Capítulo 34: Espadas Esquecidas
Vorzheva estava furiosa. O pincel tremia em sua mão, e o traço vermelho escorreu para o seu queixo.
— Veja o que fiz! — disse ela, a irritação acentuando seu forte sotaque dos Thrithings. — Você é cruel por me apressar. — ela limpou a boca com um lenço e recomeçou.
— Por Aedon, mulher, há assuntos mais importantes em jogo do que sua pintura labial. — Josua se levantou e retomou seu andar de um lado para o outro.
— Não fale dessa forma comigo, senhor! E não ande assim atrás de mim... — ela acenou com a mão, procurando as palavras. — Para lá e para cá, para lá e para cá. Se precisa me jogar no corredor como uma prostituta, pelo menos me diga logo para que possa me preparar.
O Príncipe pegou um atiçador de lareira e se abaixou para mexer nas brasas.
— Você não será ‘jogada no corredor’, minha senhora.
— Se sou sua senhora... — Vorzheva franziu a testa. — Então por que não posso ficar? Sente vergonha de mim?
— Porque falaremos de coisas que não lhe dizem respeito. Se não percebeu, estamos nos preparando para a guerra. Lamento se isso lhe causa algum incômodo. — ele grunhiu e se levantou, colocando o atiçador cuidadosamente de volta contra a lareira. — Vá falar com as outras damas. Agradeça por não ter que carregar meus fardos.
Vorzheva se virou para encará-lo.
— As outras damas me odeiam! — exclamou, com os olhos semicerrados e uma mecha de cabelo preto caindo solta sobre sua bochecha. — Eu as ouço cochichando sobre a vadia do Príncipe Josua, lá das pradarias. E as odeio... As vacas do norte! Nas terras de meu pai, elas seriam açoitadas por tamanha... Tamanha... — Vorzheva lutou com a língua ainda desconhecida. — Tamanha falta de respeito! — e respirou fundo para conter o tremor.
— Por que o senhor é tão frio comigo? — perguntou. — E por que me trouxe aqui, a este país frio?
O Príncipe ergueu os olhos e, por um instante, seu semblante severo suavizou-se.
— Às vezes também me pergunto. — sua cabeça balançou lentamente. — Por favor, se despreza a companhia das outras damas da corte, vá e peça ao harpista para cantar para você. Por favor. Não quero discutir esta noite.
— Nem em nenhuma outra noite! — retrucou Vorzheva. — Parece não me querer de jeito nenhum... Porém coisas antigas, sim, sim, essas lhe interessam! Você e seus livros antigos!
A paciência de Josua estava se esgotando.
— Os eventos dos quais falaremos esta noite são antigos, sim, contudo sua importância reside em nossa luta atual. Maldita seja, mulher, sou um Príncipe do reino e não posso fugir das minhas responsabilidades!
— Você se sai melhor nisso do que pensa, Príncipe Josua. — respondeu Vorzheva em um gélido tom, jogando a capa sobre os ombros.
Ao chegar à porta, ela se virou.
— Detesto o jeito como pensa apenas no passado... Livros antigos, batalhas antigas, história antiga... — seu lábio se curvou em um sorriso irônico. — Amores antigos.
A porta se fechou atrás dela.
***
— Obrigado, Príncipe, por nos receber em seus aposentos. — disse Binabik. Seu rosto redondo demonstrava preocupação. — Eu não teria feito tal pedido se não o considerasse importante.
— Claro, Binabik. — disse o Príncipe. — Também prefiro conversar em um ambiente mais tranquilo.
O gnomo e o velho Jarnauga puxaram banquinhos de madeira dura para se sentarem ao lado de Josua à mesa. Padre Strangyeard, que os acompanhava, caminhava sem fazer barulho pela sala, observando as tapeçarias. Em todos os seus anos em Naglimund, era a primeira vez que entrava nos aposentos privados do Príncipe.
— Ainda estou atordoado com o que ouvi ontem à noite. — disse Josua, gesticulando em seguida para as folhas de pergaminho que Binabik havia espalhado à sua frente. — Agora está me dizendo que há mais que preciso saber? — o Príncipe deu um pequeno sorriso pesaroso. — Deus deve estar me castigando, pegando meu pesadelo de ter que comandar um castelo sitiado e complicando-o ainda mais com tudo isso.
Jarnauga inclinou-se para a frente.
— Contanto que o senhor se lembre, Príncipe Josua, que não estamos falando de um pesadelo, e sim de uma realidade sombria. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de pensar que isto é uma fantasia.
— O padre Strangyeard e eu passamos dias pesquisando nos arquivos do castelo... — disse Binabik. — Desde que cheguei, tentando descobrir o significado do Enigma das Espadas.
— O sonho que me contou? — perguntou Josua, folheando distraído as páginas escritas sobre a mesa. — Aquele que você e o menino tiveram na casa da feiticeira?
— E não só eles! — declarou Jarnauga, com os olhos afiados como lascas de gelo azul. — Nas noites antes de eu partir de Tungoldyr, também sonhei com um grande livro. Du Svardenvyrd estava escrito nele em letras de fogo.
— Já ouvi falar do livro de Nisses, é claro. — disse o Príncipe, assentindo. — Quando eu era um jovem estudante com os irmãos jesurianos. Era infame, todavia não existe mais. Certamente não vai me dizer que encontrou uma cópia aqui na biblioteca do nosso castelo?
— Não por falta de procurar. — respondeu Binabik. — Se tivesse sido em qualquer outro lugar que não fosse talvez o Sancellan Aedonitis, seria aqui. Strangyeard tem reunido uma biblioteca repleta de maravilhas.
— É muito gentil da sua parte. — disse o arquivista, estudando uma tapeçaria na parede, para que o seu rubor de prazer, talvez um tanto indecoroso, não comprometesse a sua reputação de historiador sensato.
— Na verdade, apesar de toda a investigação minha e de Strangyeard, foi Jarnauga quem veio a resolver uma parte do nosso problema. — continuou Binabik.
O ancião inclinou-se para a frente e bateu com um dedo magro no pergaminho.
— Foi um golpe de sorte que espero que seja um bom presságio para todos nós. Morgenes contatou-me uma vez para me fazer perguntas sobre Nisses... Que era, claro, um rimmerio como eu... Para ajudar a preencher algumas lacunas na sua biografia escrita do seu pai, o Rei John. Receio que não tenha sido de muita ajuda. Disse-lhe o que sabia. Porém me lembrei da sua pergunta.
— E... — prosseguiu Binabik, animado. — Mais um golpe de sorte. A única coisa que o jovem Simon salvou da destruição dos aposentos de Morgenes foi... Este livro! — ele agarrou um maço de folhas em sua mão curta e morena e o acenou. — ‘A Vida e o Reinado do Rei John, o Presbítero, por Morgenes Ercestres’. Doutor Morgenes de Erchester. De outra forma, o doutor está conosco aqui!
— Nós o devemos mais do que podemos expressar. — declarou Jarnauga solenemente. — Ele previu os dias sombrios e fez muitos preparativos... Alguns dos quais ainda desconhecemos.
— Contudo o mais importante para este momento... — interrompeu o gnomo. — É isto: sua biografia do Preste John. Veja!
O homenzinho empurrou os papéis na mão de Josua.
O Príncipe folheou-os, depois olhou para cima, com um pequeno sorriso.
— Ler a linguagem intrincada e arcaica de Nisses me faz lembrar dos meus tempos de estudante, vasculhando os arquivos do Sancellan Aedonitis. — Josua balançou a cabeça com pesar. — É fascinante, claro, e rezo para que um dia disponha do tempo de ler a obra completa de Morgenes, no entanto sigo sem entender. — sua mão ergueu a página que estava lendo. — Aqui está uma descrição da forja da lâmina Dor, entretanto não vejo nenhuma informação que Jarnauga já não tenha nos dado. De que nos adiantará isso?
Binabik, com a permissão de Josua, pegou o manuscrito de volta.
— Precisamos examinar mais de perto, Príncipe Josua. — falou. — Morgenes cita Nisses, e o fato de ter lido pelo menos parte de Du Svardenvyrd só confirma para mim a engenhosidade de Morgenes... Ele cita Nisses falando de outras duas ‘Grandes Espadas’. Duas a mais além da Dor. Aqui, deixe-me ler o que Morgenes diz serem as próprias palavras de Nisses. — Binabik pigarreou e começou.
“A primeira Grande Espada veio, em sua forma original, do Céu há mil anos.”
