Capítulo 56: Ao retornar à cidade, um vislumbre de demônios
“Então... O que está acontecendo aqui?” perguntei assim que chegamos a uma parte mais tranquila da cidade. Teria preferido ter toda aquela longa conversa durante uma boa refeição, mas a cidade ainda estava se recuperando do ataque e os cidadãos já estavam assustados o suficiente sem que ficássemos revelando planos demoníacos ao alcance de seus ouvidos.
“Hahh... Bem, a verdade é...” o Guardião Núme... Er, quero dizer, Maias... Começou hesitante, lançando um olhar para Milgazia e Memphys.
Obviamente tínhamos jogado o jogo de nos conhecermos melhor durante a viagem. Para evitar complicações, apenas apresentei Milgazia e Memphys como ‘companheiros confiáveis’ e Maias como ‘apenas um guardião’. Quando ele inevitavelmente objetou a sua descrição, acrescentei que o havíamos conhecido em Gyria. Ainda assim, a relutância de Maias em revelar tudo era compreensível. Mal conhecia nós quatro, quem dirá Milgazia e Memphys, que eram completos estranhos.
“Não sei bem por onde começar...” disse por fim. “Parece que as coisas podem não ter acabado como pensávamos.”
“Hã?”
“Depois que vocês foram embora, demônios selvagens começaram a aparecer na cidade...”
Demônios? Na cidade? Nós seis trocamos um olhar.
“Então... Vim atrás de vocês na esperança de que pudessem nos ajudar de novo!” continuou Maias.
“Sério, por que não resolvem por conta própria pra vari... Argh!”
“Poderia nos contar mais?” perguntou Mileena, tapando a boca de Luke com a mão enquanto este reclamava.
“Na noite em que vocês foram embora, aqueles... Acho que vocês os chamavam de demônios inferiores. De repente, começaram a aparecer aqui e ali...”
“‘Aqui e ali’? Então estamos falando de vários demônios?” perguntei.
O rapaz assentiu.
“Só um de cada vez, porém logo apareciam em vários lugares simultaneamente. Nunca tinha visto um antes...”
O rosto de Maias empalideceu enquanto parecia reviver o encontro em sua mente.
Eu não podia culpá-lo. Demônios inferiores e de bronze eram pouco mais que bucha de canhão para nós, mas representavam uma ameaça séria para um espadachim ou feiticeiro comum. Suas peles resistentes e resistência mágica permitiam que ignorassem a maioria das armas e feitiços de ataque padrão. Enfrentar um seria como um pesadelo para Maias, que não tinha muita experiência em combate real.
“Conseguimos derrotá-los graças aos esforços combinados dos guardas e dos mercenários, porém no dia seguinte, Sir Jade veio nos visitar...”
“Jade?” perguntou Milgazia.
“Um cavaleiro que conhecemos durante a confusão em Gyria.” esclareci, tentando simplificar.
“Sir Jade nos disse... Que o castelo foi fechado.”
“Hã?” por um segundo, apenas franzi a testa, tentando entender o que tinha ouvido. “Quer dizer... Que não o deixaram entrar?”
“Não exatamente. Não é só o Sir Jade... O castelo foi isolado de todos. Eu mesmo não vi, contudo me foi dito que o portão ficou fechado desde a noite anterior e não havia como descobrir o que ocorria lá dentro.”
“Como assim? Quer dizer que havia demônios na cidade e o castelo não enviou ninguém?”
“Sim... Ao que parece.” respondeu ele, com a voz embargada.
Fiquei sem palavras, o que é compreensível, se posso dizer. O normal seria enviar soldados reais como a primeira resposta a um ataque demoníaco à cidade. No entanto, se o castelo não enviou reforços e o portão permaneceu fechado no dia seguinte... Havia duas possibilidades que consegui imaginar. Ou o rei era um pouco... Bem, um completo covarde, ou algo muito pior estava acontecendo dentro dos muros do castelo.
“Sir Jade disse que suspeitava de atividades ilícitas no castelo. Ele queria investigar por si mesmo, entretanto, dadas as circunstâncias extraordinárias envolvidas, pediu-me que os chamasse de volta. Claro, também disse que os recompensaria de bom grado por sua ajuda...”
Sem dizer uma palavra, lancei um olhar para Milgazia e Memphys. O aparecimento de demônios em Gyria tão pouco tempo depois da derrota da General de Dinastia, o castelo trancado... Tenho certeza de que tudo estava de alguma forma ligado ao plano dos mazokus, e meus companheiros dragão e elfa sinalizaram sua concordância.
“Certo!” respondi. “Vamos para a Cidade de Gyria.”
———
E assim, retornamos à capital do Reino de Dils. A cidade estava silenciosa, todavia não um silêncio tranquilo. Era o silêncio de um temor persistente.
Não tínhamos ficado fora nem dez dias, e quando partimos, a cidade estava cheia de mercadores e crianças brincando, indicando que a vida do cidadão comum não havia sido afetada pelo drama no castelo. Mas agora... As ruas estavam quase desertas. Qualquer pessoa que estivesse na rua se movia em um ritmo acelerado e temeroso. Era como uma cidade totalmente diferente.
Já fazia alguns dias desde que Maias viera nos procurar, e não tínhamos encontrado nenhum problema no caminho para a cidade. Normalmente, haveria uma inspeção para qualquer pessoa que entrasse e saísse da capital, porém não havia um único soldado à vista no portão quando chegamos.
Droga. A cadeia de comando está tão comprometida assim, hein?
“Bom, devemos ir ver Sir Jade primeiro?” sugeriu Maias. E, claro, não houve objeções. Não havia muito mais que pudéssemos fazer até descobrirmos o que estava acontecendo.
A casa da família de Jade havia sido destruída durante a última crise. Depois que tudo se acalmou e ele foi reintegrado, o reino lhe ofereceu uma propriedade vaga. Afinal, não era uma boa imagem ter um cavaleiro vagabundo. Contudo...
