sexta-feira, 9 de outubro de 2026

The Perfect Insider — Capítulo 02

Capítulo 02: A Retomada ao Azul


Parte 1

— Está quente! — murmurou Saikawa ao sair do carro. — Escaldante...

— Mesmo que diga que está quente, não vai fazer esfriar. — disse Kunieda enquanto se aproximava de Saikawa. Ela usava um grande chapéu de palha, uma camiseta e calças curtas que chegavam aos joelhos. De longe, parecia um homem, e mesmo de perto, talvez não parecesse uma mulher.

Eles atravessaram uma pequena ponte em uma estreita rodovia nacional em uma área rural. Um pouco mais adiante, ao longo do aterro, havia um cais. O rio não tinha mais de dez metros de largura. Disseram-lhes que o único serviço de barco para o destino deles, a Ilha Himaka, partia deste Porto de Issiki. Embora fosse chamado de porto, ficava na margem do rio, perto da foz. Um estacionamento sem pavimentação ficava além do aterro, visto do rio, e Saikawa acabara de estacionar seu carro ali.

A assistente de pesquisa Momoko Kunieda parecia ter chegado um pouco antes de Saikawa. Ela também viera de carro. Kunieda havia deixado o instituto de pesquisa onde trabalhara cerca de dois anos antes e se tornado assistente de pesquisa no curso de Saikawa. Sua idade era vinte e oito anos, quatro anos mais nova que Saikawa, e era solteira. Aliás, era seguro dizer que seu casamento era uma situação inimaginável.

Saikawa estava vestido como de costume, com camisa e calça jeans azul, porém sua mochila não era a de uso diário, e sim uma mochila Boston. Quando Saikawa se virou enquanto subia o barranco, Kunieda tirou sua mochila do porta-malas do carro.

Era uma terça-feira na primeira semana de agosto. O sol estava tão intenso que poderia ser descrito como impiedoso. Segundos depois de sair do carro, Saikawa começou a suar. Esperou Kunieda subir o barranco e os dois desceram lado a lado do outro lado. Eles viram alguns estudantes no patamar.

A viagem do seminário aconteceria na Ilha Himaka, como Moe havia prometido. Saikawa não perguntou quais meios ela havia empregado para tornar aquilo realidade. A ilha originalmente tinha um acampamento e, por sorte, as instalações daquela época seguiam estando lá, com barracas, equipamentos de camping e até água corrente disponível. Saikawa foi informado de que o atual diretor do Instituto de Pesquisa Magata havia dado permissão pessoalmente a Moe para usá-lo.

Este ano, apenas Saikawa e Kunieda puderam participar da viagem do seminário como instrutores. O professor, chefe de Saikawa, não pôde comparecer por motivos pessoais. Havia seis alunos de pós-graduação, dois alunos do quarto ano da universidade, Moe Nishinosono e dois instrutores, totalizando onze participantes.

Não havia barcos no cais agora. Eles podiam ver muitos pequenos barcos de pesca enfileirados a uma curta distância.

Quando Saikawa e Kunieda se aproximaram dos alunos, todos fizeram uma pequena reverência. No cais, havia uma sala de espera dilapidada com apenas um teto, e a maioria deles estava sentada nos bancos. Duas máquinas de venda automática antigas estavam instaladas ali. Havia apenas oito alunos.

— A Nishinosono ainda não chegou? — perguntou Saikawa, olhando para todos ao redor. Ele olhou para o relógio e sabia que tinham cerca de quinze minutos antes da partida do barco.

— Acho que deve estar indo de helicóptero, não? — disse Fuchida, um aluno de pós-graduação, enquanto tomava um gole de suco. — Uma moça como ela não viria a um lugar tão decadente.

A bagagem para o acampamento era considerável, bebidas e comida para três dias.

— Ah, lá vem ela. — disse Hamanaka, olhando rio acima em direção ao aterro.

Um carro preto cruzou a ponte e entrou na estrada do dique. O carro desceu a rampa de acesso, não o lado do estacionamento. Conforme se aproximava, perceberam que era um Jaguar marrom-escuro. O carro habitual de Moe era um esportivo vermelho brilhante de 4000cc, contudo Saikawa já tinha visto aquele sedã Jaguar no estacionamento subterrâneo da família Nishinosono.

O carro de luxo parou em frente a todos com um rugido suave do motor. A porta traseira se abriu e Moe saiu. No banco do motorista, eles podiam ver um senhor de cabelos grisalhos, usando luvas brancas e segurando o volante.

Moe Nishinosono usava grandes óculos de sol rosa. Estava vestida com calças brancas como um marinheiro e uma pequena camiseta listrada creme e branca. Ao sair do veículo, abriu primeiro um guarda-sol branco brilhante. Era tão elegante, ao mesmo tempo que tão absurdamente fora de lugar, que provocou um suspiro resignado dos outros alunos.

— Bem, eu gostaria de pedir um favor. — o porta-malas do Jaguar se abriu com um ruído característico, e ela ficou atrás do carro. — A bagagem está muito pesada para eu levantar. Alguém poderia me ajudar, por favor?

— O que você está trazendo? — perguntou Kawabata, o mais velho dos alunos. — Nishinosono, você não deveria trazer nada que não consiga carregar sozinha. Vai acabar se metendo em encrenca...

— Mas isso é pra todo mundo. — Moe sorriu. — Até vocês querem uma gelada, não é?

Dentro do porta-malas havia duas grandes caixas térmicas.

— Oh, é cerveja? Quão atencioso da sua parte. — Fuchida se aproximou.

— Uma caixa contém cerveja. — disse Moe para Kawabata e Fuchida, que tiraram as caixas térmicas do porta-malas. — Essa aqui contém sorvete.

— Sorvete? — exclamou Fuchida. Outro suspiro alto escapou dos alunos.

Saikawa caminhou até o banco do motorista e cumprimentou o velho Suwano no carro.

Suwano fez questão de sair do carro e fez uma profunda reverência para Saikawa. Ele era um mordomo que servia à família Nishinosono há mais de trinta anos. Ainda sendo verão, seguia vestido com um terno preto e gravata borboleta.

— Por favor, cuide bem da jovem senhorita, professor Saikawa. — disse Suwano em um sussurro preocupado. Mesmo em um lugar tão desolado sob o sol escaldante, uma elegância fria transparecia em sua voz.

— Sim, tudo bem. Não se preocupe. — Saikawa também sussurrou.

De alguma forma, não queria que os alunos ouvissem sua conversa com o mordomo.

— A propósito, ela já acampou antes?

— Não, esta será a primeira vez. Ela está, sabe, ansiosa por isso... — disse Suwano, sorrindo.

— Entendo. Dá para perceber que está feliz com a oportunidade... — Saikawa piscou para Suwano.



Parte 2


O barco subiu o rio com um som de batida de asas e parou firmemente no cais. Era um barco pequeno, com cerca de cinco metros de comprimento, com um teto apenas sobre a cabine de comando e uma tenda presa na parte traseira. Saikawa tinha visto barcos de convés aberto semelhantes em Hanói e Istambul. Vários passageiros desembarcaram, e o último se aproximou de Saikawa.

— O senhor é o professor Saikawa? — o homem se aproximou de Saikawa e disse com um sorriso amigável.

— Sim, sou eu.

— Sou Yamane, do Instituto de Pesquisa Magata. — o homem fez uma leve reverência. — Hmm, esta é a Nishinosono?

— Não sou.

Wu, uma estudante estrangeira, que estava ao lado de Saikawa, respondeu.

— Nishinosono é... — Saikawa apontou para Moe, que estava comprando suco em uma máquina de venda automática. — Aquela mulher com o guarda-sol. Desculpe, estamos incomodando, não é?

— Não, de forma alguma. — Yamane balançou a cabeça. — O diretor me pediu para mostrá-los a ilha, então aqui estou. Nunca vi tantos visitantes naquela ilha. Estamos planejando uma pequena festa de boas-vindas para todos amanhã à noite. Se não for incômodo, professor...

— O acampamento fica perto do instituto de pesquisa? — Saikawa perguntou enquanto começava a caminhar. Os alunos já haviam embarcado no barco.

— Essa é uma ilha pequena. O instituto de pesquisa e o acampamento ficam em lados opostos da ilha, no entanto, bem... É uma caminhada de uns dez minutos. Claro, nós temos um carro, então... — respondeu Yamane.

Yamane parecia mais velho que Saikawa. Não parecia um assalariado. Estava vestido com uma camiseta e jeans, e seu cabelo estava bagunçado. E parecia que não se barbeava há dias. Assim que embarcaram, Yamane entregou seu cartão de visitas a Saikawa. Yukihiro Yamane. Seu cargo era vice-diretor do Instituto de Pesquisa Magata. Saikawa ficou um pouco surpreso.

— Quantos funcionários o Instituto de Pesquisa Magata tem? — Saikawa não tinha seu cartão de visitas.

— Cerca de cinquenta pessoas. São os que trabalham lá o tempo todo. — Yamane sentou-se em um banco no barco.

Finalmente, Moe Nishinosono subiu ao convés. Ela guardou seu guarda-sol e se aproximou de Saikawa.

