sexta-feira, 21 de novembro de 2025

The Haar — Capítulo 23

Capítulo 23


Rodas no cascalho...

Motores rugindo...

Vozes, conversas, ordens gritadas...

Os olhos de Muriel se abriram bruscamente. Que comoção era aquela lá fora? Bocejou e se arrastou até as pernas balançarem para fora da cama, deixando o ar frio acordá-la.

Tanto barulho. Mas não as brincadeiras obscenas de sempre dos trabalhadores, nem o clangor incessante da maquinaria infernal. Sons diferentes. Mais altos. Mais próximos.

Muito mais próximos.

Motores de carros em marcha lenta. Vários, bem do lado de fora da sua porta, como se tivesse acordado em um estacionamento. Enquanto Muriel esfregava os olhos para afastar o sono, entendeu que significava uma coisa.

Estava na hora.

Calçou seus chinelos e se levantou, espreguiçando o corpo rigído. Cambaleando até a cozinha, abriu as cortinas e espiou para fora.

— Senhor do céu.

Pelo menos vinte carros pretos estavam estacionados na estrada que levava à sua casa, do portão da frente até além das dunas, fora de vista. Homens andavam de um lado para o outro, falando em walkie-talkies e olhando ao redor com desconfiança, uma das mãos enfiada nos casacos. Eles cercaram um pequeno grupo de pessoas perto do seu jardim, homens bem-vestidos em ternos impecáveis. Ela reconheceu um deles imediatamente.

Patrick Grant, em carne e osso.

O que ele estava fazendo ali? Sua casa não ficava nos Estados Unidos? Da última vez que visitara Witchaven para supervisionar o progresso do campo de golfe, os moradores locais o haviam atirado com peixes e frutas podres. Naquela época, havia uma vila inteira para enfrentá-lo, em vez de uma velha teimosa.

O filho de Grant, Conor, estava ao seu lado, lutando contra o vento para manter o cabelo sob controle. Ele rugia palavras para uma jovem, que correu para um dos veículos. A jovem voltou momentos depois com algo na mão, que esfregou no cabelo dele, antes de segurar um espelho para que pudesse se admirar. Sua cabeça fez um aceno em aprovação, embora Muriel tenha notado que não agradeceu. Não esperava nada menos de uma família tão desprezível de réprobos.

Patrick Grant, o próprio babaca bilionário, em toda a sua glória imunda, esperou enquanto outra jovem de saia curta prendia um pequeno dispositivo eletrônico na lapela de seu paletó. Ao seu lado estava a mulher com os dentes perfeitos, que segurava uma maleta e tremia de frio, lançando olhares ocasionais para os pertences de Muriel, sem dúvida planejando sua vingança.

Muriel não gostou nada disso. Imaginou que algumas pessoas poderiam vir, o suficiente para alimentar Billy e se livrar delas sem alertar ninguém. Que o próprio Grant apareceria com todo o seu circo de três picadeiros nunca lhe ocorrera. Eram muitos. Demais.

Sua mão tremia, e agarrou as cortinas, quase as arrancando do trilho. Não havia saída. O que poderia fazer? Escapar pela janela de trás? Bobagem. Nunca conseguiria. E, de qualquer forma, como poderia levar Billy junto?

Billy.

Vão encontrá-lo. Ele não tinha forças para se defender. Precisava de sangue. Sangue e carne.

Então Muriel avistou.

Uma van branca indefinida entre os outros veículos, com a pintura desbotada pelo tempo e pelos elementos escoceses. Porém, visíveis através da sujeira e da fuligem, havia três palavras que lhe causaram choques elétricos pelo corpo.

O Instituto Beechburn.

Conhecia o instituto. Um hospital psiquiátrico perto de Inverness, que tinha aparecido nos jornais recentemente com histórias sobre as péssimas condições de vida e o tratamento desumano de seus pacientes. Muriel se lembrava de ter visto fotos de pequenas celas quadradas com fezes espalhadas nas paredes e de rostos marejados de lágrimas olhando fixamente através das barras de ferro.

