terça-feira, 27 de outubro de 2026

When Hikaru was on the Earth... — Volume 02 — Capítulo 13

Volume 02: Yugao — Capítulo 13: As desculpas de um nobre

 

É possível recuperar um guarda-chuva perdido há um ano?

 

(Logicamente, deveria ter sido descartado há muito tempo...)

 

No dia seguinte, Koremitsu foi para a sala de aula de Yu.

 

Ambos estavam no primeiro ano do Ensino Médio, mas como havia muitos alunos em seu ano acadêmico, a sala de aula dela ficava muito longe da de Koremitsu, localizada no segundo andar.

 

Havia um suporte para guarda-chuvas na parede lateral do corredor, com dois ou três guarda-chuvas. O tempo estava agradável e a luz solar intensa que entrava pela janela era ofuscante.

 

No dia em que o guarda-chuva de Yu desapareceu, choveu torrencialmente desde a manhã, então devia haver muitos guarda-chuvas lá dentro.

 

Porém apenas o guarda-chuva de Yu desapareceu.

 

Será que as pessoas que adoravam atormentar Yu esconderam o guarda-chuva?

 

Contudo seus guarda-chuvas desapareceram no dia seguinte e foram encontrados pendurados na sala de aula de química.

 

— Alguém... Viu um espírito vingativo.

 

— Corria o boato de que o espírito de Kanai havia retornado em busca de vingança.

 

Koremitsu não acreditou em palavras tão absurdas.

 

No entanto quem pendurou os guarda-chuvas na sala de aula de química?

 

Quem roubou o guarda-chuva de Yu? Ou será outra coisa...

 

A janela foi aberta e uma corrente de ar entrou no local. As plantas no vasto pátio da escola estavam deslumbrantes depois de terem sido lavadas pela chuva de ontem, e as vozes animadas dos alunos também podiam ser ouvidas.

 

Era uma paisagem tão tranquila.

 

(Pensar que há casos de intimidação em uma escola tão bonita e saudável.)

 

Ele ficou ressentido com isso.

 

Quando estava no Ensino Fundamental II, era comum haver delinquentes de outras escolas que o incomodavam ou até mesmo procuravam brigas.

 

Na maioria das vezes, havia muitos oponentes e ele estava sozinho. Detestava fugir e não queria se render àqueles desprezíveis que, de forma covarde, se armavam e o atacavam em grupo. Portanto, fazia o possível para revidar.

 

Pensou que algo assim não aconteceria mais no Ensino Médio...

 

Entretanto, não esperava um ato tão hediondo em uma escola tão pacífica. Normalmente, se houvesse delinquentes simplórios procurando confusão com ele, poderia resolver a situação na hora. O bullying, por outro lado, era algo que acontecia nos bastidores, então era muito mais assustador.

 

Talvez quanto mais irrepreensível parecesse à primeira vista, mais o oposto fosse verdadeiro.

 

Talvez quisessem disfarçar a situação com uma aparência cristalina, já que o interior estava muito sujo.

 

No momento em que Koremitsu encarava o porta guarda-chuvas vazio com uma expressão severa...

 

— Ah! A-Akagi...

 

Uma voz assustada veio de trás.

 

A representante de turma com tranças estava atrás de Koremitsu, e os olhos sob a lente estavam arregalados.

 

— O-O-O que está fazendo aqui?

 

— E eu vou te perguntar por que está tão assustada.

 

— E-E-Eu estava procurando o representante da turma 8 para discutir sobre o próximo representante de turma e te vi encarando o porta guarda-chuvas de outra turma no caminho para cá... Se pretende instalar uma bomba, aconselho que não o faça aqui... Não, por favor, não faça isso em lugar nenhum.

 

A representante de turma recuou hesitante ao dar seu conselho, cumprindo seu dever como tal.

 

(Bomba... Que tipo de pessoa ela pensa que sou?)

 

Ele perdeu toda a força para se irritar, e seus ombros caíram.

 

Nesse instante, uma canção infantil chamada “Tio Cão Policial” tocou no bolso da saia de Michiru.

 

— Woah!

 

Michiru entrou em pânico, pegou o celular às pressas e viu uma nova mensagem na tela.

 

Você precisa mesmo usar uma música dessas...? Justo quando Koremitsu estava perplexo com a cena, percebeu de repente que a expressão de Michiru empalideceu.

 

Algo semelhante parece ter acontecido antes.

 

Um e-mail anônimo foi enviado para o celular de Honoka, falando sobre a morte de Hikaru.

 

— Ei, o que houve?

 

— Hmm, acabei de receber um e-mail estranho.

 

Com as mãos trêmulas, Michiru mostrou a tela do celular para Koremitsu.

 

Ao ver aquilo, Koremitsu ficou furioso.

