou...
Nesse instante, seu olhar
se voltou incidentalmente para Honoka.
(!)
Seus cabelos ruivos
repousavam sobre a testa, e seus olhos pareciam fracos. Era quase como um cão
selvagem prestes a desmaiar a qualquer momento.
No instante em que seus
olhos encontraram os de Honoka, sua expressão pareceu repleta de entusiasmo por
algum motivo, ele ergueu a cabeça para encará-la.
(O-O que foi... Tem
alguma coisa no meu rosto?)
O rosto de Honoka esquentou
e ela corou.
Koremitsu parecia estar
refletindo sobre algo enquanto continuava a encarar Honoka.
— Posso...
O que está olhando?
Justo quando ela estava prestes a soltar essa frase maldosa, Koremitsu ofegou e
disse.
— Posso recorrer a você
para conseguir ajuda.
— Hã?
Koremitsu franziu a testa
com um olhar suplicante e disse para Honoka, cujo coração batia forte por
dentro.
— Shikibu, se importaria
de ir comigo até o telhado depois que as provas terminarem?
***
— Por favor! Seja meu
heliotrópio, minha fragrância púrpura novamente!
Foi uma reconstituição do
passado, com Koremitsu curvando-se enquanto suas mãos permaneciam ao lado do
corpo.
Enquanto o céu nublado
ameaçava desabar em chuva a qualquer momento, o redemoinho no cabelo de
Koremitsu surgiu diante dos olhos de Honoka.
— Preciso me desculpar
por ter te irritado de alguma forma. Devo ter feito algo que te ofendeu, e
sinto muito por tê-la deixado infeliz! Se lhe causei algum mal, assumirei a
responsabilidade!
— B-Bem... Não estou
ferida de forma alguma.
Honoka estava agindo de
forma distante com Koremitsu devido a sentimentos pessoais, então ficou chocada
ao ouvir suas palavras.
Sua atitude era sincera.
— Farei tudo o que você
me pedir no futuro! Não me importo de ser seu servo por meio ano! Pode me
chamar de cão selvagem se quiser!
(Não quero! Se eu te
chamar assim, todo mundo vai ficar olhando para mim!)
— Bem, Akagi.
— Posso deixar você me
chutar até sua raiva passar! Então...
Koremitsu levantou a
cabeça.
Ele olhou para Honoka com
um olhar preocupado e desesperado.
O peito de Honoka apertou
repentinamente.
— Por favor.
Seus olhos se estreitaram
dolorosamente enquanto falava com a voz rouca.
Sua expressão de dor
estava dilacerando o coração de Honoka.
— Por favor, não me
odeie.
— Hein?
Ao ver a expressão de dor
de Koremitsu, a vontade de Honoka vacilou, e ela comentou com indiferença.
— O motivo pelo qual falei
essas coisas para você é porque tenho uma personalidade ruim.
— Por que está falando
assim de si mesma?
Perplexo, Koremitsu
perguntou.
— De qualquer forma, não
estou pedindo para você não falar comigo, então quando houver algum problema,
não fique dando voltas e me diga de uma vez.
— Sério...?
Honoka estava com os
braços cruzados à frente do corpo, exibindo uma atitude altiva e poderosa, porém
continuava a lançar olhares furtivos para Koremitsu.
Koremitsu estava de
cabeça baixa e o rosto corado enquanto desabafava sobre seus problemas.
Ele mencionou uma garota
hikikomori chamada Yu Kanai.
Aquela garota foi retida
durante o ano letivo por falta de frequência e, naquele momento, estava na
mesma série que eles. Sua intenção era aconselhá-la a continuar frequentando a
escola.
Contudo, a garota não
aceitou o pedido de sair do quarto e acabou magoada.
Ainda assim, sentiu que,
pelo bem dela, aquilo não podia continuar, e que precisava tirá-la de casa à
força se necessário.
— Aquele maldito e inútil
do Hikaru ficou apenas olhando! Não quero depender de alguém como ele de novo! Com
certeza vai dizer que sou muito forte, que não entendo o coração de uma garota,
que me tornei assim por causa disso... Pedi desculpas por e-mail, no entanto não
recebi resposta. Já estou no meu limite...
O discurso de Koremitsu
era desconcertante, talvez porque estava bastante perturbado e, de tempos em
tempos, franzia a testa e resmungava.