— Meu Deus. — sussurrou para si mesma.

Queriam interná-la.

A constatação a surpreendeu. Como poderiam? Estava em perfeita sã consciência! Eles... Eles não ousariam.

Grant conversava distraído com sua jovem e atraente assistente, o braço envolvendo sua cintura, a mão agarrando uma das nádegas. Conor lhe deu uma cotovelada e gesticulou em direção a casa. Muriel percebeu que estava apontando em sua direção.

Muriel fechou as cortinas, sabendo que era tarde demais. Não haveria como detê-los agora. Os homens de branco estavam ali para levá-la numa camisa de força e jogá-la numa cela acolchoada para viver o resto da sua miserável existência. Nunca mais contemplaria o oceano, nem sentiria a areia entre os dedos dos pés, nem sentiria o cheiro do mar. A sua casa seria demolida. A casa deles.

Nós dos dedos batiam com urgência na porta da frente.

— Sra. McAuley, sabemos que a senhora está aí.

Seus passos cambalearam para o banheiro, atordoada.

— Billy! Eles chegaram!

Ele flutuou até a superfície, piscando preguiçosamente para ela, e Muriel mergulhou as mãos na água, tentando agarrá-lo, sacudi-lo. Seu corpo escorria por entre os seus dedos como pus escorrendo de uma ferida.

— Billy!

— Com quem ela está falando? — perguntou uma voz lá fora. — Achei que morasse sozinha?

Outra batida forte. Não é de se espantar que a achassem louca, pelo jeito como agira no outro dia, recolhendo pedaços gelatinosos do marido em uma sacola e se agarrando à perna daquela mulher horrível. Havia cavado a própria cova agindo de forma tão tola!

Apoiando-se na banheira, Muriel se levantou. Billy não ajudaria em nada. Teria que se defender. Ao se levantar, um raio de luz iluminou a lâmina de barbear na parede do banheiro. Mais uma vez, tentou, sem sucesso, retirá-la. Que diferença fazia? Era pequena demais para intimidá-los. Precisava de algo maior. A faca de cozinha? Não. Que tal...

Dirigiu-se para o corredor. A cesta de vime estava perto da porta da frente, cheia de toras cortadas, com o machado de mão em cima.

O que está fazendo?

Não sabia. Estendeu a mão hesitante para a arma.

Planeja usar isso?

Não, claro que não. Era um aviso, só isso. Para mostrar que estava falando sério e que não seria expulsa de casa por uma chuva de malandros.

As batidas voltaram a soar, sem perceber que a porta estava fechada apenas pelas galochas de Muriel e um saco de lixo.

— Se não nos deixar entrar, vamos arrombar a porta.

Muriel pegou o cabo do machado com a mão trêmula.

— Vá em frente! — desafiou. — A porta é reforçada. Nunca vão entrar.

— Veremos! — ouviu um homem murmurar, depois ouviu passos rápidos em direção à porta. Esta se abriu com facilidade, impulsionando as galochas pelo corredor enquanto um segurança entrava correndo, desprevenido pela falta de resistência. Sua cabeça bateu contra a parede, e ele a esfregou enquanto encarava Muriel, seus olhos se voltando para o machado em suas mãos.

— Ela está armada! — gritou o homem, procurando algo no casaco. Uma arma?

O pânico se instalou. Muriel largou o machado e levantou as mãos.

— Não atire! — gaguejou, enquanto outro homem entrava, com a arma já em punho.

— Guarde essas malditas armas. — disse Patrick Grant, empurrando o segundo homem para longe. — A porra das equipes de TV vão chegar a qualquer momento.

Muriel ficou surpresa ao ouvi-lo xingar. Ele nunca o fez na TV, porém supôs que fosse tudo parte do plano.

Grant se virou para olhá-la e ofereceu um sorriso gregário, como se fossem dois velhos amigos se encontrando para um café e uma conversa.