 

“As mulheres que estavam com Lorde Hikaru. Primeiro Ato: Yu Kanai.”

 

— Me empreste isso!

 

Koremitsu pegou o celular de Michiru e leu atentamente.

 

“O espírito vingativo que se recusa a frequentar a escola. Será que o espírito vivo de Yu Kanai é o mesmo que matou Lorde Hikaru?”

 

O conteúdo do e-mail foi suficiente para deixá-lo furioso.

 

(Droga! Quem mandou esse e-mail? Não vou perdoá-lo!)

 

Ele devolveu o celular para Michiru, que parecia apavorada e, envolto em uma aura sombria, saiu pisando duro.

 

Michiru, que ficou sozinha, olhava ao redor com uma expressão pálida.

 

— O-O-O-O que eu faço? Ele parece muito bravo por algum motivo... Talvez vá explodir alguém. Se alguém da nossa turma fizer uma coisa dessas, terei que assumir a responsabilidade como representante de classe. Ah, é verdade! Preciso avisar a Hono primeiro! Ela é forte e aprendeu kickboxing na academia e já deu uma surra no Akagi antes. HONO! O AKAGI ESTÁ APRONTANDO DE NOVO!

 

Ela gritou enquanto corria de volta para sua sala de aula.

 

E então, Koremitsu...

 

— Yu não é um espírito vingativo! Vou provar para todos!

 

Seu rosto estava dormente e suas sobrancelhas estavam mais arqueadas que o normal. Todos os alunos num raio de dois metros fugiram apavorados.

 

— Quem é que está espalhando essas mensagens estúpidas? Qual é o objetivo dele?

 

Continuou resmungando.

 

— Talvez essa pessoa não tivesse um objetivo específico em mente, e apenas quisesse ver todos sendo enganados por esses rumores.

 

Uma voz solene veio de perto.

 

Koremitsu lançou um olhar rápido para o lado e encarou o rosto melancólico de Hikaru, que se aproximava.

 

Ele desviou o olhar em seguida e mordeu os lábios.

 

(Não vou me dar ao trabalho de perguntar aqui. Já que adora bancar o fantasma, vou fingir que você é um fantasma.)

 

Ele resmungou, caminhando  em direção à sala de aula do terceiro ano com o olhar fixo.

 

Ele ia se encontrar com Shungo Tojo, aquele a quem disseram que Yu estava tentando se aproximar.

 

Os alunos que estavam no corredor eram dois anos mais velhos do que ele e pareciam mais adultos.

 

— Ei, não é esse o calouro de quem estão falando?

 

— Por que está nas salas de aula do terceiro ano?

 

— Parece mesmo perigoso. Ouvi dizer que vinha importunando o Príncipe há um bom tempo. Será que nossa escola chegou a esse ponto que deixamos um delinquente desses circular por aí?

 

— Ouvi dizer que foi quem matou Lorde Hikaru. É verdade?

 

Havia olhares gélidos por todos os lados, como se tivessem encontrado um intruso.

 

Koremitsu não recuou e ergueu o queixo.

 

— Estou procurando um cara chamado Tojo.

 

Ele perguntou na entrada da sala de aula, e imediatamente houve um alvoroço.

 

Os alunos trocaram olhares preocupados.

 

— É melhor relatarmos isso aos professores o mais rápido possível... — alguém até murmurou.

 

Nesse instante, sob olhares fixos em si, um estudante do sexo masculino aproximou-se de Koremitsu.

 

Era um homem bonito.

 

Suas costas estavam retas e sua postura ao caminhar era cheia de estilo.

 

Seus cabelos negros estavam penteados com esmero.

 

Tinha um queixo com traços masculinos e feições bem definidas.

 

Suas vestes impecáveis, movimentos fluidos e expressão arrogante exalavam nobreza.

 

Koremitsu franziu a testa. Sentia-se desconfortável por todo o corpo, como se suas feridas cicatrizadas estivessem sendo arranhadas.

 

— Eu sou Tojo.


 

A voz profunda e sonora também era dolorosa para os ouvidos de Koremitsu.

 

— A habilidade do veterano Tojo em encantar mulheres é comparável à do Lorde Hikaru.

 

Honoka já havia dito isso antes.

 

No entanto, era uma pessoa completamente diferente deste último.

 

O homem à sua frente não possuía a mesma transparência e delicadeza que Hikaru, nem o carisma capaz de acalmar qualquer pessoa.

 

Tinha um ar mais masculino e não parecia ser um jovem, e sim um homem maduro. Entretanto, como já era dois anos mais velho que Hikaru, essa impressão era de se esperar.

 

Assim que ambos se deslocaram para o corredor, Koremitsu foi direto ao ponto.

 

— Tenho algo para lhe perguntar. É sobre Yu Kanai.

 

Tojo franziu a testa.

 

— Não tenho nada a dizer sobre esse incidente.