Mesmo assim, Honoka teve
a sensação de que Koremitsu estava preocupado com Yu Kanai e queria tirá-la de
casa. Sempre que o via estremecer, morder os lábios, baixar a cabeça em um
gesto de impotência, sentia uma dor em seu peito.
Honoka também tinha
ouvido falar de Yu Kanai.
Naquela época, Honoka
estava no terceiro ano do Ensino Fundamental II e Yu no primeiro ano do Ensino
Médio. Portanto, Honoka só sabia que a garota sofria bullying das garotas da
mesma série e não ousava ir à escola. Não sabia de nenhum outro detalhe além de
um misterioso evento que a envolvia.
Além disso, Honoka sabia
que Yu era a namorada de uma certa pessoa famosa na escola.
Honoka nunca tinha
conhecido Yu antes, entretanto sentiu que era uma garota gentil e adorável que
qualquer homem desejaria proteger ao vê-la.
Até mesmo Koremitsu
estava muito preocupado...
— Eu nunca me importei
com o fato de ser isolado e de falarem de mim pelas costas, então sou muito
insensível a essas coisas... Depois de voltar para casa, me acalmei, refleti
sobre tudo e entendi algumas coisas. A Yu é uma garota, mais frágil do que eu,
não tem como ousar ir a algum lugar sem nenhuma amiga. Garotas precisam das
amigas para ir ao banheiro. Elas até almoçam juntas... Garotas sempre comem
juntas...
Koremitsu parecia estar
furioso consigo mesmo enquanto coçava a cabeça com força e murmurava.
— Não posso acompanhá-la
ao banheiro, e se ela me seguir, os outros vão isolá-la ainda mais e dizer
coisas piores a seu respeito. Sou um idiota por não ter pensado nisso... Droga!
Frustrado, ele franziu a
testa e cerrou os punhos.
— Yu precisa de amigas. Precisa
de uma garota corajosa, que não se importe com o que os outros pensam, que
valorize relacionamentos, que saiba ler o ambiente e que a ajude quando estiver
em apuros. Você é a única em quem consigo pensar.
Koremitsu estava olhando
nos olhos de Honoka.
A mesma coisa acontecia
quando Aoi estava envolvida.
Que olhar zeloso.
Honoka ficou ofuscada por
sua expressão ardente, e seu corpo doía por dentro.
Não entendia por que seu
coração estava palpitando e tentou falar em seu tom habitual.
— Está se esforçando
bastante aqui, Akagi. Será que você se apaixonou pela Kanai?
No momento em que essas
palavras saíram, foram acompanhadas pelo arrependimento.
Pois Koremitsu parecia
claramente atônito e, sem cerimônia, demonstrou uma expressão de fraqueza.
— ...
Ele arregalou os olhos,
baixou o olhar, respirou fundo e permaneceu em silêncio com um semblante
abatido.
As palavras de Honoka
revelaram a emoção que o próprio Koremitsu ainda não havia percebido e
trouxeram à tona seus verdadeiros pensamentos.
Koremitsu talvez tenha
pensado que seus sentimentos por Yu eram apenas de simpatia e bravura.
Todavia nesse momento
percebeu que havia outras emoções envolvidas.
E Honoka teve que ser
quem o lembrou disso.
— S-Seu idiota, por que
você não diz nada? Sua expressão está muito engraçada. Está fingindo ser
sentimental, mesmo sendo um delinquente.
Honoka fez o possível
para parecer positiva.
Realmente queria tratar o
que disse antes como uma piada.
— NÃO SOU UM DELINQUENTE!
Koremitsu também retrucou
com voz perplexa.
Ao que parece,
interpretou o comentário de antes como uma piada.
Está tudo bem, por agora
está tudo bem.
Honoka tentou ao máximo
se consolar em seu coração, mas não entendia o que estava bem.
Então, sorriu e falou.
— Tudo bem, posso te
ajudar. Só precisa que eu seja amiga da Yu Kanai, certo? Não me olhe desse
jeito! Já fui escoteira e sou boa em fazer amizade com garotas introvertidas.
Deixa comigo!
Ao ver o brilho no rosto
de Koremitsu, como se estivesse banhado pela luz do sol, Honoka sentiu uma
pontada de tristeza no coração.
***
Em seguida, Honoka e
Koremitsu dirigiram-se ao apartamento onde Yu Kanai estava hospedada.
