domingo, 5 de abril de 2026

Slayers — Volume 17 — Capítulo 72

Capítulo 72: Ser uma feiticeira inigualável não é só diversão e jogos

O cheiro do vento, a cor da vegetação... Coisas que presumia serem iguais em qualquer lugar revelaram diferenças quando realmente parei para observá-las. Até mesmo a paisagem, que à distância parecia uma mistura verdejante genérica, revelou-se repleta de árvores e outras plantas desconhecidas após uma inspeção mais atenta. Da mesma forma, ainda não tinha visto nenhuma das ervas comumente usadas para fazer itens mágicos nas terras interiores de onde venho. Teria gostado de pesquisar sobre o que estava encontrando, porém tínhamos assuntos mais importantes para resolver no momento.

Era o dia seguinte, e nós dois tínhamos saído da cidade de Maricida rumo à capital, Palbathos. Quando paramos em uma bifurcação da estrada, peguei os documentos que o Capitão Bronco havia preparado para nós. Ele me deu um mapa que havia desenhado (que era mais parecido com um diagrama de estradas rabiscado em um pedaço de pergaminho), além da já mencionada carta de apresentação... E uma gratificação por derrotar os bandidos.

“Tenho que dizer...” disse Gourry, olhando o mapa de lado. “Aquele cara era legal, só que a sua letra é péssima.”

Havia anotações escritas no mapa em vários pontos, eram extremamente difíceis de decifrar. Dito isso...

“Não é letra ruim. É um alfabeto diferente.”

“Um alfabeto diferente?” a voz de Gourry falhou.

“Sim. Afinal, as terras interiores e exteriores não tiveram nenhuma troca cultural por mil anos. É claro que divergiram nesse tempo. Atribuía as pequenas peculiaridades na fala dos habitantes locais a um dialeto regional ou algo do tipo, contudo, sendo honesta, temos sorte de que a língua deles seja ao menos compreensível para nós. Se as coisas tivessem divergido demais, não seríamos capazes de nos comunicar de jeito nenhum. A questão é que suspeito que seja difícil de entender por causa da diferença na escrita... Não porque a letra do Capitão Bronco tenha uma escrita pobre.”

Antes, também havia interpretado a placa da pousada em Latka como mal escrita, todavia ao que parece acabei me enganando. A escrita era apenas diferente da que estava acostumada. Talvez fosse até mesmo a nossa língua, nas terras do interior, que havia mudado ao longo do último milênio, e não a deles.

“Acho que significa que você não consegue ler, né?” ponderou Gourry.

“Consigo, na verdade!” informei.

“O alfabeto é diferente, mas ainda consegue ler? Como?”

“A escrita é diferente da que usamos, claro, entretanto não é tão diferente assim. O que faz sentido, considerando o quão pouco a língua falada mudou. Em resumo, as letras não são as mesmas, porém têm formas semelhantes. E como este é um mapa, já consegue deduzir o que as palavras significam: norte, sul, leste, oeste, esquerda, direita, montanha, rio e outras coisas relacionadas à geografia. Então, a partir dessa base, podemos inferir o que a escrita diz, certo?”

“Oh! Incrível!”

“Embora não quer dizer que eu consiga entender tudo. Aqui, por exemplo...” apontei para um lugar específico no mapa. “Diz para virar à esquerda nesta bifurcação e vamos parar no que parece ser um ‘ponto de embarcadouro’. Não sei o que é um ‘embarcadouro’. Talvez algum tipo de barco ou carruagem compartilhada.”

“Acho que atravessaremos aquela ponte quando chegarmos lá.”

“Acho que sim.” assenti, guardei o mapa de volta no bolso e segui obedientemente o caminho para a esquerda.

“Diga, Lina, acha que as coisas vão dar certo quando chegarmos à capital?”

“Não sei. Com certeza não vão se não formos.” continuei caminhando enquanto conversávamos. À nossa esquerda havia árvores. À direita, pasto. Não havia mais ninguém na estrada. Talvez por não ser uma estrada principal, ou talvez porque apenas não houvesse muitos viajantes e vendedores ambulantes nas terras distantes, notei que estava bastante tomada pelo mato. “Idealmente, descobriríamos justo onde estamos e em que direção fica nossa casa, contudo dinheiro também é um problema.”

“Não temos o suficiente?”

“Não temos ideia de quanto custará para voltar, e embora tenha moedas de ouro que parecem ser convertíveis em moeda local, não tenho certeza se nos cobrirá durante toda jornada. A maior parte dos meus bens são itens mágicos... E não há conselho de feiticeiros aqui nas terras exteriores. Se tentar vendê-los em uma loja local que não saiba o que são, é provável que só os tratarão como lixo. Nesse caso, outro motivo pelo qual quero ir à capital é encontrar um lugar que me ofereça preços decentes... Ou pelo menos não absurdos. Claro, também gostaria de definir algumas direções concretas o mais rápido possível.”

Em termos simples, o Deserto da Destruição que dividia as terras interiores e exteriores ficava ao sul de Elemekia. Portanto, também em termos simples, ir para o norte nos levaria para casa. No entanto, no dia a dia, é certo que haveria características geográficas que precisaríamos contornar, o que tornaria nossa jornada um tanto quanto complicada. Adoraria ter em mãos um mapa-múndi decente, entretanto isso era quase impossível. Mesmo que tal coisa existisse, seria tratado como segredo de Estado. De jeito nenhum uma leiga como eu colocaria as mãos em um.

Agora, aposto que está se perguntando: ‘Por que um mapa seria um segredo de Estado?’. Bem, por vários motivos. Guerra, por exemplo. Digamos que um reino vizinho quisesse invadir. O que acha que facilitaria as coisas para eles: o acesso a um mapa detalhando as estradas, cidades, montanhas e rios locais, ou a total ausência deles? Manter sua geografia em segredo torna mais difícil para o inimigo avançar e mais fácil para você armar armadilhas e emboscadas baseadas no terreno. Poderia eliminar uma grande parte das forças inimigas sem travar uma única batalha.

Em outras palavras, embora os países costumassem desejar mapas precisos de seus próprios territórios, também precisavam ter cuidado para que não caíssem em mãos inimigas. Logo, essas informações não estavam disponíveis para cidadãos comuns ou viajantes. Era assim no meu país, e tenho certeza de que era verdade aqui também. Claro, como as principais estradas se conectavam e coisas do tipo era algo que os vendedores ambulantes e viajantes comuns saberiam. Então, imaginei que ir até a capital nos permitiria conversar com as pessoas certas.

Enquanto ponderava sobre tudo isso caminhando...

“Lina!” Gourry me chamou de repente. Por um momento, presumi que houvesse mais bandidos, mas não vi nenhum sinal deles. Gourry também não parou de andar.

“O que foi?” perguntei.

“Você está bem?”

A pergunta pareceu totalmente inesperada.

“Como assim?” perguntei.

Gourry me encarou.

“Sério, você está bem?” repetiu.

“Cara, sério, não sei onde quer chegar. Por que está perguntando se estou...” comecei, me interrompendo antes de terminar. Soltei um suspiro profundo e passei os dedos pelos cabelos. “Acho que não consigo esconder de você, Gourry.” sussurrei, olhando para o céu, as nuvens brancas e os pássaros que pareciam tão familiares à distância. “Desde que fomos enviados para as terras exteriores, tenho me sentido... Não exatamente deprimida, porém mais apática do que o normal. E isto está me consumindo, aos poucos.”


“Com saudades de casa?” ele perguntou.

Acenei com a mão, como quem dispensa o assunto.

“Não. Acho que não é assim. Afinal, já viajava sozinha antes de te conhecer. Estava ainda mais perdida naquela época, sabe? Contudo agora que não podemos voltar...” parei, sentindo um nó na garganta. Isso é... Baguncei meu cabelo. “Bom, talvez tenha razão. Talvez eu esteja com saudades de casa, por mais incomum que seja para mim.”

