segunda-feira, 12 de outubro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 02 — Capítulo 12

Volume 02: Yugao — Capítulo 12: O quê, preocupada? Não estou nem um pouco preocupada com você!

 

(O que houve com o Akagi...)

 

No primeiro dia das provas de meio de semestre.

 

Honoka não conseguia parar de pensar em Koremitsu Akagi, que estava sentado ao seu lado.

 

Durante os testes, ele suspirava e gemia sem aviso prévio, chegando até a coçar os cabelos ruivos de vez em quando.

 

A princípio, Honoka pensou que estivesse irritado por não conseguir pensar nas respostas, mas depois de observá-lo mais algumas vezes, percebeu que, durante as provas, suas costas estavam arqueadas, seu olhar era tão feroz quanto o de uma fera selvagem, havia veias saltando em sua testa e rabiscava respostas nos papéis.

 

Porém, mesmo naquele momento, seguia suspirando e coçando a cabeça.

 

Assim que chegou a hora do intervalo, ele pegou o celular e começou a digitar, apagando, digitando de novo e apagando mais uma vez. Depois de enviar a mensagem, verificava se havia alguma resposta. Em vários momentos, gemia, fazia caretas, erguia as sobrancelhas ou ofegava furiosamente.

 

Ao que parecia, não estava preocupado com os exames.

 

(Será que discutiu com a pessoa para quem estava enviando as mensagens...?)

 

Desde o final do mês passado, Koremitsu vinha usando seu celular durante os intervalos das aulas.

 

Todos tinham pavor de Koremitsu, pensando que era um delinquente selvagem. Pelo que Honoka sabia, ele não tinha nenhum amigo próximo na escola. Durante os intervalos das aulas, era comum vê-lo arquear as costas e revisar a matéria para a próxima aula.

 

Contudo, em certo dia, ficou digitando em seu celular com os dedos rígidos, o rosto tenso e o corpo todo suado.

 

Depois de enviar alguns e-mails, continuou franzindo a testa e resmungando, talvez porque a outra pessoa não respondia. Assim que recebeu uma resposta, ficou olhando fixamente para o celular, sem expressão.

 

No dia seguinte, digitava mensagens com muita atenção, como uma criança que acabara de comprar um celular.

 

Dessa vez, pareceu ter recebido uma resposta imediata e começou a encarar o celular sem expressão.

 

Seus comportamentos eram excêntricos, se remexia inquieto, desviava o olhar para uma direção onde não havia ninguém sem aviso prévio, fazia beicinho enquanto corava, batia no próprio rosto com uma das mãos ou ficava olhando para o nada, parecendo estar em profunda reflexão.

 

(Está enviando mensagens para uma garota?)

 

Está namorando alguém de fora da escola?

 

Ela entrou em pânico logo ao considerar a ideia.

 

(Não, por que estou tão chocada?)

 

Essa reação inexplicável a deixou ainda mais perturbada, e seu coração disparou. Ao chegar em casa, continuou abraçada ao seu bichinho de pelúcia enquanto girava na cadeira giratória.

 

Honoka também estava frustrada por ter ignorado Koremitsu Akagi nos últimos dias.

 

Na verdade, sabia que, embora Koremitsu tivesse a aparência de um delinquente, era um jovem íntegro por dentro.

 

— Eu vou te proteger.

 

Essa frase, dita por Koremitsu com uma expressão séria, fez o coração de Honoka palpitar.

 

A garota que ele gostava era Aoi.

 

Continuou perseguindo Aoi sem desistir.

 

Honoka sabia bem, contudo não conseguia desviar o olhar de Koremitsu.

 

Ela percebeu isso sobre si mesma depois que descobriu que ele havia sido rejeitado por Aoi.

 

No fim, apenas não queria admitir. Aquele sujeito de aparência cruel, sem nenhuma etiqueta verbal, que não sabia que restaurantes da moda escolher para um encontro, era muito diferente das suas preferências.

 

No entanto, não conseguia deixar de se preocupar com Koremitsu. Pensava no garoto o tempo todo, portanto mantinha-se ocupada sempre que estava sentada, desviando o olhar para o lado oposto ou mexendo no celular.

 

O motivo pelo qual não respondeu aos cumprimentos de Koremitsu e lhe disse coisas tão maldosas foi porque não queria admitir que sua mente ficava em branco sempre que o encontrava, e que não conseguia dizer nada.

 

Honoka não queria mostrar a Koremitsu os sentimentos dos quais até ela mesma estava confusa, e se manteve inflexível quanto a isso.

