Volume 02: Yugao — Capítulo 13: As desculpas de um nobre
É possível recuperar um guarda-chuva perdido há um ano?
(Logicamente, deveria
ter sido descartado há muito tempo...)
No dia seguinte,
Koremitsu foi para a sala de aula de Yu.
Ambos estavam no primeiro
ano do Ensino Médio, mas como havia muitos alunos em seu ano acadêmico, a sala
de aula dela ficava muito longe da de Koremitsu, localizada no segundo andar.
Havia um suporte para
guarda-chuvas na parede lateral do corredor, com dois ou três guarda-chuvas. O
tempo estava agradável e a luz solar intensa que entrava pela janela era
ofuscante.
No dia em que o
guarda-chuva de Yu desapareceu, choveu torrencialmente desde a manhã, então
devia haver muitos guarda-chuvas lá dentro.
Porém apenas o
guarda-chuva de Yu desapareceu.
Será que as pessoas que
adoravam atormentar Yu esconderam o guarda-chuva?
Contudo seus
guarda-chuvas desapareceram no dia seguinte e foram encontrados pendurados na
sala de aula de química.
— Alguém... Viu um
espírito vingativo.
— Corria o boato de que o
espírito de Kanai havia retornado em busca de vingança.
Koremitsu não acreditou
em palavras tão absurdas.
No entanto quem pendurou
os guarda-chuvas na sala de aula de química?
Quem roubou o
guarda-chuva de Yu? Ou será outra coisa...
A janela foi aberta e uma
corrente de ar entrou no local. As plantas no vasto pátio da escola estavam
deslumbrantes depois de terem sido lavadas pela chuva de ontem, e as vozes
animadas dos alunos também podiam ser ouvidas.
Era uma paisagem tão
tranquila.
(Pensar que há casos
de intimidação em uma escola tão bonita e saudável.)
Ele ficou ressentido com
isso.
Quando estava no Ensino
Fundamental II, era comum haver delinquentes de outras escolas que o
incomodavam ou até mesmo procuravam brigas.
Na maioria das vezes,
havia muitos oponentes e ele estava sozinho. Detestava fugir e não queria se
render àqueles desprezíveis que, de forma covarde, se armavam e o atacavam em
grupo. Portanto, fazia o possível para revidar.
Pensou que algo assim não
aconteceria mais no Ensino Médio...
Entretanto, não esperava
um ato tão hediondo em uma escola tão pacífica. Normalmente, se houvesse
delinquentes simplórios procurando confusão com ele, poderia resolver a situação
na hora. O bullying, por outro lado, era algo que acontecia nos bastidores,
então era muito mais assustador.
Talvez quanto mais
irrepreensível parecesse à primeira vista, mais o oposto fosse verdadeiro.
Talvez quisessem
disfarçar a situação com uma aparência cristalina, já que o interior estava
muito sujo.
No momento em que
Koremitsu encarava o porta guarda-chuvas vazio com uma expressão severa...
— Ah! A-Akagi...
Uma voz assustada veio de
trás.
A representante de turma
com tranças estava atrás de Koremitsu, e os olhos sob a lente estavam
arregalados.
— O-O-O que está fazendo
aqui?
— E eu vou te perguntar
por que está tão assustada.
— E-E-Eu estava
procurando o representante da turma 8 para discutir sobre o próximo
representante de turma e te vi encarando o porta guarda-chuvas de outra turma
no caminho para cá... Se pretende instalar uma bomba, aconselho que não o faça
aqui... Não, por favor, não faça isso em lugar nenhum.
A representante de turma
recuou hesitante ao dar seu conselho, cumprindo seu dever como tal.
(Bomba... Que tipo de
pessoa ela pensa que sou?)
Ele perdeu toda a força
para se irritar, e seus ombros caíram.
Nesse instante, uma
canção infantil chamada “Tio Cão Policial” tocou no bolso da saia de Michiru.
— Woah!
Michiru entrou em pânico,
pegou o celular às pressas e viu uma nova mensagem na tela.
Você precisa mesmo usar
uma música dessas...? Justo quando Koremitsu estava
perplexo com a cena, percebeu de repente que a expressão de Michiru
empalideceu.
Algo semelhante parece
ter acontecido antes.
Um e-mail anônimo foi
enviado para o celular de Honoka, falando sobre a morte de Hikaru.
— Ei, o que houve?
— Hmm, acabei de receber
um e-mail estranho.
Com as mãos trêmulas,
Michiru mostrou a tela do celular para Koremitsu.
Ao ver aquilo, Koremitsu
ficou furioso.
“As mulheres que estavam
com Lorde Hikaru. Primeiro Ato: Yu Kanai.”
— Me empreste isso!