 

— Ouvi dizer que Yu se recusou a vir à escola porque vocês dois compartilharam o mesmo guarda-chuva.

 

Tojo lançou um olhar frio para Koremitsu.

 

— Ahh, com certeza foi esse o caso. Contudo ela apenas compartilhou um guarda-chuva comigo em um dia chuvoso e caminhamos juntos por 10 minutos. A sua recusa em vir para a escola é um assunto pessoal seu, e estou certo de que não há necessidade de você me questionar a respeito.

 

— O que está dizendo...

 

Koremitsu ficou completamente furioso com suas palavras.

 

Que absurdo esse pretensioso está dizendo? É problema dela se recusar a vir à escola? Está dizendo que não precisa assumir nenhuma responsabilidade?

 

— Isto é apenas um comportamento inadequado por parte de algumas meninas, em minoria. Assim que parou de frequentar a escola, os insultos e calúnias sobre o nosso relacionamento desapareceram, no entanto ainda se recusa a voltar às aulas até hoje. Portanto, é um assunto pessoal dela.

 

— O motivo pelo qual a Yu não se atreve a vir à escola é porque alguém pendurou os guarda-chuvas daquelas garotas que a intimidavam, e agora corre o boato de que invocou um espírito vingativo.

 

— Esse assunto não me diz respeito ainda menos?

 

Tojo respondeu em um tom de voz frio e demonstrou uma atitude distante.

 

Koremitsu sentiu o rosto enrijecer e a respiração ficar acelerada.

 

Tojo, por sua vez, manteve sua atitude lógica e pragmática.

 

— Está insinuando que brinquei com os sentimentos de Yu Kanai e a abandonei? Deixe-me ser claro... Sei muito bem com que tipo de mulher devo namorar. Meu tipo são apenas aquelas nascidas em berço de ouro, princesas bem-educadas e com excelente formação. Meus parentes definitivamente não aceitam garotas que vieram depois do Ensino Médio, ou mesmo de famílias que administram pequenas e médias empresas. Mesmo que eu aceitasse, as diferenças de classe social entre nós nos desgastariam. Não posso namorar alguém assim pensando em uma relação de longo prazo. Por que essas garotas não entendem isso e continuam invejando Yu Kanai?

 

Tojo suspirou exasperado. Em seu furor, Koremitsu lhe deu um soco no rosto.

 

Tojo caiu para trás, batendo com força na parede. Nesse instante, Koremitsu o agarrou pela gola e gritou.

 

— JÁ CHEGA! A YU AINDA FICA ATERRORIZADA QUANDO VE GAROTAS DE UNIFORME ESCOLAR, E SE LEMBRA DE COMO SOFREU BULLYING! ELA SE ENCOBRE NO COBERTOR E TREME TODA VEZ QUE VE CHUVA, DIZENDO QUE NÃO PODE SAIR SEM UM GUARDA-CHUVA! ISTO PODE SER APENAS UMA BOBAGEM QUE ALGUMA MULHER IDIOTA FEZ DO SEU PONTO DE VISTA, APENAS UMA COISA DO PASSADO, MAS A YU AINDA NÃO SE LIBERTOU DESSE PASSADO! ESTÁ TRANCADA EM UM QUARTO ESCURO DURANTE TODO O ÚLTIMO ANO, SOFRENDO SOZINHA, E VOCÊ OUSA DIZER QUE NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ?

 

Yu estava tão tímida que cobriu todo o corpo com o cobertor, choramingando, “Eu não quero ir para a escola.”

 

Ela estremeceu e disse que preferia morrer de fome a ir para a escola.

 

Seu rosto estava mortalmente pálido enquanto entrava em pânico só de ver Honoka segurando um guarda-chuva...

 

Como assim isso não tem nada a ver com você?

 

Koremitsu ficou furioso.

 

Já que ele achava que Yu não era alguém com quem deveria sair, por que tinha que dividir um guarda-chuva com ela?

 

Koremitsu não sabia se Yu tomou a iniciativa de abordar Tojo, ou se este foi quem tomou a iniciativa.

 

Mas não importava quem tivesse começado.

 

(Por que não a rejeitou? Por que compartilhou o guarda-chuva de forma tão descarada?)

 

Já que a acha alguém com quem não vale a pena ter um relacionamento sério por causa das diferenças em suas origens familiares, por que a abordou de forma tão casual? Se não quer assumir a responsabilidade, por que fez isso?

 

Ele arruinou a vida diária de Yu sem remorso e não fez nada para protegê-la.

 

Tal homem não tinha o direito de mencionar o nome de Yu!

 

Koremitsu usou a força das mãos para agarrar Tojo pela gola com violência.

 

Tojo fez uma careta.