— Nishinosono, este é o Yamane, o vice-diretor do instituto de pesquisa. — Saikawa o apresentou a Moe.

— Oi. — ela fez uma reverência.

— Você esteve aqui uma vez, há cerca de um mês. — Yamane sorriu e disse a Moe. — Eu estava em viagem de negócios na época, então não pude vê-la. Ouvi dizer que é conhecida do diretor...

— Somos mais um caso de... Conhecidos em comum. — Moe sorriu e inclinou um pouco a cabeça. — Tive o prazer de entrevistar a Dra. Shiki Magata.

— Sim, isso também foi incomum. Vi o vídeo da conversa de vocês duas. Foi bastante interessante. — disse Yamane.

— Pensei que fosse uma entrevista particular. — Moe abaixou a cabeça, envergonhada.

— Não, de jeito nenhum... — Yamane tirou um lenço e enxugou o suor da testa. — Trabalho no instituto de pesquisa há quinze anos e nunca tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente. As conversas são sempre conduzidas por meio de microfones e telas, e todas as conversas são públicas dentro do instituto de pesquisa. Não nos é permitido conversar em particular.

— A doutora nunca se encontra com ninguém? — perguntou Moe. — Não é?

— Ela não ve ninguém.

Uma barra de ferro foi pendurada sobre o portão de embarque, e o barulho do motor aumentou. No final, apenas as onze pessoas do grupo de Saikawa e Yamane embarcaram no barco. Havia apenas dois marinheiros a bordo. O pequeno barco recuou devagar e virou rio abaixo. Então começou a se mover para frente em uma velocidade surpreendentemente lenta. Era tão lento que parecia que o barco estava sendo arrastado rio abaixo. Os taludes de concreto em ambos os lados do rio eram tão altos que nada podia ser visto na paisagem ao redor. Havia duas pontes em sua direção, e tiveram que passar por baixo delas antes de chegar ao mar. O calor diminuiu à medida que o barco começou a se mover e ficaram um pouco expostos ao vento.

Eles ouviram dizer que a viagem até a Ilha Himaka levaria quarenta minutos. Imaginavam que fosse uma longa distância, entretanto, ao que parecia, era devido à lentidão do barco.

— Quantos barcos saem por dia? — perguntou Saikawa.

— Não, não há serviços regulares. Este barco não vai para a Ilha Himaka, mas sim para a Ilha Shino, que fica além dela. Há oito viagens de ida e volta por dia para lá. Nós apenas pedimos para o barco regular parar no caminho. Quando você pega o barco na ilha, precisa ligar com antecedência para que ele pare.

O barco seguia descendo o rio. O rio se alargou um pouco quando enfim passaram sob a ponte de concreto. Os alunos estavam encostados no parapeito, olhando para a frente do barco. Saikawa e Yamane eram os únicos sentados. Moe havia entrado na cabine de comando por uma porta que fora aberta em algum momento e estava conversando com a tripulação sobre algo.

— Talvez eu não devesse dizer isso, porém você parece muito jovem para um vice-diretor. — questionou Saikawa sobre esse ponto curioso.

— Ah, talvez. Me tornei- vice-diretor no ano passado. Nossa instituição tem uma idade de aposentadoria de quarenta anos. Sou o funcionário mais velho do instituto de pesquisa, com exceção do diretor...

— Oh... Você se aposenta aos quarenta? O que acontece depois? — Saikawa não sabia disso.

— Receberei uma aposentadoria. Bem, é uma quantia considerável. Então, devo conseguir viver uma vida confortável por um tempo. Depois, quando me sentir bem outra vez, poderei trabalhar. Qualquer pessoa do nosso instituto de pesquisa será contratada em qualquer lugar. — enquanto explicava, Yamane deu de ombros. — Vou me aposentar em três anos. Para começar, só podemos fazer esse tipo de trabalho até os quarenta.

— É bastante impressionante. — Saikawa respondeu com um amplo aceno. — Só isto já é um bom indicativo do alto nível da organização. Seria bom se as universidades também pudessem fazer o mesmo...

O barco lento com Saikawa e os outros por fim atravessou o porto na foz do rio e saiu do quebra-mar. A ondulação do mar estava um pouco maior, todavia era um dia claro, sem vento, e o mar estava calmo e tranquilo. Alguns pequenos barcos de pesca flutuavam. Um jovem brincando em um jet ski individual podia ser visto à distância. O barco deles seguia quase direto para o sul, em direção ao sol.

Moe saiu da cabine de comando e caminhou em direção a Saikawa e Yamane. Ela se sentou em frente ao banco onde Saikawa e Yamane estavam sentados e girou o corpo para olhar para trás.

— Posso perguntar sobre a Dra. Shiki Magata? — Moe olhou para Yamane e falou. — Quero dizer, sobre o incidente em que a doutora supostamente assassinou os seus pais...

— Nishinosono, é indelicado falar sobre isso. — disse Saikawa.

— Não, não me importo. Não há nada a esconder. — Yamane sorriu sem jeito. — Por favor, sinta-se à vontade para perguntar... Sabe, não temos boas maneiras... Acho que você pode perceber pela minha aparência.

De fato, ele tem razão. O vice-diretor veio nos receber sem gravata e com a barba por fazer. A equipe do instituto de pesquisa na ilha isolada deve ser um grupo sobre-humano, pensou Saikawa.

— Hmm, você presenciou o incidente de quinze anos atrás? — perguntou Moe.

— Não, não presenciei. Comecei a trabalhar lá depois do incidente. — respondeu Yamane.

— Portanto, nunca conheci o Dr. Sachiro Magata e a Dra. Michiyo Magata.

— Que tipo de incidente foi? — Moe apoiou o braço esguio no encosto do banco.

— Que tipo? — Yamane pareceu preocupado.

— Ela gosta desse tipo de história. Apesar de que não acho que seja de bom gosto. — esclareceu Saikawa enquanto acendia um cigarro. — Ela le muitos livros sobre casos de assassinato.

— Romances policiais. — corrigiu Moe.

— Pelo que sei... Aquele incidente aconteceu no instituto de pesquisa, certo? — Saikawa confirmou a Yamane.

— Certo. Foi quando o instituto de pesquisa estava mais ou menos pela metade construído. Naquela época, a ilha ainda não era propriedade privada. A Srta. Shiki Magata tinha quatorze anos na época. Contudo, como uma garota prodígio, já era uma celebridade nacional, mesmo fora da área da computação. Eu a admirava tanto que comecei a trabalhar no instituto de pesquisa. Ela esfaqueou seus pais... O Dr. Sachiro e a Dra. Michiyo até a morte com uma faca em seu quarto. — Yamane falou sem mudar sua expressão.

— Havia alguma testemunha? — Moe perguntou sem perder tempo.

— Sim, foi um homem que é o atual diretor e tio da Dra. Magata... Ele a conteve na cena do crime. A esposa do diretor também viu acontecer. Ouvi essa história do próprio diretor.

— Eles não poderiam ter impedido uma garota de quatorze anos enquanto matava duas pessoas com uma faca? — Moe perguntou.

— Bom, não faço ideia. — Yamane balançou a cabeça.

— A doutora me explicou que... A boneca matou os seus pais. O que isso significa? — Moe mencionou a história que ouvira da Dra. Magata.

— Sim, também conheço essa história. A Dra. Magata tem múltiplas personalidades. — respondeu Yamane, indiferente.

— Também ouvi um trecho dessa história. — acrescentou Saikawa.

— Bem, eu realmente não a entendo... — Yamane continuou. — De qualquer forma, foi o que o doutor dela na época disse, e é por essa razão que foi considerada inocente no julgamento. Na verdade, percebo quando converso com ela. No começo, achei que estivesse brincando comigo.

— Como percebeu? — perguntou Moe, endireitando a postura.

— Quando a encontrou, Nishinosono, sua personalidade era a da Dra. Shiki Magata... — disse Yamane, enxugando o suor do rosto. — Sabe, quer dizer...

— Sim, ela mesma explicou. — respondeu Moe.

— A senhora às vezes fala num tom masculino. — explicou Yamane. — Se perguntá-la nessas ocasiões, dirá que seu nome é Kurimoto. Todos em nossa instalação sabem. Também vi a conversa de vocês duas no vídeo, e quando disse que o assassino era uma boneca. Acho que... Pode ter se referido a alguma outra de suas personalidades.

— Por que uma boneca? — perguntou Moe. — Também tem a personalidade de uma boneca?

— Hmm, só imaginei assim. — Yamane sorriu. — De qualquer forma, todas as suas personalidades são excelentes no que fazem. Como programadora, é sem espaço para dúvida um gênio. Seu talento ainda está completamente intacto. É a Dra. Shiki Magata quem está por trás do nível atual do Instituto de Pesquisa Magata. Buscamos seus conselhos em tudo o que fazemos. Se perguntarmos uma coisa, nos dará dez respostas.

— A propósito... Onde está a Dra. Shiki Magata no instituto de pesquisa? Está mesmo em algum lugar naquela ilha? — Moe fez uma pergunta estranha.

