sábado, 7 de novembro de 2026

The Perfect Insider — Capítulo 05

Capítulo 05: A Fronteira Cinza


Parte 1


Yumiko Shindo saiu do quarto de Yamane. Faltavam alguns minutos para as 5 da manhã. Yamane parecia ter desistido de tomar banho.

Yamane foi até o terminal e começou a digitar no teclado, enviando mensagens para os funcionários do prédio. O conteúdo das mensagens era extremamente vago: que havia ocorrido um acidente no instituto de pesquisa, que havia ocorrido uma fatalidade e que a instalação estava sem comunicação com o mundo exterior no momento devido a problemas inexplicáveis.

Yamane digitou no teclado que responderia a perguntas, exceto sobre os mortos. Então, frases apareceram na tela uma após a outra.



> A polícia virá aqui?

Até agora, não conseguimos contatar a polícia, mas eles virão eventualmente.

> E quanto à comida e energia?

Por enquanto, não será um problema. O funcionamento do instituto e a vida de seus funcionários não serão afetados.

> Recebi e-mails externos aqui. Por que não consigo enviar um e-mail daqui?

Parece ser um problema do software, porém a causa é desconhecida. Estamos investigando.

> Quanto tempo vai durar?

Esperamos que dure no máximo três dias.

> Alguém no instituto de pesquisa tem um rádio?

Se alguém tiver, entre em contato com Yamane.

> Deveria haver um rádio no helicóptero do diretor.

Esse rádio está com defeito. Se alguém souber como consertá-lo, avise o Yamane.

> Por que o vice-diretor Yamane está no comando? O diretor está ausente?

O diretor não está aqui. Portanto, não podemos usar o seu helicóptero.

> Posso sair do instituto de pesquisa?

Pode, contudo deve permanecer em seu quarto o máximo possível.

> Há algum perigo? A causa do problema é artificial?

É provocada pelo homem. Não posso afirmar que não há perigo.

> O que devo fazer em relação ao trabalho em andamento?

Se possível, gostaria que continuasse.



As palavras na tela continuavam a fluir. Parecia que Yamane não era o único a responder. Talvez o chefe Mizutani e o Dr. Yuminaga também estivessem o apoiando.

Em outra janela, uma chamada nominal da equipe do instituto de pesquisa foi realizada e todos foram identificados. Constatou-se que todos que deveriam estar nesta instalação estavam. Também foi confirmado que ninguém além de Yamane havia entrado ou saído da entrada do instituto de pesquisa entre ontem e esta manhã.

— Quantas pessoas trabalham neste instituto de pesquisa no total? — Saikawa perguntou a Yamane.

— Bem, cinquenta e dois de nós. — respondeu Yamane enquanto digitava no teclado. — Esse número exclui o professor Saikawa, Nishinosono e Miki Magata. E os cinquenta e dois incluem o Diretor Shindo e a Dra. Shiki Magata, então exatamente cinquenta pessoas estão vivas. Todas as cinquenta puderam ser confirmadas.

As perguntas semelhantes continuaram por cerca de uma hora até que um bipe eletrônico soou e o texto apareceu repentinamente em outra janela no visor.



Aqui é Ayako Shimada.

Vice-diretor, lembrei que tenho um encontro marcado com alguém amanhã às 13hrs.

Ela é repórter de uma revista feminina e virá a esta ilha para fazer uma entrevista.

Portanto, um barco chegará à ilha amanhã nesse horário.



— Parece que estamos salvos. — disse Saikawa, olhando para Yamane por trás.

Yamane olhou para Saikawa.

— Sim, é verdade. Suponhamos que enviemos alguém ao porto. Podemos entrar em contato com o mundo exterior.

— Então, nenhum barco vai chegar hoje? — Moe confirmou. — Não deveria haver alguém no porto?

— Seria inútil. A probabilidade de alguém chegar a esta ilha por acaso e sem aviso prévio é quase zero. Temos que ter paciência por mais um dia... — Yamane respondeu. — O que significa que a polícia só chegará amanhã à tarde.

Dito isso, Yamane só respondeu ao e-mail de Ayako Shimada que entendia.

Yamane avisou que outra reunião online para todos os funcionários do escritório seria realizada em quatro horas, e a reunião da manhã terminou por volta das 7hrs.

— Nesta reunião online, você não sabe quem está falando, sabe? — Moe perguntou a Yamane, que acendia um cigarro.

— Sim, tudo é gravado. Só que antes estava num modo que não mostrava quem estava falando. — Yamane se levantou e foi até a mesa. — O tempo necessário é menor do que o de uma reunião verbal. E não precisamos dizer nada desnecessário... Além do mais, não temos uma sala neste instituto de pesquisa para acomodar todos os cinquenta funcionários.

— Parece que a perda do diretor foi comunicada a eles de forma sutil. — disse Saikawa.

— Talvez seja revelado em breve. Não pretendo manter segredo. — respondeu Yamane.

— O assassino pode ter ouvido a reunião por acaso. — expressou Moe.

— Bem, não posso afirmar com certeza... — Yamane deu de ombros. — Estou com vontade de comer alguma coisa. Professor... Se não se importar com torradas, posso preparar...

— Obrigado! — Saikawa agradeceu e fez uma pequena reverência.

— Gostaria de um pouco, Nishinosono? — perguntou Yamane, olhando para Moe.

Moe não respondeu, mas ficou olhando para os carrinhos de corrida sobre a mesa.

— Nishinosono! — disse Saikawa, ao lado dela, tocando seu ombro de leve.

— Aquela porta... — Moe tinha uma expressão vaga no rosto. — A porta interna da residência da Dra. Magata... Quero dizer, a porta de alumínio dentro da porta amarela... Que ficava aberta o tempo todo... Como essa porta é controlada?

— Ah, aquela porta... — Yamane sorriu. — Essa é a jurisdição da Débora. Somente pessoal autorizado pode abri-la pelo lado de fora da residência. Ela também pode ser aberta de dentro do quarto da Dra. Magata. Contudo, ninguém além dela pode abri-la. Ela tem que colocar a mão ali...

Dito isso, Yamane interrompeu-se. Então, sua expressão congelou repentinamente.

— Como imaginei. — disse Saikawa a Moe em tom pausado.

— Hã? Você percebeu, professor? — exclamou Moe.

— Foi por isso que rejeitei a hipótese de que o assassino cortou os membros do cadáver devido à capacidade de carga do robô P1. — disse Saikawa em tom calmo. — Achei que fazia mais sentido.

— Então o assassino precisava da mão direita da Dra. Magata para abrir aquela porta. Será que cortar as duas mãos é camuflagem? — questionou Moe.

— O assassino usou a mão direita decepada da Sra. Magata para abrir aquela porta? — Yamane se pronunciou. — Não acredito. De jeito nenhum... Para uma coisa dessas?

— Não, acho que não foi só para aquela porta. — disse Saikawa.

— Está dizendo que o assassino está perambulando pelas instalações com a mão direita da mulher?

— Talvez... — Saikawa assentiu.

Moe revirou os olhos e manteve a boca ligeiramente aberta.

— Não acredito...

— É inacreditável tudo o que está acontecendo. — Saikawa se limitou a dizer.

— O assassino usou a mão direita da Dra. Magata para abrir a porta? Por que precisaria fazer isso? Acho que os funcionários daqui conseguem abrir qualquer porta, não é? — Moe observou.

— Não... Não conseguimos abrir todas as portas. — explicou Yamane. — Primeiro, a porta de um quarto privado como este só pode ser aberta pelo ocupante. Outras portas só podem ser abertas por pessoas autorizadas a usá-las, ou seja, pré-registradas. Por exemplo, a saída no terraço, acessada pelo elevador reservado para o diretor, só pode ser aberta pelo diretor, pela esposa do diretor e por mim. A antessala em frente ao quarto da Dra. Magata, onde você estava antes, só pode ser acessada por um número limitado de pessoas.