No caminho, a chuva ficou
mais forte e Honoka abriu seu guarda-chuva vermelho-púrpura.
— Hã? Você não trouxe um
guarda-chuva? A previsão do tempo disse que havia 50% de chance de chover hoje.
— Isso não significa que
não vai chover hoje?
— Claro que não. Quem não
pensaria em trazer um guarda-chuva se soubesse que há 50% de chance de chuva
hoje? Acho que não tem jeito. Vem.
Ela moveu o guarda-chuva
sobre a cabeça de Koremitsu.
— Estou bem aqui.
— Não me sentirei bem
caminhando com um homem todo encharcado.
Ela tentou, à força,
colocar Koremitsu debaixo do guarda-chuva.
Não se sabia se Koremitsu
estava envergonhado ou tentando ser educado, já que apenas moveu o ombro até a
metade do corpo para debaixo do guarda-chuva.
Sempre que Honoka tentava
mover o guarda-chuva para o lado dele, Koremitsu se afastava um pouco.
Ele estava franzindo a
testa, seus lábios estavam tensos e seu rosto estava corado.
Ao vê-lo assim, Honoka de repente sentiu um caloroso e reconfortante sentimento dentro de si.
Na verdade, não queria
conhecer Yu, contudo graças a Yu, ela conseguiu reconciliar-se com Koremitsu.
Portanto, o melhor seria
não pensar muito, concentrar-se em ajudar Koremitsu e fazer o possível para
construir um relacionamento com Yu.
(Essa situação, não
deveria ser o rapaz a segurar o guarda-chuva?)
Honoka murmurou algo para
si mesma e sorriu.
Porque seu coração se
apertou ao ver aquele menino, que estava franzindo a testa e tenso por todo o
corpo, sendo tão fofo.
Ambos compraram lindas
geleias vermelhas e laranjas para dar de presente e chegaram ao apartamento.
Com o semblante sério,
Koremitsu bateu na porta do apartamento.
— Yu, sou eu.
A voz suave e profunda de
Koremitsu tinha uma mistura de cortesia e hesitação, era completamente
impossível imaginar que ele teria tal tom, considerando seu comportamento
habitual.
— Mencionei no e-mail de
ontem que a culpa foi minha e quero me desculpar. Gostaria de lhe apresentar
alguém... Poderia abrir a porta?
Lá dentro havia silêncio.
Honoka e Koremitsu esperavam em silêncio.
— Miau...
Ouviu-se o ronronar de um
gato e o som da porta sendo destrancada.
O coração de Honoka batia
forte.
(Que tipo de pessoa é
Kanai...? Será que é mais bonita que Sua Alteza Aoi?)
De repente, se sentiu
tensa.
A porta abriu-se aos
poucos.
Um gato branco colocou a cabeça
para fora por baixo da porta e olhou para eles com seus claros olhos azuis.
Então, uma garota
completamente envolta em um cobertor azul apareceu na fresta de cinco
centímetros de largura na porta.
Pele surpreendentemente
branca.
Olhos claros.
Lábios com ar solitário.
Finas mechas de cabelo
surgiam debaixo do cobertor.
O que mais chamou a
atenção de Honoka foi a natureza frágil e efêmera daquela garota.
Essas impressões surgiram
em um único olhar de Honoka.
Ao seu lado, Koremitsu
soltou um suspiro de alívio.
— Que bom que está
disposta a abrir a porta, Yu. Esta é minha colega de classe, Shikibu...
Honoka se esforçou ao
máximo para mostrar sua expressão mais alegre, e justo quando estava prestes a
cumprimentar...
— !
Yu empalideceu de repente,
sua expressão congelou, seus olhos se encheram de terror, e o cobertor que a
cobria tremeu como uma onda em meio a uma tempestade.
Essa resposta inesperada
assustou Koremitsu.
— Qual é o problema?
Ele perguntou enquanto
segurava a porta.
Mas Yu não estava olhando
para Koremitsu, e sim para Honoka, que estava atrás dele.
Ela estava olhando para
Honoka... E para o guarda-chuva molhado em suas mãos...
— NÃO!
Seus lábios trêmulos
deixaram escapar essas palavras de rejeição, movidas pelo medo.
Ela segurou a maçaneta da
porta com as duas mãos e bateu a porta com força.
Cluck.
O som da porta sendo trancada ecoou, seguido pelo soluço de Yu.