 

Então, se esforçou ao máximo para demonstrar uma atitude distante, entretanto seu temperamento se exaltou involuntariamente quando pareceu que Koremitsu havia arranjado uma nova namorada, que se mostrou hesitante ao trocar mensagens.

 

Não, é impossível para ele arranjar uma namorada. Provavelmente é só uma alucinação sua, só pode ser.

 

Falando nisso, não foi muito leviano da sua parte correr atrás de outra garota tão pouco tempo depois de levar um fora da Aoi? Ele é o pior, podre até a medula. Tomara que a Akagi leve um fora logo.

 

Honoka às vezes tinha esses pensamentos.

 

Todavia...

 

Percebeu a frustração de Koremitsu ao vê-lo sentado ao seu lado, e sua preocupação logo superou todas as outras emoções.

 

(O Akagi parece muito cansado...)

 

Talvez não estivesse se dando bem com a garota, afinal, e estivesse frustrado a ponto de não conseguir dormir bem à noite?

 

(O que exatamente aconteceu? Devo perguntar a ele primeiro? Mas eu disse tantas coisas ruins sobre o Akagi antes. A impressão que tem de mim deve ter piorado. Além do mais, não somos amigos...)

 

Talvez devesse ter sido honesta da última vez que Koremitsu a agradeceu, se soubesse... Se fosse esse o caso, talvez poderia ter perguntado sem parecer estranha.

 

(Por que estou sendo tão infantil? Até disse para ele não falar comigo...)

 

Haverá uma prova de História Mundial no próximo período, que depende muito da memorização. Seria melhor memorizar alguns números de anos.

 

Koremitsu cobriu o celular, deixou os ombros caírem e suspirou...

 

Nesse instante, seu olhar se voltou incidentalmente para Honoka.

 

(!)

 

Seus cabelos ruivos repousavam sobre a testa, e seus olhos pareciam fracos. Era quase como um cão selvagem prestes a desmaiar a qualquer momento.

 

No instante em que seus olhos encontraram os de Honoka, sua expressão pareceu repleta de entusiasmo por algum motivo, ele ergueu a cabeça para encará-la.

 

(O-O que foi... Tem alguma coisa no meu rosto?)

 

O rosto de Honoka esquentou e ela corou.

 

Koremitsu parecia estar refletindo sobre algo enquanto continuava a encarar Honoka.

 

— Posso...

 

O que está olhando? Justo quando ela estava prestes a soltar essa frase maldosa, Koremitsu ofegou e disse.

 

— Posso recorrer a você para conseguir ajuda.

 

— Hã?

 

Koremitsu franziu a testa com um olhar suplicante e disse para Honoka, cujo coração batia forte por dentro.

 

— Shikibu, se importaria de ir comigo até o telhado depois que as provas terminarem?

 

***

 

— Por favor! Seja meu heliotrópio, minha fragrância púrpura novamente!

 

Foi uma reconstituição do passado, com Koremitsu curvando-se enquanto suas mãos permaneciam ao lado do corpo.

 

Enquanto o céu nublado ameaçava desabar em chuva a qualquer momento, o redemoinho no cabelo de Koremitsu surgiu diante dos olhos de Honoka.

 

— Preciso me desculpar por ter te irritado de alguma forma. Devo ter feito algo que te ofendeu, e sinto muito por tê-la deixado infeliz! Se lhe causei algum mal, assumirei a responsabilidade!

 

— B-Bem... Não estou ferida de forma alguma.

 

Honoka estava agindo de forma distante com Koremitsu devido a sentimentos pessoais, então ficou chocada ao ouvir suas palavras.

 

Sua atitude era sincera.

 

— Farei tudo o que você me pedir no futuro! Não me importo de ser seu servo por meio ano! Pode me chamar de cão selvagem se quiser!

 

(Não quero! Se eu te chamar assim, todo mundo vai ficar olhando para mim!)

 

— Bem, Akagi.

 

— Posso deixar você me chutar até sua raiva passar! Então...

 

Koremitsu levantou a cabeça.

 

Ele olhou para Honoka com um olhar preocupado e desesperado.

 

O peito de Honoka apertou repentinamente.

 

— Por favor.

 

Seus olhos se estreitaram dolorosamente enquanto falava com a voz rouca.

 

Sua expressão de dor estava dilacerando o coração de Honoka.

 

— Por favor, não me odeie.

 

— Hein?

 

Ao ver a expressão de dor de Koremitsu, a vontade de Honoka vacilou, e ela comentou com indiferença.

 

— O motivo pelo qual falei essas coisas para você é porque tenho uma personalidade ruim.

 

— Por que está falando assim de si mesma?

 

Perplexo, Koremitsu perguntou.

 

— De qualquer forma, não estou pedindo para você não falar comigo, então quando houver algum problema, não fique dando voltas e me diga de uma vez.

