Capítulo 03: Quebrador de Juramento
Mais tarde, no dia de seu encontro com o Pastor e a Caçadora, quando o sol estava alto no céu, Simon sentiu-se forte o suficiente para sair e sentar-se na varanda rochosa diante de sua caverna. Enrolou uma ponta do cobertor sobre os ombros e colocou o resto da lã pesada sob ele como uma almofada contra a pele rochosa da montanha. Mas para o assento real em Chidsik ub Lingit, parecia não haver nada como uma cadeira em toda Yiqanuc.
Os pastores há muito conduziram as suas ovelhas para fora dos vales protegidos onde dormiam, levando-as montanha abaixo em busca de forragem. Jiriki lhe dissera que os brotos primaveris com os quais os animais costumavam se alimentar haviam sido quase destruídos pelo inverno rigoroso. Simon observou um dos rebanhos andando numa encosta bem abaixo, minúsculo como formigas. Um leve estalo chegou até seus ouvidos, os carneiros batendo chifres enquanto disputavam o domínio do rebanho.
As mulheres gnomas, com seus bebês de cabelos pretos amarrados às costas em bolsas de couro finamente costurado, pegaram lanças finas e saíram para caçar, perseguindo marmotas e outros animais cuja carne poderia ajudar a evitar de sacrificarem carneiros para se alimentar. Binabik dizia muitas vezes que as ovelhas eram a verdadeira riqueza do povo qanuc, que comiam apenas os membros dos seus rebanhos que não serviam para mais nada, os velhos e os estéreis.
Marmotas, coelhos e outros animais pequenos não eram a única razão pela qual as mulheres gnomas carregavam lanças. Uma das peles ostensivamente enroladas em Nunuuika era a de um leopardo das neves, com garras afiadas como adagas ainda brilhando. Lembrando-se dos olhos ferozes da Caçadora, Simon não teve dúvidas de que Nunuuika havia derrubado aquele prêmio sozinha.
As mulheres não foram as únicas a enfrentar o perigo, a tarefa dos pastores era tão perigosa quanto, uma vez que havia muitos grandes predadores que precisavam ser mantidos afastados das preciosas ovelhas. Binabik uma vez lhe dissera que os lobos e leopardos, embora constituíssem uma ameaça, mal eram comparáveis aos enormes ursos das neves, o maior destes pesando como duas dúzias de gnomos. Muitos pastores qanuc, dissera Binabik, encontraram um fim rápido e desagradável sob as garras e dentes de um urso branco.
Simon reprimiu um tremor reflexivo de desconforto diante desse pensamento. Não estivera diante do dragão Igjarjuk, muito maior e mais mortal do que qualquer animal comum?
Sentando enquanto o final da manhã se transformava em tarde, observava a vida de Mintahoq que se espalhava diante de seus olhos, tão ao mesmo tempo agitada e organizada como uma colmeia. Os mais velhos, depois de anos de caça e pastoreio, fofocavam de varanda em varanda ou agachavam-se ao sol, esculpindo ossos e chifres, cortando e costurando pele curada em todo tipo de coisas. Crianças grandes demais para serem levadas para a caça pelas mães brincavam subindo e descendo a montanha sob a supervisão confusa dos velhos, subindo as escadas delgadas ou balançando e pendendo nas pontes oscilantes, sem se importar com as distâncias fatais que se estendiam abaixo delas. Simon achou bastante difícil assistir a essas diversões perigosas, contudo durante toda a longa tarde nem uma única criança gnomo sofreu algum dano. Embora os detalhes fossem estranhos e desconhecidos, podia sentir a ordem ali. A batida medida da vida parecia tão forte e estável quanto a própria montanha.
***
Naquela noite, Simon sonhou mais uma vez com a grande roda.
Desta vez, como numa cruel paródia da paixão de Jesuris, o Filho de Deus, Simon foi amarrado indefeso à roda, com um membro em cada quarto do pesado aro. Ela não apenas o virou de cabeça para baixo, como Lorde Jesuris sofrera na Árvore, contudo também o fez girar e girar em um vazio sem terra de céu negro. O brilho sombrio das estrelas turvou-se diante dele como caudas de cometas. Outra coisa, alguma coisa sombria e gelada cuja risada era o zumbido vazio de moscas, dançava logo além de sua vista, zombando-o.
Gritou, como costumava fazer em sonhos tão terríveis, no entanto nenhum som saiu. Esforçou-se, todavia seus membros estavam sem forças. Onde estava Deus, que os sacerdotes diziam ver cada ato? Por que Ele deixaria Simon nas garras de tamanha escuridão pavorosa?
Algo parecia se formar aos poucos a partir das estrelas pálidas e tênues, seu coração se encheu de uma expectativa aterradora. Entretanto o que surgiu do vazio giratório não foi o horror de olhos vermelhos que esperava, e sim um rosto pequeno e solene... A garotinha de cabelos escuros que vira em outros sonhos.
Ela abriu a boca. O céu, que girava ininterrupto, pareceu desacelerar.
A garota pronunciou seu nome.
O som chegou até ele como se viesse de um longo corredor, e percebeu que a vira em algum lugar. Conhecia aquele rosto... Mas quem... Onde...?
— Simon! — disse outra vez a pequena, de alguma forma mais nítida agora. Sua voz estava carregada de urgência. Embora algo mais também o alcançava... Algo mais próximo. Algo bem perto... Ele acordou.
***
Alguém o observava. Simon sentou-se em seu leito improvisado, ofegante, atento a qualquer ruído. Mas, exceto pelo suspiro interminável dos ventos da montanha e pelo ronco suave de Haestan, enrolado em sua capa pesada perto das brasas da fogueira da noite, a caverna estava silenciosa.
Jiriki não estava lá. Teria o sitha o chamado de fora da caverna? Ou seria apenas um resquício do sonho? Simon estremeceu e pensou em puxar a coberta de pele de volta sobre a cabeça. Sua respiração formava uma nuvem tênue à luz das brasas.
Não, havia alguém esperando lá fora. Não sabia como sabia, porém tinha certeza. Sentia-se como a corda de uma harpa, vibrando. A noite parecia tensa, esticada ao máximo.
E se alguém estivesse mesmo à sua espera? Talvez fosse alguém, alguma coisa, de quem seria melhor se esconder...
Tais pensamentos pouco importavam. Havia colocado na cabeça que precisava sair. Agora, a necessidade o puxava, impossível de ignorar.
“De qualquer forma, minha bochecha dói muito.” disse a si mesmo. “Não conseguirei dormir tão cedo.”
Tirando as calças debaixo da capa de dormir, onde haviam se mantido aquecidas na noite gélida de Yiqanuc, vestiu-as com o máximo de silêncio possível, e depois calçou as botas nos pés frios. Considerou por um momento vestir sua cota de malha, contudo a ideia dos anéis gelados, acima de qualquer certeza de segurança, o fez desistir da ideia. Envolveu-se na capa e saiu em silêncio, passando por Haestan, que dormia, e atravessando a cortina de pele da entrada para o frio lá fora.
As estrelas sobre as altas montanhas de Mintahoq brilhavam com uma nitidez impiedosa. Enquanto Simon olhava para cima, maravilhado, sentia a distância delas, a imensidão impossível do céu noturno. A lua, não completamente cheia, pairava baixa sobre picos distantes. Banhada por sua luz tênue, a neve nas alturas reluzia, no entanto todo o resto permanecia mergulhado na sombra.
Assim que baixou o olhar e deu alguns passos à direita, afastando-se da entrada da caverna, foi detido por um rosnado baixo. Uma silhueta estranha surgiu no caminho à sua frente, com as bordas banhadas pelo luar e o centro negro. O som grave e profundo repetiu-se. Olhos brilharam em verde ao captarem a luz da lua.
A respiração de Simon travou na garganta por um instante, até que se lembrou.
— Qantaqa? — chamou, em voz baixa.