“Acho que não está aqui.” disse Mileena antes mesmo de tocarmos na porta da frente.
“Hã? Como assim?” perguntou Maias, sem entender.
“As teias de aranha!” respondeu ela.
Oh, é verdade... Havia mesmo uma pequena teia de aranha entre a aldrava e a porta. Aliás, havia várias delas espalhadas aqui e ali entre os entalhes intrincados.
Uma aranha poderia tecer uma teia durante a noite, mas tantas aranhas com tantas teias? Improvável. A presença delas sugeria que Jade não aparecia há vários dias.
“É, ele não volta já faz um tempo!” concordou Luke.
“Verdade. E não há sinal de ninguém lá dentro.” acrescentou Gourry.
“Então está em algum lugar na cidade... Ou no castelo.” sugeriu Maias.
“Talvez.” eu disse.
A última informação conhecida de Jade foi que estaria voltando ao castelo para investigar. A conclusão lógica, nesse caso, era que havia se metido em problemas lá. Infelizmente, quando você combinava ‘algo suspeito acontecendo dentro do castelo’ com ‘Jade não voltou’, bem... Isso levava a algumas especulações bem desagradáveis.
“Enfim, primeiro as coisas mais importantes.” continuei. “Precisamos de informações. Tipo, o que está acontecendo por aqui desde que saímos. Algum lugar onde possamos descobrir, Maias?”
“Hmm, tem um lugar que nós, guardas, frequentamos...” ele respondeu distraidamente. Então, sussurrou para ninguém em particular. “Vocês acham que o Senhor Jade está bem?”
Nenhum de nós respondeu.
———
“Não faço a mínima ideia do que está acontecendo.” o homem cuspiu as palavras depois de virar sua vodca.
Estávamos em um bar/restaurante em um canto da cidade. Parecia respeitável o suficiente, dada a decoração, o tipo de lugar que poderia chamar de ‘acolhedor e aconchegante’, embora estivesse recebendo uma clientela bastante suspeita em um horário relativamente cedo. Maias abordou um desses clientes suspeitos, que, como se vestia como um soldado, imaginei que fosse um camarada seu. Por outro lado, baseado nos olhos vidrados de bêbado e na barba desgrenhada do cara, vamos chamá-lo de Cliente Suspeito nº 1.
“Se eu soubesse de alguma coisa, não estaria aqui bebendo logo cedo, estaria? Não consegue entender isso, Mestre Maias?” ele continuou.
“Eu... Entendo, porém... Tive compromissos fora da cidade no dia seguinte ao primeiro ataque, então não sei o que aconteceu aqui na minha ausência.” disse Maias, enchendo de novo seu copo.
O homem lançou lhe um olhar fulminante.
“Ohhh? Você estava fora da cidade, é? Que sortudo, hein. Escapou de toda a merda que tivemos que passar... Sabe o que tivemos que passar? Sabe?” o homem se inclinou para frente, encarando-o.
Maias recuou. E então... Wham!
“Como diabos saberíamos?” gritei enquanto batia com uma caneca de madeira vazia na cabeça do homem. O estalo audível que produziu silenciou o restaurante.
“Ei!”
“Escuta aqui! Reclamando, reclamando, reclamando! Todo mundo com pena do covarde que se afoga na bebida, buááá! Como podemos saber o que passou se você não nos conta? Se quer que a gente saiba, então comece a falar!”
“Quem diabos é você?” ele exigiu saber.
“Deixa pra lá! Fala logo!”
“Nem pensar! Primeiro me dão uma pancada na cabeça e agora tenho que me curvar e rastejar? ‘Sim, senhora, o que a senhora mandar’? Pois não vou contar nada para ninguém!”
“Vai sim!”
“Não vou!”
Faíscas voaram entre mim e o homem.
“Bem, se vai se recusar terminantemente a nos contar...”
“E eu me recuso!” declarou.
Apontei para Milgazia.
“Nesse caso vou te fazer ouvir uma das piadas desse cara!”
“Q-Qual o sentido disso, garota humana?” o ancião dragão objetou. Eu o ignorei!
“Hã? Qual é o problema? Quem se importa com uma piadinha?” o homem zombou.
“Heh... Logo, logo irá descobrir! Mestre Milgazia, conte a este homem a piada mais engraçada que conhece!”
“P-Para quê, exatamente?”
“Apenas faça!” ordenei.
“Ah, muito bem. Há algum tempo, enquanto Mephy e eu viajávamos...” Milgazia começou hesitante.
———
Um silêncio mortal pairou sobre o bar... Provocado pela piada de Milgazia.
Ah, droga... Remoendo o silêncio, percebi meu erro. Quer dizer, fazer Milgazia contar uma piada significava que eu também teria que ouvi-la! Só me dei conta quando já era tarde demais.
Existem piadas neste mundo tão ruins... Ruim não chega nem perto de definir bem, mas você entendeu... Que sua mente se rebela contra memorizá-las. Nunca pensei que dragões fossem grandes comediantes... Porém nunca imaginei que pudessem ser tão ruins assim.
Milgazia e Gourry pareciam ser os únicos dois imperturbáveis pelo ataque. Luke e Maias desmaiaram, e embora Mileena estivesse tentando agir como se nada tivesse acontecido, podia ver sua testa pingando suor e seus olhos vagando atordoados. Até Memphys ficou estirada na mesa, se contorcendo espasmodicamente. Os outros comensais, que tinham ouvido a piada, estavam sofrendo da mesma forma.
“O que significa isso, humanos?” Milgazia perguntou de novo, com a cara fechada.
Contudo não havia mais ninguém com forças para respondê-lo... Espere! Nesse instante, Memphys se levantou trêmula e disse.
“Sua... Suas piadas são... Tão engraçadas, tio...”
Espere um maldito minuto aí! Ela achou aquela piada ruim engraçada? Presumi que seus espasmos fossem de agonia, no entanto estava morrendo de rir? Caramba, sabia que não entendia nada de humor de dragão... Só que pelo visto também não entendo de humor élfico.