 

Uma multidão começou a se formar, e até mesmo uma professora apareceu. O sinal que indicava o fim do intervalo tocou, em nítido contraste com aquele impasse tenso.

 

Tojo afastou a mão de Koremitsu,

 

— Está tudo bem! — disse ele à professora com uma voz artificial.

 

A professora lançou um olhar preocupado para Tojo e, em seguida, olhou para Koremitsu.

 

Tojo ajeitou o cabelo e arrumou as roupas.

 

— Os testes estão prestes a começar. Vocês também devem voltar correndo para sua sala de aula.

 

Após dizer aquilo, ele foi embora.

 

— V-Vá embora agora! — gaguejou a professora.

 

Koremitsu continuou encarando Tojo por um bom tempo, antes de se virar e sair correndo.

 

Ao ver Koremitsu voltar correndo para a sala de aula, Honoka soltou um suspiro de alívio.

 

Porém, sua expressão era ameaçadoramente solene, e ela franziu a testa, preocupada. Durante todo o período de teste, não parou de lançar olhares para Koremitsu.

 

Este último rabiscava sem parar, parecendo estar descarregando sua raiva em relação a Tojo. O gráfico na prova de matemática lembrava o rosto de Tojo, e Koremitsu continuava a gemer enquanto seus olhos ardiam de raiva de tempos em tempos.

 

O teste terminou e, quando chegou o intervalo, ele ainda parecia insatisfeito.

 

— Akagi...

 

Honoka o chamou.

 

— Eu... Estou bem.

 

Koremitsu resmungou, puxou a porta para o lado e saiu da sala de aula.

 

Estava indo ao banheiro e, enquanto continuava a jogar água no rosto na pia, a água espirrou para todos os lados.

 

Assim que os outros alunos entraram e descobriram o delinquente ruivo lavando o rosto com uma enorme intenção assassina, fugiram e não ousaram usar o banheiro.

 

A sensação de contração e agitação em seus órgãos não se dissipou, e Koremitsu começou a ficar furioso consigo mesmo.

 

— Vamos para a escola. Se alguém te intimidar, vou dar uma surra nele.

 

No instante em que pronunciou essas palavras, Yu apenas o encarou timidamente.

 

Agredir os outros não resolveria o problema, não era tão simples.

 

Já sabia disso... Estava atormentado por sua superficialidade. Se tivesse socado Tojo na frente de Yu, teria a aterrorizado. No instante em que pensou nisso, começou a se arrepender...

 

Ele passou mais de 5 minutos lavando o rosto.

 

Quando enfim conseguiu se acalmar, estava todo encharcado, contudo com a garganta seca. O que se refletia no espelho era alguém com uma expressão selvagem e cabelos despenteados e pingando água.

 

Hikaru não aparecia no espelho, no entanto Koremitsu sabia que devia estar atrás, com uma expressão relaxada.

 

— Você não precisa se preocupar.

 

Uma voz suave veio de trás.

 

Koremitsu segurou a pia pelas laterais enquanto encarava o espelho. Não queria olhar para trás de jeito nenhum.

 

— Suponho que seja bom que o Sr. Shungo tenha levado um soco.

 

Uma voz reconfortante chegou aos ouvidos de Koremitsu.

 

— Como herdeiro da família Tojo, suponho que ninguém nesta escola ousaria bater no Sr. Shungo.

 

(Aquele cara sabia quem ele era...?)

 

Koremitsu queria olhar para trás, entretanto continuou segurando a borda da pia, resistindo ao impulso.

 

(Droga, quem vai te dar ouvidos aqui? É inútil mesmo se tentar parecer sincero!)

 

Ele rangeu os dentes de dor, todavia era certo que estava curioso sobre a relação de Hikaru com Tojo.

 

Hikaru aparentemente não percebeu a complicação no coração de Koremitsu e continuou com uma voz tranquila.

 

— A família do Sr. Shungo... A família Tojo... Sempre auxiliou a família Mikado. Suponho que já tenha ouvido falar do Grupo Mikado, não é? Ele possui operações em larga escala, incluindo bancos, e o presidente é o chefe da família Mikado, meu pai. Entretanto, alguns dizem que quem controla o Grupo Mikado não é a pessoa que dá nome ao grupo, e sim a família Tojo, que realiza as operações de fato. Em outras palavras, a relação entre mim, nascida fora do casamento... E o Sr. Shungo, pode ser um pouco complicada...

 

Então um deles era filho de um magnata corporativo, enquanto o outro era o herdeiro da família que administrava a corporação? Se Hikaru fosse um Príncipe, Tojo seria filho do Chanceler?

 

Koremitsu não queria ouvir, entretanto não conseguiu evitar. Se tapasse os ouvidos ou gritasse para que ficasse quieto, estaria admitindo a existência de Hikaru...

 

— Além disso, o Sr. Shungo é primo da Srta. Aoi.

