domingo, 20 de setembro de 2026

Maou no Ore ga Dorei Elf wo Yome ni Shitanda ga, Dou Medereba Ii — Volume 04 — Capítulo 20

Capítulo 20: Nossa família cresceu, então é hora de visitar a casa da minha noiva

— A Nephy... Não está aqui? — Zagan caminhava pelo seu castelo, procurando pelo amor de sua vida. Embora antes fosse um castelo repleto de instrumentos de tortura e esqueletos espalhados por toda parte, graças ao trabalho árduo de Nephy, este havia se tornado tão belo que estava irreconhecível. Com os tetos danificados e outras avarias reparados, o local agora tinha capacidade para abrigar dezenas de pessoas. Além disso, muitos feiticeiros circulavam pelo castelo com frequência.

Já havia se passado cerca de um mês desde o baile noturno organizado pelo Arquidemônio Bifrons. Naquele incidente, dezenas de feiticeiros presentes perderam a vida. Zagan foi quem conseguiu controlar a situação e, por isso, nada menos que trinta feiticeiros acabaram jurando lealdade a ele.

Graças àquele incidente, descobriu que a garota que amava, Nephy, pertencia a uma raça chamada “Alto-Elfos”. Todos os membros dessa raça compreendiam o idioma Celestian e eram capazes de utilizar o misticismo celestial até certo ponto. Todavia, não sabia muito mais do que essas poucas informações. Desvendar esse mistério exigiria muito mais recursos humanos do que Zagan possuía.

Ao espiar dentro de um cômodo, Zagan avistou uma velha com chifres de cabra mexendo em um líquido viscoso dentro de um caldeirão de ferro.

— Keeheehee, keeheeheeheeheehee! Espere só, Valefor. Ninguém que prova o meu fondue de chocolate consegue continuar resistindo a mim. Keeheeheeheehee!

Será que ela está fazendo doces para a Foll...? Aquela velha de aparência suspeita era Gremory. Ela ostentava o segundo nome de “Encantadora” e possuía poder suficiente para ser considerada uma candidata a Arquidemônio. Por conta de suas capacidades, ocupava o primeiro ou o segundo lugar entre os subordinados de Zagan... Embora, naquele momento, parecesse mais uma vovó concentrada em preparar guloseimas para a neta.

O idioma Celestian, o misticismo celestial, as Espadas Sagradas, os Selos dos Arquidemônios e os treze Arquidemônios. Havia obstáculos demais que Zagan precisava superar. Os novos feiticeiros sob o seu comando apoiavam as suas pesquisas, indo e vindo entre o Palácio do Arquidemônio... Que pertencera ao antecessor, Marchosias... E o castelo de Zagan em busca das informações que ele desejava.

Feiticeiros mal compreendiam o conceito de cooperação, mas o motivo de nunca brigarem sob as ordens de Zagan devia-se, em grande parte, a um indivíduo específico.

— Mexam-se, bando de inúteis! Encontrem os livros que meu senhor procura!

Um mordomo com a face aterrorizante de um demônio devorador de homens erguia a voz no saguão de entrada. O braço esquerdo do idoso era artificial, feito de armadura, e trazia uma espada embainhada na cintura.

Era o inimigo natural dos feiticeiros, um portador de uma Espada Sagrada... O ex-Arcanjo Rafael. Como servia à casa de Zagan na função de mordomo, incitava os feiticeiros a trabalhar.

— O almoço de hoje é sopa de osso de porco com cordeiro. Se quiserem se acomodar e comer, então cumpram suas malditas obrigações até o fim! — exclamou Rafael, segurando uma concha de cozinha em vez de sua Espada Sagrada. Parecia que havia terminado os preparativos para o almoço e tentava usar isto para motivar os feiticeiros.


— OOOH! — em resposta, os feiticeiros levantaram as vozes sem sequer um sinal de agitação.

Sua aparência externa e ações passadas eram insuportáveis, mas a culinária de Rafael era excelente. Foi mais do que suficiente para conquistar os corações das pessoas que o comiam há mais de um mês. Além do mais, como passou grande parte de sua vida como Arcanjo, ele possuía destreza de combate suficiente para exterminar todos os feiticeiros reunidos aqui em uma batalha frontal. Como tal, Zagan tentou ver o que aconteceria se ele deixasse a montagem dos feiticeiros para aquele mordomo idoso e, felizmente, tudo deu certo. Porém, pode ter havido outro motivo pelo qual as coisas funcionaram tão bem…

Inesperadamente, nem mesmo os feiticeiros mordem a mão que os alimenta... Zagan providenciou para que cada um de seus subordinados recebesse algo que desejassem em troca de sua ajuda. Ele os pagou em ouro, grimorios, catalisadores usados ​​para feitiçaria e coisas do gênero. Contanto que não o traíssem, continuou a pagá-los em intervalos fixos. Graças a isso, embora trinta feiticeiros renomados estivessem reunidos em um só lugar, nem uma única briga eclodiu.

— Ora, se não é meu soberano. Você precisa de algo de mim? — Rafael fez um movimento amplo enquanto se curvava pela cintura, notando a entrada de Zagan.

— Não, estou procurando a Nephy. Ela está na cozinha?

— Se está procurando a senhorita Nephy, acredito que foi ao arquivo depois que voltou de sua viagem de compras.

— Não, acabei de vir de lá e não esbarrei nela. Será que nos desencontramos? — Zagan inclinou a cabeça para o lado, confuso com a situação.

— Está quase na hora do almoço, então duvido que tenha saído do castelo. — respondeu Rafael.

— Entendido. Vou tentar procurar mais um pouco. — disse Zagan, deixando Rafael para trás enquanto continuava sua busca por Nephy.

Como já passava do meio-dia, encontrava feiticeiros passando apressados ​​pelos corredores de vez em quando. Dito isso, feiticeiros são naturalmente solitários, por esse motivo ainda quando se cruzavam nos corredores, a interação não passava de um leve aceno de cabeça, mantendo o interior do castelo tão silencioso quanto antes.

— Ah, Sr. Zagan, boooooom diaaaaa!

Quem soltou aquela voz barulhenta, capaz de causar dor de cabeça, não era um feiticeiro.