“M-Me perdoe... Foi um erro meu.” gemeu o guarda amigo de Maias.
“Sim... Desculpe. Também exagerei aqui.” respondi, oferecendo um raro pedido de desculpas.
“Se me permite perguntar, qual o significado disso?” insistiu Milgazia.
Mas, assim como antes, não consegui reunir forças para responder. Fiquei pensando se, usadas como um ataque espiritual, suas piadas seriam suficientes para derrotar um mazoku comum.
“Contarei tudo se me poupar de mais uma dessas. Porém... A verdade é que não sei muito.” começou o homem, reunindo o que restava de sua força de vontade. “Desde aquele dia, os demônios continuam vindo. Não todas as noites, todavia a maioria. Às vezes é apenas um, às vezes são cinco ou seis espalhados pela cidade, às vezes são todos juntos no mesmo lugar. E o portão do castelo permaneceu trancado o tempo todo.”
O guarda suspirou e continuou.
“Não estamos recebendo ordens, muito menos reforços. Não sei se estão com medo dos demônios ou se há algo mais acontecendo... Tudo o que sei é que estamos exaustos. As pessoas começaram a fugir da cidade. Alguns dos nossos companheiros guardas também fugiram. Não que eu os culpe. Quem garante que não vou dar de cara com um demônio na minha patrulha esta noite? Já teria fugido há muito tempo se tivesse para onde ir... Entretanto, ah, agora só estou reclamando. É tudo o que sei, de qualquer forma.”
Wow. Ele realmente não sabia de muita coisa, não é?
“Houve, hum, alguma conversa sobre por que o portão do castelo continua fechado?” perguntei.
“Tem rolado muita conversa, claro. Alguns dizem que o rei virou um covarde e se entrincheirou, outros dizem que foi assassinado e que trancaram o lugar para encobrir o crime. Alguns dizem que aquela mercenária que revelaram como espiã ainda está viva e deu a ordem. Outros até dizem que demônios já invadiram o castelo e ninguém sobreviveu para reabri-lo.” ele enumerou rapidamente.
Eu discretamente fiz contato visual com o resto do grupo. Tudo, exceto as duas primeiras possibilidades que listou, era... Bem, a morte do rei ou sua covardia não eram de fato boas notícias, mas pelo menos seria um problema interno. Enquanto isso, se Sherra tivesse mesmo sobrevivido ou se demônios tivessem matado todos no castelo, a situação ia além de apenas ‘nossa, esse reino tem problemas’.
“Porém nenhuma palavra sobre o que está acontecendo lá dentro? Tenho certeza que ainda há mercadores entrando e saindo.” perguntei.
“Nem mesmo os mercadores têm permissão para entrar ou sair. E não é como se alguém estivesse disposto a escalar as muralhas para investigar... Bom, talvez alguém esteja, contudo como não ouvi falar de ninguém que tenha tentado, significa que ou ninguém fez... Ou fizeram e não voltaram.”
Hmm... Acho que já tiramos leite suficiente desta pedra.
“Obrigada. Essas informações foram úteis.” agradeci.
“Oh, certo. Talvez esteja me intrometendo, no entanto deixe-me dizer mais uma coisa.” disse o homem enquanto nos levantávamos para sair. “Todo esse recrutamento de mercenários nesses últimos tempos significa que a cidade está cheia de cabeças-quentes, então os demônios não são os únicos perigos lá fora. Ainda mais com o castelo trancado a sete chaves e os guardas... Bem, na condição em que estamos.” ele virou outro copo de bebida com um ar de autorrecriminação. “Cuidado lá fora.”
“Tenho certeza de que ficaremos bem.” respondeu Memphys de maneira displicente. “Se alguém nos abordar, vou dar uma lição neles.”
“Por favor, não!” nosso grupo exigiu em uníssono.
Já sabíamos que ela ficaria muito feliz em disparar um raio de luz de sua armadura Zanaffar... Ou melhor, Zenafa, dentro de um prédio para vencer uma luta. Sua ideia de ‘dar uma lição’ em alguém poderia envolver incendiar a Cidade de Gyria antes mesmo que o plano dos mazokus começasse.
“De qualquer forma, agradecemos o aviso. Agora vamos para a casa de Maias e começar a planejar.” falei, enquanto me levantava de novo, no entanto parei.
Maias seguia caído sobre a mesa. Acho que ainda não tinha se recuperado da piada de Milgazia...
———
“Ora, ora, ora! Que lugarzinho pequeno! Como vocês, humanos, conseguem viver em lugares tão horríveis?” exclamou Memphys quando chegamos à casa de Maias.
Era um apartamento no segundo andar de um prédio relativamente novo em um bairro residencial. Maias já havia nos dito que se mudara para a Cidade de Gyria para se tornar um soldado, e que este era talvez o melhor alojamento que podia pagar com seu salário.
“Bem... Depois de tudo, é um apartamento de solteiro.” comentou.
Embora Memphys continuava olhando ao redor do quarto, ou não o ouvindo ou o ignorando por completo.
“Cadê o calor? Está realmente sufocante. Paredes e pisos de gesso, igualzinho àquela pousada humana em que ficamos da última vez... Só uma janelinha minúscula para entrar ar. Nem um pingo de verde.”
Ela estava sendo absurda. Para começar, qualquer apartamento pareceria minúsculo com sete pessoas amontoadas lá dentro.
“Poderia reclamar depois para alguém que se importe.” falei. “Temos que planejar.”
Memphys fez uma careta, contudo antes que pudesse protestar...
“Acho que a opção mais rápida é entrar sorrateiramente no castelo, né? Embora imagino que seja meio imprudente...” Luke comentou.
Milgazia assentiu em concordância.