— Qual quarto pode ser aberto pelo braço direito da Dra. Shiki Magata? — Moe fez uma pergunta estranha.

— Não sei. Ela não deveria estar registrada em nenhum dos quartos. — Yamane opinou. — Mas deveria ser a única que poderia abrir a porta de alumínio na saída do quarto da senhora.

— E quanto à entrada deste instituto de pesquisa?

— A entrada é acessível a todos os interessados. Porém, pelo que verificamos antes, ninguém saiu por ela.

— Estou intrigada... — Moe olhou para o teto e murmurou. — Por que o assassino teve que cortar as pernas também?

— É verdade, há muitas coisas estranhas. — disse Saikawa. — Como o assassino entrou naquela sala trancada? E como a pessoa saiu da sala? E quando foi? Há guardas do lado de fora da sala 24 horas por dia, em turnos, e tudo é gravado em vídeo o tempo todo. E o sistema de vídeo é completamente independente da Magia Vermelha. Mesmo que um vírus cause algum problema no sistema, esse sistema de vigilância não é afetado. É tudo muito intrigante quando paramos para pensar sobre, não é?

— Tem razão. — Yamane assentiu. — Para mim, o mais estranho é a anomalia da Magia Vermelha. Agora não conseguimos enviar e-mails. Não podemos mais usar o telefone. E... Foi a Débora quem abriu a porta amarela do quarto da Dra. Magata. Também foi Débora quem acendeu a luz. Nenhuma outra anormalidade até agora. Me parece que eles estão programados para este assassinato. Não é um vírus. Se alguém consegue fazer tal coisa, por que não há evidências de reescrita do programa? Não faço ideia... Para começar, apenas algumas pessoas nesta instalação conseguem fazer tal truque. Apenas um número limitado de pessoas pode acessar o sistema. Mizutani, Shimada e eu somos os únicos. Nem mesmo a Dra. Magata poderia tê-lo feito. Ela não conseguia acessar nosso sistema do seu quarto.

— Também perdemos os rastros da passagem do assassino pela porta do telhado. — acrescentou Moe. — Quando o diretor foi assassinado, alguém deve ter aberto uma das portas no telhado, certo? E, no entanto, não havia nenhum registro. O assassino não poderia ter apagado o registro?

— Não... Não é possível. Você poderia alterar o programa para que apenas certos dados não fossem gravados, contudo então haveria um rastro do programa sendo reescrito. — disse Yamane, cruzando os braços.

— Por que você não pode reescrever os dados no registro? Além do mais, o rastro de um programa reescrito também são dados, então não deveria ser possível reescrever os próprios dados? — questionou Moe.

— Isso é praticamente impossível, Nishinosono. Com o UNIX comum, é possível. Entretanto com a Magia Vermelha, a segurança é muito, muito mais rigorosa. Esses arquivos que não precisam ser reescritos nunca podem ser corrigidos. Nem mesmo os superusuários podem fazer isso. Na Magia Vermelha, um atributo de um arquivo é absolutamente impossível de reescrever. Chama-se Registro, uma entidade distinta dos arquivos de dados comuns. Todos os arquivos de registro têm esse atributo Registro.

— Então... Os dados não foram apagados, todavia talvez nunca tenham sido registrados. — apontou Saikawa. — O programa não registra apenas certas pessoas.

— Não, exigiria uma reescrita do programa. — explicou Yamane.

Moe suspirou.

— Ah, estou toda confusa...

— Enfim, vamos comer primeiro. — Yamane sorriu e foi para a cozinha.

Saikawa olhou para o relógio. Já passava das 7hrs da manhã. Ele bocejou alto. Moe recostou-se na cadeira e fechou os olhos.



Parte 2

O café da manhã que Yamane preparou para Saikawa e Moe estava mais delicioso do que o esperado. O instituto de pesquisa não tinha refeitório. Parecia que todos os funcionários faziam suas refeições em seus quartos. Yamane era muito habilidoso na preparação da comida.

Yamane, Mizutani, Yuminaga e a Sra. Shindo estavam prestes a realizar sua reunião às 8hrs. Saikawa e Moe decidiram retornar ao acampamento mais uma vez, e Yamane os acompanhou até a entrada do instituto de pesquisa.

— Eu realmente gostaria de emprestar nosso veículo a vocês, mas acho melhor deixá-lo aqui caso ocorram novos incidentes. — disse o vice-diretor Yamane ao sair da entrada do prédio. — Só temos um caminhão grande aqui, além daquele jipe. Peço desculpas.

— Ah, não, tudo bem. — disse Saikawa. — Em vez disso, gostaríamos de visitar aqui de novo. Que horas devemos voltar?

— Vou buscá-los de carro à tarde. — Yamane olhou para o relógio. — Vejamos, que tal por volta das 14hrs?

— Ótimo. — Saikawa curvou a cabeça.

A porta vermelha do instituto de pesquisa desceu do alto e se fechou. Saikawa e Moe desceram a rampa de concreto.

A natureza estava coberta por seu sol impiedoso de sempre, porém a temperatura ainda não estava desconfortável para aquele horário. Eles ouviram o som das cigarras e sentiram o cheiro nostálgico do ar de verão.

— Ah, vou me queimar de sol. — disse Moe, levando uma das mãos à testa. — Sabe, eu não trouxe meu guarda-sol...

Os dois caminharam penosamente pela estrada até o acampamento. Na noite anterior, não conseguiram ver nada por causa da escuridão total. A estrada era quase reta e descia suavemente, ladeada por floresta dos dois lados. O chão era asfaltado e postes de telégrafo ficavam ao lado da estrada. Claro, não havia uma única casa à vista. Perto do porto, costumava haver algumas casas no lado sul da ilha. Contudo agora, toda a ilha era propriedade privada da família Magata.

Os dois chegaram ao acampamento cerca de 15 minutos depois. A pesquisadora associada Momoko Kunieda, a estudante internacional Wu e o estudante de pós-graduação Hamanaka estavam sentados em um toco conversando.

— Onde vocês dois estiveram? — perguntou Hamanaka em voz alta quando Saikawa e Moe se aproximaram.

— Bom dia! — respondeu Saikawa. — Sabe, o único lugar que poderíamos visitar seria o instituto de pesquisa... Como estão os outros?

— Eles foram à praia brincar. — respondeu Kunieda.

— Vocês dois ficaram no instituto de pesquisa? — Hamanaka se levantou. — Todos estavam preocupados com vocês dois. O que aconteceu?

— Preocupados? Mas foram à praia, não é? — Saikawa curvou os lábios num sorriso irônico.

— Eu... Fiquei aqui porque estava preocupado com o professor e a Nishinosono. — disse Hamanaka um pouco irritado.

— Ficamos acordados a noite toda. — Moe parecia exausta. — Tivemos um pequeno problema lá...

— Enfim, vou tirar um cochilo por ali. — disse Saikawa.

Moe entrou na barraca no fundo do terreno.

Saikawa estendeu uma lona plástica sob uma grande árvore ao lado de uma barraca e se deitou sobre ela. Decidiu dormir de bruços com um chapéu de palha, de quem nem sabia a quem pertencia. Havia uma leve brisa, então não estava muito quente. Pensou que conseguiria dormir confortavelmente.

Na verdade, não conseguiu dormir muito bem.

Sua consciência repassava os eventos da noite anterior. Às vezes, precisava pausar, então enquadrar e depois retroceder.

Será que alguém está mentindo...? Essa é a única possibilidade que consigo imaginar.

A imagem do corpo sem vida da Dra. Magata estava gravada em sua mente. O cadáver, vestido com um vestido de noiva, estava sem os braços e as pernas.

Então... Essa era uma imagem que não queria ver.

Saikawa não viu o corpo do diretor. No entanto, comparado ao cadáver mutilado da Dra. Magata, tinha certeza de que devia ter uma aparência muito mais realista.

As luzes piscavam sem parar.

A boneca da noiva parou no meio do corredor.