Koremitsu pegou o celular
de Michiru e leu atentamente.
“O espírito vingativo que
se recusa a frequentar a escola. Será que o espírito vivo de Yu Kanai é o mesmo
que matou Lorde Hikaru?”
O conteúdo do e-mail foi
suficiente para deixá-lo furioso.
(Droga! Quem mandou
esse e-mail? Não vou perdoá-lo!)
Ele devolveu o celular
para Michiru, que parecia apavorada e, envolto em uma aura sombria, saiu
pisando duro.
Michiru, que ficou
sozinha, olhava ao redor com uma expressão pálida.
— O-O-O-O que eu faço?
Ele parece muito bravo por algum motivo... Talvez vá explodir alguém. Se alguém
da nossa turma fizer uma coisa dessas, terei que assumir a responsabilidade
como representante de classe. Ah, é verdade! Preciso avisar a Hono primeiro!
Ela é forte e aprendeu kickboxing na academia e já deu uma surra no Akagi antes.
HONO! O AKAGI ESTÁ APRONTANDO DE NOVO!
Ela gritou enquanto
corria de volta para sua sala de aula.
E então, Koremitsu...
— Yu não é um espírito
vingativo! Vou provar para todos!
Seu rosto estava dormente
e suas sobrancelhas estavam mais arqueadas que o normal. Todos os alunos num
raio de dois metros fugiram apavorados.
— Quem é que está
espalhando essas mensagens estúpidas? Qual é o objetivo dele?
Continuou resmungando.
— Talvez essa pessoa não
tivesse um objetivo específico em mente, e apenas quisesse ver todos sendo
enganados por esses rumores.
Uma voz solene veio de
perto.
Koremitsu lançou um olhar
rápido para o lado e encarou o rosto melancólico de Hikaru, que se aproximava.
Ele desviou o olhar em
seguida e mordeu os lábios.
(Não vou me dar ao
trabalho de perguntar aqui. Já que adora bancar o fantasma, vou fingir que você
é um fantasma.)
Ele resmungou, caminhando
em direção à sala de aula do terceiro
ano com o olhar fixo.
Ele ia se encontrar com
Shungo Tojo, aquele a quem disseram que Yu estava tentando se aproximar.
Os alunos que estavam no
corredor eram dois anos mais velhos do que ele e pareciam mais adultos.
— Ei, não é esse o
calouro de quem estão falando?
— Por que está nas salas
de aula do terceiro ano?
— Parece mesmo perigoso.
Ouvi dizer que vinha importunando o Príncipe há um bom tempo. Será que nossa
escola chegou a esse ponto que deixamos um delinquente desses circular por aí?
— Ouvi dizer que foi quem
matou Lorde Hikaru. É verdade?
Havia olhares gélidos por
todos os lados, como se tivessem encontrado um intruso.
Koremitsu não recuou e
ergueu o queixo.
— Estou procurando um
cara chamado Tojo.
Ele perguntou na entrada
da sala de aula, e imediatamente houve um alvoroço.
Os alunos trocaram
olhares preocupados.
— É melhor relatarmos
isso aos professores o mais rápido possível... — alguém até murmurou.
Nesse instante, sob
olhares fixos em si, um estudante do sexo masculino aproximou-se de Koremitsu.
Era um homem bonito.
Suas costas estavam retas
e sua postura ao caminhar era cheia de estilo.
Seus cabelos negros
estavam penteados com esmero.
Tinha um queixo com
traços masculinos e feições bem definidas.
Suas vestes impecáveis,
movimentos fluidos e expressão arrogante exalavam nobreza.
Koremitsu franziu a
testa. Sentia-se desconfortável por todo o corpo, como se suas feridas
cicatrizadas estivessem sendo arranhadas.
— Eu sou Tojo.
A voz profunda e sonora
também era dolorosa para os ouvidos de Koremitsu.
— A habilidade do
veterano Tojo em encantar mulheres é comparável à do Lorde Hikaru.
Honoka já havia dito isso
antes.
No entanto, era uma
pessoa completamente diferente deste último.
O homem à sua frente não
possuía a mesma transparência e delicadeza que Hikaru, nem o carisma capaz de
acalmar qualquer pessoa.
Tinha um ar mais
masculino e não parecia ser um jovem, e sim um homem maduro. Entretanto, como
já era dois anos mais velho que Hikaru, essa impressão era de se esperar.
Assim que ambos se
deslocaram para o corredor, Koremitsu foi direto ao ponto.
— Tenho algo para lhe
perguntar. É sobre Yu Kanai.
Tojo franziu a testa.
— Não tenho nada a dizer
sobre esse incidente.
— Ouvi dizer que Yu se
recusou a vir à escola porque vocês dois compartilharam o mesmo guarda-chuva.