“É verdade. Nossa conversa com aquele frequentador do bar sugeriu que perguntar por aí não daria em muita coisa. Não conseguiríamos confirmar a veracidade de nenhuma informação que coletássemos até termos uma ideia melhor do que está acontecendo dentro do castelo... E não temos tempo para ficar esperando que alguém saia e nos conte. Portanto, não temos escolha a não ser entrar nós mesmos.”
Todos os presentes assentiram em concordância.
Depois de obtermos as informações básicas no bar/restaurante, decidimos fazer um pequeno reconhecimento do castelo. Nosso método era simples: chegar perto e, em seguida, fazer com que todos, exceto Gourry e Maias, usassem um feitiço de Levitação para dar uma olhada no que havia além das muralhas. Não havia nada além de gramado vazio entre os vários edifícios do complexo do castelo. Quer dizer, fiquei feliz por não encontrar cadáveres espalhados pelo pátio nem nada do tipo, no entanto ainda era estranho não haver nenhum sinal de pessoas. O normal seria haver soldados em treinamento ou, na falta destes, pelo menos algumas pessoas circulando... Mas, enquanto observávamos, não vimos uma alma sequer.
Aterrissamos, nos reagrupamos na casa de Maias e decidimos que não havia como saber mais nada até nos infiltrarmos no castelo propriamente dito.
“Não há tempo a perder, então. Vamos esta noite. Alguma objeção?” perguntei.
Todos assentiram em concordância. Exceto...
“Hmm...” Maias disse hesitante. “Eu... Vou com vocês?”
Ninguém disse nada. Todos sabíamos que ele só nos atrasaria, porém nenhum de nós queria dizer nada.
“Precisamos de uma base!” declarei de repente. “Se tivermos problemas no castelo ou se nos separarmos e tivermos que ir embora, é melhor que este seja o nosso ponto de encontro. Precisamos que você fique aqui e proteja o forte!”
“Ah... Claro!” ele respondeu, com o rosto iluminado.
Hum, ok... Acho que ele não queria mesmo ir para o castelo.
“Eu, Maias, manterei nossa base segura!” proclamou.
Memphys sorriu radiante.
“Ah, ótimo. É mesmo o melhor a se fazer. Você só nos atrasaria de qualquer forma.”
Ah... A vadia falou. Não sei se ela percebeu ou não, contudo Memphys era a única sorrindo na sala que de repente ficou gélida.
———
A lua era apenas uma lasca, deixando que a luz das estrelas iluminasse a cidade... Uma noite perfeita para uma infiltração aérea.
“Vejo luz.” sussurrou Milgazia enquanto voava ao nosso lado, acompanhando nossos feitiços de levitação.
E, de fato, uma luz tênue podia ser vista saindo das janelas do nosso destino à frente... O complexo do castelo cercado por seus vastos gramados. Se era luz de lampião ou luz mágica, eu não conseguia dizer. Mas de qualquer forma...
“Significa que deve haver alguém lá dentro. Apesar de dão haver garantia de que seja humano.” sussurrei de volta.
Memphys me alcançou naquele momento.
“Falar sobre a desgraça não vai restaurar sua dignidade, sabia?”
“Cale a boca!” retruquei. Sabia perfeitamente bem que não parecia digna naquele momento, não com Gourry montado nas minhas costas.
Como você já deve ter imaginado, ele era a única pessoa do nosso grupo que não conseguia voar sozinho. O que significava que alguém tinha que carregá-lo... E no momento em que o assunto surgiu, todos os olhares se voltaram para mim. Eu estava, portanto, usando Levitação amplificada para nos levar, ambos, para dentro do castelo, voando.
“Hehehe... Olha só vocês dois, ficando juntinhos.” provocou Luke. “Uma pena que não sejam tão íntimos quanto eu e a Mileena. Não é mesmo... Amor?” ele parou de falar enquanto olhava para a feiticeira de cabelos prateados, apenas para se deparar com uma parede de indiferença.
Hmm... Sua paixão caiu em ouvidos surdos, como sempre.
“A propósito, Lina...”
“Bwuh! E-Ei, Gourry, não fale no meu ouvido assim!”
“Ah, desculpe. Porém por qual prédio começamos?”
“Hã? Já conversamos sobre isso, cara. A torre oeste.”
O complexo do castelo consistia em uma torre principal central e uma torre posicionada em cada um dos pontos cardeais ao redor dela. As quatro torres erguiam-se a partir de edifícios retangulares que se encostavam à muralha externa do castelo e ligavam-se à torre principal por um corredor. Havia também várias instalações independentes. Escolhemos a torre oeste por ser a mais distante do portão principal.
“É, eu sei!” disse Gourry. “Mas as luzes estão acesas, então não significa que tem gente lá?”
“É... Acho que tem razão.” admiti, hesitante.
O prédio na base da torre que nos aguardava, que presumia ser algum tipo de quartel, era sem dúvida um dos lugares com luz entrando pelas janelas.
“Deveríamos mudar de ideia?” perguntou Milgazia.
Depois de pensar um pouco, balancei a cabeça negativamente.
“Aposto que a maioria desses lugares está ocupada, e não é como se fôssemos descobrir muita coisa vasculhando algum lugar abandonado.”
“Concordo. Cautela em excesso não nos trará respostas.” acrescentou Mileena.
Milgazia assentiu em concordância também.
Assim, continuamos nossa aproximação em direção a uma janela iluminada do prédio da torre oeste. Ela era coberta com vidro opaco, o que tornava impossível ver o que estava acontecendo do outro lado.
Faz sentido para uma instalação militar...
Disfarcei minha presença e agucei os ouvidos, embora também não consegui ouvir nada. Sentia a presença de vida lá dentro... Porém seria humana ou de outra natureza? Além do mais, quantos estavam lá? Eu não saberia dizer.
Lancei um olhar interrogativo para meus companheiros, como se perguntasse como proceder. Milgazia e Luke responderam da mesma forma, apenas com os olhos. Eles olharam simultaneamente para o mesmo ponto: a porta da frente.
Hora de entrar, pelo visto...