— Espere. Por que raios você está aqui? — perguntou Zagan, segurando com firmeza a cabeça da garota que passava por ele. Era a sereia que havia salvo durante o baile noturno de Bifrons. Ao contrário dos outros, era uma cantora de uma trupe musical, não uma feiticeira.

— Quer dizer, tipo, todos os membros da banda e seus instrumentos não tinham sido engolidos naquela luta no barco? Enfim, eu estava, tipo, relaxando num bar, e a Manuela... Minha irmãzona... Me mandou vir para o seu castelo!

Aquela mulher maldita... Será que acha que meu castelo é uma creche ou algo do tipo? Zagan sentiu uma dor de cabeça súbita com esse pensamento. Mesmo que fosse brincadeira, mandar alguém procurar emprego no castelo de um Arquidemônio era algo fora de cogitação... Talvez Manuela confiasse em Zagan, porém se fosse qualquer outro Arquidemônio, a sereia já teria sido transformada em sacrifício ou cobaia de laboratório.

— Nunca ouvi falar nada disso... Na verdade, estou surpreso que tenha conseguido entrar aqui... — Zagan havia instalado várias barreiras ao redor de seu castelo. Um feiticeiro ou Cavaleiro Angelical comum nem sequer teria notado o lugar e, se alguém o avistasse, seria atingido por uma dor intensa, a ponto de quase morrer. A verdade é que era impossível uma pessoa comum, que nem sequer era feiticeira, sobreviver o suficiente para ficar diante dele. — Tudo o que eu fiz foi, tipo, seguir a Srta. Nephy enquanto conversávamos...

— Sério... Fico surpreso que tenha conseguido.

— Hã?

Não era apenas o caminho até o castelo que estava repleto de armadilhas, o interior também estava. Se essa garota tivesse acionado sequer uma delas, teria morrido na hora, contudo, de alguma forma, isto não aconteceu.

— V-Você está brincando, né? — a sereia perguntou, com o rosto pálido ao descobrir a verdade.

— Deixe-me fazer uma pergunta então. Acredita de verdade que o castelo de um Arquidemônio não teria nenhuma armadilha?

— É que, sabe... Como foi alguém como o Sr. Zagan quem salvou uma plebeia insignificante como eu, pensei que, tipo, este seria um lugar seguro ou algo assim...

— Aqui não é um lugar seguro, sua cabeça-de-vento descuidada. Se um Arquidemônio tão bondoso existisse, ele já estaria morto.

A base de um feiticeiro era um verdadeiro tesouro de conhecimento. E, para feiticeiros, conhecimento equivalia a poder. Portanto, deixar a base exposta era o mesmo que pedir para ter seu poder roubado. Era por essa razão que um ladrão, de todas as coisas, era o maior medo de um feiticeiro. É claro que, para se protegerem de possíveis invasores, os feiticeiros preparavam inúmeras armadilhas aterrorizantes.

Até Zagan, que era bastante indiferente a esse respeito, havia instalado armadilhas severas que eram acionadas na presença de intrusos. Sendo mais específico, suas armadilhas eram tão letais que até Barbatos, um candidato a Arquidemônio, teria dificuldade em sobreviver a elas. Embora, para Zagan, proteger seu conhecimento pouco importasse. Não, o que de fato desejava proteger era sua família... Nephy, Foll e Rafael.

— N-Não pode ser! A gente não se dá super bem, Sr. Zagan? Por favor, me salvaaaaa! — a sereia gritou enquanto se agarrava a Zagan, com o rosto pálido.

— Como se eu me importasse. Nem sei o seu nome.

— É Selphy! Por favor, pelo menos lembre do meu noooome!

Esqueça lembrar, ele nem sequer tinha ouvido o nome dela antes.

— Por ora, segure isto. — disse Zagan, soltando um suspiro enquanto entregava uma joia do tamanho de uma conta para Selphy, a sereia.

— O que é?

Para ser sincero, Selphy era tão irritante que não queria muito se envolver com ela, só que se ela era uma conhecida de Manuela, não podia apenas deixá-la morrer. Aquela mulher era amiga de Nephy. Além do mais, era recorrente que recorressem a sua ajuda para encontrar roupas adequadas para Zagan, Nephy e Foll. É verdade que as roupas estranhas que os obrigava a usar sempre que baixavam a guarda eram um incômodo, mas também era verdade que era uma das poucas pessoas capazes de conversar normalmente com Zagan.

Por fim, Selphy assentiu a cabeça com vigor. Enquanto observava a sereia com uma expressão de exasperação, Zagan de repente inclinou a cabeça para o lado.

— Agora que parei para pensar, o que houve com seus pés? São artificiais?

A parte inferior do corpo de uma sereia assemelhava-se à cauda de uma cobra. Porém, Selphy tinha duas pernas, como as de um humano comum.

— Ah, isto? Este castelo é muito seco, então acaba ficando assim.

— Vocês criam pernas quando o ambiente está seco demais?

— Pois é, e daí?

Zagan sentiu a cabeça começar a doer outra vez ao ouvir a resposta despreocupada da garota.

— Então, espere... Já que Manuela te mandou vir aqui... Quer dizer que pretende trabalhar para mim?

— Sim! Ouvi dizer que estava, tipo, precisando muito de ajuda.

— É verdade que estou precisando de ajuda, contudo... Você tem algum conhecimento de feitiçaria?

— Não! Quer dizer, só tenho... Tipo, músicas na cabeça! — Selphy afirmou em tom de vanglória... Bem, aquilo fazia sentido, já que era cantora, no entanto não parecia nem um pouco útil para Zagan.

Ainda assim, sem outra opção, Zagan apontou para a direção de onde viera.

— Há um mordomo chamado Rafael no saguão de entrada. Vá ver se ele tem algum trabalho para você. Se não tiver, só desista e vá para casa.

Manter aquela garota por perto parecia dar mais trabalho do que valia a pena, entretanto se sentia desconfortável em dispensar uma das vítimas de Bifrons. Por esse motivo decidiu lhe dar ao menos uma chance.