 

(Da Aoi?)

 

— A título de curiosidade, o primo da cunhada do marido da terceira irmã do pai do Sr. Shungo é sobrinho do primo do primo do pai de Asa.

 

— ESSA RELAÇÃO DE PARENTESCO É MUITO COMPLICADA! QUEM NO MUNDO VAI ENTENDER ISSO?

 

Ah, droga! Eu queria fingir que não o ouvia, mas não consegui evitar reagir! Koremitsu fechou a boca apressadamente e encarou a pia.

 

— Sim, a relação familiar entre essas pessoas é muito difícil de entender. Quer que eu explique devagar para você?

 

De repente, ouviu-se a voz de outra pessoa.

 

E veio da cabine do banheiro!

 

A porta com uma placa de “com defeito” se abriu rangendo, e uma garota baixinha e de seios fartos saltou de dentro, chocando Koremitsu.

 

— O QUÊ? VOCÊ... ESTE É O BANHEIRO MASCULINO!

 

— E?

 

Hiina Oumi, do clube de notícias, segurava uma escova de vaso sanitário, sorrindo enquanto se apoiava em Koremitsu, e continuava em seu ritmo acelerado de sempre.

 

— Um dos meus passatempos é coletar informações enquanto esfrego o vaso sanitário em um banheiro. Um banheiro é um lugar onde qualquer um pode relaxar, revelar seu verdadeiro eu e expor seus segredos mais íntimos. De vez em quando, consigo descobrir coisas como linchamentos ou extorsões, então é bastante intenso! Que tal se esconder no vaso sanitário comigo da próxima vez, Akagi? Tenho certeza que verá um novo mundo!

 

— Não quero saber desse tipo de coisa. Não fique perto de mim com essa escova de lavar privada na mão. Vaza.

 

Koremitsu tentou empurrar Hiina para o lado, porém ela se agarrou nele com seus seios e coxas extremamente elásticos.

 

— Não é bom ser tão frio, não é? Sou capaz de fazer outras coisas além de limpar o banheiro. Você parece estar preocupado, pelo que murmurou para si mesmo. Talvez eu possa fornecer as informações que deseja saber.

 

— O que quer dizer?

 

Hiina ergueu a cabeça e seus grandes olhos fitaram Koremitsu com intenções ocultas. Ele ficou chocado com a forma como se transformou de uma diabinha tentadora em uma jovem atrevida.

 

— Significa que posso ajudar a explicar o papel que Lorde Hikaru desempenha na família Mikado e quem se beneficiará mais com isso após a sua morte.

 

Koremitsu sentiu um sobressalto e quase olhou para Hikaru, contudo se conteve, lembrando a si mesmo em silêncio, “Não é da minha conta”.

 

— Não preciso! E você é muito suspeita também.

 

— Hã? Essas palavras me magoam! Já estou sendo tão sincera, então por que está infeliz, Akagi?

 

— Normalmente, as garotas não se atrevem a olhar nos meus olhos e fogem ao me ver. No entanto você tomou a iniciativa de se aproximar e não tem medo de mim. Isso é muito estranho, e pare de ficar me seguindo.

 

Hiina se afastou de Koremitsu e exibiu uma expressão triste.

 

— Esse tipo de pensamento... É de dar muita pena. Realmente acha que toda mulher que se aproxima de você tem alguma intenção ardilosa.

 

— Uuh...

 

Ao vê-la com uma expressão séria e falando em tom suave, Koremitsu ficou sem palavras.

 

(Eu... Não estou errado quando digo isso... Provavelmente.)

 

Entretanto a expressão de Hiina estava minando aos poucos sua confiança quanto mais a observava.

 

— Quando uma mulher se aproxima, às vezes é porque se sente atraída pelo sexo oposto... Não consegui sentir, Akagi?

 

(Impossível! Definitivamente não.)

 

Ele não conseguiu mais conter seus sentimentos e recuou devagar.

 

— Vou voltar para a sala de aula. Se quer esfregar o vaso sanitário, vá para o banheiro das meninas. Talvez receba elogios na assembleia matinal ou algo assim.

 

— Por favor, não fuja!

 

Hiina saltou sobre o corpo dele.

 

— Oi!

 

O corpo quente e carnudo, pingando suor, estava colado em Koremitsu, e ele estava completamente perplexo ao sentir seus seios fartos através da blusa fina de mangas curtas pressionando seu abdômen.

 

Hikaru ficou ao lado deles e, com voz baixa...

 

— Suponho que devo perguntar agora, em que momento devo me virar? Posso ao menos ver o beijo?

 

Sua pergunta veio junto de uma calma invejável.

 

— ESQUEÇA ISSO!

 

Koremitsu sabia que deveria ter ignorado, todavia não conseguiu evitar gritar.