Ninguém se opôs. Ninguém tinha ideias melhores, então descemos até a entrada. Era uma grande porta dupla de ferro, parecia ter sido projetada para que soldados bem equipados pudessem passar com facilidade. Gourry e Luke se posicionaram em cada lado sem fazer nenhum som. Aproximei-me e verifiquei a fechadura. Havia um pequeno buraco de chave perto da maçaneta. Era um mecanismo bastante primitivo que uma simples gazua resolveria em pouco tempo.
Sem perder tempo, puxei um fio debaixo da minha ombreira... Contudo não me perguntem por que ando com um desses. Mulheres têm seus segredos, entenderam?
Com o fio em uma mão, coloquei a outra na porta...
Creeeak... Crash!
Ela cedeu ao meu peso e caí lá dentro!
“O-O quê?”
“O que está acontecendo?”
“Quem são essas pessoas?”
Me vi cercada por figuras barulhentas. As portas davam para uma sala relativamente aberta, ocupada por soldados sentados ou encostados nas paredes. Havia uns vinte ou trinta no total e, a julgar pelas reações, estavam cochilando até eu entrar.
Como vocês não trancaram as portas?
“Q-Quem é você?” perguntou um soldado com cara de sono.
“Er... Ah... Não queremos problemas, eu juro!” falei, acenando em tom de desculpas.
“Não quer problemas, né? Invadindo no meio da noite com uma gazua na mão?”
Ack! Hora de usar minhas habilidades de lábia! No entanto antes que pudesse começar...
“Bem... A verdade é que viemos de fora do castelo. Era o único jeito de descobrir o que estava acontecendo aqui dentro.” disse Gourry descaradamente, coçando a cabeça.
Você está louco? Não pode só contar pra eles!
“Ah, é só isso?” perguntou o soldado com um suspiro de alívio.
Ele realmente aceitou?
“Não está surpreso?” Mileena interrompeu.
O soldado com quem estávamos falando coçou o queixo.
“Bom, vocês são... Não me lembro quantos vieram antes de vocês, mas já nos acostumamos. Não espalhe isso por aí, porém não estamos felizes com as nossas ordens aqui. De qualquer forma, entrem.” ele nos convidou a entrar de uma maneira bastante amigável e, apesar da nossa hesitação, nós aceitamos.
“Poderia fechar a porta atrás? O palácio vai cair matando em cima de nós se nos virem. Aliás... Ouvi dizer que há um certo pânico do lado de fora do castelo.”
“É bem mais do que ‘um certo pânico’! Demônios estão aparecendo todas as noites! É um problema sério! Por que estão aí sentados como se não fosse da sua conta?” repreendi.
O Soldado nº 1 se encolheu.
“N-Não é minha culpa! Recebemos ordens para não sair dos prédios! E é nosso trabalho cumprir ordens. Não é como se estivéssemos gostando do que estamos fazendo... Não podemos ver nossas famílias. Só temos rações para comer o básico.”
“Por que não podem sair dos prédios? Que absurdo!”
“Quem me dera saber. Quando perguntamos, só nos disseram que é confidencial e para não questionarmos. Qualquer um que desobedeça à ordem é enviado para o quartel de detenção. Então, o que mais podemos fazer?” o Soldado nº 1... Que devia ser um capitão ou algo assim, dada a sua aparente autoridade ali, soltou um pequeno suspiro. “Tenho certeza de que vieram aqui esperando resolver as coisas, entretanto... Olha, detesto ter de dizer, contudo também recebemos uma segunda ordem.”
“Qual foi?” perguntei, sentindo um arrepio na espinha.
O soldado continuou, hesitante.
“Se alguém de fora aparecer, nós devemos capturá-los... E jogá-los na masmorra.”
Uma atmosfera tensa pairou no ar.
“Ah... Entendi. Uma daquelas coisas de ‘se você não quiser ser jogado na masmorra, terá que abrir caminho sozinho’?” perguntou Luke, enquanto alcançava o cabo de sua espada.
“Então, se nos entregarmos pacificamente, não precisaremos lutar?” perguntou Mileena calmamente, segurando a mão de Luke.
“Como é?” exclamou Memphys, indignada.
Todavia Mileena prosseguiu.
“Você quer chegar ao cerne da questão tanto quanto nós. Suas ordens são absolutas: qualquer um que invadir o castelo deve ser jogado na masmorra. No entanto nunca disseram que vocês precisavam confiscar o equipamento de qualquer pessoa que prendessem, ou que não podiam jogá-las na mesma cela que os invasores anteriores. Sendo assim... Pode haver condições sob as quais possamos ir sem começar um conflito.”
“Hmm...” o Soldado nº 1 respirou fundo.
Ei! Boa ideia, Mileena!
O Soldado nº 1 havia dito que houve outros antes de nós. Se todos também tivessem sido jogados na masmorra, Jade poderia estar entre junto. Mileena estava oferecendo aos soldados a possibilidade de salvarem as aparências, com a condição de que nos levassem aos prisioneiros capturados antes e nos deixassem resolver o resto por conta própria. Claro, incluiu a nuance de que, se não aceitassem nossa oferta, adotaríamos o plano de Luke e lutaríamos.
Era uma lógica bastante rebuscada, embora uma saída conveniente para esse pequeno dilema, caso os guardas estivessem dispostos a aceitá-la.
“É verdade que nossas ordens não diziam que não podíamos fazer isso.” disse outro soldado sem qualquer pudor.
“E o senhor não acabou de dizer que odeia prender pessoas sem motivo e deixá-las no purgatório, Capitão?” acrescentou outro.
O Soldado nº 1, o capitão, suspirou com uma careta.
“Entendo. Tem razão, a ordem não especificava nada sobre o seu tratamento. Muito bem, está decidido. Nesse caso, se não se importa, vamos lhe mostrar... Er, esqueça. Vamos levá-los para a masmorra.”