— Sra. McAuley, é um prazer enfim conhecê-la.

Ela se afastou.

— O prazer é todo seu! — conseguiu dizer enquanto seu coração martelava no peito. O machado estava aos pés dele, e foi chutado para o lado enquanto vinha em sua direção.

— Bem, isso não é nada legal. Afinal, você é quem tem sido a mosca na minha sopa, por assim dizer. Não lhe ofereci nada além de gentileza.

Muriel o encarou.

— O senhor é um homem imundo, Sr. Grant. Um homem desprezível, sujo.

Grant virou-se para o filho.

— Está ouvindo, seu vagabundo de merda? Eu te mandei gravar tudo.

— Claro! — disse Conor, apontando o celular para Muriel. Havia cinco deles ali dentro agora. Grant, Conor, dois seguranças e a mulher que fechava a fila. Conor semicerrou os olhos para a tela do celular. — Ei, pai. Devolve o machado. Posso filmar ela te dando um golpe.

— E se me acertar? — perguntou Grant. Os dois falavam como se Muriel não estivesse presente. Isso fazia ferver seu sangue. Esta era a sua casa. Era o seu lar.

— Duvido muito que consiga fazer algum dano. — disse Conor. — De uma boa olhada. Uma rajada de vento pode derrubá-la.

Eles avançaram. Muriel continuou recuando até esbarrar no sofá e quase perder o equilíbrio.

— Billy! — gritou, subitamente com muito medo. — Billy!

— Quem é Billy? — perguntou Grant.

Ninguém tinha uma boa resposta.

— Está pirando! — disse a mulher, bufando em seu terno novo e sem rasgos. — Eu disse que tinha. Devia ter visto ela com aquele saco de gosma.

Grant olhou para Conor.

— Você está entendendo?

— Nossa, pai, cala a boca! Estou gravando.

Era um caos. Muriel não sabia o que fazer. Sua mente corria de cenário em cenário absurdo. As equipes de TV estavam chegando? Era isso que Grant tinha dito? Claro, fazia sentido. Era como quando Arthur foi escoltado para fora de casa algemado, com os repórteres de alguma forma já no local e gravando. O mesmo destino a aguardava, exceto que a removeriam à força e a jogariam em uma van branca enquanto a nação assistia. Se ao menos Arthur estivesse ali agora.

Ou Billy.

Muriel o imaginou flutuando na banheira, fraco e impotente, querendo ajudar, contudo incapaz. Agora era com ela. Não podia deixar que a levassem, não daquele jeito. Era tudo o que restava entre Witchaven e sua destruição, e precisava lutar. Mas como?

— A imprensa chegou. — disse a mulher. — Bem na hora.

Muriel olhou pela janela para os veículos que se aproximavam. Mais vans bloqueavam a rua, disputando espaço. BBC, STV, SKY NEWS... Vinham em massa, portas se abrindo, jovens homens e mulheres em roupas elegantes se amontoando, arrumando os cabelos e ensaiando sorrisos.

— Acabou, McAuley. — disse Grant. — Você perdeu. De crédito a quem merece, durou mais do que eu esperava, e por isso tem o meu respeito. Não há muitas pessoas que não possam ser compradas.

— Você é um charlatão! — disse ela em voz baixa.

— Paus e pedras. — Grant deu de ombros e se virou para a mulher. — Eles estão prontos? Vamos acabar logo com isso. Voei meio mundo para resolver esse assunto.

— Vou contar a verdade a eles. — disse Muriel. — Vou...

— Não vai contar porra nenhuma! — disse Grant. Seu rosto ficou vermelho de raiva. — Quem vai acreditar no que diz?

— Vou dizer a eles que você matou o Arthur. Vou...

— Será que não entendeu? Ninguém dá a mínima. Ninguém se importa. Você é velha e pobre. A sociedade lavou as mãos há muito tempo.

— Algumas pessoas se importam. — insistiu Muriel. — Há um...