— Yaaay! Obrigada, Senhor Arquidemônio! — Selphy saltou de alegria com a sua aprovação e, enquanto a observava, Zagan de repente se lembrou de algo importante.

— Espera, disse que estava andando com a Nephy, certo? Sabe para onde a Nephy foi?

— Ah, parecia que estava indo para o jardim.

— Entendo. Obrigado. — disse Zagan. Então, virou as costas para Selphy e começou a caminhar em direção ao jardim.

— Whoa... O Senhor Arquidemônio acabou de me agradecer...

Ele nem percebeu Selphy soltando uma exclamação de espanto.



***



Ao chegar ao jardim, Zagan encontrou uma única fera encolhida, aproveitando o sol. Ela soltou um bocejo alto, como se estivesse confortável, entretanto, para um gato, era um pouco... Não, era bizarramente grande. Tratava-se na verdade de um leão de porte robusto e pelagem negra.

Ao vê-lo assim... De fato parece um gato, não é...? Zagan, de todas as pessoas, sentia vontade de acariciar o seu pelo de vez em quando, entretanto resistia. Afinal, não estava olhando para um leão comum. Não, estava diante de um candidato a Arquidemônio, um feiticeiro que ostentava o título de “Lâmina Negra”, Kimaris.

— Kimry, Kimry... — uma garotinha chamou enquanto caminhava trôpega em direção a ele. Parecia ter quase dez anos de idade. Seus cabelos verdes estavam presos em tranças que desciam pelas costas, tinha grandes olhos cor de âmbar e vestia trajes típicos de um país estrangeiro, com o branco e o escarlate como cores predominantes. Todavia, o mais curioso eram os chifres de dragão que despontavam por entre as mechas de seu cabelo.

Sim, era Foll, a filha adotiva de Zagan. Sua verdadeira identidade era a de Aparição Valefor, uma antiga candidata a Arquidemônio.

— Haaah... Diga-me, o que houve, pequena dama? — perguntou Kimaris, voltando seus olhos dourados para Foll.

— As flores do canteiro estão desabrochando. Venha ver.

— Entendo. Muito bem, vamos lá. — respondeu Kimaris com naturalidade, usando a fala humana. Então, o leão negro começou a caminhar a passos firmes sobre suas quatro patas, e Foll montou em suas costas como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Zagan hesitou, perguntando-se se deveria interrompê-los, mas como estava à procura de Nephy, decidiu segui-los sem dizer nada. Pouco depois, o leão parou perto de um grupo de lindas flores cor-de-rosa.

— Elas floresceram de forma belíssima, não é, pequena dama?

— É porque dei sangue de cobra para elas todos os dias.

— Que admirável. Bem, então, vamos colhê-las?

— Hmm... Sim! — Foll assentiu, concordando com a proposta de Kimaris. Em resposta, o leão negro começou a rosnar com uma voz grave. Visto de fora, parecia que uma menina inocente estava sendo ameaçada por uma fera predadora, mas Foll não demonstrava nem um pingo de medo. Em vez disso, agarrou o caule da flor recém-aberta com toda a força que tinha. E então, bem quando Zagan se perguntava o que estava fazendo, ela a arrancou com força.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!

Logo em seguida, ecoou um grito estridente que dava vontade de tapar os ouvidos. Ao observar mais de perto, Zagan notou que a raiz da flor que Foll arrancara tinha um formato humanoide, e o grito havia saído de sua boca.

— Olha, Kimry, é enorme! — exclamou Foll, soltando um suspiro de satisfação.

— Você realmente o cultivou bem. Por um momento, entrei em pânico e achei que não conseguiria neutralizá-lo a tempo.

A raiz com formato humanoide era grande o suficiente para preencher os braços de Foll. Na verdade, tinha mais ou menos o tamanho de um bebê humano. Aquela planta era uma mandrágora. Era algo usado com frequência como ingrediente em poções e que, no instante em que era arrancada da terra, soltava um grito amaldiçoado. Qualquer pessoa comum que ouvisse aquele grito morreria. Era tão terrível que podia até levar a maioria dos feiticeiros à loucura.

Kimaris parecia se especializar em feitiçaria relacionada ao som então, ao que tudo indicava, estava encarregado de bloquear o grito da mandrágora.

— Está se preocupando demais, Kimry. Não tem como o grito de uma mandrágora romper a mana de um dragão! — declarou Foll, balançando a cabeça em tom de deboche.

Foll podia ser jovem, contudo ainda assim era um dragão. Dragões possuíam resistência natural a todas as maldições e feitiçarias, sendo capazes de repelir sem dificuldades o grito de uma mandrágora.

— Nem todos os feiticeiros aqui têm o mesmo poder que você ou eu, pequena dama. E também são subordinados do Sir Zagan, então precisamos garantir a sua segurança.

— Hmm... Foi por isso que trouxe você comigo, Kimry.

— Entendo, foi muito admirável da sua parte, pequena dama.

Dito isto, os dois se voltaram para Zagan.

— Precisa de mim, Sir Zagan?

— É, estou só procurando a Nephy...

— Bem, eu a vi indo em direção à sala do trono. Parecia que estava te procurando, Sir Zagan.

— Sério...? Obrigado pela dica. Vou dar uma olhada.

Parecia que ela também estava procurando por ele, e os dois haviam se desencontrado mais uma vez. Depois de agradecer a Kimaris, Zagan olhou para sua filha. A garotinha adorável ninava a grande mandrágora como se fosse algo precioso.

— Foll, para que vai usar essa mandrágora?

— Como lanche. — respondeu Foll sem hesitar, deixando Zagan sem palavras por um momento.

— Entendo. É gostoso?

— Hmm... É cheio de mana doce e tem um gosto muito bom!

Agora que havia mencionado, Zagan lembrou-se de um incidente em que um campo de mandrágoras, cultivado por um feiticeiro, foi devorado por um dragão. Não era algo muito conhecido, no entanto talvez elas fossem a comida favorita dos dragões.

— Bem, que bom... Será que... As suas refeições habituais não estão sendo suficientes?

Foll parecia apenas uma garotinha, entretanto sua forma original era grande o suficiente para acomodar um cavaleiro humano enquanto voava pelos céus. Apesar disso, tinha um porte pequeno para um dragão, então supunha que estivessem alimentando-a adequadamente. Todavia, seus padrões humanos de alimentação podiam tê-lo enganado.