— Aha, sim, está. Embora não me surpreende que pense assim. — respondeu Yamane, rindo. — É verdade, só a vemos na tela da TV. Entretanto não há dúvida de que a senhora está no bloco subterrâneo do instituto de pesquisa. Seus aposentos ficam no lado oeste do segundo subsolo, e ocupa quase um quarto desse andar. Bem, ouvi dizer que são cerca de seis cômodos... Depois de um incidente como esse, talvez seja mais preciso dizer que está em quarentena. Só há uma entrada e uma saída, e é monitorada de perto o tempo todo. A Dra. Magata não sai de lá há quinze anos. Afinal, o próprio instituto é um tanto peculiar... Sem uma única janela. Então, é como se todos nós estivéssemos trabalhando em um ambiente fechado, assim como ela.

Palavras como “ambiente fechado” eram novas para Saikawa.

— Quem tem permissão para entrar nos aposentos da Dra. Magata? — perguntou Moe.

— Ninguém entra lá. Desde o caso do assassinato, pessoas de fora e até mesmo aquelas de dentro do instituto de pesquisa não têm permissão para vê-la pessoalmente. Além do mais, a própria Dra. Magata se recusa terminantemente a permitir que alguém a encontre. Até onde sei... Ninguém entrou naquela área residencial. O local está isolado do mundo exterior. A rede também é protegida. O que significa que você não pode nem trocar e-mails com ela em particular no seu computador. Não pode entregar nada a ela pessoalmente.

— Essa é uma forma de evitar que alguma informação secreta vaze? — perguntou Saikawa, soltando fumaça.

— Claro, esse é um dos motivos. — respondeu Yamane. — O encontro com a Dra. Magata não pode ser realizado em particular. Ninguém pode se comunicar com ela, exceto sob a condição de que seja sempre monitorado por várias pessoas e também gravado. Isso significa que o talento de Shiki Magata é um trunfo para todo o instituto de pesquisa.

— Ela mesma é o sistema principal? — apontou Saikawa.

— Sim... Está correto. Até agora, tem funcionado bem para nós. — Yamane também tirou um cigarro e o acendeu. — Acho que a senhora quer viver como uma máquina. Ah... É algo meio sério, não é? Peço desculpas.

— Quais são os interesses de pesquisa atuais da Dra. Magata? — perguntou Saikawa enquanto apagava o cigarro em um cinzeiro.

— Não posso comentar sobre o assunto. — Yamane sorriu. — Receio, mas não posso falar sobre isso. Sabe, é um segredo de estado, mesmo dentro do instituto de pesquisa.

— Entendo... — Saikawa também sorriu. — Mesmo que possa revelar a história do caso de assassinato, essa informação não é pública?

— Hehe... Estamos loucos? — disse Yamane, com a boca entreaberta. — Bem, temos um bando de malucos no nosso local de trabalho... Todos os nossos funcionários são solteiros, com exceção do diretor e do médico assistente. Moramos no instituto de pesquisa e trabalhamos o tempo todo, se estivermos acordados. Independentemente de ser dia ou noite... Não há horário de trabalho. Nosso salário é mais de três vezes maior que o de um trabalhador assalariado comum... E, no entanto, não temos oportunidade de gastar nosso dinheiro. Apenas se acumula em nossas contas bancárias. Todos nós trabalhamos quase sozinhos. É raro encontramos outras pessoas. As reuniões são realizadas eletronicamente e conversamos por computador. Falamos mal dos outros sem hesitar. Não há boas maneiras nem cerimônias. Não nos cumprimentamos, não comemos juntos. Não há festas de boas-vindas nem de despedida. Não há viagens da empresa. Há apenas uma regra: fique quieto até que esteja feito.

— É um local de trabalho ideal. — Saikawa revelou um sorriso divertido.



Parte 3


A cor do mar estava entre o verde e o azul. Um píer de concreto flutuava no pequeno porto da ilha. Não havia nenhum outro barco dentro de seu quebra-mar. Assim que todos os passageiros desembarcaram, o barco deu ré e virou. Quando Saikawa e os outros chegaram à terra firme, o barco estava saindo por um quebra-mar em direção ao mar aberto.

Não havia mais nada no cais, exceto uma cabana de espera desocupada. Uma placa turística desbotada estava lá, porém eles não conseguiam mais lê-la. Ao lado da placa, um veículo com tração nas quatro rodas estava estacionado em uma clareira com ervas daninhas.

— São cerca de quinze minutos de caminhada daqui até o acampamento. Levarei suas bagagens pesadas de carro, então, por favor, carreguem-nas. Sinto muito, contudo apenas quatro pessoas podem ir no carro além de mim. O professor Saikawa e... Bem, há duas mulheres... Eu as levarei, dando prioridade às mulheres. — disse Yamane, olhando para os alunos. As duas mulheres pareciam ser Moe Nishinosono e Wu, uma estudante estrangeira.

— Outra mulher. — Saikawa apontou para Kunieda. — Esqueci de apresentá-la a você. É a minha assistente de pesquisa, Kunieda. É a melhor hacker do nosso escritório. Acho que devo ser o segundo melhor...

Momoko Kunieda, uma mulher alta usando um chapéu de palha, aproximou-se deles. Não usava maquiagem e tinha o cabelo curto. Não parecia uma mulher, até por conta da altura que tinha.

— Não, irei a pé, obrigada. — disse Kunieda de mau humor. Contudo estava sempre de mau humor, então não pareceu particularmente ofendida.

— Bem, vamos colocar o máximo de bagagem possível no carro. — disse Saikawa aos alunos.

Eram quase 15hrs. Todos eram pessoas com jeito de quem pratica hidroponia, trabalhando em suas mesas em salas com ar-condicionado. Deve ter sido bem difícil caminhar por quinze minutos carregando a bagagem sob aquele sol escaldante.

— De qualquer forma, por favor, levem só a Nishinosono, pelo menos. — disse um dos alunos de pós-graduação. — Vamos a pé, em ritmo tranquilo.

— O acampamento fica lá em cima, na primeira bifurcação à esquerda. Dali em diante é uma estrada reta, e há placas ao longo do caminho, então acho que vocês não vão se perder. — disse Yamane enquanto abria a porta do motorista.

— Também quero ir andando. — disse Moe, girando seu guarda-sol.

— Por favor, entre no carro. — disse Saikawa, então Moe entrou no carro a contragosto.

A estrada era asfaltada. O acampamento ficava a apenas três minutos de distância. Um prédio de concreto armado de dois andares, que parecia prestes a desabar, erguia-se na encosta, e uma pequena placa com a palavra “Acampamento” apontava para uma trilha estreita. O carro não podia entrar ali.

— Este é o prédio que costumava ser o centro do acampamento. Tem uma cafeteria, banheiros e chuveiros, no entanto agora está desocupado. Há barracas e equipamentos no depósito. Trouxemos gás propano para o local esta manhã e o inspecionamos, então os chuveiros estão funcionando bem. A eletricidade também está ligada. Às vezes, montamos barracas e brincamos. Costumamos vir aqui para brincar quando queremos sair do instituto de pesquisa. Se seguir até o final desta estrada, chegará ao instituto de pesquisa. Não há outro jeito... Afinal, ela contorna a ilha.

— Parece que demos muito trabalho para vocês. Me desculpem mesmo. — disse Saikawa ao sair do banco de trás. Moe e Wu também estavam descarregando suas bagagens. Yamane as ajudou.

— Vocês não têm telefone aqui, sabiam? Se precisarem de alguma coisa, por favor, venham ao instituto de pesquisa e me liguem. Tenho trabalho a fazer, então vou voltar uma vez e passo com vocês à noite... — Yamane entrou no banco do motorista.

O veículo com tração nas quatro rodas desceu suavemente a ladeira e, assim que sumiu de vista, a área ficou repentinamente silenciosa. Eles não conseguiam ver o oceano, embora podiam ouvir o som das ondas.

Parecia ser uma pequena distância da praia até a mata. Estava bem fresco na sombra das árvores, e o som das cigarras era tão constante quanto um ruído branco, se estivessem atentos o suficiente para ouvir. O caminho para o acampamento era uma estrada de cascalho. Era impossível para os três carregarem toda a bagagem que acabavam de descarregar do carro, então tiveram que esperar os alunos chegarem.

— Esta foi a viagem de seminário mais difícil desde que o meu Grupo de Estudos começou. — Saikawa acendeu um cigarro.

— O que quer dizer com mais difícil? Por quê? — perguntou Moe com uma expressão fria. Ela estava segurando o guarda-sol de novo.

— Nishinosono, ninguém vem para o acampamento com um guarda-sol. — disse Saikawa. — Acampar é uma tarefa árdua. Pode haver centopeias por aqui.

— Eu trouxe repelente de insetos, então vou ficar bem. — Moe assentiu. — Além do mais, pode chover, então trouxe um guarda-chuva. Sabe, este pode servir como guarda-chuva de chuva...

— Ah, tem razão. Você provavelmente é a única que vai ficar bem. Tenho certeza... — disse Saikawa. — Você deve estar surpreso com ela, Wu.

— Não, ela é engraçada. — Wu, uma chinesa, sorriu. — Como cozinhamos aqui? Estou muito interessada nisso. Temos uma fogueira?