Tojo lançou um olhar frio
para Koremitsu.
— Ahh, com certeza foi
esse o caso. Contudo ela apenas compartilhou um guarda-chuva comigo em um dia
chuvoso e caminhamos juntos por 10 minutos. A sua recusa em vir para a escola é
um assunto pessoal seu, e estou certo de que não há necessidade de você me
questionar a respeito.
— O que está dizendo...
Koremitsu ficou
completamente furioso com suas palavras.
Que absurdo esse
pretensioso está dizendo? É problema dela se recusar a vir à escola? Está
dizendo que não precisa assumir nenhuma responsabilidade?
— Isto é apenas um
comportamento inadequado por parte de algumas meninas, em minoria. Assim que
parou de frequentar a escola, os insultos e calúnias sobre o nosso
relacionamento desapareceram, no entanto ainda se recusa a voltar às aulas até
hoje. Portanto, é um assunto pessoal dela.
— O motivo pelo qual a Yu
não se atreve a vir à escola é porque alguém pendurou os guarda-chuvas daquelas
garotas que a intimidavam, e agora corre o boato de que invocou um espírito
vingativo.
— Esse assunto não me diz
respeito ainda menos?
Tojo respondeu em um tom
de voz frio e demonstrou uma atitude distante.
Koremitsu sentiu o rosto
enrijecer e a respiração ficar acelerada.
Tojo, por sua vez,
manteve sua atitude lógica e pragmática.
— Está insinuando que
brinquei com os sentimentos de Yu Kanai e a abandonei? Deixe-me ser claro... Sei
muito bem com que tipo de mulher devo namorar. Meu tipo são apenas aquelas
nascidas em berço de ouro, princesas bem-educadas e com excelente formação.
Meus parentes definitivamente não aceitam garotas que vieram depois do Ensino
Médio, ou mesmo de famílias que administram pequenas e médias empresas. Mesmo
que eu aceitasse, as diferenças de classe social entre nós nos desgastariam. Não
posso namorar alguém assim pensando em uma relação de longo prazo. Por que
essas garotas não entendem isso e continuam invejando Yu Kanai?
Tojo suspirou exasperado.
Em seu furor, Koremitsu lhe deu um soco no rosto.
Tojo caiu para trás,
batendo com força na parede. Nesse instante, Koremitsu o agarrou pela gola e
gritou.
— JÁ CHEGA! A YU AINDA
FICA ATERRORIZADA QUANDO VE GAROTAS DE UNIFORME ESCOLAR, E SE LEMBRA DE COMO
SOFREU BULLYING! ELA SE ENCOBRE NO COBERTOR E TREME TODA VEZ QUE VE CHUVA,
DIZENDO QUE NÃO PODE SAIR SEM UM GUARDA-CHUVA! ISTO PODE SER APENAS UMA BOBAGEM
QUE ALGUMA MULHER IDIOTA FEZ DO SEU PONTO DE VISTA, APENAS UMA COISA DO
PASSADO, MAS A YU AINDA NÃO SE LIBERTOU DESSE PASSADO! ESTÁ TRANCADA EM UM
QUARTO ESCURO DURANTE TODO O ÚLTIMO ANO, SOFRENDO SOZINHA, E VOCÊ OUSA DIZER
QUE NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ?
Yu estava tão tímida que
cobriu todo o corpo com o cobertor, choramingando, “Eu não quero ir para a
escola.”
Ela estremeceu e disse
que preferia morrer de fome a ir para a escola.
Seu rosto estava
mortalmente pálido enquanto entrava em pânico só de ver Honoka segurando um
guarda-chuva...
Como assim isso não tem
nada a ver com você?
Koremitsu ficou furioso.
Já que ele achava que Yu
não era alguém com quem deveria sair, por que tinha que dividir um guarda-chuva
com ela?
Koremitsu não sabia se Yu
tomou a iniciativa de abordar Tojo, ou se este foi quem tomou a iniciativa.
Mas não importava quem
tivesse começado.
(Por que não a rejeitou?
Por que compartilhou o guarda-chuva de forma tão descarada?)
Já que a acha alguém com
quem não vale a pena ter um relacionamento sério por causa das diferenças em
suas origens familiares, por que a abordou de forma tão casual? Se não quer
assumir a responsabilidade, por que fez isso?
Ele arruinou a vida
diária de Yu sem remorso e não fez nada para protegê-la.
Tal homem não tinha o
direito de mencionar o nome de Yu!
Koremitsu usou a força
das mãos para agarrar Tojo pela gola com violência.
Tojo fez uma careta.
Uma multidão começou a se
formar, e até mesmo uma professora apareceu. O sinal que indicava o fim do
intervalo tocou, em nítido contraste com aquele impasse tenso.