— Não. A comida da Nephy é deliciosa, e eu como o suficiente, e até mais. É só que... Sou fraca, então preciso aumentar minha mana.

Ela se dizia fraca, mas Foll era forte o bastante para derrotar qualquer feiticeiro comum com facilidade. Aquilo devia significar que queria evoluir como dragão.

— Zagan, você quer um pouco também? — perguntou Foll, estendendo sua grande mandrágora na direção dele.

— Talvez mais tarde. — respondeu Zagan. E, depois de fazer um último carinho na cabeça de sua filha, girou nos calcanhares e caminhou em direção à sala do trono.



***



Ao retornar à sala do trono, Zagan encontrou Rafael e Selphy lá... E, embora não fizesse ideia do que havia acontecido, Selphy estava pálida e tremia enquanto Rafael a segurava pelo cangote.

— Meu senhor, temos uma intrusa. Devo acabar com ela ou prefere que a entregue àqueles seus subordinados malditos?

Rafael era um homem que havia abatido quase quinhentos feiticeiros em legítima defesa. Por onde passava, acabava gerando mal-entendidos e preconceito. Selphy, por outro lado, era o tipo de pessoa que claramente não ouvia o que os outros diziam. Logicamente, não havia como os dois terem qualquer tipo de conversa sensata.

Eu deveria ter previsto que terminaria assim... Normalmente, teria notado, porém não estava prestando muita atenção nos outros desde que saíra à procura de Nephy.

— Ah... Parece que a Nephy a encontrou. Você tem algum tipo de trabalho que possa dar a ela?

— Hmm, então planeja colocá-la para trabalhar aqui?

— Não é possível?

— Não é impossível, contudo não posso garantir que essa criatura sobreviva.

— Eeeeek! — Selphy gritou e estremeceu, fazendo Zagan assentir como se aquilo não importasse muito.

— Se avisarmos aos meus subordinados que Selphy não é bucha de canhão nem brinquedo, ninguém vai tentar fazer nada.

— Nesse caso não há problema. Vou gravar na sua alma o que significa trabalhar para o Arquidemônio Zagan.

— Na verdade, vou é voltar para casa! Estou bem desempregada, sério!

— Sua tola. Já entrou a serviço do meu mestre. Ponha sua maldita vida em jogo e trabalhe.

— NÃOOOOOOOOOOOOOO!

Ele está querendo dizer, na verdade, que vai lhe ensinar tudo o que precisa saber para fazer o trabalho, certo...? Apesar de ter percebido o verdadeiro sentido das palavras de Rafael, Zagan permaneceu em silêncio e sentou-se em seu trono. Poderia ter desfeito o mal-entendido, no entanto se Selphy de fato pretendia trabalhar em seu castelo, era melhor que fosse se acostumando. Foi por esse motivo que decidiu deixar como estava. E, bem quando a algazarra piorava...

— Mestre Zagan, o senhor está ocupado com algo?

Uma voz tão melodiosa quanto um sino o chamou. E, ao voltar o olhar para a origem do som, viu Nephy parada na entrada da sala do trono. Ela vestia sua combinação habitual de vestido de peça única azul-ultramarino e avental... O traje de uma empregada doméstica, e havia uma coleira rústica em seu pescoço. Seus cabelos brancos como a neve desciam até a cintura, e seus olhos eram de um azul-celeste, como um lago sereno.

As orelhas pontudas de Nephy eram um traço racial dos elfos... Entretanto, embora fosse uma elfa, era também muito mais do que isso. Na verdade, era descendente de uma espécie antiga chamada alto-elfos. E, além do mais, era a mulher que Zagan não conseguia evitar amar.

Ah, é verdade, Nephy também estava procurando por mim... Nephy talvez tivesse algo importante para tratar, então Zagan balançou a cabeça e respondeu.

— Não, já terminei o que tinha para fazer. Não se preocupe.

— Entendo... — Nephy inclinou a cabeça para o lado, intrigada ao ver o rosto de Selphy, que estava uma confusão de lágrimas e muco.

— Senhorita Nephy, me saaaaaaaaaaaaaalva.

— Ah, acabei a contratando para ajudar o Rafael.

Por um momento, após ouvir a explicação de Zagan, Nephy permaneceu inexpressiva enquanto as pontas de suas orelhas tremulavam alegremente. Então, bateu palmas.

— Que bom, Srta. Selphy.

— Você está, tipo, me ouvindo mesmo? — a expressão de Selphy caiu em desespero enquanto se perguntava se ainda lhe restava algum aliado naquele lugar.

— Os preparativos para o almoço estão prontos, mas vocês vão comer mais tarde? — Rafael perguntou a Zagan, ignorando Selphy.

— É. Podem comer sem a gente.

Naturalmente, estava procurando por Nephy porque tinha assuntos a tratar. E, como desejava discutir uma questão bastante delicada que poderia levar tempo, não queria deixar os outros feiticeiros esperando.

— Como desejar! — disse Rafael, levando a mão ao peito e fazendo uma reverência.

— Parece que você estava me procurando. — disse Zagan, fazendo um gesto para que Nephy se aproximasse. Zagan também tinha algo de que queria falar, porém preferia ouvir o que ela tinha a dizer primeiro.

— Sim. Há algo... Sobre o qual gostaria de conversar com você.

— Entendo. Por enquanto, sente-se.

— Entendido... — disse Nephy enquanto caminhava até a frente do trono de Zagan. E então, simples assim, se sentou no colo de Zagan.

Ignorando Selphy, que parecia atônita com a sua atitude, Nephy inclinou a cabeça para o lado.

— Desse jeito?

— Hmm, muito bem.

— Tudo be... Oomph?

Zagan achou que Selphy estava fazendo algum escândalo, contudo quando olhou para ela, Rafael já havia selado a sua boca.

Havia outras cadeiras nos cantos da sala do trono, no entanto Nephy não hesitou nem um pouco ao se sentar no colo de Zagan. Mesmo assim, se inclinava para frente para manter mais peso sobre os pés e não sobrecarregar Zagan, um detalhe que este achava encantador. Entretanto, Zagan também sentiu seu rosto se contorcer devido à sensação das nádegas e coxas macias dela.