— Alguns esquisitos, só isso. — disse Grant. — E só vão se importar até a próxima edição sair. E quando acontecer, você será notícia de ontem. Uma nota de rodapé. Esquecida. Talvez um dia, quando eu estiver cagando, eu pense comigo mesmo: qual era o nome daquela velha que internei? E vou pensar muito comigo mesmo, tentando me lembrar... Mas não vou. Porque é insignificante. Você não é nada. É literalmente nada.

A mulher levou a mão ao ouvido, ouvindo atentamente uma voz grave crepitar pelo fone.

— Estamos prontos para começar. — disse ela.

Grant assentiu.

— A imprensa foi informada?

— Claro.

Seu olhar se voltou para Muriel.

— Nós dissemos a eles que vim aqui para conversarmos, para lhe fazer uma oferta. Porém você enlouqueceu e me atacou. O que acha?

Muriel não falou nada, pois não havia nada a dizer.

O jogo havia terminado e Grant havia vencido. Ele havia trapaceado, é claro, contudo não importava para esse homem. Vencer era tudo o que importava. Era tudo o que sempre importara.

— Puta merda, olhe para os braços dela. — disse Conor.

Muriel sabia a que se referia. Seus braços eram uma colcha de retalhos de cortes, hematomas e lacerações de onde havia alimentado Billy.

— Que porra, é uma daquelas automutiladoras?

— Quem se importa? — disse Grant. — Filme.

Conor se aproximou, e Muriel colocou os braços atrás das costas. Não sabia por que se dava ao trabalho. Não faria diferença. Grant estava certo. Ele era rico, e ela era pobre, e isso era tudo o que importava. Os ricos podem se safar de qualquer coisa. Até de assassinato. Considerou implorar aos guardas que fizessem a coisa certa, apelando para suas consciências, no entanto, mais uma vez, tudo se resumia a dinheiro. Grant estava pagando a eles, então fariam qualquer coisa que lhes dissesse.

Não, estava completamente sem opções. Estava acabada.

Muriel não queria, mas começou a chorar. Não conseguia evitar. Terminar assim depois de tudo o que havia passado, levada para o hospício em rede nacional, sua casa destruída, Billy cruelmente tirado dela mais uma vez. Enxugou uma lágrima. Esta seria a segunda vez que não poderia se despedir.

Era demais para suportar. O corpo de Muriel cedeu. Estava tão cansada. Cansada de Grant, cansada do barulho... Cansada de viver. Sabia que não deveria reclamar. Vislumbrara felicidade, o que era mais do que algumas pessoas poderiam expressar, entretanto agora seu pequeno sonho triste havia acabado, e seu tempo com Billy havia chegado ao fim mais uma vez.

Limpou um rastro de muco do nariz e olhou para Grant.

— Ok! — disse. — Acabou. Você venceu.

Grant sorriu.

— Eu sempre sorrio no fim.

— Senhor, a imprensa entrou ao vivo. — disse a mulher erguendo o celular, o volume alto, uma voz masculina relatando...

“A cena em Witchaven, onde a moradora local Muriel McAuley está atualmente envolvida em um impasse com o bilionário Patrick Grant. Parece que ela fez reféns e está fazendo exigências que...”

Muriel ignorou. Havia um limite para a desonestidade que conseguia ouvir.

— Posso pelo menos ir ao banheiro? — perguntou.

Grant a olhou com cautela.

— Por quê? Para poder pedir ajuda?

Muriel engoliu em seco.

— Não tenho telefone no banheiro, Sr. Grant.

Que tal um celular?

— Eu... Não tenho. — lágrimas escorriam pelo seu rosto. Precisava ir ao banheiro. Precisava se despedir de Billy. Não podiam se separar daquele jeito, não de novo. Destruiria para sempre sua já tênue noção de realidade.

— Por favor! — pediu. — Estou implorando. Eu me ajoelho se quiser.

Grant acenou com a mão, dispensando-a.