“Alguma objeção?” perguntou Mileena. O resto de nós assentiu com uma careta... Bem, todos, exceto Gourry, que estava tão alheio como sempre.
“Hmm... O que está acontecendo?” ele sussurrou para mim.
“Só entre na brincadeira, tá bom?” respondi baixinho.
“Muito bem... Venham conosco!” ordenou o capitão.
Com uma lamparina na mão, ele foi na frente. Outro soldado com uma lamparina fechava a fila. Atravessamos várias portas enquanto nos empurrávamos para o interior do edifício, até chegarmos a um corredor longo e estreito que se estendia para os dois lados.
“Cuidado onde pisa.” disse o capitão ao virar à direita.
Estávamos ladeados por paredes de pedra, e o teto acima de nós era bastante alto para uma passagem tão estreita. Não havia luz além das lâmpadas que os guardas carregavam, então era difícil ter certeza, porém parecia que o corredor fazia uma leve curva. Isso sugeria que estávamos na muralha externa do castelo.
“Então, eu queria perguntar... Havia um homem chamado Jade entre os prisioneiros que vocês capturaram?” perguntei, justamente quando a caminhada estava ficando monótona.
“Jade?” o capitão lançou um olhar para trás, na minha direção. “Não é aquele cavaleiro que foi destituído de seu posto e exilado, apenas para ser reintegrado pouco tempo depois?”
“Sim, esse mesmo.”
“Hum. Receio que não, e costumo conseguir lembrar os nomes dos homens que prendemos... Mas enquanto estamos levando vocês para a masmorra sob a torre norte, onde detemos a maioria das pessoas, existem algumas câmaras sob o próprio palácio. Ele pode ter sido preso por outra pessoa e levado para lá.”
Luke soltou um gemido.
“Nesse caso, nos entregar foi uma perda de tempo, hein?”
“Ei... Por favor, não arrumem confusão agora. Vocês prometeram se entregar!” implorou o capitão.
“É, eu sei. Meu coração jamais me permitiria interromper e estragar as negociações da minha amada Mileena.”
...
“Vamos lá, pode me dispensar logo? Odeio ficar esperando...” Luke murmurou, desanimado.
Hmm... Quando Mileena o dispensa, ele fica desanimado, porém quando o ignora, Luke se faz de desamparado. Que esquisito.
“Bem, Jade pode não estar na masmorra do norte, contudo outros que vieram de fora estarão. Alguns destes conhecem o castelo muito bem. Eles ainda podem ter as informações que vocês procuram.”
“De quantas pessoas estamos falando?” perguntei.
O capitão ponderou a resposta.
“Vejamos. Sem contar vocês... Pelo menos vinte.”
“Vinte?” exclamei, surpresa.
“Sim. Guardas que estavam de serviço na cidade, cortesãos em viagem de negócios antes do fechamento dos portões... São pelo menos vinte que estou ciente, então, na verdade, deve haver mais. Todos dizem que a cidade está em mau estado, e como a maioria de nós tem família na cidade, isso nos deixou preocupados. Eu iria para lá agora mesmo se pudesse, no entanto recebemos ordens para ficar aqui sob pena de prisão. Os superiores só pensam em nós, guardas, como ferramentas, entende? Gostaria que percebessem que essas ‘ferramentas’ também têm coração e alma.”
Então é por isso que aceitaram a proposta de Mileena...
A maioria dos soldados, mesmo os descontentes, não teria considerado o plano complicado de Mileena. Talvez teriam nos considerado assassinos se aproveitando deles. Todavia esses homens estavam claramente no limite da paciência. Permanecer em constante prontidão, a serviço de ninguém, enquanto suas famílias corriam o risco de sofrer ataques demoníacos... Era difícil manter a lealdade com esse tipo de medo te corroendo por dentro.
“De qualquer forma, gostaria de acabar com essa bobagem o mais rápido possível.” sussurrou o capitão, revelando o que pareciam ser seus verdadeiros sentimentos... Não, os verdadeiros sentimentos dos soldados.
Depois daquilo, não disse mais nada. Caminhamos mais um pouco até que o capitão parou em frente a uma porta. Do outro lado, havia um prédio que parecia idêntico ao de onde tínhamos acabado de sair. O guarda lá dentro fez uma saudação casual ao entrar.
“Mais invasores do lado de fora.” anunciou o capitão. “Vamos colocá-los na sua masmorra.”
Com essa simples troca de palavras, ele abriu outra porta próxima e nos escoltou por uma escadaria que levava ao subterrâneo. O soldado retribuiu a saudação do capitão sem sequer pestanejar pelo fato de ainda estarmos armados.
Hmm... Acho que ele também não está muito animado com essa situação.
Descemos as escadas e chegamos a outra porta, que era guardada por mais um soldado de aparência desanimada. Depois de trocar uma saudação protocolar semelhante com o capitão, este tirou um molho de chaves tilintando e abriu a porta.
O cheiro mofado característico de porões me fez cócegas no nariz. Um corredor de pedra se estendia à nossa frente. De cada lado havia castiçais que cheiravam a gordura animal queimada e fileiras e mais fileiras de barras de ferro. O capitão nos conduziu pelo corredor. O cheiro era em parte rançoso, em parte suado e em parte algo que eu nem conseguia descrever.
Vimos todos os tipos de pessoas nas profundezas da masmorra. Um homem em farrapos nos encarando com olhos vazios e ocos. Um homem de idade indeterminada nos ignorando enquanto caminhava de um lado para o outro em sua cela, resmungando para si mesmo. E então, quando já estava começando a me cansar da nossa pequena procissão...
“Vocês!” chamou uma voz familiar de perto.
Hã? Olhei para ver a origem da voz... Um homem barbudo, já de idade avançada, nos observando de uma cela com olhos cansados.
“Vocês são amigos de Jade Caudwell!” ele exclamou.
Conheço esse homem... Era o General Allus!