O rosnado transformou-se em um ganido curioso. A loba inclinou a cabeça.
— Qantaqa? É você? — tentou recordar algumas palavras da língua dos gnomos de Binabik, entretanto não conseguiu se lembrar de nada. — Está ferida? — amaldiçoou-se em silêncio. Não havia pensado na loba nem uma vez sequer desde que fora trazido da montanha do dragão, embora esta tivesse sido uma companheira... E, de certa forma, uma amiga.
“Egoísta!” repreendeu-se.
Com Binabik aprisionado, quem saberia o que Qantaqa havia feito? Seu amigo e mestre fora levado dela, assim como o Doutor Morgenes fora tirado de Simon. A noite pareceu, de repente, mais fria e vazia, repleta da crueldade indiferente do mundo.
— Qantaqa? Está com fome? — ele deu um passo em direção a ela, e a loba recuou. O rosnado voltou a soar, todavia o som parecia mais de empolgação do que de raiva. A loba deu alguns passos saltitantes, o brilho de sua pelagem cinza quase invisível, e então rosnou de novo antes de sair aos saltos. Simon a seguiu.
Enquanto caminhava, pisando com cuidado nos caminhos de pedra molhada, ocorreu-lhe que estava fazendo uma tolice. As vias sinuosas da alta Mintahoq não eram lugar para um passeio à meia-noite, especialmente sem uma tocha. Até mesmo os gnomos ativos sabiam disso, as entradas das cavernas estavam escuras e silenciosas, os caminhos desertos. Era como se tivesse despertado de um sonho para entrar em outro... Aquela peregrinação sombria sob a lua distante e indiferente.
Qantaqa parecia saber para onde ia. Quando Simon ficava muito para trás, ela voltava trotando e parava logo fora de seu alcance até que a alcançasse, sua respiração quente formando nuvens de vapor no ar. Assim que chegava a uma distância de um braço, a loba voltava a disparar. Dessa forma, como um espírito do além, o conduzia para longe das fogueiras de seu próprio povo.
Foi apenas depois de caminharem por algum tempo, contornando a curva da montanha a boa distância da caverna onde dormiam, que Qantaqa correu de volta até Simon. Desta vez, não parou bruscamente. Seu grande corpo chocou-se contra o do rapaz com tamanha rapidez que, embora tivesse sido apenas um esbarrão, o jogou de bunda no chão. Ela permaneceu sobre ele por um momento, com o focinho enterrado em seu pescoço e o nariz frio fuçando perto de sua orelha, provocando cócegas. Simon ergueu a mão para coçar as orelhas dela e sentiu-a tremer, mesmo através da pelagem espessa. Um instante depois, como se sua necessidade de conforto tivesse sido satisfeita, Qantaqa saltou para longe de novo e ficou ali, ganindo baixinho, até que Simon se levantasse, esfregando o cóccix, e a seguisse.
Parecia que Qantaqa o havia conduzido por metade do caminho ao redor de Mintahoq. Agora, estava parada à beira de uma grande escuridão, soltando latidos agudos de empolgação. Simon avançou com cautela, tateando a face de pedra bruta da montanha com a mão direita enquanto caminhava. Qantaqa andava de um lado para o outro, demonstrando impaciência.
A loba estava parada na borda de um grande fosso, que se aprofundava a partir da lateral do caminho, penetrando na própria montanha. A lua, navegando baixa no céu como uma nau sobrecarregada, conseguia apenas banhar de prata a pedra ao redor da abertura do buraco. Qantaqa latiu outra vez, com um entusiasmo mal contido.
Para o espanto avassalador de Simon, uma voz ecoou, tênue, vinda lá de baixo.
— Vá embora, loba! Até o sono me foi tirado... Que Aedon a amaldiçoe!
Simon se jogou sobre o cascalho frio e rastejou para a frente, apoiado nos cotovelos e joelhos, parando por fim com a cabeça pendendo sobre o vazio absoluto.
— Quem está aí? — gritou. Suas palavras reverberaram como se tivessem percorrido uma grande distância. — Sludig?
Houve uma pausa.
— Simon? É você quem chama?
— Sim! Sim, sou eu! Qantaqa me trouxe! Binabik está com você? Binabik! Sou eu, Simon!
Passou-se um momento de silêncio, e então Sludig falou de novo. Agora, Simon conseguia perceber a tensão na voz do rimmerio.
— O gnomo não fala. Está aqui, entretanto não fala comigo, nem com Jiriki quando este veio, nem com ninguém.
— Está doente? Binabik, sou eu, Simon! Por que não me responde?
— Está doente do coração, creio. — disse Sludig. — Tem a mesma aparência de sempre... Mais magro, talvez, todavia também estou no mesmo estado... Mas age como alguém que já morreu.
Ouviu-se um som de algo sendo arrastado enquanto Sludig, ou outra pessoa, se movia nas profundezas.
— Jiriki diz que vão nos matar. — disse o rimmerio um momento depois, com a voz monótona e resignada. — O sitha falou em nosso favor, não com fervor ou raiva, pelo que pude perceber, mas falou por nós, mesmo assim. Disse que o povo gnomo não concordava com seus argumentos e estava decidido a fazer justiça. — ele riu com amargura. — Bela justiça, matar um homem que nunca lhes fez mal e matar também um dos seus, sendo que ambos sofreram muito pelo bem de todos os povos... Inclusive dos gnomos... Einskaldir tinha razão. Tirando este sujeito silencioso ao meu lado, todos são demônios do inferno.
Simon se endireitou, segurando a cabeça entre as mãos. O vento soprava indiferente pelas alturas. Uma sensação de impotência tomou conta dele.
— Binabik! — gritou, inclinando-se novamente para a frente. — Qantaqa está te esperando! Sludig sofre ao seu lado! Ninguém poderá ajudá-lo se não ajudar a si mesmo! Por que você não fala comigo?
Apenas Sludig respondeu.
— Não adianta, já disse. Seus olhos estão fechados. Não o ouve, não vai falar de jeito nenhum.
Simon bateu a mão contra a rocha e praguejou. Sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos.
— Eu vou ajudar você, Sludig! — disse ele, por fim. — Não sei como, mas vou.
Simon se sentou. Qantaqa encostou o focinho nele e choramingou.
— Posso trazer algo para vocês? Comida? Água?
Sludig riu sem ânimo.
— Não. Eles nos alimentam, embora não a ponto de nos fartar. Eu pediria vinho, porém não sei quando virão me buscar. Não quero ir com a cabeça turvada pela bebida. Apenas reze por mim, por favor. E pelo gnomo também.
— Farei mais do que isso, Sludig, eu juro. — ele se levantou.
— Você foi muito corajoso na montanha, Simon. — disse Sludig em voz baixa. — Fico feliz por ter te conhecido.
As estrelas cintilavam friamente acima do fosso enquanto Simon se afastava, lutando para manter-se ereto e não chorar mais.
***
Caminhando por algum tempo sob o luar, perdido no turbilhão de seus pensamentos dispersos, demorou para perceber que estava seguindo Qantaqa outra vez. A loba, que andara de um lado para o outro ansiosamente junto à borda do fosso enquanto Simon conversava com Sludig, agora trotava com determinação pela trilha à frente. Ela não lhe dava chance de alcançá-la, como fizera na ida, e agora sentia a dificuldade em acompanhar o seu ritmo.
O luar era forte o suficiente para Simon ver aonde ia, e a trilha, larga o bastante para permitir que se recuperasse de algum passo em falso ocasional. Ainda assim, era perceptível que se sentia fraco. Mais de uma vez perguntou-se se não deveria apenas sentar e esperar o amanhecer, quando alguém o encontraria e o levaria de volta em segurança para sua caverna. Contudo Qantaqa continuava a trotar, cheia de determinação lupina. Sentindo que lhe devia certa lealdade, Simon fez o possível para acompanhá-la.