Wu era uma estudante internacional que havia chegado da China em abril deste ano e era aluna de pós-graduação no curso de Saikawa. Natural de Nanjing, sempre dizia que não se importava com o calor. Mesmo agora, estava vestida para acampar, pelo menos mais do que Moe Nishinosono. Aparentemente, Saikawa era o único suando. Ele manteve o cigarro na boca e tirou uma toalha e um leque da mochila.



Parte 4

A temperatura caiu bastante ao anoitecer. Afinal, a capacidade térmica aqui era diferente da das áreas urbanas. As barracas eram grandes e magníficas, e levaram cerca de duas horas para montar três delas. Enquanto metade da equipe preparava as barracas, a outra metade acendia a lenha que haviam trazido do depósito e começava a preparar a refeição. Era melhor estarem prontos antes do anoitecer. O primeiro dia seria um banquete de churrasco.

Moe Nishinosono foi designada por seus veteranos para ficar responsável por cortar os legumes. No entanto, quando ela disse que nunca tinha segurado uma faca fora das aulas de economia doméstica no ensino fundamental, um aluno se ofereceu para substituí-la. Quando as barracas ficaram prontas e o óleo começou a fazer barulho nas chapas de ferro, todos os alunos, exceto Moe, estavam reunidos ao redor da fogueira.

— Oh? Onde está a Nishinosono? — Saikawa olhou em volta enquanto colocava brotos de feijão na chapa. — Parece que é a única que não está aqui...

— Ela disse que ia dar uma volta mais cedo e foi para lá... — respondeu um aluno. — Ela não podia fazer nada para preparar a refeição, sabe?

A caixa térmica que Moe havia trazido foi aberta e a cerveja foi distribuída. A cerveja estava mais gelada do que o necessário porque havia gelo seco dentro. Dependendo da direção do vento, os alunos na direção para onde a fumaça estava indo esfregavam os olhos. Por causa das árvores densas, estava bastante escuro, mesmo sendo apenas seis horas.

— Será que está bem...? — Saikawa deixou um dos alunos segurar os hashis compridos e se afastou do fogo.

— Quer dizer a Nishinosono? — Hamanaka olhou para a distância com uma lata de cerveja em uma das mãos. — Já deve estar voltando.

— Todo mundo exagerou ao dizer que ela era inútil, então pode ter se ofendido... — disse Saikawa.

Quando Saikawa bebeu metade de uma lata de cerveja e ficou vermelho como um pimentão, Moe voltou sorrindo.

— Nishinosono, já está quase pronto. Aqui. — Fuchida lhe entregou uma lata de cerveja. — Os hashis e os pratos estão ali.

Moe aceitou a lata de cerveja e sorriu, embora não disse nada.

— O que houve? — perguntou Saikawa, olhando para o rosto de Moe.

Indicando os lábios, sorriu e disse com pronúncia indistinta.

— Estou comendo chocolate agora.

— Uh-oh! — disse Kawabata em voz alta enquanto tomava um gole de sua cerveja. — Jurava que uma jovem senhorita não mastigava chocolate, né?

Moe assentiu, estreitando os olhos.

— Porque se fizer isso, vai ter cáries. Nunca mastigo chocolate... Não existe essa palavra “mastigar-chocolate” no meu dicionário.

— Não existe essa palavra em nenhum dicionário. — Saikawa se aproximou de Moe. — Você acabou de ir ao instituto de pesquisa, não é?

Moe sentou-se em um toco de árvore.

— Sim, não tinha percebido da última vez, já que vim em um helicóptero e aterrissei no telhado, mas agora que reparei, de fato não há janelas. Dei a volta no perímetro do prédio, porém não havia sinal de ninguém. O prédio parecia uma subestação.

Saikawa sentou-se ao lado de Moe e acendeu o cigarro que tinha na boca. Um dos alunos estava tirando fotos de todos com sua câmera.

— Aquele prédio já apareceu em uma revista. Acho que era de concreto armado... Há uma rampa na entrada... — disse Saikawa.

— Sim, tem uma. — respondeu Moe. O chocolate em sua boca aparentemente havia desaparecido. Moe pediu ao aluno ao lado que abrisse a lata de cerveja e começou a beber. — Oh, está delicioso... Acampar é bom. É relaxante...

— Como você pode dizer isso? — disse Fuchida, desviando da fumaça. — Só está querendo comer! Venha e pegue você mesma.

— Professor, estive pensando... Naquela boneca... — Moe sussurrou para Saikawa. — Já leu romance chamado “Dogra Magra”?

— Não, só ouvi falar do nome. É um romance policial? — Saikawa bebeu um pouco de cerveja. Já podia sentir-se perdendo a consciência. Ele era extremamente eficiente no consumo de álcool.

— Sim, é o melhor romance policial. Foi escrito há muito tempo por um homem chamado Kyusaku Yumeno... — explicou Moe. — Há uma história sobre uma raposa possuída. Um morto sai em fúria, correndo pelo quintal na noite do velório porque a pessoa que dorme com o corpo está inconscientemente movendo o cadáver como um fantoche. Em outras palavras, pensa que ve apenas o cadáver se movendo, mesmo que ela mesma o esteja movendo.

— Poderia me dar um minuto? Não entendi muito bem do que está falando. — Saikawa perguntou com o rosto corado. — Por que uma pessoa viva move um morto? Por que precisa fazer isso?

— Bem, é por causa do cansaço ou de condições extremas...? É como sonambulismo. — Moe inclinou a cabeça. — Também não me lembro de muita coisa, e não acredito nessas coisas, mas... Enfim, a pessoa moveu o cadáver sozinha, e a única lembrança que me resta é que o cadáver ficou fora de controle. É... Como quando uma criança brinca com uma boneca, movendo-a, e a criança não tem consciência de que está movendo-a com as próprias mãos, certo? Observa a boneca como se estivesse viva... Hmm, entende o que eu quero dizer?

— Ah... Não parece muito lógico, contudo entendi. E? — Saikawa a incentivou a continuar.

— Associei essa história à Dra. Magata quando ela falou sobre o assassino ser um fantoche. — disse Moe, levando a lata à boca e inclinando-a uma vez de forma exagerada. — A Dra. Magata disse que estava assistindo a boneca matar seus pais. Na realidade, acho que ela mesma era a boneca, e sua consciência deve ter observando tudo à distância...

— Essa é uma história interessante, no entanto... Não muda os fatos. — Saikawa bebeu mais um pouco de cerveja. Uma cerveja costumava ser o seu limite. — Independentemente de sua consciência, o fato é que a Dra. Magata matou seus pais. Havia testemunhas e o julgamento terminou. Isto foi há quinze anos. Não estou tão interessado nisso. Estou mais interessado na sua vida depois. Foram quinze anos de total isolamento da sociedade. Sem dúvida gostaria de conhecê-la.

Hamanaka, um estudante de pós-graduação, aproximou-se com um prato de carne e legumes e hashis.

— Aqui, Nishinosono.

— Ah, obrigada, Hamanaka.

Moe colocou a cerveja no chão e aceitou o prato com as duas mãos.

— Hamanaka! Não a mime! — disse Fuchida, rindo de longe.

Moe deu uma mordida, segurando os hashis com a mão esquerda.

— Delicioso! Quem temperou?

— Ninguém temperou. Está apenas coberto com molho yakiniku¹. — respondeu Hamanaka.

— Quem fez o molho? — Moe voltou a perguntar. — Não é só molho de soja, né...?

— Quem faria o molho? Eu só comprei. — disse Fuchida, colocando o yakisoba² na chapa.

Sobre o fogo, Wu, uma estudante estrangeira, picava repolho.

— Oh... Eles vendem o molho...? — Moe se levantou e caminhou até a chapa. — Wow! É yakisoba, não é? Sempre quis experimentar yakisoba uma vez...

— Geeh! Quer dizer que nunca comeu yakisoba? — falou Kawabata.

Mais uma vez, todos suspiraram.



Parte 5

Sob o luar, Saikawa fumava um cigarro contente. Durante esses três dias, havia preparado um maço de cigarros. Ele era um fumante inveterado.

Os alunos conversavam em três grupos, tomando um pouco do uísque que haviam trazido. Estava fresco, como quando o ar-condicionado está funcionando um pouco, e, para sua própria satisfação, não parecia haver mosquitos. Ninguém entrou na tenda e todos estavam do lado de fora, aproveitando o conforto.

Com exceção do céu, os arredores estavam escuros. Saikawa havia parado de beber álcool e estava tomando uma lata de refrigerante não tão gelada. Yamane, o vice-diretor do instituto de pesquisa, ainda não havia chegado. Todos estavam ansiosos pelo sorvete com gelo seco que Moe havia trazido, mas decidiram esperar até a chegada de Yamane.

Pouco depois das 20hrs, o som das hélices de um helicóptero pôde ser ouvido no céu. Estava bem perto, porém eles não conseguiam vê-lo. O som se movia da ilha para o norte.

— É o helicóptero do instituto de pesquisa. — disse Moe, olhando para cima. — Esse é o som de um helicóptero a jato.

Moe estava familiarizada com o som de diferentes motores. Costumava dizer que adorava o som dos motores de carros e motocicletas. Para apreciar o som do motor, ela não tinha aparelho de som nem rádio no carro.