———
“O que aconteceu com você?” perguntei ao (ex-)general através das grades. O capitão havia colocado nossos três cavalheiros na cela com Allus e nossas três damas na cela oposta, antes de sair sem dizer uma palavra.
Allus foi quem apresentou Sherra ao Rei Wells para ganhar seu favor, sem saber que ela era na verdade um mazoku. De certa forma, era meio que o responsável por toda a confusão, mas acabou se redimindo depois que Sherra se rebelou. Até nos ajudou a resolver as coisas depois, e quando tudo acabou, se demitiu do cargo de general. Resumindo, é um homem com boas intenções, porém com um péssimo faro para o caráter das pessoas. Contudo se estava ali, isso significava...
“Provavelmente tive o mesmo destino que vocês... Me infiltrei no castelo para descobrir o que estava acontecendo, no entanto fui descoberto, preso e jogado aqui dentro.” respondeu ele com um suspiro cansado.
“Então não sabe o que está acontecendo dentro do castelo?” perguntou Milgazia, encostando-se na parede com os braços cruzados.
Era a primeira vez que Allus encontrava Milgazia, todavia parecia que não tinha energia para perguntar sobre sua identidade. Assim, apenas respondeu.
“Não sei muito, é verdade... Embora esteja aposentado agora, fui general aqui até pouco tempo, sendo assim ainda tenho alguma influência sobre os homens e o Rei Wells. Logo depois que me capturaram, pedi aos soldados que contatassem Sua Majestade em meu nome. A resposta que recebi foi: ‘O rei não o receberá. Joguem-no na masmorra’.”
“Heh... Que belo rei tem aí!” resmungou Luke.
“Não culpo meu senhor.” respondeu o velho general, balançando a cabeça placidamente. “Para ser honesto, duvido que Sua Majestade tenha sequer ouvido meu pedido.”
“O que quer dizer?” perguntei.
“Pedi ao soldado que contatasse Sua Majestade, mas um mero soldado não pode contatar o rei diretamente. Este teria passado a mensagem ao seu capitão, que então a teria passado a um conselheiro ou ministro. É provável que alguém nessa cadeia tenha dito: ‘O rei não precisa vê-lo, então jogue-o na masmorra de acordo com suas ordens iniciais.’. Não consigo imaginar um capitão da guarda fazendo tal coisa... Suspeito que seja o conselheiro ou ministro que não quer que eu fique bisbilhotando.”
“Hmm...” isso me deu uma ideia. “Estive querendo perguntar. Com você e Sherra fora, quem é o mais próximo do Rei Wells no momento, com mais influência? E quem teria alcançado essa posição apenas no último ano?”
“No último ano? Bem, a maioria deles, na verdade...”
“Hã?” pisquei. Essa com certeza não era a resposta que estava esperando. A maioria dos figurões do reino foi nomeada no último ano? Como?
O ex-general assentiu sabiamente e continuou.
“Houve um grande incêndio nesta cidade no ano passado. O rei da época, Sua Majestade Dils Quolt Gyria, adoeceu devido ao estresse e morreu logo depois. E como não tinha filhos homens, seu irmão mais novo ascendeu ao trono. Entretanto lutas pelo poder são inevitáveis nos mais altos escalões de um reino. A mudança de reinado fez com que a maioria dos antigos ministros e conselheiros fosse transferida para outros lugares e novos fossem contratados. Nesse sentido, eu era o instrutor de esgrima do Rei Wells desde a sua infância... Dessa forma, bem já deve ter entendido...” explicou o general com um sorriso dolorido.
Guh. Era meio difícil ouvir tudo aquilo considerando que eu meio que tinha participado do incêndio... Mas ficar remoendo essas recordações não vai ajudar ninguém.
“O-Ok... Tem alguém que não estava no castelo há um ano, porém agora está servindo em uma posição importante?” tentei outra abordagem.
Allus inclinou a cabeça e ponderou.
“Alguém que nem sequer estava no castelo... Há o ministro do comércio, Lorde Sardian. Não é um cargo importante, contudo tem alguma influência sobre Sua Majestade. Há também Sir Farial, o feiticeiro da corte. Lorde Sardian é parente da rainha, esposa do Rei Wells. Sir Farial foi recomendado pelo conselho dos feiticeiros.”
“Hmm... Entendo. E esses dois estão no palácio agora?”
“Muito provavelmente. Aqui...” com isso, Allus esboçou um diagrama do palácio e explicou onde era provável que os encontraríamos.
“Legal. Pode me dizer como eles são?”
“Sardian tem... Por volta de trinta anos, é esguio e tem traços delicados, com um cavanhaque preto que parece deslocado. Farial tem vinte e poucos anos, suponho... É moreno e corpulento de um jeito que não combina com seu nome ou sua posição. Por que pergunta?”
Levantei-me.
“Por que mais? Vou sair daqui e encontrá-los.”
“E-Espere um minuto. Não estou entendendo.” argumentou Luke.
Lancei um olhar para ele.
“Estou dizendo, temos certeza de que Sherra era a única espiã?”
Alguns suspiros de espanto se seguiram.
Mazokus que alcançam certo nível podem assumir forma humana. Sherra não era necessariamente a única a impulsionar os planos de seu mestre no reino. Tínhamos presumido que derrotá-la havia encerrado tudo, mas e se houvesse outro mazoku no círculo de inteligência do reino? Faria sentido se os acontecimentos atuais fossem parte de seu plano.
Se ao menos soubéssemos qual era o objetivo final deles...
Antes do incêndio do ano passado, Dils estava sob o controle do Dragão do Caos Gaav, que planejava uma rebelião contra os mazokus das Montanhas Katart. Agora, quem quer que fossem esses novos mazokus, teriam que ter se infiltrado no castelo depois que os lacaios de Gaav estivessem fora de cena... O que apontava para o ministro do comércio ou o mago da corte que Allus havia mencionado. Precisávamos sair dali e descobrir qual deles era. Não que esperasse que confessassem, porém imaginei que Milgazia e Memphys conseguiriam farejar um mazoku em pele de humano.