Logo notou, com não pouca apreensão, que pareciam estar subindo acima da trilha principal, seguindo em diagonal pela encosta de Mintahoq por um caminho mais íngreme e estreito. À medida que a loba o conduzia cada vez mais para o alto, e enquanto cruzavam vários caminhos horizontais, o ar começou a parecer mais rarefeito. Simon sabia que não havia subido tanto assim e que aquela sensação se devia, na verdade, ao seu próprio fôlego que começava a faltar. Apesar disso, sentia que estava deixando a zona de segurança e avançando para as alturas. As estrelas pareciam muito próximas.
Por um momento, perguntou-se se aquelas estrelas frias não seriam, de alguma forma, os picos sem ar de outras montanhas incrivelmente distantes... Massas imensas perdidas na escuridão, com seus cumes nevados brilhando sob o reflexo do luar. No entanto não, aquilo era tolice. Onde poderiam estar situadas para não serem visíveis à luz do dia, sob o sol radiante?
Na verdade, o ar talvez não estivesse mais rarefeito, entretanto o frio de fato aumentava... Uma presença inegável e invasiva, apesar de sua pesada capa. Tremendo, decidiu que deveria dar meia-volta e retornar à estrada principal, não importava qual fosse o passatempo noturno que tanto atraía Qantaqa. Um instante depois, surpreendeu-se ao sair da trilha e seguir a loba até uma estreita saliência na encosta da montanha.
A plataforma rochosa, salpicada de manchas de neve que brilhavam tenuemente, estendia-se diante de uma grande fenda escura. Qantaqa trotou até lá e parou, farejando. Virou-se para olhar Simon, com a cabeça peluda inclinada, soltou um latido indagador e desapareceu na escuridão. Simon concluiu que devia haver uma caverna escondida nas sombras. Perguntava-se se deveria segui-la... Deixar uma loba guiá-lo em uma caminhada insensata pela encosta era uma coisa, todavia permitir que o levasse para dentro de uma caverna sem luz no meio da noite era algo bem diferente... Quando de repente três vultos pequenos e escuros surgiram da escuridão da parede rochosa à sua frente, assustando-o tanto que quase recuou e caiu da plataforma de pedra.
“Escavadores!” pensou, em pânico, tateando o chão estéril em busca de alguma arma. Um dos vultos avançou, erguendo uma lança fina em sua direção, como um aviso. Era um gnomo, é claro, quando observados com calma, eram bem maiores que os bukken subterrâneos... Mas, ainda assim, Simon sentiu medo. Aqueles qanuc eram pequenos, porém estavam bem armados. Simon era um estranho vagando à noite, talvez em algum lugar sagrado.
O gnomo mais próximo empurrou para trás o capuz com borda de pele. Um luar pálido iluminava o rosto de uma jovem. Simon mal conseguia distinguir seus traços, exceto pelo branco dos olhos, contudo tinha certeza de que a expressão dela era feroz e perigosa. Seus dois companheiros aproximaram-se, posicionando-se ao seu lado e murmurando com o que pareciam ser vozes raivosas. Simon recuou um passo pela trilha, tateando com cuidado em busca de um apoio seguro para os pés.
— Sinto muito. Já estou indo. — falou, percebendo que eles não podiam entendê-lo. Simon se amaldiçoou por não ter pedido a Binabik ou Jiriki que lhe ensinassem algumas palavras da língua dos gnomos. Sempre lamentando, sempre tarde demais! Será que seria sempre um tolo ingênuo? Estava cansado desse papel. Que outra pessoa assumisse a tarefa.
— Já estou indo! — repetiu. — Estava seguindo a loba. Seguindo... A... Loba. — falou devagar, tentando fazer com que sua voz soasse amigável, apesar da garganta apertada. Um único mal-entendido e poderia acabar tendo de arrancar uma daquelas lanças de aparência ameaçadora de sua barriga.
A gnoma observava-o. Disse algumas palavras a um de seus companheiros. O gnomo a quem se dirigiu deu alguns passos em direção à entrada sombria da caverna. Qantaqa rosnou de forma ameaçadora de algum lugar nas profundezas ecoantes, e o gnomo rapidamente recuou, afastando-se.
Simon deu mais um passo para trás, descendo o caminho. Os gnomos o observavam em silêncio, suas formas pequenas e escuras, alertas e vigilantes, no entanto não fizeram nenhum movimento para impedi-lo. Ele lhes virou as costas aos poucos e desceu a trilha, escolhendo onde pisar entre as rochas prateadas. Pouco depois, os três gnomos, Qantaqa e a misteriosa caverna haviam desaparecido de sua vista.
Desceu a encosta sozinho, sob o luar onírico. Na metade do caminho de volta à trilha principal, teve de parar e sentar-se, apoiando os cotovelos nos joelhos trêmulos. Sabia que a exaustão e até mesmo o medo acabariam passando, entretanto não conseguia imaginar cura para tamanha solidão.
***
— Sinto muito mesmo, Seoman, todavia não há nada a fazer. Ontem à noite, Reniku... A estrela que chamamos de Lanterna de Verão... Surgiu acima do horizonte ao pôr do sol. Fiquei tempo demais. Não posso mais permanecer aqui.
Jiriki estava sentado de pernas cruzadas sobre uma rocha, na vasta entrada da caverna, contemplando o vale coberto por um tapete de névoa. Ao contrário de Simon e Haestan, não usava roupas pesadas. O vento agitava as mangas de sua túnica de tecido brilhante.
— Mas o que faremos em relação a Binabik e Sludig? — Simon arremessou uma pedra nas profundezas, esperando, no fundo, que esta ferisse algum gnomo oculto pela neblina lá embaixo. — Eles serão mortos se você não fizer nada!
— Não há nada que eu pudesse fazer, em qualquer circunstância. — disse Jiriki em um calmo tom. — Os qanuc têm direito à sua justiça. Não posso interferir honradamente.
— Honra? Que se dane a honra, Binabik nem sequer fala! Como pode se defender?
O sitha suspirou, porém seu rosto de traços agudos permaneceu impassível.
— Talvez não haja defesa a ser feita. Talvez Binabik saiba que prejudicou seu povo.
Haestan bufou, demonstrando desprezo.
— Nós nem sabemos qual foi o crime do homenzinho.
— Quebra de juramento, segundo me disseram. — disse Jiriki sem elevar a voz, e se virou para Simon. — Preciso ir, Seoman. A notícia de que o Caçador da Rainha das Nornas atacou os Zida‘ya deixou meu povo muito perturbado. Eles exigem o meu retorno. Há muito o que discutir. — Jiriki afastou uma mecha de cabelo dos olhos. — Além disso, quando meu parente An’nai morreu e foi sepultado em Urmsheim, uma responsabilidade recaiu sobre mim. Seu nome agora deve ser registrado com toda a cerimônia no Livro da Dança dos Anos. Eu, entre todo o meu povo, sou quem menos pode se esquivar dessa responsabilidade. Afinal, fui eu, Jiriki i-Sa‘onserei, e não outro, quem o levou ao local de sua morte... E foi em grande parte por minha causa e pela minha obstinação que ele foi. — a voz do sitha tornou-se mais dura enquanto fechava os dedos morenos em punho. — Você não entende? Não posso virar as costas para o sacrifício de An’nai.
Simon estava desesperado.
— Não sei nada sobre o seu Livro da Dança... Contudo lembro que me disse que teríamos permissão para falar em defesa de Binabik! Foi o que te disseram!
Jiriki inclinou a cabeça.
— Sim. O Pastor e a Caçadora concordaram com isso.
— Bem, como poderemos fazê-lo se você for embora? Nós não falamos a língua dos gnomos, e eles não entendem a nossa. — Simon achou ter visto um olhar de perplexidade cruzar por um breve momento o rosto imperturbável do sitha, no entanto a expressão passou tão rápido que não teve certeza. Os olhos de Jiriki, com seus reflexos dourados, capturaram e prenderam o olhar de Simon. Eles se encararam por longos instantes.