Dizer as palavras ‘não podemos voltar’ claramente me afetou.

“Acho que é a diferença entre ‘não quero voltar para casa’ e ‘não posso voltar para casa’.” tentei explicar.

“O que quer dizer?”

“Antes... Sempre podia voltar atrás se quisesse. Ficar longe era uma escolha. Só que agora, não sei se voltar segue sendo uma opção. E mesmo que seja, quem sabe quanto tempo vai levar? Isto tem me incomodado. E você, Gourry? Como está se sentindo?” lembrei-me de que ele havia mencionado uma vez que sua casa ficava em algum lugar no Império Elemekia.

Gourry me deu um sorriso fácil em resposta.

“Estou me sentindo muito bem.”

“Sério?”

“Afinal, me esqueci da maioria das coisas.”

“Não se esqueça de casa, cara!”

“Ei, estou só brincando. Só brincando.”

“Não me pareceu brincadeira!”

Talvez fosse porque estava gritando com o Gourry, ou talvez fosse porque enfim tinha identificado a origem da minha melancolia...

Mas de repente me senti muito mais à vontade. Olhei para o céu e me espreguicei.

“Bem, agora que penso nisso, já passamos por muitas brigas impossíveis. Então... Não posso garantir que tudo vai dar certo, porém, relativamente falando, encontrar o caminho de casa deve ser moleza.”

“Eu me sinto da mesma forma.” Gourry sorriu gentilmente para mim.

Ainda não tinha resolvido por completo meus sentimentos. Era possível que os deixasse me dominar em breve. Contudo, contanto que não estivesse sozinha, conseguiria dar um jeito. Essa certeza misteriosa dissipou toda a dor do meu coração.

Ouvindo o canto de pássaros desconhecidos, segui nosso mapa até que as árvores à esquerda da estrada começaram a rarear. Logo, pude ver raios de sol brilhando através das clareiras entre elas. O cheiro de água também começou a impregnar o verdejante aroma. E quando as árvores desapareceram, nós dois paramos.

A estrada à nossa frente estava bloqueada por... Azul.

“Um lago?” perguntou Gourry.

“Ou um rio.” respondi.

Quase não havia ondas, e a água não era muito clara, no entanto, por causa disso, refletia a paisagem ao redor em sua superfície. Mal conseguia ver a margem oposta. Fosse um lago ou um rio, era muito grande.

“O que significa...” examinei a linha d’água até que meus olhos pousaram em um pequeno prédio mais adiante.

Gourry olhou na mesma direção e disse.

“Deve ser o ponto de parada da... Como é mesmo?”

“Parece que sim.”

Nós dois começamos a andar de novo.

“Acho que é uma balsa, afinal.”

Observando com atenção a superfície aparentemente calma da água, havia sinais de ondulações ao longo das margens. Talvez fosse um rio grande, então.

Quanto mais nos aproximávamos, melhor conseguia distinguir o cais da balsa. O prédio era uma pequena cabana robusta, e havia um barco no píer grande o suficiente para transportar sem problema uma dúzia ou mais de pessoas. Não tinha teto, e os ‘assentos’ eram apenas uma série de tábuas, embora já havia vários passageiros a bordo. Um barqueiro estava no leme e... Espera, será que ia partir?

“Anda logo, Gourry!”

“Ei! Ei, esperem por nós!” Gourry gritou enquanto corríamos a toda velocidade.

Por sorte, o barqueiro pareceu nos ouvir. Acenando em resposta, esperou que o alcançássemos.

“Esta é... A balsa... Para Palbathos?” perguntei quando chegamos, ofegante.

O barqueiro idoso sorriu amplamente.

“É sim! Pagamento adiantado, por favor!”

“Pode deixar!”

Recuperando o fôlego, paguei ao homem e embarquei no barco no cais. Não era tão instável quanto imaginei que seria, talvez por causa do seu tamanho. Entre os passageiros que já estavam a bordo, havia um sujeito que parecia um mascate com uma mochila grande nas costas, um viajante comum e várias outras pessoas, além de algumas galinhas engaioladas. O barqueiro também devia transportar carga.

Ele esperou até que Gourry e eu nos sentássemos e então gritou.

“O barco está zarpando!”

Essa foi a última chamada antes que estendesse uma longa vara com penas na ponta e batesse de leve na água parada em frente ao barco. Então, lenta mas seguramente, figuras negras e sólidas emergiram à superfície. Eram maiores que humanos, talvez até tão compridas quanto à altura de um ogro. Era um par de...

“Peixes?” me vi pulando e gritando.

“Ei, fique sentada. Não é seguro ficar de pé.” repreendeu-me o barqueiro. “Você parece um pouco surpresa... Nunca viu um peixe antes?”

“Espere, então o ‘peixe’ não é o barco. É...”

“Um tipo de peixe, sim. Vamos, estamos partindo. Explico conforme formos navegando.” o barqueiro bateu na água com a vara emplumada outra vez, e as duas figuras começaram a se mover aos poucos. Enquanto se moviam, uma corda emergiu da água, esticou-se e arrastou o barco atrás de si.

“Eles são conhecidos como robalos gigantes e, embora sejam peixes, são muito inteligentes.” anunciou o barqueiro com orgulho. Ele indicou as gaiolas de galinhas com os olhos. “Como agradecimento por puxar o barco, eu os alimento. E enquanto cumprir minha parte do acordo, eles são dóceis. Podem até entender a linguagem humana.”

“Espere, essas galinhas são comidas de peixe?”

“Ah, sim. Eles as engolem de uma vez só.” disse o homem com ainda mais orgulho.

Talvez isso seja óbvio, porém não havia peixes assim nas terras interiores de onde eu vim. Certamente nenhum capaz de puxar um barco como um cavalo puxa uma carruagem. Embora, pensando bem, tínhamos peixes com braços e pernas, inteligência considerável e capacidade de falar. Não sabia se o mesmo povo peixe vivia aqui nas terras exteriores, contudo imaginei que não deveria me surpreender tanto que tivessem algum tipo de peixe inteligente.

O barco começou devagar, no entanto foi ganhando velocidade aos poucos até que...

“Ei! Calma aí! Parem!” gritou alguém. Olhei e vi uma garota correndo direto para o barco, da mesma forma que eu e Gourry tínhamos vindo. “Esperem, esperem, esperem, esperem, esperem, esperem!”

Sua voz ficou cada vez mais alta enquanto se lançava em nossa direção com uma velocidade incrível, todavia o barco já tinha zarpado. Entretanto isso não a impediu. Na verdade, a garota correu ainda mais rápido!

“Huuwaaah!” com um grito estranho, ela deu um salto acrobático do píer! Claro, não havia a menor chance de conseguir. E então, caiu com um splash entre a margem do rio e a balsa...


Ou pelo menos era o que pensei, mas aconteceu de forma diferente. Em vez disso, o arco do seu salto se estendeu de forma antinatural no ar e continuou vindo direto para nós até que... Thunk! Mal conseguiu pousar na... Quer dizer, embarcar? Na borda do barco.

A balsa balançou com muita força devido ao impacto, e os passageiros gritaram em choque.

“Com licença, senhorita!” o barqueiro estava compreensivelmente agitado. “Não pule assim! É perigoso e vai assustar os peixes!”

“Hehehe... Desculpe!” a garota se desculpou, sem parecer lá muito arrependida. Parecia um pouco mais nova do que eu, com cabelos loiros cacheados caindo pelas costas e pele morena. Quanto à sua altura e tamanho dos seios... Ah, droga. Deixa pra lá. Quem se importa?