“Nem eu sei se entendi...” admitiu Allus, que ainda desconhecia a natureza demoníaca de Sherra.
Como não sabia quanto tempo levaria para explicar tudo, resumi.
“É uma história muito longa, então fica para outra hora. Gourry, vamos embora. Acabe logo com isso!”
“Certo! Não sei bem o que está acontecendo, contudo sei como nos tirar daqui!”
“É tudo o que preciso! Hora de dar adeus a essas gaiolas apertadas! Afastem-se das grades, pessoal!”
Todos fizeram como pedido, e a espada de Gourry cortou o ar!
Clinch! Ouvi um som agudo como o de um bloco de gelo tremendo. E então... Crash, clatter, clangor! Com um grande barulho, fragmentos de barras de ferro caíram sobre o chão de pedra.
Wow! Todos pareceram impressionados com o movimento. Como era de se esperar das grades usadas em prisões, cada uma tinha a espessura de um polegar. Cortá-las daquele jeito, sem mencionar várias delas ao mesmo tempo... A espada atual de Gourry era mágica, embora não soubéssemos de onde vinha ou se tinha um nome. Era mais resistente e afiada do que uma lâmina normal, mas mesmo assim, a habilidade de Gourry era tão incrível como sempre.
“Agora faça o mesmo com as nossas!” eu o incentivei.
O grandalhão saiu de sua cela, veio até a nossa e desferiu um segundo golpe. Mais uma vez, as barras de metal caíram no chão como se fossem pedaços de madeira à deriva.
“Não sejam muito duros com os guardas.” disse Allus, que não demonstrava intenção de sair de sua cela. Respondi com um aceno de mão, e o resto de nós seguiu para a saída.
Chegamos a uma porta de madeira. Milgazia foi na frente, estendendo a mão para testá-la. Então, ao perceber que estava destrancada, abriu-a com facilidade. Esperava que houvesse um guarda do outro lado, contudo não havia ninguém à vista.
“O capitão deve ter arranjado isso.” imaginei. Parecia que os guardas estavam do nosso lado.
Subimos correndo os degraus de pedra e paramos ao chegar ao topo. O verdadeiro problema começava ali. O capitão havia dito que estávamos na torre norte, o que significava que haveria muita segurança por perto... No entanto, sem tempo para hesitar, abrimos a porta.
Clack. Um único soldado estava parado perto dali... O capitão que nos trouxera para dentro.
“Isso foi rápido... Estão prontos? Já expliquei a situação aos outros.” disse ele, com certa calma.
“Você... Explicou? Tem certeza de que deveria estar fazendo tudo isso?” fico grata pela ajuda, todavia parecia bom demais para ser verdade.
O capitão sorriu amargamente em resposta.
“Para ser sincero... Esta não é a primeira vez que te vejo. Há pouco tempo, nosso reino foi tomado por uma mercenária chamada Sherra, que virou tudo de cabeça para baixo. Na noite em que ela desapareceu... Eu te vi aqui no castelo.”
Ah, sim. Vários guardas nos viram naquela noite. Não me lembro de todos os rostos, entretanto parece que o capitão se lembrou do nosso...
“Nós, guardas, fomos reduzidos a ferramentas nas mãos daqueles que detêm o poder.” continuou o capitão. “Não temos o poder de mudar nada. Mas da última vez que vocês apareceram, as coisas mudaram. Então pensei que poderiam mudar as coisas novamente.”
“Você está enganado!” interrompeu Milgazia.
“O quê?”
“Você acha que perdeu o poder de efetuar mudanças... Mas está enganado, humano. Agora mesmo, para mudar as coisas... Para mudar as coisas para melhor... Você nos ajudou. É isso. Essa é a prova de que são mais do que meras ferramentas. De que ainda têm o poder de tornar o futuro um lugar melhor.”
As palavras de Milgazia deixaram o capitão sem palavras.
“Gosto de ouvir isso dessa forma... Porém não fiquem aí parados conversando. Vão. E tomem cuidado.”
Acenamos com a cabeça para ele e seguimos pela porta que nos indicou. Passamos por mais algumas até chegarmos a uma sala grande, muito parecida com aquela por onde tínhamos entrado na torre oeste. Da mesma forma, esta também estava cheia de algumas dezenas de guardas.
“Ouvimos a história toda. Deem o seu melhor!” disse um deles.
“Não sei bem em que vocês estão dando o seu melhor, é claro.” respondeu outro.
“Contudo não sejam muito rudes, ou vão nos dar mais trabalho.” advertiu um terceiro.
Esses caras estavam ou muito insatisfeitos com as ordens ou eram apenas muito leais ao capitão. De um jeito ou de outro, se separaram e nos deixaram passar pela porta. Abrimos a porta com um estrondo, corremos para fora e...
“O quê?”
Paramos no lugar... Nós quatro... De volta dentro da câmara cheia de soldados.
“Hã?”
“O que foi isso? Vocês não acabaram de...” um murmúrio nervoso começou a se espalhar entre os guardas.
Isso mesmo. Seis de nós tínhamos acabado de sair pela porta que dava para o pátio. No entanto agora estávamos de volta lá dentro... Sem Memphys e Milgazia.
“O que... O que está acontecendo?” perguntou Luke.
Eu sabia a resposta, todavia preferia não saber.
“O espaço foi distorcido... E o mais provável é que seja um mazoku.”
Quando falei a palavra ‘mazoku’ o nervosismo entre os soldados aumentou exponencialmente.
De pé entre eles, Luke sorriu indomavelmente.
“Heh, ok. Não entendo como funciona, entretanto acho que estamos separados agora. O que significa que o inimigo está atrás deles... Ou de nós.” sussurrou.
“São os dois... É claro...” respondeu uma voz abafada vinda de cima.
Vários guardas gritaram ao olharem para a origem do som... O teto, onde a cabeça de uma mulher pendia de cabeça para baixo.
Mianzo!
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