“Jesuris Aedon. A quem nós, da Mãe Igreja, chamamos de Filho e Avatar de Deus, ficou pendurado por nove dias e noites, pregado pelas mãos e pelos pés na Árvore da Execução na praça em frente ao Templo de Yuvenis em Nabban. Este Yuvenis era o deus pagão da Justiça, e o imperador de Nabban costumava enforcar criminosos tão diversos quanto os condenados por seus tribunais nos poderosos galhos da Árvore de Yuvenis. Assim que Jesuris do Lago foi pendurado, culpado de sacrilégio e rebelião por proclamar um Deus Único. Calcanhares acima da cabeça como uma carcaça de boi.”
“Naquela nona noite, houve um grande rugido e um clarão de fogo, e um raio impetuoso dos céus desceu e atingiu o templo, fazendo-o estalar em mil pedaços, matando todos os juízes e sacerdotes pagãos que lá estavam. Quando o cheiro e a fumaça se dissiparam, o corpo de Jesuris Aedon havia desaparecido, e um grande brado se ergueu, anunciando que Deus o havia restaurado ao céu e punido seus inimigos, embora outros dissessem que os pacientes discípulos de Jesuris haviam libertado seu corpo e escapado na confusão. Esses detratores foram rapidamente silenciados, e a notícia do milagre se espalhou por todos os cantos da cidade. Assim começou a queda dos deuses pagãos de Nabban.”
“Nos escombros fumegantes do templo jazia agora uma grande pedra fumegante. Os aedonitas proclamaram que ali estava o altar pagão, derretido pelos fogos vingativos do Deus Único.”
“Eu, Nisses, acredito que esta era uma Estrela flamejante dos céus que caiu na Terra, como acontece ocasionalmente.”
“Deste destroço fundido foi retirado um grande pedaço, e os ferreiros do Imperador o consideraram trabalhável, e o metal celeste foi martelado em uma grande lâmina. Em memória dos ramos flageladores que dilaceraram as costas de Jesuris, a espada estelar... Como suponho que seja... Foi chamada de ESPINHO, e nela havia um imenso poder...”
— Assim... — disse Binabik. — A espada Espinho, sendo transmitida através da linhagem dos governantes nabbanos, chegou finalmente a...
— A Sir Camaris, o amigo mais querido de meu pai. — concluiu Josua. — As histórias sobre a espada Espinho de Camaris são muitas, porém não sabia até hoje de suas origens... Se Nisses estiver falando a verdade. Esta passagem tem um quê de heresia.
— Aquelas de suas afirmações que podem ser comparadas com a verdade se mostram verdadeiras, Vossa Alteza. — disse Jarnauga, acariciando a barba.
— Ainda assim... — disse Josua. — O que isso significa? A espada de Camaris se perdeu quando ele se afogou.
— Permita-me compartilhar mais um trecho dos escritos de Nisses. — respondeu Binabik. — Aqui, onde fala da terceira parte do nosso enigma.
“A segunda das Grandes Espadas veio do Mar, viajando pelo oceano salgado do Oeste até Osten Ard.”
“Por muitos anos, os Saqueadores Marinhos vinham sazonalmente a esta terra do distante e frio país que chamavam de Ijsgard, apenas para retornar através das ondas quando seus saques terminavam.”
“Então, alguma Tragédia ou Acontecimento terrível em sua terra natal fez com que os homens de Ijsgard abandonassem aquela terra e trouxessem suas famílias em barcos para Osten Ard, para se estabelecerem em Rimmersgardia, no Norte, a terra do meu próprio nascimento.”
“Quando desembarcaram, seu rei Elvrit agradeceu a Udun e aos outros deuses pagãos, e ordenou que a quilha de ferro de seu barco-dragão fosse transformada em uma espada para proteger seu povo em sua nova terra.”
“Assim, a quilha foi entregue aos dverningos, uma raça secreta e astuta, que separaram o metal puro e valioso por meios desconhecidos e forjaram uma lâmina longa e brilhante.”
“Todavia na barganha pelo pagamento, o Rei Elvrit e o mestre dos dverningos desentenderam-se, e o Rei matou o ferreiro e tomou a espada sem pagar, o que foi a causa de muita desgraça posterior.”
“Pensando em sua chegada a este Novo país, Elvrit nomeou a espada de MINNEYAR, que significa ‘Ano da Memória’.”
O gnomo terminou e caminhou até a mesa para beber da jarra de água que ali havia.
— Então, Binabik de Yiqanuc, duas espadas poderosas. — disse Josua. — Talvez este ano terrível tenha amolecido minha mente, não consigo imaginar que significado elas tenham para nós.
— Três espadas! — retificou Jarnauga. — Contando com Jingizu de Ineluki, a que chamamos de Dor. Três grandes espadas.
— Você precisa ler esta última parte do livro de Nisses que Morgenes citou, Príncipe Josua. — disse Strangyeard, enfim juntando-se a eles. Ele pegou os pergaminhos que Binabik havia colocado sobre a mesa. — Aqui, por favor. Este pequeno trecho em rima do final dos escritos do louco.
“Quando a geada crescer no sino de Claves...”
Josua leu em voz alta.
“E as Sombras caminharem pela estrada,
quando a água escurecer no poço,
Três Espadas devem retornar.”
“Quando os Bukken rastejarem da Terra,
e os Hunën descerem das alturas,
quando o Pesadelo sufocar o Sono tranquilo,
Três Espadas devem retornar.”
“Para mudar o rumo do Destino,
para dissipar as névoas do Tempo,
se o Precoce resistir ao Tardio,
Três Espadas devem retornar...”
— Acho... Acho que entendi. — disse o Príncipe, com crescente interesse. — Isso quase soa como uma profecia dos nossos dias... Como se Nisses de alguma forma soubesse que Ineluki um dia retornaria.
— Sim! — disse Jarnauga, penteando a barba com os dedos enquanto olhava por cima do ombro de Josua. — E aparentemente, se as coisas forem para se acertar, ‘Três espadas devem retornar’.
— Entendemos, Príncipe... — disse Binabik. — Que se de alguma forma o Rei da Tormenta puder ser derrotado, será encontrando as três espadas.
— As três espadas de que Nisses fala? — perguntou Josua.
— Ao que parece.
— Entretanto, se o que o garoto Simon viu estiver correto, Dor já está em posse do meu irmão. — o Príncipe franziu a testa, a testa pálida marcada pelos pensamentos. — Se fosse tão simples ir buscá-la em Hayholt, não estaríamos nos escondendo aqui em Naglimund.
— Vamos deixar para nos preocupar com Dor por último, Príncipe. — disse Jarnauga. — Precisamos agir agora para garantir as outras duas. Meu nome vem dos meus olhos e da minha visão treinada, porém nem mesmo eu consigo ver o futuro. Talvez surja uma maneira de tomarmos Dor de Elias, ou talvez este cometa algum erro. Não, são Espinho e Minneyar que precisamos encontrar agora.
Josua recostou-se na cadeira, cruzando um tornozelo sobre o outro e pressionando os dedos sobre os olhos semicerrados.
— Tudo isto parece uma história infantil! — exclamou. — Como meros homens podem sobreviver a tempos assim? Inverno rigoroso no mês de junen... O Rei da Tormenta ressuscitado, que é um Príncipe sitha morto... E agora uma busca desesperada por espadas há muito esquecidas... Que loucura! Tamanha insensatez! — seus olhos se abriram e sentou-se. — Contudo o que podemos fazer? Eu acredito em tudo... Então devo estar louco também.
O Príncipe levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. Os outros o observavam, gratos por, apesar da tênue esperança, ao menos terem convencido Josua da sombria e estranha verdade.
— Padre Strangyeard... — chamou, enfim. — Poderia ir encontrar o Duque Isgrimnur? Mandei meus pajens e todos os outros embora para que tivéssemos privacidade.
— Certamente! — disse o arquivista, e saiu apressado da habitação, com as vestes esvoaçando em seu corpo esguio.
— Não importa o que aconteça... — disse Josua. — Terei muito a explicar no Raed desta noite. Gostaria de ter Isgrimnur ao meu lado. Os barões o conhecem como um homem prático, enquanto eu ainda sou um tanto suspeito por meus anos em Nabban e meus costumes peculiares. — o Príncipe sorriu cansado. — Se essas loucuras forem verdadeiras, então nossa tarefa é ainda mais complexa do que antes. Se o Duque de Elvritshalla me apoiar, então acho que os barões também o farão... Embora não pretenda compartilhar esta última informação, mesmo que represente uma tênue réstia de esperança. Desconfio da capacidade de alguns lordes de manterem segredos tão extraordinários.
O Príncipe suspirou.