— Tem razão, Seoman! — disse Jiriki lentamente. — Honra e herança já me encurralaram antes, entretanto nunca de forma tão precisa. — ele baixou a cabeça e fitou as mãos, depois ergueu os olhos para o céu cinzento. — An’nai e minha família devem me perdoar. J’asu pra-peroihin! O Livro da Dança dos Anos terá de registrar minha desonra. — o sitha respirou fundo. — Ficarei enquanto Binabik de Yiqanuc tiver seu dia na corte.
Simon deveria ter se alegrado, todavia, em vez disso, sentiu apenas um vazio. Mesmo para um mortal, a infelicidade do Príncipe sitha era profundamente evidente... Jiriki estava fazendo um sacrifício terrível que Simon não conseguia compreender. Mas o que mais poderia ser feito? Estavam todos presos ali, naquela rocha elevada além do mundo conhecido, todos prisioneiros... Ao menos das circunstâncias. Eram heróis ignorantes, amigos de quebradores de juramentos...
Um arrepio percorreu a espinha de Simon.
— Jiriki! — exclamou, ofegante, agitando as mãos como se abrisse caminho para uma inspiração repentina.
“Será que funcionaria? E, mesmo que funcionasse, ajudaria em algo?”
— Jiriki. — tornou a chamar, desta vez em tom mais baixo. — Acho que pensei em algo que permitirá que você faça o que precisa e ajude Binabik e Sludig também.
Haestan, percebendo a tensão na voz de Simon, pousou o pedaço de madeira que estava entalhando e inclinou-se para a frente. Jiriki ergueu uma sobrancelha, expectante.
— Apenas precisará fazer uma coisa. — disse Simon. — Deve ir comigo ver o Rei e a Rainha... O Pastor e a Caçadora.
***
Depois de conversarem com Nunuuika e Uammannaq e obterem a aceitação relutante da dupla à sua proposta, Simon e Jiriki fizeram o caminho de volta da Casa do Ancestral sob o crepúsculo das montanhas. O sitha exibia um frágil sorriso.
— Você continua a me surpreender, jovem Seoman. É uma jogada ousada. Não faço ideia se ajudará seu amigo, contudo, ainda assim, é um começo.
— Eles jamais teriam concordado se você não tivesse pedido, Jiriki. Obrigado.
O sitha fez um gesto complexo com seus dedos longos.
— Ainda existe um respeito frágil entre os Zida’ya e alguns dos Filhos do Pôr do Sol... Em especial com os hernystiros e os qanuc. Cinco séculos de desolação não conseguem apagar tão fácil milênios de graça. Mesmo assim, as coisas mudaram. Vocês, mortais... Filhos de Lingit, como dizem os gnomos, estão em ascensão. O mundo não pertence mais ao meu povo. — sua mão foi estendida tocando de leve o braço de Simon enquanto caminhavam. — Há também um vínculo entre nós dois, Seoman. Não me esqueci disso.
Simon, caminhando com dificuldade ao lado de um ser imortal, não conseguia pensar em nenhuma resposta.
— Peço apenas que compreenda isto, meu povo e eu somos agora muito poucos. Devo-lhe a minha vida... Duas vezes, na verdade, para meu grande pesar... No entanto as obrigações para com o meu povo superam em muito até mesmo o valor da minha própria existência. Há coisas que não podem ser apenas ignoradas, jovem mortal. Torço pela sobrevivência de Binabik e Sludig, é claro... Entretanto sou um Zida’ya. Devo levar de volta a história do que aconteceu na montanha do dragão, a traição dos lacaios de Utuk’ku e a morte de An’nai.
Parando de repente, virou-se para encarar Simon. Nas sombras vespertinas tingidas de violeta, com os cabelos ao vento, parecia um espírito das montanhas selvagens. Por um momento, Simon percebeu a imensa idade de Jiriki em seus olhos e sentiu que quase conseguia compreender aquele grande mistério insondável... A vasta duração da raça do Príncipe, os anos de sua história como grãos de areia em uma praia.
— As coisas não terminaram tão facilmente, Seoman. — disse Jiriki devagar. — Nem com a minha partida. É uma sabedoria desprovida de magia que me diz que nos encontraremos de novo. As dívidas dos Zida’ya são profundas e sombrias. Elas carregam consigo a própria essência do mito. Tenho uma dívida dessas com você. — Jiriki moveu os dedos outra vez num gesto peculiar, depois meteu a mão na camisa fina e tirou um objeto plano e circular.
— Você já viu isto antes, Seoman... — continuou. — É o meu espelho. Uma escama do Grande Verme, segundo reza a lenda.
Simon o pegou da palma estendida do sitha, maravilhando-se com sua leveza surpreendente. A moldura entalhada estava fresca sob seus dedos. Certa vez, aquele espelho lhe mostrara uma imagem de Miriamele. Em outra ocasião, Jiriki fizera surgir de suas profundezas a cidade florestal de Enki-e-Shao’saye. Agora, apenas o próprio reflexo sombrio de Simon o encarava de volta, indistinto na penumbra.
— Eu o entrego a você. Tem sido um talismã da minha família desde que Jenjiyana dos Rouxinóis cultivava jardins perfumados à sombra de Sení Anzi’in. Longe de mim, não passará de um espelho comum. — Jiriki ergueu a mão. — Não, isso não é inteiramente verdade. Se precisar falar comigo, ou se tiver necessidade de mim, uma necessidade real, diga ao espelho. Eu ouvirei e saberei.
Jiriki apontou um dedo severo para Simon, que estava sem fala.
— Todavia não pense em me invocar numa nuvem de fumaça, como nas histórias de gênios do seu povo. Não possuo tais poderes mágicos. Nem sequer posso prometer que conseguirei vir. Mas, se souber da sua necessidade, farei o que estiver ao meu alcance para ajudar. Os Zida’ya não estão totalmente desprovidos de amigos, mesmo neste mundo jovem e ousado dos mortais.
Simon moveu os lábios por um momento.
— Obrigado. — disse, por fim. O pequeno vidro cinzento de repente pareceu algo muito, muito pesado. — Obrigado.
Jiriki sorriu, revelando uma fileira de dentes brancos. Mais uma vez, parecia o que era entre o seu próprio povo... Um jovem.
— E você também tem o seu anel. — ele apontou para a outra mão de Simon, para o fino aro de ouro com o emblema em forma de peixe. — Quem diria, histórias de duendes, Seoman! A Flecha Branca, a espada negra, um anel de ouro e um espelho de visão sitha... Você está tão carregado de despojos importantes que vai fazer barulho de metal ao caminhar! — o Príncipe riu, um som que lembrava uma melodia sibilante.
Simon fitou o anel, salvo dos destroços dos aposentos do doutor e enviado a Binabik como um dos últimos atos de Morgenes. Sujo pela gordura das luvas que Simon usara, o anel não parecia nada elegante naquele dedo encardido de terra.
— Ainda não sei o que a inscrição no interior significa. — disse o rapaz. Por impulso, tirou-o do dedo e entregou-o ao sitha. — Binabik também não conseguiu ler, exceto por algo sobre dragões e morte. — um pensamento lhe ocorreu de repente. — Será que ajuda quem o usa a matar dragões?
Era uma ideia estranhamente deprimente, ainda mais porque não acreditava que tivesse de fato conseguido matar o verme de gelo. Teria sido apenas um feitiço mágico, afinal? À medida que recuperava as forças, sentia-se cada vez mais orgulhoso de sua bravura diante do terrível Igjarjuk.
— O que quer que tenha acontecido em Urmsheim foi entre você e a cria do antigo Hidohebhi, Seoman. Não houve magia.
O sorriso de Jiriki desaparecera, balançando a cabeça solenemente, devolvendo o anel.