Tenho a impressão de que a Nephy anda muito mais manhosa ultimamente...

Desde o incidente com Bifrons, Nephy havia perdido qualquer receio de se sentar no colo de Zagan. Parecia que nem sequer tinha mais dúvidas sobre isso.

Depois de aproveitar o momento, Zagan fez um aceno firme para Rafael, que levou Selphy embora da sala do trono.

— Caramba. O Senhor Arquidemônio é um cara bem generoso.

— A extensão da consideração do meu senhor é algo que não podemos mensurar.

— Então quer dizer que você não tem certeza de quão fundo isso vai? — Selphy continuou falando alto sobre algo até o último instante, todavia não era um assunto com o qual Zagan precisasse se preocupar.

Depois que os dois se afastaram, Zagan olhou para Nephy. Estava mexendo no cabelo com os dedos, parecendo indecisa sobre alguma coisa. Suas orelhas pontudas caíam aos poucos, elas davam um solavanco para cima, ficando eretas por um instante, e logo em seguida voltavam a cair. Estava bem claro que havia reunido coragem para falar, mas o nervosismo parecia vencê-la sempre que tentava expressar o que pensava.

Hmm, talvez eu devesse tentar acalmá-la de alguma forma?

Não estava com pressa. Não, apenas queria encorajar a garota que amava. Portanto, depois de pensar um pouco sobre o assunto, Zagan pegou uma mecha do cabelo de Nephy. Em seguida, tentou passá-la suavemente sobre as outras mechas com as quais ela estava brincando.

— Hã...?

— ...

As orelhas de Nephy tremeram de surpresa, e ergueu o olhar para Zagan. Pelo visto, não esperava tal atitude da sua parte. E, para ser sincero, nem Zagan sabia explicar por que havia feito aquilo. Assim, os dois acabaram apenas se encarando em silêncio.

Agora que olho com atenção, o cabelo dela é transparente na verdade, não é? Hmm... Que lindo. O pigmento havia desaparecido, deixando-o quase transparente, parecia branco apenas porque os fios estavam todos juntos.

Nephy baixou a cabeça como se estivesse ponderando algo e assentiu então, como se tivesse tido uma ideia brilhante. Em seguida, recostou-se no peito de Zagan e usou as pontas do cabelo, com o qual brincava, para acariciar o pescoço dele.

Hã? Que situação é essa? Quer dizer, não posso reclamar, só que...

De qualquer forma, Nephy estava uma gracinha tentando fazer cócegas em Zagan com uma expressão séria no rosto. Sentia uma vontade enorme de abraçá-la com força ali mesmo. Contudo, o Arquidemônio apenas recostou-se em seu trono, brincando com o cabelo da noiva enquanto ela continuava a fazer cócegas em seu pescoço.

Um silêncio um tanto constrangedor perdurou por um bom tempo enquanto os dois continuavam suas ações. E o primeiro a quebrar esse silêncio... Foi Zagan.

— Isso faz cócegas...

— Devo parar?

— Não, tudo bem, pode continuar.

Nem mesmo Zagan sabia dizer o que estava “tudo bem” naquilo, no entanto a sensação não era ruim. Pelo contrário, trazia-lhe uma sensação de calor e conforto. Depois de mais algum tempo, Nephy enfim reuniu coragem e abriu a boca para falar.

— Mestre Zagan, na verdade, vim lhe fazer um pedido sincero.

Era a primeira vez que Nephy fazia algo assim, e estava agindo bastante formal. Confuso com a sua atitude, Zagan ficou tenso enquanto assentia.

— Hm... Vamos ouvir.

Nephy respirou fundo ao ouvir a resposta. A sensação de seu peito se expandindo com aquela respiração suave foi transmitida diretamente a ele, fazendo com que Zagan, por reflexo, envolvesse as costas dela com os braços.

O corpo de Nephy estremeceu, entretanto se manteve firme, vencendo o nervosismo.

— Você poderia... Me permitir tirar uma licença por um breve período? — Nephy estava pedindo para se afastar de Zagan, um pedido que, em circunstâncias normais, o teria deixado deprimido. Todavia, sua resposta foi direto ao ponto, sem demonstrar qualquer agitação.

— Entendo... Então quer ir investigar a vila dos elfos?

— H-Hã? — a boca de Nephy abriu e fechou. Estava chocada, parecia que Zagan havia lido sua mente.

— C-Como você descobriu?

— Dá para perceber só de olhar, não é?

— Sério? — Nephy seguia bastante atordoada, mas suas orelhas se ergueram, como se estivesse, de certa forma, aliviada.

Afinal, eu estava a procurando justamente para convidá-la a viajarmos até lá juntos... Já havia se passado um mês desde que, por um encontro casual com o Arquidemônio Bifrons, Nephy descobriu ser uma alta-elfa. Além do mais, ela soube que a língua Celestian, que só conseguia compreender... Era, na verdade, o idioma dos alto-elfos. Essa revelação a fez querer sair correndo do castelo o quanto antes, só que devido aos novos subordinados que Zagan havia recrutado, preferiu esperar até que a equipe pudesse dar conta das tarefas domésticas.

De vez em quando, suas orelhas denunciavam sua inquietação... Zagan queria realizar os desejos de sua amada o mais rápido possível, porém não estava acostumado a confiar em estranhos. Levou um bom tempo até que se convencesse de que não havia com o que se preocupar em relação aos novos subordinados. E foi graças a essa nova confiança que Zagan respondeu com tamanha naturalidade.

— Tenho pensado que agora é o momento certo para levá-la até lá, Nephy.

— Ao dizer “me levar até lá|”... Quer dizer que o senhor também virá, Mestre Zagan?

— Há sujeitos como Bifrons por aí, então não posso só deixá-la ir sozinha. — disse Zagan, antes de virar-se para olhar na direção da porta pela qual Rafael havia saído e continuar. — Por sorte, meus novos subordinados são obedientes. Deixar o castelo nas mãos competentes do Rafael deve bastar.