Ela estava vestida como se fosse dar um passeio tranquilo pelo quarteirão. Alguns diriam que estava fazendo uma caminhada leve, enquanto outros diriam que estava muito mal preparada para uma longa jornada. Junto carregava uma pequena sacola com seus pertences e um pedaço de madeira cujo propósito não consegui decifrar. No geral, tive a impressão de que era uma ‘garota comum do interior que brigou com o pai e fugiu de casa’.

“Você tem sua passagem, senhorita?” o barqueiro perguntou.

“Ah, sim, sim.” no fim das contas, estava pronta para a viagem e pagou a passagem quando solicitada.

“Agora, nunca mais faça isso.”

“Teeheehee... Me desculpe mesmo. Ah, e peço desculpas a todos vocês também!” depois de ser repreendida pelo barqueiro, a garota se desculpou com todos e se sentou.

O barco puxado por peixes acelerou enquanto subíamos o rio. Quando enfim tive uma chance, sentei-me ao lado da pessoa que havia chegado atrasada. Gourry me seguiu, percebendo que estava aprontando alguma coisa... Ou não. Quem sabe?

“Oi!” chamei a garota em um cumprimento casual.

Seus olhos castanhos se viraram para mim.

“Ah, oi. Desculpe o incômodo.”

Respondi com um sorriso caloroso.

“Sou Lina. E meu acompanhante aqui é o Gourry.”

“Pode me chamar de Ran!”


A garota, Ran, pegou minha mão estendida e a apertou. Sua mão era tão macia que me chocou um pouco.

“Eu queria perguntar...” falei, ainda sorrindo. “Você usou um feitiço de vento mais cedo para subir no barco, não foi?”

A maioria das pessoas não conseguia mudar a trajetória do salto no meio do caminho, então a magia parecia a única explicação. Contudo aqui nas terras exteriores, onde não havia conselho de feiticeiros e as pessoas não pareciam saber muito sobre magia... Quem era essa garota usando um feitiço de vento assim, de forma tão casual? Decidi ser direta, perguntar e ver como reagiria, em vez de ficar dando voltas no assunto. E em resposta, ela disse...

“Incrível, né? Um elfo me ensinou há muito tempo.”

Ela está se gabando? Não é um grande segredo? Espera aí...

“O quê? Quer dizer que também existem elfos aqui?”

“Ah, sim, embora não muitos.”

Será que eu tinha acabado de encontrar a resposta? Os elfos das terras interiores viviam mais do que os humanos e eram mais habilidosos em conjuração. Entrar em contato com um deles poderia significar uma grande pista sobre como voltar para casa!

No entanto, ainda assim... Sabia que se começasse a interrogar a Ran ali mesmo, poderia deixar até uma cabeça-de-vento como ela na defensiva. Então, engoli meu desejo de continuar e respondi em um tom despreocupado.

“Conheci alguns elfos também.”

“Sério? Nossa! Como eles eram?”

“Bem, um só pedia repolho em restaurantes, e o outro era muito tímido, apesar de ser um fanfarrão de marca maior no fundo.” Ran inclinou a cabeça. “Então você não gosta de elfos?”

“Não! Esses são apenas os elfos que conheço! Não é que acredite que todos os elfos sejam desse jeito!”

Mas nossa conversa foi interrompida abruptamente quando...

“Ei! Barqueiro! Atrás de nós!” gritou um dos passageiros.

Todos se viraram e viram uma turbulência no rio atrás de nós.

Não seria nada de especial, exceto que... Estava se movendo rio acima! Ou melhor, direto para o barco!

“O que é aquilo?” gritei.

“Não acredito! É o peixe-rocha!” gritou o barqueiro de volta.

“O quê?” perguntou Gourry.

O barqueiro nem sequer olhou para meu companheiro ao responder.

“Um peixe enorme que come robalos! Droga! O que está fazendo aqui?”

Come robalos, peixes ainda maiores que humanos? Quão grande é essa coisa? Se algo desse tamanho atacasse, poderia comer o barco... Ou até mesmo a nós!

O barqueiro usou sua vara para acelerar os robalos. Em resposta a ele ou ao perigo iminente, eles aceleraram e nos arrastaram em grande velocidade.

Ainda assim, quando olhei para trás, pude ver o rastro se aproximando cada vez mais! Se cerrasse meus olhos, conseguia ver uma figura achatada logo abaixo da superfície. Não conseguia distingui-la por completo, porém, a julgar por sua silhueta básica, tenho certeza que poderia engolir um robalo de uma só vez. Em outras palavras, essa coisa era do tamanho de uma serpente marinha. E ia nos virar em breve se não fizéssemos alguma coisa!

Contudo... O que poderíamos fazer? Se estivéssemos em terra firme, teria deixado tudo nas mãos de Gourry, só que ele nunca conseguiria atingir a coisa debaixo d’água. Um feitiço de relâmpago meu também prejudicaria o robalo gigante. E embora um feitiço de área de efeito indiscriminado pudesse afugentar a coisa mesmo sem um acerto direto, também causaria uma onda que nos viraria.

Certo, então que tal isto? Movi-me para a parte de trás do barco e comecei a entoar um feitiço direcionado à sombra negra que nos perseguia.

Dinasta, com tua alma congelada, adormecida sob a terra...

Nesse instante... Senti como se meus olhos encontrassem os da besta sob a superfície.

A maioria dos feitiços de ataque seria fisicamente bloqueados pela água. Todavia e um feitiço que invoca o poder de um mazoku poderoso? Eles eram compostos apenas de vida, espírito e magia. Um pouco de água não faria a menor diferença.

Esse pensamento passou pela minha mente brevemente... E então terminei meu feitiço!

“Sopro de Dinasta!”

Essa gracinha toma emprestado o poder de Dinasta Graushera, um dos cinco tenentes demoníacos de alta patente. Quando recitei as palavras de poder, a cabeça da criatura na água congelou e se estilhaçou! Os fragmentos espalhados fizeram a superfície inchar, mas não com violência suficiente para estourar. O resto do corpo da criatura, não totalmente coberto pelo gelo mágico, continuou a se contorcer um pouco enquanto flutuava até a superfície. Logo parou de se mover e derivou para longe, levada pela correnteza tranquila do rio.

Foi só então que os outros passageiros se manifestaram.

“Wow!”

“Aquilo foi real?”

“Como fez aquilo?”

“Você derrotou aquela coisa enorme com um só golpe?”

Sendo sincera, todos aqueles ‘oohs’ e ‘aahs’ me deixaram um pouco tímida.

“Isso é incrível! Foi magia?” até o barqueiro entrou na brincadeira.

“Bem, sim...” respondi com insolência.

“Espere, será que por acaso é uma maga da corte?”

“Não, na verdade não...”

“De qualquer forma, você nos salvou! Os peixes-rocha não costumam ser tão agressivos, porém aquele desgraçado age como se fosse dono deste rio. Dizem que se o encontrar, deve abandonar o barco e se considerar sortudo se sobreviver. Conheço vários homens que perderam seus barcos e seus peixes, então... Obrigado. Muito obrigado!” disse o barqueiro, virando-se em seguida.

Então essa era a história, né? Só tinha visto a criatura com a cabeça explodida, então não fazia ideia de que tipo de besta era.

No instante seguinte, Ran estava bem ao meu lado, olhando para mim com olhos brilhantes.

“Nissy Lina, você é incrível!”

“Nissy?”

“Ah, desculpe! É assim que a gente diz lá em casa!”

“É mesmo?” achei que ela só estava tentando ser fofa!

“É. Aqui eles diriam... Senhora Lina!”

“Isto é um pouco demais!”

“Devo te chamar de ‘senhorita’?” perguntou Ran, inclinando a cabeça.

Nissy e senhorita... Não gostava muito de nenhum dos dois.