— Já era ruim o suficiente ter Elias como único inimigo. — ele ficou de pé, encarando a lareira crepitante. Seus olhos brilhavam, como se estivessem cheios de umidade refletida. — Meu pobre irmão.
Binabik ergueu os olhos, assustado com o tom do Príncipe.
— Meu pobre irmão. — tornou a dizer Josua. — Deve estar enfrentando o pesadelo agora de verdade... O Rei da Tormenta! As raposas brancas! Não consigo acreditar que soubesse o que estava fazendo.
— Alguém sabia o que eles faziam, Príncipe. — declarou o gnomo . — O mestre do Pico das Tormentas e seus asseclas não andam, creio eu, de casa em casa dançando como vendedores ambulantes, oferecendo seus produtos.
— Oh, não duvido que Pryrates tenha entrado em contato com eles de alguma forma. — disse Josua. — Conheço-o e sua sede profana por conhecimento proibido dos velhos tempos, no seminário dos irmãos jesurianos. — ele balançou a cabeça com pesar. — Mas Elias, embora corajoso como um urso, sempre desconfiou dos segredos em livros antigos e desprezou a erudição. Também temia falar de espíritos ou do demoníaco. Tudo piorou depois... Depois que sua esposa morreu. Imagino o que achou que valia o terror que deve colher por esse acordo. E me pergunto se agora se arrepende... Que aliados terríveis! Pobre e tolo Elias...
***
Estava chovendo novamente, e quando Strangyeard voltou com o Duque, ambos estavam encharcados da travessia do longo pátio. Isgrimnur estava parado na porta dos aposentos de Josua, batendo o pé como um cavalo nervoso.
— Eu estava cuidando da minha esposa. — explicou. — Ela e as outras mulheres partiram antes da chegada de Skali e foram para a casa de Thane Tonnrud, seu tio. Ela trouxe meia dúzia dos meus homens e vinte mulheres e crianças. As pontas dos seus dedos estão congelados, pobre Gutrun.
— Sinto muito por tê-lo chamado para longe dela, Isgrimnur, ainda mais se estiver ferida. — desculpou-se o Príncipe, levantando-se e apertando a mão do velho Duque.
— Ah, não há muito que eu possa fazer. Tem nossas moças para ajudá-la. — sua testa franziu, embora houvesse orgulho em sua voz. — É uma mulher forte e me deu filhos fortes.
— E nós levaremos ajuda a Isorn, seu primogênito, não tema. — Josua conduziu Isgrimnur até a mesa e lhe entregou o manuscrito de Morgenes. — Pode ser, no entanto, que tenhamos que lutar em mais de uma batalha.
Quando o Duque leu sobre o Enigma das Espadas e fez algumas perguntas, voltou a ler as páginas.
— É este trecho de rima, então? — perguntou por fim. — Você acha que é a chave para tudo?
— Se você se refere ao tipo de chave que tranca uma porta. — disse Jarnauga. — Sim, esperamos que sim. Pois é isso que devemos fazer, ao que parece: encontrar as espadas da profecia de Nisses, espadas que manterão o Rei da Tormenta à distância.
— Contudo seu garoto afirmou que Elias possui a espada sitha... E, de fato, eu o vi usando uma espada desconhecida quando me disse que poderia partir para Elvritshalla. Era uma coisa grande e de aparência estranha.
— Isto nós sabemos, Duque. — interrompeu Binabik. — São as outras duas que precisamos encontrar primeiro.
Isgrimnur olhou desconfiado para o gnomo.
— E o que quer de mim, homenzinho?
— Apenas sua ajuda, de qualquer forma que puder oferecê-la. — disse Josua, estendendo a mão para dar um tapinha no ombro do rimmerio. — E Binabik de Yiqanuc está aqui pelos mesmos motivos.
— Você ouviu falar do destino de Minneyar, a espada de Elvrit? — perguntou Jarnauga. — Confesso que deveria saber, já que o propósito da nossa Liga é reunir esse tipo de conhecimento, todavia Minneyar desapareceu das histórias que conhecemos.
— Sei um pouco por causa da minha avó, que era contadora de histórias. — disse Isgrimnur, alisando o bigode enquanto se lembrava. — Passou pela linhagem de Elvrit até Fingil Mão Vermelha, e de Fingil para seu filho Hjeldin, e então, quando Hjeldin caiu da torre... Com Nisses morto no chão atrás dele... O tenente de Hjeldin, Ikferdig, a tomou, junto com a coroa de Fingil dos rimmerios e o domínio de Hayholt.
— Ikferdig morreu em Hayholt. disse Strangyeard timidamente, aquecendo as mãos na lareira. — ‘O Rei Queimado’, é como é chamado nos meus livros.
— Morto pelo fogo de dragão de Shurakai, o Vermelho. — disse Jarnauga. — Assado em sua sala do trono como um coelho.
— Então... — Binabik disse pensativamente, enquanto o gentil Strangyeard estremecia com as palavras de Jarnauga. — Minneyar está ou dentro das muralhas de Hayholt em algum lugar... Ou foi destruída pelo hálito flamejante do dragão vermelho.
Josua se levantou e caminhou até a lareira, onde ficou encarando as chamas trêmulas. Strangyeard se afastou um pouco para não incomodar seu Príncipe.
— Duas alternativas confusas e infelizes. — disse Josua, fazendo uma careta e se virando para o Padre Strangyeard. — Vocês não me trouxeram boas notícias hoje, sábios. — ao ouvir suas palavras, o arquivista pareceu taciturno. — Primeiro me dizem que nossa única esperança é encontrar esse trio de lâminas lendárias, e agora dizem que duas delas estão na fortaleza do meu irmão, nosso inimigo... Se é que existem. — o Príncipe suspirou, consternado. — E a terceira? Será que Pryrates a usa para cortar a carne à mesa?
— Espinho... — disse Binabik, subindo para se empoleirar na beirada da mesa. — A espada do grande cavaleiro que foi Camaris.
— Feita da pedra estelar que destruiu o templo de Yuvenis na antiga Nabban. — disse Jarnauga. — Porém que certamente foi para o mar com o grande Camaris, quando este foi levado pela correnteza na Baía de Firannos.
— Viu só! — cuspiu Josua. — Duas em poder do meu irmão, e a terceira nas garras ainda mais firmes do oceano ciumento. Estamos amaldiçoados antes mesmo de começar.
— Sem dúvida, também pareceria uma chance impossível que a obra de Morgenes sobrevivesse à destruição dele e de seus aposentos... — disse Jarnauga, com voz severa. — E que chegasse até nós aqui, em segurança, através do perigo e do desespero, para que pudéssemos ler a profecia de Nisses. Contudo ela sobreviveu. E chegou até nós. Sempre há esperança.
— Com licença, Príncipe, no entanto parece haver apenas uma coisa a fazer. — disse Binabik, assentindo sabiamente sobre a mesa. — É voltar aos arquivos e procurar mais a fundo, até encontrarmos a resposta para o enigma de Espinho e das outras lâminas. E precisamos encontrá-la em breve.
— Em breve, de fato. — disse Jarnauga. — Pois estamos desperdiçando um tempo precioso como diamantes.
— Por todos os meios. — disse Josua, puxando a cadeira para perto da lareira e se deixando cair nela. — Por todos os meios, apressem-se, no entanto temo que nosso tempo já tenha se esgotado.
***
— Maldito seja! — exclamou Simon, atirando mais uma pedra da ameia contra o vento.
Naglimund parecia estar em uma vasta extensão de nada cinza e espumoso, uma montanha brotando de um mar de chuva turbulenta.
— Maldito seja! — acrescentou, enquanto se abaixava para procurar outra pedra na parede de pedra molhada.
Sangfugol olhou para o amigo, seu elegante chapéu agora uma massa mole e encharcada na cabeça.
— Simon. — chamou, irritado. — Você não pode ter tudo. Primeiro os amaldiçoa por te arrastarem como um saco de vendedor ambulante, depois blasfema e atira pedras porque não foi convidado para as deliberações da tarde.
— Eu sei! — disse Simon, lançando outro projétil das muralhas do castelo. — Não sei o que quero. Não sei de nada.
O harpista franziu a testa.
— O que eu gostaria de saber é... O que estamos fazendo aqui em cima? Não há lugares melhores para nos sentirmos miseráveis e excluídos? Está frio como o banheiro de um cavador de poços nestas ameias. — Sangfugol deixou seus dentes baterem por um momento, na esperança de inspirar piedade. — Por que estamos aqui em cima?
— Porque clareia a mente de um homem, um pouco de vento e chuva. — respondeu Towser, voltando pela ameia em direção a seus dois companheiros. — Não há cura melhor para uma noite de bebedeira.