 

— Sério...?

 

Honoka estava com os braços cruzados à frente do corpo, exibindo uma atitude altiva e poderosa, porém continuava a lançar olhares furtivos para Koremitsu.

 

Koremitsu estava de cabeça baixa e o rosto corado enquanto desabafava sobre seus problemas.

 

Ele mencionou uma garota hikikomori chamada Yu Kanai.

 

Aquela garota foi retida durante o ano letivo por falta de frequência e, naquele momento, estava na mesma série que eles. Sua intenção era aconselhá-la a continuar frequentando a escola.

 

Contudo, a garota não aceitou o pedido de sair do quarto e acabou magoada.

 

Ainda assim, sentiu que, pelo bem dela, aquilo não podia continuar, e que precisava tirá-la de casa à força se necessário.

 

— Aquele maldito e inútil do Hikaru ficou apenas olhando! Não quero depender de alguém como ele de novo! Com certeza vai dizer que sou muito forte, que não entendo o coração de uma garota, que me tornei assim por causa disso... Pedi desculpas por e-mail, no entanto não recebi resposta. Já estou no meu limite...

 

O discurso de Koremitsu era desconcertante, talvez porque estava bastante perturbado e, de tempos em tempos, franzia a testa e resmungava.

 

Mesmo assim, Honoka teve a sensação de que Koremitsu estava preocupado com Yu Kanai e queria tirá-la de casa. Sempre que o via estremecer, morder os lábios, baixar a cabeça em um gesto de impotência, sentia uma dor em seu peito.

 

Honoka também tinha ouvido falar de Yu Kanai.

 

Naquela época, Honoka estava no terceiro ano do Ensino Fundamental II e Yu no primeiro ano do Ensino Médio. Portanto, Honoka só sabia que a garota sofria bullying das garotas da mesma série e não ousava ir à escola. Não sabia de nenhum outro detalhe além de um misterioso evento que a envolvia.

 

Além disso, Honoka sabia que Yu era a namorada de uma certa pessoa famosa na escola.

 

Honoka nunca tinha conhecido Yu antes, entretanto sentiu que era uma garota gentil e adorável que qualquer homem desejaria proteger ao vê-la.

 

Até mesmo Koremitsu estava muito preocupado...

 

— Eu nunca me importei com o fato de ser isolado e de falarem de mim pelas costas, então sou muito insensível a essas coisas... Depois de voltar para casa, me acalmei, refleti sobre tudo e entendi algumas coisas. A Yu é uma garota, mais frágil do que eu, não tem como ousar ir a algum lugar sem nenhuma amiga. Garotas precisam das amigas para ir ao banheiro. Elas até almoçam juntas... Garotas sempre comem juntas...

 

Koremitsu parecia estar furioso consigo mesmo enquanto coçava a cabeça com força e murmurava.

 

— Não posso acompanhá-la ao banheiro, e se ela me seguir, os outros vão isolá-la ainda mais e dizer coisas piores a seu respeito. Sou um idiota por não ter pensado nisso... Droga!

 

Frustrado, ele franziu a testa e cerrou os punhos.

 

— Yu precisa de amigas. Precisa de uma garota corajosa, que não se importe com o que os outros pensam, que valorize relacionamentos, que saiba ler o ambiente e que a ajude quando estiver em apuros. Você é a única em quem consigo pensar.

 

Koremitsu estava olhando nos olhos de Honoka.

 

A mesma coisa acontecia quando Aoi estava envolvida.

 

Que olhar zeloso.

 

Honoka ficou ofuscada por sua expressão ardente, e seu corpo doía por dentro.

 

Não entendia por que seu coração estava palpitando e tentou falar em seu tom habitual.

 

— Está se esforçando bastante aqui, Akagi. Será que você se apaixonou pela Kanai?

 

No momento em que essas palavras saíram, foram acompanhadas pelo arrependimento.

 

Pois Koremitsu parecia claramente atônito e, sem cerimônia, demonstrou uma expressão de fraqueza.

 

— ...

 

Ele arregalou os olhos, baixou o olhar, respirou fundo e permaneceu em silêncio com um semblante abatido.

 

As palavras de Honoka revelaram a emoção que o próprio Koremitsu ainda não havia percebido e trouxeram à tona seus verdadeiros pensamentos.

 

Koremitsu talvez tenha pensado que seus sentimentos por Yu eram apenas de simpatia e bravura.

 

Todavia nesse momento percebeu que havia outras emoções envolvidas.

 

E Honoka teve que ser quem o lembrou disso.