A faca estava cravada na nuca dele.

A mão direita da dama estava faltando.

Alguém estava escondendo a mão direita dela.

Não, o fator mais misterioso era o quarto da Dra. Magata...

O quarto trancado estava fechado há quinze anos. Seu espaço era impecavelmente organizado.

Ninguém podia entrar ou sair... Ninguém entrava. Ninguém saía do quarto.

E não havia ninguém no quarto. Apenas o robô estava confinado lá dentro.

O soldado, feito de blocos de brinquedo.

O balão murcho.

O urso de pelúcia.

As máquinas de costura e os trabalhos de patchwork.

As mensagens estranhas das três personalidades deixadas nos computadores.

A anedota sobre pessoas que morreram perto da Dra. Magata, mas renasceram dentro dela.

Ela tinha um irmão gêmeo. A mulher que morreu nos EUA. A boneca coberta de sangue e descartada.

Tudo se tornará F...?

Saikawa adormeceu sem perceber.



Parte 3

Moe Nishinosono acordou.

Para sua surpresa, estava suando. Estava bastante quente na barraca, todavia logo se deu conta de que fora o sonho que a fizera suar. Uma boneca com uma faca caminhava por um longo corredor. Seu vestido branco estava manchado de sangue. A boneca tinha o braço direito decepado. Os olhos da boneca eram duas lentes... Conseguia se lembrar desses fragmentos, entretanto havia esquecido a história do sonho.

Moe se levantou e olhou para o relógio. Eram 13:30. Isso significava que havia dormido por cerca de quatro horas. Sua dor de cabeça havia desaparecido e não se sentia mais mal. Tentou se lembrar do sonho com a boneca de novo, porém não a assustou nem um pouco. Não conseguia se lembrar do que a havia assustado.

Moe rastejou até a saída da barraca, abriu o zíper e espiou para ver os outros reunidos a uma curta distância, comendo alguma coisa. Decidiu calçar seus sapatos e sair.

— Bom dia, mocinha. — disse Fuchida, um estudante de pós-graduação. Ele estava nu da cintura para cima. — Ouvi dizer que você saiu com o professor Saikawa ontem à noite. Mesmo nós nunca tivemos um professor fazendo algo assim por nós.

— Sério? — respondeu Moe. — Vocês fizeram curry?

Eles estavam comendo curry com arroz em pratos de plástico.

— É só uma retort pouch¹. Nós só cozinhamos o arroz. — disse outro estudante de pós-graduação.

Moe se perguntou o que seria retort pouch, contudo decidiu não perguntar porque não queria que os outros zombassem dela.

— Onde está o professor Saikawa? — Moe perguntou. Todos estavam lá, exceto Saikawa.

Moe olhou na direção que Hamanaka apontou e viu Saikawa dormindo à sombra de uma árvore a uma curta distância.

— Você estava se declarando para ele, não é? — disse Kawabata, rindo e balançando a colher. — Precisou de uma noite inteira para isso. Acho que deveria ser um pouco mais direta no que diz.

— Nishinosono, gostaria de um pouco? — perguntou a estudante estrangeira Wu.

— Não, obrigada. — Moe balançou a cabeça.

— O que aconteceu? — perguntou a pesquisadora Momoko Kunieda. — Depois que vocês dois saíram... Que horas eram? Vi um helicóptero voltando para a ilha.

Moe sentou-se em um toco de árvore e decidiu contar a todos sobre sua experiência da noite anterior.

Todos ficaram cada vez mais sérios e ouviram sua história em silêncio. Ainda seguravam seus pratos de curry vazios. Kawabata e Fuchida, os estudantes de pós-graduação que estavam brincando, fumavam cigarros e ouviam com expressões vazias no rosto.

— Inacreditável... — quando Moe terminou sua história, Hamanaka murmurou. — Parece um drama de suspense.

— No momento, não conseguimos contatar a polícia... — disse Fuchida. — Talvez possamos dar um jeito... Quero dizer, com um celular ou algo assim.

— Talvez pudéssemos ir ao porto e tentar sinalizar com bandeiras para os navios que passarem por perto...? — sugeriu Hamanaka.

— Que tal usar um espelho para refletir os raios do sol? — disse Kawabata com um olhar sério. — Seria impossível?

— Não podemos só nadar até lá? — disse Fuchida. — Quantos quilômetros são até o outro lado do mar?

— Não sei, talvez uns 10 quilômetros. — disse alguém.

— É bem mais longe. — riu Hamanaka. — Acho que seria melhor sinalizar para que alguém viesse.

Antes que Moe percebesse, Saikawa estava atrás dela, com cara de sono.

— Bom dia professor! — disse Kawabata com uma voz alegre.

— Tem alguma comida sobrando? — perguntou Saikawa, coçando a cabeça. — Yawn, estou com tanto sono... Vocês têm café? Alguém pode fazer um bem forte, por favor?

— Eu preparo para você. — disse Moe, levantando-se. — Oops... Hmm, não temos cafeteira aqui.

— Sem problemas, eu preparo. — disse Hamanaka, levantando-se e saindo.

— Acabamos de ouvir a história da Nishinosono. — disse Kawabata para Saikawa. — É sobre o caso do assassinato.

— Oh, é mesmo? — Saikawa procurou um cigarro e o tirou. — Pensando bem, algo parecido aconteceu.

— O professor Saikawa não está totalmente acordado. — sussurrou Kawabata.

— É um assassinato em quarto fechado, não é? — disse Fuchida para Moe, que estava ao seu lado. — Nishinosono, você é membro do grupo de estudos de romances policiais, certo?

Moe assentiu.

— Aquele é um verdadeiro quarto fechado... Não é ficção.

Saikawa fumava seu cigarro com deleite, no entanto parecia meio adormecido. Outros alunos disseram a Moe que nunca iam ao quarto de Saikawa de manhã para lhe fazer perguntas, porque ele sempre ficava assim nas primeiras horas depois de acordar.

— Professor, conseguiu descobrir alguma coisa? — perguntou Moe a Saikawa, sentando-se ao seu lado.

— Não, nada... — respondeu Saikawa sem expressão. — Podem esperar um minuto? Preciso de café primeiro.

— Agora estou fervendo água. — gritou Hamanaka de longe. — Vai demorar um pouco.

Hamanaka pendurou uma chaleira no lugar de uma panela e estava acendendo o fogo. Wu trouxe curry e arroz para Saikawa.

— Ah, obrigado, Wu. — Saikawa aceitou o prato e a colher. Então, depois de dar uma mordida, pareceu perceber que todos estavam prestando atenção nele e começou a falar. — Hmm, já que a Nishinosono contou o que aconteceu, vocês todos entendem que há um assassino nesta ilha. Talvez não corramos perigo. Entretanto, por precaução, tomem cuidado pessoal.

— Certo. Não devemos agir sozinhos o máximo possível. — disse Kunieda.

— É emocionante, não é? — disse um dos alunos.

— Espero que seja tão seguro quanto bungee jumping. — disse Saikawa.

— Então não vai ter festa no instituto de pesquisa hoje à noite? Eu estava ansioso por ela...

— Sim, claro que não. — disse Saikawa. — Nishinosono e eu voltaremos ao instituto de pesquisa mais uma vez.

— Por que vocês dois estão voltando para um lugar tão perigoso? — perguntou Hamanaka, atiçando o fogo com um uchiwa².

— Foi assim que aconteceu, e não temos escolha. Ela e eu estamos envolvidos no caso. Se a polícia vier, teremos muito o que conversar. É provável que não poderemos voltar para casa com vocês. — disse Saikawa como se fosse da conta de outra pessoa, enquanto comia seu curry. — Bem... É... Nunca passei por nada parecido antes, então quero observar as coisas para referência futura.

— Como podemos voltar para casa? — questionou Hamanaka. — Se não podemos usar o telefone, como os barcos podem chegar aqui?