“Pode me chamar só de Lina.”

“Ah, não, não conseguiria! Nissy Lina, então!”

“Ah, tudo bem. Tanto faz.”

Odiava a ideia de ser chamada de ‘senhora Lina’, então decidi considerar isso o menor dos males.

No entanto, pensando bem, a natureza da linguagem é mudar com o tempo e, considerando o que tínhamos aprendido, não era surpresa que surgissem palavras com sons estranhos. Por mais que me irritasse...

Ran respondeu, coçando a parte de trás da cabeça com uma das mãos.

“Oh, é bom que a gente se entenda mesmo eu não sendo daqui, às vezes as pequenas coisas são bem diferentes. Tipo o riso! Eu não conseguia acreditar!”

“Até o riso é diferente?”

“É. Lá em casa, ninguém faz ‘hahaha’. Eles riem ‘hehehe’ e coisas assim. E o lorde das trevas nas histórias infantis usa ‘teeheehee’.”

“Como isso é intimidador?”

Que fofo! Ainda que as palavras mudem, pelo menos se esforce e nos de um ‘Kehehe' ou um 'bwahaha'!

“Bom, para nós, ‘teeheehee’ soa muito malvado!”

“Sério...?”

Fiquei pensando... E se Norst tivesse nos enviado, a mim e a Gourry, para uma região mais próxima da terra natal de Ran? Só de pensar nessa possibilidade, já ficava exausta. Estou começando a valorizar mais a importância da dignidade na linguagem.

“Então...” Ran começou. “Nissy Lina e Rostir Gourry...”

“Rostir?” Gourry e eu dissemos em uníssono.

“Ah, Rostir significa...”

“Esquece. Só continue.” interrompi, com desdém.

“Rostir...” Gourry murmurou, franzindo a testa.

“Então, para onde vocês estão indo, Nissy Lina e Rostir Gourry?”

“Ah... Certo. Estamos a caminho da capital por enquanto. Precisamos verificar algumas coisas.”

“Hmm... Posso ir junto?” Ran perguntou caprichosamente.

“Não me importo, mas... Tem certeza? Você não está indo para algum lugar?”

“Não!”

“Entendo. Sem destino em mente, hein?”

Não sei por quê, porém mesmo agora que eu entendia seus estranhos coloquialismos, ainda não conseguia deixar de me preocupar com a garota. Senti que adicionar Ran, que também era uma estranha por essas bandas, não seria uma grande vantagem para o nosso grupo já tão perdido... De toda forma, queria perguntar mais sobre os elfos que mencionou há pouco, e não tinha nenhum motivo específico para mantê-la à distância.

“Então vamos para Palbathos juntos. Podemos seguir caminhos diferentes lá, se quisermos.”

“Okey lokey!” disse Ran, jogando a mão esquerda para o ar... E seu rosto ficou um pouco rosado enquanto balançava a mão de um lado para o outro. “Desculpe, me atrapalhei. Queria dizer ‘okey dokey’”.

“Não entendi nenhuma dos dois!” respondi com extrema calma.

———

No fim das contas, ter a Ran conosco não foi nada mal... Na verdade, diria até bem-vindo. Só não tinha me dado conta disso até aquela noite.

Cerca de meio dia depois da nossa viagem na balsa, bem na hora em que o sol estava se pondo, chegamos a uma pequena cidade com um porto. Não conhecia muito bem o lugar, então não me dei conta completamente, contudo o barqueiro nos disse que a viagem de onde tínhamos partido até ali teria levado dois ou três dias por terra. E se fosse verdade, tínhamos conseguido um atalho e tanto.

Nós três nos hospedamos juntos em uma pousada e estávamos prestes a jantar quando... Percebi que não conseguia ler o cardápio na parede.

Fazia sentido, claro; ainda estava no mesmo alfabeto estranho. E sim, embora a maioria das letras fosse reconhecível e conseguisse pronunciá-las se precisasse, não tinha certeza absoluta de que as estava lendo corretamente. Tentei traduzir o item no topo do cardápio, que presumi ser o prato do dia, no entanto tudo o que consegui foi ‘gogiburdruhante’, que não fazia o menor sentido para mim.

E então, a Ran entrou em cena!

“Ei, Ran!” chamei enquanto ela olhava para o cardápio.

“O que foi, Nissy Lina?”

“Poderia ler a primeira linha para mim?”

Ela olhou e respondeu. “Claro que posso!”

...

......

“Er, quer dizer... Por favor, leia em voz alta.”

“Ah, sim. Está escrito gogiburdruhante.”

Eu estava certa? Pena que seguia não fazendo sentido para mim!

“Então, o que é isso...?” perguntei.

“Hmm, ‘gogi’ é um tipo de ave. É gostosa. E ruhante é um prato em que você abre a massa bem fina, rega com óleo, coloca recheio e molho, enrola tudo e frita. Fica crocante por fora e macio por dentro! E o recheio é gogi, então é ave-gogi ruhante!”

“Entendi...” pedi para a Ran decifrar o resto do cardápio para mim da mesma forma.

Phew. Ter a Ran por perto acabou sendo uma grande ajuda. Sem ela, teria que pedir os pratos aleatoriamente e correria o risco de comer a mesma coisa. Além do mais, a Ran lendo as coisas para mim estava me ajudando a me familiarizar um pouco mais com o idioma e a decifrá-lo. Quer dizer, só estava aprendendo vocabulário de comida, mas mesmo assim.

Enfim, pedi algumas coisas e bebidas, e...

“Nissy Lina.” Ran inclinou a cabeça enquanto esperávamos a comida. “Você realmente não sabe ler?”

Geh... Parei por um momento, pensando em como responder. Era verdade que não conseguia ler o idioma daqui, o que não era culpa minha, diga-se de passagem, porém ainda assim não queria admitir em voz alta. Me perguntei se deveria admitir que não sabíamos muito sobre a região. Ran acabaria descobrindo mais cedo ou mais tarde de qualquer maneira...

Por outro lado, se contasse a verdade nua e crua... Que eu era do outro lado da barreira demoníaca erguida há mil anos, e que depois de matar um monte de mazokus de alto escalão, um dos seus aliados me mandou para cá por despeito... Ela vai achar que estou mentindo.

“A verdade é que Gourry e eu... Somos de uma terra distante.” escolhi minhas palavras com cuidado. “Houve... Uma espécie de acidente.”

“Um acidente? Tipo um barco afundando?”

“Hmm, bem... Algo desse tipo, acho.” falei, mantendo a ambiguidade. “A questão é que estamos muito longe de casa, e a escrita aqui é diferente. Então, ter você lendo para mim é uma grande ajuda.”

“Sem problemas!” ela disse, estufando o peito cheio de orgulho.

“Obrigada. Agradeço. Na verdade, estamos procurando um jeito de voltar para casa... Você conhece bem a região, Ran?”

“Hmm...” com isso, Ran murmurou baixinho. “Saí de casa para vagar por aí, então não!”

“Oh? Como é sua terra natal?”

“Verde e abundante!”

“É? Parece bom.”

“No meio do nada!”

“É? Parece difícil.” por outro lado, a ouvi mencionar que um elfo a ensinara aquele feitiço bacana que aumentava a velocidade do salto, e elfos costumavam viver em áreas de natureza intocada. “Aquele elfo que te ensinou aquele feitiço também morava lá?”

“Morava! Contudo há uns dez anos, eles simplesmente foram embora.”

“Eh, sério?”

Aquilo frustrou meu plano de pedir para a Ran me colocar em contato com eles. Continuamos conversando um pouco até que...

“Aqui está!” a garçonete trouxe os itens do meu pedido, e a noite animada... Até mesmo barulhenta, começou.

———

Depois de três dias de viagem, Gourry, Ran e eu nos encontramos diante da grande muralha e portão de Palbathos, capital do Reino de Luzilte.