Conforme a noite caía, eles naturalmente, ou talvez intencionalmente, começaram a contar histórias de fantasmas.

O estudante de pós-graduação Fuchida assumiu a liderança na apresentação de uma série de contos. Contudo, todas as pessoas reunidas ali eram estudantes da área de ciências. Esse tipo de entretenimento não lhes era muito empolgante. O mais assustado era o estudante de pós-graduação Fukashi Hamanaka, enquanto as três mulheres estavam despreocupadas. No entanto, Wu, uma estudante estrangeira, não entendia bem japonês, e não esperavam a menor reação da pesquisadora Kunieda. Os estudantes do sexo masculino pareciam estar conversando com Moe na esperança de assustá-la, todavia também não conseguiram atingir esse objetivo. Nenhum deles jamais tinha visto um fantasma ou um OVNI, e nenhum parecia acreditar em tais coisas. Moe fez todos rirem ao dizer que os caracteres kanji difíceis eram muito mais assustadores do que fantasmas.

— Tenho mais medo do kanji que significa “nojento”. — disse Moe.

Ainda assim, os que não foram contestados tentaram continuar inventando histórias. Embora quando Momoko Kunieda disse... — Seu idiota, o que tem de engraçado nisso? — suas histórias de fantasmas acabaram.

Por volta das 22hrs, desistiram de esperar por Yamane e decidiram tomar sorvete juntos. Então, as três mulheres (Moe, Wu e Kunieda) foram até o prédio do acampamento para tomar banho e, quando voltaram, a maioria dos estudantes estava em suas barracas.

Ele ainda não estava com sono, entretanto Saikawa também decidiu fumar seu último cigarro e entrar na barraca.

A pesquisadora associada Kunieda e Wu entraram na barraca das mulheres. Moe deixou seus pertences na barraca, saiu de novo e caminhou até Saikawa. Quando recobrou a consciência, de alguma forma não havia mais ninguém lá além dos dois.

— Parece que todos entenderam nossa situação. — Moe sentou-se em um toco ao lado de Saikawa.

— Vou fingir que não ouvi esse comentário sugestivo. Todos devem estar cansados ​​do trabalho árduo de hoje. — Saikawa olhou para cima enquanto soltava a fumaça. — Podemos ver muitas estrelas. Não acredito que ela tenha vivido por pelo menos quinze anos sem ver um céu tão bonito.

Parecia que não conseguia parar de pensar em Shiki Magata, uma pessoa que sequer tinha conhecido. Saikawa ficou surpreso com a própria afirmação.

— Não é só a Dra. Magata, né? Todo mundo no instituto de pesquisa parece ser assim. Tenho certeza de que ainda estão olhando para o visor. — Moe também olhou para o céu.

— Mas talvez esse modo de vida seja bonito. — disse Saikawa. — Olhar para a natureza e achá-la bonita é antinatural. É a prova de que geralmente vivemos uma vida suja. O fato de poderem viver sem janelas, bloqueando a natureza, significa que têm muita beleza dentro de si, não é? Como temos um trabalho chato e uma vida suja, queremos algo como uma recompensa, assim como queremos a natureza.

— Esse tipo de vida ao ar livre um dia se tornará realidade virtual e será desfrutado na privacidade do nosso próprio quarto. — disse Moe. — Tenho certeza de que a pessoa comum não se sente confortável com isso...

— A maioria das pessoas acharia que essa simulação da natureza não tem valor. — Saikawa acendeu outro cigarro. — Porém, no geral, a natureza é só para enfeitar, sabe? A natureza gerada por computador certamente será aceita. Contudo, é só um truque... As pessoas deveriam perceber que não existe algo como a coisa real em primeiro lugar... Todas as acusações de desumanização e outras palavras bonitas são bobagens. De todas as ferramentas criadas pelos humanos, os computadores são os mais humanos e mais próximos da natureza.

— Professor, posso fumar um cigarro? — Moe sorriu. — Em resumo, isso é gentil com as pessoas?

— Não gosto dessa expressão, no entanto é sim. — respondeu Saikawa. — Você não deveria fumar. Ainda é menor de idade, certo?

Moe pareceu um pouco convencida.

— Tenho quase vinte anos.

— Quando os alicates foram inventados, tenho certeza de que havia quem insistisse que não era humano usar alicates. Usar tal ferramenta era sinal de depravação. Quando os humanos começaram a usar o fogo, deve ter havido tribos que o rejeitaram. Entretanto somos criaturas que usam ferramentas, para começar. Não há como voltar atrás. Aqueles que condenam essas coisas usando palavras como “solitário” e “vaidoso” são os que perderam de vista a humanidade.

— Mas não há um problema com a energia nuclear, por exemplo? — perguntou Moe, segurando os joelhos.

— A energia nuclear é um pouco demais. Com certeza é um problema. — disse Saikawa. — Porém o fogo é igualmente perigoso e polui o meio ambiente. A energia hidrelétrica, a energia eólica e as células solares destroem o meio ambiente. A vida humana não pode ser limpa. Somos, por natureza, organismos ambientalmente destrutivos. Há dezenas de milhares de anos, fomos a espécie escolhida por nossa capacidade de destruir a natureza. É apenas uma questão de velocidade com que o fazemos. A única maneira de nos impedir de destruir o meio ambiente muito rapidamente é conservar energia. A única maneira de fazê-lo é... Instalar computadores em todos os setores e controlar a energia. A única maneira de satisfazer o desejo de garantir a humanidade nessas situações é por meio da tecnologia de realidade virtual. Tal artifício é a busca da humanidade. Desde uma perspectiva ideal, ninguém deveria sair de casa. Em outras palavras, impedir que as coisas se movam...

— A Dra. Magata mencionou a mesma coisa.

— É óbvio. — Saikawa assentiu. — Escolhi algumas palavras simples para você, com nuances sutis, e fiz uma declaração polêmica, contudo... É uma percepção inconfundível. A única vantagem que nós, pesquisadores, temos é a nossa irresponsabilidade de não produzir nada. Embora somos os únicos que conseguem pensar 100 ou 200 anos à frente.

Eles ouviram algumas risadas vindas de dentro de uma tenda. Os alunos deviam estar jogando cartas com as lanternas acesas.

— Bem... Professor, acha que seria ideal trabalhar em um lugar como aquele instituto de pesquisa ali?

— Sim, acho que sim. — respondeu Saikawa. — Se possível, prefiro não conhecer pessoas também.

— Contudo, por favor, não aceite um emprego naquele lugar. — disse Moe. — Professor, estou quase certa que fará qualquer coisa que lhe vier à mente, e fará sem perder um segundo...

— Não tão rápido quanto você. Isto é uma preocupação desnecessária. Acho que não conseguiria fazer aquele trabalho. — Saikawa esboçou um pequeno sorriso. — Tenho um lado mais mundano do que imagina... Estou aliviado por ter percebido isso recentemente. Por exemplo, gosto de fumar. Gosto de café. Não posso dizer que levo uma vida racional.

— Não assiste TV nem le jornais, não é? — Moe pareceu preocupada. — Parece pensar apenas na sua pesquisa.

— Isto não é verdade. Como agora, estou passando meu tempo com você...

Saikawa se levantou.

— Acho que pode estar ficando comigo mesmo sem querer. Porque sou a filha de Kyosuke Nishinosono...

— Sabe, Nishinosono... — disse Saikawa, tomando seu tempo para escolher as palavras. — Eu nunca faço nada que não quero fazer fora do meu horário de trabalho. E agora, não estou trabalhando.

Embora dissesse aquilo, o próprio Saikawa achava que aquelas palavras eram uma mentira. Havia muitas coisas em seu trabalho recente que não podiam ser divididas entre gostos e desgostos. Desde que se tornou professor associado, uma montanha de trabalho não criativo havia sido imposta a ele. Eles se atritavam, e os valores políticos repugnantes estavam se acumulando em seu corpo como eletricidade estática. Saikawa sentia que faíscas voariam se tocasse um espírito inocente e puro como o de Moe Nishinosono.

— Vou para o instituto de pesquisa agora. Professor, poderia vir comigo, por favor? — pediu Moe de repente.

— O quê? Agora? — Saikawa ficou surpreso. Ele olhou para o relógio. — Oh, já são 22hrs...

Dez horas da noite já era tarde, contudo Saikawa era uma pessoa noturna. Talvez nem sequer exista um conceito de tempo baseado no senso comum no Instituto de Pesquisa Magata, pensou Saikawa. Além do mais, gostou da transparência da proposta extravagante de Moe mais do que qualquer outra coisa.

— Quando for ao instituto de pesquisa irei à noite, foi o que prometi a eles.

Moe se levantou.

— Talvez possamos encontrar a Dra. Shiki Magata.



Parte 6

Saikawa explicou à Assistente de Pesquisa Kunieda, que só mostrou o rosto de dentro da tenda, que iria ao instituto de pesquisa. Kunieda apenas assentiu e não disse nada. Em momentos como esse, pensou Saikawa, fico mais aliviado se não me perguntarem nada.

Saikawa e Moe caminhavam com lanternas, iluminando a estrada completamente escura.

Eles mal trocaram palavras durante o percurso, no entanto Moe estava animada, dizendo que nunca havia vivido uma experiência tão emocionante em toda a sua vida.