— Ah, pare. É muito patético. Vá mijar e se apresse. Cada segundo que passo nesta casa nojenta me dá vontade de tomar um banho. — ele olhou para seus lacaios e disse. — Nem quero tocar em nada!

Eles riram disso, porque era para isso que eram pagos.

Enquanto Muriel caminhava em direção à porta, Grant saiu do caminho como se ela estivesse com algum tipo de doença contagiosa.

— Depressa! — disse, e então olhou para a mulher. — Shelly, vá junto e certifique-se de que não tente nenhuma besteira.

Shelly! Por fim Muriel tinha um nome que combinasse com o rosto e os dentes perfeitos.

— Não quero ver uma velha mijando. — disse Shelly, franzindo a testa.

— Bem, você vai fazer exatamente isso. — disse Grant. — Não perca essa vagabunda de vista nem por um segundo.

Muriel balançou a cabeça. Imagine se falasse assim na TV! Nunca tinha conhecido uma celebridade antes e, em circunstâncias diferentes, essa espiadinha por trás da fachada a teria fascinado. Porém não hoje. Hoje faria algo com que sonhava há doze anos.

Ia se despedir do marido.

Muriel passou por Grant, depois por Conor e, por último, pelos seguranças. Shelly espreitava perto da porta do banheiro como um odor desagradável. Sua mão agarrou o braço de Muriel e a empurrou rudemente para dentro do banheiro, fechando a porta atrás delas.

Ela tirou um celular do bolso e começou a digitar na tela.

— Aproveite sua última mijada como uma mulher livre. — falou, zombando-a. — Depois da terapia de eletrochoque, terá que se contentar em mijar na cama.

Muriel ignorou o comentário. Ao passar pela banheira, viu Billy fervendo sob a superfície. Parecia tão plácido, tão cansado. Queria mergulhar ali e abraçá-lo uma última vez, contudo não podia, ainda não. Tinha algo a dizer primeiro.

Muriel levantou a camisola e sentou-se no vaso sanitário. Apoiou os cotovelos nas coxas e colocou a cabeça entre as mãos.

— Não era assim que eu planejava fazer isso. — disse ela a Billy enquanto sua bexiga esvaziava.

Shelly ergueu os olhos do celular e a olhou de soslaio.

— É, não diga.

No entanto Muriel não a ouviu. Estava muito focada no marido.

— Achei que teríamos mais tempo. Achei que ficaríamos juntos até o fim, como você disse. Desta vez, pelo menos. Poucas pessoas têm uma segunda chance...

— Com quem está falando?

— Por favor... — disse Muriel, olhando para a mulher. — Deixe-me dizer uma coisa.

Seu olhar se voltou para a banheira novamente.

— Billy McAuley, você é o...

— Quer calar a boca? — disse Shelly, guardando o telefone de volta no bolso numa demonstração infantil de irritação.

Muriel respirou fundo várias vezes. Encarou a mulher com os olhos úmidos e lacrimejantes, o lábio inferior tremendo.

— Deixe-me dizer o que tenho a dizer. É tudo o que peço. — ela se virou para a banheira e tentou falar, as palavras presas na garganta. — Billy... — conseguiu dizer. — Tem sido...

— Cala a boca! — disse Shelly, enquanto atravessava o linóleo em direção a Muriel, agarrando seu braço e quase o arrancando do lugar. — Já chega dessa merda! — gritou, enquanto Muriel caía para a frente, estendendo a mão para conter a queda. Ela a pressionou contra o peito de Shelly, e o impulso a empurrou com força. Tentando manter o equilíbrio, Shelly cambaleou para trás, perdendo o equilíbrio e batendo na parede.

Seu corpo estremeceu, a boca se abrindo em um grito silencioso e desolado enquanto seus pés deslizavam e caía no chão, deixando um rastro espesso de sangue pela parede. Ela caiu de bunda com um solavanco, depois tombou para o lado, aterrissando de bruços no chão. Suas costas estavam vermelhas e encharcadas, o paletó aberto, revelando um corte enorme que percorria toda a sua espinha. O olhar de Muriel seguiu o rastro pela parede até a lâmina de barbear manchada de sangue.