Gostaria de dar a vocês uma breve introdução à história do lugar, no entanto por infelicidade, não sei nada sobre como foi fundado ou qualquer coisa que tivesse acontecido ali. Afinal, tínhamos perdido contato com as terras distantes há mil anos, então estava um pouco perdida em relação à história regional.

No caminho para cá, perguntei a muita gente como era Palbathos, entretanto tudo o que recebi em resposta foi que era ‘uma cidade grande’ com um ‘castelo magnífico’ e outros clichês típicos de capital. Ninguém me contou um pouco da história do lugar ou a origem do seu nome. Não que a maioria das pessoas se importasse com esse tipo de coisa, mas ainda assim.

“É enooorme!” Ran exclamou, olhando para o lugar.

Eu já tinha visto várias cidades com castelos nas terras do interior, e esta estava no mesmo nível.

No portão, passamos pelo procedimento de entrada, que na verdade se resumia a pagar um pedágio. E logo em seguida, estávamos do outro lado, observando a cidade se expandir diante de nós.

Provavelmente como medida de segurança contra invasões, as ruas e os prédios não eram dispostos em linhas retas, o que dificultava a visão a longa distância. Ao redor do centro da cidade, bem distante, havia uma muralha um andar mais alta que a que a cercava, e por cima dela, podíamos ver as torres dos castelos.

“Bem...” falei com Ran enquanto caminhávamos pelo que parecia ser uma área de entretenimento. “Parece que conseguimos. Qual é o seu plano agora, Ran? Como mencionei antes, temos algumas coisas para investigar aqui.” esperava que ela ficasse por perto e me ensinasse um pouco mais sobre a escrita local, porém não ia insistir.

“Hmm...” Ran fingiu estar pensando. “Estou só dando uma volta, e vocês são ótimos para encontrar restaurantes incríveis, então seria legal ficarmos juntos por mais um tempo. Contudo não sei se posso ajudar com o que vocês estão investigando... Ah, já sei. Vamos reservar uma pousada juntos, vou conhecer os pontos turísticos e depois vemos o que acontece. Que tal?”

“Seria ótimo!” respondi.

“Incrível! Ah, Nissy Lina, como está sua investigação?”

“Hmm... Boa pergunta.”

No caminho para cá, é claro, conversei com muita gente sobre as várias nações e rotas da região. Sabia que se ouvisse falar de um país com um enorme deserto intransponível ao norte, saberia exatamente do que se tratava, no entanto...

Embora houvesse rumores, eles eram em grande parte contraditórios, e era evidente que havia muita informação errada circulando. Entretanto, aprendi uma coisa com tudo isso: se perguntasse sobre um conjunto específico de condições (como um país com um deserto intransponível), as pessoas pelo menos poderiam me dizer se algo assim existia por perto. E o fato de não ter acontecido me indicava que não existia.

Esperava obter informações mais confiáveis ​​aqui na capital, todavia, fosse na igreja, com os magos da corte, na biblioteca... Se apenas entrasse sem bater em qualquer um desses lugares, eles me barrariam na porta. Isso me deixou com apenas uma opção.

“Consegui uma carta de apresentação do capitão da guarda de outra cidade para entregar a alguém da guarda daqui. Achei que deveria começar por eles.”

Dito isso, peguei a carta de apresentação e a examinei.

Era um pergaminho rústico, selado com cera, escrito com o nome do Capitão Bronco e endereçado ao que parecia ser o “Capitão Morgan, Chefe da Quarta Divisão de Palbathos”.

———

“Diria que agora estou a par de tudo.”

Suas primeiras palavras me disseram o que estava acontecendo... E que a situação não era boa.

Perguntei por aí na cidade e logo descobri onde ficava a base da Quarta Divisão. Então, fui até lá e entreguei a carta, dizendo que queria fazer algumas perguntas. Me fizeram sentar e esperar um pouco em uma sala simples no posto da guarda. Parecia mais uma sala de interrogatório do que uma sala de visitas, mas não estava em posição de escolher.

Depois de algum tempo, por fim um homem chamado Morgan, um loiro bonito de meia-idade, veio e se apresentou. Ele se sentou, e essa foi a primeira coisa que disse. Resumindo, sabia o que eu queria, porém se concederia ou não era outra questão... Essa era a impressão que me passava.

“Bronco e eu nos conhecemos há muito tempo. Eu o conheço bem o suficiente, mas...” ele olhou para a carta de apresentação em suas mãos. “‘A Senhora Lina é uma maga muito poderosa, então, por favor, seja gentil com ela. E espero que use esta incrível descoberta da minha parte para me considerar para uma promoção’, diz a carta.”

Broncoooo! Tentando usar a situação para se dar bem, né? Não que as pessoas não devam ser ambiciosas, porém me poupe!

O Capitão Morgan olhou direto nos olhos por um momento.

“E me pediu para ser gentil, contudo o que exatamente você quer?”

“Informações.” respondi. “Nós dois embarcamos em um barco em um país distante chamado Zephilia, naufragamos e viemos parar aqui.”

“O quê? Nós fizemos isso?” quem gritou em resposta à minha história foi Gourry... Espera.

Não falei que essa seria nossa fachada? Realmente queria gritar isso no seu ouvido, no entanto tive que manter a calma na frente do Capitão Morgan.

“Hmm? Parece que é novidade para o seu companheiro.” disse Morgan, desconfiado.

Respondi em um tom muito sério.

“O choque do incidente fez com que sua memória ficasse... Confusa.”

“Confusa? Não perdida?” perguntou Morgan.

Respondi com frieza.

“Esse foi o termo que o doutor usou.”


“Entendo... Então é isso, né? Aha. Imagino que esteja procurando emprego e um lugar para ficar, então?”

“Não. Estou procurando um jeito de voltar para casa.” respondi. “Acho que não há estradas ou rotas marítimas que posso usar para chegar lá, mas ainda quero tentar encontrar algo. Só preciso te perguntar uma coisa, existe algum país ao norte que faça fronteira com um grande deserto?”

“Hmm... Um deserto ao norte, hein?” o Capitão Morgan pensou por um instante. “Eu mesmo não faço ideia, porém alguns dos estudiosos e oficiais podem saber. Mesmo assim, não tenho certeza de quão receptivos eles seriam. Diz na carta que você ‘eliminou um grupo de bandidos com um feitiço de fogo incrível’, contudo... Embora sejamos gratos por sua ajuda em livrar nosso país dos bandidos que o assolam, não acho que seja suficiente para convencer nossos estudiosos e oficiais locais a oferecerem sua ajuda. Então... Estaria disposta a nos ajudar primeiro, para provar do que é capaz? Em alguns dias, embarcaremos em uma missão em colaboração com os Cavaleiros da Lança Prateada. Devido à escassez de pessoal, eles tiveram que pedir a divisões como a nossa que se juntassem. Se for tão poderosa quanto Bronco afirma, acho que poderia ser muito útil para nós.”

“Se isso for sobre declarar guerra aos seus vizinhos, terei que recusar. Não quero me envolver em nada que possa dificultar minha partida mais tarde.”

“Não se preocupem. Não estamos lutando contra humanos.” um pequeno sorriso surgiu no rosto de Morgan. “Estamos enfrentando o que chamamos de... O Lorde das Trevas do Norte.”

...

“O quê?” meu grito repentino ecoou pela sala.

———

Resumindo... Derrotei o Lorde das Trevas do Norte.

“O quê?”

“Espera!”

“O quê?”

Esses gritos de espanto vieram do Capitão Morgan, dos figurões dos Cavaleiros da Lança Prateada e de todos os outros presentes. Ignorei suas reações enquanto investigava a área, mantendo Gourry por perto para qualquer surpresa de última hora.