— Não... Não quero ir
para a escola! Não tenho guarda-chuva, não posso sair! Não posso ir para a
escola! Não tem nada para me cobrir! Vou ser devorada! Eu vou ser devorada!
Honoka nunca tinha ouvido
um clamor tão angustiado e comovente.
Em choque, de repente se
lembrou do motivo pelo qual Yu se recusava a ir à escola.
Talvez... Não, tenho
certeza.
— Yu! O que há com você?
ABRA A PORTA! YU!
Koremitsu continuou
batendo na porta e girando a maçaneta, entrando em pânico a ponto de quase
danificar a porta de novo.
Honoka agarrou a mão de Koremitsu
por trás.
— Akagi, vamos voltar por
hoje.
— O que você está
dizendo? Não é óbvio que a Yu não está bem agora?
Koremitsu disse com um
olhar agitado.
— Provavelmente é... Por
minha causa.
— O quê?
Koremitsu lançou um olhar
cético.
— Explico depois. De
qualquer forma, é melhor você sair daqui primeiro, Kanai vai poder se acalmar
se fizermos isso. Apenas me escute.
Honoka falou com uma
expressão e tom firmes enquanto segurava com força a mão fria e rígida de
Koremitsu.
Parecia que Koremitsu não
estava disposto a aceitar essa situação, contudo de repente ele olhou
diagonalmente para cima, surpreso, e então...
— Yu, vou vir te visitar
outro dia.
Desanimado, ele se
encostou na porta e disse isso.
***
— É melhor você ouvir o
que a Srta. Shikibu diz.
Hikaru disse.
Ele demonstrou uma
expressão de angústia, parecendo estar suportando a dor.
Esse cara não se importou
nem um pouco com a Yu até agora, e agora está fingindo estar preocupado?
Koremitsu estava muito descontente com Hikaru e decidiu não pedir a sua ajuda, todavia
o tom insistente de Honoka e a expressão de Hikaru o fizeram ceder, e assim só
pôde suportar essa angústia enquanto saía do apartamento.
Koremitsu e Honoka
chegaram a um parque próximo.
Os jardins tinham árvores
exuberantes plantadas em seu interior, canteiros de flores e lagos cercados por
tijolos vermelhos, e um palco coberto nas proximidades. Eles foram para o palco
em busca de abrigo, e Honoka começou a falar sobre aquele incidente.
— A Kanai começou a
faltar às aulas desde a época das chuvas do ano passado... Você sabia?
A própria Honoka estava
em choque, mas continuou a encarar Koremitsu com uma expressão preocupada.
— Sim.
— Naquela época, Kanai
sofria bullying das outras meninas, por exemplo, seus pertences eram
escondidos, era menosprezada e algumas pessoas diziam coisas maldosas de
propósito...
— Por que garotas?
Você não entende...
A expressão irônica no rosto de Honoka parecia lamentar isso.
— Certa vez, alguém viu
Kanai dividindo um guarda-chuva com um veterano muito popular do Ensino Médio.
Acho que foi porque esse veterano era um nobre de destaque até mesmo na escola,
enquanto Kanai era apenas uma pessoa comum que conseguiu entrar na escola por
meio de exames no Ensino Fundamental. Todos disseram que Kanai se aproximou desse
veterano por iniciativa própria para se aproveitar.
— Que absurdo! Por que é
preciso usar palavras tão cruéis só porque compartilharam um guarda-chuva num
dia chuvoso? Qual o problema em passar no exame? Qual o problema em nascer numa
família comum?
— Hm, é de fato irracional,
porém... Eu mencionei isso da última vez que conversamos sobre Sua Alteza Aoi.
Nossa escola presta muita atenção à data de matrícula de cada aluno e até os
segrega em classes sociais como esta... Essas pessoas com certeza não
permitiriam que alguém ultrapassasse essa barreira...
— Muitas das pessoas
matriculadas no campus da nossa escola desde o jardim de infância podem ser
classificadas como “nobres”.
Koremitsu se lembrou das
palavras que Honoka disse quando conversou com ele sobre Aoi.
Além disso, quando os
membros do clube de arte confessaram seu ressentimento em relação a Aoi...
— Você está nos
menosprezando porque se acha uma “nobre” que está na escola desde o jardim de
infância?
Todas as questões, como
histórico familiar, eram absurdas.