O velhinho piscou para Simon, que imaginou que Towser já teria descido há muito tempo, não fosse a visão agradável de Sangfugol tremendo em seu belo robe de veludo cinza.
— Bem... — resmungou o harpista, miserável como um gato encharcado. — Você bebe como um jovem, Towser, ou como um adolescente... Então, suponho que não seja surpresa vê-lo saltitando pelos muros por diversão, como um menino travesso.
— Ah, Sangfugol... — disse Towser com um sorriso enrugado, observando outro dos projéteis de Simon lançar um jato d’água do lago cheio de buracos de chuva que se formava onde antes ficava o pátio dos comuns. — Está sendo muito... Ei! — Towser apontou. — Aquele não é o Duque Isgrimnur? Ouvi dizer que havia retornado. Ei, Duque!
O bobo da corte gritou e acenou para a figura robusta. Isgrimnur, semicerrando os olhos contra as gotas de chuva inclinadas, olhou para cima.
— Duque Isgrimnur! É o Towser!
— É ele mesmo? — exclamou o Duque. — Droga, é você mesmo, seu velho safado!
— Suba, suba! — disse Towser. — Venha me contar as novidades!
— Não deveria me surpreender. — disse Sangfugol sarcasticamente enquanto o Duque atravessava o terreno alagado em direção à escada em espiral na parede. — A única pessoa, além de um velho louco, que subiria aqui por vontade própria seria um rimmerio. Talvez esteja até quente demais para ele, já que não está nevando nem caindo granizo.
Isgrimnur esboçou um sorriso cansado e acenou com a cabeça para Simon e o harpista, depois se virou, apertou a mão venosa do bobo da corte e lhe deu um tapinha amigável no ombro. Ele era muito mais alto e corpulento que Towser, parecendo uma ursa dando um tapinha em seu filhote.
Enquanto o Duque e o bobo da corte trocavam notícias, Simon atirava pedras e ouvia, e Sangfugol permanecia com uma expressão de sofrimento paciente e desesperançoso. Logo, como era de se esperar, a conversa do rimmerio passou de amigos em comum e assuntos familiares para tópicos mais sombrios. Enquanto Isgrimnur falava da ameaça crescente da guerra e da sombra no norte, Simon sentiu o frio que os ventos gélidos, estranhamente, haviam ajudado a dissipar por um tempo voltar com força. Quando o Duque começou a falar em tons sussurrados sobre o Governante do Norte, e então interrompeu, dizendo que algumas coisas eram assustadoras demais para serem ditas de forma descuidada, o frio pareceu penetrar ainda mais no ser de Simon. Olhou para a distância turva, para o punho escuro da tempestade que pairava além da chuva no horizonte norte, e sentiu-se deslizando de volta para sua jornada na estrada dos sonhos...
“O impulso nu da montanha de pedra, seu halo de chamas índigo e amarelas. A rainha de máscara prateada em seu trono de gelo e as vozes cantando na fortaleza rochosa...” pensamentos negros o pressionavam, esmagando-o como a borda de uma roda larga. Seria tão fácil, tinha certeza, seguir em frente para a escuridão, para o calor além do frio da tempestade...
“Está tão perto... Tão perto...”
— Simon! — disse uma voz em seu ouvido.
Uma mão agarrou seu cotovelo. Olhou para baixo, assustado, e viu a borda da ameia a centímetros de seu pé, e a água agitada pelo vento do pátio logo abaixo.
— O que está fazendo? — perguntou Sangfugol, sacudindo seu braço. — Se pulasse esse pequeno muro, teria mais do que ossos quebrados.
— Eu estava... — disse Simon, sentindo uma névoa escura ainda turvando seus pensamentos, uma névoa que demorava a se dissipar. — Eu...
— Espinho? — disse Towser em voz alta, respondendo a algo que Isgrimnur havia dito. Simon se virou para ver o pequeno bobo da corte puxando a capa do rimmerio como uma criança importuna. — Espinho, foi o que disse, certo? Bem, então, por que não veio até mim ao saber? Por que não veio até o velho Towser? Sei tudo o que há para saber, se é que alguém sabe!
O velho se virou para Simon e o harpista.
— Ora, quem esteve com o nosso John por mais tempo do que qualquer outro? Quem? Eu, é claro. Brinquei, dei cambalhotas e toquei para ele por sessenta anos. E o grande Camaris também. Eu o vi chegar à corte. — ele se virou de volta para encarar o Duque, e havia uma luz em seus olhos que Simon nunca tinha visto antes. — Sou o homem que você procura! — disse Towser com orgulho. — Rápido! Levem-me ao Príncipe Josua.
O velho bobo da corte de pernas arqueadas quase parecia dançar, tão leves eram seus passos enquanto conduzia o um tanto atônito rimmerio em direção às escadas.
— Graças a Deus e aos Seus anjos. — disse Sangfugol, observando-os partir. — Sugiro irmos para encher nossos estômagos com algo... Uma umidade interior para compensar a umidade exterior. — o harpista conduziu Simon, que balançava a cabeça negativamente, para baixo das ameias chuvosas em direção à escadaria iluminada por tochas, onde o som ecoava, protegendo-o dos ventos do norte por um instante e trazendo-o para o calor.
***
— Entendemos seu papel nesses eventos, bom Towser. — disse Josua, impaciente. O Príncipe, talvez para se proteger do frio onipresente, havia enrolado um cachecol de lã com firmeza em volta do pescoço. A ponta de seu nariz fino estava rosada.
— Estou apenas preparando o terreno, por assim dizer, Vossa Alteza. — disse Towser com complacência. — Se me permite uma taça de vinho para ajudar a suavizar a conversa, irei direto ao ponto principal.
— Isgrimnur... — gemeu Josua. – Teria a gentileza de encontrar algo para beber para o nosso venerável bobo da corte, ou temo que ficaremos aqui até Aedontide esperando pelo resto da história.
O Duque de Elvritshalla foi até o armário de cedro ao lado da mesa de Josua e encontrou uma jarra de vinho tinto Perdruin.
— Aqui está. — falou, entregando uma taça cheia a Towser, que bebeu um gole e sorriu.
“Não é o vinho que ele quer.” pensou o rimmerio. “É a atenção. Estes são dias sombrios o suficiente para os jovens e úteis, quanto mais para um velho trapaceiro cujo mestre está morto há dois anos.”
Seus olhos encararam o rosto enrugado do bobo da corte e, por um momento, pensou ter visto o semblante infantil preso por baixo, como atrás de uma cortina fina.
“Que Deus me conceda uma morte rápida e honrosa.” rezou Isgrimnur. “E nunca me deixe ser um daqueles velhos tolos que se sentam junto à fogueira dizendo aos jovens que as coisas nunca mais serão como antes. Ainda assim...” pensou enquanto voltava para sua cadeira, ouvindo o uivo lupino dos ventos lá fora. “Pode ser verdade desta vez. Talvez tenhamos visto dias melhores. Talvez não reste nada além de uma batalha perdida contra a escuridão crescente.”
— Veja bem... — dizia Towser. — A espada de Camaris, Espinho, não foi com ele para o oceano. A lâmina foi entregue para ser guardada por seu escudeiro, Colmund de Rodstanby.
— Entregou sua espada? — perguntou Josua, intrigado. — Isso não condiz com nenhuma das histórias que já ouvi sobre Camaris-sá-Vinitta.
— Ah, mas você não o conhecia durante esse último ano... E como poderia, já que tinha acabado de nascer? — Towser tomou outro gole e olhou meditativamente para o teto. — Sir Camaris ficou estranho e caiu em desgraça depois que sua mãe, a Rainha Ebekah, morreu. Ele era seu protetor especial, sabe, e venerava até as ladrilhos que ela pisava, como se fosse a própria Elisia, a Mãe de Deus. Sempre achei que se culpava pela morte dela, como se pudesse de alguma forma ter curado sua saúde debilitada pela força das armas, ou pela pureza de seu coração... Pobre tolo.
Vendo a impaciência de Josua, Isgrimnur inclinou-se para a frente.
— Então deu a espada estelar Espinho ao seu escudeiro?
— Sim, sim. — disse o velho irritado, não gostando de ser apressado. — Quando Camaris se perdeu no mar perto da ilha de Harcha, Colmund a tomou para si. Depois voltou e recuperou as terras de sua família em Rodstanby, na Marca Gelada, e se tornou o Barão de uma província de bom tamanho. Espinho era uma arma famosa em todo o mundo, e quando seus inimigos a viam... Pois era inconfundível, toda preta brilhante, exceto pelo cabo de prata, uma coisa bela e perigosa... Nenhum deles ousava enfrentá-lo. Era raro que precisasse sequer desembainhá-la.
