segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Walk the Darkness Down — Capítulo 05-06

Capítulo 05: Keaton e Jubal


A dupla estava parada na sombra úmida dos galhos. O ar cheirava a terra molhada e a tatuzinhos-de-jardim. Sob a copa de agulhas e folhas, erguia-se uma casa... Se é que se podia chamá-la assim pela definição mais básica. Uma habitação quadrada. Tábuas pregadas umas às outras para formar uma superfície plana, depois unidas a outras e mais outras, até se ter quatro paredes erguidas e um telhado plano no topo. Criado pela disposição de longos galhos sobre a estrutura, pregados no lugar. Havia facilmente uma dúzia de couros esticados por cima, todos cobertos por uma camada espessa de musgo verde-escuro. Havia uma única janela na frente da habitação, mas não restava vidro algum, apenas teias de aranha grossas e enegrecidas, coalhadas de moscas e vespas mortas. Keaton inclinou-se e tentou espiar lá dentro. Sombras de mãos dadas com a escuridão. Nada em que pudesse focar o olhar ou distinguir. Então virou para o garoto.

— Esta é a sua casa?

— É onde eu moro.

Jubal bufou e puxou a porta para abri-la. Ela rangeu, e a madeira inchada mal permitia que se movesse para frente. Keaton sentiu ânsia de vômito quando o cheiro o atingiu como um tapa. Era um cheiro que lembrava carne secando e panos velhos e úmidos. Lama de rio e algo mais. Keaton já não sentia mais fome. Vinha de dentro um zumbido, não muito diferente de um coro monótono, como os hinos da noite anterior. Inspirou o máximo de ar que seu peito machucado permitiu e entrou no barraco. O arquejo que escapou de seus lábios rachados deixou o ar fugir de volta para a luz do dia, enquanto Keaton permanecia ali parado. Quase conseguia ouvir o som de si mesmo tremendo. Seus olhos se encheram de lágrimas.

No canto do cômodo havia uma cama. Estava coberta por um lençol de um cinza cor de água de porão, pelo menos onde as moscas lentas não estavam se aglomerando. Sobre o lençol, havia uma mulher. Sua pele estava esticada ao limite, rachando em alguns pontos. A boca era uma caverna irregular, os dentes brilhavam como strass na escuridão. Aquele sorriso parecia muito maior devido à retração da pele ao redor. Moscas entravam e saíam daquela boca. Seu olhar desceu pelos ombros, que eram pura ponta e ângulo, e pela camisola que se tornava preta onde se fundia ao lençol manchado de sangue. Fechou os olhos e ouviu o zumbido das inúmeras moscas que rastejavam lá dentro. Abriu-os e olhou para o menino. Este estava sentado no chão, ao lado de um pequeno berço. Esculpido de forma rudimentar em madeira. Havia um coração pintado na extremidade com uma tinta escura. Keaton torcia para que fosse tinta. O menino cantarolava enquanto o balançava. Keaton reuniu toda a sua força de vontade e deu um passo em direção ao menino, esticando um pouco o pescoço para ver o interior do berço. Engoliu a bile que já lhe subia à garganta, tomada pela aterrorizante expectativa do que poderia haver ali dentro. Sua testa se franziu.

O berço estava forrado com retalhos de linho branco. Manchado de escuro em alguns pontos pelo que um dia fora sangue vivo, contudo que agora eram manchas negras como a pupila. Acomodados entre os retalhos, havia dois objetos arredondados. Cobertos por pelos escuros e grossos. Jubal continuava a balançar o berço e a cantarolar, enquanto Keaton se ajoelhava mais perto. O cheiro era terrível. Era diferente do fedor de decomposição e podridão que impregnava o ambiente. Era um cheiro azedo, como leite rançoso e peixe inchado. Keaton respirou fundo pela boca e tocou uma das esferas. Ela rolou um pouco para o lado, revelando os sete dentes que a contornavam, margeando uma fenda que subia pela lateral como uma cicatriz profunda. Viu uma depressão que quase parecia um olho fechado. Algo se moveu por baixo dela.

— Minhas irmãs. — respondeu o menino, embora Keaton não tivesse dito uma palavra. — Mamãe vinha me dizendo há meses que eu ia ganhar uma irmã. Ela sentia isso. — ele sorriu e acariciou as coisas no berço. Olhou para Keaton com os olhos brilhantes e continuou. — Quando chegou a hora, ela se deitou na cama e me mandou chamar o papai. Estava sentindo as dores terríveis. Ele estava na igreja, consertando o telhado. Eu o chamei e ele veio correndo. Quando voltamos, já estava morta. Assim, desse jeito. Não havia bebês. Papai teve que tirá-las de dentro e depois as colocou no berço que tinha feito. Mais tarde naquela noite, saiu e nunca mais voltou.

Keaton apenas assentiu, observando a própria mão pousada na lateral daquele berço maldito enquanto o menino o balançava um pouco mais rápido.

— Agora sou tudo o que elas têm.