Essas questões não tinham
nada a ver com personalidades.
No entanto o fato
inegável era que a consciência das classes sociais estava profundamente
enraizada nessa escola.
E Yu quebrou a regra.
Sendo camponesa,
conseguiu se envolver com um homem “nobre” e acabou magoada por isso.
Na verdade, seria de se
perguntar se foi Yu quem tomou a iniciativa, ou se foi o veterano... Considerando
o quão introvertida Yu era, Koremitsu achava que seria impossível para ela
abordar o veterano almejando subir na hierarquia.
Entretanto, as outras garotas
na escola não se importavam com esses detalhes, só se importavam com o fato de
Yu ter compartilhado um guarda-chuva com um homem de hierarquia diferente. As
garotas de posição social mais elevada, naturalmente, não ficariam felizes, e
as garotas da mesma classe social não conseguiam perdoá-la por “ter uma
vantagem inicial”.
— Se eu for para a
escola, todos vão me olhar com desprezo e até falar mal de mim.
—Vou ficar sozinha na
escola.
Yu disse essas palavras
com um arrepio enquanto estava agachado debaixo do cobertor.
Uma garota serena como Yu
deve ter achado insuportável ver tantos olhares de ódio de estranhos e ouvir
tantas palavras maldosas e zombarias.
Koremitsu também sentiu
como se seu peito estivesse queimando.
Estava frustrado por não
ter conseguido ajudar Yu naquela época e cerrou os punhos em desespero.
— Os meninos também
fingiam não notar nada quando as meninas a intimidavam. Era como se não
quisessem ser difamados ou algo assim.
Honoka falou em tom
grave.
Aconteceu alguma coisa
naquela ocasião.
Certa manhã, caiu um
aguaceiro torrencial e o guarda-chuva de Yu desapareceu.
Justo quando Yu estava
parada em frente ao porta guarda-chuvas com o rosto chorando, as garotas que
mais gostavam de implicar com ela riram e disseram muitas coisas cruéis.
— Ah, seu guarda-chuva
sumiu? Ele estava aí de manhã.
— Vá encontrar um cara
que tope dividir um com você.
— Sim. Você é alguém que
sabe como enfeitiçar os homens, de qualquer forma.
— Mas o veterano Tojo não
quer se incomodar com plebeus se aproveitando da sua posição de nobreza.
E todo tipo de besteiras aleatórias.
O rosto de Yu empalideceu
ao ouvi-las, e não conseguiu dizer uma única palavra, apenas chorou, estremeceu
e saiu sozinha do campus da escola.
Muitos alunos a viram
completamente encharcada. Sua expressão era vazia como a de um cadáver
ambulante enquanto continuava caminhando penosamente.
Porém ninguém
compartilhou um guarda-chuva com ela.
No dia seguinte, Yu não compareceu
à escola.
— E então... Outra coisa
importante aconteceu na escola naquele dia.
A voz de Honoka estava
carregada de tensão.
Koremitsu também prendeu
a respiração em antecipação.
As nuvens cobriram o
palco e a vegetação do parque com sombras, e a chuva aumentou de intensidade.
— Alguém... Viu um
espírito vingativo.
(Espírito vingativo?)
Como algo assim poderia
existir neste mundo? Pensou Koremitsu, contudo a alma de Hikaru flutuava ao seu
lado, pairando em silêncio sob a luz dos postes de iluminação pública.
E a expressão de Honoka
era de absoluta seriedade.
— As meninas que zombaram
de Kanai em frente ao porta-guarda-chuvas perderam seus guarda-chuvas, e eles ficaram
pendurados no parapeito da janela da sala de química como fantasmas mortos... Respingados
de água preta.
Koremitsu tentou imaginar
aquela cena.
A sala de aula de química
da escola.
A janela estava coberta
de chuva.
Os guarda-chuvas
pendurados e a água escura que pingava.
Foi realmente assustador.
No entanto...
Koremitsu franziu a
testa.
— Não seria um exagero
dizer que elas encontraram um espírito vingativo?
— Só que não foi tudo.
— Ainda tem mais?
Honoka assentiu com um
olhar sério e pareceu ter dificuldade para falar.
— Além disso, alguém
viu... Kanai correndo na chuva com um guarda-chuva na mão. Estava toda suja, o
cabelo molhado e despenteado, e sua expressão... Não parecia normal. Foi muito
assustador...