— Então é em Rodstanby? — Binabik disse do canto, cheio de ânimo. — Fica a dois dias de cavalgada de onde estamos agora!
— Não, não, não! — rosnou Towser, acenando com sua taça para Isgrimnur encher outra vez. — Se você esperar um pouco, gnomo, eu lhe contarei tudo.
Antes que Binabik, o Príncipe ou qualquer outra pessoa pudesse responder, Jarnauga se levantou de sua posição agachada junto à lareira e se inclinou em direção ao pequeno bobo da corte.
— Towser! — disse o rimmerio, e sua voz era tão dura e fria quanto gelo nas palhas do telhado. — Não podemos esperar no seu ritmo. Há uma escuridão se espalhando do norte, uma sombra fria e fatal. Precisamos da espada, entendeu? — ele aproximou ainda mais seu rosto afiado do de Towser, e as sobrancelhas espessas do homenzinho se ergueram em alarme. — Precisamos encontrar Espinho, pois em breve o próprio Rei da Tormenta estará batendo à nossa porta. Entendeu?
Towser ficou boquiaberto enquanto Jarnauga voltava a se agachar junto à lareira.
“Bem...” ponderou Isgrimnur. “Se quiséssemos as últimas notícias gritadas por toda Naglimund, agora as teremos. Mesmo assim, parece que ele colocou um pouco de atrito na sela de Towser.”
Levou alguns instantes para o bobo da corte conseguir desviar o olhar, surpreso e fascinado, do nortista de olhar penetrante. Quando se virou, já não parecia estar desfrutando tanto de sua posição.
— Colmund... — retomou. — Sir Colmund ouviu histórias de viajantes sobre o lendário tesouro do dragão Igjarjuk, nas alturas da montanha Urmsheim. Dizem que era um tesouro mais rico do que qualquer outro no mundo inteiro.
— Só um habitante das planícies pensaria em procurar um dragão da montanha... E por ouro! — disse Binabik, com desgosto. — Meu povo vive há muito tempo perto de Urmsheim, e vivemos muito tempo porque não vamos para lá.
— Entretanto, veja bem... — disse o velho Towser. — O dragão tem sido apenas uma história por gerações. Ninguém o viu, ninguém ouviu falar... Exceto por andarilhos enlouquecidos pela neve. E Colmund tinha a espada Espinho, uma espada mágica para guiá-lo em uma busca pelo tesouro de um dragão mágico!
— Mas que tolice! — disse Josua. — Ele não tinha tudo o que queria? Um poderoso baronato? A espada de um herói? Por que deveria sair correndo atrás da visão de um louco?
— Maldito seja Josua! — praguejou Isgrimnur. — Por que os homens fazem as coisas que fazem? Por que penduraram Nosso Senhor Jesuris de cabeça para baixo na Árvore? Por que Elias aprisionaria seu irmão e faria pactos com demônios quando já é o Supremo Rei de toda Osten Ard?
— De fato, existem coisas nos homens e nas mulheres que os fazem almejar o que está além de seu alcance. — disse Jarnauga do canto de sua lareira. — Às vezes, as coisas que procuram estão além dos limites da compreensão.
Binabik deu um pulo leve para o chão.
— Estamos falando demais sobre coisas que nunca poderemos saber. — interviu. — Nossa pergunta é: onde está a espada? Onde está Espinho?
— Perdida no norte, tenho certeza. — disse Towser. — Nunca ouvi dizer que Sir Colmund voltou de sua busca. Um viajante contou que ele se tornou rei dos Hunën e segue vivendo lá, em uma fortaleza de gelo.
— Parece que sua história foi distorcida e misturada com antigas memórias de Ineluki. — disse Jarnauga, considerando o que ouviu.
— Sabe-se que chegou até o mosteiro de São Skendi em Vestvennby... — o Padre Strangyeard interrompeu inesperadamente do fundo da sala. Ele havia dado uma rápida saída e voltado sem que ninguém percebesse; um leve rubor de prazer adornava suas bochechas finas. — As palavras de Towser despertaram uma lembrança. Pensei que ainda tivesse alguns dos livros monásticos da ordem de Skendi, resgatados do incêndio durante as guerras da Marca Gelada. Aqui está o livro de contabilidade da casa, referente ao ano de fundação, 1131. Veja, lista o equipamento do grupo de Colmund. — o padre passou o livro para Josua, que o ergueu à luz da fogueira.
— Carne seca e frutas. — leu Josua, esforçando-se para decifrar as palavras desbotadas. — Mantos de lã, dois cavalos... — seus olhos se ergueram do livro. — Diz aqui um grupo de ‘doze e um’... Treze. — o livro foi passado para Binabik, que o examinou com Jarnauga junto à fogueira.
— Então eles devem ter tido azar. — disse Towser, enchendo outra vez sua taça. — As histórias que ouvi diziam que partiu de Rodstanby com mais de duas dúzias de seus melhores escolhidos a dedo.
Isgrimnur encarava o gnomo.
“Certamente é esperto.” pensou o rimmerio. “Embora não confio muito nele ou em sua espécie. E o que tem de poder sobre aquele garoto? Também não tenho certeza se gosto disso, apesar de que acredito que as histórias que ambos contam sejam em grande parte verdadeiras.”
— De que nos adianta tudo isso agora? — disse o Duque em voz alta. — Se a espada está perdida, está perdida, e devemos apenas fazer o melhor possível com nossas defesas aqui.
— Duque Isgrimnur... — disse Binabik. — Talvez o senhor não esteja entendendo: não temos escolha. Se de fato o Rei da Tormenta é nosso grande inimigo... Como acho que todos concordamos agora... Então a única esperança, ao que parece, é que consigamos as três espadas. Duas nos foram negadas por enquanto. O que nos deixa com Espinho, e devemos encontrá-la, se é que encontrá-la é possível.
— Não me de instruções, homenzinho. — rosnou Isgrimnur, contudo Josua acenou com a mão cansado para interromper a discussão.
— Silêncio agora! — disse o Príncipe. — Por favor, deixem-me pensar. Meu cérebro está febril com tantas loucuras amontoadas umas sobre as outras. Preciso de alguns momentos de silêncio.
Strangyeard, Jarnauga e Binabik debruçavam-se sobre o livro do monastério e o manuscrito de Morgenes, conversando em sussurros; Towser terminou seu vinho, Isgrimnur bebendo melancolicamente ao seu lado. Josua sentava-se, encarando o fogo. As feições cansadas do Príncipe pareciam pergaminho esticado sobre osso; o Duque de Elvritshalla mal conseguia suportar olhá-lo.
“Seu pai não parecia pior em seus últimos dias de vida.” refletiu Isgrimnur. “Ele terá forças para nos liderar através de um cerco, que parece estar chegando em breve? Terá forças até mesmo para sobreviver? Sempre foi um pensador, um homem preocupado... Embora, para ser justo, não seja nenhum novato com espada e escudo.”
Sem pensar duas vezes, levantou-se e caminhou a passos pesados até o lado do Príncipe, colocando uma pata de urso no ombro de Josua.
O Príncipe olhou para cima.
— Você pode me indicar um bom homem, meu velho amigo? Conhece alguém que tenha conhecimento sobre os territórios do nordeste?
Isgrimnur pareceu pensativo.
— Tenho dois ou três. Frekke, no entanto, é velho demais para uma jornada como a que imagino que esteja planejando. Einskaldir não sairia do meu lado a menos que eu o empurrasse para fora dos portões de Naglimund à ponta de lança. Além do mais, acho que precisaremos de sua ferocidade aqui, quando a luta ficar acirrada e sangrenta. É um texugo: de sangue feroz, e melhor ainda quando encurralado em uma toca. — o Duque ponderou. — Dos demais, lhe daria Sludig. É jovem e forte, além de também ser inteligente. Sim, Sludig será o homem certo para o seu pedido.
— Ótimo. — Josua devolveu um lento aceno. — Tenho uns três ou quatro que enviarei, todavia um grupo pequeno é melhor do que um grande.
— Para quê, exatamente? — Isgrimnur olhou ao redor do cômodo, para sua solidez esparsa, e se perguntou uma vez mais se eles estavam perseguindo fantasmas, se o clima invernal havia de alguma forma afetado seu bom senso.
— Procurar a espada de Camaris, tio Pele de Urso. — disse o Príncipe com um pequeno sorriso. — É sem dúvida uma loucura, e não temos nada melhor para nos guiarmos além de histórias antigas e algumas palavras desbotadas em livros antigos, porém não é uma chance que podemos nos dar ao luxo de ignorar. É um inverno tempestuoso no mês de verão de juven. Nenhuma de nossas dúvidas pode mudar isso. — seu olhar percorreu ao redor da sala, com a boca franzida em pensamento.