— No entanto não posso lhe dizer mais nada sobre o anel. Se o sábio Morgenes não providenciou para que você o compreendesse ao enviá-lo, então não me atreverei a dizê-lo. Talvez eu já o tenha sobrecarregado de maneira injusta durante nossa breve convivência. Até mesmo os mortais mais corajosos adoecem com o excesso de verdade.
— Você consegue ler o que está escrito?
— Sim. Está escrito em uma das línguas dos Zida’ya, embora de forma um tanto curiosa para uma bugiganga de mortal, ou seja uma das mais obscuras. Todavia, digo-lhe isto... Se compreendo o seu significado, ele não lhe diz respeito direto agora, e saber o que está escrito não o ajudaria de forma alguma.
— E é só isso que vai me contar?
— Por enquanto. Talvez, se nos encontrarmos de novo, eu compreenda melhor por que lhe foi entregue. — o rosto do sitha mostrava preocupação. — Boa sorte, Seoman. Você é um rapaz estranho... Mesmo para um mortal...
Naquele momento, ouviram o grito de Haestan e viram o erkyno subindo a trilha em direção a eles, agitando algo no ar. Havia capturado uma lebre-das-neves. A fogueira, anunciou regozijando alegria, estava pronta para o cozimento.
***
Ainda com o estômago confortavelmente cheio de carne assada e ervas, Simon demorou a pegar no sono naquela noite. Deitado em sua esteira, observando as sombras avermelhadas que tremeluziam no teto da caverna, sua mente fervilhava com tudo o que havia acontecido, com a história enlouquecedora na qual fora envolvido.
“Estou vivendo uma espécie de história, tal qual Jiriki disse. Uma história como as que Shem costumava contar... Ou será História, como o Doutor Morgenes me ensinava...? Mas ninguém jamais explicou como é terrível estar no meio de um conto e não saber o final...”
Por fim, acabou adormecendo, porém despertou sobressaltado algum tempo depois. Haestan, como sempre, resfolegava e suspirava em meio à barba, mergulhado em sono profundo. Não havia sinal de Jiriki. De alguma forma, o vazio peculiar da caverna dizia a Simon que o sitha havia realmente partido, descendo a montanha para retornar ao seu lar.
Acometido pela solidão, mesmo com o guarda resmungando em um torpor alcoólico ali perto, se viu chorando. Chorava em silêncio, envergonhado por aquela fraqueza, contudo não conseguia conter as lágrimas, assim como não conseguiria carregar o enorme Mintahoq nas costas.
***
Simon e Haestan chegaram a Chidsik ub Lingit no horário indicado por Jiriki, uma hora após o amanhecer. O frio havia piorado. As escadas e pontes de tiras de couro balançavam ao vento gelado, sem uso. As passagens de pedra de Mintahoq tornaram-se mais traiçoeiras que o habitual, cobertas em muitos pontos por uma fina camada de gelo.
Enquanto os dois estranhos abriam caminho por entre uma multidão de gnomos tagarelas, Simon apoiava-se pesadamente no cotovelo de Haestan, que vestia uma capa de pele. Não dormira bem depois da partida do sitha, seus sonhos foram invadidos por sombras de espadas e pela presença irresistível, embora inexplicável, da garotinha de olhos escuros.
Os gnomos ao redor estavam trajados como se para uma festa. Muitos usavam colares brilhantes de presas e ossos esculpidos, e as mulheres exibiam cabelos negros presos por pentes feitos de crânios de aves e peixes. Homens e mulheres passavam uns aos outros odres contendo uma bebida forte das terras altas, rindo e gesticulando enquanto bebiam. Haestan observava a cena com ar sombrio.
— Convenci um deles a me dar um gole daquilo... — disse o guarda. — Tinha gosto de mijo de cavalo. O que eu não daria por uma gota de vinho tinto de Perdruin...
No centro do recinto, logo após o fosso de óleo não aceso, Simon e Haestan encontraram quatro bancos de osso ricamente trabalhados, com assentos de couro esticado, voltados para o estrado vazio. Como a multidão de gnomos se acomodara por toda parte, no entanto deixara aqueles assentos livres, os intrusos deduziram que dois dos bancos eram para eles. Mal haviam se sentado, quando o povo Yiqanuc reunido ao redor deles se levantou. Um ruído estranho surgiu, ecoando pelas paredes da caverna, um canto ressonante e grave. Palavras ininteligíveis em qanuc, como destroços flutuando em um mar agitado, emergiam à superfície e logo mergulhavam de novo sob o lamento constante. Era um som estranho e perturbador.
Por um momento, Simon pensou que o cântico tivesse algo a ver com a sua entrada e a de Haestan, todavia os olhos escuros dos gnomos reunidos estavam fixos em uma porta na parede distante da caverna.
Por essa porta, finalmente, não surgiram os senhores de Yiqanuc, como Simon esperava, mas uma figura ainda mais exótica do que o povo que o cercava. O recém-chegado era um gnomo, ou pelo menos tinha o porte de um. Seu corpo pequeno e musculoso estava untado de óleo, brilhando à luz das lamparinas. Ele vestia uma saia de couro com franjas, e seu rosto estava oculto por uma máscara feita de um crânio de carneiro, esculpido e trabalhado de forma decorativa até que o osso não passasse de uma filigrana... Uma cesta branca em torno das cavidades oculares negras. Dois chifres enormes e curvos, escavados até quase a transparência, erguiam-se sobre seus ombros. Um manto de penas brancas e amarelas e um colar de garras negras curvas balançavam sob a máscara óssea.
Simon não conseguia distinguir se aquele homem era um sacerdote, um dançarino ou só um arauto do casal real. Quando batia com força o pé brilhante no chão, a multidão rugia de alegria. Quando tocava as pontas dos chifres e erguia as palmas das mãos para o alto, o povo gnomo soltava exclamações de assombro e retomava rapidamente o cântico. Por longos momentos, o homem saltitava pelo estrado elevado, tão concentrado em sua tarefa quanto qualquer artesão solene. Por fim, parou, como se estivesse escutando algo. O murmúrio da multidão cessou. Mais quatro figuras surgiram na entrada, três com o porte de gnomo e uma que se erguia muito acima das outras.
Binabik e Sludig foram trazidos à frente. Um guarda posicionava-se de cada lado, mantendo as pontas de suas lanças afiadas sempre próximas às costas dos prisioneiros. Simon quis levantar-se e gritar, porém a mão larga de Haestan pousou em seu braço, mantendo-o sentado no banco.
— Calma, rapaz. Estão vindo para cá. Espere que cheguem. Não vamos dar espetáculo para essa gentalha.
Tanto o gnomo quanto o rimmerio de cabelos claros estavam muito mais magros do que quando Simon os vira pela última vez. O rosto de Sludig, com sua barba espessa, estava rosado e descamando, como se tivesse ficado exposto demais ao sol. Binabik estava mais pálido do que antes, sua pele, outrora morena, agora tinha a cor de mingau, e seus olhos pareciam encovados, cercados por sombras.
A dupla caminhava devagar. O gnomo de cabeça baixa, Sludig olhando ao redor do recinto com ar desafiador até avistar Simon e Haestan, para quem dirigiu um sorriso sombrio. Ao cruzarem o fosso em direção ao círculo interno, o rimmerio estendeu a mão e deu um tapinha no ombro de Simon, contudo logo gemeu de dor quando um dos guardas que vinham logo atrás espetou seu braço com a ponta de uma lança.
— Se ao menos eu tivesse uma espada. — murmurou Sludig, dando um passo à frente e sentando-se com cautela em um dos bancos. Binabik ocupou o assento na outra extremidade. Ele ainda não havia erguido os olhos para encontrar os de seus companheiros.
— Seria preciso mais do que espadas, amigo. — sussurrou Haestan. — Eles são pequenos, contudo duros na queda, e olhe só para a quantidade em volta, malditos sejam por Jesuris!
— Binabik! — disse Simon com urgência, inclinando-se por cima de Sludig. — Binabik! Viemos falar por você!