 

— S-Seu idiota, por que você não diz nada? Sua expressão está muito engraçada. Está fingindo ser sentimental, mesmo sendo um delinquente.

 

Honoka fez o possível para parecer positiva.

 

Realmente queria tratar o que disse antes como uma piada.

 

— NÃO SOU UM DELINQUENTE!

 

Koremitsu também retrucou com voz perplexa.

 

Ao que parece, interpretou o comentário de antes como uma piada.

 

Está tudo bem, por agora está tudo bem.

 

Honoka tentou ao máximo se consolar em seu coração, mas não entendia o que estava bem.

 

Então, sorriu e falou.

 

— Tudo bem, posso te ajudar. Só precisa que eu seja amiga da Yu Kanai, certo? Não me olhe desse jeito! Já fui escoteira e sou boa em fazer amizade com garotas introvertidas. Deixa comigo!

 

Ao ver o brilho no rosto de Koremitsu, como se estivesse banhado pela luz do sol, Honoka sentiu uma pontada de tristeza no coração.

 

***

 

Em seguida, Honoka e Koremitsu dirigiram-se ao apartamento onde Yu Kanai estava hospedada.

 

No caminho, a chuva ficou mais forte e Honoka abriu seu guarda-chuva vermelho-púrpura.

 

— Hã? Você não trouxe um guarda-chuva? A previsão do tempo disse que havia 50% de chance de chover hoje.

 

— Isso não significa que não vai chover hoje?

 

— Claro que não. Quem não pensaria em trazer um guarda-chuva se soubesse que há 50% de chance de chuva hoje? Acho que não tem jeito. Vem.

 

Ela moveu o guarda-chuva sobre a cabeça de Koremitsu.

 

— Estou bem aqui.

 

— Não me sentirei bem caminhando com um homem todo encharcado.

 

Ela tentou, à força, colocar Koremitsu debaixo do guarda-chuva.

 

Não se sabia se Koremitsu estava envergonhado ou tentando ser educado, já que apenas moveu o ombro até a metade do corpo para debaixo do guarda-chuva.

 

Sempre que Honoka tentava mover o guarda-chuva para o lado dele, Koremitsu se afastava um pouco.

 

Ele estava franzindo a testa, seus lábios estavam tensos e seu rosto estava corado.

 

Ao vê-lo assim, Honoka de repente sentiu um caloroso e reconfortante sentimento dentro de si.



Na verdade, não queria conhecer Yu, contudo graças a Yu, ela conseguiu reconciliar-se com Koremitsu.

 

Portanto, o melhor seria não pensar muito, concentrar-se em ajudar Koremitsu e fazer o possível para construir um relacionamento com Yu.

 

(Essa situação, não deveria ser o rapaz a segurar o guarda-chuva?)

 

Honoka murmurou algo para si mesma e sorriu.

 

Porque seu coração se apertou ao ver aquele menino, que estava franzindo a testa e tenso por todo o corpo, sendo tão fofo.

 

Ambos compraram lindas geleias vermelhas e laranjas para dar de presente e chegaram ao apartamento.

 

Com o semblante sério, Koremitsu bateu na porta do apartamento.

 

— Yu, sou eu.

 

A voz suave e profunda de Koremitsu tinha uma mistura de cortesia e hesitação, era completamente impossível imaginar que ele teria tal tom, considerando seu comportamento habitual.

 

— Mencionei no e-mail de ontem que a culpa foi minha e quero me desculpar. Gostaria de lhe apresentar alguém... Poderia abrir a porta?

 

Lá dentro havia silêncio. Honoka e Koremitsu esperavam em silêncio.

 

— Miau...

 

Ouviu-se o ronronar de um gato e o som da porta sendo destrancada.

 

O coração de Honoka batia forte.

 

(Que tipo de pessoa é Kanai...? Será que é mais bonita que Sua Alteza Aoi?)

 

De repente, se sentiu tensa.

 

A porta abriu-se aos poucos.

 

Um gato branco colocou a cabeça para fora por baixo da porta e olhou para eles com seus claros olhos azuis.

 

Então, uma garota completamente envolta em um cobertor azul apareceu na fresta de cinco centímetros de largura na porta.

 

Pele surpreendentemente branca.

 

Olhos claros.

 

Lábios com ar solitário.

 

Finas mechas de cabelo surgiam debaixo do cobertor.

 

O que mais chamou a atenção de Honoka foi a natureza frágil e efêmera daquela garota.

 

Essas impressões surgiram em um único olhar de Honoka.

 

Ao seu lado, Koremitsu soltou um suspiro de alívio.

 

— Que bom que está disposta a abrir a porta, Yu. Esta é minha colega de classe, Shikibu...