— Eles terão um visitante na ilha por volta das 13hrs de amanhã. — disse Saikawa. — Vocês podem esperar no porto à tarde e embarcar no barco. Também pedirei que entrem em contato com a polícia.

— Professor, e quanto ao seu trabalho? — perguntou Moe.

— Sentirei falta das reuniões cansativas do comitê e das aulas tediosas. — respondeu Saikawa enquanto comia. — Tenho um manuscrito urgente para escrever, mas posso trabalhar nele se pegar um computador emprestado no instituto de pesquisa. Se o sistema de e-mail da instituição voltar a funcionar, não precisarei ir para casa por um tempo.



Parte 4

Exatamente às 14hrs, Yamane chegou ao acampamento.

Ele subiu a estrada de cascalho com uma caixa de cerveja gelada em lata. Os alunos estavam dispersos e cochilando, talvez cansados ​​de nadar pela manhã. Momoko Kunieda estava sentada à sombra de uma árvore, lendo um livro acadêmico.

Yamane falou, enquanto se aproximava de Saikawa, segurando uma lata de cerveja da caixa.

— Está quente aqui, não é? Aceita?

— Não, obrigado. Saikawa recusou a cerveja. — Vocês fizeram algum progresso?

— Bem, passamos a manhã inteira em reuniões sobre o futuro. — disse Yamane enquanto abria uma lata de cerveja. — Mesmo assim, tomei um banho e dormi um pouco. Temos pesquisado bastante, porém estou envergonhado. Não sabemos a causa. Não tinha ideia de que nosso sistema era tão frágil. Esperávamos todo tipo de problema, como incêndio, desastres naturais, terrorismo, etc. Contudo nunca pensei que esse tipo de acidente aconteceria...

— Estão recebendo e-mails externos? — perguntou Saikawa enquanto fumava um cigarro.

— Estamos. Cada vez mais e-mails perguntam por que não respondemos. — Yamane tomou um gole de sua cerveja. — Talvez os forasteiros tenham notado algum problema em nosso instituto de pesquisa. Se continuarmos esperando, alguém deverá vir em breve. Podemos estar dependendo demais dos outros, no entanto é o único jeito. Então, vou ficar tranquilo.

— Quanto aos problemas do sistema, tudo bem, entretanto... — Saikawa soltou a fumaça. — Quanto ao caso de assassinato, não podemos dizer isso com tanta tranquilidade. Pelo menos não com um assassino nesta ilha.

— É possível que o assassino tenha fugido da ilha. — apontou Yamane. — Como, por exemplo, em uma lancha ou um jet ski para uma pessoa, seria o suficientes para o criminoso escapar daqui. Um bote inflável também seria uma opção. Sabe, o mar não tem estado agitado ultimamente.

— O assassino não escapou daqui, suponho. — Saikawa girou a ponta do cigarro. — O assassino matou a Dra. Magata e depois o Diretor Shindo. Não importa como eu analise, não consigo dizer quem foi. Ou melhor, pressinto a intenção do assassino de que não soubéssemos. Em outras palavras, este não foi um assassinato impulsivo e sem planejamento. Acha que a anomalia da Magia Vermelha foi uma coincidência? Não seria mais conveniente para alguém ficar sem contato com o mundo exterior? Se for o caso... A observação de que o assassino já fugiu da ilha é um pouco otimista. Há algo na situação atual que não me parece certo.

— Provavelmente foi uma coisa boa para nós que a polícia vá chegar tarde... — Yamane sussurrou enquanto olhava ao redor.

Saikawa olhou nos olhos de Yamane enquanto soltava fumaça.

— O que isso significa?

— Na verdade, tenho um favor a pedir. — a voz de Yamane foi ficando cada vez mais baixa. — Tenho plena consciência de que é muito egoísta da minha parte, mas...

— Espere, por favor... — Saikawa ergueu uma das mãos para interromper Yamane. — Esse não é o tipo de pedido que, uma vez ouvido, eu não possa mais recusar, é?

— Bem... — Yamane revelou um sorriso amargo. — Você pode ter razão. Todavia não posso deixar de lhe dizer que... Decidimos isso na reunião da manhã... Não é minha intenção pessoal. Não adianta nada se você não concordar com o nosso pedido depois de ouvi-lo.

Saikawa se levantou e pegou uma lata de cerveja vazia que estava por perto.

Então apagou o cigarro que estava fumando e jogou a bituca dentro.

— Yamane, eu realmente simpatizo com o design avançado daquele instituto de pesquisa e com o seu estilo de vida. Se tivesse visto aquelas instalações quando estava no ensino médio, tenho certeza de que teria decidido passar os próximos vinte anos da minha vida naquele prédio. Agora, o que está prestes a dizer deve estar bem longe desses meus ideais, não é?

— Tem razão, professor. — Yamane franziu a testa e assentiu.

— Pretendem acobertar o fato de que a Dra. Shiki Magata está morta? — Saikawa disse enquanto se sentava.

Yamane permaneceu imóvel por um momento, depois desviou o olhar uma vez, olhou para Saikawa de novo e assentiu.

— Recuso o pedido. — Saikawa disse sem hesitar.

— Por favor, apenas me escute, professor. — Yamane colocou a lata de cerveja no chão e juntou as mãos no colo. — Na verdade, nosso instituto de pesquisa deve assinar um contrato para um projeto enorme na próxima semana. Algo relacionado à NASA. Estamos nos preparando para isso há mais de um ano. O fato de a Dra. Magata ter falecido, quer dizer... Tenho certeza de que pode entender...

— Entendo a situação de vocês, contudo não posso concordar o que querem fazer. — disse Saikawa de uma vez por todas.

— Só precisamos de uma semana. — disse Yamane. — Se o corpo da Dra. Magata for encontrado na próxima semana... Não estou dizendo que tudo ficará bem, no entanto vamos superar isso. Você não será incomodado. Se puderem fingir que você, professor Saikawa e a Nishinosono não estiveram no instituto de pesquisa ontem à noite, os dois não terão nada a ver com o caso. Tudo o que pedimos é que retornem no navio amanhã.

— Quais são os seus planos para o caso do Diretor Shindo? — Saikawa tirou um novo cigarro e o acendeu.

— Deixaremos o caso do diretor Shindo a cargo da polícia. O diretor foi assassinado no telhado por alguém. Eles investigarão o caso.

— Espere um minuto. — Saikawa levantou uma das mãos. — Se o assassino do Diretor Shindo for capturado, o caso da Dra. Magata também se tornará público, certo?

— Professor Saikawa. Esse é... O resultado de nossas discussões, inclusive com a Sra. Shindo. Vocês dois estavam neste acampamento ontem à noite. Devido a uma falha no sistema, o telefone e o e-mail de repente ficaram indisponíveis no instituto de pesquisa. O Diretor Shindo foi esfaqueado e morto por alguém quando foi ao telhado para fazer contato com o rádio do helicóptero. É uma história simples. A aposta é se a polícia conseguirá encontrar o assassino do Diretor Shindo em uma semana. Se o assassino for encontrado rapidamente, não teremos escolha. Entretanto temos algo que vale a pena arriscar.

— Como esconderão o fato de que a Dra. Shiki Magata não está aqui quando a investigação policial começar?

— Em vez disso, Miki Magata está aqui.

— Isso é ridículo... — Saikawa jogou o cigarro no chão.

Sua voz era tão alta que os alunos próximos se viraram para os olhar. Saikawa percebeu que Moe Nishinosono estava caminhando em direção a eles à distância.

— Ninguém conhece o rosto da Dra. Shiki Magata. — sussurrou Yamane. — Além do mais, Miki é a sua irmã mais nova... Ninguém suspeitaria. Não é de admirar que a senhora fale inglês e, além do mais, ninguém sabe que Miki está visitando o Japão vinda dos EUA.

— Será que ninguém testemunhou o passeio de helicóptero do diretor ontem à noite? — confirmou Saikawa.