Tojo afastou a mão de
Koremitsu,
— Está tudo bem! — disse
ele à professora com uma voz artificial.
A professora lançou um
olhar preocupado para Tojo e, em seguida, olhou para Koremitsu.
Tojo ajeitou o cabelo e
arrumou as roupas.
— Os testes estão prestes
a começar. Vocês também devem voltar correndo para sua sala de aula.
Após dizer aquilo, ele
foi embora.
— V-Vá embora agora! —
gaguejou a professora.
Koremitsu continuou
encarando Tojo por um bom tempo, antes de se virar e sair correndo.
Ao ver Koremitsu voltar
correndo para a sala de aula, Honoka soltou um suspiro de alívio.
Porém, sua expressão era
ameaçadoramente solene, e ela franziu a testa, preocupada. Durante todo o
período de teste, não parou de lançar olhares para Koremitsu.
Este último rabiscava sem
parar, parecendo estar descarregando sua raiva em relação a Tojo. O gráfico na
prova de matemática lembrava o rosto de Tojo, e Koremitsu continuava a gemer
enquanto seus olhos ardiam de raiva de tempos em tempos.
O teste terminou e,
quando chegou o intervalo, ele ainda parecia insatisfeito.
— Akagi...
Honoka o chamou.
— Eu... Estou bem.
Koremitsu resmungou,
puxou a porta para o lado e saiu da sala de aula.
Estava indo ao banheiro
e, enquanto continuava a jogar água no rosto na pia, a água espirrou para todos
os lados.
Assim que os outros
alunos entraram e descobriram o delinquente ruivo lavando o rosto com uma
enorme intenção assassina, fugiram e não ousaram usar o banheiro.
A sensação de contração e
agitação em seus órgãos não se dissipou, e Koremitsu começou a ficar furioso
consigo mesmo.
— Vamos para a escola. Se
alguém te intimidar, vou dar uma surra nele.
No instante em que
pronunciou essas palavras, Yu apenas o encarou timidamente.
Agredir os outros não
resolveria o problema, não era tão simples.
Já sabia disso... Estava
atormentado por sua superficialidade. Se tivesse socado Tojo na frente de Yu,
teria a aterrorizado. No instante em que pensou nisso, começou a se
arrepender...
Ele passou mais de 5
minutos lavando o rosto.
Quando enfim conseguiu se
acalmar, estava todo encharcado, contudo com a garganta seca. O que se refletia
no espelho era alguém com uma expressão selvagem e cabelos despenteados e
pingando água.
Hikaru não aparecia no
espelho, no entanto Koremitsu sabia que devia estar atrás, com uma expressão
relaxada.
— Você não precisa se
preocupar.
Uma voz suave veio de trás.
Koremitsu segurou a pia
pelas laterais enquanto encarava o espelho. Não queria olhar para trás de jeito
nenhum.
— Suponho que seja bom
que o Sr. Shungo tenha levado um soco.
Uma voz reconfortante
chegou aos ouvidos de Koremitsu.
— Como herdeiro da
família Tojo, suponho que ninguém nesta escola ousaria bater no Sr. Shungo.
(Aquele cara sabia
quem ele era...?)
Koremitsu queria olhar
para trás, entretanto continuou segurando a borda da pia, resistindo ao
impulso.
(Droga, quem vai te
dar ouvidos aqui? É inútil mesmo se tentar parecer sincero!)
Ele rangeu os dentes de
dor, todavia era certo que estava curioso sobre a relação de Hikaru com Tojo.
Hikaru aparentemente não
percebeu a complicação no coração de Koremitsu e continuou com uma voz
tranquila.
— A família do Sr. Shungo...
A família Tojo... Sempre auxiliou a família Mikado. Suponho que já tenha ouvido
falar do Grupo Mikado, não é? Ele possui operações em larga escala, incluindo
bancos, e o presidente é o chefe da família Mikado, meu pai. Entretanto, alguns
dizem que quem controla o Grupo Mikado não é a pessoa que dá nome ao grupo, e
sim a família Tojo, que realiza as operações de fato. Em outras palavras, a
relação entre mim, nascida fora do casamento... E o Sr. Shungo, pode ser um
pouco complicada...
Então um deles era filho
de um magnata corporativo, enquanto o outro era o herdeiro da família que
administrava a corporação? Se Hikaru fosse um Príncipe, Tojo seria filho do
Chanceler?
Koremitsu não queria
ouvir, entretanto não conseguiu evitar. Se tapasse os ouvidos ou gritasse para que
ficasse quieto, estaria admitindo a existência de Hikaru...
— Além disso, o Sr.
Shungo é primo da Srta. Aoi.
(Da Aoi?)