— Binabik de Yiqanuc... — chamou, e o gnomo se apressou para o seu lado. — Você lideraria um grupo na trilha até Espinho? Você conhece as montanhas do norte melhor do que qualquer um aqui, exceto talvez Jarnauga, que espero que também vá.
— Seria uma grande honra, Príncipe. — disse Binabik, e se ajoelhou. Até Isgrimnur foi forçado a sorrir.
— Eu também me sinto honrado, Príncipe Josua. — disse Jarnauga, levantando-se. — Contudo acredito que não será possível. Aqui em Naglimund, serei mais útil. Minhas pernas estão velhas, no entanto meus olhos ainda são perspicazes. Ajudarei Strangyeard nos arquivos, pois segue havendo muitas perguntas a serem respondidas, muitos enigmas por trás da história do Rei da Tormenta e o paradeiro da espada de Fingil, Minneyar. E talvez haja outras maneiras pelas quais possa servi-lo também.
— Vossa Alteza... — perguntou Binabik. — Se houver alguma vaga, posso ter sua permissão para levar o jovem Simon? Morgenes pediu, como seu último desejo, que o menino fosse vigiado por meu mestre. Com a morte de Ookequk, sou o mestre agora e não me esquivaria dessa responsabilidade.
Josua pareceu cético.
— E seria cuidar do rapaz levá-lo em uma expedição insana para o norte inexplorado?
Binabik ergueu uma sobrancelha.
— Talvez inexplorado pela gente grande. É o pátio comum do meu povo qanuc. Além do mais, seria mais seguro deixá-lo trancado em um castelo preparado para guerrear contra o Supremo Rei?
O Príncipe levou a mão comprida ao rosto, como se sentisse dor de cabeça.
— Suponho que tem razão. Se esses tênues fios de esperança se perderem, não haverá lugares seguros para aqueles que se aliaram ao Senhor de Naglimund. Se o garoto quiser ir, pode levá-lo. — ele abaixou a mão e apertou o ombro de Binabik. — Muito bem, homenzinho, pequeno, mas corajoso. Volte aos seus livros, e lhe enviarei três bons erkynos e Sludig, o homem de Isgrimnur, pela manhã.
— Meus agradecimentos, Príncipe Josua. — Binabik assentiu. — Todavia acho que devemos partir à noite amanhã. Seremos um grupo pequeno, e nossa melhor chance é não atrair atenção maliciosa.
— Que assim seja! — disse Josua, levantando-se e erguendo a mão como que em bênção. — Quem sabe se esta é uma missão inútil ou o resgate de todos nós? Vocês deveriam estar partindo em meio a trombetas e aplausos. Em vez disso, a necessidade deve se sobrepor à honra, e a discrição deve ser a palavra de ordem. Saibam que nossos pensamentos estão com vocês.
Isgrimnur hesitou, depois inclinou-se para a frente e apertou a pequena mão de Binabik.
— Que coisa estranha... — falou. — Porém que Deus os acompanhe em sua jornada. Se Sludig se mostrar agressivo, sejam compreensivos. É um jovem impetuoso, contudo tem um bom coração e uma forte lealdade.
— Obrigado, Duque! — disse o gnomo, com seriedade. — Que seu deus nos abençoe de fato. Iremos a lugares desconhecidos.
— Como todos os mortais. — acrescentou Josua. — Mais cedo ou mais tarde.
***
— O quê? Você disse ao Príncipe e a todos para onde eu iria? — Simon cerrou os punhos de raiva. — Que direito tem de decidir por mim?
— Simon, meu amigo... — respondeu Binabik, com calma. — Você não tem ordens para ir. Só pedi a permissão de Josua para que participasse desta busca, e ela foi concedida. A escolha é sua.
— Droga! O que mais posso fazer agora? Se me negar, todos vão pensar que sou um covarde!
— Simon! — o homenzinho fez uma cara de paciência. — Primeiro, por favor, não use seus palavrões de soldado recém-aprendidos em mim. Nós, qanuc, somos um povo cortês. Segundo, não é bom se preocupar tanto com a opinião dos outros. De qualquer forma, ficar em Naglimund certamente não é para covardes.
Simon soltou uma grande nuvem de ar gélido e se abraçou. Ele olhou para o céu escuro, para o borrão opaco do sol escondido atrás das nuvens.
“Por que as pessoas sempre tomam decisões por mim sem me perguntar primeiro? Sou alguma criança por acaso?”
Permaneceu parado por alguns instantes, com o rosto vermelho não só pelo frio, até que Binabik estendeu uma mão pequena e gentil.
— Meu amigo, lamento que esta não tenha sido a honra que esperava... Uma honra de perigo terrível, é claro, mas uma honra. Expliquei a importância que damos a esta missão, de como o destino de Naglimund e de todo o norte pode depender de sua conclusão. E, claro, que todos podem perecer sem fama ou canções na vastidão branca do norte. — o gnomo deu um tapinha solene nos nós dos dedos de Simon e então enfiou a mão no bolso de seu casaco forrado de pele. — Aqui! — disse, e colocou algo duro e frio nos dedos de Simon.
Momentaneamente distraído, abriu a mão para olhar. Era um anel, um círculo fino e simples de algum metal dourado. Neste estava gravado um desenho simples: um oval alongado com um triângulo pontiagudo em uma das extremidades.
— O símbolo da Liga do Pergaminho. — explicou Binabik. — Morgenes amarrou isto na pata do pardal, junto com o bilhete de que falei antes. O final do bilhete dizia que era para você.
Simon ergueu o objeto, tentando captar um brilho da luz fraca do sol.
— Nunca vi o doutor usá-lo. — comentou, um pouco surpreso por não lhe trazer nenhuma lembrança. — Todos os membros da Liga têm um? Além do mais, como posso ser digno de usá-lo? Mal sei ler. Minha ortografia também não é muito boa.
Binabik sorriu.
— Meu mestre não tinha um anel assim, ou pelo menos nunca o vi. Quanto ao outro: Morgenes queria que você o tivesse, e isso é permissão suficiente, disso tenho certeza.
— Binabik... — chamou Simon, semicerrando os olhos. — Tem algo escrito na parte de dentro. — o garoto ergueu o anel para o gnomo inspecionar. — Não consigo ler.
O homenzinho estreitou os olhos.
— Está escrito em alguma língua sitha. — explicou, girando o anel para examinar sua borda interna. — É difícil de ler por ser muito pequeno, e em um estilo que desconheço. — ele o estudou por mais um instante.
— ‘Dragão’, esse caractere significa... — leu Binabik por fim. — E este significa, acredito, ‘Morte’... ‘Morte e o Dragão’? ‘Morte do Dragão’? — seu olhar se voltou para Simon, sorriu e deu de ombros. — O que possa significar, não tenho ideia. Meu conhecimento não é profundo o suficiente. Alguma presunção do seu doutor, é o que imagino... Ou talvez um lema de família. Talvez Jarnauga possa lê-lo com mais facilidade.
O anel deslizou com facilidade pelo terceiro dedo da mão direita de Simon, como se tivesse sido feito para ele. Morgenes era tão pequeno! Como poderia tê-lo usado?
— Você acha que é um anel mágico? — perguntou de repente, estreitando os olhos como se pudesse detectar feitiços rondando o círculo dourado como minúsculas abelhas.
— Se for assim... — disse Binabik, fingidamente sombrio. — Morgenes não incluiu nenhuma instrução para seu uso. — sua cabeça balançou. — Acho improvável. É uma lembrança de um homem que se importava com você.
— Por que está me dando isso agora? — perguntou Simon, sentindo uma certa tristeza apertada atrás dos olhos que estava determinado a resistir.
— Porque preciso partir amanhã à noite para o norte. Se decidir ficar aqui, talvez não tenhamos a oportunidade de nos encontrarmos outra vez.
— Binabik! — o aperto aumentou. Sentia-se como uma criança pequena sendo empurrada de um lado para o outro por anciãos valentões.
— É a verdade, apenas. — o rosto redondo do gnomo estava completamente sério agora. Sua mão foi erguida para evitar mais protestos e perguntas. — Agora você deve decidir, meu bom amigo. Vou para a região de neve e gelo, em uma missão que pode ser uma loucura e que pode custar a vida dos tolos que a seguem. Aqueles que ficarem enfrentarão a fúria do exército de um Rei. Uma escolha maligna, eu temo. — Binabik assentiu seriamente com a cabeça. — Porém, Simon, seja qual for a sua escolha, ir para o norte ou ficar para lutar por Naglimund... E pela Princesa, ainda seremos os melhores camaradas, verdade?