O gnomo ergueu o olhar. Por um momento, pareceu que diria alguma coisa, no entanto seus olhos escuros estavam distantes. Ele fez um movimento quase imperceptível e suave com a cabeça, depois voltou o olhar para o chão da caverna. Simon sentiu a raiva queimar em seu interior. Binabik precisava lutar por sua vida! Estava sentado como o velho Rim, o cavalo de arado, esperando o golpe fatal.
O burburinho crescente de vozes agitadas cessou abruptamente. Outro trio de figuras surgiu na entrada, avançando a lentos passos. Nunuuika, a Caçadora, e Uammannaq, o Pastor, em trajes cerimoniais completos de peles, marfim e pedras polidas. Outro gnomo os seguia com passos silenciosos, calçando botas macias... Uma jovem de olhos grandes e inexpressivos, a boca cerrada em uma linha firme. Seu olhar fechado percorreu por um rápido momento a fileira de bancos e depois se desviou. O homem com chifres de carneiro dançou diante do trio até que chegassem ao estrado e subissem ao divã de couros e mantas de pele. A gnoma desconhecida sentou-se logo à frente do casal real, um degrau abaixo do topo.
O arauto saltitante... Ou o que quer que fosse, Simon ainda não conseguia decidir... Enfiou uma tocha em uma das luminárias da parede e depois a encostou no anel de óleo, que se incendiou com um estalo e uma labareda súbita. As chamas correram pelo círculo, deixando um rastro de fumaça negra. Um momento depois, a fumaça se dissipou para cima, em direção às partes sombrias do teto da caverna. Simon e os outros estavam cercados por um anel de fogo.
O Pastor inclinou-se para a frente, erguendo sua lança torta, e apontou-a para Binabik e Sludig. Enquanto falava, a multidão entoava cânticos outra vez, apenas algumas palavras antes de silenciar, todavia Uammannaq continuou falando. Sua esposa e a jovem observavam. Para Simon, os olhos da Caçadora pareciam transparecer uma falta de compaixão cortante. A atitude da outra era mais difícil de decifrar.
O discurso prolongou-se por algum tempo. Simon começava a se perguntar se os senhores de Yiqanuc haviam quebrado a promessa feita a Jiriki quando o Pastor interrompeu a fala, agitando a lança na direção de Binabik e, em seguida, fazendo gestos raivosos para os companheiros dele. Simon olhou para Haestan, que ergueu a sobrancelha como quem diz ‘espere para ver’.
— É uma situação estranha, Simon.
Foi Binabik quem falou, com os olhos ainda fixos no chão à sua frente. Para Simon, ouvir sua voz era algo tão agradável quanto o canto dos pássaros ou o som da chuva no telhado. Simon sabia que estava sorrindo feito um bobo, entretanto, naquele momento, não se importava.
— Parece... — continuou Binabik, com a voz áspera pelo desuso. — Que você e Haestan são convidados dos meus senhores, e que devo traduzir o que está sendo dito para um discurso que vocês possam entender, já que ninguém mais aqui fala as duas línguas.
— Não podemos falar por você se não formos compreendidos. — disse Haestan em voz baixa.
— Nós vamos ajudá-lo, Binabik. — disse Simon com ênfase. — Mas seu silêncio não ajudará ninguém.
— Isso, como eu disse, é algo estranho. — disse Binabik com a voz rouca. — Fui condenado por desonra, embora, em nome da honra, devo traduzir minhas faltas para estranhos, visto que são convidados de honra. — um esboço de sorriso sombrio surgiu nos cantos de sua boca. — Ilustre convidado, matador de dragões, intrometido nos assuntos alheios... De alguma forma, sinto a sua mão nisso, Simon. — seus olhos se estreitaram por um momento e estendeu um dedo curto e grosso, como se fosse tocar o rosto de Simon. — Ostenta uma cicatriz corajosa, amigo.
— O que você fez, Binabik? Ou o que eles acham que você fez?
O sorriso do homenzinho desapareceu.
— Quebrei meu juramento.
Nunuuika disse algo em tom áspero. Binabik ergueu o olhar e assentiu.
— A Caçadora diz que tive tempo suficiente para me explicar. Agora, meus crimes devem ser trazidos à luz para serem examinados.
***
Com Binabik traduzindo os procedimentos para a língua ocidental, tudo parecia acontecer muito mais depressa. Às vezes, parecia que repetia o que fora dito palavra por palavra, outras vezes, longos discursos eram resumidos de forma breve. Embora Binabik parecesse recuperar um pouco de sua energia habitual ao realizar a tarefa de traduzir, não havia como ignorar o perigo de sua situação.
— Binabik, aprendiz do Homem Cantor, o grande Ookequk, você é acusado de quebrar um juramento. — Uammannaq, o Pastor, inclinou-se para a frente, torcendo a barba rala com inquietação, como se achasse o procedimento perturbador. — Nega essa ação?
Houve um longo silêncio depois que Binabik terminou de traduzir a pergunta do Pastor. Após um momento, se afastou dos amigos para encarar os senhores de Yiqanuc.
— Não tenho como negar! — disse por fim. — Contudo oferecerei a verdade completa, se estiverem dispostos a ouvi-la, Ó Mais Aguçado dos Olhares e Mais Firme das Rédeas.
Nunuuika recostou-se em suas almofadas.
— Haverá tempo para isto. — ela se voltou para o marido. — Ele não nega.
— Então... — respondeu Uammannaq com pesar. — Binabik está acusado. Você, Croohok... — ele girou a cabeça redonda na direção de Sludig. — É acusado de pertencer a uma raça de bandidos que ataca e fere o nosso povo desde tempos imemoriais. Ninguém pode negar que seja um rimmerio, portanto a acusação contra você permanece como foi proferida.
Enquanto as palavras do Pastor eram traduzidas, Sludig começou uma réplica colérica, contudo Binabik ergueu a mão para silenciá-lo. Surpreendentemente, Sludig obedeceu.
— Parece que não pode haver justiça verdadeira entre velhos inimigos. — murmurou o nortista para Simon. Seu olhar feroz transformou-se em uma expressão de descontentamento. — Ainda assim, há membros do povo gnomo que tiveram menos chances nas mãos do meu povo do que eu tive aqui.
— Que aqueles que têm motivos para acusar falem agora! — disse Uammannaq.
Um certo silêncio expectante preencheu a caverna. O arauto deu um passo à frente, com seus colares tilintando e tremeluzindo. Das órbitas de seu crânio de carneiro, encarou Binabik com desprezo mal disfarçado. Logo depois, ergueu a mão e falou com uma voz grossa e áspera.
— Qangolik, o Invocador de Espíritos, diz que o Homem Cantor, Ookequk, não compareceu à Casa de Gelo no Último Dia do Inverno, conforme dita a lei do nosso povo desde que Sedda nos deu estas montanhas. — traduziu Binabik. Sua própria voz havia assumido parte do tom desagradável de seu acusador. — Qangolik diz que Binabik, o aprendiz do Homem Cantor, também não veio à Casa de Gelo.
Simon quase conseguia sentir o ódio fluindo entre seu amigo e o gnomo mascarado. Parecia haver pouca dúvida de que existia alguma rivalidade ou disputa de longa data entre os dois.
O Invocador de Espíritos continuou.
— Como o aprendiz de Ookequk não cumpriu seu dever, cantar o Rito do Despertar, a Casa de Gelo ainda não derreteu. E, como a Casa de Gelo não derreteu, o Inverno não deixará Yiqanuc. Por meio de sua traição, Binabik condenou seu povo a uma estação amarga. O verão não chegará e muitos morrerão.
— Qangolik o chama de quebrador de juramentos.
Houve uma onda de murmúrios raivosos pela caverna. O Invocador de Espíritos já havia se agachado de novo antes mesmo de Binabik terminar de traduzir suas palavras para a Língua Comum.
Nunuuika olhou ao redor com uma calma ritualística.