Saikawa nunca havia caminhado sozinho com uma mulher à noite. Nunca havia experimentado um romance assim em sua vida. Não, talvez ele o tivesse descartado por um motivo mais trivial. Qual seria esse motivo trivial...? Saikawa pensou.

A lua cheia estava alta no céu. O céu estava tão brilhante que parecia milagroso.

O instituto de pesquisa ficava no topo de uma colina, apenas a área ao redor era desprovida de árvores. Havia poucos, ou nenhum, vestígio de alterações feitas pelo homem em seu terreno plano. O prédio tinha cerca de dois andares, entretanto a falta de janelas tornava impossível determinar o número de andares. O próprio prédio era uma silhueta toda preta, misturando-se à escuridão nebulosa ao redor, com apenas algumas luzes ao redor da entrada. Depois de subir uma ladeira suave, uma grande porta vermelha brilhante podia ser vista em um local ligeiramente isolado. Saikawa sentiu como se tivesse esquecido seu senso de cor até ver a cor daquela porta. Era uma bela cor vermelha-vermelhão que não existia na natureza. A cor era uma onda de rádio do comprimento de onda mais longo que os fotoreceptores do olho humano podem sintonizar.

A área ao redor da entrada era revestida de azulejos brancos, e um botão na parede parecia ser um interfone. Acima da porta vermelha-vermelhão, uma câmera de televisão apontava para os visitantes. Não havia nenhuma indicação do nome do instituto de pesquisa ou qualquer outra coisa. Talvez porque pessoas de fora não vinham a um lugar como aquele. Ou talvez a instalação negasse acesso físico a humanos.

Moe apertou o botão.

— Você é funcionário desta instalação? — de repente, uma voz feminina articulada perguntou. Era um tom sem inflexão, uma nítida voz sintetizada eletronicamente.

— Não! — respondeu Moe.

— Por favor, aguarde um momento. — eles ouviram a voz nítida outra vez.

Moe se virou e disse a Saikawa.

— É reconhecimento de voz.

— Parece que nem pergunta o que estamos fazendo aqui. — comentou Saikawa, olhando ao redor. Estava muito interessado naquele prédio que parecia uma fortaleza. O próprio prédio, Saikawa se lembrara erroneamente, não era feito de concreto moldado, mas sim pintado com a mesma cor. Talvez devido à qualidade da construção, quase não havia deterioração apesar dos quinze anos de idade. Saikawa tentou imaginar por que não haviam colocado uma janela do lado de fora do prédio, porém não conseguiu entender.

Após esperarem um minuto ou dois, a voz de um jovem soou.

— Sim, quem é?

— Com licença, meu nome é Nishinosono, da Universidade N. — de repente, Moe falou em voz baixa. — Hmm, você poderia me colocar em contato com o Sr. Yamane? Não estou me sentindo bem e vim aqui para pegar um remédio.

— Ah, você é quem está acampando. Chamar o vice-diretor? Certo, espere um segundo...

Ao ouvir a voz, Moe se virou para Saikawa e mostrou a língua maliciosamente.

— Você mentiu quando disse que prometeu a eles...? — Saikawa suspirou. — Fui um tolo por não perceber.

— Desculpe, professor. — Moe juntou as mãos e piscou. — Por favor, conte a mesma história, ok?

— Não tenho escolha... — Saikawa estalou a língua.

Considerando isso, se ela tivesse prometido ir ao instituto de pesquisa à noite, teria contado a Saikawa logo depois de retornar. Ela deve ter tido uma ideia repentina, pensou Saikawa. Moe devia querer trazer Saikawa para cá. Percebeu que estava inesperadamente vulnerável a ela.

A porta vermelha se abriu como uma persiana. Uma luz ofuscante vazou de dentro, revelando uma figura silhuetada. A cena deu a impressão de que o próprio prédio do instituto de pesquisa era uma nave espacial gigante e um alienígena acabara de desembarcar.

— O que houve? — perguntou Yamane. Eles não conseguiam ver sua expressão muito bem devido a luz de fundo.

— Desculpe por incomodar tão tarde... Nishinosono está com uma dor de cabeça terrível. Poderia, por favor, dar algum remédio para ela? — mentiu Saikawa.

Moe também fez uma expressão de dor e abaixou a cabeça, dizendo... — Sinto muito.

Saikawa pensou em usar uma dor de estômago como desculpa, contudo decidiu que ninguém com dor de estômago conseguiria andar até ali. Já tinha chegado até ali e não havia como voltar atrás.

— Ah, de qualquer forma, entrem... — disse Yamane, convidando-os a entrar.

Quando Saikawa e Moe entraram, a porta vermelha desceu devagar. Havia outra porta de alumínio a poucos metros dali. O local tinha ar-condicionado, e o ar fresco e seco era agradável para eles.

Yamane vestia um jaleco branco. Sua mão pousou em um pedaço de vidro de cerca de trinta centímetros quadrados na parede e pronunciou seu nome lentamente. — Yukihiro Yamane.

— Coloquem suas mãos direitas aqui e digam seus nomes. — disse Yamane, virando-se e apontando para o pedaço de vidro na parede.

Saikawa fez como instruído primeiro. A câmera de TV acima da porta estava apontada para Saikawa. Moe então colocou a mão nela e disse seu nome.

— Duas pessoas foram registradas como hóspedes. — disse uma voz feminina sintetizada, e a porta de alumínio deslizou sem emitir nenhum som.

Um corredor se estendia em linha reta a partir da porta. À esquerda, havia um espaço considerável semelhante a um saguão, e outro corredor se estendia para os fundos daquele lado. As luzes estavam apagadas no final de ambos os corredores, e estava escuro demais para ver o fundo do corredor. A iluminação no saguão também era fraca.

— Débora. — De repente, Yamane olhou para cima e disse. — Chame todos que ainda estão acordados.

— Comando recebido. — a mesma voz feminina grave de antes soou.

— Quem tiver remédio para dor de cabeça, envie para o saguão com água... Débora, é só isso. — Yamane então olhou para Saikawa e Moe e disse. — Por aqui, por favor.

— Quem é Débora? — perguntou Moe.

— É o nome do subsistema. — respondeu Yamane. — É um computador.

— É o nome de uma profetisa israelense, certo? — disse Saikawa.

— Oh, sério? — Yamane parecia não saber.

Enquanto os três se dirigiam para o saguão, as luzes ao redor do perímetro foram se acendendo aos poucos, em contrapartida, as luzes ao redor da entrada onde estavam diminuíram.

Enquanto Moe olhava para as luminárias do teto, Yamane explicou.

— Também é controlado pela Débora.

Saikawa olhou ao redor enquanto se sentava em um sofá.

— Incrível... Posso fumar um cigarro, Yamane?

— Pode. Há poucos lugares aqui onde não é permitido fumar, e Débora lhe dirá se você fumar em uma área proibida. — Yamane permaneceu de pé. — Você está bem? Nishinosono, será que pegou um resfriado?

— Bem, é um sintoma comum. Esqueci de trazer meu remédio... — Moe continuou sua performance magistral enquanto estava sentada em um sofá.

— Eu disse que visitaria vocês à noite, mas não pude ir. Me desculpe. — disse Yamane, sentando-se em frente a Saikawa. — Na verdade... Tive um pequeno problema...

— Problema? — perguntou Saikawa enquanto acendia um cigarro. Ele olhou para Moe e a viu recostada no sofá, com os olhos fechados, porém ouvindo atentamente.

— Sim... O diretor saiu de repente e não pude sair daqui. Sabe, eu ocupo o cargo de vice-diretor... — explicou Yamane.

— Saiu de helicóptero? — perguntou Saikawa, e Yamane assentiu. Era o som que tinham ouvido algumas horas antes.

Saikawa ouviu um pequeno ruído estranho vindo da direção do corredor e, quando olhou naquela direção, viu um carrinho em forma de caixa com cerca de oitenta centímetros de altura contornando a esquina. Ele se perguntou a princípio se alguém o estava empurrando, contudo não foi o caso. Moe se virou e olhou naquela direção também. Era uma caixa de alumínio com quatro rodinhas. Tinha mais ou menos o tamanho de um carrinho de bebê um pouco menor.

Ao se aproximar de Yamane, a caixa, que se movia automaticamente, parou sem fazer nenhum som. Yamane se levantou e pegou um copo d’água e uma garrafinha colocados em cima. Moe se levantou, pegou-os e observou a máquina automatizada.

— Este é um robô. — explicou Yamane. — É um modelo bem antigo. Existem outros mais incríveis nesta instalação.

Moe tirou o remédio do frasco e bebeu um copo d’água. Não, Saikawa não sabia se de fato havia tomado o remédio.

— Muito obrigada. — Moe devolveu o copo e o frasco de remédio para Yamane.

Yamane colocou o copo e um frasco naquele robô em forma de carrinho e disse.

— Débora, peça para P1 retornar.

Ele começou a se mover devagar na direção de onde viera, eventualmente virando a esquina do corredor e desaparecendo.

— Aquele serve apenas para transportar coisas. — explicou Yamane. — É o mesmo usado em fábricas, contudo um computador diferente o controla.