— O helicóptero não voou ontem à noite. — Yamane baixou o tom de voz de novo. — O diretor não foi a lugar nenhum. Então a polícia não vai investigar. A investigação deve se concentrar apenas nesta ilha.

— Miki concordou com esse plano? — perguntou Saikawa.

— Claro. Ela é a sucessora oficial do instituto de pesquisa. — respondeu Yamane. — Eventualmente, será a diretora.

— Ou viverá para sempre como Dra. Shiki Magata? — disse Saikawa sarcasticamente.

— Não estamos pedindo que de um falso testemunho. Estamos apenas pedindo que todos vocês retornem no barco de amanhã. A polícia virá a esta ilha depois.

— Todavia tenho certeza de que virão até nós para descobrir o que de fato aconteceu. — Saikawa tirou outro cigarro. — Estávamos na ilha na noite em que o diretor foi morto...

— Se a polícia vier até vocês, fiquem à vontade para contar a verdade. Embora, faremos o possível para manipular a situação. A polícia não virá até vocês.

— Manipular? — Saikawa ficou intrigado com a palavra. — Não entendi muito bem do que está falando. Que manipulação é essa de que está falando? Foi isso que manteve a Dra. Shiki Magata lá em primeiro lugar? É uma força sem personalidade, criada pelo dinheiro.

A conversa foi interrompida quando Moe se aproximou. Saikawa acendeu um novo cigarro e evitou o olhar de Moe.

— Olá! — disse Moe para Yamane. — Como está o instituto de pesquisa agora...?

— Tudo certo, Nishinosono. Não se preocupe. Está tudo normal por ora. — Yamane desconversou. — Ainda não conseguimos contatar o mundo exterior, mas não houve pânico nem problemas desde então.

— Com licença, Nishinosono... Poderia nos dar um minuto? — disse Saikawa para Moe.

— Desculpe? — Moe parou, surpresa.

— Por favor! — disse Saikawa, formalmente.

— Ah, sim... Entendi. — Moe olhou para Saikawa com uma expressão preocupada e se afastou.

— Agradeço sua ajuda, professor. — disse Yamane. — Hmm... Este é um gesto de nossa gratidão...

Yamane tirou um envelope volumoso do bolso da calça.

— Yamane, por favor, não me de mais más impressões, certo? — Saikawa se levantou. — Não me lembro de ter feito nada pelo qual mereça um agradecimento seu. Por favor, vá embora agora. Partirei desta ilha no barco de amanhã. É tudo. Se a polícia me perguntar, direi que você me pediu para assim o fazer. Contarei a eles tudo o que perguntarem. Contarei tudo o que vi lá, incluindo o assassinato da Dra. Shiki Magata. Ainda assim...

— Tudo bem. — Yamane se levantou e curvou a cabeça. — Porém, professor Saikawa, por favor, não se aproxime da polícia. É tudo o que peço. Sinto muito. Agora que chegamos a este ponto, é o melhor que podemos fazer.

Yamane guardou o envelope que estava prestes a entregar a Saikawa de volta no bolso. Ele saiu do acampamento, curvando a cabeça repetidamente. Yamane vestia uma camiseta e jeans e tinha a barba por fazer. Mesmo assim, aos olhos de Saikawa, não parecia o espírito livre que aparentava ser.



Parte 5

Saikawa então tirou outro cochilo. Já era noite quando acordou, e o céu acima havia assumido uma tonalidade arroxeada. Ele levantou a cabeça e olhou ao redor. Um grupo de estudantes estava reunido perto da fogueira.

Quando Saikawa se levantou e se aproximou, todos estavam comendo comidas diferentes. Lámen era o mais comum, contudo alguns estavam comendo curry. Alguns estavam comendo biscoitos e batatas fritas. Parecia que a cerveja já havia acabado.

— Sabe, isso é só sobras de comida. — Hamanaka notou Saikawa e disse. — O que você gostaria de comer, professor? Devo fazer um macarrão instantâneo?

— Não, vou passar. Meu estômago não está bem.

Saikawa abriu uma garrafa de plástico próxima e encheu um copo de papel com chá. Era um chá morno, no entanto Saikawa achou que estava gostoso porque estava com muita sede.

— Onde está a Nishinosono? — Saikawa percebeu que Moe não estava por perto.

— Está dormindo na barraca. — respondeu Hamanaka. — Foi dureza... Ela bebeu metade da cerveja que o pessoal do instituto de pesquisa trouxe. Aí o inferno se instaurou.

— E o uísque também. — Fuchida, que estava sentado perto, olhou para cima e riu. — Estava ficando agressiva. Fora do nosso controle... Ela bebe muito mal.

— Oh... — Saikawa ficou um pouco surpreso.

— Nós a carregamos para a tenda há umas duas horas. — disse Hamanaka enquanto comia batatas fritas. — Deve ter sido a primeira vez que bebeu.

— Não pode ser. — disse Saikawa. Contudo ainda não sabia se Moe tolerava álcool. — Espero que esteja bem... Ela parecia não estar se sentindo bem?

— Não chegou a beber muito, então tenho certeza de que está bem. — disse Kawabata, o aluno mais velho, enquanto tomava seu lámen.

Então Saikawa comeu alguns petiscos. A conversa ficou bem mais animada, embora fosse sobre assuntos triviais. Um dos alunos imitou o professor do mesmo departamento, o que divertiu os que estavam ao redor. No meio da conversa, enquanto ouvia Wu, uma estudante estrangeira, o assunto mudou para a história chinesa, e Momoko Kunieda exibiu seu conhecimento sobre o tema.

Depois de cerca de duas horas, quando já estava tudo escuro, eles decidiram ir à praia próxima para soltar os fogos de artifício que haviam preparado. Era um evento incomum, considerando o incidente horrível que ocorrera na noite anterior. No entanto, como haviam levado seus fogos de artifício, ninguém se opôs. Os alunos saíram com lanternas. Saikawa e Kunieda decidiram ficar por lá, em parte porque Moe estava dormindo em uma barraca.

— Professor, quer que eu vá ver como está a Nishinosono? — disse Kunieda, com uma consideração incomum.

— Sim, por favor. — respondeu Saikawa, olhando para cima.

As estrelas no céu eram magníficas. Ele sentia como se o universo estivesse se expandindo na forma de um cone invertido, com ele no centro. Olhando para a luz que vinha de longe, hoje e amanhã realmente não pareciam importar.

Kunieda voltou e sentou-se em um toco a uma curta distância de Saikawa.

— Parece estar bem. Disse que ia se levantar porque queria ver os fogos de artifício.

Pouco tempo depois, Moe cambaleou para fora da tenda escura.

— Que horas são? — perguntou Moe. — Que estranho... Será que anoiteceu?

— Como está se sentindo? — perguntou Saikawa.

— Bem... Sinto como se estivesse voando um pouco. — disse Moe, respirando fundo. — Vamos ver os fogos de artifício, professor.

Saikawa, Kunieda e Moe seguiram pela estrada de cascalho até a praia. Ninguém falou nada durante o caminho.

A praia estava escura, todavia foi fácil encontrar o local onde os alunos estavam soltando fogos de artifício. Parecia que tinham trazido muitos fogos. Em direção ao mar, lançavam bolas de fogo em rápida sucessão.

Saikawa decidiu sentar-se no concreto do quebra-mar e fumar um cigarro. Kunieda e Moe desceram as escadas. Foguetes de artifício emitiram um som semelhante a um assobio e foram sugados para o mar escuro como breu. Bombinhas explodiram com uma assertividade momentânea. As mulheres fizeram uma exibição de fogos de artifício menos chamativa logo abaixo do quebra-mar.

Fogos de artifício com paraquedas subiram, e os estudantes brigavam como crianças para pegá-los enquanto aterrissavam suavemente. O som de risadas e ondas quebrando pairava sobre o cheiro de pólvora e o aroma da maré. Saikawa riu baixinho, fazendo a súbita associação de que eles eventualmente se surpreenderiam com a feiura da sociedade adulta.