 

— Relaxe, vou te fazer se sentir muito bem. Deixe tudo comigo.

 

— Espere, não encoste seu rosto no meu pescoço! Está coçando!

 

— Deixa eu te contar uma coisa, Akagi. Yu Kanai “não é uma pessoa insignificante” para o veterano Tojo.

 

Ao ouvir Hiina murmurar aquilo em seu pescoço, Koremitsu parou de resistir.

 

— Porque o veterano Tojo “sabia que o Lorde Hikaru visitaria o apartamento de Yu Kanai”... Porque via Lorde Hikaru como...

 

Justo quando Koremitsu foi gradualmente atraído pelas palavras de Hiina.

 

— UWAAAAHHH!

 

Um grito veio da entrada do banheiro.

 

— AKAGI ARRASTOU UMA GAROTA PARA O BANHEIRO MASCULINO!!!

 

(O QUÊ?)

 

Assustado, Koremitsu empurrou Hiina para o lado e saiu correndo do banheiro com uma expressão pálida e fantasmagórica. Nesse instante, ouviu-se um zumbido no corredor.

 

— Ouvi dizer que o delinquente Akagi fez isso no banheiro!

 

— Ele trouxe uma garota à força para este lugar e a empurrou para cá!

 

Enquanto Koremitsu permanecia surpreso, Hiina espiou por trás dele.

 

— Wow, então somos um casal oficial a partir de hoje. Esse amor que surge de um estupro parece coisa de mangá shoujo¹!

 

E deu um sorrisinho hipócrita.

 

***

 

— Parabéns, Akagi.

 

A presidente do grêmio estudantil do segundo ano do Ensino Médio, amplamente conhecida como a matriarca Asa, Asai Saiga, parabenizou a Koremitsu com uma expressão gélida, repleta de humilhação, repulsa e ridículo.

 

— Seu ato lascivo será registrado nos anais da história sombria da prestigiosa Academia Heian e viverá para sempre como um legado.

 

Todas as provas do dia haviam terminado, e depois da aula...

 

Koremitsu estava furioso enquanto estava sentado na cadeira da sala de aconselhamento estudantil, encarando Asai à sua frente.

 

(Por que essa pessoa está me questionando sobre aquilo em vez dos professores? O cargo de presidente do grêmio estudantil é tão importante assim?)

 

— Todos os professores confiam muito na Asa. Embora ela às vezes use sua autoridade para demitir professores ruins ou obrigar alunos indisciplinados a abandonar os estudos, ela continua sendo justa e competente. Não precisa ficar a encarando com essa cara de desconfiança.

 

Hikaru quase implorava enquanto permanecia atrás de Koremitsu.

 

Porém, como ela era alguém poderosa que podia demitir professores e forçar alunos a abandonar os estudos, mesmo sendo aluna, Koremitsu não podia se descuidar.

 

Mesmo sendo primos, Hikaru não está sendo superprotetor com essa pessoa? Claro, Koremitsu preferiu ignorar as palavras de Hikaru.

 

— Já disse antes que não a puxei para dentro do banheiro e que não fiz nada de ruim com ela. Tudo o que fiz foi dizer algumas palavras.

 

— Era necessário entrar no banheiro masculino para ter uma conversa?

 

— H-Há uma razão para isso.

 

— E que motivo você tem para abraçar uma garota no banheiro masculino?

 

— Eu não a abracei!

 

— Houve testemunhas que afirmaram que você empurrou Oumi à força, sem se importar com o seu consenso.

 

— É APENAS UMA ILUSÃO CAUSADA POR PRECONCEITO!

 

— Eles não têm esse preconceito por causa das suas ações habituais? Se considerarmos tudo, existe a possibilidade de tenha feito o que dizem.

 

Asai elevou deliberadamente a voz enquanto murmurava para si mesma.

 

— Ugh!!!

 

Pelo rumo que a conversa estava tomando, parecia que ele só continuaria a ouvir seus comentários sarcásticos.

 

— De qualquer forma, não fiz nada. É tudo o que quero dizer. Há mais alguma coisa?

 

Ele se levantou.

 

— Espere um momento. Ainda há uma coisa importante que não perguntei.

 

Asai disse com firmeza.

 

Koremitsu parou.

 

Ela permaneceu sentada na cadeira, impassível, com um olhar penetrante que combinava com sua voz.

 

— Ouvi dizer que você deu um soco no Tojo?

 

Tojo estava no terceiro ano e era mais velho que Asai, mas ela o chamava pelo sobrenome, sem usar honoríficos.

 

— Aquele cara fez algo que merecia levar um soco.

 

Koremitsu reprimiu sua raiva enquanto sibilava.

 

— É sobre a Yu Kanai?

 

A pergunta de Asai fez com que os ombros de Koremitsu se contraíssem em surpresa.