Ele ficou na ponta dos pés para dar um tapinha no braço de Simon, depois se virou e caminhou pelo pátio em direção aos arquivos.
***
Simon a encontrou sozinha, jogando pedrinhas no poço do castelo. Ela usava uma pesada capa de viagem e um capuz para se proteger do frio.
— Olá, Princesa. — saudou.
Ela olhou para cima e sorriu com tristeza. Por algum motivo, parecia muito mais velha hoje, como uma mulher adulta.
— Bem-vindo, Simon. — sua respiração formava uma auréola de névoa ao redor de sua cabeça.
O garoto começou a dobrar o joelho em uma reverência, contudo Miriamele já não estava olhando. Outra pedra caiu no poço. Pensou em se sentar, o que parecia o mais natural a fazer, no entanto o único lugar para se sentar era na borda do poço, o que o deixaria desconfortavelmente perto da Princesa ou virado para o lado errado. Portanto, decidiu permanecer de pé.
— E como você tem estado? — perguntou por fim.
Ela suspirou.
— Meu tio me trata como se fosse feita de cascas de ovo e teias de aranha... Como se eu fosse me quebrar se levantasse alguma coisa ou se alguém esbarrasse em mim.
— Tenho certeza... Tenho certeza de que só está preocupado com a sua segurança, depois da perigosa jornada que você teve que fazer para chegar aqui.
— A perigosa jornada que nós tivemos, embora ninguém está te seguindo para garantir que não rale o joelho. Estão até te ensinando a lutar com espada!
— Miri... Princesa! — Simon ficou mais do que um pouco chocado. — Você não quer lutar com espadas, quer?
A garota olhou para ele, e seus olhos se encontraram. Por um instante, seu olhar ardeu como o sol do meio-dia com um desejo inexplicável; um momento depois, a jovem baixou o olhar cansada.
— Não! — respondeu. — Acho que não. Mas, oh, quero fazer alguma coisa!
Surpreso, Simon ouviu a dor real em sua voz e, naquele momento, lembrou-se como ela estava na subida pela Escadaria, sem reclamar e forte, uma companhia tão boa quanto se poderia desejar.
— O que... O que quer fazer?
Miriamele voltou a erguer o olhar, satisfeita com o tom sério de sua pergunta.
— Bem... — começou. — Não é segredo que Josua está tendo dificuldades para convencer Devasalles de que seu mestre, o Duque Leobardis, deveria apoiar o Príncipe contra meu pai. Josua poderia me enviar a Nabban!
— Mandá-la... Para Nabban?
— Claro, seu idiota. — ela franziu a testa. — Pelo lado da minha mãe, sou da Casa Ingadarine, uma família muito nobre de Nabban. Minha tia é casada com Leobardis! Quem melhor para ir convencer o Duque? — com as mãos enluvadas bateu palmas para enfatizar.
— Oh... — Simon não sabia o que dizer. — Talvez Josua ache que seria... Seria... Não sei. — o rapaz ponderou. — Quero dizer, será que a filha do Supremo Rei deveria ser a pessoa a... A articular alianças contra ele?
— E quem conhece melhor o Supremo Rei do que eu? — agora sua voz estava tingida de raiva.
— Você... — hesitou, porém a curiosidade falou mais alto. — Como se sente em relação ao seu pai?
— Deveria odiá-lo? — seu tom era amargo. — Odeio o que se tornou. Odeio o que os homens ao seu redor o fizeram fazer. Se ele de repente encontrasse bondade em seu coração e percebesse o erro de seus caminhos... Bem, então eu o amaria outra vez.
Uma procissão inteira de pedras desceu pelo poço enquanto Simon permanecia ao seu lado, desconfortável.
— Sinto muito, Simon! — disse a Princesa. — Tenho me tornado desagradável ao conversar com as pessoas. Minha antiga ama ficaria chocada com o quanto eu esqueci de meus modos, correndo pela floresta. Como você está e o que tem feito?
— Binabik me pediu para acompanhá-lo em uma missão para Josua. — disse, trazendo o assunto à tona mais abruptamente do que pretendia. — Para o norte. — acrescentou significativamente.
Em vez de ver as expressões de preocupação e medo que ele esperava, o rosto da Princesa pareceu iluminar-se por dentro; embora lhe sorrisse, não parecia vê-lo.
— Oh, Simon! — disse ela. — Que valente. Que bom. Você pode... Quando vai embora?
— Amanhã à noite. — disse, com vaga consciência de que, de alguma forma, por algum processo misterioso, o pedido para ir se transformara em uma partida. — No entanto ainda não decidi. — complementou, fracamente. — Pensei que talvez fosse mais necessário aqui, em Naglimund, para empunhar uma lança nas muralhas. — acrescentou a última parte apenas por precaução, caso houvesse alguma possibilidade de ela pensar que ficaria para trás para trabalhar nas cozinhas, ou algo parecido.
— Oh, mas Simon... — disse Miriamele, estendendo a mão de repente para tomar sua mão fria com os dedos enluvados em couro. — Se meu tio precisa que você faça isso, deveria ouvir o seu pedido! Temos tão pouca esperança, pelo que ouvi.
Ela levou a mão ao pescoço e desabotoou o lenço azul-celeste que usava, uma tira fina e transparente; entregou-o a ele.
— Pegue isto e use por mim. — disse Miriamele.
Simon sentiu o sangue subir-lhe às bochechas e lutou para impedir que seus lábios se esticassem num sorriso chocado e bobo.
— Obrigado... Princesa! — conseguiu se forçar a dizer.
— Se o usar... — falou a jovem, levantando-se. — Será quase como se eu estivesse lá junto. — e deu um passinho de dança engraçado e riu.
Simon tentava, sem sucesso, entender ao certo o que havia acontecido e como tudo acontecera tão rápido.
— Assim será, Princesa. — falou. — Como se você estivesse lá.
Algo na maneira como disse aquilo alterou seu humor repentino: sua expressão ficou sóbria, até triste. Miriamele sorriu outra vez, um sorriso mais lento e pesaroso, e então deu um rápido passo à frente, assustando Simon a ponto de quase levantar a mão para afastá-la. Ela roçou sua bochecha com seus lábios frios.
— Sei que será corajoso, Simon. Volte em segurança. Vou rezar por você.
Logo depois, ela desapareceu, correndo pelo pátio como uma menina, sua capa escura formando um redemoinho esfumaçado enquanto sumia no arco crepuscular. Simon ficou parado, segurando o seu lenço. Pensou nele, no sorriso dela quando lhe beijou a bochecha, e sentiu algo se transformar em chama dentro de si. Parecia, de alguma forma que não compreendia totalmente, que uma única tocha havia sido acesa contra o vasto frio cinzento que pairava no norte. Era apenas um único ponto de brilho em uma tempestade terrível... Porém mesmo uma única chama poderia trazer um viajante de volta para casa em segurança.
Enrolou o tecido macio em uma bola e a enfiou na camisa.
***
— Fico feliz que tenha vindo tão rápido. — disse a senhora Vorzheva. O brilho de seu vestido amarelo parecia refletido em seus olhos escuros.
— Minha senhora me honra! — respondeu o monge, com os olhos percorrendo o cômodo.
Vorzheva riu asperamente.
— Você é o único que considera honroso me visitar. Contudo não importa. Entende o que deve fazer?
— Tenho certeza de que entendi. É uma questão difícil de executar, embora fácil de compreender em conceito.
O monge curvou a cabeça.
— Ótimo. Então não espere mais, pois quanto mais esperar, menor a chance de sucesso. E também maior a chance de fofocas surgirem. — ela saiu girando para o quarto dos fundos num turbilhão de sedas.
— Hmm... Minha senhora? — o homem soprou nos dedos. Os aposentos do Príncipe estavam frios, o fogo apagado. — Há a questão do... Pagamento?
— Pensei que o senhor fizesse isso em honra a mim, senhor? — Vorzheva chamou do quarto dos fundos.
— Ora, senhora, sou apenas um homem pobre. O que a senhora pede exigirá recursos. — respondeu enquanto tornava a soprar os dedos e, em seguida, enfiou as mãos nos bolsos da túnica.
Ela voltou carregando uma bolsa de tecido brilhante.
— Estou bem ciente. Aqui está. É em ouro, como prometi... Metade agora, metade quando eu receber a prova de que sua tarefa está concluída. — ela lhe entregou a bolsa e recuou. — Você cheira a vinho! É esse o tipo de homem que é, encarregado desta tarefa tão importante?
