segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Walk the Darkness Down — Capítulo 01-02

Capítulo 01: Jones


O calor sufocante das palavras, a fervura e a ardência delas, era a única dádiva que recebera na vida. E guardava essa dádiva no mesmo coração calejado onde guardava o último estertor de seu pai e a bala que recebera perto do fim da guerra. A bala que deveria ter extinguido sua chama, mas que acabou sendo freada pelo colete de couro e pela correia grossa do cantil, não passando de um projétil alojado na musculatura de seu peito como um carrapato. Em certas noites, quando o humor pedia, Jones deslizava um ou dois dedos por baixo da camisa para acariciar a protuberância dura que ali residia. Uma forma de lembrar a si mesmo de que tinha sorte por respirar, ou de que a morte lhe fora roubada. Às vezes, a sensação oscilava entre uma coisa e outra.

Amarrou a égua, a quem chamava de Enterline, na árvore moribunda que se curvava como as costas de um velho e caminhou devagar em direção à casa. Ou ao que restava desta. Vigas carbonizadas emergiam da lama e das cinzas como os dedos de um enorme carniçal tentando se libertar da terra. Jones desejava que fosse esse o caso, talvez sentisse menos medo. Parou e olhou para o fogão de ferro, encostado no que um dia fora uma parede. Quantas vezes se sentara à mesa e observara sua mãe tirar tortas daquele forno? Ou a viu cozinhar ensopados em fogo brando, ou fritar ovos e bacon sobre ele? Tantos dias quanto os arrependimentos que carregava, apostaria ele. Fechou os olhos e quase pôde sentir o cheiro das massas açucaradas e dos caldos encorpados de carne. Quase pôde ver o avental xadrez azul que ela sempre usava. Seus dedos ossudos agarrando as extremidades do rolo de madeira enquanto esticava a massa. Ou a farinha e a sujeira sob as unhas quando apontava para os papéis dele, enquanto ele se sentava para fazer as lições antes da hora de dormir. Depois que seu pai se foi, as lições definharam, morreram rapidamente e se decompuseram em tarefas domésticas e silêncio. De muitas maneiras, sua mãe morreu junto com o pai. O calor se apagou como uma vela. Tornou-se um órfão que vivia com uma mãe de papel, numa casa repleta de sombras salgadas.

O homem de semblante abatido foi arrancado de suas lembranças quando o cavalo bufou, por ambas as extremidades. Balançou a cabeça e caminhou até onde ficava a porta da frente. Agarrou uma maçaneta que já não estava mais lá e empurrou uma porta que, dias ou semanas antes, servira de combustível para as chamas. Entrou no que um dia fora a cozinha e contemplou todas aquelas cinzas. Toda aquela lama. Não restara absolutamente nada, exceto o fogão e algumas panelas. Uma cafeteira, amassada e queimada a ponto de ficar quase branca, jazia numa poça de lama que começava a secar. A tempestade fizera um trabalho e tanto ao apagar o incêndio, auxiliando os moradores da cidade com seus baldes e panelas. Jones respirou fundo e soltou o ar pelo nariz. Ajoelhou-se, pegou uma porção de lama cinzenta com o dedo, levou-a até perto do nariz e cheirou. Os cantos de sua boca se ergueram num quase sorriso, porém logo caíram de volta numa linha abatida. Abriu a boca e enfiou o dedo, retirando-o limpo ao engolir a massa fuliginosa. Enxugou os olhos úmidos na manga e levantou-se.

— Tchau, mãe! — conseguiu dizer enquanto passava por cima da linha de carvão que um dia fora a parede. Caminhou com pressa até sua montaria e a desamarrou. Ela o olhou com olhos tristes. Ele puxou o cabelo para trás e ajeitou o chapéu na cabeça para que não encostasse na nuca. Depois, montou e lançou mais um olhar para a casa de sua infância. Estava reduzida a cinzas, tal como grande parte de si mesmo. Engoliu em seco e fez um estalo com os dentes. Com isso, a égua saiu a trote, e eles seguiram o sol que se arrastava.



Capítulo 02: Keaton


O céu ondulava como peles secando em um varal. O vento e o trovão distante quase abafavam o zumbido constante das moscas. O zumbido das moscas quase abafava a maré interminável de orações e sussurros que flutuava vinda da igreja. Uma página de hinário dançava na brisa pesada como uma gaivota. O ar quente fervilhava, e a merda de pássaro assava assim que respingava nas rochas. As sombras encolhiam-se sob a sua própria sombra. Era domingo, sem dúvida.

Keaton descansava na penumbra fresca do celeiro abandonado, do outro lado da estrada. Observava a pastagem que ladeava o celeiro, o gado morto espalhado por ela. Pareciam montanhas de estática negra. Montanhas que zumbiam e punham ovos que, em pouco tempo, virariam larvas para manter o ciclo girando. Piscou com força e desviou o olhar. Podia ver a igreja através da porta aberta, estava perto o suficiente para ele. A casa de Deus andava cheia demais nesses últimos dias. Espreguiçou-se um pouco e ouviu a coluna estalar. Feixes de luz solar perfuravam o interior do celeiro, destacando a poeira como fragmentos fantasmagóricos. O celeiro estava longe de ser a estrutura mais sólida para se abrigar, mas era o que havia. As fendas em suas paredes haviam sido remendadas de qualquer jeito com tábuas soltas e pedaços de zinco. O buraco acima de sua cabeça estava tapado com uma placa de salsaparrilha. A tinta estava empolada e desbotada pela língua ávida do sol. Keaton inclinou o pote de água da chuva em direção aos lábios e bebeu ruidosamente. A água sulfurosa ardeu no corte de seu lábio, porém bebeu mesmo assim. A água fedorenta era melhor do que a sede, por enquanto. Tirou o coldre para que o maldito cano da arma parasse de cutucar sua coxa. Diabo, o hematoma que ali se formara jamais desapareceria. Jogou o coldre sobre o ombro e ajeitou-se contra os sacos mofados que lhe serviam de cama. O maior conforto que conhecera em semanas. Fechou os olhos e ainda sentia o cheiro da fumaça. Ouvia os gritos daquela mulher indígena vindos de trás da parede de chamas. Via a fumaça girando e rolando em um ato violento com a noite. Abriu os olhos e balançou a cabeça. A dor lá dentro parecia saltar de uma têmpora à outra. Suspirou.

Alongou-se mais uma vez e fechou os olhos ardentes. Será que aquela ardência, como a da fumaça, algum dia passaria? Será que algum dia deixaria de ver a casinha sendo devorada por chamas alaranjadas e um calor infernal? Do outro lado da rua, as vozes se erguiam em canto.

— Avante, ao alto, Ele nos chama. Avante, ao alto, queremos seguir...

Keaton ouviu até que a harmonia das vozes se dissolvesse num zumbido baixo, que se alojou atrás e entre seus olhos. Ele os fechou e continuou ouvindo, mal percebendo o peso do suspiro seguinte que lhe escapou dos lábios, adormeceu antes mesmo que o som caísse no chão como um mosquito morto. O sol terminou de se recolher, queimou até ficar branco e mudou de nome para Lua... E ele perdeu tudo isso.

***

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