— Mais alguém aqui acusa Binbinaqegabenik?
A jovem desconhecida, de quem Simon quase se esquecera no furor das palavras de Qangolik, levantou-se lentamente de seu assento no degrau mais alto. Seus olhos estavam baixos, com modéstia, e sua voz era suave. Ela falou por apenas alguns breves momentos.
Binabik não explicou imediatamente as palavras dela, embora elas tenham provocado um grande burburinho entre os gnomos reunidos. Ele exibia uma expressão que Simon jamais vira no rosto do amigo, uma infelicidade absoluta e total. Binabik encarava a jovem com uma fixidez sombria, como se observasse algum evento terrível que, no entanto, fosse seu dever recordar e relatar mais tarde em detalhes.
Justo quando Simon pensou que Binabik havia sido silenciado novamente... Desta vez, talvez para sempre, o gnomo falou com voz monótona, relatando o recebimento de um ferimento antigo e agora insignificante.
— Sisqinanamook, a filha mais nova de Nunuuika, a Caçadora, e Uammannaq, o Pastor, também acusa Binabik de Mintahoq. — anunciou. — Embora tivesse deixado sua lança diante da porta dela, quando se passaram nove vezes nove dias e chegou o dia marcado para o casamento, ele havia partido. Não enviou qualquer mensagem ou explicação. Ao retornar às nossas montanhas, não se dirigiu à casa de seu povo, mas viajou com Croohok e Utku até o pico evitado de Yijarjuk. Trouxe desonra para a Casa do Ancestral e para aquela que fora sua noiva. Sisqinanamook o chama de quebrador de juramentos.
Atônito, Simon fitava o rosto abatido de Binabik enquanto o amigo recitava sua tradução em tom monótono. Casamento! Durante todo o tempo em que Simon e o homenzinho lutavam para chegar a Naglimund e atravessavam o Deserto Branco, o povo de Binabik esperava que este cumprisse seu juramento de casamento. E ele estava prometido a filha do Pastor e da Caçadora! Jamais dera a menor pista disso!
Simon observou com mais atenção a acusadora de Binabik. Sisqinanamook, embora parecesse tão pequena aos seus olhos quanto todos do seu povo, na verdade parecia um pouco mais alta que Binabik. Seus cabelos negros e brilhantes estavam trançados em ambos os lados do rosto, as duas tranças se uniam sob o queixo em uma trança larga, entrelaçada com uma fita azul-celeste. Usava poucas joias, especialmente se comparada à sua formidável mãe, a Caçadora. Uma única gema azul-profundo brilhava em sua testa, presa por uma fina tira de couro preto.
Havia um rubor em suas bochechas morenas. Embora seu olhar estivesse nublado, como se pela raiva ou pelo medo. Simon achou perceber uma inclinação de queixo que denotava determinação e desafio, além de uma vivacidade no olhar... Não o olhar cortante como uma lâmina de sua mãe, Nunuuika, e sim o olhar de alguém que tomava as próprias decisões. Por um momento, sentiu que podia vê-la como alguém do povo dela a veria, não uma beleza gentil e dócil, mas uma jovem atraente e inteligente, cuja admiração não seria fácil de conquistar.
De repente, percebeu que aquela era a mesma que estivera diante da caverna de Qantaqa na noite anterior, a que o ameaçara com sua lança! Algo indefinível no ângulo de seu rosto lhe dizia isso. Ao recordar-se, soube que ela era, afinal, uma caçadora, assim como a mãe.
“Pobre Binabik!”
A admiração dela talvez não fosse fácil de conquistar, porém o amigo de Simon a havia conquistado, ou é o que parecia. Contudo, a inteligência e a determinação que Binabik sem dúvida tanto admirava estavam agora voltadas contra ele.
— Não tenho nenhuma discordância com Sisqinanamook, filha da Linhagem da Lua. — respondeu Binabik, por fim. — Que ela tenha aceitado a lança de alguém tão indigno quanto o aprendiz do Homem Cantor foi algo que me espantou.
Sisqinanamook torceu os lábios ao ouvir aquilo, como se sentisse desprezo, no entanto Simon não achou que o desprezo parecesse totalmente convincente.
— Grande é a minha vergonha! — continuou Binabik. — Por nove vezes nove noites, na verdade, minha lança permaneceu diante de sua porta. Não voltei para me casar quando essas noites chegaram ao fim. Não há palavras que eu possa dizer para reparar a mágoa ou diminuir a minha culpa. Havia uma escolha a ser feita, como é da natureza das coisas depois que se percorre a Jornada da Maturidade. Estive em uma terra estranha e meu mestre estava morto. Fiz a minha escolha, se tivesse de decidir outra vez, digo com pesar que faria a mesma escolha outra vez.
A multidão ainda fervilhava de choque e perturbação quando Binabik terminou de traduzir para seus companheiros o que havia dito. Ao terminar, voltou-se para a jovem à sua frente e disse-lhe algo, em voz baixa e rápida, chamando-a de ‘Sisqi’ em vez de usar seu nome completo. A gnoma desviou o rosto rapidamente, como se não suportasse olhar para ele. Binabik não traduziu suas últimas palavras, entretanto voltou-se tristemente para a mãe e o pai dela.
— E sobre o que... — perguntou Nunuuika com desprezo. — Você tinha de decidir? Que escolha poderia tê-lo transformado em um violador de juramentos... Você, que já havia subido muito além das neves a que estava acostumado, cuja lança de noivado fora escolhida por alguém muito acima de ti?
— Meu mestre Ookequk fez uma promessa ao Doutor Morgenes de Hayholt, um homem muito sábio de Erkynlandia. Com a morte de meu mestre, senti que era meu dever cumprir a sua promessa.
Uammannaq inclinou-se para a frente, a barba balançando com surpresa e raiva.
— Julgou que uma promessa feita a um habitante das terras baixas fosse mais importante do que se unir a uma filha da Casa do Ancestral... Ou do que trazer o verão? Na verdade, Binabik, aqueles que acusaram de aprender a loucura aos pés do gordo Ookequk tinham razão! Você virou as costas para o seu povo por... Um Utku?
Binabik balançou a cabeça, impotente.
— Era mais do que isso, Uammannaq, Pastor dos qanuc. Meu mestre temia um perigo grave, não apenas para Yiqanuc, mas para todo o mundo abaixo das montanhas. Ookequk temia a chegada de um inverno muito pior do que qualquer outro que já tivéssemos vivido, um inverno que deixaria a Casa de Gelo congelada por mil anos de escuridão. E Ookequk previu muito mais do que apenas um clima maligno. Morgenes, o ancião de Erkynlandia, compartilhava de seus receios. Foi por causa desses perigos que a promessa pareceu importante. Por essa razão também, porque acredito que as preocupações do meu mestre são justificadas, eu quebraria meu juramento uma vez mais se não tivesse outra escolha.
Sisqinanamook voltara a olhar para Binabik mais uma vez. Simon esperava ver sua expressão suavizar-se, porém sua boca continuava cerrada numa linha firme e amarga. Sua mãe, Nunuuika, bateu com a palma da mão na base da lança.
— Isto não é argumento algum! — exclamou a Caçadora. — De forma alguma. Se eu temesse a neve fofa nas passagens mais altas, deveria então nunca sair da minha caverna, deixando meus filhos morrerem de fome? Isso equivale a dizer que o seu povo e o lar nas montanhas que o criou não significam nada para você. Você é pior do que um bêbado, que pelo menos diz ‘não devia beber’, mas cai outra vez no vício por fraqueza. Você está diante de nós, audacioso como um ladrão de alforjes alheios, e diz: ‘Farei outra vez. Meu juramento nada significa nada.’
Ela agitou a lança, furiosa. A multidão reunida sibilou em concordância.
— Deveria condená-lo à morte imediata. Se a sua loucura contagiar os outros, o vento uivará em nossas cavernas vazias antes que uma geração se passe.