Dois dias depois de partirmos de Palbathos, nos deparamos com uma fortaleza decadente na floresta. Chamavam-na de fortaleza do Lorde das Trevas do Norte.

Você talvez já tenha percebido, no entanto esse “Lorde das Trevas do Norte” do qual o Capitão Morgan e os outros falaram não era o que conhecíamos. Ouvir o nome me causou um choque inicial, entretanto logo percebi a natureza do mal-entendido.

Veja bem, nosso Lorde das Trevas do Norte era um fragmento do Lorde das Trevas Shabranigdu, que destruiu Aqualord durante a Guerra das Encarnações, mil anos atrás, e agora jazia selado no gelo nas Montanhas Katart. Todavia o povo das terras exteriores, que havia sido isolado das terras interiores pouco antes da Guerra das Encarnações, não tinha como saber sobre esse Lorde das Trevas do Norte, visto que sequer existia até os últimos dias da guerra.

Portanto, era seguro presumir que o que o Capitão Morgan e companhia chamavam de ‘Lorde das Trevas do Norte’ era, na verdade, algum ser com poderes mágicos que vivia ao norte da capital. E, de fato...

“Parece que o feiticeiro errou o ritual e acabou configurando seu círculo para invocação automático.” eu disse depois de examinar o grande círculo mágico que encontramos no chão de uma câmara nas profundezas da fortaleza.

A escrita do feitiço no círculo havia sido feita de forma incorreta, fazendo com que acumulasse poder mágico do ambiente ao longo do tempo e se ativasse sempre que atingisse um certo nível. Também avistei um esqueleto vestido com vestes de conjurador no canto da sala. Deve ter sofrido algum tipo de acidente... Ou talvez tenha encontrado seu fim quando perdeu o controle de uma de suas criaturas. Um recado para as crianças em casa: invocar demônios não é só diversão e jogos!

Então, sim, a coisa que o Capitão Morgan e sua tripulação chamavam de ‘Lorde das Trevas do Norte’ acabou sendo um único demônio de bronze invocado. Uma presa fácil comparada aos mazokus puros com os quais já me envolvi no passado, embora não o considerasse exatamente bucha de canhão. Você poderia derrotá-los com armas comuns, no entanto eles tinham uma pele resistente, eram fortes e podiam usar feitiços de ataque.

Os lacaios do demônio de bronze... Ou, suponho, apenas outras criaturas invocadas junto com ele... Consistiam em cerca de dez demônios inferiores que rondavam a fortaleza. Demônios inferiores eram mais fracos que demônios de bronze em quase todos os aspectos, então um grupo padrão de espadachins poderia lidar com eles, desde que soubesse o que estava enfrentando. Por infelicidade, o povo das terras exteriores parecia não ter ideia de feitiços de ataque, então devem ter perdido várias levas de homens para as magias desconhecidas dos demônios.

Como resultado, apelidaram esse inimigo sinistro de Lorde das Trevas do Norte.

No caminho para a fortaleza, conversei com os cavaleiros e guardas. A partir daí, deduzi que os chamados Cavaleiros da Lança Prateada haviam recebido ordens para matar o demônio... E estavam arrastando a Quarta Divisão para usá-la como bucha de canhão. Então, sabendo que suas vidas estavam em risco, o Capitão Morgan pediu a mim e a Gourry que liderássemos o ataque. Entretanto, embora nós dois soubéssemos que demônios podiam ser perigosos, também já estávamos bastante acostumados a lutar contra eles. Depois de matar o demônio de bronze no final, destruímos o círculo de invocação ainda ativo, e foi tudo. Acabamos com todos tão rápido que nem vejo necessidade de entrar em detalhes.

Para o Capitão Morgan e os cavaleiros, porém, tudo provavelmente parecia coisa de lenda. Os cavaleiros cercaram a fortaleza à distância, calculando com o máximo de cuidado o melhor momento para atacar... Enquanto isso, dois andarilhos que enviaram para atrair fogo entraram lá e varreram os monstros num instante.

“Q-Quem são vocês?” Morgan grasnou depois de enfim recuperar os sentidos. “Você derrotou aqueles demônios... E o Lorde das Trevas do Norte... Cada um com um único golpe!”

“Bem, sim.” dei de ombros. “Bronco disse que eu era poderosa, não disse?”

Na minha opinião, sentia que tinha demonstrado muita contenção ao não explodir a fortaleza inteira à vista. Acho que, do ponto de vista dos habitantes das terras exteriores, que eram bastante ingênuos em relação à magia, minha grande variedade de feitiços de ataque era muito incomum. Quer dizer, Gourry tinha matado muito mais demônios do que eu, mas meus feitiços deviam ser muito mais chamativos, porque era óbvio que acabei recebendo a maior parte da atenção.

O Capitão Morgan me encarou, atônito.

“Bem, para ser honesto, não dei muita importância à sua carta... Contudo agora vejo que você é ainda mais incrível do que ele disse!”

“Ora, obrigada! Agora, sobre aquela informação que procuro...” pisquei para ele.

E a multidão ficou ali parada, olhando para mim em choque.

———

Tapeçarias ricamente coloridas. Uma mesa de madeira maciça, esculpida de forma primorosa. Um sofá luxuoso feito do couro mais fino.

“Bem... Permitam-me começar agradecendo oficialmente a vocês, Senhora Lina e Mestre Gourry, pela ajuda na destruição do Lorde das Trevas do Norte outro dia!” disse o Capitão Morgan, enquanto nos convidava a sentar.

Dois dias após nosso retorno a Palbathos, nós dois fomos convocados pelo Capitão Morgan não para o quartel na cidade, mas para um prédio dentro do próprio complexo do castelo. Toda a cidade era cercada por uma muralha, e o castelo em seu centro era circundado por uma ainda mais alta. E quando os soldados vieram nos buscar na estalagem, foi para lá que nos levaram.

Atravessamos um portão na muralha do castelo, cruzamos um grande pátio que parecia um campo de treinamento, entramos em algum prédio e nos encontramos em uma câmara no final de um corredor não muito longo. Era uma sala de reuniões adequada... Um grande avanço em relação à sala de interrogatório em que nos colocaram no posto da guarda.

O Capitão Morgan não era o único presente. No canto direito da sala, por cima do ombro esquerdo de Morgan, estava sentado um homem de meia-idade com um manto índigo bordado com fios de ouro. Soldados armados estavam de cada lado dele, bem como de cada lado das duas portas da sala.

O Capitão Morgan continuou sem apresentar o homem de manto.

“Você fez um trabalho maravilhoso derrotando aqueles demônios problemáticos. Os Cavaleiros da Lança Prateada também falaram muito bem a seu respeito.”

“Obrigada!” comecei com um sorriso amigável no rosto. “Porém é um pequeno preço a pagar para receber as informações que pedi.” disse, tomando a iniciativa.

Nesse momento, o rosto do Capitão Morgan ficou rígido.

“Na verdade, sobre isso...” seus olhos se voltaram para a mesa. “Fiz o meu melhor, contudo receio não ter conseguido descobrir muita coisa. Claro, a investigação ainda está em andamento, no entanto precisamos examinar os pergaminhos antigos, e talvez leve algum tempo para encontrarmos uma resposta. Enquanto isso, tenho certeza de que é inconveniente para vocês ficarem em uma estalagem. Preparamos uma acomodação adequada para ambos.”

“Agradecemos a gentileza.” respondi, com um inocente tom de voz, levantando-me da cadeira. Gourry se juntou a mim. “Entretanto não gostaríamos de incomodar, então acho que vamos seguir em frente.”

“Por favor!” o Capitão Morgan se levantou da cadeira em pânico. “Espere um minuto! Há algo insatisfatório?”