— E busca água sozinho? — perguntou Moe, olhando para a passagem.

— Não, não pode ser tão avançado assim. Alguém neste prédio ouviu minha mensagem, colocou o copo d’água naquele aparelho e apenas o enviou para cá. — Yamane sorriu. — É mais fácil assim, já que não precisa ver outras pessoas, não é?

— Com licença... — Moe levou as mãos às têmporas e franziu a testa. — Poderia me trazer uma xícara de café quente, por favor?

Nossa... A ousadia dela me impressiona. Saikawa estalou a língua mentalmente.

— Certo, você deveria aproveitar. Agora, deixe-me mostrar o meu quarto para vocês dois. — Yamane os convidou.

Saikawa também apagou o cigarro em um cinzeiro estiloso no saguão, levantou-se e olhou para o teto uma vez. Teve a vaga sensação de que alguém o observava.



Parte 7

Enquanto caminhavam pelos corredores, apenas o que os rodeava era iluminado por um gradiente de luz. A frente ficava mais clara uma vez após a outra e, ao se virarem, a parte de trás escurecia. Os corredores eram todos brancos, assim como os pisos, tetos e paredes, com portas ocasionais em cores primárias, amarelo e laranja, alinhadas nas paredes um tanto recuadas. Nenhuma das portas tinha janelas e não havia placas de sinalização. Em certo momento, passaram por um robô-vagão carregando vários arquivos. O robô parou na lateral do corredor quando Saikawa e os outros se aproximaram.

— A atmosfera é bem diferente de quando estive aqui antes. — disse Moe atrás de Yamane.

— Nishinosono, você entrou neste prédio pelo telhado, não foi? — perguntou Yamane. — O telhado é o heliporto. Um elevador vai direto do heliporto para o escritório do diretor. Ao lado do escritório do diretor, há uma sala especial onde se pode conversar com a Dra. Magata. Foi como se você nunca tivesse estado dentro do instituto de pesquisa.

— Quantos andares tem este prédio? — perguntou Saikawa. — Do lado de fora, não consigo dizer com certeza...

— São três andares, um acima do solo e dois abaixo. Meu quarto fica no primeiro subsolo. — explicou Yamane. — Não há escadas. Todo o transporte é feito por elevador ou rampa. Este prédio é conveniente para funcionários em cadeiras de rodas e robôs.

Os três desceram uma longa rampa suave. A porta do quarto de Yamane era verde. Havia um pequeno painel de vidro na parede ao lado da porta, e quando Yamane colocou a mão nele, a porta se abriu.

— Um sistema assim já existia há quinze anos? — perguntou Moe, olhando para o vidro.

— Não, havia um plano, no entanto só foi concretizado há seis ou sete anos. Antes, usávamos cartões magnéticos e senhas. Eu costumava perder meu cartão e não conseguia entrar no meu quarto.

Quando Yamane entrou no quarto, as luzes se acenderam.

— Por favor, entrem.

Era uma sala espaçosa. Havia várias divisórias baixas e duas grandes vitrines. As paredes eram decoradas com pipas japonesas. A sala era cercada por móveis baixos. Além disso, havia vários bonsais. Não havia estantes de livros ou arquivos de qualquer tipo. A sala era bem iluminada.

— Por favor, sentem-se ali. — Yamane apontou para uma grande mesa em formato de cabaça no centro.

Puxando cadeiras leves de alumínio, Saikawa e Moe se sentaram. Eles não conseguiam ver a tela do computador por causa das divisórias. Sobre a mesa havia uma pequena pista de corrida com dois modelos de carros de Fórmula 1, um amarelo e um vermelho.

— Por favor, aguardem um pouco. — Yamane abriu a porta à esquerda e saiu da sala.

— Você não está sendo um pouco insistente? — Saikawa disse a Moe em um sussurro.

Moe piscou e sorriu.

— Mas é bom ver o instituto de pesquisa, não é? Professor...

— Sim, é. — Saikawa assentiu sinceramente e olhou ao redor.

Havia vários sprinklers no teto. Eram cerca de três vezes mais do que o normal. Lâmpadas fluorescentes estavam embutidas em ranhuras no teto. Além da porta de entrada do corredor, havia apenas a porta por onde Yamane acabara de sair. Sem janelas, porém havia aberturas de ventilação longas e estreitas na interseção do teto com a parede e na junção do piso com a parede.

Quando Moe estava mexendo no carrinho de corrida, ouviu um barulho e rapidamente o colocou de volta.

Três xícaras de café foram colocadas em uma bandeja, e Yamane entrou, empurrando a porta atrás de si. Aquela porta não parecia ser automática.

— Como está, Nishinosono? Quero dizer, como está sua condição... — Yamane entregou a xícara primeiro para Moe e perguntou.

— Sim, estou muito melhor. Muito obrigada. — Moe sorriu. — Uma xícara de café vai tornar tudo perfeito.

— Este é o primeiro acampamento da vida dela. — Saikawa continuou. — Ela nunca dormiu em um lugar sem ar-condicionado.

— Ah, entendi... Deve ser uma provação para ela. — Yamane pousou sua xícara de café e sentou-se em sua cadeira.

— Você trabalha nesta sala? — perguntou Saikawa enquanto tomava o café.

— Sim, trabalho. Estou aqui o tempo todo. Ali é a sala de estar. Tem um quarto, cozinha, sala de estar e um banheiro... Não é muito espaçoso, contudo, bem, não tenho do que reclamar. — explicou Yamane, olhando para a porta. — Às vezes, nem saio daqui para o corredor por dias.

— Há várias pipas em exposição. É seu passatempo? — perguntou Moe, observando as pipas japonesas penduradas na parede.

— Sim, essas eu que fiz. Elas não funcionam muito bem. Parecem ser pesadas. — respondeu Yamane. Ele tinha quatro pipas no total: três quadradas e uma em formato de lacaio. A maior tinha cerca de metade do tamanho de um tatame.

— Por que o diretor saiu tão de repente? — perguntou Moe, mudando de assunto.

— Hmm, tivemos um pequeno contratempo... — Yamane parou de falar. — Não deve demorar a voltar.

— Que pena. Queria agradecê-lo pelo outro dia... — Moe segurava uma xícara de café com as duas mãos. Parecia não conseguir beber o café nessa temperatura ainda.

Yamane tirou um cigarro longo e fino e o acendeu. Ele olhou para Saikawa e depois para Moe.

— Vocês dois vieram ver a Dra. Shiki Magata, não é? — disse Yamane enquanto soltava a fumaça.

Os olhos de Moe se arregalaram um pouco e, com uma expressão preocupada, olhou de soslaio para Saikawa.

— Desculpe. — Saikawa endireitou a postura e decidiu se desculpar sinceramente.

— Hum, eu enganei o professor para me trazer aqui. — Moe se levantou e fez uma reverência. — Me desculpe. Menti sobre a minha dor de cabeça.

— Aha... Imaginei... — Yamane riu. — Nishinosono, você atua muito bem. Sabe, também estou um pouco entediado, então não me incomodou. Acabei de terminar um projeto e estava relaxando. Entretanto, desde que o diretor saiu, não posso sair deste prédio. Graças a Deus vocês dois vieram. Pensei em mandar alguém para o acampamento em meu nome, mas é muito difícil pedir esse tipo de coisa... Também não tenho como entrar em contato com vocês... Você tomou o comprimido que lhe deram?

— Não, não tomei. — Moe sorriu amargamente e se sentou. — De verdade, me desculpe por enganá-los. É só... Quero muito que o professor Saikawa conheça a Dra. Magata.

— Posso vê-la? — Saikawa perguntou a Yamane.

— Na verdade... — a expressão de Yamane se fechou. — Preciso discutir com a Dra. Magata sobre meu próximo projeto esta noite... Porém, no atual momento, não consigo contatá-la.

— Não consegue contatá-la...? — perguntou Saikawa. — Ela está indisponível no videofone?

— Sim. Liguei e ela não atendeu. — respondeu Yamane. — Essa situação nunca aconteceu antes. Ela é muito pontual com suas promessas. Estou um pouco preocupado.

— Contudo a doutora tem múltiplas personalidades, não é? — perguntou Moe.

A expressão “ter uma personalidade” soa estranha em japonês, achou Saikawa.

— Sim, é verdade. — Yamane assentiu enquanto tomava um gole de café. — Não tenho certeza, contudo suas múltiplas personalidades parecem se comunicar entre si, então nunca tivemos esse tipo de problema antes. Parece que todas recebem a mensagem, não importa com qual personalidade falemos. Pessoalmente, não acredito muito em múltiplas personalidades. Acho que é apenas uma peculiaridade sua.

— Será que a falta de resposta pode ser devida a alguma doença ou outra coisa? Será que está muito doente para se levantar, ou algo assim... — Moe deu sua opinião.

— Bom, tem um interfone na cama dela. Sem contar que, consultei o seu médico por precaução. — Yamane parecia preocupado. — De qualquer forma, não houve resposta nenhuma... Devo tentar alguma outra coisa ou não...? Sabe, o diretor está ausente agora...

— Nesse caso... — Moe ficou séria. — Você definitivamente deveria entrar. O que pode ter acontecido com ela? Não hesite em fazer isso...