— Pensei que a Yu não
tivesse ido à escola naquele dia?
— Certo, por esse motivo
havia um boato de que o espírito de Kanai havia retornado para se vingar.
Koremitsu realmente não
conseguia entender.
O espírito vital de Yu de
repente se manifestou em busca de vingança e sujou os guarda-chuvas daquelas
garotas que a intimidavam?
Como uma coisa dessas poderia
acontecer?
Além disso, será que Yu
teria coragem de se vingar? Se fosse tão determinada, não estaria escondida em
casa o dia todo e já teria começado uma nova vida.
Na verdade, Yu parecia
apavorada com as colegas que a intimidavam, e ele não conseguia detectar nenhum
traço de malícia.
A maneira como ela
exclamou “Serei devorada” parecia mais um medo indelével em relação a esse espírito
vingativo intangível.
(O que está
acontecendo...)
Koremitsu rangeu os
dentes enquanto pensava.
A única coisa da qual
podia ter certeza era que, por causa do bullying em massa, Yu tinha pavor da
chuva e se isolava em casa.
E ninguém se levantou para
protegê-la.
Que expressão Hikaru
teria demonstrado ao ouvir aquilo? Koremitsu certamente ficaria furioso se
visse a expressão de desinteresse de Hikaru, então resistiu à tentação de olhar
naquela direção.
No entanto, a raiva
subiu-lhe pela garganta de forma impetuosa, e seu abdômen latejava.
Sua respiração foi
interrompida enquanto ouvia as palavras de Honoka.
— Kanai fechou a porta
com medo, talvez porque tenha se lembrado daquele incidente.
Chovendo.
Guarda-chuva.
Menina de uniforme.
(Como isso
aconteceu...)
Esses foram os fatores
que despertaram o medo de Yu.
— Akagi...
Honoka viu a expressão
sombria no rosto de Koremitsu enquanto este cerrava os punhos e exclamou
preocupada.
— Encontrarei uma solução
para o problema da Kanai. Não aja por impulso por agora. A Matriarca Asa e o
Chefe do Corpo Docente estão de olho em você.
— Entendi.
Koremitsu suspirou e
rosnou.
— Obrigado por me
acompanhar e desculpe por te envolver nisso. Estou refletindo sobre o assunto e
espero que não te cause nenhum problema.
— Não vejo problema
nenhum! Sua opinião sobre mim está muito baixa agora! Por que não confia mais
em mim?
Honoka lançou um olhar
fulminante para Koremitsu ao dizer aquilo.
Essa foi uma expressão
feroz que Yu definitivamente não teria.
— Obrigado.
Koremitsu curvou-se
diante dela.
— Se houver mais algum
problema, falarei com você de novo.
Honoka continuou
encarando Koremitsu, com uma expressão dividida entre preocupação e dúvida.
A chuva não dava sinais
de parar.
— Desculpe, Shikibu, poderia
voltar primeiro.
— E você?
— Primeiro vou ver como a
Yu está antes de voltar. Não vou fazer nada precipitado.
Honoka manteve uma
expressão séria enquanto permanecia em silêncio e, após um tempo, disse.
— Se eu voltar com você...
Kanai com certeza vai ficar apavorada. Eu... Vou te acompanhar até o
apartamento. Você não tem nenhum guarda-chuva mesmo. Vou te esperar lá.
— Tudo bem. Vou comprar
um na loja de conveniência.
Honoka ergueu as
sobrancelhas enquanto encarava Koremitsu. Então, ela empurrou o cabo do
guarda-chuva molhado e dobrado para a mão dele.
— Use isto.
— E você?
— Vou ligar para casa e
pedir para alguém me buscar. Caso contrário, irei à loja de conveniência
comprar um guarda-chuva ou uma capa de chuva.
— Este é o seu
guarda-chuva. Use-o.
Koremitsu queria devolver
o guarda-chuva para Honoka, mas ela o empurrou de volta com mais força.
— Não, tenho certeza que
não vai comprar um guarda-chuva. Use-o agora, ou vou ir com você! Não vou
apenas segui-lo até o apartamento da Kanai, vou mandá-la até sua casa segurando
o guarda-chuva.
Honoka parecia estar
fazendo um pequeno escândalo.
Será que pareço tão
lamentável assim?
Justo quando Koremitsu
estava em dúvida sobre si mesmo...