— A título de
curiosidade, o primo da cunhada do marido da terceira irmã do pai do Sr. Shungo
é sobrinho do primo do primo do pai de Asa.
— ESSA RELAÇÃO DE
PARENTESCO É MUITO COMPLICADA! QUEM NO MUNDO VAI ENTENDER ISSO?
Ah, droga! Eu queria
fingir que não o ouvia, mas não consegui evitar reagir! Koremitsu
fechou a boca apressadamente e encarou a pia.
— Sim, a relação familiar
entre essas pessoas é muito difícil de entender. Quer que eu explique devagar
para você?
De repente, ouviu-se a
voz de outra pessoa.
E veio da cabine do
banheiro!
A porta com uma placa de “com
defeito” se abriu rangendo, e uma garota baixinha e de seios fartos saltou de
dentro, chocando Koremitsu.
— O QUÊ? VOCÊ... ESTE É O
BANHEIRO MASCULINO!
— E?
Hiina Oumi, do clube de
notícias, segurava uma escova de vaso sanitário, sorrindo enquanto se apoiava
em Koremitsu, e continuava em seu ritmo acelerado de sempre.
— Um dos meus passatempos
é coletar informações enquanto esfrego o vaso sanitário em um banheiro. Um
banheiro é um lugar onde qualquer um pode relaxar, revelar seu verdadeiro eu e
expor seus segredos mais íntimos. De vez em quando, consigo descobrir coisas
como linchamentos ou extorsões, então é bastante intenso! Que tal se esconder
no vaso sanitário comigo da próxima vez, Akagi? Tenho certeza que verá um novo
mundo!
— Não quero saber desse
tipo de coisa. Não fique perto de mim com essa escova de lavar privada na mão.
Vaza.
Koremitsu tentou empurrar
Hiina para o lado, porém ela se agarrou nele com seus seios e coxas extremamente
elásticos.
— Não é bom ser tão frio,
não é? Sou capaz de fazer outras coisas além de limpar o banheiro. Você parece
estar preocupado, pelo que murmurou para si mesmo. Talvez eu possa fornecer as
informações que deseja saber.
— O que quer dizer?
Hiina ergueu a cabeça e
seus grandes olhos fitaram Koremitsu com intenções ocultas. Ele ficou chocado
com a forma como se transformou de uma diabinha tentadora em uma jovem
atrevida.
— Significa que posso
ajudar a explicar o papel que Lorde Hikaru desempenha na família Mikado e quem
se beneficiará mais com isso após a sua morte.
Koremitsu sentiu um
sobressalto e quase olhou para Hikaru, contudo se conteve, lembrando a si mesmo
em silêncio, “Não é da minha conta”.
— Não preciso! E você é
muito suspeita também.
— Hã? Essas palavras me
magoam! Já estou sendo tão sincera, então por que está infeliz, Akagi?
— Normalmente, as garotas
não se atrevem a olhar nos meus olhos e fogem ao me ver. No entanto você tomou
a iniciativa de se aproximar e não tem medo de mim. Isso é muito estranho, e
pare de ficar me seguindo.
Hiina se afastou de
Koremitsu e exibiu uma expressão triste.
— Esse tipo de
pensamento... É de dar muita pena. Realmente acha que toda mulher que se
aproxima de você tem alguma intenção ardilosa.
— Uuh...
Ao vê-la com uma
expressão séria e falando em tom suave, Koremitsu ficou sem palavras.
(Eu... Não estou
errado quando digo isso... Provavelmente.)
Entretanto a expressão de
Hiina estava minando aos poucos sua confiança quanto mais a observava.
— Quando uma mulher se
aproxima, às vezes é porque se sente atraída pelo sexo oposto... Não consegui
sentir, Akagi?
(Impossível!
Definitivamente não.)
Ele não conseguiu mais
conter seus sentimentos e recuou devagar.
— Vou voltar para a sala
de aula. Se quer esfregar o vaso sanitário, vá para o banheiro das meninas.
Talvez receba elogios na assembleia matinal ou algo assim.
— Por favor, não fuja!
Hiina saltou sobre o
corpo dele.
— Oi!
O corpo quente e carnudo,
pingando suor, estava colado em Koremitsu, e ele estava completamente perplexo
ao sentir seus seios fartos através da blusa fina de mangas curtas pressionando
seu abdômen.
Hikaru ficou ao lado
deles e, com voz baixa...
— Suponho que devo
perguntar agora, em que momento devo me virar? Posso ao menos ver o beijo?
Sua pergunta veio junto de
uma calma invejável.
— ESQUEÇA ISSO!
Koremitsu sabia que
deveria ter ignorado, todavia não conseguiu evitar gritar.
— Relaxe, vou te fazer se
sentir muito bem. Deixe tudo comigo.