Grandes rochas foram esmagadas ao longo dos anos e, assim, cuspidas para fora do mar e se acumularam na praia.

Ela se torna menor à medida que aprende a absorver água, fluir e mudar.

E quanto a mim? Saikawa pensou.

Estive no ambiente livre e improdutivo da universidade por mais de uma década. Será que me tornei um adulto? Se me tornei um adulto, que tipo de mudança ocorreu? Será que estou olhando para o passado dessa forma porque eu mudei?

Nunca havia considerado que a vida não pudesse ser refeita. Parecia-lhe que isso era a prova de que ainda não havia se tornado adulto. O atrito trivial ao seu redor diariamente podia ser um exercício necessário para manter sua temperatura corporal. Ainda havia muitas coisas de que não gostava, mas o número de coisas que não suportava estava diminuindo à medida que envelhecia. Porém, com isso, o objeto de sua aversão estava se afastando dos outros e se voltando para seu interior. Iria se odiar cada vez mais por evitar e fingir atrito com aqueles ao seu redor.

Na casa dos vinte anos, era incansável em seus estudos. Só se dedicava à pesquisa. Seus próprios problemas pessoais o empolgavam, e acreditava que suas conquistas pessoais eram as melhores. A academia pura não tem fim. A sensação de futilidade inatingível é o que é precioso, ele também pensava.

Seguia acreditando nisso.

Contudo Saikawa sabia que havia mudado. Não era mais um vagabundo livre. Suas palavras eram restritas e suas ações, limitadas. Embora nunca poderia dizer era que tudo em nome da sobrevivência.

— Professor?

Saikawa percebeu de repente que Moe estava ao seu lado.

— Quer soltar estrelinhas? — Moe estendeu um maço de estrelinhas finas para Saikawa.

— Sim, quero. — Saikawa pegou o maço e o desamarrou. Então, acendeu uma delas com um isqueiro. Quando um pequeno e belo relâmpago surgiu, Saikawa murmurou. — Quando eu era pequeno, tinha medo de fogos de artifício... Não conseguia segurá-los.

— Você tinha medo de estrelinhas?

— Tinha... Ficava me perguntando por que as pessoas se arriscavam tanto.

À luz dos fogos de artifício, viu o sorriso de Moe.

— Sobre o que vocês estavam conversando? — Moe aproximou as estrelinhas das de Saikawa para acender as suas.

— Você não vai aprovar... — disse Saikawa.

Saikawa então contou a Moe tudo o que havia discutido com Yamane durante o dia. As estrelinhas terminam suas curtas vidas uma após a outra, repassando o fogo com muito cuidado. Moe apenas ouviu a história de Saikawa e não disse nada.

Quando as últimas estrelinhas caíram no asfalto, tudo escureceu de repente e a expressão de Moe desapareceu. Saikawa tirou um cigarro e o acendeu, olhando para o rosto dela.

Moe parecia prestes a chorar.

— Se você disser que devemos fazer isso, eu posso... — Moe sussurrou.

— Não, não posso fazer tal coisa. — Saikawa balançou a cabeça. Essa foi a decisão que acabara de tomar depois de ver o rosto dela. — Não posso... Não acho que consigo fazer uma coisa dessas. Então agora, vou voltar para o instituto de pesquisa. Vou ficar nesta ilha...

— Sim! — respondeu Moe com alegria — Eu também ficarei.

—Vejamos como lidamos com essa confusão... — Saikawa soltou a fumaça na escuridão.



Parte 6

— O quê? — Hamanaka gritou ao subir os degraus do quebra-mar. — Vocês dois vão voltar para o instituto de pesquisa agora?

Kunieda, parada na praia, olhou para os dois.

— Tem algo... Suspeito em vocês dois. — disse Hamanaka em tom de brincadeira.

— Bem, diga o que quiser. — Saikawa se levantou. — Talvez não possamos voltar por um tempo.

Momoko Kunieda subiu as escadas.

— Todos devem estar no porto antes do meio-dia de amanhã. — disse Saikawa. — Cuide de todos. Nishinosono e eu ficaremos no instituto de pesquisa por um tempo...

— Entendido! — respondeu Kunieda sem expressão. — Por favor, tomem cuidado.

Saikawa nunca tinha ouvido Momoko Kunieda dizer algo tão emotivo antes.

Pegando emprestada a lanterna de Hamanaka, Saikawa e Moe começaram a caminhar. O caminho ao longo da praia estava relativamente iluminado pelo luar.

— Tudo o que temos que fazer é encontrar o culpado antes que a polícia chegue. — disse Moe enquanto caminhava a passos rápidos. — Não é verdade? Se descobrirmos quem é o assassino, nos sentiremos melhor.

— Será que seria tão fácil assim...? — Saikawa estava um pouco sem fôlego. — Não há provas. Não temos a tecnologia para verificar impressões digitais ou encontrar manchas de sangue.

— Essas provas provavelmente não seriam úteis. — a voz de Moe estava cheia de entusiasmo. — Quando vi aquele quarto, pensei que o assassino não teria deixado impressões digitais. O assassino teve bastante tempo e os dados foram apagados. O cara teria apagado as impressões digitais ou estaria usando luvas desde o início.

— Qual é o motivo do assassino? — Saikawa murmurou como se estivesse se perguntando. — O cara não poderia ter feito todas aquelas coisas sem motivo.

— Alguém pode ter guardado rancor do diretor, não é mesmo?

— Ou será que alguém se ressentia da política do diretor? — Saikawa apontou. — Mas quanto a Dra. Shiki Magata, parece improvável. Quer dizer, a doutora não teve contato pessoal com ninguém.

— Todas as informações que obtivemos vieram de outras pessoas. — Moe falava rápido. — Acho que precisamos analisar o que podemos ver e reexaminar para descobrir o que é verdade e o que é mentira, certo?

— Tem razão. — Saikawa assentiu. — Primeiro, vamos vasculhar o quarto da Dra. Magata de novo. E precisamos ouvir a mesma história de mais de uma pessoa.

— Somos detetives, não somos? — Moe disse com uma voz alegre.

— Espero que a verdade seja detectável... — Saikawa disse enquanto enxugava o suor com o lenço.

Eles tinham percorrido o mesmo caminho na noite anterior, então não sentiram a distância até o instituto de pesquisa. Enquanto subia a rampa de entrada, Saikawa verificou o horário. Ainda não eram 21hrs.

Quando Saikawa apertou o botão do interfone, a voz de Débora perguntou.

— Você é da equipe?

Saikawa respondeu.

— Sim.

Débora então perguntou seu nome.

— Sohei Saikawa. — respondeu o professor.

A porta vermelha se abriu devagar. Então os dois entraram. Enquanto observavam a porta se fechar atrás, Saikawa colocou a mão direita no painel de vidro na parede.

— Sohei Saikawa. — Saikawa disse seu nome mais uma vez.

— A outra, por favor. — disse Débora com uma voz feminina articulada.

Moe estendeu a mão direita e disse seu nome.

A porta de alumínio deslizou para o lado. Os dois entraram no saguão vazio. Caminhando por um corredor que se estendia em linha reta à sua frente, desceram uma rampa no meio. Saikawa se lembrava daquele caminho.

Saikawa bateu na porta verde do quarto de Yamane.

A porta se abriu e Yamane apareceu sorrindo.

— Professor Saikawa, Nishinosono, entrem.

— Boa noite! — cumprimentou Saikawa em seu tom habitual.

— Você está sendo muito descuidado ao abrir a porta só por alguém bater. — disse Moe ao entrar no quarto.

— Débora me contatou quando vocês entraram no prédio. Foi porque estão registrados como meus hóspedes. — Yamane sorriu e respondeu. — Gostariam de algo para beber?

— Se tiver um suco, por favor. — disse Saikawa. — Nishinosono, você também deveria pegar um.

Yamane voltou da cozinha com copos cheios de suco de uva, e os três se sentaram frente a frente na mesa.