 

Honoka se esforçou ao máximo para mostrar sua expressão mais alegre, e justo quando estava prestes a cumprimentar...

 

— !

 

Yu empalideceu de repente, sua expressão congelou, seus olhos se encheram de terror, e o cobertor que a cobria tremeu como uma onda em meio a uma tempestade.

 

Essa resposta inesperada assustou Koremitsu.

 

— Qual é o problema?

 

Ele perguntou enquanto segurava a porta.

 

Mas Yu não estava olhando para Koremitsu, e sim para Honoka, que estava atrás dele.

 

Ela estava olhando para Honoka... E para o guarda-chuva molhado em suas mãos...

 

— NÃO!

 

Seus lábios trêmulos deixaram escapar essas palavras de rejeição, movidas pelo medo.

 

Ela segurou a maçaneta da porta com as duas mãos e bateu a porta com força.

 

Cluck. O som da porta sendo trancada ecoou, seguido pelo soluço de Yu.

 

— Não... Não quero ir para a escola! Não tenho guarda-chuva, não posso sair! Não posso ir para a escola! Não tem nada para me cobrir! Vou ser devorada! Eu vou ser devorada!

 

Honoka nunca tinha ouvido um clamor tão angustiado e comovente.

 

Em choque, de repente se lembrou do motivo pelo qual Yu se recusava a ir à escola.

 

Talvez... Não, tenho certeza.

 

— Yu! O que há com você? ABRA A PORTA! YU!

 

Koremitsu continuou batendo na porta e girando a maçaneta, entrando em pânico a ponto de quase danificar a porta de novo.

 

Honoka agarrou a mão de Koremitsu por trás.

 

— Akagi, vamos voltar por hoje.

 

— O que você está dizendo? Não é óbvio que a Yu não está bem agora?

 

Koremitsu disse com um olhar agitado.

 

— Provavelmente é... Por minha causa.

 

— O quê?

 

Koremitsu lançou um olhar cético.

 

— Explico depois. De qualquer forma, é melhor você sair daqui primeiro, Kanai vai poder se acalmar se fizermos isso. Apenas me escute.

 

Honoka falou com uma expressão e tom firmes enquanto segurava com força a mão fria e rígida de Koremitsu.

 

Parecia que Koremitsu não estava disposto a aceitar essa situação, contudo de repente ele olhou diagonalmente para cima, surpreso, e então...

 

— Yu, vou vir te visitar outro dia.

 

Desanimado, ele se encostou na porta e disse isso.

 

***

 

— É melhor você ouvir o que a Srta. Shikibu diz.

 

Hikaru disse.

 

Ele demonstrou uma expressão de angústia, parecendo estar suportando a dor.

 

Esse cara não se importou nem um pouco com a Yu até agora, e agora está fingindo estar preocupado? Koremitsu estava muito descontente com Hikaru e decidiu não pedir a sua ajuda, todavia o tom insistente de Honoka e a expressão de Hikaru o fizeram ceder, e assim só pôde suportar essa angústia enquanto saía do apartamento.

 

Koremitsu e Honoka chegaram a um parque próximo.

 

Os jardins tinham árvores exuberantes plantadas em seu interior, canteiros de flores e lagos cercados por tijolos vermelhos, e um palco coberto nas proximidades. Eles foram para o palco em busca de abrigo, e Honoka começou a falar sobre aquele incidente.

 

— A Kanai começou a faltar às aulas desde a época das chuvas do ano passado... Você sabia?

 

A própria Honoka estava em choque, mas continuou a encarar Koremitsu com uma expressão preocupada.

 

— Sim.

 

— Naquela época, Kanai sofria bullying das outras meninas, por exemplo, seus pertences eram escondidos, era menosprezada e algumas pessoas diziam coisas maldosas de propósito...

 

— Por que garotas?

 

Você não entende... A expressão irônica no rosto de Honoka parecia lamentar isso.

 

— Certa vez, alguém viu Kanai dividindo um guarda-chuva com um veterano muito popular do Ensino Médio. Acho que foi porque esse veterano era um nobre de destaque até mesmo na escola, enquanto Kanai era apenas uma pessoa comum que conseguiu entrar na escola por meio de exames no Ensino Fundamental. Todos disseram que Kanai se aproximou desse veterano por iniciativa própria para se aproveitar.

 

— Que absurdo! Por que é preciso usar palavras tão cruéis só porque compartilharam um guarda-chuva num dia chuvoso? Qual o problema em passar no exame? Qual o problema em nascer numa família comum?

 

— Hm, é de fato irracional, porém... Eu mencionei isso da última vez que conversamos sobre Sua Alteza Aoi. Nossa escola presta muita atenção à data de matrícula de cada aluno e até os segrega em classes sociais como esta... Essas pessoas com certeza não permitiriam que alguém ultrapassasse essa barreira...