Uma mão branca e delicada
repousou suavemente nos braços de Honoka e Koremitsu.
Uma voz clara e
encantadora ecoou na chuva.
— Obrigado. Vamos usá-lo
como um talismã.
Hikaru esboçou um sorriso
gentil que poderia derreter a tristeza no coração de Koremitsu e disse com um
tom de voz gentil.
— Certo, Koremitsu?
Seus cabelos dourados,
brilhantes e transparentes não estavam encharcados enquanto ele permanecia sob
os postes de luz da rua, e esvoaçavam ao lado de suas bochechas brancas e
claras. Ele ergueu os lábios, sorriu gentilmente e disse isso a Koremitsu com
uma expressão madura.
(Por que você precisa se
meter aqui?)
Koremitsu revirou os
olhos para Hikaru.
— Então... Vou usá-lo... Como
um talismã.
Ele disse com cautela.
Não estou seguindo o
conselho de Hikaru. Não é isso...
As mãos e a expressão de
Honoka relaxaram em seguida, e ela mostrou um olhar lacrimejante, porém logo depois
voltou a exibir sua expressão impetuosa de sempre.
— Certo, com certeza vai
funcionar.
Suas bochechas coraram
enquanto falava alegremente, e empurrou o guarda-chuva contra o peito de
Koremitsu.
Era como se estivesse
dizendo “aceite”.
O coração de Koremitsu se
alegrou.
— Obrigado...
Suas palavras soaram
baixinho, de forma envergonhada, e abriu o guarda-chuva vermelho e roxo brilhante.
Com Honoka acenando em
despedida, Koremitsu caminhou na chuva fria em direção ao apartamento de Yu.
As luzes do apartamento
não estavam acesas, pois só conseguia ver escuridão total pela janela.
Com uma sensação de
inquietação, aproximou-se da porta e bateu.
— Yu...
Uma voz rouca soou.
— Você está aí dentro, Yu?
Um leve ruído veio de
dentro da porta. A ansiedade e a tristeza quase fizeram seu coração explodir.
— Desculpe, não deveria
ter trazido a Shikibu sem te avisar. Contudo ela é uma boa pessoa, diferente
daquelas que te intimidavam.
Um som suave veio de trás
da porta.
— Se você prometer ir à
escola, Shikibu com certeza te ajudará.
A chuva torrencial e
incessante abafou a voz de Koremitsu, fragmentando-a em sons ininteligíveis.
O que posso dizer para
dissipar o medo da Yu? O que posso fazer para ajudá-la?
Nesse momento, Hikaru
também estava ao lado de Koremitsu, no entanto este deliberadamente optou por
não olhar em sua direção. De qualquer forma, não queria pedir sua ajuda.
Nesse instante, uma voz
fraca veio de trás da porta.
— Sem um guarda-chuva... Não
posso ir à escola.
A voz parecia vir de
algum lugar próximo. Yu estava atrás da porta. O coração de Koremitsu disparou ao
ouvi-la e aguçou os ouvidos.
— Aquele guarda-chuva
é... Meu talismã... Algo que pode me dar abrigo... Mas o guarda-chuva se foi...
Havia soluços misturados
à voz. Yu estava chorando.
— Eu sempre tive o mesmo
sonho... A superfície do mar ondulando, as ondas ficando altas, um peixe preto
abrindo bem a boca e engolindo o guarda-chuva inteiro. Eu queria agarrar o
guarda-chuva, porém não conseguia... E então, também fui engolida inteira pelo
peixe. Fiquei descoberta porque meu guarda-chuva sumiu... Não consigo
escapar...
O que ele poderia fazer
para parar as lágrimas de Yu?
Será que Yu teria coragem
de abrir a porta de novo?
Hikaru permaneceu em
silêncio.
Um instante antes, ele
estava se intrometendo, contudo agora só ficou em silêncio ao lado de
Koremitsu.
Ela é alguém importante
para você! E está dizendo que não pode fazer nada porque é um fantasma! Você
pode ver e ouvir, entretanto não faz absolutamente nada! Só fica de boca
fechada, franzindo a testa!
Não vou mais depender de
alguém assim!
Koremitsu encostou a
cabeça na porta e exclamou.
— NÃO CHORE, YU! EU... EU
VOU RECUPERAR SEU GUARDA-CHUVA PARA VOCÊ!
Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...
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