 

(Ela sabia de tudo? Afinal, não posso subestimar essa mulher.)

 

— Sim.

 

Koremitsu não desviou o olhar enquanto a encarava diretamente.

 

Asai ergueu ligeiramente os lábios.

 

— Porque Hikaru foi à casa de Yu Kanai quando ele ainda estava vivo?

 

— Sim.

 

— Parece que ainda está fingindo ser o substituto do Hikaru.

 

Havia críticas mordazes e impaciência em seu tom de voz.

 

Koremitsu prendeu a respiração.

 

— É impossível para você expressar os sentimentos de Hikaru.

 

O que Asai dissera no passado voltou a lhe vir à mente.

 

Asai exibiu uma expressão cruel, tal qual a que demonstrara naquela época, e continuou.

 

— Alguém tão superficial quanto você jamais compreenderá os verdadeiros desejos e esperanças do Hikaru.

 

Se tivesse ouvido essa frase uma semana atrás, com certeza teria discutido até o último suspiro.

 

Teria dito com orgulho, “Hikaru e eu somos amigos, e já que me pediu ajuda, quero ajudá-lo a expressar seus sentimentos.”

 

Porém naquele momento, ao ouvir as palavras de Asai, não tinha nenhuma confiança.

 

De fato não fazia ideia do que Hikaru estava pensando.

 

Não sabia o que este último estava tentando fazer com ele, o que Hikaru sentiu quando o pedido para encontrar Yu foi feito, e não sabia por que Hikaru escolheu permanecer alheio a Yu. Não conseguia entender os desejos, expectativas, vida amorosa e assim por diante de Hikaru.

 

Não queria olhar para trás e ver Hikaru, que estava ouvindo a conversa deles às escondidas.

 

— Hikaru realmente a valoriza, e mesmo que ele morra, não deixará Yu permanecer naquela casa para sempre. H-Hikaru está realmente preocupado com a Yu.

 

Asai esboçou um sorriso de escárnio.

 

— Está dizendo que o Hikaru realmente valoriza a Yu Kanai? É apenas uma das suas inúmeras companheiras de brincadeiras. Não, talvez nem seja uma companheira de brincadeiras.

 

(Essa mulher... Sabia do relacionamento entre os dois?)

 

O estômago de Koremitsu revirou, e Hikaru permaneceu em silêncio atrás dele. Normalmente, essa pessoa se pronunciaria até sobre a menor questão, e escolheu ficar calada neste momento?

 

— Não, Hikaru a valoriza. Por que aquele príncipe mulherengo iria à casa de uma garota se ela não tem a menor chance de se despir e ficar com ele?

 

Koremitsu argumentou com veemência enquanto retribuía o olhar com raiva.

 

Asai franziu a testa, demonstrando desdém.

 

— Sua etiqueta verbal é grosseira.

 

— Sim, afinal não sou nenhum nobre da alta sociedade.

 

— Então é por isso que fica farejando por aí como um cachorro? Você não sabe o quão perigoso e tolo isso é?

 

— O que quer dizer?

 

— Estou dizendo que um espírito vingativo vai te perseguir.

 

Asai respondeu bruscamente.

 

Koremitsu ficou sem palavras diante da ousadia da declaração de Asai e prosseguiu com um tom de advertência severo.

 

— Você acha que eles não existem? Na verdade, existem espíritos vingativos nesta escola, tanto no passado quanto agora. Yu Kanai foi devorada por essa coisa, por causa dos rumores de que enfeitiçou Tojo, a inveja e a malícia das garotas se transformaram em uma aparição senciente que a atacou. E não parou por aí, até as garotas que a intimidavam foram feridas por essa aparição. Ela continua se espalhando, criando novos espíritos vingativos. Akagi, se continuar a desenterrar esse incidente e relembrar a todos, trará novos rumores de maldade, e isso não só não trará nenhum benefício para Yu Kanai, como também prejudicará a reputação de Hikaru, que se envolveu com ela, e arruinará a ordem da escola. Como prima de Hikaru e presidente do Conselho Estudantil do Ensino Médio, tenha certeza de que não ficarei de braços cruzados enquanto comete suas maldades.

 

Asai sentou-se ereta, e seu tom de voz era calmo e claro. Era a imagem perfeita de Tojo, e isso enfureceu Koremitsu.

 

Porém estava certa. Esses espíritos vingativos são sem dúvida construídos a partir das emoções sombrias do coração humano.

 

Suas ações com certeza desencadeariam uma nova onda de caos e boatos na escola.

 

As preocupações de Asai eram lógicas.

 

— Mesmo assim, se eu a deixar sozinha, Yu nunca conseguirá se livrar desse espírito vingativo!

 

Sempre que se lembrava da imagem de Yu, aconchegada sob o cobertor e soluçando, sua pele e peito se dilaceravam de dor, e sua cabeça e coração se esfriavam.