— Yamane, tenho um pedido. — Saikawa foi direto ao ponto. — Gostaria de investigar muitos aspectos deste caso. Como me pediu antes, se decidirmos esconder o caso da Dra. Magata da polícia, esta perderá mais da metade das provas necessárias para encontrar o culpado. Em vez disso, não poderiam nos deixar investigar?

— O que quer dizer? — Yamane acendeu um cigarro e encarou o rosto de Saikawa.

— Sendo mais específico, a partir deste exato momento... Gostaríamos que nos permitisse explorar este prédio e investigar. Se possível, gostaríamos de resolver o caso antes da chegada da polícia...

— Como? — Yamane pareceu perplexo e deu uma risadinha. — Como vocês dois vão encontrar o culpado? Vão sair perguntando para cada um? Vão perguntar se a pessoa é a culpada?

— Estou pensando em algo parecido com isso. — Saikawa assentiu. — Então, Nishinosono e eu gostaríamos de ficar neste instituto de pesquisa por algum tempo. Em troca...

— Em troca? — Yamane perguntou de volta.

— Em troca... — disse Saikawa lentamente. — Dou-lhe permissão tácita para encobrir o fato de que a Dra. Magata está morta por uma semana. Ontem à noite, nós dois não estávamos nesta instalação. Não sabemos de nada. Se a polícia aparecer, testemunharei isso. Contudo apenas por uma semana.

— Bravo, professor. — Yamane estendeu a mão para cumprimentar Saikawa. — Entendido. Faremos um contrato nesse sentido.

Saikawa apertou a mão dele com relutância.

— Então, os dois são meus convidados agora. Para minha pesquisa pessoal, você ficará aqui a partir de hoje à noite... Começa hoje à noite, ok? É basicamente isso. — Yamane disse enquanto se levantava e caminhava pelo local. — Dentro da instalação, Nishinosono deve ser considerada a secretária do professor. Enviarei um e-mail a todos os envolvidos. Os dois estão livres para investigar o que quiserem. Como você é instrutor no Departamento de Arquitetura, anunciarei que está aqui para realizar um levantamento ambiental do prédio.

— Seria útil. E quanto às pessoas que encontramos ontem? — perguntou Saikawa.

— Contarei a verdade à Sra. Shindo, ao Dr. Yuminaga e, em seguida... Ao Chefe Mizutani. Também ao Mochizuki, ao Hasebe e a Shimada. Explicarei a eles. No entanto, apenas aqueles que estavam lá ontem sabem que a Dra. Magata faleceu. É um segredo absoluto, mesmo dentro do instituto de pesquisa. Por favor, tenha cuidado com essa informação.

— Entendido! — disse Saikawa, tirando um cigarro do bolso e acendendo-o.

— Então, entrarei em contato com eles agora. — dito isso, Yamane caminhou em direção ao terminal.

— Sr. Yamane... — disse Saikawa, guardando o isqueiro no bolso. — Encontrou a bolsa da Srta. Miki?

— Sim, isso é estranho. — respondeu Yamane, sentando-se em frente a um dos terminais, atrás de uma divisória. — Ela alega que sua bolsa estava no helicóptero, entretanto não há nenhum pertence seu em lugar nenhum.

— Foi roubado quando o Diretor Shindo foi morto, não foi? — disse Moe.

— É o que parece.



Parte 7

Saikawa e Moe foram primeiro ao quarto de Shiki Magata, no segundo subsolo. Mais precisamente, queriam pedir mais informações a Hasebe e Mochizuki antes de dar outra olhada no quarto da doutora.

A porta preta no final do corredor se abriu com a mão direita de Saikawa e seu nome. Assim que os dois entraram no quarto, Mochizuki saiu sorrindo da sala ao lado, de onde podiam ver através do vidro.

— Olá, professor, Nishinosono.

Ele estava usando um boné de beisebol de cor diferente do de ontem.

— O vice-diretor me contatou. Ouvi dizer que estarão investigando o caso da Dra. Magata confidencialmente. Espero que consigam ter sucesso.

Mochizuki era muito mais velho que Saikawa, todavia seus braços nus eram fortes e joviais. Exceto pelo cabelo ralo, que estava escondido pelo boné, parecia ter cerca de 30 anos. Por trás do vidro, Hasebe olhou para Moe e acenou.

Saikawa e Moe, junto com Mochizuki, entraram em seu escritório que lembrava uma sala de controle.

— A secretária do professor, Nishinosono? — perguntou Hasebe com um sorriso malicioso.

— Bem, algo assim. — Moe sorriu.

— Vocês dois estão sempre nesta sala? — perguntou Saikawa.

— Não, trabalhamos em turnos de 12 horas. Então, das 6hrs às 18hrs, há outras pessoas nesta sala. Durante esse período, estamos de folga. Embora trocamos informações entre nós, então não há nada que eu não saiba.

— Poderia imprimir uma lista dos pacotes que vocês colocaram no quarto da Dra. Magata? — perguntou Saikawa.

— Sim, posso fazer agora mesmo. — respondeu Hasebe. — De quando a quando?

— Do último ano, mais ou menos... — especificou Saikawa.

— Certo. — Hasebe assentiu.

— Algo grande foi trazido para o quarto?

— É, muita coisa. — disse Mochizuki, balançando o corpo. — Contudo, professor, verificamos tudo, sabe? Não é possível que alguém se esconda ali e entre no quarto.

— Também desinfetamos tudo. — acrescentou Hasebe. — O espaço entre a porta amarela ali e a porta de alumínio lá dentro é a sala de desinfecção. Tudo o que é trazido para o quarto fica lá por duas horas para ser esterilizado. Não é perfeito, claro. No entanto as pessoas não conseguem passar por ali.

— Existe alguma maneira de alguém conseguir entrar sorrateiramente? — perguntou Saikawa.

— Sem chance. Mesmo que alguém passe por aqui enquanto estamos cochilando, tudo será gravado em vídeo. Para começar, apenas os guardas, como nós, o diretor e o vice-diretor, podem abrir aquela porta amarela.

— Quem pode abrir a porta de alumínio lá dentro? — questionou Moe.

— Só o diretor e o vice-diretor podem abrir isso por este lado. — respondeu Mochizuki.

— A Dra. Magata nem consegue sair do quarto sozinha? — Saikawa tirou um cigarro e começou a fumar.

— É óbvio. — riu Mochizuki. — A doutora consegue abrir a porta de alumínio por dentro. Mas a porta amarela que dá para a fora não pode ser aberta por dentro. Aquela sala é uma prisão, sabe?

— Porém aquela porta abriu ontem à noite. — apontou Saikawa.

— Foi o sistema da Débora que deu problema, não foi? — disse Hasebe, virando a cadeira para este lado.

— Mais uma vez, quero ver todas as gravações da semana passada... — pediu Saikawa.

Hasebe entregou a Saikawa várias folhas de papel da impressora e, com um movimento preciso do mouse, exibiu as imagens na tela.

Durante a última semana, ninguém ficou em frente à porta amarela. As gravações registraram várias pessoas entrando e saindo todos os dias, que Mochizuki explicou serem as pessoas que estavam naquele escritório de segurança durante o dia. Os rostos familiares de Saikawa também apareceram várias vezes. O Dr. Yuminaga tinha vindo uma vez quatro dias antes, e o Chefe Mizutani no dia anterior.

— Eles vieram entregar algo para a Dra. Magata? — perguntou Moe.

— Certo, o doutor Yuminaga veio devolver um livro que pegou emprestado da doutora no sábado passado. — explicou Hasebe. — Claro, colocamos o livro na caixa de correio. Então... Mizutani veio conversar conosco.

Havia poucas pessoas no vídeo. Muitos dos itens foram trazidos por robôs P1. O tempo em que nada era mostrado era automaticamente acelerado, então uma semana inteira de filmagens passou num instante. Ontem de manhã, não havia ninguém em frente à porta amarela. Ontem à noite, Yamane e Mizutani apareceram e estavam conversando sobre algo. Depois, Ayako Shimada chegou. Depois disso, os três ficaram naquela sala por um longo tempo.