— É o vinho sacramental, minha senhora. Às vezes, em minha difícil jornada, é a única coisa que posso beber. A senhora deve entender. — o monge lhe dirigiu um sorriso tímido, depois fez o sinal da Árvore sobre o ouro antes de guardá-lo no bolso de sua túnica. — Fazemos o que for preciso para servir à vontade de Deus.
Vorzheva fez um pequeno aceno em resposta.
— Isso posso entender. Não me decepcione, senhor. O senhor tem um grande propósito, e não apenas para mim.
— Entendo, senhora.
O homem fez uma reverência, virou-se e saiu. Vorzheva ficou parada, olhando para os pergaminhos espalhados sobre a mesa do Príncipe, e soltou um suspiro profundo. Tudo estava feito.
***
Ao entardecer do dia seguinte à sua conversa com a Princesa, Simon se encontrava nos aposentos do Príncipe Josua, preparando-se para se despedir. Em uma espécie de torpor, como se tivesse acabado de acordar, ouviu o Príncipe proferir suas últimas palavras a Binabik. O garoto e o gnomo passaram o dia inteiro preparando seus pertences, conseguindo um novo manto forrado de pele e um capacete para Simon, além de uma leve cota de malha para usar por baixo das roupas. O casaco, como Haestan havia apontado, não o protegeria de um golpe direto de espada ou de uma flecha no coração, no entanto seria útil em caso de algum ataque menos letal.
Simon achou o peso reconfortante, embora Haestan o avisou que, ao final de um longo dia de jornada, poderia não se sentir tão animado com isso.
— Os soldados carregam muitos fardos, rapaz. — disse o grandalhão. — E às vezes, manter-se vivo é o mais difícil.
O próprio Haestan fora um dos três erkynos que se apresentaram quando os capitães convocaram voluntários. Assim como seus dois companheiros, Ethelbearn, um veterano com cicatrizes e bigode espesso, quase tão grande quanto Haestan, e Grimmric, um homem esguio e de olhar penetrante, com dentes ruins e olhos atentos... Passara tanto tempo se preparando para o cerco que qualquer tipo de ação era bem-vinda, mesmo algo tão perigoso e misterioso quanto essa missão parecia ser. Quando Haestan descobriu que Simon também iria, ficou ainda mais determinado em seu desejo de se juntar a eles.
— Enviar um garoto é loucura. — rosnou. — Ainda mais quando ele nem terminou de aprender a manejar a espada ou atirar flechas. É melhor eu ir e continuar ensinando-o.
Sludig, o homem do Duque Isgrimnur, também estava lá, um jovem rimmerio, vestido como os erkynos, com peles e capacete cônico. Em vez da espada longa que os outros carregavam, Sludig, de barba loira, tinha dois machados de mão com lâminas entalhadas presos ao cinto. Ele sorriu alegremente para Simon, antecipando sua pergunta.
— Às vezes, um deles fica preso em um crânio ou caixa torácica. — explicou o rimmerio. Seu domínio da língua westerling era boa, com quase tão pouco sotaque quanto o Duque. — É bom ter outro para usar até que o primeiro saia.
Concordando com a cabeça, Simon tentou sorrir de volta.
— Prazer em conhecê-lo de novo, Simon. — Sludig estendeu uma mão calejada.
— De novo?
— Já nos encontramos uma vez, na abadia de Hoderund. — riu Sludig. — Porém você passou a viagem inteira de bunda para cima na sela de Einskaldir. Espero que essa não seja a única maneira que saiba cavalgar.
Simon corou, apertou a mão do nortista e se virou.
— Descobrimos muito pouco que possa ajudá-los em sua jornada. — Jarnauga dizia com pesar a Binabik. — Os monges skendianos deixaram poucas informações sobre a expedição de Colmund, além dos detalhes do seu equipamento. É provável que o tenham considerado um louco.
— Muito provavelmente, eles estavam certos. — observou o gnomo. Ele estava polindo a faca com cabo de osso que havia esculpido para substituir a parte que faltava em seu bastão.
— Encontramos uma coisa. — disse Strangyeard. O cabelo do padre estava espetado em tufos selvagens, e seu tapa-olho estava um pouco descentralizado, como se tivesse acabado de passar a noite inteira debruçado sobre seus livros... O que de fato havia acontecido. — O escrivão da abadia escreveu: ‘O Barão não sabe quanto tempo sua jornada até a Árvore Rimadora irá durar...’.”
— É um nome desconhecido... — disse Jarnauga. — Na verdade, deve ser algo que o monge ouviu errado, ou ouviu de terceiros... Contudo é um nome. Talvez faça mais sentido quando chegarem à montanha Urmsheim.
— Talvez... — disse Josua, pensativo. — Seja uma cidade no caminho, uma vila ao pé da montanha?
— Talvez! — respondeu Binabik com dúvida. — No entanto pelo que sei desses lugares, não há nada entre as ruínas do mosteiro de Skendi e as montanhas... Nada além de gelo, árvores e rochas, é claro. Há muito disso por lá.
Enquanto as despedidas finais eram proferidas, Simon ouviu a voz de Sangfugol vinda do cômodo dos fundos, onde cantava para a senhora Vorzheva.
“E devo eu fora vagar,
no frio do inverno?
Ou a casa agora devo regressar?
O que quer que digas, eu farei...”
Simon pegou sua aljava e olhou pela terceira ou quarta vez para ter certeza de que a Flecha Branca seguia dentro. Atordoado, como se preso em um sonho lento e persistente, percebeu que estava partindo em uma jornada mais uma vez... E, novamente, não tinha certeza do porquê. Seu tempo em Naglimund tinha sido tão breve. Agora havia terminado, pelo menos por um bom tempo. Ao tocar o cachecol azul amarrado frouxamente em seu pescoço, percebeu que talvez não visse mais nenhum dos outros naquele cômodo, ninguém em Naglimund... Sangfugol, o velho Towser ou Miriamele. Sentiu como se seu coração desse um salto por um instante, a batida vacilando como a de um bêbado, e estava procurando algo para se apoiar quando sentiu uma mão forte segurar seu cotovelo.
— Aqui está você, rapaz. — era Haestan. — Já que não sabe usar espada e arco, vamos colocá-lo a cavalo.
— A cavalo? — disse Simon. — Eu gostaria muito.
— Não vai! — Haestan sorriu com desdém. — Não por um ou dois meses.
Josua disse algumas palavras para cada um deles, e então houve apertos de mão calorosos e solenes por todos os lados. Pouco tempo depois, estavam no pátio escuro e frio, onde Qantaqa e sete cavalos, batendo os cascos e soltando vapor, os aguardavam, cinco para montar e dois para carregar equipamentos pesados. Se havia lua, estava escondida como um gato adormecido no manto de nuvens.
— Que bom que temos essa escuridão. — disse Binabik, montando na nova sela nas costas cinzentas de Qantaqa.
Os homens, vendo a montaria do gnomo pela primeira vez, trocaram olhares de espanto enquanto Binabik estalava a língua e a loba saltava diante deles. Um grupo de soldados ergueu em silêncio a grade oleada, e o grupo saiu para o céu amplo, o campo de pregos sombrios espalhado ao seu redor enquanto seguiam em direção às colinas que se aproximavam.
— Adeus a todos! — disse Simon baixinho.
E assim iniciaram a marcha pela trilha íngreme.
***
Lá no alto, no topo da colina com vista para Naglimund, uma forma negra observava.
Mesmo com seus olhos aguçados, Ingen Jegger mal conseguia distinguir na escuridão sem luar o que alguém havia saído do castelo pelo portão leste.
No entanto, isso foi mais do que suficiente para despertar seu interesse.
Pôs-se de pé, esfregando as mãos, e pensou em chamar um de seus homens para descer com ele e dar uma olhada melhor. Em vez disso, levou o punho à boca e piou como uma coruja-das-neves. Segundos depois, uma enorme forma surgiu da vegetação rasteira e saltou para o seu lado. Era um cão, maior até do que aquele morto pelo loba domesticada do gnomo, brilhando branco ao luar, seus olhos como fendas gêmeas de pérola em um rosto longo e sorridente. Rosnou, um estrondo profundo e cavernoso, e girou a cabeça de um lado para o outro, as narinas se enrugando.
— Sim, Niku’a, sim. — Ingen sibilou baixinho. — É hora de caçar mais uma vez.
Um momento depois, o local ficou vazio. As folhas farfalhavam suavemente ao lado dos azulejos antigos, mas nenhum vento soprava.
***
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