Se Zagan partisse para a vila escondida, o castelo ficaria sem seu mestre, portanto apenas Rafael poderia assumir o comando.

— Mestre Zagan, o senhor previu tudo, não é?

— Nem tudo.

— Eu o acompanharei... Não importa aonde o senhor vá. Não importa o lugar... Por favor, leve-me junto, Mestre Zagan.

— E-Eu levarei... — disse Zagan, respondendo com um aceno de cabeça exagerado. Naquele exato momento, um pensamento surgiu em sua mente.

O local de nascimento da Nephy... Hein?

Podia ser um lugar repleto de memórias dolorosas para Nephy, contudo estava radiante com a ideia de visitar o lugar onde ela cresceu.

E assim, a família de Zagan acabou acompanhando Nephy em sua visita ao lar.



***



— Hmph... Então é neste castelo que a Nephy está hospedada?

Uma garota solitária flutuava no céu acima do castelo de Zagan. Seus cabelos eram prateados, quase brancos, e seus olhos brilhavam como a lua. Era uma elfa negra de pele morena, vestindo uma roupa bastante ousada. Além disso, seu rosto era surpreendentemente parecido com o de Nephy. O nome da garota era Nephteros. Era serva do Arquidemônio Bifrons, uma alta-elfa que odiava Nephy.

Nephelia... Aquela garota que tinha o mesmo rosto que ela. Embora ambas fossem, supostamente, alta-elfas, Bifrons valorizava mais Nephelia. E esse fato fazia brasas de ódio arderem no coração de Nephteros.

Se lançasse um ataque surpresa dali e usasse sua feitiçaria, até um Arquidemônio seria incapaz de proteger Nephelia. E, naquele momento, Nephteros teve a oportunidade ideal para lançar seu ataque. Ou melhor, teria, contudo...

— Que mulher de sorte... — Nephteros não tinha vindo para matar Nephelia. Se lançasse um ataque contra o castelo, não conseguiria mais alcançar seu verdadeiro objetivo. Por isso, tudo o que pôde fazer foi encarar o castelo com irritação.

Nephteros trazia algo enrolado em seu braço.

Assim que eu terminar de entregar isto, não terei mais nada a ver com esse castelo irritante...

O castelo, logo abaixo dela, estava cercado por inúmeras barreiras poderosas, dispostas com extrema delicadeza. Os fundamentos da feitiçaria envolviam o traçado de círculos mágicos, ao ler e compreender grimorios, era possível aprimorar tais círculos.

Para sua surpresa, a barreira que protegia o castelo de Zagan incorporava a floresta ao seu redor, integrando-a como parte de sua própria estrutura. Não apenas a disposição de muitas árvores e riachos era aproveitada, como também as sombras projetadas pela lua e pelo sol, e até mesmo o som do vento soprando pela mata, funcionavam como elementos do círculo mágico. Em outras palavras, a barreira fora construída de modo que sua estrutura se alterava conforme o horário e a direção do vento.

Qualquer método de romper a barreira não funcionaria uma segunda vez. Era uma barreira formidável, sem pontos fracos reais.

Detesto admitir, no entanto essa feitiçaria é até artística... Nephteros, que estudou feitiçaria com o Arquidemônio Bifrons, não conseguia imitá-la. Era, de fato, a cristalização do poder de Zagan. Sem que sequer se desse conta, se viu fascinada por aquilo.

Um grande número de feiticeiros se movimentava com pressa dentro daquela bela barreira. Talvez fossem subordinados de Zagan, e nenhum deles percebeu a presença do inimigo de seu mestre logo acima, nos céus.

Se apenas lançasse sua “encomenda” ali, poderia ir embora, entretanto...

— Urgh... — Nephteros sentiu uma onda de sede de sangue percorrer seu corpo enquanto ponderava. Olhando para o castelo abaixo de seus pés, avistou um idoso gritando ordens aos feiticeiros. Se bem se lembrava, tratava-se de um antigo Cavaleiro Angelical chamado Rafael.

Bem, suponho que um Arquidemônio não empregaria apenas tolos.

Como a havia notado, ela não tinha escolha. Nephteros liberou sua mana, fazendo a barreira oscilar um pouco. Embora Zagan a superasse em muito como feiticeiro, tratava-se de uma barreira imensa, que cobria não apenas um castelo, como uma floresta inteira. Devido ao seu tamanho colossal, as partes comparáveis ​​às articulações de uma pessoa eram bastante frágeis. Assim, havia na verdade “brechas” que a maioria dos inimigos seria incapaz de detectar.

Ao fazer a barreira vibrar, Nephteros trouxe uma dessas “brechas” à tona. E, num instante, deslizou por ela e desceu em direção ao castelo.

Sua imagem, liberando uma onda de mana e rompendo audaciosamente a barreira de um Arquidemônio, era sublime. Todavia, em vez de um sorriso satisfeito, o suor brotou em seu rosto.

Mais rápido! Preciso passar antes que a barreira mude! Nephteros sabia que ficaria presa na barreira se o vento mudasse, ainda que apenas um pouco. Afinal, atravessar a barreira era como passar uma linha pelo buraco de uma agulha, qualquer tremor, por menor que fosse, resultaria em fracasso.

Não podia se dar ao luxo de ser impaciente. Porém, precisava se esforçar para conseguir atravessar nem que fosse um segundo mais cedo. E, enquanto lutava contra a poderosa barreira, Nephteros enfim percebeu que tipo de inimigo aterrorizante o Arquidemônio Zagan de fato era.

Pouco depois, os outros feiticeiros começaram a levantar a voz ao avistá-la.

— V-Você é a... De Bifrons!

— O que está planejando agora?

— Calma! A sua feitiçaria é poderosa. Se comprarem briga sem cuidado, terão o jogo virado contra vocês.

Nephteros pousou diante de Rafael, mal lançando um olhar para os feiticeiros que faziam algazarra.

Aquele com mais poder neste lugar... É este sujeito, hein? Nephteros não achava que ele fosse mais forte do que ela. Mas era alguém que Zagan mantinha ao seu lado. Não podia se descuidar na sua presença.