Ela sorriu. Afinal, Billy a protegera!

Com um suspiro desesperado, Shelly se levantou. Sangue jorrou de sua carne dilacerada, respingando no linóleo.

— O que está acontecendo aí dentro? — gritou uma voz do corredor.

— Sua vagabunda! — Shelly balbuciou, com sangue escorrendo pelo canto da boca e duas marcas de dentes pontuando sua língua rosada. — O que você fez comigo?

A mulher avançou em direção à Muriel, com os braços estendidos, o sangue se acumulando abaixo. Bolhas de sabão subiram à superfície da água do banho, espirais douradas girando no ar enquanto Shelly cambaleava em direção a Muriel com uma careta torturada gravada no rosto. Ao se virar para observar o extraordinário espetáculo de luzes, sua expressão se transformando em perplexidade, e quando Billy se levantou da água, Shelly gritou de horror e tropeçou nos próprios pés, caindo em direção ao...

Crunch.

Seus dentes perfeitos bateram no vaso sanitário de porcelana. A fileira de cima se estilhaçou, pequenos fragmentos de esmalte empoeirado chovendo na água amarela. A mulher olhou para Muriel, com os olhos vidrados, os dentes nada mais que pontas afiadas projetando-se desordenadamente de gengivas rompidas.

Muriel não lhe deu atenção. Estava paralisada pelas cores refletidas nas paredes, girando e piruetando diante de seus olhos. Estava acontecendo.

Billy havia acordado.

Ele sentia o cheiro de sangue.

Um braço oleoso irrompeu da banheira, envolvendo o pescoço de Shelly. A mulher soltou um chiado assustado quando o cordão fino se apertou, cortando sua pele. O apêndice venoso inchou enquanto sugava o sangue que jorrava da garganta de Shelly, seu rosto ficando vermelho, depois azul, depois roxo.

— Oh, Billy! — disse Muriel, seu coração dançando de alegria enquanto esmagava a traqueia de Shelly. A mulher soltou uma última tosse selvagem, com plumas de sangue carmesim escorrendo pelo queixo. Seu pescoço não tinha mais do que 2,5 centímetros de largura agora, sua cabeça bulbosa balançando para frente e para trás como um balão preso a uma vara. Então a pele se desfiou, rasgando-se, enquanto a coluna vertebral se desfazia em pó fino e a cabeça de Shelly se desprendeu e caiu no linóleo.

O sangue jorrou do toco retorcido e quebrado sobre o torso da mulher, enquanto o braço de Billy tateava freneticamente pelo chão.

Muriel ergueu a cabeça decepada da mulher pelos cabelos emaranhados, a boca travada em um rosnado macabro, os olhos injetados de sangue e aterrorizados. Era surpreendentemente pesada, mas, afinal, fazia muitos anos que Muriel não segurava uma cabeça decapitada. A lembrança daquela noite em que o Charlotte Dane bateu contra as rochas e da carnificina que arrastou até a praia. Supôs, de certa forma, que aquilo tinha sido um presságio.

— Shelly, porra, me responda! — Grant rugiu do corredor.

Muriel sorriu e jogou a cabeça na água da banheira com um estrondoso barulho, ouvindo alegremente Billy se alimentar.

A porta do banheiro se abriu de repente e lá estava Grant, ladeado por seus seguranças, com as armas apontadas em sua direção. Ela estava cercada de sangue, e o cadáver sem cabeça de Shelly jazia rígido e sem vida em seu colo.

— Meu Deus! — disse Grant. — O que você fez?

Muriel o encarou.

— Eu ficava dizendo a ela que era a Sra. McAuley. — disse ela.

Os olhos de Grant permaneceram fixos em Muriel.

— Do que diabos está falando?

Muriel não conseguia parar de sorrir.

— Gostaria que conhecesse meu marido, Sr. Grant.

***

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