“Oh, é claro que não. Só estava pensando que não seria educado incomodá-los mais. E também não tenho certeza se posso ficar parada aqui, então acho que vamos continuar nossa busca. Até logo!” declarei, me virei e voltei para a porta por onde tínhamos entrado.

Enquanto seguia para a saída, os dois guardas que estavam ali se moveram para bloquear a porta.

Aha. Como imaginei.

Parei e me virei de volta.

“Capitão Morgan, se o senhor não precisou mandar os soldados bloquearem nosso caminho, significa...” eu disse com um sorriso radiante. “Que é justo o que parece, não é?”

No instante em que pronunciei essas palavras, ouvi um gemido seguido por dois baques no chão.

“Lina!” chamou Gourry.

“Já vou!” virei-me para a porta e a vi aberta, com o grandalhão ao lado de dois soldados caídos. Naturalmente, ele os havia derrubado enquanto todos os olhares estavam fixos em mim... Exatamente como havíamos combinado. Para um espadachim de sua habilidade, foi uma tarefa fácil.

“O quê?” vozes chocadas ecoaram pela sala ao nosso redor, mas...

“Até mais!” com isso, Gourry e eu saímos correndo!

“N-Não os deixem escapar!” alguém gritou da sala um instante depois. Não reconheci a voz. Suponho que devia ser o homem de manto.

“Tem certeza, Lina?” Gourry perguntou enquanto estávamos correndo pelo corredor.

“Certeza absoluta!” respondi.

Esperava que isso acontecesse. Não que eu quisesse, veja bem.

Eis o resumo do que provavelmente aconteceu. O Capitão Morgan... Ou melhor, o Reino de Luzilte, decidiu não me deixar partir. Ele e os cavaleiros espalharam a notícia de todos os feitiços que usei para derrotar o demônio de bronze, e alguém no poder decidiu que me manter por perto para aumentar o poder mágico da nação era uma ótima ideia. Se eu pudesse ensinar a algumas centenas ou alguns milhares de soldados feitiços ofensivos capazes de matar demônios inferiores, afinal, seria um exército formidável. Por outro lado, se me recusasse...

Fweeeeet! Um assobio agudo ecoou pelo corredor.

Em resposta ao som, dois soldados apareceram à frente e desembainharam suas espadas ao nos avistarem! Enquanto isso, Gourry começou a avançar ainda mais rápido. Decidi deixar os soldados com ele. Nesse meio tempo, olhei por cima do ombro e vi os guardas saindo da sala de reuniões em perseguição.

Contudo já esperava que viessem. Assim que Gourry e eu chegamos ao corredor, comecei a entoar um feitiço, e ele estava quase pronto! Coloquei minha mão direita na parede e entoei as palavras de poder!

“Van Layl!”

Vinhas de gelo brotaram da minha mão, deslizando pelo chão e pelo teto! E no momento em que alcançaram os soldados que nos perseguiam...

Zing! Os homens congelaram instantaneamente com um som audível, parando-os no meio do caminho e bloqueando o corredor. Dado que estavam usando armadura, é bem provável que sobreviveriam, embora um pouco congelados.

Depois de me certificar de que estava resolvido, voltei meu olhar para o corredor à frente e descobri que Gourry já havia derrotado os outros dois soldados. Como não estava olhando, não podia dizer ao certo o que tinha feito, no entanto, considerando que não havia sangue, os homens deviam seguir vivos.

Continuamos correndo direto para fora.

“Que pena para vocês.” esperando por nós no campo de treinamento entre o prédio e a muralha, havia um grupo de soldados de armadura. Reconheci o homem no meio que nos chamou, era o comandante dos Cavaleiros da Lança Prateada. “Se vocês tivessem concordado em ajudar nosso reino, poderíamos ter sido aliados formidáveis. Todavia, Senhora Lina... Você é simplesmente forte demais. Se seu poder caísse nas mãos de outra terra, poderia se tornar uma ameaça contra nós. Devo impedi-la a qualquer custo.”

Sim, lá estava. O reino havia decidido que, se não pudessem ter a mim e meu poder mágico incrível, ninguém mais poderia.

Na verdade, já esperava por algo desse tipo e havia elaborado um plano básico com Gourry com antecedência. Claro, tinha esperança de que eles cumpririam a palavra, me dariam as informações que pedi e me deixariam seguir meu caminho... Entretanto, no segundo em que entramos naquela sala de reuniões, percebi que era uma ilusão. Ficou claro que haviam decidido usar uma estratégia de captura ou morte.

Veja bem, aqueles caras na reunião... Não pareciam exatamente hostis, só que havia uma certa tensão palpável ao seu redor. Havia uma chance de eu estar sendo cautelosa demais, então decidi ouvi-los. E grandes bandeiras amarelas como ‘não sabemos quanto tempo vai levar’ e ‘preparamos uma casa para vocês’ ficaram vermelhas quando os guardas bloquearam nossa saída sem que precisassem mandar.

Isso significava que eles haviam recebido as ordens com antecedência: Não os deixem escapar, custe o que custar.

De jeito nenhum vou desistir de voltar para casa para me estabelecer neste país como um dos seus peões. Se fizesse isso, acabariam me separando do Gourry para me desencorajarem a ir embora, e perderíamos contato. E mesmo que ajudasse a ensinar magia ao reino, depois de cumprir minha parte, ainda poderiam me matar só para garantir que nunca me voltasse contra eles. Se quem quer que estivesse orquestrando toda essa confusão fosse esperto o suficiente, meu destino estaria selado. Em outras palavras, minha única chance de liberdade era fugir agora.

O comandante dos cavaleiros desembainhou sua espada com um som metálico e frio.

“Eu realmente lamento... Me perdoe.” sua lâmina brilhou à luz do sol, prateada com um toque de verde. “Vi seus poderes, Senhora Lina. Sei que não há nada que possa fazer se me aproximar o suficiente de você. Então, contemple... Minha herança de família, a espada mágica Huelgwilem!”

Hmm, tá bom... Engoli um gemido involuntário e comecei a entoar um feitiço.

“Agora...” o cavaleiro se preparou. “Não me subestime, criança!” ele rugiu enquanto corria em nossa direção, a espada em sua mão reluzindo!

Ao mesmo tempo, Gourry avançou sem cerimônia e desembainhou sua espada. Então, sem emitir qualquer som... A espada do cavaleiro foi partida perto do cabo. A lâmina voou pelo ar e atingiu o chão com um tilintar.

Gourry não a quebrou. Ele a cortou completamente.

“O quê?”

E enquanto o comandante olhava em choque... Thunk! Gourry o atingiu na nuca com o cabo da espada. O golpe, certeiro na abertura entre o elmo e a armadura, nocauteou o comandante.

É... Devia ter previsto que acabaria assim.

Não que o comandante fosse ruim ou algo assim. Sua esgrima era bem impressionante, na verdade. Mas... O cara não tinha a menor chance contra um espadachim ultratalentoso como Gourry. Habilidade à parte, Gourry empunhava a lendária Espada Explosiva, que absorvia o poder mágico próximo para aumentar seu próprio fio. Podia até matar mazokus puros.

E se o comandante estivesse falando a verdade, sua espada também era mágica. Em outras palavras, no momento em que suas lâminas se chocaram, a espada do comandante apenas alimentou o encantamento da Espada Explosiva. O resultado era inevitável. A única maneira de o comandante sair vitorioso seria eliminar Gourry antes mesmo de suas lâminas se cruzarem. Porém, dada a habilidade de Gourry, esse cenário era altamente improvável.

Tivemos sorte de não nos pedirem para entregar nossas armas ao entrarmos no complexo do castelo. Talvez tenham decidido que não adiantaria muito contra uma conjuradora como eu e que ficariam bem se apenas permanecessem em guarda. É claro que, se tivessem nos pedido para nos desarmarmos, teríamos saído na hora.