 

— Muitas das pessoas matriculadas no campus da nossa escola desde o jardim de infância podem ser classificadas como “nobres”.

 

Koremitsu se lembrou das palavras que Honoka disse quando conversou com ele sobre Aoi.

 

Além disso, quando os membros do clube de arte confessaram seu ressentimento em relação a Aoi...

 

— Você está nos menosprezando porque se acha uma “nobre” que está na escola desde o jardim de infância?

 

Todas as questões, como histórico familiar, eram absurdas.

 

Essas questões não tinham nada a ver com personalidades.

 

No entanto o fato inegável era que a consciência das classes sociais estava profundamente enraizada nessa escola.

 

E Yu quebrou a regra.

 

Sendo camponesa, conseguiu se envolver com um homem “nobre” e acabou magoada por isso.

 

Na verdade, seria de se perguntar se foi Yu quem tomou a iniciativa, ou se foi o veterano... Considerando o quão introvertida Yu era, Koremitsu achava que seria impossível para ela abordar o veterano almejando subir na hierarquia.

 

Entretanto, as outras garotas na escola não se importavam com esses detalhes, só se importavam com o fato de Yu ter compartilhado um guarda-chuva com um homem de hierarquia diferente. As garotas de posição social mais elevada, naturalmente, não ficariam felizes, e as garotas da mesma classe social não conseguiam perdoá-la por “ter uma vantagem inicial”.

 

— Se eu for para a escola, todos vão me olhar com desprezo e até falar mal de mim.

 

—Vou ficar sozinha na escola.

 

Yu disse essas palavras com um arrepio enquanto estava agachado debaixo do cobertor.

 

Uma garota serena como Yu deve ter achado insuportável ver tantos olhares de ódio de estranhos e ouvir tantas palavras maldosas e zombarias.

 

Koremitsu também sentiu como se seu peito estivesse queimando.

 

Estava frustrado por não ter conseguido ajudar Yu naquela época e cerrou os punhos em desespero.

 

— Os meninos também fingiam não notar nada quando as meninas a intimidavam. Era como se não quisessem ser difamados ou algo assim.

 

Honoka falou em tom grave.

 

Aconteceu alguma coisa naquela ocasião.

 

Certa manhã, caiu um aguaceiro torrencial e o guarda-chuva de Yu desapareceu.

 

Justo quando Yu estava parada em frente ao porta guarda-chuvas com o rosto chorando, as garotas que mais gostavam de implicar com ela riram e disseram muitas coisas cruéis.

 

— Ah, seu guarda-chuva sumiu? Ele estava aí de manhã.

 

— Vá encontrar um cara que tope dividir um com você.

 

— Sim. Você é alguém que sabe como enfeitiçar os homens, de qualquer forma.

 

— Mas o veterano Tojo não quer se incomodar com plebeus se aproveitando da sua posição de nobreza.

 

E todo tipo de besteiras aleatórias.

 

O rosto de Yu empalideceu ao ouvi-las, e não conseguiu dizer uma única palavra, apenas chorou, estremeceu e saiu sozinha do campus da escola.

 

Muitos alunos a viram completamente encharcada. Sua expressão era vazia como a de um cadáver ambulante enquanto continuava caminhando penosamente.

 

Porém ninguém compartilhou um guarda-chuva com ela.

 

No dia seguinte, Yu não compareceu à escola.

 

— E então... Outra coisa importante aconteceu na escola naquele dia.

 

A voz de Honoka estava carregada de tensão.

 

Koremitsu também prendeu a respiração em antecipação.

 

As nuvens cobriram o palco e a vegetação do parque com sombras, e a chuva aumentou de intensidade.

 

— Alguém... Viu um espírito vingativo.

 

(Espírito vingativo?)

 

Como algo assim poderia existir neste mundo? Pensou Koremitsu, contudo a alma de Hikaru flutuava ao seu lado, pairando em silêncio sob a luz dos postes de iluminação pública.

 

E a expressão de Honoka era de absoluta seriedade.

 

— As meninas que zombaram de Kanai em frente ao porta-guarda-chuvas perderam seus guarda-chuvas, e eles ficaram pendurados no parapeito da janela da sala de química como fantasmas mortos... Respingados de água preta.

 

Koremitsu tentou imaginar aquela cena.

 

A sala de aula de química da escola.

 

A janela estava coberta de chuva.

 

Os guarda-chuvas pendurados e a água escura que pingava.

 

Foi realmente assustador.

 

No entanto...

 

Koremitsu franziu a testa.