Encarando-o, Nephteros exibiu um sorriso um tanto forçado e jogou os cabelos prateados para trás com um ar de superioridade. Em seguida, adotou uma postura decidida e revelou algo bastante chocante.

— Hmm, vim devolver o manto do Zagan, contudo...

Ao ouvir aquilo, todos os presentes soltaram um suspiro em uníssono.

— Isso é muito enganador. Se é para fazer algo tão simples, devia ter entrado pela porta como uma pessoa normal!

— Pensando bem, ela é desse tipo, né?

— Pois é. Não consegue só agradecer de forma sincera, consegue?

— Será aquilo? Será que enfim está admitindo que quer se dar bem com a pequena Nephy?

— Bem, com a bondade da Nephy, é bem óbvio que vai querer passar um tempo com ela.

Por fim, os feiticeiros voltaram aos seus afazeres, como se tivessem perdido todo o interesse no ocorrido. Nephteros lançou um olhar para todos que falavam o que bem entendiam, embora mantivesse uma expressão serena, as pontas de suas orelhas estavam avermelhadas e tremelicavam.

Depois de analisá-la com um olhar frio e calculista, Rafael virou as costas para ela abruptamente.

— Siga-me.

Ela queria devolver o manto o mais rápido possível e voltar para casa, no entanto seu orgulho não permitia que desse as costas ali. Assim, seguiu Rafael a contragosto.

O local para onde a levou parecia ser uma sala de visitas. Rafael puxou uma cadeira e convidou Nephteros a se sentar, antes de preparar algumas bebidas com agilidade. Pouco depois, serviu-lhe um chá que exalava um aroma reconfortante.

— Beba um pouco.

— Ah, obrigada...

Nephteros acabou baixando a cabeça involuntariamente ao responder. A atitude cortês de Rafael a pegou de surpresa. Em seguida, este murmurou alguma coisa enquanto dispunha alguns biscoitos para acompanhar o chá.

— Vou lhe dizer isso antes que fale qualquer coisa, meu mestre não está presente no momento.

— Hã? Ele não está aqui?

— Correto.

Incapaz de esconder seu espanto, Nephteros perguntou outra vez.

— Então... Hmm... O que é isto...?

— Recebi ordens para lhe oferecer o mínimo de hospitalidade.

— Ele não queria dizer... Que deveria me interceptar e atacar?

— Sua tola. Meu senhor é um cavalheiro. Jamais permitiria que uma convidada partisse de mãos vazias.

Sem conseguir entender o que o velho mordomo dizia, Nephteros apenas começou a piscar enquanto suas orelhas tremulavam de leve.

— Mas, há pouco, você não voltou sua ira contra mim quando eu estava sobre o castelo?

— Se alguém suspeito estivesse logo acima de você, não ficaria em alerta?

— Suspeita, hein... Será que já não nos vimos antes?

— Não sou um feiticeiro. É impossível distinguir o rosto de alguém a tamanha distância. — respondeu Rafael, balançando a cabeça negativamente.

— Isso é... Hmm... Desculpe. Não percebi...

— Não é algo com que precise se preocupar. Mais importante, beba logo esse maldito chá antes que esfrie.

— Obrigada... — Nephteros mantinha uma expressão confusa enquanto erguia sua xícara de chá.

Por enquanto... Sou inimiga deles, certo...? Não é como se o Mestre Bifrons tivesse pedido desculpas a eles nem nada do tipo...

O mestre de Nephteros era alguém que preferiria morrer a curvar a cabeça diante de outro. Bifrons era um ser incapaz de pedir desculpas.

Porém, talvez, isso fosse apenas o comportamento padrão de Arquidemônios. Zagan compreendia isso. Seria esse o motivo de estar sendo tratada com tamanha gentileza? Ele pretendia receber uma inimiga com hospitalidade, em vez de abatê-la?

Enquanto ponderava sobre essas questões, Nephteros provou um dos biscoitos que estavam à sua frente.

— Isto... É delicioso...

—Agradou ao seu paladar?

— Suponho que sim... Foi você quem os preparou?

— De fato.

Nephteros soltou um suspiro involuntário. Ela havia imaginado que estariam envenenados ou algo do gênero, contudo eram apenas biscoitos comuns e deliciosos. Tanto os biscoitos quanto o chá eram tão saborosos que deixaram Nephteros perplexa.


Como um homem tão monstruoso conseguiu fazer algo tão bom...?

O rosto de Rafael era aterrorizante o suficiente para levar feiticeiros a avançarem e o atacarem por puro medo. Ela não conseguia nem imaginar a cena de tal homem preparando doces na cozinha.

Nephteros não entendia nada de confeitaria, no entanto sabia que, mesmo que entendesse, não teria confiança para fazer doces tão deliciosos. Por outro lado, chegou a pensar em preparar algo horrível para provocar Bifrons, só que já que aquele Arquidemônio certamente perceberia suas intenções de imediato, qualquer esforço seria em vão.

Nephteros tomou cuidado para não deixar cair migalhas sobre a capa de Zagan, que estava em seu colo enquanto comia os biscoitos, e continuou interrogando Rafael.

— Para onde o Zagan foi?

— Para a terra natal da senhorita Nephy. Ouvi dizer que a viagem leva um dia inteiro nas asas de um dragão. Eles voltarão em três dias, no mínimo, entretanto não sei ao certo quando planejam retornar.

— Entendo... — Nephteros baixou o olhar para a capa de Zagan.

O que devo fazer? Vim até aqui, mas só deixar a capa e ir embora parece meio bobo, não é...?

Dito isto, a distância era grande demais para ir atrás dele. Na pior das hipóteses, eles poderiam acabar passando um pelo outro sem se ver. Se acontecesse, ela ficaria numa situação ridícula. Enquanto ponderava sobre o que fazer, sua xícara de chá ficou vazia.

Nephteros recusou com um gesto de cabeça a oferta de Rafael de servir mais chá e levantou-se da cadeira.

— Voltarei outra hora.

Por enquanto, devo pelo menos agradecer pessoalmente pelo que aconteceu da última vez.