— Espere, não encoste seu
rosto no meu pescoço! Está coçando!
— Deixa eu te contar uma
coisa, Akagi. Yu Kanai “não é uma pessoa insignificante” para o veterano Tojo.
Ao ouvir Hiina murmurar aquilo
em seu pescoço, Koremitsu parou de resistir.
— Porque o veterano Tojo “sabia
que o Lorde Hikaru visitaria o apartamento de Yu Kanai”... Porque via Lorde
Hikaru como...
Justo quando Koremitsu
foi gradualmente atraído pelas palavras de Hiina.
— UWAAAAHHH!
Um grito veio da entrada
do banheiro.
— AKAGI ARRASTOU UMA
GAROTA PARA O BANHEIRO MASCULINO!!!
(O QUÊ?)
Assustado, Koremitsu
empurrou Hiina para o lado e saiu correndo do banheiro com uma expressão pálida
e fantasmagórica. Nesse instante, ouviu-se um zumbido no corredor.
— Ouvi dizer que o
delinquente Akagi fez isso no banheiro!
— Ele trouxe uma garota à
força para este lugar e a empurrou para cá!
Enquanto Koremitsu
permanecia surpreso, Hiina espiou por trás dele.
— Wow, então somos um
casal oficial a partir de hoje. Esse amor que surge de um estupro parece coisa
de mangá shoujo¹!
E deu um sorrisinho
hipócrita.
***
— Parabéns, Akagi.
A presidente do grêmio
estudantil do segundo ano do Ensino Médio, amplamente conhecida como a
matriarca Asa, Asai Saiga, parabenizou a Koremitsu com uma expressão gélida,
repleta de humilhação, repulsa e ridículo.
— Seu ato lascivo será
registrado nos anais da história sombria da prestigiosa Academia Heian e viverá
para sempre como um legado.
Todas as provas do dia
haviam terminado, e depois da aula...
Koremitsu estava furioso
enquanto estava sentado na cadeira da sala de aconselhamento estudantil,
encarando Asai à sua frente.
(Por que essa pessoa
está me questionando sobre aquilo em vez dos professores? O cargo de presidente
do grêmio estudantil é tão importante assim?)
— Todos os professores
confiam muito na Asa. Embora ela às vezes use sua autoridade para demitir
professores ruins ou obrigar alunos indisciplinados a abandonar os estudos, ela
continua sendo justa e competente. Não precisa ficar a encarando com essa cara
de desconfiança.
Hikaru quase implorava
enquanto permanecia atrás de Koremitsu.
Porém, como ela era
alguém poderosa que podia demitir professores e forçar alunos a abandonar os
estudos, mesmo sendo aluna, Koremitsu não podia se descuidar.
Mesmo sendo primos,
Hikaru não está sendo superprotetor com essa pessoa?
Claro, Koremitsu preferiu ignorar as palavras de Hikaru.
— Já disse antes que não
a puxei para dentro do banheiro e que não fiz nada de ruim com ela. Tudo o que
fiz foi dizer algumas palavras.
— Era necessário entrar
no banheiro masculino para ter uma conversa?
— H-Há uma razão para
isso.
— E que motivo você tem
para abraçar uma garota no banheiro masculino?
— Eu não a abracei!
— Houve testemunhas que
afirmaram que você empurrou Oumi à força, sem se importar com o seu consenso.
— É APENAS UMA ILUSÃO
CAUSADA POR PRECONCEITO!
— Eles não têm esse
preconceito por causa das suas ações habituais? Se considerarmos tudo, existe a
possibilidade de tenha feito o que dizem.
Asai elevou
deliberadamente a voz enquanto murmurava para si mesma.
— Ugh!!!
Pelo rumo que a conversa
estava tomando, parecia que ele só continuaria a ouvir seus comentários
sarcásticos.
— De qualquer forma, não
fiz nada. É tudo o que quero dizer. Há mais alguma coisa?
Ele se levantou.
— Espere um momento.
Ainda há uma coisa importante que não perguntei.
Asai disse com firmeza.
Koremitsu parou.
Ela permaneceu sentada na
cadeira, impassível, com um olhar penetrante que combinava com sua voz.
— Ouvi dizer que você deu
um soco no Tojo?
Tojo estava no terceiro
ano e era mais velho que Asai, mas ela o chamava pelo sobrenome, sem usar
honoríficos.
— Aquele cara fez algo
que merecia levar um soco.
Koremitsu reprimiu sua
raiva enquanto sibilava.
— É sobre a Yu Kanai?
A pergunta de Asai fez
com que os ombros de Koremitsu se contraíssem em surpresa.
(Ela sabia de tudo?
Afinal, não posso subestimar essa mulher.)
— Sim.