 

— Não seria um exagero dizer que elas encontraram um espírito vingativo?

 

— Só que não foi tudo.

 

— Ainda tem mais?

 

Honoka assentiu com um olhar sério e pareceu ter dificuldade para falar.

 

— Além disso, alguém viu... Kanai correndo na chuva com um guarda-chuva na mão. Estava toda suja, o cabelo molhado e despenteado, e sua expressão... Não parecia normal. Foi muito assustador...

 

— Pensei que a Yu não tivesse ido à escola naquele dia?

 

— Certo, por esse motivo havia um boato de que o espírito de Kanai havia retornado para se vingar.

 

Koremitsu realmente não conseguia entender.

 

O espírito vital de Yu de repente se manifestou em busca de vingança e sujou os guarda-chuvas daquelas garotas que a intimidavam?

 

Como uma coisa dessas poderia acontecer?

 

Além disso, será que Yu teria coragem de se vingar? Se fosse tão determinada, não estaria escondida em casa o dia todo e já teria começado uma nova vida.

 

Na verdade, Yu parecia apavorada com as colegas que a intimidavam, e ele não conseguia detectar nenhum traço de malícia.

 

A maneira como ela exclamou “Serei devorada” parecia mais um medo indelével em relação a esse espírito vingativo intangível.

 

(O que está acontecendo...)

 

Koremitsu rangeu os dentes enquanto pensava.

 

A única coisa da qual podia ter certeza era que, por causa do bullying em massa, Yu tinha pavor da chuva e se isolava em casa.

 

E ninguém se levantou para protegê-la.

 

Que expressão Hikaru teria demonstrado ao ouvir aquilo? Koremitsu certamente ficaria furioso se visse a expressão de desinteresse de Hikaru, então resistiu à tentação de olhar naquela direção.

 

No entanto, a raiva subiu-lhe pela garganta de forma impetuosa, e seu abdômen latejava.

 

Sua respiração foi interrompida enquanto ouvia as palavras de Honoka.

 

— Kanai fechou a porta com medo, talvez porque tenha se lembrado daquele incidente.

 

Chovendo.

 

Guarda-chuva.

 

Menina de uniforme.

 

(Como isso aconteceu...)

 

Esses foram os fatores que despertaram o medo de Yu.

 

— Akagi...

 

Honoka viu a expressão sombria no rosto de Koremitsu enquanto este cerrava os punhos e exclamou preocupada.

 

— Encontrarei uma solução para o problema da Kanai. Não aja por impulso por agora. A Matriarca Asa e o Chefe do Corpo Docente estão de olho em você.

 

— Entendi.

 

Koremitsu suspirou e rosnou.

 

— Obrigado por me acompanhar e desculpe por te envolver nisso. Estou refletindo sobre o assunto e espero que não te cause nenhum problema.

 

— Não vejo problema nenhum! Sua opinião sobre mim está muito baixa agora! Por que não confia mais em mim?

 

Honoka lançou um olhar fulminante para Koremitsu ao dizer aquilo.

 

Essa foi uma expressão feroz que Yu definitivamente não teria.

 

— Obrigado.

 

Koremitsu curvou-se diante dela.

 

— Se houver mais algum problema, falarei com você de novo.

 

Honoka continuou encarando Koremitsu, com uma expressão dividida entre preocupação e dúvida.

 

A chuva não dava sinais de parar.

 

— Desculpe, Shikibu, poderia voltar primeiro.

 

— E você?

 

— Primeiro vou ver como a Yu está antes de voltar. Não vou fazer nada precipitado.

 

Honoka manteve uma expressão séria enquanto permanecia em silêncio e, após um tempo, disse.

 

— Se eu voltar com você... Kanai com certeza vai ficar apavorada. Eu... Vou te acompanhar até o apartamento. Você não tem nenhum guarda-chuva mesmo. Vou te esperar lá.

 

— Tudo bem. Vou comprar um na loja de conveniência.

 

Honoka ergueu as sobrancelhas enquanto encarava Koremitsu. Então, ela empurrou o cabo do guarda-chuva molhado e dobrado para a mão dele.

 

— Use isto.

 

— E você?

 

— Vou ligar para casa e pedir para alguém me buscar. Caso contrário, irei à loja de conveniência comprar um guarda-chuva ou uma capa de chuva.

 

— Este é o seu guarda-chuva. Use-o.

 

Koremitsu queria devolver o guarda-chuva para Honoka, mas ela o empurrou de volta com mais força.

 

— Não, tenho certeza que não vai comprar um guarda-chuva. Use-o agora, ou vou ir com você! Não vou apenas segui-lo até o apartamento da Kanai, vou mandá-la até sua casa segurando o guarda-chuva.