Durante o incidente no barco, Zagan havia salvado a vida de Nephteros, todavia ela nunca lhe agradecera da devida forma. Além do mais, graças à “lembrança” que ele lhe dera, pôde até mesmo atormentar Bifrons. Havia também a questão da capa, porém considerava que expressar sua gratidão por tudo aquilo era o mais importante.

Se eu não fizer isso, um dia acabarei como o Mestre Bifrons...

A indiferença casual podia ser algo comum entre os feiticeiros, contudo o desejo de não se tornar aquele tipo de pessoa era o que mais ocupava seus pensamentos.

— Espere. Tenho algo para lhe entregar. Poderia aguardar aí um instante. — disse Rafael, chamando a atenção de Nephteros e fazendo-a parar quando já se virava para ir embora.

— Hã...? Entendido! — respondeu Nephteros, ficando ali à espera do retorno de Rafael.

— Pode levar isto com você. — disse Rafael ao voltar.

— O que é?

Rafael estendeu um pacote. Era pequeno o suficiente para caber perfeitamente na mão de Nephteros e estava amarrado com uma fita adorável.

— São apenas sobras. Não dê importância, apenas leve.

— Com “sobras”... Quer dizer mais daqueles biscoitos que acabei de comer?

Rafael respondeu com um aceno exagerado de cabeça. Parecia que havia ouvido Nephteros comentar como eram deliciosos e, por isso, preparou uma porção para levar de lembrança.

Sua gentileza tocou o coração de Nephteros. Parecia que estava sendo alvo de brincadeiras até o último momento.

“Se não se importar, você viria comigo?” Nephteros lembrou-se da garota que lhe estendera a mão enquanto dizia aquelas palavras calorosas, no entanto logo balançou a cabeça para afastar a lembrança.

Fui eu quem escolheu não acompanhá-la...

Afinal, não foi ela quem escolheu permanecer a serviço de Bifrons?

— Eu... Voltarei! — respondeu Nephteros de forma seca, reafirmando sua decisão enquanto se afastava.

Ao chegar ao saguão de entrada, caminhou em direção à área externa. No trajeto, cruzou com vários feiticeiros, entretanto, ao contrário de antes, nenhum destes demonstrou a menor hostilidade. Parecia que agora reconheciam Nephteros como uma convidada.

Lançando um olhar rápido para trás, Nephteros viu Rafael acenando em sua direção com uma expressão séria. E, sem querer, retribuiu o aceno.

O que exatamente estou fazendo aqui...? Nephteros não conseguia explicar suas próprias atitudes, todavia, talvez de forma curiosa, aquilo não lhe causava uma sensação ruim. E, enquanto tentava deixar a atmosfera tranquila do castelo de Zagan, na qual havia mergulhado por completo, outro feiticeiro surgiu voando da floresta em sua direção.

— Droga, droga! Aquele desgraçado do Zagan está me deixando de fora da diversão de novo! Por que logo eu tenho que ficar protegendo aquela chorona? Maldito!

Quem é esse sujeito...?

Sua aparência era a de alguém com cerca de vinte anos, com cabelos desgrenhados e olheiras profundas. Era uma figura alta e magra, de rosto encovado, o que lhe conferia um aspecto doentio. Vários adornos pendiam de seu pescoço, tilintando a cada passo que dava. Ela supôs que fosse um feiticeiro, mas Nephteros não o conhecia.

Aquele homem era Barbatos. Na verdade, Nephteros já o havia encontrado uma vez, porém a situação naquela época fora tão caótica que não se lembrava dele de jeito nenhum. Tentando evitar qualquer envolvimento, saiu da trilha. Contudo, Barbatos apenas a encarou com olhar fixo.

— Hã? Espera, você não é aquela elfa do baile do Bifrons?

— Quem é você? — Nephteros franziu a testa, no entanto o homem não deu importância a isso e começou a falar com ela. — O que está fazendo aqui? Veio matar aquele idiota do Zagan? Que pena! Aquele cretino fugiu de novo com a noiva dele. Hah! Parece que perdeu seu tempo vindo aqui, hein?

— Não, isto não é bem verdade...

Os biscoitos e o chá estavam deliciosos, e até ganhou uma lembrança. Sendo franca, ficou feliz por ter um motivo para voltar.

Infelizmente, Barbatos não parava de tagarelar, quando Nephteros voltou a caminhar na tentativa de escapar de sua inconveniência, ele a seguiu.

Qual é a desse cara?

— Se está procurando o Zagan, parece que foi para a cidade natal da Nephelia. Por que não vai lá e apresenta suas queixas na sua cara? — Nephteros disparou, depois de algum tempo, tentando afastá-lo.

Sentiu-se mal por empurrar um sujeito tão irritante para cima de Zagan, entretanto não suportava mais aquela ladainha.

— Como é? Quando diz cidade natal da Nephy, quer dizer a vila oculta dos elfos, certo? Entendo... Foram até lá só para conseguir um novo poder, é? Foi por esse motivo me deixou para trás! — exclamou Barbatos, arregalando os olhos ao assimilar as palavras de Nephteros.

Nephteros afastou-se com pressa enquanto Barbatos batia o pé no chão sem parar.

Com isso, enfim posso voltar para casa... Nephteros sentiu, enfim, um alívio, todavia Barbatos acabou estragando tudo ao dizer algo totalmente inesperado.

— Vou atrás daquele babaca do Zagan. Imagino que queira fazer o mesmo, não é? Então vou te levar comigo.

— Não, na verdade eu não...

— Droga, isso significa que vou ter que levar a chorona também. Cara, que dor de cabeça.

Naquele momento, Nephteros por fim percebeu uma de suas falhas. Pensando bem, não sei lidar com pessoas que não escutam ninguém.

Seu mestre, Bifrons, era um bom exemplo desse tipo, e aquele homem era outro. Nunca tivera a oportunidade de conversar com outras pessoas além de Bifrons, portanto aquela falha fazia sentido.

Para seu azar, aquela fraqueza estava cobrando seu preço agora. Apesar de suas objeções, acabou sendo arrastada para a pequena expedição de Barbatos.

E assim, a contraparte sombria de Nephy acabou em seu encalço, lançando-se de cabeça em uma situação que não tinha absolutamente nada a ver com ela.

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