Koremitsu não desviou o
olhar enquanto a encarava diretamente.
Asai ergueu ligeiramente
os lábios.
— Porque Hikaru foi à
casa de Yu Kanai quando ele ainda estava vivo?
— Sim.
— Parece que ainda está
fingindo ser o substituto do Hikaru.
Havia críticas mordazes e
impaciência em seu tom de voz.
Koremitsu prendeu a
respiração.
— É impossível para você
expressar os sentimentos de Hikaru.
O que Asai dissera no
passado voltou a lhe vir à mente.
Asai exibiu uma expressão
cruel, tal qual a que demonstrara naquela época, e continuou.
— Alguém tão superficial
quanto você jamais compreenderá os verdadeiros desejos e esperanças do Hikaru.
Se tivesse ouvido essa
frase uma semana atrás, com certeza teria discutido até o último suspiro.
Teria dito com orgulho, “Hikaru
e eu somos amigos, e já que me pediu ajuda, quero ajudá-lo a expressar seus
sentimentos.”
Porém naquele momento, ao
ouvir as palavras de Asai, não tinha nenhuma confiança.
De fato não fazia ideia
do que Hikaru estava pensando.
Não sabia o que este
último estava tentando fazer com ele, o que Hikaru sentiu quando o pedido para
encontrar Yu foi feito, e não sabia por que Hikaru escolheu permanecer alheio a
Yu. Não conseguia entender os desejos, expectativas, vida amorosa e assim por
diante de Hikaru.
Não queria olhar para
trás e ver Hikaru, que estava ouvindo a conversa deles às escondidas.
— Hikaru realmente a
valoriza, e mesmo que ele morra, não deixará Yu permanecer naquela casa para
sempre. H-Hikaru está realmente preocupado com a Yu.
Asai esboçou um sorriso
de escárnio.
— Está dizendo que o Hikaru
realmente valoriza a Yu Kanai? É apenas uma das suas inúmeras companheiras de
brincadeiras. Não, talvez nem seja uma companheira de brincadeiras.
(Essa mulher... Sabia
do relacionamento entre os dois?)
O estômago de Koremitsu
revirou, e Hikaru permaneceu em silêncio atrás dele. Normalmente, essa pessoa
se pronunciaria até sobre a menor questão, e escolheu ficar calada neste
momento?
— Não, Hikaru a valoriza.
Por que aquele príncipe mulherengo iria à casa de uma garota se ela não tem a
menor chance de se despir e ficar com ele?
Koremitsu argumentou com
veemência enquanto retribuía o olhar com raiva.
Asai franziu a testa,
demonstrando desdém.
— Sua etiqueta verbal é
grosseira.
— Sim, afinal não sou
nenhum nobre da alta sociedade.
— Então é por isso que
fica farejando por aí como um cachorro? Você não sabe o quão perigoso e tolo
isso é?
— O que quer dizer?
— Estou dizendo que um
espírito vingativo vai te perseguir.
Asai respondeu
bruscamente.
Koremitsu ficou sem
palavras diante da ousadia da declaração de Asai e prosseguiu com um tom de
advertência severo.
— Você acha que eles não
existem? Na verdade, existem espíritos vingativos nesta escola, tanto no
passado quanto agora. Yu Kanai foi devorada por essa coisa, por causa dos
rumores de que enfeitiçou Tojo, a inveja e a malícia das garotas se
transformaram em uma aparição senciente que a atacou. E não parou por aí, até as
garotas que a intimidavam foram feridas por essa aparição. Ela continua se espalhando,
criando novos espíritos vingativos. Akagi, se continuar a desenterrar esse
incidente e relembrar a todos, trará novos rumores de maldade, e isso não só
não trará nenhum benefício para Yu Kanai, como também prejudicará a reputação
de Hikaru, que se envolveu com ela, e arruinará a ordem da escola. Como prima
de Hikaru e presidente do Conselho Estudantil do Ensino Médio, tenha certeza de
que não ficarei de braços cruzados enquanto comete suas maldades.
Asai sentou-se ereta, e
seu tom de voz era calmo e claro. Era a imagem perfeita de Tojo, e isso
enfureceu Koremitsu.
Porém estava certa. Esses
espíritos vingativos são sem dúvida construídos a partir das emoções sombrias
do coração humano.
Suas ações com certeza
desencadeariam uma nova onda de caos e boatos na escola.
As preocupações de Asai
eram lógicas.
— Mesmo assim, se eu a
deixar sozinha, Yu nunca conseguirá se livrar desse espírito vingativo!
Sempre que se lembrava da
imagem de Yu, aconchegada sob o cobertor e soluçando, sua pele e peito se
dilaceravam de dor, e sua cabeça e coração se esfriavam.