— Contudo... Não posso entrar no quarto dela. — Yamane sorriu sem jeito. — A porta não abre.

— Como assim? — perguntou Moe.

— A porta do quarto da Dra. Magata está trancada. — Yamane suspirou e então respondeu. — Bem... É verdade... Devo explicar? Não tem nada de secreto a respeito...

Yukihiro Yamane soltou uma baforada de fumaça de cigarro. Saikawa e Moe pousaram suas xícaras de café e esperaram por sua explicação.

— Notei que não consegui contatar a Dra. Magata esta noite... Na verdade, ela está de férias há uma semana e bloqueou por completo o acesso, então não conseguimos falar com ela a semana toda. Bem, essas suas férias são bem comuns. Porém, estranhamente, a porta não abria. Nossa equipe de manutenção está inspecionando a porta do quarto, mas ao que parece não é um problema de hardware. Parece ser um problema de software.

— Não seria melhor você entrar no quarto dela, mesmo que signifique arrombar a porta? — Saikawa deu sua opinião.

— Certo, pensei em fazê-lo... — Yamane olhou para baixo. — No entanto seria um grande problema, sabe? Se fosse o fazer, pensei em fazer depois que o diretor voltasse... Estou só esperando por isso agora. Sabe, não quero estragar o equipamento à toa...

— Onde o diretor foi quando algo pode ter acontecido com a Dra. Magata? — Moe perguntou. Saikawa também se perguntou a respeito.

— Ele foi buscar a irmã mais nova da doutora. — respondeu Yamane.

— A Dr. Magata tem uma irmã mais nova? — Saikawa ficou surpreso.

— Sim, no entanto não a conheço. — Yamane assentiu. — Ela ainda estava no ensino fundamental quando seus pais morreram e ficou com parentes nos Estados Unidos. Parece que ela nos informou de repente que viria para cá, e o diretor está indo buscá-la agora.

Eles ouviram um bipe eletrônico do outro lado da divisória.

— Com licença... — se desculpando, Yamane se levantou e saiu.

Moe também se levantou e olhou na direção.

— O que houve? — Yamane perguntou ao visor.

— Yamane, voltou a funcionar. — a voz de um jovem soou pelos alto-falantes.

— Ótimo, e o que aconteceu? — Yamane perguntou.

— Não faço ideia. De repente, tudo voltou ao normal. Não há nada de incomum agora.

— Certo! — disse Yamane, virando a cabeça em direção a Saikawa e Moe. — Parece que a porta está prestes a se abrir. Professor, vocês dois gostariam de vir comigo?

— Sim, por favor... — Saikawa se levantou.



Parte 8

Saikawa olhou para o relógio. Eram quase 11 da noite. Seu relógio era ajustado com precisão, até o ponteiro dos segundos, todas as manhãs. Entretanto, sentia que o tempo não tinha significado neste prédio. Talvez as manhãs e as tardes fossem iguais aqui.

Seguindo Yamane, Saikawa e Moe caminharam pelo corredor branco. Em um determinado ponto, desceram para o segundo subsolo por uma rampa, todavia a atmosfera permaneceu a mesma. Não importava para onde olhassem, nenhum número ou letra era exibido.

Yamane abriu a porta preta no final de um longo corredor, dizendo seu nome, e entraram em uma grande sala retangular. Lá dentro estavam um homem e uma mulher, ambos de jaleco branco. À direita da sala, podiam ver a porta do elevador. À esquerda ficava uma sala com a parte superior de vidro colorido, na qual também era possível ver os outros dois homens. A sala continha dois terminais de computador, uma mesa e algumas cadeiras redondas simples.

— Estes são o professor Saikawa e Nishinosono, da Universidade N. São meus amigos. — depois de dizer isso ao homem e à mulher de jaleco branco, Yamane olhou para Saikawa e os apresentou. — Esses são Mizutani e Shimada.

Saikawa apertou as mãos dos dois. O homem chamado Mizutani era da mesma geração que Yamane, e sua barriga se projetava para fora da frente do jaleco branco. Tinha um rosto grande e olhos amendoados, seus óculos redondos pareciam pequenos. A mulher, Shimada, tinha uma constituição física contrastante com a de Mizutani e era magra. Ainda parecia jovem. Também usava óculos redondos sem aro e tinha o cabelo comprido preso.

— Ainda sem resposta lá de dentro. Gostaria de abrir a porta? — Shimada perguntou a Yamane com voz nervosa.

— Como está o Dr. Yuminaga? — perguntou Yamane.

— Nós o contatamos e ele chegará em breve. — respondeu Mizutani, ofegante. Talvez esse fosse seu jeito habitual de falar.

À frente deles havia uma porta amarela. Aparentemente, ela levava ao quarto de Shiki Magata.

Um homem alto, de meia-idade, saiu de uma sala com paredes de vidro à esquerda. Estava vestindo uma camiseta preta e um boné de beisebol, não um jaleco branco.

— O que devemos fazer? Vamos abrir aquela porta? — perguntou o homem de boné em voz alta. — Em quinze anos, nunca abrimos aquela porta sem a permissão da doutora. Tudo bem fazermos isso?

— Não temos escolha. Se algo der errado, estaremos em apuros. Se nada acontecer, pedirei desculpas à doutora. — respondeu Yamane.

— Mas ela é uma assassina, sabia? — disse o homem de boné em tom seco.

— Não se preocupe. — Yamane sorriu. — Isso foi há muito tempo. Ela está bem agora.

Saikawa e Moe recuaram um pouco e se entreolharam.

Naquele momento, algo incomum aconteceu.

— O que foi? — gritou Yamane.

— C-Como eu vou saber? — murmurou Mizutani.

As luzes do cômodo piscavam e acendiam. O ciclo era como uma batida de coração. Junto com isso, um zumbido eletrônico surgiu do nada.

— Ei! A porta está abrindo! — gritou o homem de boné.

Outro homem, forte como um judoca, saltou da sala à esquerda, com um cigarro na boca.

A porta amarela na frente do quarto se abriu lentamente. Todos no local se reuniram em um ângulo que permitia ver através da porta.

Moe se aproximou de Saikawa e seu ombro tocou levemente o braço direito dele.

As luzes piscavam em um ciclo constante. O ruído estridente parecia não parar.

— Débora! — disse Yamane, olhando para a porta. — Verifique as luzes.

— Anomalias detectadas. — uma voz sintética veio do teto. Porém, as luzes não pararam de piscar.

A porta amarela se abriu por completo.

Atrás havia outra porta de alumínio, e uma janela de vidro podia ser vista.

Além da janela, estava tudo escuro.

— Alguém abriu a porta? — perguntou Yamane, virando-se.

— Ainda não a abrimos... Não fizemos nada. Ela abriu sozinha.

O praticante de judô que saiu depois respondeu com uma voz fina que não combinava com seu corpo.

— A doutora a abriu por dentro?

— Ela não deveria ser capaz de fazer isso. — Yamane balançou a cabeça.

— Ah! — exclamou Mizutani, dando um passo para trás.

A porta de alumínio nos fundos deslizou.

— Doutora! — gritou Yamane. Era o mais próximo da porta. — Dra. Magata! Sou eu, Yamane!

Algo branco se moveu na escuridão.

Movia-se lentamente.

Estava girando.

Todos os olhares se voltaram para aquela coisa branca na escuridão além da porta.

A princípio, Saikawa pensou que fosse um manequim.

Alguns metros adiante, a partir da porta dos fundos, estava uma boneca vestida com roupas brancas, volumosas como um vestido de noiva.

— Ei, o que diabos é... — era a voz de Mizutani.

Ela estava virada de costas para eles a princípio. Eles podiam ver o enfeite branco em seus longos cabelos negros.

Estava se virando devagar e prestes a encará-los.

Ninguém podia entrar na sala.

As luzes pulsavam como um coração.

Shimada deu um grito curto e se ajoelhou no chão.

A boneca realmente usava um vestido de noiva. E agora parou, encarando-os.

— Doutora! — Yamane exclamou com a voz trêmula e deu um passo à frente.

Moe levou as mãos à boca e recuou para trás de Saikawa.

Aquilo não era uma boneca.

Contudo, estava avançando lentamente em direção a eles.

Não era uma boneca.

— Hee! — alguém disse com a voz embargada.

— Erro inesperado detectado. — a voz de Débora ecoou pela sala.

A boneca estava vindo em direção a eles.

Yamane, que estava na porta, deu um pulo para trás. Ele se chocou contra a barriga de Mizutani, e ambos caíram sentados com as pernas emaranhadas.

— Whoa! — o homem de boné também caiu para trás.

Shimada fugia de quatro.

Saikawa e Moe também recuaram. Encostaram-se na parede e observaram a cena bizarra.

A boneca aos poucos emergiu na luz, e seu rosto tornou-se identificável.

Seu rosto tinha uma expressão que não era deste mundo.

Não era uma boneca.

Nem era uma pessoa viva.

Apenas o vestido de noiva era branco puro.

— Erro inesperado detectado. — a voz monótona de Débora ecoou.

As mãos de Moe agarraram o braço direito de Saikawa.



Notas:

1. Carne grelhada.
2. Macarrão frito.

***

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