Enquanto Binabik terminava seu relato monótono dessa última parte, Simon levantou-se, tremendo de raiva. Seu rosto doía onde a cicatriz fora marcada em sua bochecha, e cada latejo trazia de volta a lembrança de Binabik agarrado às costas do verme de gelo, gritando para que fugisse, para salvar-se enquanto o gnomo lutava sozinho.
— Não! — Simon gritou furiosamente, surpreendendo até mesmo Haestan e Sludig, que ouviam, atônitos, cada detalhe estranho daquela conversa. — Não! — Simon apoiou-se no banco para se firmar. Sua cabeça girava. Binabik, cumprindo seu dever, voltou-se para seus mestres e sua noiva e começou a explicar as palavras do habitante das terras baixas de cabelos ruivos.
— Vocês não entendem o que está acontecendo. — começou Simon. — Ou o que Binabik fez. Aqui, nestas montanhas, o mundo parece distante, mas existe um perigo capaz de alcançá-los. No castelo onde vivi um dia, parecia-me que o mal era apenas algo de que os sacerdotes falavam, e que nem mesmo eles acreditavam verdadeiramente neste. Agora sei a verdade. Há perigos ao nosso redor, e eles se fortalecem a cada dia! Será que não percebem? Binabik e eu fomos perseguidos... Perseguidos por esse mal por toda a grande floresta e através das neves abaixo destas montanhas. Fomos seguidos até a montanha do dragão!
Simon parou por um momento, sentindo-se tonto e respirando com dificuldade. Sentia como se segurasse algo que se contorcia e tentava escapar de suas mãos.
“O que posso dizer? Devo parecer um louco. Binabik lhes conta o que eu disse e agora me encaram como se estivesse latindo como um cachorro! Vou acabar levando Binabik à morte!”
Simon gemeu baixinho e recomeçou, tentando organizar seus pensamentos, que pareciam impossíveis de controlar.
— Estamos todos em perigo. Um poder terrível está no norte... Quer dizer, não, já estamos no norte... — ele baixou a cabeça e tentou pensar por um instante. — Ao norte, porém também a oeste daqui. Há uma enorme montanha de gelo. O Rei da Tormenta vive lá... Contudo não está vivo. Ineluki é o seu nome. Já ouviram a seu respeito? Ineluki? Ele é terrível!
Inclinando-se para a frente, de repente perdeu o equilíbrio, e arregalou os olhos diante das faces alarmadas do Pastor, da Caçadora e da filha deles, Sisqinanamook.
— Ele é terrível... — repetiu, encarando os olhos escuros da jovem gnoma. “Binabik a chamava de Sisqi...” o pensamento lhe veio de forma desconexa. “Devia amá-la...”
Algo pareceu agarrar sua mente e sacudi-la, como um cão de caça sacode um rato. De repente, despencava para a frente, descendo por um poço longo e vertiginoso. Os olhos escuros de Sisqinanamook tornaram-se mais profundos e grandes, depois se transformaram. Um instante depois, a gnoma havia desaparecido, seus pais, os amigos de Simon e todo o povo de Chidsik ub Lingit sumiram junto. No entanto os olhos permaneceram, transmutados agora em outro olhar grave que, pouco a pouco, preencheu seu campo de visão. Aqueles olhos castanhos pertenciam a alguém de sua própria espécie... A criança que povoava seus sonhos... Uma criança que enfim reconheceu.
“Leleth!” pensou. “A garotinha que deixamos na casa na floresta, porque seus ferimentos eram terríveis. A garota que deixamos com...”
“Simon...” disse a menina, sua voz reverberando estranhamente em sua cabeça. “Esta é minha última oportunidade. Minha casa logo cairá e fugirei para a floresta, entretanto primeiro há algo que preciso lhe dizer.”
Simon nunca tinha ouvido a menina Leleth falar. O tom agudo parecia apropriado para uma criança da sua idade... Todavia algo na voz estava errado, era solene demais, articulada demais e carregada de autoconhecimento. O ritmo e a fraseologia soavam como os de uma mulher adulta, como...
“Geloë?” disse. Embora não achasse que de fato tivesse falado, ouviu sua voz ecoar por algum lugar vazio.
“Sim. Não me resta tempo. Eu não conseguiria chegar até você, mas a criança Leleth tem habilidades... É como uma lente de aumento através da qual posso concentrar minha vontade. É uma criança estranha, Simon.”
De fato, o rosto quase inexpressivo da criança que proferia as palavras parecia de alguma forma diferente do de qualquer outra criança mortal. Havia algo em seus olhos que o atravessava, que o perscrutava, como se ele próprio fosse insubstancial como névoa.
“Onde você está?”
“Em minha casa, porém não por muito tempo. Minhas cercas foram derrubadas e meu lago está cheio de coisas sombrias. Os poderes à minha porta são fortes demais. Em vez de resistir a tais ventos tempestuosos, fugirei para lutar outro dia.”
“O que tenho a lhe dizer é o seguinte... Naglimund caiu. Elias venceu a batalha, no entanto o verdadeiro vencedor é Aquele de quem ambos sabemos, o ser sombrio do norte. Entretanto Josua segue com vida.”
Simon sentiu um frio na espinha.
“E Miriamele?”
“Aquela que era Marya, e também Malaquias? Sei apenas que ela se foi de Naglimund. Mais do que isso, olhos e ouvidos amigos não podem me dizer. Agora preciso dizer mais uma coisa, você deve se lembrar e pensar nisso, já que Binabik de Yiqanuc se fechou para mim. Devem ir até a Rocha da Despedida. Esse é o único lugar seguro contra a tempestade crescente e seguro, pelo menos por um tempo. Vá até a Rocha da Despedida.”
“O quê? Onde fica essa rocha? Naglimund caiu?” Simon sentiu o desespero se instalar em seu coração. Então tudo estava realmente perdido. “Onde fica a rocha, Geloë?”
Sem aviso, uma onda negra o atingiu em cheio, repentina como um golpe de uma mão gigante. O rosto da menina desapareceu, deixando apenas um vazio cinza. As últimas palavras de Geloë ecoaram em sua mente.
“É o único lugar seguro... Fuja! A tempestade está chegando...”
O cinza deslizou para longe, como ondas recuando na praia.
Ele se viu encarando a luz amarela brilhante e transparente de uma poça de óleo em chamas. Estava de joelhos na caverna de Chidsik ub Lingit. O rosto assustado de Haestan estava curvado perto do seu.
— Que demônios aconteceu, rapaz? — perguntou o guarda, apoiando a cabeça pesada de Simon com o ombro enquanto o ajudava a subir em um banquinho. Simon sentia como se seu corpo fosse feito de trapos e galhos verdes.
— Geloë disse... Ela disse que... Uma tempestade... E a Rocha da Despedida. Devemos ir até a Rocha da Despedida... — Simon parou de falar, olhando para cima e vendo Binabik ajoelhado diante do estrado. — O que Binabik está fazendo? — perguntou.
— Esperando a ordem! — disse Haestan bruscamente. — Quando você desmaiou, ele disse que não lutaria mais. O Rei e a Rainha deliberaram, e agora está esperando sua decisão.
— Isto não está certo! — Simon tentou se levantar, mas suas pernas cederam. Sua cabeça zumbia como uma panela de ferro atingida por um martelo. — Não... Está certo.
— É a vontade de Deus. — murmurou Haestan, infeliz.
Uammannaq interrompeu sua conversa sussurrada com a esposa para encarar Binabik, que estava ajoelhado. Ele disse algo na língua gutural qanuc que provocou um gemido abafado entre os espectadores. O Pastor levou as mãos ao rosto, cobrindo lentamente os olhos em um gesto estilizado. A Caçadora repetiu o gesto solenemente. Simon sentiu um arrepio descer, mais pesado e sombrio até do que o frio do inverno. Sabia, sem sombra de dúvida, que seu amigo havia recebido uma sentença de morte.
***
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