 

— Há um ano, ninguém protegia Yu.

 

Todas as pessoas desta escola abandonaram aquela menina frágil e gentil.

 

Hikaru também disse que era um fantasma indefeso depois de trazer Koremitsu até ela, e não interferiu.

 

Nesse momento, Koremitsu não entendia que tipo de sentimentos Hikaru tinha por Yu, e que tipo de promessa havia feito.

 

Talvez fosse justo como Asai havia dito, que não tinha o direito de ser o representante de Hikaru.

 

Contudo nada disso importava...

 

— DESSA VEZ EU A PROTEGEREI! SE HOUVER ALGUM ESPÍRITO VINGATIVO, EU O DESTRUIREI PARA QUE NÃO SE APROXIME DA YU DE NOVO!

 

Essa emoção intensa que lhe subiu pela garganta era real.

 

Não importa o que Hikaru pensasse de Yu. Ainda que a Yu fosse apenas mais uma dos inúmeras companheiras de brincadeira do Hikaru... Como Asai havia dito, definitivamente não a abandonarei!

 

Vou protegê-la!

 

Lutarei contra esse espírito vingativo até o fim, até que ele fuja chorando! Vou garantir que Yu não mostre mais aquela expressão tímida e solitária, e que viva sua vida escolar feliz!

 

Asai lançou um olhar furioso para Koremitsu. Era certo que devia achá-lo superficial, no entanto ele não se importava com sua opinião a seu respeito.

 

Ele aproveitou a oportunidade para sair da sala de aconselhamento estudantil antes de ouvir qualquer palavra desconfortável.

 

Atrás de suas costas...

 

— Pare aí.

 

Asai gritou, entretanto Koremitsu não parou em momento algum.

 

Asai mordeu os lábios na entrada da sala enquanto observava Koremitsu Akagi sair de costas.

 

— Que legal...

 

Um tom zombeteiro veio de trás da porta, e ela se virou em choque.

 

Hiina Oumi, do clube de notícias, lançava um olhar provocador, e ao seu lado, Honoka Shikibu exibia uma expressão pálida, nesse momento, Asai franziu a testa involuntariamente.

 

As duas estavam paradas na entrada da sala de aconselhamento estudantil com o objetivo de ouvir a conversa deles. Hiina Oumi tinha seus próprios motivos, enquanto Honoka Shikibu devia estar preocupada com Koremitsu.

 

— Desculpe, eu estava... Apenas de passagem.

 

Honoka baixou a cabeça de forma desajeitada ao dizer essas palavras.

 

Hiina, por sua vez, demonstrou uma expressão imperturbável.

 

— Eu vou protegê-la, não é? Nossa, isso é tão emocionante. Akagi é de fato um bom homem, afinal. Estou quase me apaixonando por ele.

 

Ela disse, entusiasmada.

 

Honoka, que estava ao lado, pareceu surpresa.

 

Asai encarou as duas, depois olhou para o lugar para onde Koremitsu tinha ido furioso e disse, apesar de tudo.

 

— É realmente repugnante ver um homem que afirma de forma tão leviana que protegerá qualquer pessoa.

 

***

 

(Eu protegerei Yu!)

 

Era pleno período de provas de meio de semestre, e não havia ninguém à vista nos corredores silenciosos. Os olhos de Koremitsu brilhavam enquanto avançava a passos largos.

 

— Vou afugentar esse espírito e aterrorizar aquela Asai Saiga de cara amarrada!

 

— Também quero ver Asa tremendo de medo... Mas Koremitsu, isso é bom mesmo?

 

Uma voz clara soou de repente.

 

Koremitsu estava determinado a fingir que não ouvia Hikaru, porém o suspiro pesado e a atitude hesitante deste último despertaram sua preocupação.

 

(O quê? O que há de errado?)

 

O silêncio constrangedor provocou um impulso de desviar o olhar, contudo antes que Koremitsu pudesse fazê-lo, ouviu a voz solene de Hikaru.

 

— Se Yu conseguir se livrar do espírito vingativo dela, você a perderá.

 

Koremitsu parou abruptamente.

 

Olhando para trás, constatou que a expressão de Hikaru continuava tão sombria como sempre.

 

Hikaru exibiu uma expressão pensativa enquanto parecia informar Koremitsu sobre um desastre inevitável, e disse.

 

— Eu sei como evitar essa situação, e posso te dizer. Que tal, Koremitsu? Quer me ouvir?

 

Notas:

1. Mangá Shoujo é uma demografia de quadrinhos japoneses direcionada principalmente para o público feminino jovem (adolescentes). Essas obras focam em vivências emocionais e costumam destacar o desenvolvimento de relacionamentos, com tramas que misturam romance, cotidiano escolar, fantasia e amadurecimento.

***


Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...

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