 

Honoka parecia estar fazendo um pequeno escândalo.

 

Será que pareço tão lamentável assim?

 

Justo quando Koremitsu estava em dúvida sobre si mesmo...

 

Uma mão branca e delicada repousou suavemente nos braços de Honoka e Koremitsu.

 

Uma voz clara e encantadora ecoou na chuva.

 

— Obrigado. Vamos usá-lo como um talismã.

 

Hikaru esboçou um sorriso gentil que poderia derreter a tristeza no coração de Koremitsu e disse com um tom de voz gentil.

 

— Certo, Koremitsu?

 

Seus cabelos dourados, brilhantes e transparentes não estavam encharcados enquanto ele permanecia sob os postes de luz da rua, e esvoaçavam ao lado de suas bochechas brancas e claras. Ele ergueu os lábios, sorriu gentilmente e disse isso a Koremitsu com uma expressão madura.

 

(Por que você precisa se meter aqui?)

 

Koremitsu revirou os olhos para Hikaru.

 

— Então... Vou usá-lo... Como um talismã.

 

Ele disse com cautela.

 

Não estou seguindo o conselho de Hikaru. Não é isso...

 

As mãos e a expressão de Honoka relaxaram em seguida, e ela mostrou um olhar lacrimejante, porém logo depois voltou a exibir sua expressão impetuosa de sempre.

 

— Certo, com certeza vai funcionar.

 

Suas bochechas coraram enquanto falava alegremente, e empurrou o guarda-chuva contra o peito de Koremitsu.

 

Era como se estivesse dizendo “aceite”.

 

O coração de Koremitsu se alegrou.

 

— Obrigado...

 

Suas palavras soaram baixinho, de forma envergonhada, e abriu o guarda-chuva vermelho e roxo brilhante.

 

Com Honoka acenando em despedida, Koremitsu caminhou na chuva fria em direção ao apartamento de Yu.

 

As luzes do apartamento não estavam acesas, pois só conseguia ver escuridão total pela janela.

 

Com uma sensação de inquietação, aproximou-se da porta e bateu.

 

— Yu...

 

Uma voz rouca soou.

 

— Você está aí dentro, Yu?

 

Um leve ruído veio de dentro da porta. A ansiedade e a tristeza quase fizeram seu coração explodir.

 

— Desculpe, não deveria ter trazido a Shikibu sem te avisar. Contudo ela é uma boa pessoa, diferente daquelas que te intimidavam.

 

Um som suave veio de trás da porta.

 

— Se você prometer ir à escola, Shikibu com certeza te ajudará.

 

A chuva torrencial e incessante abafou a voz de Koremitsu, fragmentando-a em sons ininteligíveis.

 

O que posso dizer para dissipar o medo da Yu? O que posso fazer para ajudá-la?

 

Nesse momento, Hikaru também estava ao lado de Koremitsu, no entanto este deliberadamente optou por não olhar em sua direção. De qualquer forma, não queria pedir sua ajuda.

 

Nesse instante, uma voz fraca veio de trás da porta.

 

— Sem um guarda-chuva... Não posso ir à escola.

 

A voz parecia vir de algum lugar próximo. Yu estava atrás da porta. O coração de Koremitsu disparou ao ouvi-la e aguçou os ouvidos.

 

— Aquele guarda-chuva é... Meu talismã... Algo que pode me dar abrigo... Mas o guarda-chuva se foi...

 

Havia soluços misturados à voz. Yu estava chorando.

 

— Eu sempre tive o mesmo sonho... A superfície do mar ondulando, as ondas ficando altas, um peixe preto abrindo bem a boca e engolindo o guarda-chuva inteiro. Eu queria agarrar o guarda-chuva, porém não conseguia... E então, também fui engolida inteira pelo peixe. Fiquei descoberta porque meu guarda-chuva sumiu... Não consigo escapar...

 

O que ele poderia fazer para parar as lágrimas de Yu?

 

Será que Yu teria coragem de abrir a porta de novo?

 

Hikaru permaneceu em silêncio.

 

Um instante antes, ele estava se intrometendo, contudo agora só ficou em silêncio ao lado de Koremitsu.

 

Ela é alguém importante para você! E está dizendo que não pode fazer nada porque é um fantasma! Você pode ver e ouvir, entretanto não faz absolutamente nada! Só fica de boca fechada, franzindo a testa!

 

Não vou mais depender de alguém assim!

 

Koremitsu encostou a cabeça na porta e exclamou.

 

— NÃO CHORE, YU! EU... EU VOU RECUPERAR SEU GUARDA-CHUVA PARA VOCÊ!


***


Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...

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