Keaton suspirou e olhou em volta. A carcaça de mulher na cama, ainda parindo. As prateleiras e a mesa vazias. O menino pálido balançando um berço cheio daquilo, o que quer que fossem aquelas coisas.

— Vamos, Jubal, nós vamos sair daqui.

Keaton levantou-se e estendeu a mão trêmula para a criança.

— Você ainda está com fome? Tenho um pouco de pão de milho, tem um pouco de mofo, no entanto o gosto continua bom.

Keaton apenas balançou a cabeça com força, negando. Se voltasse a abrir a boca, poderia vomitar. Puxou o braço do menino e caminhou em direção à porta.

— Espere! Não posso deixá-las para trás.

O menino começava a chorar. Keaton baixou a cabeça e esfregou a nuca com a outra mão. Sentiu a sujeira e o suor formarem grumos e rolarem sob seus dedos trêmulos. Aproximou-se da cama e tirou um dos travesseiros debaixo da cabeça da mulher morta. Estava relativamente limpo. Pegou uma faca sobre a mesa, fez um corte no travesseiro e sacudiu com cuidado a maior parte das penas e da palha para fora. Fragmentos flutuavam no ar, entre as moscas, como uma neve repugnante. Em seguida, cortou uma abertura na fronha e a vestiu pela cabeça do menino. Com cuidado, retirou os dois orbes do berço e os acomodou na trouxa improvisada. Surpreendeu-se ao sentir que estavam quentes. E mais ainda quando o maior deles pulsou em sua mão.

“Aquela coisa acabou de me lamber?” gritou sua mente. Limpou as mãos na toalha de mesa e dirigiu-se à porta.

— Agora, vamos.

Saiu para o quintal antes do menino, olhando para o bosque atrás da casa. Estremeceu ao notar o cadáver dilacerado pendurado na árvore, acima do forno de cerâmica. Pássaros haviam feito ninho na cabeça... Tufos de grama enchiam as órbitas de onde antes se via o olhar, e os restos de roupas, desbotados e encharcados pela chuva, confundiam-se com os galhos e folhas sem cor. A corda do enforcamento era grossa e estava salpicada de fezes de pássaro. Uma das botas havia escorregado, levando consigo a carne podre do pé, e jazia no chão, logo abaixo. Besouros cobriam o sapato e o coto da perna como um cobertor negro e contorcido.

— Para onde vamos? — perguntou Jubal, alcançando Keaton.

— Para qualquer lugar que nos aceite. Qualquer lugar, menos aqui.

— Vamos voltar para a igreja? — indagou Jubal, ajustando a trouxa para que o volume ficasse acomodado sob o braço.

— Não para a igreja, mas naquela direção. — Keaton respondeu e começou a atravessar o campo de volta, em direção ao local onde haviam se encontrado pela primeira vez.



Capítulo 06: Levi


O homem corpulento apoiou-se na árvore caída. Raramente precisava dormir muito nesses últimos tempos, a enxurrada constante de vozes por trás de suas pálpebras tornava isso quase impossível. Ele as ouvia há alguns anos e já se acostumara à persistência delas. Muitas vezes, era como tentar pensar ao lado de um rio de correnteza veloz. Porém, a cada poucos dias, precisava descansar. Sentou-se ali e semifechou os olhos. A criatura rosada, aninhada na cicatriz, apenas observava. Suas roupas cheiravam a fumaça e estava coberto de fuligem. As vozes traçavam sua profecia por trás das pálpebras cerradas.

— Estabeleça as linhas, as bordas da porta. Afunde a estrutura e forje a fechadura.

As vozes eram antigas, envoltas em terra de sepultura e em camadas geológicas de eras passadas. Ele assentiu e gemeu baixinho, embora não despertou totalmente.

— Quando a chave estiver no lugar, estaremos em casa.

— Eu sou a chave? — perguntou, com a voz exausta e arrastada.

— A chave se apresentará. Você faz a porta.

— Não sou muito bom em construir. Minhas mãos não foram feitas para ferramentas.

Levi abriu com dificuldade o olho bom e viu o mundo tão desfocado quanto sua mente.

— As ferramentas que usará são aquelas que domina. Aquelas nas quais nós o instruímos. Aqueles velhos métodos: dor, sofrimento, sangue e lágrimas. A morte é o mais pesado dos martelos, e a fúria, o mais certeiro dos pregos. Ninguém conhecerá porta mais forte.

Levi ergueu seu corpo pesado do chão. Alguns besouros caíram de suas nádegas sobre a grama úmida e a casca de árvore, fugindo às pressas. Esfregou os olhos com um punho do tamanho de um presunto e olhou na direção do sol nascente. Sentiu o manto familiar da raiva sobre o pescoço e os ombros. Aquele reservatório de fácil acesso ao qual recorria quando a violência exigia. Apertou os olhos novamente para o sol. O brilho era doloroso. Desejou poder agarrar aquela coisa com as mãos e espremer o brilho para fora dela. Ah, ser o homem que matou o sol.

***

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