— Desde umas 19hrs? — confirmou Saikawa. — Eles estiveram nesta sala o tempo todo?

— Apesar que Yamane saiu da sala algumas vezes. — explicou Mochizuki. — Parece que Yamane e Mizutani tinham um encontro marcado com a doutora às 19hrs. Mas como a senhora não apareceu... Eles vieram para cá. Naquele momento, aquela porta amarela estava emperrada... Quer dizer, Débora parou de obedecer às ordens.

A gravação de vídeo também corroborava o depoimento de Mochizuki. Mesmo depois de Yamane ter saído da sala, Mizutani e Ayako Shimada seguiam perto do terminal. Por volta das 23hrs, Yamane apareceu com Saikawa e Moe. As costas de Mochizuki também foram mostradas. Diminuindo o ritmo do tempo, decidiram observar mais atentamente a cena em questão, onde a porta amarela estava aberta.

As luzes da sala começaram a piscar, mostrando todos em estado de pânico. A porta amarela se abriu e a figura da noiva emergiu do quarto.

Ao vê-la assim, como uma imagem silenciosa, Saikawa sentiu que os movimentos da noiva eram bruscos e mecânicos. Contudo, ele se lembrou de que, naquele momento, sentiu como se a noiva de fato tivesse saído do quarto. A boneca da noiva corrigiu sua direção e estava indo em direção à porta preta que dava para o corredor. Ayako Shimada caiu no chão, encolhida. Assim que a noiva desapareceu de vista, os que estavam no quarto gritaram algo uns para os outros.

— Espere! — gritou Moe. — Pare aí mesmo!

Hasebe interrompeu o movimento da imagem. A noiva já havia sumido e seis pessoas estavam no quarto: Yamane, Mizutani, Mochizuki, Hasebe, Saikawa e Moe. Shimada estava deitada no chão.

— Veja aqui. — Moe apontou para a tela. — Fica acima das portas do elevador...

— O que foi? — Hasebe olhou para Moe.

— Este é o <B2>. — Moe apontou. — O indicador do andar do elevador é <B2>.

— Não, não está claro. É muito pequeno. — Hasebe resmungou. — É o limite da resolução.

— Não consigo ver direito, no entanto são duas letras, certo? — Moe apontou. — Com exceção de <B2>, é <R> e <1>, então só há uma opção. Com certeza é <B2>.

— Então vamos supor que seja. O que significa? — Hasebe perguntou, sorrindo.

As baquetas da marimba estavam perto dele.

— Quando o helicóptero do diretor chegou, peguei o elevador. Lembro que o elevador descia de <R>, ou seja, do telhado.

— Então, vamos assistir ao vídeo a seguir... — Hasebe balançou a cabeça e mexeu o mouse alegremente.

Mais uma vez, o tempo na tela começou a passar.

Todos saíram correndo para o corredor, um a um. As luzes pararam de pulsar e a sala ficou escura. Ayako Shimada ficou sozinha na sala, estava deitada no chão perto da parede. O tempo havia avançado um pouco, pois não havia absolutamente nenhuma mudança na imagem. O painel do elevador que Moe havia apontado agora não estava claramente visível.

— Vejo que o doutor Yuminaga acabou de chegar ao corredor.

A sala na tela iluminou-se de repente.

— Foi tão pouco tempo assim? — Hasebe disse para si mesmo. — Naquele momento, pareceu uma eternidade para mim. Foi só esse tempinho...

Ayako Shimada, que havia caído, moveu o braço para se levantar.

— Olha lá! — Moe tornou a dizer. — O número do elevador mudou.

A sala ficou mais iluminada, permitindo que eles vissem as indicações. Estava mais embaçado do que antes, todavia ainda assim o painel digital acima do elevador agora parecia ser uma única letra.

— Alguém moveu o elevador do andar de cima. — disse Moe.

Na tela, Ayako Shimada se levantou e caminhou até uma posição de onde podia ver o corredor. Mochizuki e Hasebe apareceram vindos do corredor, seguidos pela entrada de Moe.

— Não consigo dizer se aquele painel está no primeiro andar ou no terraço. — Hasebe deu sua opinião. — Embora parece ser <R>...

— Foi antes do helicóptero chegar, então... — Moe disse enquanto se lembrava.

A filmagem continuou avançando acelerada. Todos voltaram para a sala. Como o tempo estava sendo acelerado, todos pareciam se mover em um ritmo vertiginoso. Eles estavam ocupados sentando e levantando em suas cadeiras. Mochizuki saiu para o corredor. Hasebe não era visto há um bom tempo. Além disso, Moe desapareceu na parte da frente da sala. Isso porque os dois haviam entrado na sala de segurança onde estavam agora.

Mais uma vez, Moe apareceu e correu para o elevador. Yamane e Moe ficaram em frente às portas do elevador.

— Ah, agora a letra mudou um pouco. — Moe apontou para o painel do elevador de novo. — Rebobine e me mostre.

Hasebe fez como solicitado. O visor digital acima do elevador primeiro mudou e escureceu, depois parecia ter se expandido para o lado. O que significava que agora eram duas letras <B2>.

— Eu sabia que o primeiro visor era <R>. Ele mudou uma vez e se tornou <1>. — disse Moe alegremente. — Exatamente como pensei...

Eles então continuaram assistindo ao vídeo por mais uma hora, entretanto não encontraram nada interessante em específico. A cena final da gravação de vídeo mostrava a transferência da boneca da noiva, coberta com o lençol, para dentro da porta amarela.

— Vou verificar os registros anteriores a este também. — disse Hasebe para Moe.

Saikawa e Moe agradeceram a Mochizuki e Hasebe e saíram da sala. Então, ficaram em frente à porta amarela.

Saikawa olhou para o relógio. Eram 22:30.

— Discutiremos isso mais tarde. — Saikawa acenou com a lista que Hasebe havia impresso para ele.

— Foi uma surpresa descobrir sobre o elevador, não foi? — Moe sussurrou para Saikawa como se estivesse falando em particular. — O visor, que estava em <B2>, mudou para <R> durante aquele período escuro. O que significa que alguém moveu o elevador do terraço.

— Não é verdade, Nishinosono. — Saikawa balançou a cabeça. — Alguém moveu o elevador do primeiro andar para o terraço. Elevadores não servem apenas para ir até a casa de alguém. Você também os usa para ir a outros andares.

— Ah, tem razão... — disse Moe, abrindo um grande sorriso. — Era o que eu esperava de você, professor!

— Não podemos ficar muito felizes ainda. — Saikawa mostrou uma expressão séria. — Parece claro para nós que ninguém entrou ou saiu do quarto da Dra. Magata. Há uma semana, a Dra. Magata estava viva. Depois, ninguém entrou no seu quarto. Ninguém saiu também...

— Gostaria de verificar o quarto de novo? — perguntou Moe, repentinamente ansiosa.

— Sim... — Saikawa assentiu. — Mas primeiro, me deixaria fumar um cigarro?

— E posso fumar um também?

— Você não deveria fumar. — Saikawa sorriu. — Nem Hasebe nem Mochizuki pareciam estar mentindo.

— Não é lógico, porém concordo também. — Moe assentiu. — Sabe, o passatempo do Hasebe é tocar marimba.

Saikawa colocou um cigarro aceso na boca, ergueu as mãos como se estivesse segurando algo e fez um gesto como se estivesse acenando com elas.

Moe caiu na gargalhada.

— Professor... Isso são maracas.



Notas:
1. É um tipo de alimento processado, pré-cozido e esterilizado em alta temperatura dentro de uma embalagem flexível ou rígida, garantindo longa vida útil sem conservantes químicos ou refrigeração. É uma alternativa moderna e prática às latas de metal.
2. Um leque de papel redondo.

***

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