— Há um ano, ninguém
protegia Yu.
Todas as pessoas desta
escola abandonaram aquela menina frágil e gentil.
Hikaru também disse que
era um fantasma indefeso depois de trazer Koremitsu até ela, e não interferiu.
Nesse momento, Koremitsu
não entendia que tipo de sentimentos Hikaru tinha por Yu, e que tipo de
promessa havia feito.
Talvez fosse justo como
Asai havia dito, que não tinha o direito de ser o representante de Hikaru.
Contudo nada disso
importava...
— DESSA VEZ EU A
PROTEGEREI! SE HOUVER ALGUM ESPÍRITO VINGATIVO, EU O DESTRUIREI PARA QUE NÃO SE
APROXIME DA YU DE NOVO!
Essa emoção intensa que
lhe subiu pela garganta era real.
Não importa o que Hikaru
pensasse de Yu. Ainda que a Yu fosse apenas mais uma dos inúmeras companheiras
de brincadeira do Hikaru... Como Asai havia dito, definitivamente não a abandonarei!
Vou protegê-la!
Lutarei contra esse
espírito vingativo até o fim, até que ele fuja chorando! Vou garantir que Yu
não mostre mais aquela expressão tímida e solitária, e que viva sua vida
escolar feliz!
Asai lançou um olhar
furioso para Koremitsu. Era certo que devia achá-lo superficial, no entanto ele
não se importava com sua opinião a seu respeito.
Ele aproveitou a
oportunidade para sair da sala de aconselhamento estudantil antes de ouvir
qualquer palavra desconfortável.
Atrás de suas costas...
— Pare aí.
Asai gritou, entretanto
Koremitsu não parou em momento algum.
Asai mordeu os lábios na
entrada da sala enquanto observava Koremitsu Akagi sair de costas.
— Que legal...
Um tom zombeteiro veio de
trás da porta, e ela se virou em choque.
Hiina Oumi, do clube de
notícias, lançava um olhar provocador, e ao seu lado, Honoka Shikibu exibia uma
expressão pálida, nesse momento, Asai franziu a testa involuntariamente.
As duas estavam paradas
na entrada da sala de aconselhamento estudantil com o objetivo de ouvir a
conversa deles. Hiina Oumi tinha seus próprios motivos, enquanto Honoka Shikibu
devia estar preocupada com Koremitsu.
— Desculpe, eu estava... Apenas
de passagem.
Honoka baixou a cabeça de
forma desajeitada ao dizer essas palavras.
Hiina, por sua vez,
demonstrou uma expressão imperturbável.
— Eu vou protegê-la, não
é? Nossa, isso é tão emocionante. Akagi é de fato um bom homem, afinal. Estou
quase me apaixonando por ele.
Ela disse, entusiasmada.
Honoka, que estava ao
lado, pareceu surpresa.
Asai encarou as duas,
depois olhou para o lugar para onde Koremitsu tinha ido furioso e disse, apesar
de tudo.
— É realmente repugnante
ver um homem que afirma de forma tão leviana que protegerá qualquer pessoa.
***
(Eu protegerei Yu!)
Era pleno período de
provas de meio de semestre, e não havia ninguém à vista nos corredores silenciosos.
Os olhos de Koremitsu brilhavam enquanto avançava a passos largos.
— Vou afugentar esse
espírito e aterrorizar aquela Asai Saiga de cara amarrada!
— Também quero ver Asa
tremendo de medo... Mas Koremitsu, isso é bom mesmo?
Uma voz clara soou de
repente.
Koremitsu estava
determinado a fingir que não ouvia Hikaru, porém o suspiro pesado e a atitude
hesitante deste último despertaram sua preocupação.
(O quê? O que há de
errado?)
O silêncio constrangedor
provocou um impulso de desviar o olhar, contudo antes que Koremitsu pudesse
fazê-lo, ouviu a voz solene de Hikaru.
— Se Yu conseguir se
livrar do espírito vingativo dela, você a perderá.
Koremitsu parou
abruptamente.
Olhando para trás,
constatou que a expressão de Hikaru continuava tão sombria como sempre.
Hikaru exibiu uma
expressão pensativa enquanto parecia informar Koremitsu sobre um desastre
inevitável, e disse.
— Eu sei como evitar essa
situação, e posso te dizer. Que tal, Koremitsu? Quer me ouvir?
Notas:
1. Mangá Shoujo é uma demografia de quadrinhos japoneses direcionada principalmente para o público feminino jovem (adolescentes). Essas obras focam em vivências emocionais e costumam destacar o desenvolvimento de relacionamentos, com tramas que misturam romance, cotidiano escolar, fantasia e amadurecimento.Link para o índice de capítulos: When Hikaru was on the Earth...
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