Ver seu capitão derrotado num piscar de olhos provocou uma onda de hesitação entre os soldados reunidos. Apesar de que não fugiram. Apenas concentraram suas tropas ao redor do portão.

Nesse meio tempo, me aproximei de uma parte da muralha que os soldados não estavam guardando, com Gourry a reboque. Claro, não havia porta ali, no entanto coloquei minhas mãos contra ela e...

“Onda Explosiva!”

Crash! A muralha ao redor das minhas mãos explodiu com um estrondo enorme! Onda Explosiva era uma magia que pulverizava qualquer coisa que tocasse com as duas mãos. Os resultados exatos dependiam do material, entretanto conseguia abrir um buraco do tamanho de um humano até mesmo em muralhas de castelo, se as condições fossem ideais.

De lá, nós dois fugimos para a cidade.

“É melhor irmos, Gourry!”

“Para onde? Para onde vamos?”

“Para o norte, é claro!” falei enquanto corríamos para frente. É bem provável já houvesse guardas de plantão na nossa estalagem. Teríamos que dar o fora sem parar lá. Eu havia deixado algumas coisas lá, mas, prevendo a possibilidade dessa confusão toda, mantive meu dinheiro de viagem e a maioria dos meus itens importantes comigo.

Fweeeeet! Fweeeeet! Conseguia ouvir assobios por todos os lados. Pensei em lançar alguns feitiços explosivos para trás, para atrasar nossos perseguidores e bloquear a estrada, porém teria de correr o risco de ferir também os inocentes.

Nesse caso... Recitei um feitiço enquanto corria.

“Visão Frang!”

Kwshhh! Com intensidade audível, uma névoa densa se formou ao meu redor.

“O quê?”

“O que está acontecendo?”

“Wah!”

Conseguia ouvir gritos de surpresa dos transeuntes, embora o feitiço que lancei fosse apenas uma cortina de fumaça. Esperava que me perdoassem por isso. Ainda assim, atrapalharia os soldados, que seriam forçados a diminuir o passo, cautelosos com as armadilhas. E enquanto o fizessem, nós desapareceríamos!

“Lina!”

“O quê?”

“Você sabe o caminho para fora?”

“Acho que podemos só correr em frente e resolver isso depois!”

Na verdade, aquilo acabou sendo uma péssima ideia. Depois de corrermos por ruas sinuosas e aleatórias, logo nos vimos em um beco sem saída.

Claro. Afinal, a capital era uma cidade-castelo. As ruas eram propositalmente sinuosas para impedir invasões inimigas.

“Lina!”

“Cala a boca!”

“Eu não ia reclamar. Só estava me perguntando por que não podemos usar seu feitiço de voo.”

“Hmm!” resmunguei. Tinha considerado a possibilidade, contudo se voássemos sobre os telhados em plena luz do dia, só chamaríamos atenção para nós mesmos, o que era o oposto do que precisávamos agora. “Vamos correr por enquanto!”

“Não entendi, mas tudo bem!”

Nos viramos e voltamos pela rua até chegarmos a uma bifurcação, onde pegamos o caminho que não tínhamos escolhido antes. A cidade foi projetada para repelir invasões inimigas, no entanto não podiam torná-la muito inconveniente para as pessoas que moravam lá. Seguindo meus instintos, corri para o lado que parecia mais promissor.

Ao sairmos correndo de um beco para uma rua larga, demos de cara com um grupo de sete ou oito soldados! Droga! Eles também estão aqui?

“Achei!” gritaram enquanto desembainhavam suas lâminas. Não tinha obrigação de mostrar misericórdia a ninguém que tentasse me matar, porém esses caras estavam apenas fazendo o seu trabalho. Eles não tinham muita escolha a não ser seguir ordens. Esperava poupá-los, embora fosse difícil me conter contra tantos...

Um soldado perto da retaguarda do grupo tirou um apito do bolso, levou-o à boca e... Antes que pudesse soprar, uma figura desceu! Whomp! A cabeça do soldado com o apito na boca chacoalhou de forma anormal e caiu no mesmo lugar. Quanto ao seu atacante, que acabara de pular de um telhado como um gato...

“Ran?”

“E aí, Nissy Lina!”

A emboscada inesperada lançou uma nova onda de incerteza sobre os soldados. Instintivamente, olharam na direção de Ran e... Foi quando Gourry fez sua investida! Alguns dos homens mantiveram os olhos em Ran, e os outros voltaram sua atenção para Gourry.

“Explosão de Cinzas!” gritei, capturando em seguida a atenção amedrontada de todos.

Na verdade, não entoei nenhum feitiço. Apenas gritei as palavras. Contudo se os soldados soubessem que sou uma feiticeira capaz de usar magia ofensiva, ainda mais se algum estivesse presente enquanto eu dizimava demônios inferiores e de bronze com Explosões de Cinzas durante toda a missão do Lorde das Trevas do Norte, era natural que essa ameaça os assustasse terrivelmente.

E aquele momento de distração foi tudo o que Gourry e Ran precisavam!

Nocautear os soldados restantes não demorou nada. Gourry usava golpes no corpo e com a empunhadura da espada, enquanto Ran usava as mãos e seu cajado rústico. Ela não havia mencionado nada sobre ser do tipo lutadora, no entanto parecia mais do que capaz.

Mesmo assim, não era hora de ficar sentada admirando-a em ação. Tínhamos lidado com os soldados à nossa frente, todavia seguia sendo de dia e havia muitas testemunhas. E para os cidadãos cumpridores da lei da cidade, sem dúvida parecíamos os vilões naquele momento. Era só uma questão de tempo até que nos denunciassem. Não podíamos ficar lá por muito tempo!

No momento em que saí correndo, Gourry... E Ran, por algum motivo... Me seguiram. Falei em um tom bastante repreensivo enquanto ela corria ao meu lado.

“O que você está fazendo?”

“Essa é a minha fala!”

“Justo! Os militares daqui queriam explorar minha habilidade de conjurar feitiços, então tive que fugir, e aqui estamos! Então por que se juntou a nós?”

Estávamos fazendo nossas próprias coisas durante o dia, mas nos hospedávamos na mesma pousada para tomar café da manhã e jantar juntos. Tinha a impressão de que Ran estava mais passeando, porém...

“Estava passando por perto quando vi você e Rostir Gourry sendo atacados por bandidos! Então fiquei brava e os ataquei, e descobri que eram soldados!”

“Que loucura!”

“É assim que eu sou!”

“Então pare de ser assim!”

“Hehehe! Ouço isso direto.”

“Então escute pelo menos uma vez!”

Não queria envolvê-la, contudo agora que estava envolvida, não podia só mandá-la se afastar. Ran estava hospedada na pousada conosco, compartilhando refeições conosco, e agora a viram espancando soldados conosco. Não tinha como escapar dessa. Se a deixássemos na cidade, com certeza acabaria em maus lençóis.

“Acho que vamos fugir juntos!”

“É isso aí!”

“Por que está tão feliz? Enfim, esteve andando pela cidade todos os dias, não é? Pode nos guiar até a muralha externa? Não precisa ter portão!”

“Quer ir para uma muralha sem portão?”

“Vamos arrombá-la!”

“Pode deixar!”

Sei que não sou a pessoa mais indicada para falar, no entanto tem algo de errado com alguém que ouve ‘vamos arrombar uma muralha’ e responde ‘pode deixar’.

Enfim... Foi assim que eu, Gourry e Ran acabamos como fugitivos.

***

Link para o índice de capítulos: Slayers

Para aqueles que puderem e quiserem apoiar a tradução do blog, temos agora uma conta do PIX.

Chave PIXmylittleworldofsecrets@outlook.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário