sábado, 19 de setembro de 2026

The Magnus Archives — Primeira Temporada — Capítulo 27

Primeira Temporada Capítulo 27: Fechadura Resistente

Rusty Quill apresenta “Os Arquivos Magnus”
Episódio Vinte e Sete: Fechadura Resistente.





JONATHAN SIMS

Depoimento de Paul McKenzie, referente a repetidas invasões noturnas em sua casa. Depoimento original prestado em 24 de agosto de 2003. Gravação de áudio por Jonathan Sims, Arquivista-Chefe do Instituto Magnus, Londres.

Início do depoimento.



JONATHAN SIMS (Depoimento)

É estranho morar sozinho. Talvez não se você estiver acostumado, suponho. Se viveu uma vida solitária, então tenho certeza de que não parece tão isolado ou vazio. Ora, lembro-me de uma época em que eu não teria nem pestanejado em morar sozinho. Mas agora estou tão acostumado a ter outras pessoas em casa que me vejo vivendo uma existência triste e solitária. Mesmo antes de começar a receber meu visitante noturno.

Meu filho Marcus saiu de casa há cerca de dois anos e, antes disso, passou muito tempo fora na universidade ou, mais tarde, mudando-se por causa do trabalho. Então, havia me acostumado à sua ausência. Porém quando Diane, minha esposa, faleceu quatro meses atrás, isso... Deixou a casa terrivelmente vazia. Digo a mim mesmo que foi uma misericórdia que, no final, a condição dela significava que não conseguia viver como merecia. E, embora tenha certeza de que isto é verdade, esse pensamento pouco ajuda a fazer com que a cama pareça algo diferente de grande demais para mim. Ela odiaria que eu dissesse tal coisa. Diane nunca teve paciência para pessoas que viviam se lamentando ou se afundando na autopiedade, contudo depois de quarenta anos de casamento acho que tenho esse direito.

A questão de morar em uma casa cheia de gente é que você pode apenas ignorar quaisquer ruídos que ouça durante a noite. Foi um rangido na escada? Deve ter sido só alguém descendo para tomar um copo d’água. Que barulho de baque foi aquele? Provavelmente o Marcus, acordado tarde, derrubando coisas da mesa sem querer. Sei que não diminui de fato a chance de sofrer um roubo ou uma invasão, contudo faz com que pare de entrar em pânico toda vez que ouve o menor ruído vindo de fora do quarto. Acho que é normal, pelo menos. Nunca me considerei uma pessoa de temperamento nervoso, no entanto talvez outras pessoas só sigam a vida sem se preocupar tanto.

Ainda assim, desde que a Diane morreu, minhas noites se tornaram uma vigília constante. Nenhuma casa é silenciosa se prestar bastante atenção, e desde que fiquei sozinho tenho escutado com tanta intensidade que, às vezes, preciso me lembrar de respirar. Agora, qualquer estalo suave da casa se acomodando soa como um criminoso violento ou um ladrão dentro de casa, à espera para decidir se precisa me matar. Marcus sugeriu que eu arranjasse um animal de estimação para a casa não parecer tão vazia, entretanto nunca tive um antes, e já estou velho demais para aprender agora.

Dada a minha habitual atitude de alerta e paranoia ao tentar dormir numa casa vazia, imagino que você consiga imaginar o pavor que senti quando ouvi algo do lado de fora do meu quarto, certa noite, há cerca de um mês. Moro na mesma casa desde que me casei com a Diane e conheço cada tábua do assoalho que range. Era aquela bem no topo da escada. Esperei, aguçando ao máximo a audição para captar qualquer outro som de movimento. Não ouvi janelas quebrando ou portas se abrindo no andar de baixo e, com certeza não ouvi ninguém subindo a escada, todavia estava convencido de que havia alguém ali. Podia sentir a presença daquela pessoa aguardando no patamar. Será que ela havia percebido o barulho que a tábua fizera? Estaria parada ali, imóvel, à espreita de qualquer movimento meu, com a mesma atenção com que eu a escutava?

Então o som surgiu de novo, e tive certeza de que havia alguém no topo da escada, embora em vez de permanecer ali, comecei a ouvir o passo pesado do que eram, inequivocamente, passos de alguém caminhando. A princípio... Apenas fiquei ali, paralisado de medo, pensando que iria apenas... Ficar quieto, deixar que levassem o que quisessem da casa e chamar a polícia depois que partissem. Mas, pelo que pude perceber, não parecia estar entrando em nenhum dos outros cômodos. Caminhava lenta e deliberadamente em direção ao meu quarto.

A porta tem fechadura, porém fazia tanto tempo que eu nem pensava em usá-la que, naquele momento, não conseguia nem imaginar onde a chave poderia estar. Meu coração quase parou quando ouvi a maçaneta chacoalhar de leve, como se uma mão tivesse sido colocada do outro lado. E, pouco a pouco, numa lentidão angustiante, a maçaneta começou a girar. Num ímpeto de adrenalina que nem sabia que tinha, saltei da cama e atravessei o quarto. Agarrei a maçaneta e a girei de volta para o lado oposto, usando as duas mãos para tentar igualar a força de quem quer que estivesse do outro lado.

Ainda assim, a maçaneta tentava girar, num esforço lento e implacável que denotava paciência e determinação, contudo o pânico absoluto me conferiu força equivalente. Minhas mãos começaram a ficar úmidas com o que presumi, na época, ser suor, e temi perder a firmeza da minha pegada. Só que consegui mantê-la. Durante vinte longos minutos, lutei na escuridão contra a maçaneta da porta do meu quarto. Poderia ter alcançado o interruptor de luz, no entanto aquilo significaria ficar com apenas uma mão na porta, por isso permaneci no escuro.

Então, de repente, a pressão desapareceu. A maçaneta parou de tentar girar. Apesar de não sentir mais nenhuma força ali, não ouvi nenhum outro som vindo de fora. Nenhum passo se afastando, nenhum ruído de alguém descendo as escadas, a casa estava apenas silenciosa. Fiquei ali parado pelo resto da noite, segurando a maçaneta com força. E só quando os primeiros raios de sol surgiram pelas janelas é que tive coragem de abrir a porta do quarto e olhar para fora. Nada.

Estava tão rígido que mal conseguia caminhar de volta para a cama e discar o número da polícia. Foi ao pegar o telefone que olhei para minhas mãos e vi que o que havia nelas não era suor. Era sangue.

Arte por kazoosnow.

Examinei com todo cuidado minhas mãos e braços em busca de cortes ou ferimentos. Nada. E a maçaneta da porta estava limpa. Lavei bem as mãos antes de ligar para a polícia.

A polícia veio e ouviu pacientemente minha história. Eles revistaram toda a casa, entretanto não havia sinais de nenhum intruso. Todas as janelas e portas continuavam trancadas com firmeza e não havia sinal de arrombamento. Além do mais, nenhum dos meus pertences havia sido levado ou sequer movido do lugar. Os policiais me garantiram que não havia problema algum e que ficaram felizes em ajudar, tudo aquilo com aquele tom de voz que deixava claro que me consideravam apenas um velho senil ouvindo coisas durante a noite. Agradeci-lhes quando foram embora, embora não tivessem sido de ajuda alguma, e passei o resto do dia procurando a chave da porta do meu quarto. Acabei encontrando-a e esperei que, com a porta bem trancada, pudesse dormir um pouco mais tranquilo naquela noite. Estava enganado.

Ao cair da noite, tentei dormir. Ou, pelo menos, convenci a mim mesmo de que estava tentando. Na verdade, fiquei atento a qualquer sinal de que o intruso tivesse voltado. Cada rangido da casa se acomodando, cada chiado dos canos me deixava em um estado de quase pavor. Às duas da manhã, não ouvi nada e quase me convencera de que não receberia outra visita, quando ouvi aquele rangido lento e ameaçador da tábua do assoalho no topo da escada. Como antes, os passos se aproximaram do meu quarto, pesados ​​e metódicos. Acendi o abajur e observei enquanto, mais uma vez, a maçaneta começava a girar. Conseguia ver a pressão exercida sobre a porta por quem quer que estivesse do outro lado, mas dessa vez estava trancada. Como a porta não abriu, houve uma longa pausa.

Então, a maçaneta começou a girar violentamente de um lado para o outro, chacoalhando e batendo com tanta força que temi que se soltasse de vez. Soltei um grito quando a investida se intensificou e liguei de novo para a polícia. Eles levaram doze minutos para chegar e, durante todo esse tempo, a porta do meu quarto tremeu com o giro incessante da maçaneta, porém a fechadura resistiu. Assim que a campainha tocou, tudo ficou imediatamente imóvel e silencioso. Não queria destrancar e abrir a porta, contudo se não o fizesse, os policiais poderiam arrombar a porta da frente ou, pior ainda, ir embora.

O que aconteceu em seguida foi quase idêntico ao que ocorrera no dia anterior, exceto que, desta vez, havia menos paciência e tolerância na voz deles ao falarem comigo. Tive a nítida impressão de que, se os chamasse outra vez sem provas, haveria... Consequências indesejáveis. Um dos dois murmurou algo sobre como devia ser difícil para mim viver sozinho... Uma mensagem que entendi muito bem. Não tenho a menor intenção de ser internado em uma casa de repouso.

E assim, no último mês, tenho passado quase todas as noites acordado, enquanto algo... Seja lá o que for, que está além da porta do meu quarto tenta entrar com todas as forças. Fico observando a maçaneta obsessivamente, sempre à espera dos sinais daquele giro suave. Os primeiros movimentos são sempre tão lentos.

Tentei obter provas para a polícia. Consegui fazer o Marcus passar algumas noites aqui comigo, na esperança de espantar o intruso ou de ter uma testemunha que pudesse confirmar minha história. Foram as únicas noites em que tive paz. Nada vinha até a minha porta quando ele estava aqui. De certa forma, era um alívio ter uma maneira de garantir que eu conseguisse dormir, no entanto não me dava provas para convencer ninguém. Sei que ele não acreditou em mim quando contei o que estava acontecendo. Apenas parecia... Preocupado quando toquei no assunto, e não o mencionei mais.

Por infelicidade, não consigo fazer o Marcus ficar comigo todas as noites. Ele tem sua própria vida e está morando com a noiva no momento, então não posso só pedir que volte a morar com o pai. Tentei instalar algumas câmeras no corredor do andar de cima, no topo da escada e do lado de fora do meu quarto, entretanto elas não mostram nada. Nem sequer registram a maçaneta girando, mesmo em momentos em que tenho certeza absoluta de que aquela coisa estava tentando entrar. Houve apenas um momento, acho que um ou dois frames apenas, em que as sombras captadas pela câmera na parede pareciam quase formar um rosto. Parecia estar me encarando com um sorriso malicioso, a boca escancarada num grito fingido. Aquilo me assustou tanto que tive de apagar a gravação. Não tenho provas para a polícia. Nem para você, suponho.

Acho que é por isso que estou aqui. É isto que vocês fazem. Investigam essas coisas. Sabem o que procurar e conseguem identificar os sinais de coisas que... Não estão certas. Sabe, coisas que não são deste mundo. Não estou dizendo que é um fantasma ou coisa do tipo, é só que... Bem, se fosse um fantasma, vocês seriam as pessoas certas para procurar, não é? Só preciso que aquilo pare. E não quero ser internado em uma casa de repouso. Sei que vão fazer isso se eu continuar dizendo que a maçaneta da minha porta chacoalha e gira todas as noites, vão achar que estou senil e inútil e me mandar para uma casa de repouso, e não vou deixar que o façam. A casa é minha e não me importa o quanto ela me assuste, nada vai me fazer desistir dela. Talvez o Marcus tenha razão. Talvez deva arranjar um cachorro.



JONATHAN SIMS

Depoimento encerrado.

Quero acreditar no Sr. McKenzie, de verdade. Não sou feito de pedra e sou tão suscetível quanto qualquer outra pessoa a me comover com o apelo de um idoso assustado. Quer dizer, a demência é, obviamente, a explicação mais provável, e o próprio admite não ter provas de nada daquilo. Ainda assim, uma parte de mim quer acreditar em suas palavras. Talvez este trabalho esteja me deixando sentimental.

De qualquer forma, é uma questão irrelevante. O Sr. McKenzie morreu de derrame cerca de dois meses depois de prestar este depoimento, e não parece haver qualquer ligação óbvia entre seu falecimento e o relato feito ao Instituto. Quando o caso foi registrado originalmente, pelo visto enviamos uma integrante da equipe de pesquisa da época, uma tal de Sarah Carpenter, para fazer algumas medições na casa. Pelo visto, ela avaliou que o risco era baixo o suficiente para justificar uma vigília noturna no local, mas assim como todos os outros da história do Sr. McKenzie, não encontrou nada de estranho nem intrusos no patamar do andar superior ou em qualquer outra parte do edifício.

Sasha, que retornou após sua breve convalescença, conferiu os registros de chamados policiais e eles parecem coincidir, embora, como esperado, contenham poucos detalhes. Martin entrou em contato com o filho, Marcus McKenzie, porém este se recusou a falar conosco, dizendo que “já havia prestado seu depoimento”. Isto me leva a crer que Marcus McKenzie talvez também tenha um depoimento escondido em algum lugar aqui nos arquivos, perdido em meio à bagunça e aos erros de arquivamento.

A única outra coisa que chama a atenção como algo estranho é que Sarah Carpenter, a pesquisadora enviada originalmente para investigar o caso em 2003, tirou fotos bastante detalhadas do interior e da planta da casa. Ao examiná-las agora, percebo que a porta do quarto, à qual o Sr. McKenzie se refere tantas vezes, não parece ter fechadura nem qualquer tipo de tranca.

Fim da gravação.

***

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